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sábado, 3 de maio de 2025

Por Enquanto, Tá Tudo Bem

Grave, circunspecto; ranzinza, até e muitas vezes. Mas, preponderantemente, preocupado. Sempre. Permanentemente. Perenemente preocupado.
Na certa, para as pessoas que me são mais próximas, preocupado é o principal atributo que me confeririam caso fossem perguntadas sobre mim; o meu traço mais marcante e reconhecível que ressaltariam caso fossem convocadas a fazer um retratado falado de mim.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Um Dia na Vida (17)

Fatos : ele tem um serviço de merda; um salário de merda; está a ver soçobrar em desgostos toda a dedicação, toda a disposição, toda a empreita, toda a esperança empenhadas na boa formação, instrução e educação do filho (esperança... raramente, ele tem coragem de usar esta palavra, e sempre que o faz, ela continua com o status de substantivo que sempre teve : abstrato); nem o sono/sonho, este irmão mais piedoso da morte, acolhe-o.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Um Dia na Vida (15)

Dizem que quem muito fala, bom-dia dá a cavalo. Não sou de falar muito (a não ser comigo mesmo), ainda assim dou bom-dia não só a cavalo, igualmente a gato, cachorro, bem-te-vi, quaresmeira.

quarta-feira, 12 de abril de 2023

Um Dia na Vida (14)

Domingo de Páscoa. Retorno de um feriado passado na casa da sogra. Esposa a dirigir. Não tenho habilitação para conduzir veículos; aliás, para nada. Estrada sentido MG, SP.  100, 110 km/h. Algo tocando no rádio. 

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Um Dia na Vida (12)

Tenho Certidão de Nascimento. Um nome, o nome dos meus genitores, o dia e a hora do meu vir a furo para o mundo, o meu tamanho e peso na ocasião lavrados em cartório de gavetas mortas. Não tive opção de não tê-lo. Não pude decidir se eu queria ou não ter um nome.
Tenho batistério. Um documento afirmando que sou católico apostólico romano e temente a Deus. Não pude opinar se eu queria ou não ser batizado, apresentado a Deus. Conta minha mãe que eu chorei de me esgoelar durante todo o ritual. O possível protesto de quem não tinha palavras.
Tenho R.G., a carteira de identidade. Também não pude escolher se desejava ou não tê-lo. Também não fui perguntado se queria ou não "tocar piano" e deixar meu registro dactiloscópico na Secretaria de Segurança Pública. De uma idade em diante, você não é quem você diz, é uma foto 3 x 4 feia pra caralho.
Tenho CPF. Também não pude escolher me ocultar da Receita Federal.
Tenho Certificado de Reservista. Não foi me dada a escolha de, ao completar 18 anos, me apresentar ou não ao serviço militar mais próximo, ninguém me perguntou se eu queria ou não mostrar a rola pro médico do quartel.
Tenho Título de Eleitor. Também não fui consultado se queria ou não tirar o meu passaporte para a democracia. Inclusive, ninguém quis nem saber se me interessava ou não participar dessa democracia. A maior liberdade concedida é eu ser obrigado a ir votar e, na hora, dizer que não voto em ninguém. Expressão de liberdade que será mandada à merda. Uma vez que meu voto será declarado inválido e desconsiderado no cômputo geral.
Não tenho CNH. Não tenho a carteira que me habilita a conduzir veículos automotores. Não sei dirigir. Pude optar em não passar grande parte da minha vida preso em um útero metálico. Não deslizo sobre rodas. Troto sobre pés. Ando. Caminho pra todos os lugares e para tudo quanto é lado. 
Não fico com os olhos fixos no semáforo, no velocímetro, no medidor de combustível, nos radares. Vejo tudo o que as tênias dos automóveis não veem. Vejo as tilápias obesas a nadar no ribeirão raso e sujo. Vejo as lavadeiras-mascaradas, as garças-brancas, os corós-corós. Com sorte, até um arisco martim-pescador. Vejo a cicuta de Sócrates e o papiro do Egito vicejando nas suas margens cimentadas. A cicuta é prima-irmã do agrião. É a ovelha negra da família, ou, a depender do ponto de vista, o agrião que o é. Uma boa saladinha de cicuta a passar-se por agrião é uma boa pedida para se dar a um vegano chato e afrescalhado.
A caminho do trabalho há duas praças. Posso contorná-las pela rua ou atravessá-las, caminhar através delas. Gosto de caminhar através delas. Pela manhã, lá pelas seis da matina, elas mantêm ainda a temperatura da madrugada, a umidade, o silêncio, o verde sem fuligem.
Nesta época do ano, porém, estação de ar desidratado e solo sequioso, as praças se tornam terras devastadas, cenários de extinção; seus caminhos, tapetes de poeira e de folhas esfarelentas. Ruínas. Caminhar através delas, assim, é como caminhar por dentro de mim.
Abro a lata. Tomo o meu primeiro gole do dia. Contorno a praça pela rua.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Um Dia na Vida (11)

Sexta-feira. 05:52 h. Mal amanheceu, nesses dias já a flertarem com o inverno. O silêncio da manhã é eivado pelo barulho da emissão do gás carbônico liberado quando ele rompe o lacre do latão da cerveja.
Cedo demais para beber; o veredito unânime da moral rasteira e hipócrita do rebanho e dos bons costumes. Cedo para quem, cara-pálida? Um dos pontos da questão. Outro : ele não está bebendo, está comemorando. Ele poderia estar a soprar velinhas sobre um bolo enjoativo, ou a encher balões, ou a fazer churrasco com amigos; seria a mesma coisa, o mesmo conceito.
Prefere a cerveja : seu bolo, seus balões e os convidados de sua festa, todos juntos. E o único presente de que ele precisa.
Ao sair da passarela de concreto que o transpôs para a embocadura de uma praça malcuidada, ele dá o primeiro gole no latão. Levanta as vistas para o céu a enrubescer e o oferece ao primeiro raio de sol. Nem o sol, hoje, será capaz de tirá-lo do sério.
Ele conseguiu uma pausa de seu Inferno; não uma solução para ele, que essa não há, mas uma pausa de seu tormento, uma boa pausa, quase dois meses. Hoje, é o último dia de trabalho que a antecede.
Entorna, então, o latão com gosto. Uma velha, dessas que madrugam para lavar a calçada, a levar o seu cachorro afrescalhado para cagar na praça, o olha com severas reprovação e condenação. Não estivesse a levar a sua ratazana peluda pela coleira à sua mão direita, teria persignado-se, feito o pelo-sinal.
Ele ri, de canto de boca. Seu característico e quase que imperceptível orgasmo facial. E se lembra de um certo dr. House, que apostara, em certa feita, com seu amigo e grilo falante Wilson, que não era um viciado, que poderia tranquilamente passar uma semana sem o seu Vicodin, sem padecer de nenhum efeito de abstinência.
House, como macho das antigas que é, aguentou firme os sete dias da aposta, mas não sem passar por excruciantes martírios, tanto de ordem física como psicológica. Chegou a quebrar propositalmente os dedos da própria mão com o pistilo de um gral para que a dor da fratura se sobrepusesse à dor da abstinência. Findo o tempo da aposta, ele não teve outra opção que não fosse conceder a vitória a Wilson.
- Admito que sou um viciado -, disse ao amigo.
Wilson, inocente, puro e besta feito todo humanista, feito todo aquele que acredita no ser humano e na possibilidade de sua mudança e redenção, disparou o velho clichê :
- Bom, admitir que se tem um problema é o sempre o primeiro passo.
No que House :
- Eu admito que sou um viciado, não disse que isso é um problema.
Grande Gregory House, pensa ele. Entorna o resto do latão e o descarta, o deposita na forquilha de um oitizeiro plantado à beira do meio-fio.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Um Dia na Vida (10)

Ontem, bebi bem. Bem e bastante. A noite estava favorável. O estômago, também. Beber é uma questão de estômago. Poderia ter bebido mais. Nem eu nem a madrugada apresentávamos sinais de embriaguez ou de exaustão. Há tempos que não éramos umas crianças sem dores nas costas e nas articulações. Poderia ter bebido mais.
Achei, sem querer, um CD antigo há tempos desaparecido. Cento e noventa e três músicas, das mais variadas. De A a Z. De Adoniran Barbosa a Zeca Baleiro; de Altemar Dutra a Zeca Pagodinho; de Ataulfo Alves a Zizi Possi; de Amado Batista a Zélia Duncan; de Alcione a Zé Ramalho. Todas baixadas pelo e-mule; na internet pré banda larga.
Velhas canções são como Engov, boldo e outros colagogos. Forram-nos o estômago com kevlar. Pedem por mais bebida, por mais estrelas, por mais OVNIs, por mais meteoros, por mais gatos no cio, por mais sacis-pererês.
Podia ter bebido mais. Mas algum tipo de prudência, algum cri-cri-cri de um Grilo Falante, convenceu-me a deixar para depois o que eu poderia beber hoje.
07h12. Acordei sem ressaca. Quatro horas e 22 minutos de sono ininterrupto. Um recorde para os últimos anos. Eu dormi. Mas a boa chuva, não. Começara por volta das 20h do sábado, varou a madrugada e não dava sinais, pela manhã, de que fosse tão cedo embora. Chuva mansa, boa e prazenteira. Um cafuné no asfalto ressequido. Na cidade que não faz por merecê-lo.
08h43. A casa ainda a dormir, eu, a empunhar meu guarda-chuva, saí à rua. Comprar cerveja na loja de conveniência (R$ 2,09 o latão de Lokal) e limão, batata, tomate, pimentões e cebola no varejão; a esposa programara uma tilápia ao forno para o almoço.
Gosto de andar. Mais ainda sob a chuva. O ar limpo. As ruas limpas. As calçadas limpas. As frutas nos pés de acerola, pitanga, amora e goiaba, plantados nas calçadas, limpas. A fealdade da grande cidade bem que tenta, mas não consegue abafar esses pequenos sorrisos sumosos e ricos em vitamina C. Nem impetrar ação de despejo contra os sanhaços, os tejos, os gaturamos, os tuins.
Como de três a quatro acerolas; um pouco mais de pitangas; e, enfim, dois sóis amarelos e perfumados de um jambeiro, que teimavam em não amadurecer.
Comprei a cerveja; depois os acompanhamentos para a tilápia da esposa. À saída do hortifrúti, ainda chovia. Infiltrações nas paredes dos prédios, roupas a mofar nos varais, o Morro do Bosque em uma esmeraldina festa de musgos e de líquenes. Uma pantufa de neblina a me envolver. O oxigênio a nadar de snorkel no oceano de vapor d'água suspenso na atmosfera. Não abri o guarda-chuva. Rendi-me à golden shower da Mãe Natureza.
Na rua em declive, em cada um de seus lados, em cada uma das margens de seus meios-fios, a enxurrada criara regatos plácidos e de águas límpidas. Descalcei-me e me pus a andar por eles. Gravetos, folhas, papéis, por vezes, enroscavam-se nos meus pés, por entre os meus dedos. Fechei os olhos. Imaginei serem lambaris-de-rabo-vermelho.
Cupins alados, as chamadas "aleluias", seguiam-me e me escoltavam. Pequenas e encantadas morganas a dançar para mim o seu balé de acasalamento e de morte. 
Iria ser um bom domingo.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Um Dia na Vida (9)

05:23h da manhã. Ele sai da loja de conveniência com um latão de cerveja, o seu pão líquido de cada dia, e o vai tomando pelo caminho.
Só a dose elefantina de café - tomada em casa - não basta para ele encarar o nascer do novo mesmo dia e do mesmo velho sol, ambos plenos de estupidez.
O café o desperta; o álcool dá-lhe certa dose de conformismo para que possa seguir com o inútil porquê de ter despertado. O café bate; o álcool assopra.
Começa a atravessar a velha ponte metálica por sobre o rio emparedado pelos lados da avenida. À sua frente, quase ao meio da ponte, um sujeito de meia idade, semicalvo, de burguesa barriga e vestido como quem se encaminha para uma partida de tênis leva pelas coleiras dois simulacros de cachorros; numa das mãos do sujeito, um saquinho plástico a conter a merda recolhida por ele do chão de um dos cachorros, ou dos dois; um saquinho plástico, pelo jeitão do sujeito, biodegradável.
Saem, Ele e o sujeito, praticamente juntos da ponte e ficam lado a lado na calçada por alguns instantes, aguardando uma folga no fluxo do tráfego para atravessarem a rua.
O sujeito olha para Ele e nota a cerveja em sua mão.
- Já tomando uma? Tá animado, hein… começando cedo”, diz o sujeito, com um risinho de cu no canto de boca, num tom não de simples observação, sim de ironia barata, reprovação e pretensa superioridade moral; coisa de cara que tem o pinto pequeno.
- Pois é - diz Ele - eu, cinco e pouco da manhã, já tomando “uma”; você passeando com dois animais com caras de bobo, ainda que mais vivazes que a sua, que muito vagamente lembram dois cachorros e catando a merda que eles espalham pelo chão. De fato, nós dois temos sérios problemas.
Como também os têm, ele segue pensando em seu caminho, o velho viúvo que levantou às quatro da manhã para varrer e lavar a calçada; como também os têm os frequentadores matutinos das academias, correndo quilômetros em esteiras e, depois, indo de carro à padaria a alguns quarteirões de suas casas; como também os têm o catador de latinhas, a vasculhar as lixeiras de bares e restaurantes na esperança de que a noite tenha lhe deixado alguma gorjeta; como também os têm a velha de cabeleira desgrenhada e psicodélica que serve o café da manhã para o seu orfanato de gatos baldios; como também os têm a gorda que salta da van intermunicipal para ir passar o seu dia atrás do balcão de uma loja de tintas, a sua rotina sem nenhuma cor.
Só não os têm a puta. Alquebrada pelo duro expediente, abrindo e passando pelo estreito portão de ferro de acesso à casa de fundos em que mora. Que toma um banho, que faz uma ducha higiênica, que faz um gargarejo com antisséptico. Que vai dormir o justo sono dos injustiçados.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Um Dia na Vida (8)

Apenas dez ou doze alunos na sala (de aula? há sérias controvérsias). Contingências da pandemia chinesa. Dez ou doze alunos, apenas. Estudantes, nenhum.
Ele - padre tornado sem fé pela ímpia realidade - recita os mesmos salmos e versículos de uma bíblia escrita e sacramentada há séculos. E, há tanto tempo quanto, destituída de sentido e de verdade.
Três ou quatro alunos ainda lhe prestam atenção. Como quem assiste a um filme russo. Sem legendas. Os outros acarinham e masturbam os seus telefones celulares. Ele não tem mais forças para lhes proibir o uso e fazer com que os guardem. Já são os seus cérebros doentes e suas almas tristes.
Ele aproveita que está de máscara. E chora. Sobre os canteiros de ervilhas de Mendel. Quer voltar a ser piolhento e feliz macaco de Darwin.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Um Dia na Vida (7)

Meio-dia e poucos, o sol a pino providencialmente tirado de cena por um dia que resolveu se trajar de galena, o homem velho, com o seu brilho também nublado, porém, pelas décadas, vinha descendo a rua com uma sacola plástica quase transparente na mão, seu almoço acondicionado em um marmitex de isopor comprado ao restaurante da esquina.
Sessenta, sessenta e poucos, talvez; barba e cabelos de um branco que não há muito vencera e expulsara de vez o grisalho, bem aparados e penteados, compleição física ainda com memória recente de uma definida rigidez, barriga de um convexo comedido, não imoral, fora, provavelmente, um homem bonito quando jovem, diriam as más-línguas, fazendo-se de boas.
Aura de respeitabilidade, vinha descendo a rua, o homem velho, com seu almoço em direção ao seu carro estacionado sob uma espirradeira - nem de luxo nem popular, o carro; carmim, as flores da espirradeira. Semblante de uma vida estável e tranquila, o do homem velho, tanto economicamente quanto nas relações pessoais, ares de quem bem cumprira com a vida. Que aura de respeitabilidade, um bom carro, conforto financeiro e emocional e sensação do dever cumprido é o que a vida dá em troca pela juventude dos que a ela se resignaram e bem serviram. Feito empregador que, de uma hora pra outra, sem aviso prévio, passa a nos pagar em reais o que antes recebíamos em euros.
Ela vinha subindo a mesma rua, pela mesma calçada que o homem velho, vinte e poucos anos de idade, se muito, blusa com o nome de uma empresa de contabilidade bordado no lado esquerdo à altura do seio, apressada, seguramente em sua corrida hora de almoço, e com o indefectível e apaspalhador celular na mão, capa rosa com motivos florais.
Não exatamente bonita, ela; vê-se que nunca o fora nem nunca o será, porém, envolta por uma impossível de se ignorar aura de hormônios e de viço, naquela fase em que a Natureza, independente de ter acertado ou não no molde e no acabamento, torna suas fêmeas em um chamariz à reprodução.
O homem velho, já com a chave a abrir a porta do carro, viu a moça e estacou. O carro sumiu. Sumiram o peso do marmitex em sua mão, o pavimento da rua, o movimento do tráfego, os sons dos motores, das buzinas, dos cachorros, da obra em construção, as cores da espirradeira, das roupas, dos muros e das fachadas das casas, dos folhetos de propaganda abandonados ao chão, do céu. Sumiram o ar e a própria necessidade de respirar.
Ela atravessou para o outro lado da rua a alguns passos de cruzar com o homem velho. Notou-o tanto quanto à espirradeira, aos sacos de lixo depositados nas calçadas, aos buracos da rua, à enxurrada da chuva recém-finda a minguar, ao poste de iluminação pública, ao gato na varanda da casa a lamber o próprio cu, à mulher que varria as folhas da calçada.
Ela (para o homem velho) : a recondensação do Universo, uma nova singularidade prestes a parir o Big Bang;
O homem velho (para ela) : invisível.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Um Dia na Vida (6)

Sete da manhã e umas quirelas de minutos, 10, 12. Eu já em plena atividade, porém, ainda no piloto automático, operando por aparelhos. Apesar da cavalar dose de café (amargo) ingerida em casa e da outra, elefantina e melífera, tomada à chegada no trabalho, ainda sigo no piloto automático.
O que não é, como a expressão "piloto automático" geralmente dá a subentender, dado o meu entorno, ruim. O que, nesse caso, é bom : ao menos, sigo. Por rota trilhada há mais de 20 anos, por rumo, por instinto, por costume, cego, surdo e mudo, mas sigo.
Pior fica quando acaba o expediente do piloto automático e ele bate o seu cartão e vai para casa e o manche passa para o modo manual, para as minhas mãos. Quando tenho que seguir de olhos abertos pelo trem-fantasma.
Sete e algumas migalhas da manhã e eu falo para um amontoado de gente - 42 ou 43 num recinto que, dificilmente, supera os 50 metros quadrados. Falo da indigesta química da digestão humana. Falo da mastigação, da insalivação e da demolidora ptialina, que reduz, a golpes de marreta, o portentoso e esnobe amido a humildes maltases.
(Uns oito ou nove dormem debruçados sobre suas carteiras, sobre suas mochilas, seus agasalhos de moletom em travesseiros improvisados - ou internet até de madrugada, ou a maconha fumada à entrada da escola, ou puros desinteresse e desfaçatez, ou alguma verminose, sabe-se lá)
Falo do bolo alimentar escorregando pelo tobogã do esôfago e mergulhando na piscina de ácido clorídrico do estômago, dos tubarões de pepsina à espera, ávidos por desmembrar e esquartejar desavisadas proteínas.
(Uns 15 ou 20 começam, então - resolvem, então -, a abrir suas mochilas e a buscar pelo material da aula - uns oito ou dez, percebo, percebem que não o trouxeram, e se juntam ao time dos hibernantes) 
Falo do bolo alimentar, agora chamado quimo, escalavrado pelo ácido, seguindo caminho pelos subterrâneos, pelas catacumbas e fossos do duodeno, pelos seus alçapões e arapucas, pela sua flora carnívora, sôfrega por gordos, roliços e suculentos lipídios.
(Uns seis ou sete, dominados pelo vício, se arriscam no uso de seus telefones celulares, pecado dos mais mortais que alguém pode cometer dentro de meus domínios, em meu ecossistema - são repreendidos duramente, resmungam algo em inútil protesto e também se juntam à turma dos sonolentos)
Falo, finalmente, do bolo alimentar, agora fecal, sugado e subtraído de toda sua alma química, seguindo pelo túnel do intestino grosso rumo à luz.
(Não mais que meia dúzia chega ao fim da jornada, junto comigo e com o bolo fecal. Não mais que meia dúzia manteve olhos e ouvidos atentos a mim o tempo todo. E quantos desses tinham também o cérebro atento por detrás de seus olhos e ouvidos vidrados? Quantos realmente absorveram algum nutriente de conhecimento? Quantos não saíram do jeito que entraram, desnutridos, anêmicos e anoréxicos de saber?)
Não obstante, alheia e indiferente a quaisquer dramas ou frustrações prosaicos e comezinhos, a merda continua a ser feita.
Tranquilamente.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Um Dia na Vida (5)

Nada como uma proposta irrecusável ao fim de mais um dia de trabalho, rotineiro e repetitivo. Para nos animar. Para inflar, feito pó Royal, o nosso ego.
Quando vou - e volto - do trabalho, e quem lê regularmente o Marreta sabe que cubro a pé os quase 5 km de percurso, quase que uma légua tirana, passo pelo centro velho da cidade e por sua famosa baixada. Cruzo, inclusive, o cansado, porém, persistente, rio que deu nome ao município, e cujas margens nada plácidas ouvem o brado dissonante e ensurdecedor dos veículos, dos latidos dos cachorros vadios, do chamado dos vendedores ambulantes. 
As mesmas margens abrigam a horrenda rodoviária - a mais feia que eu já vi até hoje -, o charmoso Mercadão Municipal, perfumado por seus queijos a curar, suas pimentas em conserva, especiarias in natura, fumo de rolo etc (se você conseguir abstrair e ignorar as pessoas que por ele circulam, é um bom lugar para se visitar e comer seu enorme pastel de carne seca) e, lógico, como em toda baixada que se preze, a clássica ZBM, a zona do baixo meretrício. Quase uma dezena de bares destinados ao entretenimento adulto se concentram em três de seus quarteirões ribeirinhos. No piso superior dos bares, ou por detrás de portas laterais a eles, que se abrem para longos corredores, estreitos e escuros e ponteados por inúmeros aposentos, estão os abatedouros, o suadouros, os quartos da furunfa. Encimando uma dessas portas, há uma plaqueta, de fundo preto e letras cor de bronze, onde se pode ler : residência familiar. Tá certo. É tudo puta de família. Puta também tem família, ora porra.
Quando passo na ida para o trabalho, por volta das 06 e 30 h, já tem um cara, o balconista de um dos bares, lavando o chão e arrumando as mesas. Quando retorno, por volta das 13 h, o funcionamento da ZBM já está a todo vapor. De vento em popa. Em popas, em grandes, gordas e flácidas popas. Todas tomando um ar, arejando as partes, mal cobertas por saias residuais; nem saias são, são abajures de perereca.
Acredito que o seleto ambiente comece as suas funções entre oito e nove horas da manhã. Abre mais cedo que praça de alimentação de shopping center. E tem lá a sua lógica, afinal, não deixa de ser uma espécie de fast food. O cara tá à toa, de bobeira, passa lá rapidinho e curte um McLanche Feliz. É o drive-thru da buceta.
E se pensam que as meninas ficam se oferecendo de forma ostensiva, que ficam cercando e laçando clientes nas calçadas, estão muito enganados. São muito respeitosas para com os passantes, orgulhosas, até. Sentam-se às entradas dos bares e ficam na delas, fumando um cigarrinho, tomando uma cervejinha em copo americano Nadir Figueiredo, ouvindo músicas de desilusões amorosas, Odair José, Amado Batista e outros que tais. Só se manifestam se forem requisitadas.
Tanto que já passei por ali milhares de vezes (e não exagero nos números, faço esse caminho há 13 anos, ida e volta, todos os chamados dias úteis, que, para mim, são os mais perdidos) e raras foram as vezes em que fui abordado, em que me ofereceram seus préstimos. Mesmo quando eu também lecionava à noite e passava pela baixada na, digamos assim, hora do rush.
Aí, ontem, havia uma a se exibir na calçada por onde eu estava a passar. Idade que julguei próxima dos cinquenta anos, mas que, dado o desgaste da profissão, possa se revelar em torno dos trinta. Pele de um moreno escuro e avermelhado, uma provável, ainda que distante, ascendência indígena, reforçada pelos cabelos pretos e lisos. E gorda. Gorda que não era pouca coisa. Tinha umas três barrigas, uma a se dobrar e a se sobrepor à outra, um prédio de três andares de banha. Peitos empacotados e comprimidos pela blusa colante amarela, e que, livres dela, escorreriam até o umbigo, oculto pela banha. Estava com as costas à parede do bar, uma perna esticada a lhe servir de arrimo e a outra dobrada, com o pé na parede. E mordiscava e degustava sensualmente - garanto que é verdade, que não estou inventando nada - um enorme salsichão. Um salsichão mesmo, de verdade, sem nenhuma metáfora. Daqueles salsichões em conserva que ficam boiando em enormes potes de vidro nos balcões, aqueles que, geralmente, ficam ao lado do pote dos ovos coloridos.
Quando passei por ela, para a minha surpresa, ela, sem tirar o salsichão da boca, mandou na lata : - vamu metê?
Vamu metê... Pãããããããta que o pariu!!!
Tamanhos foram o tesão e a volúpia que me tomaram de assalto frente a tanta elegância, sutileza e finesse, sem dizer da beleza e da formosura, que foi difícil me conter. Ainda assim, agradeci-lhe a oferta e segui caminho.
Vamu metê...
É mole? É. E, depois dessa, ficou mais mole ainda!

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Um Dia na Vida (4)

Seis e vinte, seis e meia da manhã. Em pé, encostada ao pilar da cobertura da parada de ônibus, alheia ao grasnar dos carros e das conversas à sua volta, alheia aos bafios e às cusparadas de monóxido de carbono que transformam sua manhã num fog fuliginoso e cianótico, ela saboreia o único luxo de sua vida, o único prazer de seu dia, um pão de queijo com café de coador comprados ao ambulante.
Luxo secreto e perigoso, que, se de conhecimento de seu marido, valeria-lhe graves agressões; verbais, num dia de sorte, mas há tempos ela não tem um dia desses, de sorte. Luxo cujo valor, somado pelo ambulante ao fim do mês, representa enorme desfalque, irrecuperável rombo à contabilidade de seu lar, um golpe de misericórida, um tiro na testa de seu agonizante e em coma orçamento doméstico.
E é a única coisa que macula esse seu furtivo e fugaz prazer, lembrar do marido. O marido sempre estraga seu prazer, de uma forma ou de outra. Hoje, a lembrança do marido se faz ainda mais viva, pelo cheiro dele que perspira de sua buceta e lhe atinge as narinas. Apesar de muito cedo, o calor já se faz dono do dia e ela teve que andar um bom pedaço para chegar à parada de ônibus. O calor do dia mais o atrito das roupas a fazem suar e a envolvem com as emanações cheirando a água sanitária do marido, cercam-na com os fantasmas e os miasmas vigilantes e acusadores dele.
Ontem, ele a usou à hora de se deitarem. Como a usa em todos os dias, quase que invariavelmente. Como faz quase que invariavelmente, ele lhe separou rudemente os joelhos, deitou-se sem nenhum cuidado sobre ela, deu uma escarrada na palma da mão - e o seu cuspe estava escasso; bebera mais que o habitual -, passou na cabeça do pau e meteu. Entrou meio que dobrado, meio que meia bomba, mas entrou e ganhou tônus dentro dela. Mais um minuto, pensou ela - como pensa quase que invariavelmente -, trinta ou quarenta segundos que fossem e ela, tinha a certeza, conseguiria também gozar. Mas ele nunca lhe dá esses trinta ou quarenta segundos. Quase que invariavelmente, ela vai ao chuveiro e se lava; às vezes, termina o que o marido começou. Mas não ontem. Tamanhas eram suas prostração e morbidez que ela não se lavou. E, agora, seu castigo, o marido a lhe acompanhar em seu lauto desjejum, em seu pão de queijo com café de coador comprados ao ambulante, luxo pelo qual ela não pode pagar - literalmente.
Não bastasse o marido a lhe sair pelos poros, hoje, o ambulante cobrou-lhe o débito, a partir de amanhã não fará mais fiado. Foi assim com o ambulante anterior, localizado a três quarteirões abaixo  e dois à esquerda do atual, foi assim com o anterior ao anterior, com ponto a mais quatro quadras abaixo e quatro à esquerda do outro, e foi assim com o anterior ao anterior ao anterior, que mantém seu carrinho a quase um quilômetro além, antes da linha férrea.
Assim, de ambulante em ambulante, ela toma o ônibus em locais cada vez mais distantes de seu ponto de saída, de forma que o pega já lotado, abarrotado, sendo necessário se espremer e lutar mesmo por um lugar em pé. Pouco minutos de viagem, um sujeito, um desses encoxadores tão comuns nos ônibus urbanos, se encosta na bunda dela. Ela sempre rechaçou esses chacais. Mas não hoje. Tamanhas são suas prostração e morbidez que ela não se afasta do pau do cara. Empina levemente a bunda e a comprime contra o pau dele, que, frente não só à conivência como também à reciprocidade dela, aproxima mais o corpo, cola-se a ela. 
O pau dele, ela estima pela pressão que ele exerce no rego de suas nádegas, é menor que o do seu marido, porém, muito mais duro, muito mais respeitoso nesse sentido. Ela empurra a bunda para trás, ele esfrega e resfolega abafado, uma das mãos dele se aferra nas ancas dela, ajudando a manter o equilíbrio dos dois no ônibus em movimento. 
Confiando na força e no arrimo do tórax, do pau, das pernas e do braço do cara cujos dedos quase lhe varam o jeans, ela se solta : com um movimento da mão esquerda, coloca a bolsa de encontro à virilha, para esconder o movimento da mão direita, que se enfia por entre a calça e a pele, por entre a calcinha e os pentelhos e encontra sua buceta molhada, do suor da caminhada, de sua excitação, do marido.
Mais um minuto, pensa ela a dedilhar o grelo, mais trinta ou quarenta segundos que sejam e ela, tem certeza, gozará. O corpo do cara se contrai todo, como se uma cãibra acometesse todos os seus músculos, e relaxa, desmonta feito marionete que teve seus fios cortados. Uma quentura úmida e viscosa atravessa as fibras do jeans e vai se apegar a uma de suas nádegas. 
O encoxador também não lhe concedeu os trinta ou quarenta segundos.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Um Dia na Vida (3)

Sexta-feira. Seis e meia da manhã. Cruzamento de uma grande avenida. Cansaços acumulados e empapados nas frontes e embaixo dos sovacos, esperança (quase sempre vã) de descanso no sábado e domingo, faixas de pedestres empalidecidas, semáforos psicodélicos.
Ela salta de uma van, ao meio-fio, apressada, quase tromba com ele, mas não o vê. Não olha para ele. Loira wellaton, óculos escuros ray-ban caçador (provavelmente um genérico chinês), cabelos presos em um rabo de cavalo, boa crina, boas ancas. Ele a olha. Não com grandes interesses. Com a obrigação biológica do macho que fareja a fêmea.
Atravessam a avenida quase que paralelamente, ela apenas um ou dois passos à frente. Ela tropeça, deixa cair uma pequena bolsa, de nylon azul-escuro, com o zíper mal fechado. Uma banana, um suco de laranja em embalagem tetra pak e um recipiente plástico retangular com a tampa suada pela comida posta ali ainda quente - uma versão moderna dos antigos boias-frias - vão à luz, tornam-se em novos e inusitados pedestres.
Automaticamente, ele se abaixa e a ajuda. Entrega-lhe a banana e o suco em tetra pak. Então, ela olha para ele. Ao menos, mira o rosto em sua direção. Os óculos escuros impedem que ele saiba se ela realmente o olha nos olhos. Ela agradece. É o mínimo..., responde ele.
Os lábios dela se reconfiguram em um sorriso. Ele ainda não vê os olhos. Não sabe se os olhos dela também sorriem; o único sorriso confiável, o dos olhos (Sorris não só com os lábios, com todo o rosto. Até com tuas orelhas, sorris..., lembra ele de um verso de um antigo poema).
Aos lábios, esses escravos do bom convívio social, sempre foi imposto o sorriso, não lhes é uma opção; os lábios, outdoors de publicidade enganosa da alegria e da felicidade. Só é legítimo o sorriso dos olhos. Porque não sabem que sorriem.
Chegam à calçada. Ele segue reto. Ela vira à esquerda. Em direção às suas vidas. Aos seus mínimos.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Um Dia na Vida (2)

Tem um cara que, em todas as sextas-feiras e sábados, ao anoitecer, no lusco-fusco, aguarda pela esposa sentado à soleira de um salão de cabelereiras próximo ao meu apartamento - pelo que pude concluir, ela trabalha no estabelecimento.
Até há algum tempo, ele tava sempre de bermuda, chinelão e com um latão de cerveja na mão, a tornar menos fastidiosa a sua espera. 
Coincidia de eu passar, por essa mesma hora, pela outra calçada, de volta do mercado, abastecido também de minhas cervejas, a me tornarem menos fastidioso para os que comigo convivem.
Ele ia esperando pela esposa, esvaziando sua lata e observando o movimento. Passava um carro, ele observava, seguia-o com os olhos; uma motocicleta, ele observava; um cachorro, ele observava; uma gostosa, ele comia com os olhos. Observava tanto que observava até a mim.
Sempre que eu passava a carregar minhas sacolas, ele, do outro lado da rua, soltava um "oi", ou um "oba", ou um "tá bom?" e erguia a lata de cerveja, com o braço a meio pau, a modo de cumprimento. Eu respondia com um "oba", ou com um "tudo bem?", e correspondia ao seu aceno com um menear de cabeça; às vezes, com outro aceno, quando uma de minhas mãos se encontrava livre das compras do mercado.
O cara sumiu da frente do salão por um bom tempo. E voltou há umas poucas semanas. Continua a esperar pelo término do expediente da esposa em todos os anoiteceres das sextas e dos sábados; porém, sumiram-lhe a bermuda, o chinelão, a lata de cerveja. Camisa e calça sociais, sapatos engraxados e um telefone celular, um desses de última geração, são a sua nova estampa. O cara não observa mais nada. Absorto, absorvido, abduzido pelo celular.
Passa um carro em alta velocidade, ele não observa; uma motocicleta com o escapamento aberto, ele não observa; pode um cachorro confundi-lo com um poste e lhe mijar na perna, ele não observa; passa a gostosa, ele não observa, não mais lhe fareja o cheiro da buceta. 
Dia desses, eu tinha me atrasado um tanto no mercado e o vi já de saída, indo embora com a esposa. Num carro em cuja traseira havia um adesivo : "Eu sou de Jesus".
Agora, quando desço pela rua e o vejo do outro lado, face iluminada pela tela do celular, eu até passo mais rente aos muros das casas, tento até mais me ocultar por detrás das árvores nas calçadas, imiscuir-me às suas sombras.
Vai que ele me perceba e me acene com suas novas roupas, seu novo vício, sua nova fé? Com o que poderei lhe acenar em retorno ? Com a benga. Só poderá ser com a benga.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Um Dia Na Vida

Era dessas manhãs comuns e repetitivas, dessas que só diferem da anterior, ou da seguinte, pelo número marcado no calendário, na folhinha. Dessas manhãs que nos fazem pensar que o Universo, ao menos a vida, é uma grande e burocrática repartição pública : cada dia, cada momento, uma cópia em carbono do outro; cada instante, uma 2ª via, um carimbo gasto e borrado nos impingido por um escrivão brocha de braço incansável e furioso.
Dessas manhãs sem previsão nem probabilidade de nada especial, de nada centrífugo. Modorrenta, abafada, de salpicada garoa, de últimas e rarefeitas águas de março a fechar o verão.
Ela e Ele vinham pela mesma calçada, destinos (ou infortúnios) de direções opostas. Ela, com o sono atrasado - talvez noite maldormida, por conta do insistente calor. Ele, com incipientes sintomas de ressaca - talvez aquelas duas latas de cerveja a mais, tomadas para assegurar uma noite bem dormida.
Calcularam mal o espaço que cabia a cada um ao se cruzarem na calçada. Não propriamente o espaço para a passagem de seus corpos, o para a passagem dos apêndices impermeáveis e desajeitados que equilibravam sobre suas cabeças, os seus guarda-chuvas.
Seus guarda-chuvas colidiram. As varetas de um - o dela : vermelho, botão de acionamento automático, novo - se enroscaram nas varetas do outro - o dele : preto, abertura manual, já descosturado e manco em várias partes.
O olhar de um - o dele : castanho-terra-ressequida-infértil - se enroscou no olhar do outro - o dela : cinza-nuvem-que-ameaça-tempestade-mas-que-acaba-por-se-dissipar.
A iniciativa de desenroscar os guarda-chuvas partiu dela - talvez menos tímida, talvez mais atrasada para o trabalho; o pedido de desculpas partiu dele - talvez nem sincero, talvez por condicionado cavalheirismo.
Por ação simultânea de ambos, os olhos também se desenroscaram.
E nunca mais se viram. Sob sol ou sob chuva.