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sexta-feira, 25 de abril de 2025

O Último dos Kavernistas

Ele era o último membro da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, anteciparam-se a ele em suas idas para o Inferno os também malditos Sérgio Sampaio, Miriam Batucada e Raul Seixas.

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Cicero Decide Morrer

 
O poeta, escritor, letrista, filósofo, crítico literário e imortal da ABL Antonio Cicero, mais conhecido pela maioria (inclusive por mim) como o "irmão da cantora Marina", de quem foi parceiro em vários de seus sucessos, como Fullgás e Pra Começar, morreu hoje, na Suíça, aos 79 anos.

sábado, 17 de agosto de 2024

O Silvio Santos é Coisa Nossa!

 
É domingão no Inferno.
Show de Calouros do Programa Satã Santos.
Na banca de jurados : Hebe Camargo, Dercy Gonçalves, Ronald Golias, Pedro de Lara, Clodovil e Aracy de Almeida.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Pelas Barbas do Profeta

Nunca achei graça no futebol; muito menos no trabalho.
Pois o árbitro de futebol, ator, jornalista, narrador e comentarista esportivo Silvio Luiz conseguiu deixar engraçados os dois, o futebol e o seu trabalho. Morro de admiração e de boa inveja de pessoas que conseguem se divertir com seus trabalhos e também deixá-los mais divertidos para os outros.

sábado, 3 de fevereiro de 2024

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Luto : Teu nome é Cleonice

A poucos seres, eu sou tão agradecido pela oportunidade da convivência, por tê-los conhecido. De poucos, a companhia pelas madrugadas me foi tão preciosa e tanto me locupletou. A poucos, gostei tanto de me dedicar, zelar e agradar. E nenhum outro fez mais jus aos meus cuidados. E nenhum outro respondeu e correspondeu tão à altura.

sábado, 17 de junho de 2023

Loiras Geladas, Vêm me Consolar

Paulo Ricardo sempre foi o rostinho bonito (pra caralho), a voz rouca e sexy e os ombros desnudos (que levaram Caetano Veloso à loucura nos meados da década de 1980) da banda RPM. Mas a alma melódica e harmônica do conjunto, a essência, a bússola, o sextante e o astrolábio que possibilitaram que o RPM viajasse por mares nunca dantes navegados por uma banda de rock nacional, que o RPM fosse, audaciosamente, onde nenhum outro grupo jamais esteve foi o tecladista Luiz Schiavon.

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Il Cavalieri Silvio Berlusconi

Morreu o carcamano Silvio Berlusconi. Um dos últimos machos das antigas do planeta. Ou, ao menos, do afrescalhado e emasculado Ocidente. Berlusconi gostava era de mulher. Mais que o Roger, do Ultraje a Rigor. Batia no peito com orgulho e bradava em alto e bom som : eu gosto é de mulher! Doesse a quem doesse, ofendesse a quem ofendesse. Sim, hoje, o cara ser macho hétero é ofensivo, é tóxico.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Sargento Pincel Pede Baixa da Corporação

Roberto Guilherme
(o eterno e impagável Sargento Pincel)
1938 - 2022

O Último dos Caipiras

Depois que a cantora, apresentadora, professora e folclorista Inezita Barroso morreu, em 2015, Rolando Boldrin tornou-se o último dos moicanos, dos sertanejos das antigas, dos caipiras raiz.
Minhas lembranças mais antigas de Boldrin são da minha infância, de quando, no quadro final do extinto Som Brasil, transmitido pela rede Globo em suas manhãs dominicais, ele fazia duo com Ranchinho, órfão da dupla Alvarenga e Ranchinho. Contavam causos e cantavam modas de viola repletos da malícia e do humor brejeiro do matuto.
Fui ter noticias de Boldrin só muito depois dessa época, quando, se não me engano, em 2005, começou a apresentar o excelente Sr. Brasil, pela TV Cultura, do qual fui fiel espectador no início e, depois, com o aumento das atribulações cotidianas, continuei a assistir sempre que possível.
Em Sr. Brasil, Boldrin ampliou o seu (e o nosso) universo musical. Não se ateve ao sertanejo, prestigiou e divulgou todos os ritmos regionais do país. Fazia questão de sempre exibir o nome do compositor da música que estava a ser interpretada no rodapé da tela. Sendo um ele próprio, Boldrin sempre rendeu homenagens à figura esquecida e, muitas vezes, até desconhecida do compositor.
Dessa admiração ao autor, nasceu um de seus causos mais célebres.

"O sujeito, cansado da viagem a cavalo, sequioso pelo pó da estrada, apeou numa bodega à beira do caminho para matar a sua sede e dar uma esticada no esqueleto. Assim que pegou a sua cervejinha no balcão e sentou-se à mesa, um som mavioso tomou-lhe os ouvidos. Olhou em direção à cantoria e viu duas gaiolas, um canário-da-terra em cada uma. Era de um deles que emanava aquela sinfonia silvestre; o outro, mudo e calado. Acabou de tomar sua cerveja e perguntou ao dono da venda o quanto ele queria pelo canarinho cantor.
- Mil reais, decretou o dono da ave.
- É muito dinheiro para um canarinho - começou a pechinchar o homem.
- Mas você ouviu como ele canta, né?
- É, é verdade... de qualquer jeito, eu não tenho tanto dinheiro assim. E pelo outro canarinho, o que está calado, quanto o senhor quer?
- Dez mil reais - disse o dono do armazém.
- Pãããããããta que o pariu - exclamou o viajante - mil pelo que canta que é uma beleza e dez mil pelo que não canta porra nenhuma? Que maluquice é essa?
- É o que calado - disse o dono da bodega - é o compositor.

Não tenho nenhum LP de Boldrin, porém, com o advento da internet, guardo um CD gravado com 12 álbuns dele em mp3. Material que me permitiu e me deu o privilégio de conhecer uns poucos centímetros abaixo da superfície dos abissais talentos e trabalhos de Boldrin.
Agora, fiquei sabendo que, na tarde de ontem, 09/11/2022, aos 86 anos, por conta de uma insuficiência renal e respiratória, Rolando Boldrin enfiou a sua viola no saco e foi cantar em outra freguesia.
Deixou-nos aqui, ruminando essa Vida Marvada.
(e nem precisarei de muito esforço para decidir a trilha sonora das minhas bebedeiras das madrugadas de sexta e sábado dessa semana).
Rolando Boldrin
1936 - 2022

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Um Beijo Pro Gordo

Hoje, logo na primeira aula do meu pequeno purgatório diário, depois de ter dado aquele domada inicial na sala e procedido a chamada, lá estava eu a tentar explicar, da maneira mais simples e rasa possível, a respeito da herança do cromossomo X.
Então, um aluno, sentado à primeira carteira, ergue o braço e diz que tem uma pergunta a me fazer. Alvíssaras!, penso eu. Pelo menos um a me escutar e a tentar aprender alguma coisa. Eu estava errado, é claro.
- Professor, quem é Jô Soares?
Pããããããta que o pariu!!! Eu a dizer de hemofilia e daltonismo e o cara pergunta quem é Jô Soares? Normalmente, quando o aluno levanta a mão durante uma explicação, as perguntas mais comuns são : "professor, posso ir tomar água?", "professor, posso ir no banheiro?", "professor, que dia é hoje?". Diante das quais, eu, mui educadamente, usando outras palavras, os mando à merda.
Mas o inusitado da pergunta me fez devolvê-la : - que pergunta é essa, rapaz? 
Ele não estava prestando atenção na aula, lógico. Estava vidrado no seu celular. Virou a tela da traquitana do demo com uma manchete em minha direção e falou : - tem um monte de lugar falando que esse Jô Soares morreu.
Pããããta que o pariu!!! O Gordo tinha morrido!!! Eu não sabia até então. Pãããããta que o pariu!!! Ele não sabia quem era o Jô Soares. Ninguém da sala, absolutamente ninguém, sabia quem era Jô Soares. Ninguém. Em que mundo me meti?
Como dizer para um legítimo representante da geração tik tok sobre a grandiosidade de um artista multitalentos feito o Jô? Que referências? Que parâmetros utilizar com eles para que pudessem ter um leve, um mínimo vislumbre da agigantada figura da tv, do cinema, do teatro, da literatura, das artes plásticas etc que foi Jô Soares?
Limitei-me a dizer (desculpe-me, Gordo) : - ele foi um artista antigo da Globo e do SBT. Ah, diz o aluno. E voltou-se para a tela de seu celular.
Depois, ocorreu-me que eu poderia ter parafraseado o amigo e inseparável parceiro de Jô, o impagável Paulo Silvino : - Jô Soares? Ah, como ele era grande!!!! 
Um beijo pro gordo!!!
Jô Soares
1938 - 2022

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

O Mito do Mito

"Moderação na defesa da  verdade é serviço prestado à mentira";
"Conservadorismo significa fidelidade, constância, firmeza. Não é coisa para homens de geleia";
"O homem medíocre não acredita no que vê, mas no que aprende a dizer";
"O comunismo não é um grande ideal que se perverteu. É uma perversão que se vendeu como um grande ideal";
"Um mundo que confia seu futuro ao discernimento dos jovens é um mundo velho e cansado, que já não tem futuro algum";
"O brasileiro de hoje em dia é aquele sujeito valente que teme olhares e caretas como se fossem balas de canhão, que enfia o rabo entre as pernas à simples ideia de que falem mal dele, que troca a honra e a liberdade por um olhar de simpatia paternal de quem o despreza";
"Numa discussão, o incapaz é invencível. Nenhum argumento infundirá jamais na cabeça de ninguém a capacidade de compreendê-lo";
"Ser odiado por multidões de ignorantes é o preço de não ser um deles";
"O idiota útil, por definição, é idiota demais para saber que é útil e quem o utiliza";
"Os palavrões, segundo entendo, foram inventados precisamente para as situações em que uma resposta delicada seria cumplicidade com o intolerável";
"Estudar de menos e opinar demais. Essa é a maior desgraça do brasileiro";
"A inteligência, ao contrário do dinheiro ou da saúde, tem esta peculiaridade: quanto mais você a perde, menos dá pela falta dela";
"O desprezo do brasileiro pelo conhecimento é a grande desgraça desse país. A falta de medida, a deformidade mental está consagrada na figura do presidente da República. Ela se condensa na figura do presidente Lula, que é a deformidade moral e mental encarnada. Se ele é a figura da nova república, a nova república é um puteiro";
"Todo intelectual de esquerda é vigarista. Não há exceções";
"Uma garota de 13 anos, em Israel, inventou um satélite que cria oxigênio no espaço. Nossas crianças, nesta idade, aprendem a usar maconha, praticar sexo e a se engajar na 'luta de classes' para destruir o 'capitalismo opressor' ":
"A Educação, no Brasil, só se distingue do crime organizado porque o crime é organizado":
"No Brasil só existem duas ideias : o avanço e o retrocesso. Elas explicam tudo. Dar o cu, por exemplo, é um avanço. Reagir a um assalto é um retrocesso".


Olavo de Carvalho
1947 - 2022

domingo, 14 de novembro de 2021

Eu Sou o Seo Vicentini

Conheci Luiz Vicentini, o Seo Vicentini, em 1989. Eu, recém-contratado pelas Faculdades Barão de Mauá; ele, já um decano, praticamente um patrimônio da instituição. Eu, funcionário do departamento de gráfica e fotocópias; Seo Vicentini, do financeiro, chefe dos caixas, os quais trazia sob a sua vigilante batuta. Por mim, passavam todos os impressos internos da escola - folhas de prova, carnês das mensalidades, cadernos de estágio, papel timbrado etc -, que eu confeccionava em offset, e também cópias particulares de alunos e funcionários, feitas em três velhas máquinas "xerox". Pelo Seo Vicentini, passavam todos os tipos de pagamentos feitos à escola - mensalidades, apostilas, declarações e históricos escolares, fotocópias, segunda via de provas etc -, os quais ele recebia e registrava em sua velha máquina de alavanca, com tipos metálicos móveis, fita roxa e bobina de papel.
Eu, com 22 anos. Seo Vicentini, tanto podia ter quarenta quanto setenta. Suponho que tivesse idade próxima à que tenho hoje, algo em torno de 55 anos, um pouco para mais, um pouco para menos. Suponho. Nunca consegui estimar direito a idade do Seo Vicentini. Calvo, muito magro, semblante encarquilhado, postura curvada e nariz adunco, feito um velho Abutre (o do Steve Ditko; não estas tristes e ridículas versões modernosas), Seo Vicentini era dessas pessoas que, já aos trinta anos, aparentavam ter setenta, e setenta continuavam a aparentar o quanto vivessem, oitenta, noventa, cem. Uma daquelas pessoas em que a idade se apressa para alcançá-las e logo em seguida estanca, se acomoda.
Nossos locais de trabalho, o meu e o do Seo Vicentini, a gráfica e o caixa, eram separados por uma parede não pintada de blocos de cimento cinza, mas não eram incomunicáveis. Uma porta ao canto direito permitia o trânsito entre os dois ambientes. Porta sob cujo batente, nos dias de pouco movimento, travei longas conversas com o Seo Vicentini. Mais monólogos, na verdade. O velho Vicentini se deleitava em desfiar suas sagas, peripécias e outras lorotas de seu passado.
Um paquerador inveterado, o Seo Vicentini. Um galanteador das antigas. Do tipo que fazia fiu-fiu quando a gostosa passava. Quando uma aluna, uma universitária de belas formas se dirigia ao seu caixa para pagar a mensalidade, o Seo Vicentini a tratava por "bem", por "princesa", elogiava os olhos da moça, os cabelos, o perfume, o brinco etc. E se, por acaso, a incauta, ao passar o carnê e o dinheiro do pagamento pela abertura do vidro do seu guichê, demorava em retirar a mão, o Seo Vicentini a tomava e a aninhava entre as suas. Fosse hoje, o Seo Vicentini iria em cana por assédio. Iria ser assediado, no xilindró, pelo Ditão Pé de Mesa.
Seo Vicentini também era o responsável não oficial pela organização dos bolões de apostas. Era o bookmaker da faculdade. Bolões em que se apostava desde em jogos de futebol e loterias até em acontecimentos futuros das vidas pessoais dos funcionários. Seo Vicentini foi quem organizou, inclusive, o bolão em que se apostou se o meu cunhado, à época também funcionário da faculdade, iria mesmo honrar o seu compromisso de noivado com a minha irmã e comparecer à cerimônia de seu casamento, ou se a deixaria a ver navios no altar, na nave da igreja. Solteirão inveterado, empedernido e juramentado, deixara, segundo as línguas ociosas, já duas outras noivas na saudade. Desse bolão, o Seo Vicentini não me ofereceu nenhum número, mas chegavam notícias até a mim de que o grosso das apostas, talvez até a unanimidade delas, era no não comparecimento do noivo, na deserção do nubente de 40 anos. Não sei se alguém apostou na honradez do meu cunhado (eu não teria apostado). Se houve, encheu o cu de dinheiro.
Seo Vicentini era dono de um indefectível bordão. Sempre que alguém passava por ele, ele chamava essa pessoa com um psiu e, assim que ela se voltava, ele dizia : "amanhã 'cê vai lá hoje?".
O reinado de Seo Vicentini como chefe dos caixas, no entanto, ruiu por volta de 1992, 1993. As velhas registradoras foram trocadas por máquinas eletrônicas, uma novidade na época. Saíram os números roxos carimbados mecanicamente no bobinão de papel, entraram o frio visor de fósforo verde e o comprovante em papel de impressão térmica, feito os de caixa eletrônico de banco. Saiu o clac-clac da pujante alavanca que acionava os tipos móveis, entrou o enfadonho zumbido do processador interno da nova máquina. A impessoal e massificante modernidade substituiu o Seo Vicentini.
Substituiu, não; que o Seo Vicentini era insubstituível. A suposta modernidade tomou o lugar do Seo Vicentini. Usurpou a sua posição. Seo Vicentini não conseguiu se adaptar à nova tecnologia, não conseguiu aprender os truques do novo equipamento. Na verdade, nem sei se o Seo Vicentini quis verdadeiramente aprender o manejo das máquinas eletrônicas. Nem sei se fez um real esforço no sentido de. Talvez tenha preferido não se sujeitar à modernidade. Se tiver sido isso, respeito-o ainda mais.
Depuseram o Seo Vicentini de seu posto de chefe dos caixas, mas não o demitiram da empresa. Devido ao seu longo tempo de casa e mesmo pela consideração que os donos da escola e os filhos do dono (que Seo Vicentini vira crescer) tinham por ele, ele foi remanejado para outra função. Foi ser o Guardião da Quadra de Esportes da escola, situada fora do prédio central, alguns quarteirões acima. Lá, Seo Vicentini fazia as vezes de porteiro, de zelador e também era quem agendava os horários de uso da quadra pelos professores e organizava os eventos esportivos promovidos pela escola. Deu-se bem em sua nova função, o Seo Vicentini. A rapaziada gostava dele, ele via as alunas de biquíni na piscina. Virou até nome de campeonato. Torneio Luiz Vicentini de futebol society.
A partir de sua transferência para a quadra, nunca mais conversei longamente com o Seo Vicentini. Nossos contatos passaram a ser eventuais, fortuitos e aleatórios. E duravam poucos minutos, poucos segundos, até. Cruzávamo-nos, vez ou outra, pelas ruas do bairro; os dois em trânsito, indo para ou voltando de algum lugar. Eu, a pé; Seo Vicentini, com sua bicicleta Monark Barraforte. Nunca montado ao selim dela. Feito o tangamandapiano carteiro Jaiminho, Seo Vicentini levava a bicicleta sempre andando e a empurrá-la pelo guidão.
Trocávamos rápidos cumprimentos, ele sempre me perguntava pelo meu cunhado e seguíamos os nossos caminhos. E era fatal : assim que nos dávamos as costas, ele me chamava, eu me virava e ele disparava : "amanhã 'cê vai lá hoje?".
Fiquei sabendo, então, recentemente, através de minha mãe, que o Seo Vicentini, um dia desses, cruzou, a empurrar a sua bicicleta pela calçada, com a boa e velha Morte. Cumprimentaram-se, a Indesejada das Gentes perguntou-lhe como andava a vida e despediram-se. Assim que se deram as costas, a Morte chamou o Seo Vicentini e, quando ele se virou para ela, Ela disse : "amanhã 'cê vai lá hoje?". E o Seo Vicentini foi.
Morreu, o velho abutre. Não lhe sei a causa mortis. Minha mãe não soube informar nem mesmo a exata data de seu passamento. Assim, não sei o intervalo que houve entre a morte de Seo Vicentini e a minha ciência dela. Mas tenho a certeza, guardo a forte impressão, de ter cruzado com o Seo Vicentini não há tanto tempo antes de sabê-lo finado. Coisa de uma semana, creio, um pouco mais, um pouco menos. Espero que ele ainda estivesse vivo na ocasião.
Passei a pensar muito no Seo Vicentini depois disso. Não na sua morte física, orgânica, definitiva. Sim na sua primeira morte, há quase trinta anos, na sua obsolescência profissional decretada do dia para a noite. Do dia para a noite, Seo Vicentini deixou de servir para o trabalho que muito bem executara durante a vida inteira. Será que toda a experiência e o conhecimento adquiridos e acumulados durante décadas, simplesmente, evaporaram-se de um dia para o outro? Acometeu-lhe alguma espécie de amnésia profissional, um Mal de Alzheimer laborial? Por que, de súbito, a nova traquitana eletrônica passou a valer mais para a empresa do que a pessoa que antes a operava? Seo Vicentini, é certo, não perdera a sua competência e o seu conhecimento. Mas passou a valer mais a ferramenta que o hábil artesão que a manejava. Conhecimento? Mesmo nesse recente passado de que vos falo, valor ao conhecimento já era coisa do passado.
Por que tenho pensado tanto nisso? 
A pandemia da Peste Chinesa veio a intensificar e a cristalizar um processo já há muito em andamento : a digitalização do ensino, a substituição do sólido e confiável quadro-negro pela tela radiativa dos computadores e celulares; o professor pelas aulas gravadas. 
Pulularam "n" plataformas de apoio educacional, Meets, Zoom, Google Classroom e o caralho. Todo o subsídio necessário para o professor rasgar de vez o seu diploma e se tornar um youtuber.
Não usei nenhuma delas. Por relativa sorte, o Estado não teve como equipar os seus professores para que transmitissem aulas ao vivo, de suas residências. Dessa forma, não podendo nos obrigar a tal, criou um canal coletivo de transmissão de aulas gravadas por professores especialmente contratados para tal, o infame e famigerado Centro de Mídias de São Paulo. Aulas comuns a todos os alunos da rede pública estadual. Aos professores, coube a obrigação de também assistirem às aulas de suas disciplinas no CMSP, enviar atividades relativas aos temas tratados nelas para os alunos, recebê-las de volta e corrigi-las. E foi o que eu fiz. Enviei e recebi atividades por e-mail. E só. 
Teve professor - muitos - que não. Teve professor que pôs grana do próprio bolso para comprar computadores e celulares novos, e que, praticamente, montou um estúdio de edição em sua casa, transmitiu aulas, criou fóruns e o caralho a quatro; tudo gastando a sua própria internet, energia elétrica. E depois dizem que ganham pouco. 
Exploraram todas as plataformas, fizeram cursos on-line. A disputa passou a ser não mais por quem tinha a melhor aula ou o melhor domínio de sua disciplina, mas sim por aquele que usava a plataforma com a melhor interface, com recursos mais intuitivos, que tinha mais acessos, que recebia mais views. Como no caso do Seo Vicentini, a ferramenta superou, de longe e em importância, o conhecimento e a experiência docente.
Não sei mexer com essas plataformas digitais. Sou do tempo do giz e do apagador, as minhas máquinas de alavanca. Diferente do Seo Vicentini, eu poderia aprender a trabalhar com elas? Poderia me adaptar, me adequar ao uso dessa nova tecnologia? Creio até que sim. Mas, igualmente a ele, não sei se quero aprender o seu manejo. Aliás, sei : não quero
E não foram apenas os suportes e os aparatos físicos e analógicos do professor que se tornaram digitais, virtuais, etéreos; que, enfim, desintegraram-se. O chamado "material humano" com quem trabalhamos, o tal do alunado, a exemplo do sistema de ensino adotado durante a pandemia do vírus chinês, também completou a sua metamorfose para um ser híbrido. Cérebro que é parte massa encefálica, parte chip de celular; cada vez menos da primeira, cada vez mais da segunda. 
Um ser virtual, remoto, desintegrado. Que não tem coordenação motora nem para copiar a matéria do quadro, ser cuja única "habilidade" é mirar a lousa com a câmera de seu celular e a fotografar. Que só vai à escola pelo convívio social, para comer merenda, pelo Bolsa Família, para os seus rituais de acasalamento, para consumir e/ou fumar maconha no banheiro e, claro, para desrespeitar o professor.
Eu poderia me adaptar, me adequar, aprender a lidar com esse novo aluno, com esse apedeuta híbrido? Não! Ainda que eu quisesse, não conseguiria. E, terminantemente, não quero.
Pensando nisso tudo, agora, numa madrugada de sábado para domingo, ergo meu último latão de Lokal aos céus e emito um brado mudo, não obstante retumbante : Eu sou o Seo Vicentini!
Luiz Vicentini
19-e-guaraná-de-rolha - 2021
 
Descanse em paz, velho Abutre