O supremo suplício de seus atuais dias, o flagelo-mor do resto de sua existência : o convívio com o ser humano, de forma geral. Necessária nota estabelecida, há, em específico, três locais que ele evita o quanto lhe é possível : hospitais/consultórios médicos, bancos e supermercados.
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sexta-feira, 11 de setembro de 2026
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
domingo, 19 de julho de 2026
Um Dia na Vida (20)
Mal raiou o dia e eles passam. Puta que pariu como eles passam. Em tropel de gnus, em estouro de rinocerontes, em tsunamis de brucutus. Homens, mulheres, ciborgues broxas e estéreis saídos de academias de crossfit. Pagam os tubos para frequentar uma academia e os instrutores os põem para correr nas ruas, onde poderiam correr de graça. Corpos esculpidos a lipoaspirações, drenagens linfáticas, próteses de silicone (bundas, peitos, bíceps, peitorais e panturrilhas) e a anabolizantes, muito anabolizantes.
segunda-feira, 27 de abril de 2026
Segunda-Feira, Ponto Facultativo de um Feriado Prolongado
03h48. De uma segunda-feira anômala. Segunda-feira ponto facultativo de um feriado prolongado. Não é o barulho da rua - algum motoqueiro com escapamento e rosca abertos, algum carro a vomitar som alto - nem algum vizinho filho da puta nem a baixa da concentração do seu remédio para dormir em seu plasma sanguíneo. É sua velha bexiga, querendo deslocupletar-se. Bexiga que é despertador mais exato, preciso e infalível que qualquer rádio-relógio antigo, que qualquer relógio atômico dado corda a césio-133.
sexta-feira, 17 de outubro de 2025
Um Dia na Vida (19)
Nuns dias, ele acorda ruim - e estes são os dias bons. Nuns dias, ele acorda pior. Nuns dias, ele nem dorme.
sábado, 3 de maio de 2025
Por enquanto, Tá Tudo Bem
Grave, circunspecto; ranzinza, até e muitas vezes. Mas, preponderantemente, preocupado. Sempre. Permanentemente. Perenemente preocupado.
Na certa, para as pessoas que me são mais próximas, preocupado é o principal atributo que me confeririam caso fossem perguntadas sobre mim; o meu traço mais marcante e reconhecível que ressaltariam caso fossem convocadas a fazer um retratado falado de mim.
sexta-feira, 4 de abril de 2025
Um Dia na Vida (18)
Fatos : ele tem um serviço de merda; um salário de merda; está a ver soçobrar em desgostos toda a dedicação, toda a disposição, toda a empreita, toda a esperança empenhadas na boa formação, instrução e educação do filho (esperança... raramente, ele tem coragem de usar esta palavra, e sempre que o faz, ela continua com o status de substantivo que sempre teve : abstrato); nem o sono/sonho, este irmão mais piedoso da morte, acolhe-o.
quarta-feira, 14 de agosto de 2024
Um Dia na Vida (17)
Hoje, seis e pouco da manhã, um gato cruzou meu caminho. Não um gato preto; um siamês.
quarta-feira, 12 de junho de 2024
Um Dia na Vida (16)
Hoje, logo cedo, ao atravessar uma das três praças por que passo a caminho da lida, fui cumprimentado euforicamente por um desses malucos autóctones destes logradouros públicos.
sexta-feira, 27 de outubro de 2023
Um Dia na Vida (15)
Dizem que quem muito fala, bom-dia dá a cavalo. Não sou de falar muito (a não ser comigo mesmo), ainda assim dou bom-dia não só a cavalo, igualmente a gato, cachorro, bem-te-vi, quaresmeira.
quarta-feira, 12 de abril de 2023
Um Dia na Vida (14)
Domingo de Páscoa. Retorno de um feriado passado na casa da sogra. Esposa a dirigir. Não tenho habilitação para conduzir veículos; aliás, para nada. Estrada sentido MG, SP. 100, 110 km/h. Algo tocando no rádio.
quinta-feira, 6 de abril de 2023
sexta-feira, 5 de agosto de 2022
Um Dia na Vida (12)
Tenho Certidão de Nascimento. Um nome, o nome dos meus genitores, o dia e a hora do meu vir a furo para o mundo, o meu tamanho e peso na ocasião lavrados em cartório de gavetas mortas. Não tive opção de não tê-lo. Não pude decidir se eu queria ou não ter um nome.
sexta-feira, 3 de junho de 2022
Um Dia na Vida (11)
Sexta-feira. 05:52 h. Mal amanheceu, nesses dias já a flertarem com o inverno. O silêncio da manhã é eivado pelo barulho da emissão do gás carbônico liberado quando ele rompe o lacre do latão da cerveja.
segunda-feira, 1 de novembro de 2021
Um Dia na Vida (10)
Ontem, bebi bem. Bem e bastante. A noite estava favorável. O estômago, também. Beber é uma questão de estômago. Poderia ter bebido mais. Nem eu nem a madrugada apresentávamos sinais de embriaguez ou de exaustão. Há tempos que não éramos umas crianças sem dores nas costas e nas articulações. Poderia ter bebido mais.
quinta-feira, 26 de agosto de 2021
Um Dia na Vida (9)
05:23h da manhã. Ele sai da loja de conveniência com um latão de cerveja, o seu pão líquido de cada dia, e o vai tomando pelo caminho.
terça-feira, 17 de agosto de 2021
Um Dia na Vida (8)
Apenas
dez ou doze alunos na sala (de aula? há sérias controvérsias).
Contingências da pandemia chinesa. Dez ou doze alunos, apenas.
Estudantes, nenhum.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2017
Um Dia na Vida (7)
Meio-dia e poucos, o sol a pino providencialmente tirado de cena por um dia que resolveu se trajar de galena, o homem velho, com o seu brilho também nublado, porém, pelas décadas, vinha descendo a rua com uma sacola plástica quase transparente na mão, seu almoço acondicionado em um marmitex de isopor comprado ao restaurante da esquina.
Sessenta, sessenta e poucos, talvez; barba e cabelos de um branco que não há muito vencera e expulsara de vez o grisalho, bem aparados e penteados, compleição física ainda com memória recente de uma definida rigidez, barriga de um convexo comedido, não imoral, fora, provavelmente, um homem bonito quando jovem, diriam as más-línguas, fazendo-se de boas.
Aura de respeitabilidade, vinha descendo a rua, o homem velho, com seu almoço em direção ao seu carro estacionado sob uma espirradeira - nem de luxo nem popular, o carro; carmim, as flores da espirradeira. Semblante de uma vida estável e tranquila, o do homem velho, tanto economicamente quanto nas relações pessoais, ares de quem bem cumprira com a vida. Que aura de respeitabilidade, um bom carro, conforto financeiro e emocional e sensação do dever cumprido é o que a vida dá em troca pela juventude dos que a ela se resignaram e bem serviram. Feito empregador que, de uma hora pra outra, sem aviso prévio, passa a nos pagar em reais o que antes recebíamos em euros.
Ela vinha subindo a mesma rua, pela mesma calçada que o homem velho, vinte e poucos anos de idade, se muito, blusa com o nome de uma empresa de contabilidade bordado no lado esquerdo à altura do seio, apressada, seguramente em sua corrida hora de almoço, e com o indefectível e apaspalhador celular na mão, capa rosa com motivos florais.
Não exatamente bonita, ela; vê-se que nunca o fora nem nunca o será, porém, envolta por uma impossível de se ignorar aura de hormônios e de viço, naquela fase em que a Natureza, independente de ter acertado ou não no molde e no acabamento, torna suas fêmeas em um chamariz à reprodução.
O homem velho, já com a chave a abrir a porta do carro, viu a moça e estacou. O carro sumiu. Sumiram o peso do marmitex em sua mão, o pavimento da rua, o movimento do tráfego, os sons dos motores, das buzinas, dos cachorros, da obra em construção, as cores da espirradeira, das roupas, dos muros e das fachadas das casas, dos folhetos de propaganda abandonados ao chão, do céu. Sumiram o ar e a própria necessidade de respirar.
Ela atravessou para o outro lado da rua a alguns passos de cruzar com o homem velho. Notou-o tanto quanto à espirradeira, aos sacos de lixo depositados nas calçadas, aos buracos da rua, à enxurrada da chuva recém-finda a minguar, ao poste de iluminação pública, ao gato na varanda da casa a lamber o próprio cu, à mulher que varria as folhas da calçada.
Ela (para o homem velho) : a recondensação do Universo, uma nova singularidade prestes a parir o Big Bang;
O homem velho (para ela) : invisível.
quinta-feira, 19 de maio de 2016
Um Dia na Vida (6)
Sete da manhã e umas quirelas de minutos, 10, 12. Eu já em plena atividade, porém, ainda no piloto automático, operando por aparelhos. Apesar da cavalar dose de café (amargo) ingerida em casa e da outra, elefantina e melífera, tomada à chegada no trabalho, ainda sigo no piloto automático.
O que não é, como a expressão "piloto automático" geralmente dá a subentender, dado o meu entorno, ruim. O que, nesse caso, é bom : ao menos, sigo. Por rota trilhada há mais de 20 anos, por rumo, por instinto, por costume, cego, surdo e mudo, mas sigo.
Pior fica quando acaba o expediente do piloto automático e ele bate o seu cartão e vai para casa e o manche passa para o modo manual, para as minhas mãos. Quando tenho que seguir de olhos abertos pelo trem-fantasma.
Sete e algumas migalhas da manhã e eu falo para um amontoado de gente - 42 ou 43 num recinto que, dificilmente, supera os 50 metros quadrados. Falo da indigesta química da digestão humana. Falo da mastigação, da insalivação e da demolidora ptialina, que reduz, a golpes de marreta, o portentoso e esnobe amido a humildes maltases.
(Uns oito ou nove dormem debruçados sobre suas carteiras, sobre suas mochilas, seus agasalhos de moletom em travesseiros improvisados - ou internet até de madrugada, ou a maconha fumada à entrada da escola, ou puros desinteresse e desfaçatez, ou alguma verminose, sabe-se lá)
Falo do bolo alimentar escorregando pelo tobogã do esôfago e mergulhando na piscina de ácido clorídrico do estômago, dos tubarões de pepsina à espera, ávidos por desmembrar e esquartejar desavisadas proteínas.
(Uns 15 ou 20 começam, então - resolvem, então -, a abrir suas mochilas e a buscar pelo material da aula - uns oito ou dez, percebo, percebem que não o trouxeram, e se juntam ao time dos hibernantes)
Falo do bolo alimentar, agora chamado quimo, escalavrado pelo ácido, seguindo caminho pelos subterrâneos, pelas catacumbas e fossos do duodeno, pelos seus alçapões e arapucas, pela sua flora carnívora, sôfrega por gordos, roliços e suculentos lipídios.
(Uns seis ou sete, dominados pelo vício, se arriscam no uso de seus telefones celulares, pecado dos mais mortais que alguém pode cometer dentro de meus domínios, em meu ecossistema - são repreendidos duramente, resmungam algo em inútil protesto e também se juntam à turma dos sonolentos)
Falo, finalmente, do bolo alimentar, agora fecal, sugado e subtraído de toda sua alma química, seguindo pelo túnel do intestino grosso rumo à luz.
(Não mais que meia dúzia chega ao fim da jornada, junto comigo e com o bolo fecal. Não mais que meia dúzia manteve olhos e ouvidos atentos a mim o tempo todo. E quantos desses tinham também o cérebro atento por detrás de seus olhos e ouvidos vidrados? Quantos realmente absorveram algum nutriente de conhecimento? Quantos não saíram do jeito que entraram, desnutridos, anêmicos e anoréxicos de saber?)
Não obstante, alheia e indiferente a quaisquer dramas ou frustrações prosaicos e comezinhos, a merda continua a ser feita.
Tranquilamente.
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
Um Dia na Vida (5)
Nada como uma proposta irrecusável ao fim de mais um dia de trabalho, rotineiro e repetitivo. Para nos animar. Para inflar, feito pó Royal, o nosso ego.
Quando vou - e volto - do trabalho, e quem lê regularmente o Marreta sabe que cubro a pé os quase 5 km de percurso, quase que uma légua tirana, passo pelo centro velho da cidade e por sua famosa baixada. Cruzo, inclusive, o cansado, porém, persistente, rio que deu nome ao município, e cujas margens nada plácidas ouvem o brado dissonante e ensurdecedor dos veículos, dos latidos dos cachorros vadios, do chamado dos vendedores ambulantes.
As mesmas margens abrigam a horrenda rodoviária - a mais feia que eu já vi até hoje -, o charmoso Mercadão Municipal, perfumado por seus queijos a curar, suas pimentas em conserva, especiarias in natura, fumo de rolo etc (se você conseguir abstrair e ignorar as pessoas que por ele circulam, é um bom lugar para se visitar e comer seu enorme pastel de carne seca) e, lógico, como em toda baixada que se preze, a clássica ZBM, a zona do baixo meretrício. Quase uma dezena de bares destinados ao entretenimento adulto se concentram em três de seus quarteirões ribeirinhos. No piso superior dos bares, ou por detrás de portas laterais a eles, que se abrem para longos corredores, estreitos e escuros e ponteados por inúmeros aposentos, estão os abatedouros, o suadouros, os quartos da furunfa. Encimando uma dessas portas, há uma plaqueta, de fundo preto e letras cor de bronze, onde se pode ler : residência familiar. Tá certo. É tudo puta de família. Puta também tem família, ora porra.
Quando passo na ida para o trabalho, por volta das 06 e 30 h, já tem um cara, o balconista de um dos bares, lavando o chão e arrumando as mesas. Quando retorno, por volta das 13 h, o funcionamento da ZBM já está a todo vapor. De vento em popa. Em popas, em grandes, gordas e flácidas popas. Todas tomando um ar, arejando as partes, mal cobertas por saias residuais; nem saias são, são abajures de perereca.
Acredito que o seleto ambiente comece as suas funções entre oito e nove horas da manhã. Abre mais cedo que praça de alimentação de shopping center. E tem lá a sua lógica, afinal, não deixa de ser uma espécie de fast food. O cara tá à toa, de bobeira, passa lá rapidinho e curte um McLanche Feliz. É o drive-thru da buceta.
E se pensam que as meninas ficam se oferecendo de forma ostensiva, que ficam cercando e laçando clientes nas calçadas, estão muito enganados. São muito respeitosas para com os passantes, orgulhosas, até. Sentam-se às entradas dos bares e ficam na delas, fumando um cigarrinho, tomando uma cervejinha em copo americano Nadir Figueiredo, ouvindo músicas de desilusões amorosas, Odair José, Amado Batista e outros que tais. Só se manifestam se forem requisitadas.
Tanto que já passei por ali milhares de vezes (e não exagero nos números, faço esse caminho há 13 anos, ida e volta, todos os chamados dias úteis, que, para mim, são os mais perdidos) e raras foram as vezes em que fui abordado, em que me ofereceram seus préstimos. Mesmo quando eu também lecionava à noite e passava pela baixada na, digamos assim, hora do rush.
Aí, ontem, havia uma a se exibir na calçada por onde eu estava a passar. Idade que julguei próxima dos cinquenta anos, mas que, dado o desgaste da profissão, possa se revelar em torno dos trinta. Pele de um moreno escuro e avermelhado, uma provável, ainda que distante, ascendência indígena, reforçada pelos cabelos pretos e lisos. E gorda. Gorda que não era pouca coisa. Tinha umas três barrigas, uma a se dobrar e a se sobrepor à outra, um prédio de três andares de banha. Peitos empacotados e comprimidos pela blusa colante amarela, e que, livres dela, escorreriam até o umbigo, oculto pela banha. Estava com as costas à parede do bar, uma perna esticada a lhe servir de arrimo e a outra dobrada, com o pé na parede. E mordiscava e degustava sensualmente - garanto que é verdade, que não estou inventando nada - um enorme salsichão. Um salsichão mesmo, de verdade, sem nenhuma metáfora. Daqueles salsichões em conserva que ficam boiando em enormes potes de vidro nos balcões, aqueles que, geralmente, ficam ao lado do pote dos ovos coloridos.
Quando passei por ela, para a minha surpresa, ela, sem tirar o salsichão da boca, mandou na lata : - vamu metê?
Vamu metê... Pãããããããta que o pariu!!!
Tamanhos foram o tesão e a volúpia que me tomaram de assalto frente a tanta elegância, sutileza e finesse, sem dizer da beleza e da formosura, que foi difícil me conter. Ainda assim, agradeci-lhe a oferta e segui caminho.
Vamu metê...
É mole? É. E, depois dessa, ficou mais mole ainda!
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