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terça-feira, 18 de agosto de 2026

É a Podridão, Meu Velho (25)

Sou um velho.
Inda ontem,
Anteontem,
Completei 59 anos.
E não!
Definitivamente, não :
Os 60 não são os novos 40,
Seus canalhas!
Nunca foram,
Sempre serão os velhos 60.
Sou um velho.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Este Texto, Um Cravo-de-Defunto

Uma terra só é bom e profícuo útero se também abastado cemitério. Uma terra só pode emprenhar-se de vida se ejaculada pela morte. Um novo gérmen, um novo embrião, nutre-se às expensas dos restos mortais decompostos daqueles que lhe preexistiram; dos seus nutrientes, de seus minerais, quiçá de suas esperanças de serem imortais, que um dia tiveram.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

O Voo do Infra-Homem

Mesmo antes de Ícaro, já era um clichê. O Mito de Ícaro foi tão-somente o clichê de impressão do clichê : asquelmintos que somos, uma das grandes aspirações do Homem sempre foi a de ganhar os céus, os ares.

sexta-feira, 14 de abril de 2023

É a Podridão, Meu Velho (23)

Igualmente 
Ao carro vermelho,
Pilotado, 
Em outrora,
Por quem não usava espelho pra se pentear, 
E hoje carcaça,
Também sou carcaça.
Seco, oco, estéril, baldio.

sábado, 13 de agosto de 2022

Nem Agonia Nem Êxtase

A primeira pessoa a desconfiar de que eu não fosse bom da cabeça foi a minha mãe. Houve uma época da minha infância em que, nas férias escolares de fim de ano, duas visitas me eram obrigatórias : ao dentista e ao neurologista.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

É a Podridão, Meu Velho (20)

- O que procuras, velho?
Me pergunta a Madrugada,
Me tirando do semissono,
Do cochilar na cadeira em minha sacada,
Quase me fazendo derrubar a caneca de cerveja.
- Procuro ver uma estrela cadente, há tempos que não vejo tais vagalumes siderais.
- Mentira, velho!
Diz a Madrugada.
- Procuro por inspiração, ideias para um novo texto, um novo conto, um novo poema... para mudar de profissão.
- Mentira, velho!
- Procuro a tranquilidade e a clareza da falta de luz, o ronronar dos decibéis, o trânsito sem buzinas e semáforos dos gatos vadios.
- Mentira, velho!
- O que procuro, me dizes, pois?
- Não procuras por cometas, por ovnis, por embriões de livros, por novos rumos nem pelo sorriso dos gatos de Alice.
- Procuro pelo quê, então, já que és tão sábia e cheia de si?
- Procuras, velho, por uma nova paixão!
- E se for? E caso seja?
- Vá dormir, velho! Não perca o seu tempo, que é tão pouco; nem o meu, que é infinito.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

É a Podridão, Meu Velho (19)

21:18 h.
O Sol ainda tenta pegar no sono
Nesses tempos de horário de verão
(tomou um rivotril, o Sol, e espera seus efeitos).
Já se abate
E faz ninho sobre mim
O cansaço e o desnorteio
De como se três ou quatro horas da madrugada fossem.

E pensar que eu,
Que hoje só atendo
Só respondo
Só me ponho em movimento
Mediante ao toque do clarim do rádio-relógio-despertador
(nunca sintonizei única estação nele),
Até há não muito tempo,
Até há bem dizer
Ontem,
Só era atraído à rua
Pela luz da lua portátil e de 1.000 watts do Comissário Gordon.

E pensar que eu,
Até há não muito tempo
Até há bem dizer
Ontem,
Só ia me deitar
Na hora em que hoje acordo.

sábado, 27 de outubro de 2018

É a Podridão, Meu Velho (18)

Os meus heróis não morreram de overdose,
Meus heróis sempre foram caretas.
Envelheceram e embarrigaram, os meus heróis,
Estão vivos e sorriem de gengivas murchas, os meus heróis.
Só não são mais meus heróis
(Heróis que não morrem deixam de ser heróis).
Recebem pensão do INSS, os meus heróis.
E, vez ou outra,
Fazem "bico" de seguranças no campeonato de sinuca do boteco da esquina,
A troco de cerveja e de salsichão em conserva.
E não sentem a menor saudade dos capuzes e das capas, os meus heróis.

sábado, 6 de outubro de 2018

É a Podridão, Meu Velho (17)

A Estrela d'Alva,
Que no céu desponta?
A alfa de Centauro?
O irascível e sanguíneo Ares?
Um teco-teco em pane?
Uma coruja com olhos de led?
Um morcego com restos secos de neon nos cantos da boca,
Sugado das bundas de pirilampos de programa?
Um balão metereológico?
Quiçá, um de São João?
(olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindo, olha praquele balão multicor, como no céu vai subindo)
Um disco voador?
Uma parideira nave-mãe?

Nada!

Provável e certamente
Só um embaçamento da visão,
Só um borrão luminoso,
Filho de uma catarata que se anuncia.
(não há mistérios, segredos, poesia, mitologias e contatos extraterrestres do terceiro grau na senescência; o Universo não se interessa nem encena strip-teases para a decrepitude)

sábado, 24 de fevereiro de 2018

É a Podridão, Meu Velho (16)

Quando o médico
Comunicou-lhe as notícias de sua em breve Morte,
Ele não se sentiu
Um desempregado da Vida,
Um demitido pela Existência em aviso prévio.
(não perguntou por tratamentos, não enviou currículos, não requereu FGTS, não entrou na Justiça do Trabalho contra deus)

Sentiu-se um aposentado,
Um desobrigado da Vida,
Alguém que já contribuíra com seu tempo de faina
E recolhera,
holerite a holerite,
Sua previdência de alegrias e sofrimentos,
De êxitos e de broxadas.

Não chorou.
Nem se (pré)ocupou
Em redigir uma carta de despedida,
Em lavrar testamento e inventário em cartórios e tabeliões,
Em deixar mala e passaporte prontos para a viagem.

Tinha tido organização demais em Vida;
Desorganizou-se para a sua Morte.

Jogou seus cabides ao chão,
Desempoleirou seus livros da estante,
Desnorteou seus LPs de sua ordem alfabética,
Alforriou e expulsou
Velhas fotos, escritos e lembranças agrilhoados em suas gavetas,
Como quem abre a porta da gaiola e põe a voar o cativo pássaro azul.

Vestiu sua camiseta mais furada e cinza,
Sua bermuda mais gasta e de zíper quebrado,
Seu chinelo de dedos de tiras soltas.
Nem penteou os dentes
Nem escovou os cabelos
E se sentou num buteco.
Pediu da boa e da barata pro Betinho
E ali se ficou. 
Se ficou e se enficou na esquina.
Se ficou a prestar atenção
Nos outros bebuns do bar,
Nos jogadores de sinuca,
No cão vira-latas a desafiar o trânsito,
Na mãe a ralhar com o filho de volta da escola,
Nos sacos de lixo postos às calçadas,
Na saia da moça que passa,
No bem-te-vi que fez o ninho no transformador do poste de iluminação pública,
No mamoeiro que brotou de dentro de um bueiro,
No velho que sai com uma sacolinha de remédios da farmácia,
Na gata de três cores que salta pelo muro e some de suas vistas.

Se ficou a atentar, enfim,
À vida que resolveu não mais lhe prestar atenção,
Pôr-lhe para escanteio.
Resolveu que era muito melhor olhar para a Vida
Quando ela não olhava mais para ele.
Sorriu
E relaxou.

domingo, 12 de março de 2017

É a Podridão, Meu Velho (15)

Todos os meus inimigos me venceram.
Nenhum, porém,
Em confronto direto;
Nenhum, porém, 
Como um macho das antigas,
Como um macho de respeito.
À minha sinceridade peçonhenta,
Revidaram com indiferença, pouco caso e sonsice;
Aos meus rosnados hidrofóbicos, com sorrisos fingidos e amarelos, de meia boca, ortodônticos;
Às minhas bravatas, provocações e cusparadas, com condescendência, hipocrisia e tapinhas nas costas.

Todos os meus inimigos me venceram.
Nenhum, porém,
Em um duelo de espadas à sombra de um carvalho medieval,
Ou em um de pistolas fumegantes ao pôr-do-sol em uma cidade-fantasma do velho oeste,
Ou em um de baionetas caladas na calada da noite em uma trincheira alemã;
Nenhum, porém,
Em um ringue de boxe num porão de paredes gotejantes,
Sem luvas, sem protetor bucal,
Sem interrupções de round,
Sem redenção pelo gongo.

Pelo cansaço!
Todos meus inimigos me venceram pelo cansaço.

Em suma, o que sou,
Em re-sumo, o sumo que sobrou :
Um velho cansado,
Cansado de ser vencido pelo cansaço.

(sorte, a dos super-heróis, de poderem quebrar os ossos de seus inimigos e transformar suas caras em massas sangrentas, ou de serem desossados e abandonados, pacotes disformes de carne, no chão fedendo a urina de um beco escuro)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

É a Podridão, Meu Velho (14)

Não é má vontade
Das juntas e das articulações
(alavancas de Arquimedes que, com adequado apoio ou propósito, são capazes de mover o mundo)
Nem do estômago
(que sempre foi de avestruz)
Ou das retinas e dos tímpanos
(que, é verdade, nunca gostaram mesmo do que veem e ouvem, mas, não obstante, sempre foram funcionários públicos exemplares, sempre assinaram o ponto e realizaram a contento suas burocráticas funções).

Não é prevaricação
Do coração - esse valente por falta de opção
Nem dos rins - esses incontinentes
Nem do fígado - esse beberrão
Nem do pau - esse inconstante
Ou da memória - esse arquivo morto sabendo à naftalina.

A preguiça
É a da alma.
Desinteressada do corpo.

domingo, 27 de novembro de 2016

É a Podridão, Meu Velho (13)

Baixei
E ouvi 
Dias desses :
(1) o novo CD do Zeca Baleiro
(2) das Velhas Virgens
(3) do Paulo Ricardo
- do Chico, nem mais procuro saber.

(1) Pálido
(2) Esquálido
(3) Inválido.

Bom ver
(ou não)
Que não sou só eu 
Que não escrevo mais merda nenhuma que preste.

Bom ver
Que não é só meu espelho
Que me assusta
Que tem erosões
Que me atraiçoa
(farto de mim)
Que me diz
Que Branca de Neve é mais bela do que eu.

Bom ver
Que não foi só o meu retrato de Dorian Gray
Que craquelou
Que desbotou
Que não consegue mais esconder a farsa
A falsificação
(nem o mais chinfrim dos peritos reconhece minha autenticidade)
Que amarelou
(que amarelei) 
Que não sou Fausto sozinho
Que não consegue ser mais
Mumificação
Embalsamento
Creolina
Formol
Do meu desmoronamento,
Da minha implosão
Da minha decepção,
Da minha podridão, 
Meu velho.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

É a Podridão, Meu Velho (12)

É quando
As folhas das sete-copas
São almas penadas invernais
Amarelas
Vermelho-roxas
Marrons
Fantasmas descarnados de clorofila.

É quando
Os abraço sepultos
(e nunca visitados no Dia de Finados, para os quais nunca foram levados crisântemos)
Se espreguiçam
E abandonam
- miasmas brotados do esterco, fogos-fátuos sem luz -
As gavetas fechadas
As cartas empacotadas e amarradas com barbante
Os diários cifrados :
Deixam o quarto e a casa desabitada.

É quando
O que dói
É não reviver os velhos sofrimentos,
É quando
Não são as lembranças que doem :
Sim, a amnésia.
Isso sem dizer
Dos tendões,
Dos dentes,
Do baço...

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

É a Podridão, Meu Velho (11)

E olha que eu trapaceei,
Dormi a tarde inteira
Para que a madrugada pensasse
Que ainda sou viril.
E olha que rondei a cidade
A me procurar.
E olha que pus o arado de diamante na vitrola
Para reaerar e adubar
Os sulcos dos velhos vinis
(Pus Chico, pus Nélson, pus Ney, pus Adoniran, pus Raul, pus o Rei).
E olha que escavei as velhas gavetas
As velhas cartas
As velhas fotografias
Reli os velhos gibis.
E olha que tomei rum
Puta que o pariu se tomei rum!!!
O meu superamendoim,
O meu espinafre,
O meu soro do supersoldado,
A minha picada de aranha radiativa,
A minha explosão gama,
O meu mjolnir.
E nada dos ossos soldarem,
Das asas reinflarem.
E olha que eu esperei,
Parado,
Pregado na pedra do porto...
E nada do meu galeão-fantasma,
Do meu holandês voador
Atracar.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

É a Podridão, Meu Velho (10)

As avenidas: 
Cada vez mais largas; 
Os carros: 
Cada vez mais rápidos; 
E eu: 
Cada vez mais velho.  

As avenidas: 
De correntezas cada vez mais turbulentas 
E margens distantes; 
Os carros: 
De motores cada vez mais anabolizados 
E velocímetros vorazes; 
E eu: 
De reflexos cada vez menos valorosos 
E chumbo nos passos.  

Isso tudo, 
Junto, 
Algum dia, 
Ainda vai dar uma coisa muito errada.