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sábado, 29 de março de 2025

O Corno Câmara Cascudo (Ou : Você Acredita em Lobisomens?)

Como disse em várias oportunidades aqui, o bom e velho chifre é universal. Ou melhor : para não soar arrogante e dizer que todo o resto do Universo é obrigatoriamente assemelhado à Terra em suas formas de vida, civilizações, hábitos, usos e costumes, direi, então, e agora com a mais absoluta das certezas, que a sempre na moda peruca de touro é planetária!

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (34)

Até o início desse ano, nunca havia antes sequer manuseado um celular. Tenho certa repulsa à tal estrovenga. Certo asco da cara apalermada de quem passa horas e horas fixo à sua tela.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (33)

Mário Lago foi ator, produtor, diretor, compositor, radialista, escritor, poeta, autor de teatro, cinema, rádio e TV, advogado e boêmio. Um intelectual na acepção mais vernacular da palavra. Destes que estão a nos morrer os últimos e o Brasil não tem mais em seu estoque para repor. Nem tornará a ter. Só para citar outros nomes que lhe foram contemporâneos, coloco-o, por minha conta e sem nenhum risco, parelho a um Millôr Fernandes, a um Ariano Suassuna, a um João Ubaldo Ribeiro, a um Rubem Fonseca, a um Paulo Vanzolini.
Não obstante a sua genialidade, Mário Lago, sim, meus caros, também foi corno. Já o disse aqui e o repetirei enquanto for preciso : o bom e velho chifre é a mais democrática de nossas instituições. O chifre é pop, o chifre não poupa ninguém. Indistingue cor, credo, classe social, idade, nacionalidade, gênero musical, orientação sexual ou, no caso, Q.I.
Mário Lago mereceu o chifre. Teve em suas mãos a bela, recatada e do lar Amélia, a mulher de verdade, a que não tinha nehuma vaidade, a que passava fome ao seu lado e achava bonito não ter o que comer. Teve mulher de moral ilibada por companheira. E o que fez o Mário? Que Mário? Aquele que abandonou a Amélia atrás do armário. Trocou-a por uma vã e fútil; por uma vagabunda duma biscate, enfim.
Em Ai, Que Saudades da Amélia, quando nos cantou as virtudes de Amélia e o arrependimento de não mais tê-la ao seu lado, Mário Lago já se encontrava nas garras da leviana. Talvez poucos tenham se apercebido disso ao ouvir a canção, ou até notaram, mas logo se esqueceram, pois a tônica da música é a exaltação das virtudes da Amélia, mas a ficha da barca furada em que entrara já caíra para Mário Lago. Queixa-se ele da biscate : "Nunca vi fazer tanta exigência nem fazer o que você me faz, você não sabe o que é consciência, não vê que eu sou um pobre rapaz. Você só pensa em luxo e riqueza, tudo o que você vê, você quer..."
E Mário para por aí. Porém, a seguir o natural da vida, qual o próximo passo da biscate, assim que Mário não mais conseguir lhe prover tanto luxo e riqueza? Chifre! Galha! A velha e justiceira guampa! E foi o que aconteceu. Todo castigo pra corno é pouco!
Em que tipo de corno Mário Lago se revelou? Do brabo? Do manso? Do ateu (aquele que não acredita no chifre)? Nada disso. Mário Lago se revelou um corno Brahma. Aquele que sabe que a mulher vive em um eterno rodízio de pirocas, mas crê que é somente a ele que ela ama, que ele é o número um.
Como nos conta, em parceria com o não menos genial Benedito Lacerda, na canção Número Um. Que eu também chamaria de A Vingança da Amélia.
A história é a mesma de sempre, diria-a mesmo universal. O corno é um filantropo, um benemérito, acolhe a biscate, tenta tirá-la da vida perdida e ela lhe retribui com o chifre. Não culpemos a biscate. É da natureza dela. Feito a fábula do sapo que transporta o escorpião às suas costas. Relata-nos, Mário Lago :  "Chegaste na minha vidacansada, desiludida, triste, mendiga de amor. E eu, pobre, com sacrifício, fiz um céu do teu suplício, pus risos na tua dor, mostrei-te um novo caminho". Mas biscate só conhece um destino, o do carrossel de picas : "Tudo porém foi inútil, eras no fundo uma fútil, e foste de mão em mão". Porém, a certeza do corno em ser o único verdadeiramente amado, fá-lo perdoar a biscate : "Não guardo frios rancores, pois entre os teus mil amores, eu sou o número um".
É sim, corno, ô se é! É o corno medalha de ouro!
Número Um é uma belíssima seresta. Gravada por inúmeros cornos deste nosso Brasil dantes mais varonil, Altemar Dutra, Carlos José, Nélson Gonçalves, Orlando Silva. A versão cujo link deixarei ao fim da postagem é com Caetano Veloso, faixa do LP Maria Bethânia e Caetano Veloso Ao Vivo, de 1978.
Número Um
(Mário Lago/Benedito Lacerda)
Passaste hoje ao meu lado
Vaidosa, de braço dado
Com outro que te encontrou.

E eu relembrei comovido
O velho amor esquecido
Que o meu destino arruinou.

Chegaste na minha vida
Cansada, desiludida
Triste, mendiga de amor.

E eu, pobre, com sacrifício
Fiz um céu do teu suplício
Pus risos na tua dor.

Mostrei-te um novo caminho
Onde com muito carinho
Levei-te numa ilusão.

Tudo porém foi inútil
Eras no fundo uma fútil
E foste de mão em mão.

Satisfaz tua vaidade
Muda de dono à vontade
Isso em mulher é comum.

Não guardo frios rancores
Pois entre os teus mil amores
Eu sou o número um.
Para ouvir a canção, é só clicar aqui, no meu poderoso e número um MARRETÃO.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Todo Castigo Pra Biscate é Pouco (4)

Pandemias? A peste negra, a gripe espanhola, a AIDS? Coisa nenhuma! Surtozinhos endêmicos de nada.
Um único mal, até hoje na história da humanidade, merece o título de pandemia. Um flagelo que não se deixa deter nem intimidar por barreiras geográficas, sociais, religiosas, étnicas, ideológicas, econômicas, sanitárias, mesmo de eras geológicas : o chifre!
Apesar de ser um mal tão velho quanto o próprio ser humano, pouca certeza se tem de seus agentes etiológicos - se um vírus, um fungo, uma bactéria, um protozoário -, sabe-se apenas de seus meios de dispersão, de seus vetores; o principal, a buceta, a famosa xavasca.
O chifre, logo e portanto, é inevitável. O que muda, de caso pra caso, é a maneira com a qual o corno lida com ele. O cara pode ser o corno clássico : chorar, encher a cara e esfolar o cotovelo no balcão de um buteco, implorar e aceitar a biscate de volta; ou ser o anti-corno : chorar, encher a cara e esfolar o cotovelo no balcão de um buteco, mas jamais, em tempo algum, perdoar a vagaba. Antes pelo contrário : maldizê-la aos quatro ventos, arrastar o nome dela na lama, pôr o nome dela no SPC, o Serviço de Proteção ao Corno.
Foi o que fez Marcelo Nova na canção "Silvia". Sim, meus caros, o visceral e verborrágico Marcelo Nova, líder do Camisa de Vênus, até hoje o homem do rock no Brasil, também é corno. E qual a surpresa? Não são cornos apenas os cantores de boleros, fados, serestas, tangos e guarânias. Se o velho chifre não faz distinção geográfica etc, não seria um gênero musical a servir de imunização contra ele. Roqueiro também é corno.
Ou, no caso, anti-corno. Na canção, Marcelo Nova não nega o chifre, assume a galha com galhardia, mas é implacável com a tal da Silvia. Marceleza não tergiversa nem titubeia : "Ô, Silvia, piranha!!!", "Ô sua puta"!

Silvia
(Camisa de Vênus)
Você me diz que não tá mais saindo
Mas eu desconfio que cê tá me traindo

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Vive dizendo que me tem carinho
Mas eu vi você com a mão no pau do vizinho

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Todo homem que sabe o que quer
Pega o pau pra bater na mulher

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Vive dizendo que tá numa boa
Mas veio pra São Paulo dar massagem em coroa

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Você jura e repete que me tem amor
Mas eu lhe flagrei com um vibrador

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Todo homem que sabe o que quer
Pega o pau pra bater na mulher

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Quando eu chego em casa com essa cara de otário
Vejo o zelador, tá dentro do armário

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Eu acho mesmo que você não tem jeito
Pois até o leiteiro anda mamando em seu peito

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Todo homem que sabe o que quer
Pega o pau pra bater na mulher

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!
Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Ô sua puta!


Para ouvir "Silvia", é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO

(rascunhei esta postagem há cerca de 10 dias, mas como minhas inércia, preguiça e total anedonia só me permitiram digitá-la hoje, a coincidir com a mais representativa data feminista do mundo - e a com mais cabelos no sovaco, também -, além da intenção inicial de tê-la escrito, deixo-a aqui também como uma modesta homenagem ao Dia Internacional da Mulher)

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Todo Castigo Pra Biscate é Pouco (3)

Ei-lo de novo. Lupicínio Rodrigues, o maior anti-corno do Brasil. 
O anti-corno é o sujeito que, feito o corno tradicional, leva chifres, assume a galha e esfola à carne viva os cotovelos no balcão sujo e rançoso de um bar. Mas que, diferente do primeiro, não perdoa a biscate. Não a acolhe de volta, não lhe dá abrigo nem guarida, quando ela, na maior cara de pau, cansada de guerra, toda estropiada, bate de novo à porta do lar que desonrou.
Ou, como no caso da canção "Cadeira Vazia", até concede asilo, pousada e repasto à pérfida, mas não por frangalhos de uma esperança de que ela possa se emendar (a esperança do corno é a última que morre; a do anti-corno nem nidifica). Seria, então, por dó, por compaixão, por memória dos bons tempos que tiveram juntos, ou, deus me livre, por caritoso espírito cristão?
Não. Para torturar a biscate lentamente. Para lhe impor humilhação. Para vingar o chifre na testa. 
Na letra, Lupicínio, a vestir a pele do bom samaritano, diz : "Eu não te darei carinho nem afeto/Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto/Pra te alimentar, podes comer meu pão".
Bonzinho, o Lupicínio? Um corno clássico? Nada disso. Ele manterá a biscate sob seus cuidados, lhe dará um teto, lhe alimentará, mas apenas para que a biscate saiba que ele está a observar a ruína dela, a sua degradação, a sua vergonha; para vê-la definhar em culpa e agonizar em remordimento. Dará-lhe casa, comida e roupa lavada, mas negará, à biscate, carinho e afeto, ou seja, a privará do que lhe é mais caro e necessário : a rola, o famoso cacete. 
Biscate não liga de passar fome, de não tomar banho, de viver na rua, mas tem crise de pânico e de abstinência se lhe falta a rola. Lupicínio sabia disso. Lupicínio é pura tortura chinesa para com a biscataiada.
Cadeira Vazia
(Lupicínio Rodrigues)
Entra, meu amor, fica à vontade
E diz com sinceridade 
O que desejas de mim.
Entra, pode entrar, a casa é tua
Já que cansastes de viver na rua
E teus sonhos chegaram ao fim.

Eu sofri demais quando partistes
Passei tantas horas tristes
Que nem quero lembrar este dia
Mas de uma coisa podes ter certeza
Que em teu lugar aqui na minha mesa
Tua cadeira ainda está vazia.

Tu és a filha pródiga que volta
Procurando em minha porta
O que o mundo não te deu
E faz de conta que eu sou teu paizinho
Que tanto tempo aqui ficou sozinho
A esperar por um carinho teu.

Voltastes, estás bem, estou contente
Só me encontrastes muito diferente
Vou te falar de todo coração
Não te darei carinho nem afeto
Mas pra te abrigar pode ocupar meu teto
Pra te alimentar, pode comer meu pão.

Para ouvir "Cadeira Vazia" com o mestre Lupicínio, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.
Lupicínio Rodrigues, de chapéu, que não é para proteger a moleira do sol nem do relento, não; é para esconder os chifres.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Todo Castigo Pra Biscate é Pouco (2)

Há a figura do herói. O herói é um virtuoso. Luta sempre ao lado do Bem, pelo Bem e municiado tão-somente com as armas do Bem. O herói a rigor tem uma incapacidade congênita de se valer de métodos duvidosos e moralmente ambíguos mesmo que seja em nome de um Bem maior. Para o herói, os fins não justificam os meios. Para o herói, os meios têm de ser tão probos e louváveis quanto o fim a que se destinam. O herói não maneja as armas do inimigo contra o próprio; em nenhum momento, luta contra o inimigo nos mesmos termos que ele. A exemplo, o herói a rigor jamais mataria, propositalmente e com as próprias mãos, um tirano sanguinário, nem que fosse para impedi-lo de cometer um genocídio.
O Capitão América e o Super-homem são heróis a rigor.
Há a figura do anti-herói. Diferente do que o prefixo anti possa fazer supor, o anti-herói não é contra o herói, não é o seu antagônico, não é o vilão. O anti-herói não é inerentemente mau, também luta pleo Bem. Mas não necessária, obrigatória e preferencialmente se utiliza só das armas do Bem. O anti-herói é tranquilamente capaz de cometer maldades contra o mau e o Mal. Ele não hesita em dilemas morais em fazer o Mal provar de seu próprio mal, se esta for a opção que lhe estiver mais à mão. O anti-herói não titubeia em se valer de recursos obscuros e eticamente reprováveis para conseguir um Bem maior. O anti-herói não gasta tempo nem massa cinzenta em buscar maneiras de asssegurar a pureza e a legitimidade dos meios que o levarão ao fim. A exemplo, o anti-herói mataria fácil, fácil, um estuprador, um pedófilo, ou um traficantezinho mequetrefe de porta de escola; e os deixaria lá, para que os urubus limpassem a sua sujeira.
O Wolverine e o Justiceiro são anti-heróis a rigor.
Há a figura do corno. O corno também é um virtuoso. Não chega a pelejar pelo Bem, mas seu magnânimo coração só consegue enxergar o Bem nas pessoas; até, e principalmente, na biscate que lhe presenteou com uma peruca de touro. O corno a toda biscate perdoa. Acolhe-a de volta, dá-lhe casa, comida, roupa lavada e até o seu nome, a herança maior que seu pai lhe deixou. O corno releva os deslizes, a fragilidade de caráter, a falta de vergonha na cara e o calor na bacurinha da biscate. Acredita, deveras, que a biscate possa se redimir, possa mudar de vida.
Amado Batista, Odair José e Reginaldo Rossi são os cornos a rigor.
Há a figura do anti-corno. Equivocado pensar, análogo ao caso do anti-herói, que o anti-corno seja o êmulo do corno; e nem o poderia ser, uma vez que também é corno. O anti-corno não está do lado do Mal, mas o seu dilacerado coração consegue ver o Mal que habita o corpo da biscate. O anti-herói a nenhuma delas perdoa. Não faz votos de que a biscate "seja bem feliz junto do seu novo rapaz". O anti-corno quer que a biscate se foda. Quer vê-la na sarjeta, quer vê-la moradora de rua da Rua da Amargura. O anti-corno é mesmo capaz de jurar vingança à biscate que lhe enfeitou o frontispício. O anti-corno, muito antes que o filósofo Gregory House o tenha dito (“People don´t change”), sabe que as pessoas não mudam.
Lupicínio Rodrigues é o anti-corno a rigor.
Na tocante canção "Vingança", sofrida e escrita com sangue embebido na ponta do chifre, o anti-corno Lupi não perdoa nem faz concessões : "Mas, enquanto houver força no meu peito/Eu não quero mais nada/Só vingança, vingança, vingança/Aos santos clamar". É pouco ou querem mais? Então, tomem mais.
Vingança
(Lupicínio Rodrigues)
Eu gostei tanto
Tanto quando me contaram
Que a encontraram
Bebendo e chorando
Na mesa de um bar
E que quando os amigos do peito
Por mim perguntaram
Um soluço cortou sua voz
Não lhe deixou falar

Mas eu gostei tanto
Tanto, quando me contaram
Que tive mesmo de fazer esforço
Para ninguém notar

O remorso talvez seja a causa
Do seu desespero
Ela deve estar bem consciente
Do que praticou
Me fazer passar esta vergonha
Com um companheiro
E a vergonha
É a herança maior que meu pai me deixou

Mas, enquanto houver força no meu peito
Eu não quero mais nada
Só vingança, vingança, vingança
Aos santos clamar
Ela há de rolar qual as pedras
Que rolam na estrada
Sem ter nunca um cantinho de seu
Para poder descansar.

Para ouvir Vingança na interpretação de Adriana Calcanhoto, que também já deve ter levado muito chifre de biscate, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Todo Castigo Pra Biscate é Pouco

A interação corno-biscate é das mais íntimas, arraigadas e indissociáveis relações da natureza.
O primeiro não há sem a segunda e a segunda não haveria se não houvesse homens vocacionados em ser o primeiro.
É uma interação de extrema co-dependência, a do corno-biscate. Uma simbiose exemplar. De uma dinâmica simples e imutável : biscate bota chifre, corno sofre, biscate pede perdão, corno perdoa, biscate bota chifre, corno sofre, biscate pede perdão, corno perdoa... ad infinitum.
Pero no mucho. Ma non troppo. Nem sempre. Raro, mas nem sempre.
Raro, porém, há cornos que conseguem romper com a simbiose e mandar a biscate às favas.
Lupicínio Rodrigues foi um destes invulgares espécimes. 
Lupi, como era tratado pelos mais chegados, foi o Rei da fossa, o Sumo Pontífice da dor de cotovelo. E, claro, corno de grande magnitude. 
Mas Lupi era corno brioso, assumia, sim, os chifres, até os tornava em música e os cantava para as multidões, mas não dava guarida pra biscate, não. Com Lupi, não tinha essa de madalena arrependida. Ele punha a biscate pra correr, mandava-a ir cantar em outras freguesias, botava-a ao olho da rua da amargura.
Uma destas obras-primas do corno com amor-próprio e dignidade é a canção "Judiaria", gravada por ele e por vários outros intérpretes ao longo do tempo, inclusive por Arnaldo Antunes, a versão de que mais gosto.
A ela :
Judiaria
(Lupicínio Rodrigues)
Agora você vai ouvir aquilo que merece
As coisas ficam muito boas quando a gente esquece
Mas acontece que eu não esqueci a sua covardia, a sua ingratidão
A judiaria que você um dia fez pro coitadinho do meu coração

Estas palavras que eu estou lhe falando
Têm uma verdade pura, nua e crua
Eu estou lhe mostrando a porta da rua
Pra que você saia sem eu lhe bater

Já chega um tempo que eu fiquei sozinho
Que eu fiquei sofrendo, que eu fiquei chorando
Agora quando eu estou melhorando
Você me aparece pra me aborrecer.
Para ouvir "Judiaria", na voz de Arnaldo Antunes, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (32)

Ele é o patrono das mulheres da difícil vida fácil. É o santo padroeiro e protetor das profissionais dos serviços sem nota. E, também, é claro, é corno : Odair José.
Década de 1970 : assim como as de muitos outros artistas populares, a imprensa vigente, que, hoje é patente, sempre teve um cunho canalho-esquerdista, classificou a obra de Odair José de cafona, de subcultura.
Eram tempos, também, de grandes compositores, grandes compositores de - hoje, sabemos - pequenos caráteres; em suma, toda aquela turma que sempre vencia os Festivais da Record, os inteligentinhos da época, os engajados politicamente. Até porque é muito fácil ser engajado, ficar militando pra cima e pra baixo, quando se nasce em berço de ouro, quando não se tem que trabalhar de sol a sol para garantir o sustento, como era o caso de Odair José, Aguinaldo Timóteo, Waldick Soriano e outros
O fato de alguns desses verdadeiros gênios da música serem de esquerda dava base ao silogismo safado de que todo esquerdista era, igualmente, um gênio (o Chico é gênio (verdade absoluta), o Chico é de esquerda (uma verdade, talvez, conveniente), logo, todo mundo de esquerda é gênio (uma falácia da porra)). Dava o aval que a tendenciosa imprensa precisava para banir Odair José e os cafonas do panteão da MPB, colocá-los na casta de párias, de intocáveis, literalmente.
(Recomendo fortemente a leitura livro "Eu Não Sou Cachorro, Não", do historiador Paulo César de Araújo, o mesmo da polêmica biografia não-autorizado do Rei).
Hoje, porém, com vistas aos atuais queridinhos da mídia, aos atuais incensados pelos inteligentinhos, pelos antenados e pelos membros maconheiros dos diretórios acadêmicos dos abomináveis cursos de "humanas", Odair José é um verdadeiro erudito. Um iluminista. Com vistas aos sertanejos universitários, aos raps e aos Rappas, aos MCs e aos Emicidas, Odair José é um poeta de primeira grandeza. Um Vinícius de Moraes do baixo meretrício.
Verdadeiramente, um poeta do povo. Muito mais socialista, ainda que involuntária e inconscientemente, que Chico e sua gangue, com muito mais consciência social. Quem cantou as agruras do desvalido, do desdentado, do engraxate, do feirante, do biscateiro e, sobretudo, das putas, numa época em que puta era mesmo puta e não "modelo e atriz"? João Gilberto? Tom Jobim? O mano Caetano? Porra nenhuma. Odair José.
E o velho bardo da Praça Tiradentes continua a pleno vigor. No CD "A Praça Tiradentes", produzido por Zeca Baleiro e lançado em 2012, Odair José nos mostra que ainda tem muita lenha pra queimar, que o lobo perde o pelo mas não perde o vício.
No CD, Odair José reafirma o seu afeto e sua predileção pelas putas e, consequentemente, abraça mais uma vez a sua condição de corno. Manso e assumido. Na canção "E depois volte pra mim", feita em parceria com Zeca Baleiro e, rezam as lendas, composta em homenagem à Bruna Surfistinha, o corno está ligado que sua namorada entrega marmita pra fora, apesar de todos os subterfúgios e desculpas esfarrapadas usados pela moça para esconder seu verdadeiro ofício - "pra todo mundo, ela diz que é modelo e atriz, mas hoje eu sei na verdade o que ela faz, quando me telefona pra dizer que não vem mais". Compreensivo e solidário, o corno resolve aliviar o fardo e a culpa da puta e abre o jogo : "não precisa mais mentir, quero você mesmo assim, diga sempre que me ama, vá fazer o seu programa e depois volte pra mim". Pããããããta que o pariu!!!
Grande Odair José. Um exemplo de corno a ser seguido!
Recomendo, também, a audição do cd A Praça Tiradentes. Bom pra caralho.
E Depois Volte Pra Mim
(Odair José/Zeca Baleiro)
Quando eu a conheci,
Num programa de tv, 
Ela se aproximou e falou, muito prazer, 
Por seu riso de menina, me apaixonei no ato, 
Fiquei tonto, sem razão, me encantei com seu teatro.
Os amigos me falavam, mas a ficha não caia, 
Fiquei perdido de amor, 
Todos viam o que eu nao via.

Pra todo mundo, ela diz que é modelo e atriz, 
Mas hoje eu sei na verdade o que ela faz, 
Quando me telefona pra dizer que não vem mais. 
Pra todo mundo ela diz que é modelo e atriz, 
Mas hoje eu sei na verdade o que ela faz, 
Quando me telefona pra dizer que não vem mais

Não precisa mais mentir, 
Quero você mesmo assim, 
Diga que me ama, 
Vá fazer o seu programa 
E depois volte pra mim.
Não precisa mais mentir, 
Quero voce mesmo assim, 
Diga que me ama, 
Vá fazer o seu programa 
E depois volte pra mim.

Para ouvir a música, basta dar uma clicadinha aqui, no meu poderoso e  infatigável MARRETÃO 

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (31)

Vai Vadiar é a rendição final do corno! Bandeira branca, amor, não posso mais... diz o chifrudo! Vai Vadiar é a declaração de amor definitiva do corno à sua biscate! Convencido, enfim, depois de tanto chifre, depois de tanta galha, que ninguém muda, o corno libera geral e solta sua puta pra vadiar à vontade. Sem culpa nem remorso. Como se puta, um dia, pudesse ter algum destes sentimentos.
Composição de Ratinho - o nascido português Alcino Correia Ferreira, o mesmo corno de Coração em Desalinho, o corno que sempre acolhia a biscate quando ela chegava arrebentada da orgia, que dava asilo e refúgio, que dava banho e penicilina para a gonorreia, que fumigava a buceta com Neocid para expurgar os chatos -, Vai Vadiar, muito mais que a liberdade pra puta, é a alforria do corno.
Não bastasse a letra sensacional, a música foi também gravada por Zeca Pagodinho e o clipe é um primor, uma homenagem à velha boemia do samba. Destacam-se várias das grandes figurinhas carimbadas de nossa música, verdadeiros imortais do samba, embora muitos já estejam hoje tocando samba e bebendo cerveja no churrasco do capeta. João Nogueira, Mário Lago, Nélson Sargento, dona Neuma da Mangueira, Moreira da Silva, Almir Guineto e muitos outros, que minha ignorância sambística impede de identificar e nomear.
Vai vadiar, biscate! Vai!

Vai Vadiar
(Ratinho)
Eu quis te dar
Um grande amor
Mas você não
Se acostumou
À vida de um lar
O que você quer é vadiar...

Vai Vadiar! Vai vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
(Vai Vadiar!)
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!

(Eu quis te dar!)
Eu quis te dar
Um grande amor
Mas você não
Se acostumou
À vida de um lar
O que você quer é vadiar...

Vai Vadiar! Vai vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
(Vai Vadiar!)
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!

Agora!
Não precisa se preocupar
Se passares da hora
Eu não vou mais te buscar
Não vou mais pedir
Nem tão pouco implorar
Você tem a mania
De ir prá orgia
Só quer vadiar
Você vai prá folia
Se entrar numa fria
Não vem me culpar
Vai Vadiar!...

Vai Vadiar! Vai vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
(Vai Vadiar!)
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!

Quem gosta da orgia
Da noite pro dia
Não pode mudar
Vive outra fantasia
Não vai se acostumar
Eu errei quando tentei
Lhe dar um lar
Você gosta do sereno
E meu mundo é pequeno
Prá lhe segurar
Vai procurar alegria
Fazer moradia na luz do luar
Vai Vadiar!...

Vai Vadiar! Vai vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
(Vai Vadiar!)
Vai Vadiar! Vai Vadiar!
Vai Vadiar! Vai Vadiar!

Para ouvir a música e ver o clipe, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO
 Vai Vadiar...
Vai Vadiar, Vai Vadiar...

sábado, 23 de junho de 2018

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (30)

Gata vira-lata que passa todo o cio na rua, a vadia torna à porta da casa do corno - exaurida da farra, extenuada da boemia, fatigada da esbórnia. Arrebentada, arregaçada, aos cacos, em petição de miséria, roga, mais uma vez, guarida ao chifrudo.
E o corno faz o quê? Bota a vagabunda pra correr? Manda-a cantar em outra freguesia? Porra nenhuma, meus amigos, que corno é corno. O corno lhe dá asilo e refúgio. Cuida das feridas da puta, dá-lhe banho, fumiga a buceta dela  com Neocid para acabar os chatos, faz-lhe nutritiva canja, traz-lhe travesseiro e cobertor, leva-a ao dentista, arruma-lhe os dentes, manda botar pivô e ponte móvel,  dá-lhe penicilina para a sífilis e a gonorreia, casa-se com ela, dá-lhe o próprio nome, a única herança que seu pai lhe deixou.
E a puta? Reconhece a benemerência do corno? Tem-lhe gratidão eterna? Sossega a xavasca e passa a ser dedicada esposa e dona de casa? Porra nenhuma, meus amigos, que puta é puta. Uma vez recuperada, refeita e pronta de novo pra pôr pra jambrar, a biscate cai na orgia mais uma vez. Dá as costas para o corno e sai dando a bunda para outros.
O que resta ao corno? Beber e cantar. Cantar músicas de corno. Ou compô-las. Como é o caso da belíssima canção Coração em Desalinho; na minha opinião, uma das mais tocantes e pungentes músicas do cornuário de nossa MPB. De autoria do nascido português Alcino Correia Ferreira - o que só vem a confirmar que o chifre é multiétnico e multicultural -, mas criado desde os quatro anos de idade no meio da malandragem carioca e batizado por ela de Ratinho, foi celebrizada na voz de Zeca Pagodinho.

Coração em Desalinho
(Ratinho)
Numa estrada dessa vida
Eu te conheci
Oh Flor!
Vinhas tão desiludida
Mal sucedida
Por um falso amor...

Dei afeto e carinho
Como retribuição
Procuraste um outro ninho
Em desalinho
Ficou o meu coração
Meu peito agora é só paixão
Meu peito agora é só paixão...

Tamanha desilusão
Me deste
Oh Flor!
Me enganei redondamente
Pensando em te fazer o bem
Eu me apaixonei
Foi meu mal...

Agora!
Uma enorme paixão me devora
Alegria partiu, foi embora
Não sei viver sem teu amor
Sozinho curto a minha dor...

Numa estrada!
Numa estrada dessa vida
Eu te conheci
Oh Flor!
Vinhas tão desiludida
Mal sucedida
Por um falso amor...

Dei afeto!
Dei afeto e carinho
Como retribuição
Procuraste um outro ninho
Em desalinho
Ficou o meu coração
Meu peito agora é só paixão
Meu peito agora é só paixão...

Tamanha desilusão
Me deste
Oh Flor!
Me enganei redondamente
Pensando em te fazer o bem
Eu me apaixonei
Foi meu mal...

Agora!
Uma enorme paixão me devora
Alegria partiu, foi embora
Não sei viver sem teu amor
Sozinho curto a minha dor
Sozinho curto a minha dor
Sozinho curto a minha dor...

Para ouvir, relembrar da puta e chorar, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO .

terça-feira, 10 de abril de 2018

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (29)

Trago-vos, chifrudos e chifrudas, cornos e cornas desse país, onde a traição não só é a regra, como também, muitas vezes, é a necessidade, é um estojo de primeiros socorros, é a dipirona, o boldo e sal de frutas da alma e da sanidade, uma pérola, um clássico, um faz-me-chorar dos galhudos e galhudas desse país outrora mais varonil.
Trago-vos um dueto que, embora possa parecer inusitado, fez-se em inevitável.
Nélson Gonçalves, boêmio, corno e corneador das antigas, e Roberta Miranda, idem. Para, mais uma vez, corroborar o axioma de que o bom e velho chifre é a instituição mais democrática do mundo. Contempla a todas as idades, raças, credos, religiões e estilos musicais.
Trago-vos a canção "De Igual Pra Igual". É o Estatuto do Corno! É a luta pela igualdade do chifre!
Na canção, o corno se queixa da dissimulação da amada - "você diz a verdade, e a verdade é o seu dom de iludir, como pode querer que a mulher vá viver sem mentir?" -, que jurava fidelidade e buceta molhada só para ele, e que, no entanto, se encharcava e dava para Deus e o mundo.
E, então, o que faz o corno? Revida na mesma moeda - como se a biscate estivesse preocupada com isso. O corno, em sua vingança inócua, diz : mas aprendi fazer amor pra te ferir sem sentir nada...
E quem disse, corno, que, quando ela te punha um boné de alce, ela não sentia nada? Sentia, sim, chifrudo! Ela gozava e se derretia em pica alheia.
É o corno vingativo! É o corno que, para revidar a injúria sofrida pela mulher, sai pra rua e se vinga dela. É o corno que não só paga, como eu já disse, com mesma moeda, mas também com o mesmo "cofrinho". A mulher deu o cu para outro? O corno sai e dá o cu, também. É o corno lusitano! Ai, cachopa se tu queres ser bonita, arrebita, arrebita, arrebita!
Com (e para) vocês, "De Igual pra Igual". A isonomia do chifre! Porque chifre trocado não dói. A composição é da própria Roberta Miranda e de Matogrosso, não o Ney, o da dupla Matogrosso e Mathias.

De Igual Pra Igual
(Roberta Miranda/Matogrosso)
Você mentiu,
Quando jurava para mim fidelidade,
Fui apenas um escravo da maldade,
Você quis, você lutou, você conseguiu.

Você feriu,
Os sentimentos que a ti eu dediquei,
Quantas vezes o seu pranto enxuguei,
Por pensar que era por mim que choravas.

Você fingiu,
Você brincou com a minha sensibilidade,
Ah é o fim do nosso caso, na verdade,
Só nos restam recordações.

Não toque em mim,
Hoje eu descobri que você não é nada,
Não podemos seguir juntos nesta estrada,
É o fim do amor sincero que senti.

Mas aprendi,
Fazer amor pra te ferir sem sentir nada,
Enquanto eu amava você me enganava,
De igual para igual quem sabe a gente pode ser feliz.

Em tempo : para ouvir e ver o Nélson e a Miranda se secando , é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (28)

Roberto Carlos é o Rei. E corno.
Que o bom e velho chifre não se atenta para e nem se deixa pôr cerca por classe social ou título de nobreza.
Arthur era rei! E de Pendragon, o Grande Dragão. E era corno. Enquanto o Rei Arthur estava naquela patacoada de unificar a Inglaterra e ficava tirando espada da pedra, seu primo, Sir Lancelot, o Zé Mayer de Camelot, enfiava a sua Excalibur na rainha Guinevere.
Roberto Carlos é rei! E do iê-iê-iê. E é corno. Enquanto o Rei Roberto fica remoendo a separação, imaginando romanticamente o dia-a-dia da amada, a pérfida se diverte e já não pensa nele. Se diverte e já não pensa em mim... lamenta-se o Rei. Ou seja, dá pra outro e nem diz o nome dele à pessoa errada.
Que chifre, hein, bicho, que chifre...

Se Diverte e Já Não Pensa em Mim
(Roberto e Erasmo Carlos)
De manhã vai pro trabalho
Apressada nem se lembra que eu existo
E na pressa dos seus passos
Pisa o coração de quem sofre com isto
Bate a porta do seu carro, liga o rádio
Canta junto os sucessos do momento
E se esquece que até bem pouco tempo
Me cantava seu amor, seu sentimento

Agitando todo dia
Me deixando cada vez mais esquecido
Usa o fax e o telex
Movimenta-se sensual no seu vestido

Às seis horas ela fala ao telefone
Muda o tom da voz, disfarça num sorriso
Um convite pra jantar
Um lugar aconchegante, depois dançar

Se diverte e já não pensa em mim
Não pensa em mim, não pensa em mim
Se diverte e já não pensa em mim
Não pensa em mim, não pensa em mim

Posso compreender
Tudo teve fim
Mas essa indiferença
É o que dói demais em mim

Corre a noite, é madrugada
E o meu pensamento aumenta o meu ciúme
Imagino ela dançando
E um outro desfrutando o seu perfume

Eu não quero imaginar o fim da noite
Qualquer coisa a mais eu não suportaria
E prefiro acreditar na ilusão de ela voltar
Mas que ironia

Se diverte e já não pensa em mim
Não pensa em mim, não pensa em mim
Se diverte e já não pensa em mim
Não pensa em mim, não pensa em mim

Posso compreender
Tudo teve fim
Mas essa indiferença
É o que dói demais em mim

Se diverte e já não pensa em mim
Não pensa em mim, não pensa em mim
Se diverte e já não pensa em mim
Não pensa em mim, não pensa em mim

Se diverte e já não pensa em mim
Não pensa em mim, não pensa em mim
Se diverte e já não pensa em mim
Não pensa em mim, não pensa em mim
 Para ouvir o chifre do Rei, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (27)

Genival Lacerda é paraíba masculino, cabra macho, sim, senhor. E, também, corno. Que o velho chifre não poupa ninguém, tampouco faz distinção de macheza, sotaques, regionalidades ou ritmo musical.
Genival Lacerda é, ou foi, corno, como nos relata no antológico forró "Radinho de Pilha". O paraíba vai pra cidade do Rio de Janeiro, trabalha duro como servente de pedreiro, faz serão, deixa de fumar, economiza, compra e manda um radinho de pilha (o que hoje seria o equivalente a um iphone) pro seu bem, que ficou em sua terra natal à espera de seu regresso. Esperando, sim, porém, não morta. E o que o corno descobre quando torna à sua terra? Que o rádio que ele deu pra ela, ela doou pra alguém. Ela deu o rádio e nem lhe disse nada, ela deu o rádio.
Genival Lacerda, o famoso Seo Vavá, é corno, mas não é manso, é dos brabos, é dos que saem dando chifradas em todo mundo. Ele alerta, prepara o terreno pro acerto de contas com a infiel : eu sou honesto, sou trabalhador, mas não gosto de deboche com a minha cara, não vou enfeitar boneca pros outro brincar, ninguém vai pintar o sete com esse pau de arara.
E não é corno de ameaçar, mas de cumprir com o que promete, é corno da mão pesada, de descer o sarrafo, é corno Lei Maria da Penha : eu não tolero tanto desaforo, tem mulher que só aprende quando o couro desce, pra gente ficar em paz, eu vou lhe dar uma sova, pois o rádio que eu comprei todo mundo já conhece.
Genival Lacerda está certo. Quando ele deu o radinho de pilha pra ela, só cabia pilha pequena, palito. Agora cabe pilha média e corre na cidade que tem cara enfiando até pilha grande.
Dá-lhe, Senador!

Radinho de Pilha
(Genival Lacerda)
Fui pra cidade do Rio de Janeiro
Trabalhei o ano inteiro e fiz até serão
A vida do Paraíba não foi brincadeira
De servente, de pedreiro pra ganhar o pão

Fiz economia, deixei de fumar
Comprei um rádio de pilha e mandei pro meu bem
Fiquei muito revoltado quando regressei
O rádio que eu dei pra ela, ela doou pra alguém

Mas ela deu o rádio
Ela deu o rádio e nem me disse nada, ela deu o rádio
Ela deu, sim, foi pra fazer pirraça, mas ela deu de graça
O rádio que eu comprei e lhe presenteei

Ela deu o rádio e nem me disse nada, ela deu o rádio
Ela deu, foi pra fazer pirraça
Ela deu de graça
O rádio que eu comprei

Eu sou honesto, sou trabalhador
Mas não gosto de deboche com a minha cara
Não vou enfeitar boneca "pros outros brincar"
Ninguém vai pintar o sete com esse pau-de-arara

Eu não tolero tanto desaforo
Tem mulher que só aprende quando o coro desce
Pra gente ficar empate, eu vou lhe dar uma sova
Pois o rádio que eu comprei todo mundo já conhece

Ela deu o rádio
Ela deu o rádio e nem me disse nada, ela deu o rádio
Ela deu, sim, foi pra fazer pirraça, mas ela deu de graça
O rádio que eu comprei e lhe presenteei

Ela deu o rádio e nem me disse nada, ela deu o rádio
Ela deu, sim, foi pra fazer pirraça
Ela deu de graça
O rádio que eu comprei e lhe presenteei
Para ouvir Radinho de Pilha, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (26)

Luiz Ayrão é sambista das antigas, portelense da mais alta estirpe. Um dos grandes poetas do samba. E corno - como todo poeta. Poeta de verdade não faz poeminha para a florzinha olorosa nem para as estrelinhas do céu. Poeta de verdade faz verso é para a buceta!
Poeta de verdade escreve com a pena do chifre embebida no tinteiro da desilusão.
Na canção Amor Dividido, Luiz Ayrão é o corno manso e conformado : "E pouco importa /Que por detrás daquela porta /Você divida o nosso amor". Pior que manso e conformado, Ayrão é o corno esperançoso. O corno que crê piamente que toda a sua compreensão para com a amada, que toda sua paciência e sua espera resignada, um dia, trarão a biscate em definitivo para o seu lado : "Pois eu sei que um dia não vai ter mais despedida/ Vamos ficar juntos pra toda vida/ E ninguém mais vai nos separar".
Vai esperando, corno, vai esperando...

Amor Dividido
(Luiz Ayrão)
Deixa amor
Que eu te aperte em meus braços
Que te sinta nos compassos
Da batida do meu coração

Quero amor
Me embriagar de desejos
Me afogar nos seus beijos
Num vendaval de paixão

Esqueça amor
Aquele mundo lá de fora
O importante agora
É nos amarmos com muito ardor
E pouco importa
Que por detrás daquela porta
Você divida o nosso amor

Pois eu sei que um dia não vai ter mais despedida
Vamos ficar juntos pra toda vida
E ninguém mais vai nos separar

Meu amor

em tempo : Como sempre, para ouvir Amor Dividido é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (25)

A cornaiada que lê o Marreta, sobretudo meu caro amigo Fernandão, já estava a reclamar da minha negligência para com a seção TCPCP. Deveras.
Volto a ela, então, com a carga toda, em alto estilo, com ele, ninguém mais ninguém menos que o saudoso Reginaldo Rossi e a composição de sua própria lavra e guampa, Aceito Tudo de Você (Dor de Corno), mais direto no feridão impossível.
Dor de corno faz bem pra qualquer coração, garante Rossi, o pai da matéria; ou, pelo menos, a mulher dele falou que ele era o pai.

Aceito Tudo de Você (Dor de Corno)
(Reginaldo Rossi)
Hoje, você veio me dizer que não quer mais
Continuar com esse romance entre nós dois
Te encher o saco e que eu tenho que aceitar
Eu aceito todos os caprichos de você
Eu faço tudo, tudo que você quiser
Eu só não posso é deixar de te amar

Eu vou tomar todos os porres que o corpo aguentar
Pra lembrar que um dia o meu grande amor
Me deu um pé na bunda sem qualquer razão
Mais não vou mover uma palha pra te esquecer
Por que eu te adoro eu amo você
Dor de corno faz bem para qualquer coração

Ah, eu sei você não gosta tanto mas de mim
E se tiver alguém que você tá afim
Não perca tempo vá correndo se entregar
E se por acaso esse alguém te maltratar
Eu tô rezando pra você voltar pra mim
Pois na distância meu amor aumentar mais

Eu vou tomar todos os porres que o corpo aguentar
Pra lembrar que um dia o meu grande amor
Me deu um pé na bunda sem qualquer razão
Mais não vou mover uma palha pra te esquecer
Por que eu te adoro eu amo você
Dor de corno faz bem para qualquer coração

Reginaldo Rossi no buteco, o habitat natural do corno.

domingo, 3 de julho de 2016

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (24)

Morreu o Zé Rico, sobrou o Milionário; morreu o João Mineiro, ficou o Marciano. Que, agora, se juntam e lançam o CD Lendas, com o repertório clássico das duas duplas. É material de qualidade pra corno nenhum botar defeito. É CD pra corno ouvir dando um lustro no chifre! Das 15 músicas, destaco aqui Solidão, do José Rico. É o corno que descrente, todo mundo fala pra ele que a mulher tá dando pra outro e ele não acredita. É o corno ateu!
Solidão
(José Rico e Cristovam Rei)
Alguém me falou que você me enganou
Eu não posso acreditar
Eu preciso saber se foi mesmo você
Que mandou me avisar

Eu preciso partir sei que não vou resistir
Essa solidão do amor para o meu coração (2x)

"Amor, eu gostaria saber se foi mesmo você
que mandou me avisar,
porque se for verdade..."

domingo, 3 de abril de 2016

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (23)

Biscate é artigo de luxo. Não sai barato bancar as vontades e os caprichos da puta, mas tem cara que gosta de ser mantenedor de vagabunda, se sente mais macho. Mas e quando o cara não dá mais conta de sustentar dos sonhos dela?
Fácil, pois corno sempre arruma um jeito para tudo : assume a cornagem e bota as ações do chifre para negociar na bolsa de valores, abre para o mercado de investimento, procura uma sociedade anônima, uma CIA LTDA, abre licitação, autoriza franquias da mulher.
É o corno-franquia! É o corno de Matriz ou Filial, o clássico de Lúcio Cardim, cuja autoria, muitas vezes, é erroneamente atribuída a Lupicínio Rodrigues, um de seus mais conhecidos intérpretes, o que, possivelmente, cause a confusão.
Matriz ou Filial já foi gravada por inúmeros intérpretes da MPB, de Jamelão a Chitãozinho e Xororó. A versão que eu mais gosto é a do eterno boêmio Nélson Gonçalves, se bem que ela adquire uma pegada mais de macho, mais de corno machucado mesmo, na voz da cantora Simone.
Matriz ou Filial
(Lúcio Cardim)
Quem sou eu pra ter direitos exclusivos sobre ela
Se eu não posso sustentar os sonhos dela
Se nada tenho e cada um vale o que tem?

Quem sou eu pra sufocar a solidão da sua boca
Que hoje diz que é matriz e quase louca
Quando brigamos diz que é a filial

Afinal, se amar demais passou a ser o meu defeito
É bem possível que eu não tenha mais direito
De ser matriz por ter somente amor pra dar

Afinal, o que ela pensa em conseguir me desprezando
Se sua sina sempre é voltar chorando
Arrependida, me pedindo pra ficar

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (22)

O bom e velho Jotabê sugeriu a canção "Tereza da Praia" como tema de mais um TCPCP. Tal obra-prima, de Tom Jobim e Billy Blanco, escudada por Lúcio Alves e Dick Farney, é realmente um dos hinos da cornagem nacional. 
Dois amigos se encontram e começam, cada um, a contar vantagem sobre sua mais recente conquista amorosa, de seu mais fresco abate. Eles vão descrevendo suas atuais musas e os detalhes são coincidentes demais. Ao fim da canção, do duelo poético e musical, eles concluem que estão comendo a mesma mulher, a Tereza da Praia. Pensam que eles brigam? Que saem na porrada? Que puxam a navalha? Nada disso. Decidem que a Tereza é da praia, não é de ninguém. Decidem compartilhá-lha irmanamente. 
É o corno solidário. É o corno comunitário. É o corno que acha preferível comer uma lata de doce de leite em dois do que uma lata de bosta sozinho.
Agradeço, como sempre, imensamente, a sugestão, caro Jotabê. Acontece que ela já foi publicada no Todo Castigo Pra Corno é Pouco (13). Mas para você não sair sem chumbo, postarei aqui a "Tereza da Praia" dos tempos modernos, dos infelizes tempos modernos. 
É uma versão bem-humorada da canção feita pelo saudoso humorista Serginho Leite, uma paródia adaptada ao mundo gay. Sim. Gay também é filho de deus. Gay também é corno. Viado também leva chifre. É a divertidíssima "Reginaldo da Praia". 
Reginaldo da Praia é um surfista de olhos verdinhos, bastante puxados, cabelos loirinhos, todo parafinado. Reginaldo da Praia, assim como sua precursora Tereza o era de Lúcio Alves e Dick Farney, é alvo da disputa entre Cauby Peixoto e Agnaldo Timóteo; melhor, de Aguinaldo Peixoto e Cauby Timóteo. 
Serginho Leite se caracteriza dos dois, veste-se feito uma pizza mezzo Cauby mezzo Timóteo e vai se alternado para a câmera conforme interpreta um ou outro. Genial.
Reginaldo da Praia (Serginho Leite)
(Timóteo canta) :
Cauby,
Arranjei novo amor no Leblon,
Que corpo bonito,
Que pele morena,
Que amor de surfista,
Amar é tão bom
Tão bom...
(Cauby canta) :
Timóteo,
Ele tem o nariz levantado,
Os olhos verdinhos,
Bastante puxados,
Cabelos loirinhos,
Todo parafinado...?
Esse é meu Reginaldo da Praia
(Timóteo canta) :
Se ele é seu, ele é meu também
(Cauby canta) :
Mas o verão passou todo comigo
(Timóteo canta):
Mas o inverno pergunta com quem?
(As duas bichonas entoam um dueto):
Então, vamos Reginaldo na praia deixar
Aos beijos do sol
E abraços do mar
Reginaldo é da praia
Não é de ninguém
Não pode ser seu
E nem tampouco seu também
Reginaldo é da praia
Não é de ninguém
De ninguém
De ninguém...

Para ver o vídeo, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.