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segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

O Voo do Infra-Homem

Mesmo antes de Ícaro, já era um clichê. O Mito de Ícaro foi tão-somente o clichê de impressão do clichê : asquelmintos que somos, uma das grandes aspirações do Homem sempre foi a de ganhar os céus, os ares.

sexta-feira, 14 de abril de 2023

É a Podridão, Meu Velho (23)

Igualmente 
Ao carro vermelho,
Pilotado, 
Em outrora,
Por quem não usava espelho pra se pentear, 
E hoje carcaça,
Também sou carcaça.
Seco, oco, estéril, baldio.

sábado, 13 de agosto de 2022

Nem Agonia Nem Êxtase

A primeira pessoa a desconfiar de que eu não fosse bom da cabeça foi a minha mãe. Houve uma época da minha infância em que, nas férias escolares de fim de ano, duas visitas me eram obrigatórias : ao dentista e ao neurologista.
Por várias vezes, tive minha atividade cerebral mapeada em eletroencefalogramas na esperança de ser encontrado algum distúrbio ou alguma anomalia que explicasse o meu comportamento, tido como estranho pelos meus pais. Nunca foi detectado nada que fosse motivo de alarme. Afinal, existem muitos mais mistérios entre a minha mente e um aparelho de EEG do que pode supor a vã medicina.
Lembro de tomado, durante um tempo, antes de dormir, um quarto de um comprimidinho amarelo, do tempo em que comprimidos vinham em vidros de cor âmbar (e não em cartelas de plástico bolha) e protegidos por um chumaço de algodão. Não me lembro o nome do comprimido nem a que ele se destinava, em que ele, supostamente, iria me ajudar; ou aos meus pais. Mas foi por pouco tempo. A partir de uma certa idade, meus pais deixaram de tocar na questão. Vai ver, deram-me como um caso perdido.
A segunda pessoa a recomendar que eu procurasse um médico de loucos foi uma ex-namorada. Eu contava com 32, 33 anos, e talvez devesse tê-la ouvido na época. Dizia com propriedade, com conhecimento de causa. Era tarja preta diagnosticada.
Preocupava-a a minha amargura frente ao mundo e as minhas oscilações de humor, que poderiam ser originárias de algum distúrbio ou transtorno, segundo ela. Por meu lado, eu pensava (e ainda penso) que algum distúrbio sério ou grave alteração neurológica ou psiquiátrica deveria ter quem vive feliz e sorridente o tempo todo, haja vista o mundo em que vivemos. E que meus defeitos eram o que de melhor eu trazia em mim - e continuo pensando.
Diante de minhas evasivas em me consultar com um terapeuta que pudesse me prescrever um "regulador de humor", volta e meia, presenteava-me com uns calmantes faixas brancas, uns fitoterápicos, geralmente à base de passiflora, a flor da paixão, o famoso maracujá. Amiúde, levava-me um frasco de Maracugina, que recomendava que eu tomasse com um pouco de leite morno. Ela virava as costas e eu tomava com vodka. Ficava bom.
Em relação a esse tipo de droga, que nos ajuda a suportar melhor a realidade, que deixa o mundo mais tolerável aos nossos olhos, sempre vivi num dilema : o mundo - esse mundinho de merda e de merdas - merece que eu me dope, que eu me drogue por causa dele? Ou : o mundo - esse mundinho de merda e de merdas - merece que eu me consuma, que eu me exaspere ao enfrentá-lo sóbrio, de cara limpa?
Durante toda a minha vida me ative à negativa da primeira questão. Mesmo porque suporto melhor que a maioria certos quadros de tristeza, depressão, insônia, anedonia. Nasci deprimido. Nasci quebrado.
Meu pai gostava muito de nos fotografar quando em crianças. Viagens, aniversários, reuniões de família. Ele guarda, muito bem guardados, até hoje, dezenas de álbuns de fotografias. Desafio alguém a fuçar por entre as centenas de fotos e me encontrar sorrindo em alguma delas. Inclusive, houve época em que acho que era meio moda fazer pôsters dos filhos e pendurá-los pela casa. Até hoje, o meu está exposto numa parede do apartamento onde meus pais moram. Eu devia ter uns sete ou oito anos nele. Tal pôster, para explicá-lo melhor, deu origem ao poema A Criança do Pôster.
Mas o mundo é o mundo. Tem todo o tempo do mundo. Age sem pressa e sempre dá um jeito de nos enquadrar, de fazer-nos pagar a desajuizada língua.
Depois de 55 anos, resolvi experimentar a negativa à segunda questão do meu dilema : não, esse mundinho de merda e de merdas não merece que eu mais me consuma ao enfrentá-lo sóbrio. Pedi arrego. Não exatamente ao mundo. Mas a mim mesmo. Mereço, pelo menos, tentar um descanso de mim. 
Por recomendação de uma colega de profissão, procurei um neurologista com quem ela se trata, e que a libertou do infames tarjas pretas do psiquiatra, que a deixavam meio fora do ar o dia todo.
Em vinte e poucos minutos de conversa, o nada surpreendente diagnóstico : depressão profunda e ansiedade. E isso porque, no dia da consulta, eu estava num dia bom, apenas a relatar e a fingir a dor que deveras sinto. Se eu estivesse num dia dos brabos, ele teria recomendado internação imediata.
Até aí, nada que eu não soubesse. Se tem alguém que sabe exatamente o que se passa na minha cabeça, esse cara sou eu. Não preciso de nenhum especialista para me entender. Preciso deles para que me receitem remédios. E também sei a cura para o meu mal. Mudar de profissão. Parar de ter contato com a ruína moral em que se transformou grande parcela da sociedade tupiniquim. Sei a cura. Mas ela não é viável. Então, o paliativo.
Receitou-me dois remédios. Pela manhã, o succinato de desvenlafaxina, que, de acordo com a bula, é indicado "para tratamento do transtorno depressivo maior (TDM, estado de profunda e persistente infelicidade ou tristeza acompanhado de uma perda completa do interesse pelas atividades diárias normais)".  Ao fim da tarde, o divalproato de sódio, para estabilizar meu humor, segundo o que o neurologista me disse em seu consultório. A bula é menos eufemística : "Divalproato de sódio é destinado para o tratamento de episódios de mania associados com transtornos afetivos bipolares".
Tenho-os tomado há 10 dias e, apesar dele ter me dito que os efeitos seriam sensíveis depois de 20 dias a um mês, creio que já os percebo em mim.
Aquele aperto a queimar o peito desapareceu. Não que eu me sinta maravilhosamente bem, mas não me sinto profundamente mal. Ânimo para realizar minhas tarefas diárias ainda não apareceu (se é que vai), mas realizá-las não tem me afligido tanto.
Tenho comido bem menos. Não me vem mais aquela voracidade, sobretudo à noite, de me entupir do que eu achasse pela frente. Mesmo a vontade/necessidade da cerveja passou, não bebi (e nem poderia junto a essa medicação) e nem senti falta da cerveja nesses dez dias, até agora.
Aporrinho-me menos, mas também meus raros lampejos de animação sumiram. Hoje é sábado. Geralmente, entre sexta-feira depois do almoço até sábado à noite estou em melhor estado de humor, animado para regar meus cactos e suculentas, para ouvir minhas músicas. Não que eu esteja mal agora, mas hoje ser sábado parece não diferir de ser uma terça,  uma quarta etc.
Pelo jeito, os remédios são uma espécie de giroscópio de humor e de estado de ânimo, não deixam que eles saiam de uma reta traçada, nem para mais nem para menos. São nobreaks, mantêm nossa voltagem constante. Nem vales nem picos de emoção.
Nem agonia nem êxtase.
A libido, que já era pouca, foi-se de vez. Não bastasse torto, agora morto. E querem saber? Acho que os remédios funcionam, mesmo. Porque eu não estou nem ligando.

segunda-feira, 25 de julho de 2022

É a Podridão, Meu Velho (21)

Doença de Peyronie : 
Pau duro,
Mas torto,
Penso.

Desgaste ósseo da mandíbula :
Pré-molar inferior esquerdo
Saudável, sem cáries,
Mas bêbado,
Pênsil.

Penso :
É a podridão, meu velho...
É a podridão...

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

É a Podridão, Meu Velho (20)

- O que procuras, velho?
Me pergunta a Madrugada,
Me tirando do semissono,
Do cochilar na cadeira em minha sacada,
Quase me fazendo derrubar a caneca de cerveja.
- Procuro ver uma estrela cadente, há tempos que não vejo tais vagalumes siderais.
- Mentira, velho!
Diz a Madrugada.
- Procuro por inspiração, ideias para um novo texto, um novo conto, um novo poema... para mudar de profissão.
- Mentira, velho!
- Procuro a tranquilidade e a clareza da falta de luz, o ronronar dos decibéis, o trânsito sem buzinas e semáforos dos gatos vadios.
- Mentira, velho!
- O que procuro, me dizes, pois?
- Não procuras por cometas, por ovnis, por embriões de livros, por novos rumos nem pelo sorriso dos gatos de Alice.
- Procuro pelo quê, então, já que és tão sábia e cheia de si?
- Procuras, velho, por uma nova paixão!
- E se for? E caso seja?
- Vá dormir, velho! Não perca o seu tempo, que é tão pouco; nem o meu, que é infinito.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

É a Podridão, Meu Velho (19)

21:18 h.
O Sol ainda tenta pegar no sono
Nesses tempos de horário de verão
(tomou um rivotril, o Sol, e espera seus efeitos).
Já se abate
E faz ninho sobre mim
O cansaço e o desnorteio
De como se três ou quatro horas da madrugada fossem.

E pensar que eu,
Que hoje só atendo
Só respondo
Só me ponho em movimento
Mediante ao toque do clarim do rádio-relógio-despertador
(nunca sintonizei única estação nele),
Até há não muito tempo,
Até há bem dizer
Ontem,
Só era atraído à rua
Pela luz da lua portátil e de 1.000 watts do Comissário Gordon.

E pensar que eu,
Até há não muito tempo
Até há bem dizer
Ontem,
Só ia me deitar
Na hora em que hoje acordo.

sábado, 27 de outubro de 2018

É a Podridão, Meu Velho (18)

Os meus heróis não morreram de overdose,
Meus heróis sempre foram caretas.
Envelheceram e embarrigaram, os meus heróis,
Estão vivos e sorriem de gengivas murchas, os meus heróis.
Só não são mais meus heróis
(Heróis que não morrem deixam de ser heróis).
Recebem pensão do INSS, os meus heróis.
E, vez ou outra,
Fazem "bico" de seguranças no campeonato de sinuca do boteco da esquina,
A troco de cerveja e de salsichão em conserva.
E não sentem a menor saudade dos capuzes e das capas, os meus heróis.

sábado, 6 de outubro de 2018

É a Podridão, Meu Velho (17)

A Estrela d'Alva,
Que no céu desponta?
A alfa de Centauro?
O irascível e sanguíneo Ares?
Um teco-teco em pane?
Uma coruja com olhos de led?
Um morcego com restos secos de neon nos cantos da boca,
Sugado das bundas de pirilampos de programa?
Um balão metereológico?
Quiçá, um de São João?
(olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindo, olha praquele balão multicor, como no céu vai subindo)
Um disco voador?
Uma parideira nave-mãe?

Nada!

Provável e certamente
Só um embaçamento da visão,
Só um borrão luminoso,
Filho de uma catarata que se anuncia.
(não há mistérios, segredos, poesia, mitologias e contatos extraterrestres do terceiro grau na senescência; o Universo não se interessa nem encena strip-teases para a decrepitude)

sábado, 24 de fevereiro de 2018

É a Podridão, Meu Velho (16)

Quando o médico
Comunicou-lhe as notícias de sua em breve Morte,
Ele não se sentiu
Um desempregado da Vida,
Um demitido pela Existência em aviso prévio.
(não perguntou por tratamentos, não enviou currículos, não requereu FGTS, não entrou na Justiça do Trabalho contra deus)

Sentiu-se um aposentado,
Um desobrigado da Vida,
Alguém que já contribuíra com seu tempo de faina
E recolhera,
holerite a holerite,
Sua previdência de alegrias e sofrimentos,
De êxitos e de broxadas.

Não chorou.
Nem se (pré)ocupou
Em redigir uma carta de despedida,
Em lavrar testamento e inventário em cartórios e tabeliões,
Em deixar mala e passaporte prontos para a viagem.

Tinha tido organização demais em Vida;
Desorganizou-se para a sua Morte.

Jogou seus cabides ao chão,
Desempoleirou seus livros da estante,
Desnorteou seus LPs de sua ordem alfabética,
Alforriou e expulsou
Velhas fotos, escritos e lembranças agrilhoados em suas gavetas,
Como quem abre a porta da gaiola e põe a voar o cativo pássaro azul.

Vestiu sua camiseta mais furada e cinza,
Sua bermuda mais gasta e de zíper quebrado,
Seu chinelo de dedos de tiras soltas.
Nem penteou os dentes
Nem escovou os cabelos
E se sentou num buteco.
Pediu da boa e da barata pro Betinho
E ali se ficou. 
Se ficou e se enficou na esquina.
Se ficou a prestar atenção
Nos outros bebuns do bar,
Nos jogadores de sinuca,
No cão vira-latas a desafiar o trânsito,
Na mãe a ralhar com o filho de volta da escola,
Nos sacos de lixo postos às calçadas,
Na saia da moça que passa,
No bem-te-vi que fez o ninho no transformador do poste de iluminação pública,
No mamoeiro que brotou de dentro de um bueiro,
No velho que sai com uma sacolinha de remédios da farmácia,
Na gata de três cores que salta pelo muro e some de suas vistas.

Se ficou a atentar, enfim,
À vida que resolveu não mais lhe prestar atenção,
Pôr-lhe para escanteio.
Resolveu que era muito melhor olhar para a Vida
Quando ela não olhava mais para ele.
Sorriu
E relaxou.

domingo, 12 de março de 2017

É a Podridão, Meu Velho (15)

Todos os meus inimigos me venceram.
Nenhum, porém,
Em confronto direto;
Nenhum, porém, 
Como um macho das antigas,
Como um macho de respeito.
À minha sinceridade peçonhenta,
Revidaram com indiferença, pouco caso e sonsice;
Aos meus rosnados hidrofóbicos, com sorrisos fingidos e amarelos, de meia boca, ortodônticos;
Às minhas bravatas, provocações e cusparadas, com condescendência, hipocrisia e tapinhas nas costas.

Todos os meus inimigos me venceram.
Nenhum, porém,
Em um duelo de espadas à sombra de um carvalho medieval,
Ou em um de pistolas fumegantes ao pôr-do-sol em uma cidade-fantasma do velho oeste,
Ou em um de baionetas caladas na calada da noite em uma trincheira alemã;
Nenhum, porém,
Em um ringue de boxe num porão de paredes gotejantes,
Sem luvas, sem protetor bucal,
Sem interrupções de round,
Sem redenção pelo gongo.

Pelo cansaço!
Todos meus inimigos me venceram pelo cansaço.

Em suma, o que sou,
Em re-sumo, o sumo que sobrou :
Um velho cansado,
Cansado de ser vencido pelo cansaço.

(sorte, a dos super-heróis, de poderem quebrar os ossos de seus inimigos e transformar suas caras em massas sangrentas, ou de serem desossados e abandonados, pacotes disformes de carne, no chão fedendo a urina de um beco escuro)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

É a Podridão, Meu Velho (14)

Não é má vontade
Das juntas e das articulações
(alavancas de Arquimedes que, com adequado apoio ou propósito, são capazes de mover o mundo)
Nem do estômago
(que sempre foi de avestruz)
Ou das retinas e dos tímpanos
(que, é verdade, nunca gostaram mesmo do que veem e ouvem, mas, não obstante, sempre foram funcionários públicos exemplares, sempre assinaram o ponto e realizaram a contento suas burocráticas funções).

Não é prevaricação
Do coração - esse valente por falta de opção
Nem dos rins - esses incontinentes
Nem do fígado - esse beberrão
Nem do pau - esse inconstante
Ou da memória - esse arquivo morto sabendo à naftalina.

A preguiça
É a da alma.
Desinteressada do corpo.

domingo, 27 de novembro de 2016

É a Podridão, Meu Velho (13)

Baixei
E ouvi 
Dias desses :
(1) o novo CD do Zeca Baleiro
(2) das Velhas Virgens
(3) do Paulo Ricardo
- do Chico, nem mais procuro saber.

(1) Pálido
(2) Esquálido
(3) Inválido.

Bom ver
(ou não)
Que não sou só eu 
Que não escrevo mais merda nenhuma que preste.

Bom ver
Que não é só meu espelho
Que me assusta
Que tem erosões
Que me atraiçoa
(farto de mim)
Que me diz
Que Branca de Neve é mais bela do que eu.

Bom ver
Que não foi só o meu retrato de Dorian Gray
Que craquelou
Que desbotou
Que não consegue mais esconder a farsa
A falsificação
(nem o mais chinfrim dos peritos reconhece minha autenticidade)
Que amarelou
(que amarelei) 
Que não sou Fausto sozinho
Que não consegue ser mais
Mumificação
Embalsamento
Creolina
Formol
Do meu desmoronamento,
Da minha implosão
Da minha decepção,
Da minha podridão, 
Meu velho.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

É a Podridão, Meu Velho (12)

É quando
As folhas das sete-copas
São almas penadas invernais
Amarelas
Vermelho-roxas
Marrons
Fantasmas descarnados de clorofila.

É quando
Os abraço sepultos
(e nunca visitados no Dia de Finados, para os quais nunca foram levados crisântemos)
Se espreguiçam
E abandonam
- miasmas brotados do esterco, fogos-fátuos sem luz -
As gavetas fechadas
As cartas empacotadas e amarradas com barbante
Os diários cifrados :
Deixam o quarto e a casa desabitada.

É quando
O que dói
É não reviver os velhos sofrimentos,
É quando
Não são as lembranças que doem :
Sim, a amnésia.
Isso sem dizer
Dos tendões,
Dos dentes,
Do baço...

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

É a Podridão, Meu Velho (11)

E olha que eu trapaceei,
Dormi a tarde inteira
Para que a madrugada pensasse
Que ainda sou viril.
E olha que rondei a cidade
A me procurar.
E olha que pus o arado de diamante na vitrola
Para reaerar e adubar
Os sulcos dos velhos vinis
(Pus Chico, pus Nélson, pus Ney, pus Adoniran, pus Raul, pus o Rei).
E olha que escavei as velhas gavetas
As velhas cartas
As velhas fotografias
Reli os velhos gibis.
E olha que tomei rum
Puta que o pariu se tomei rum!!!
O meu superamendoim,
O meu espinafre,
O meu soro do supersoldado,
A minha picada de aranha radiativa,
A minha explosão gama,
O meu mjolnir.
E nada dos ossos soldarem,
Das asas reinflarem.
E olha que eu esperei,
Parado,
Pregado na pedra do porto...
E nada do meu galeão-fantasma,
Do meu holandês voador
Atracar.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

É a Podridão, Meu Velho (10)

As avenidas: 
Cada vez mais largas; 
Os carros: 
Cada vez mais rápidos; 
E eu: 
Cada vez mais velho.  

As avenidas: 
De correntezas cada vez mais turbulentas 
E margens distantes; 
Os carros: 
De motores cada vez mais anabolizados 
E velocímetros vorazes; 
E eu: 
De reflexos cada vez menos valorosos 
E chumbo nos passos.  

Isso tudo, 
Junto, 
Algum dia, 
Ainda vai dar uma coisa muito errada.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

É a Podridão, Meu Velho (9)

O bafio equatorial da noite,
Pegajoso e com notícias de coisas decompostas,
Feito veias esclerosadas
Ou manilhas de esgoto a céu aberto,
Traz à minha sacada,
Onde tento me livrar do lixo do dia
E ver se consigo umas duas ou três horas de sono ininterrupto,
O cheiro de mausoléus demolidos,
De trocas de pele que deixei pelo caminho,
Da exumação de lembranças
Para as quais
Há muito não acendo velas
Nem deposito vaso de crisântemos roxos.
Traz o odor de carne queimada,
De churrasco
- provavelmente do bar algumas quadras abaixo
que serve espetinhos na calçada -
E junto
As assombrações do tempo
Em que eu também me reunia com o bando em torno da fogueira.
Dou-lhes as costas.
Jogo fora minha agenda antiga
E meu álbum de formatura.
Traz acordes de rock
(Aerosmith, acredito, sempre fui péssimo com estrangeirismos musicais)
Como que saídos de distantes confins
E a mim chegado por um buraco negro de vinil
(na verdade, vem do quarto do vizinho da casa da frente),
Enchem o ambiente 
De fumaça
De bruma
E de torpor
Das noites passadas no Paulistânia.
Dou-lhes as costas.
Tiro o Raul da vitrola
E o devolvo ao seu sarcófago
Com capa e encarte originais.
Traz as risadas dos meus passos
Pelas madrugadas,
Pelas ruas vazias,
O farfalhar das asas de Mercúrio em meus velhos tênis.
Dou-lhes as costas.
Há muito depenei as asas em meus calcanhares
E lhes fiz em macio travesseiro
Para depositar e repousar meus pés,
Suas varizes, seus calos ósseos, suas tendinites.
Traz o cheiro da caça no cio.
Dou-lhe as costas.
Não me interessam mais
As cortes,
Os rituais,
As danças de acasalamento;
Nem o próprio acasalamento.
Tranquilizem-se e descansem
Pois
Do peso de suas armas,
Do controle dos holofotes,
Da coleiras de seus cães,
Os carcereiros.
Podem ir cochilar numa cela vazia
Ou jogar baralho no pátio da prisão.
Relaxem
Pois 
De suas poses e perfilamento de guardas do Palácio de Buckingham,
Oh, grades de minha cela.
Entreguem-se ao vício do oxigênio,
Oxidem,
Enferrujem sem remorsos.
Que a prisão mais Alcatraz,
Que os grilhões mais anti-Houdini
É a falta de vontade de querer fugir,
É recusar o indulto de Natal.
Sou um assum preto que fura os próprios olhos
Pra ver se assim canto melhor.
Ou choro menos.
Em tempo : o assum preto que fura os próprios olhos é referência a  uma das mais belas e tristes músicas de nosso cancioneiro, Assum Preto, de Luiz Gonzaga, que conta da antiga, comum e cruel prática de furar os olhos do pássaro preto para ele cantar melhor. Quem não conhece, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

É a Podridão, Meu Velho (8)

Água
(de conversa mole)
Em pedra erodida
E escaldada;
Café 
(para acordar),
Uma bomba de sódio em cada garfada
(para manter a fornalha em combustão)
E cerveja
(para dormir)
Em estômago ulcerado
E cérebro mutilado de guerra :
A Rotina fez a Poesia jogar a tolha;
O poeta, ao menos.
(não há nocautes na vida. é sempre a arrastada, exaustiva e degradante derrota por pontos, pelo cansaço, não pela falta de técnica ou de talento, pelo cansaço - o cansaço é o resumo de tudo. e sem aquelas gostosas passando com placas pelo ringue entre um round e outro).