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terça-feira, 10 de junho de 2025

Pequeno Conto Noturno (105)

 
02h11. Como diziam antigamente - pensa Rubens, ou nem pensa, simplesmente o pensamento o invade -, cheguei ao fim do pito. O fumo do cigarro, do temporizador da bomba-relógio que é a vida, há muito foi todo queimado. Não satisfeita, a vida, árbitro que se apraz do sofrimento, decretou acréscimos, prorrogações. 

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Pequeno Conto Noturno (104)

02h51. Madrugada de sábado. Vodka-tônica no copo. Uma pequena e de pouca potência caixa de som com conexão bluetooth na mesa de fórmica amarela lascada nos cantos. Um aplicativo de música aberto no celular. Rubens decide ouvir Vinicius de Moraes e Toquinho. Digita seu pedido no campo de busca do aplicativo e lança a sorte de seus ouvidos ao aleatório do algoritmo.

domingo, 19 de janeiro de 2025

Pequeno Conto Noturno (102)

00:52h. 
Rubens tranca a porta do apartamento com duas voltas na fechadura e acende a luz da sala (lâmpada ainda de filamento, 40 W), chegando da loja de conveniência com um fardo de latinhas e mais dois latões já gelados, para se distrair durante o tempo que as latinhas levarão a gelar.

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Pequeno Conto Noturno (101)

 
Por Dalila, Rubens cumpriu os doze trabalhos de Hércules - desceu ao Hades sem, no entanto, ascender ao Olimpo; imolou-se em esforços de proporções bíblicas.

sábado, 8 de junho de 2024

Pequeno Conto Noturno (100)

01:23h. Uma loja de conveniência de um posto de combustíveis qualquer. Todas são o perfeito carimbo uma das outras. São o mais próximo dos impessoais shoppings centers que Rubens se permite frequentar. Hoje, ou calculara mal a quantidade usual de bebida na geladeira, ou mal a voracidade de sua sede, ou mal a insaciedade de sua alma. Ou as três coisas.

sábado, 2 de dezembro de 2023

Pequeno Conto Noturno (97)

Rubens é de direita. Convicção forjada por fatos da vida real, temperada pelo esforço sempre mal pago e irreconhecido desde os seus 13, 14 anos, quando começou a pegar no batente. Rubens nunca teve tempo para utopias, para participar de passeatas e marchas inócuas e idiotas, para ficar fumando maconha de papo pro ar.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Pequeno Conto Noturno (94)

21h42. Rubens entra a passos largos no supermercado cujas portas se fecham às 22h00. É acompanhado pelos olhares de desgosto dos operadores de caixa, sempre a torcer pela ausência de retardatários feito Rubens. Mas eles sempre aparecem. A loja fecha sua entrada às dez da noite, mas os funcionários só largam do batente depois que o último dos clientes a entrar tenha feito suas compras e ido embora. Rubens já trabalhou em função correlata, sabe da frustração que é a chegada de um atrasadinho, sabe que poderá adiar o descanso de algum deles em excruciantes minutos. 

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Pequeno Conto Noturno (93)

03h07. Rubens sempre gostou de escrever cartas. Hábito que manteve, de forma contumaz, da adolescência até balzaquianas idades. Escreveu, enviou e recebeu em resposta mais de uma centena delas. Principalmente para o primo Leitinho e para o amigo Margá; algumas outras dúzias, talvez, para pequenos casos amorosos. Guarda ainda todas as que recebeu, em caixas de papelão protegidas por sentinelas de naftalina; tem até cópias de um tanto delas que enviou.
O que ninguém sabe é que Rubens já escreveu um sem-número de cartas que nunca foram enviadas, nunca foram entregues aos cuidados dos serviços postais. E ainda as escreve, amiúde. Tem a todas guardadas, também. Cartas que nunca foram sequer envelopadas, que dirá terem chegado aos olhos de quem foram dedicadas. Ele nunca as contabilizou para efeito de comparação, mas acredita serem em maior quantidade do que as que foram seladas e remetidas.
Ele as chama de as Pequenas Cartas Noturnas, e elas são a principal seção de sua particular Biblioteca do Sonhar, paralela à dos livros sonhados e nunca publicados.
Rubens as escreve, talvez, na esperança de que algum mensageiro noturno as façam chegar, se não às mãos, ao menos aos ouvidos adormecidos de seus destinatários. Talvez Hermes, talvez o corvo Matthew; melhor ainda se a coruja que pousava e feria de sabedoria o ombro de Palas Athena. Mas sabe que não. Mensageiros dos deuses estão cagando para as vontades e os sonhos dos mortais (assim como os próprios deuses). Até, às vezes, tem a impressão de que recolhem suas missivas, porém, nunca as entregam em seus corretos CEPs. Espalham-nas pelas ruas, para mais rápido esvaziarem suas sacolas e largarem mais cedo do eterno batente.
03h11. Rubens reabastece o copo com rum e se põe a escrever mais uma de suas pequenas cartas noturnas, mais uma que nunca receberá o carimbo dos correios, mais um delírio a ser preservado em naftalina nas estantes do Sonhar.
"Hoje, por acaso, como tudo de um pouco melhor que acontece na minha rotina, encontrei com Isaac e Odete. Não os via desde que saí de lá. Dois anos e pouco, portanto. Que pareceram menos, talvez pela pandemia do vírus chinês. Talvez por lembrar deles, de você, constantemente. Temos uma profissão de merda. Transformada em merda, propositalmente. Salvam-se dela os bons amigos que conseguimos recolher pelo caminho nada suave.
Paramos para um café. Café, café, é claro, você bem me conhece, tomaram eles. Pareceram-me que estão bem, tão bem quanto duas pessoas juntas há mais de vinte anos podem estar. Falamos sobre as boas coisas passadas; e de tristes atualidades. Falaram do inferno que ainda está por lá e me perguntaram a respeito do inferno para o qual me mudei. Disse-lhes que a aparente diferença é que, no inferno onde estou, o Capetão-Mor, ainda que o vejamos sempre a circular pelos corredores, não nos presta atenção, não nos fustiga o rabo com o tridente em brasa da burocracia. Mas que os condenados e as danações são os mesmos. Outra praia, mesmo mar, como disse o filósofo Gessinger.
E quase nos despedimos sem que eles tivessem falado sobre o que eu mais queria ouvir, de você. Durante todo o papo, fiquei a pensar em alguma maneira sutil de conduzir o assunto até você. Sutileza, eu? Já viu que não deu, né? Porém, quando estávamos já de pé, de saída, a acertarmos nossas contas no caixa, o Destino, por clemência ou crueldade, fez você surgir da boca do Isaac. Fiquei sabendo que você também não está mais por lá. Primeiro, fui eu, a abandonar o navio; agora, você.
Dizem muito da covardia dos ratos, os primeiros a abandonarem o navio aos primeiros sinais de naufrágio. Se por covardia, dizem da inteligência e da fina e crua percepção de uma realidade irreversível, admiro muito, pois, a covardia dos ratos.
Primeiro, fui eu. Agora, você. Deveras, aquele lugar perdeu mesmo todos os seus encantos e autenticidade. Todas as suas reservas de inteligência e de originalidade. Quem contará a história de lá? O Randolfo e a Concepção? Pãããããta que o pariu!!! A Babete, aquela cuzuda acéfala, que, também fiquei sabendo durante o café, parece ter assumido algum cargo uma gilete de espessura acima às custas de muito puxar o grelo da manda-chuva? Pããããta que o pariu!!!, de novo.
Aliás, tenho aqui, há algum tempo, um livro que muito gostaria de lhe entregar, mas não vejo vias confiáveis para isso. Sei que se você soubesse disso, perderia o sono de tanta curiosidade, tomaria - inutilmente - tonéis de chá de erva-cidreira para desfazer a ansiedade em nó górdio no seu peito.
Para a sua sorte, nunca saberá da existência do livro nem da minha vontade em lhe presenteá-lo; para o seu azar, nunca o terá, e é, de fato, um belo livro. Nesse caso, no seu caso, os pratos da balança do azar/sorte pendem a seu favor. Para a minha sorte, ele permanecerá comigo (repito, ele é um belo livro), e eu ficarei aqui a imaginar dezenas de histórias e de enredos de como fazê-lo chegar até você; para o meu azar, todos os meus planos são falíveis, e a entrega do livro e o nosso encontro nunca se darão. Só eu saberei da improvável possibilidade. Ou da provável impossibilidade? Nesse caso, no meu caso, nem é necessário dizer para qual lado pendem os pratos da balança do azar/sorte."
03h49. Rubens assina a carta e tampa a sua caneta Bic verde - as pequenas cartas noturnas, sempre as escreve em verde e/ou roxo. Mais uma dose e vou me deitar, decide Rubens. Dormir? Veremos.

sábado, 4 de junho de 2022

Pequeno Conto Noturno (92)

Sexta-feira. 05:52 h. Mal amanheceu, nesses dias já a flertarem com o inverno. O silêncio da manhã é eivado pelo barulho da emissão do gás carbônico liberado quando ele rompe o lacre do latão da cerveja.
Cedo demais para beber; o veredito unânime da moral rasteira e hipócrita do rebanho e dos bons costumes. Cedo para quem, cara-pálida? Um dos pontos da questão. Outro : ele não está bebendo, está comemorando. Ele poderia estar a soprar velinhas sobre um bolo enjoativo, ou a encher balões, ou a fazer churrasco com amigos; seria a mesma coisa, o mesmo conceito.
Prefere a cerveja : seu bolo, seus balões e os convidados de sua festa, todos juntos. E o único presente de que ele precisa.
Ao sair da passarela de concreto que o transpôs para a embocadura de uma praça malcuidada, ele dá o primeiro gole no latão. Levanta as vistas para o céu a enrubescer e o oferece ao primeiro raio de sol. Nem o sol, hoje, será capaz de tirá-lo do sério.
Ele conseguiu uma pausa de seu Inferno; não uma solução para ele, que essa não há, mas uma pausa de seu tormento, uma boa pausa, quase dois meses. Hoje, é o último dia de trabalho que a antecede.
Entorna, então, o latão com gosto. Uma velha, dessas que madrugam para lavar a calçada, a levar o seu cachorro afrescalhado para cagar na praça, o olha com severas reprovação e condenação. Não estivesse a levar a sua ratazana peluda pela coleira à sua mão direita, teria persignado-se, feito o pelo-sinal.
Ele ri, de canto de boca. Seu característico e quase que imperceptível orgasmo facial. E se lembra de um certo dr. House, que apostara, em certa feita, com seu amigo e grilo falante Wilson, que não era um viciado, que poderia tranquilamente passar uma semana sem o seu Vicodin, sem padecer de nenhum efeito de abstinência.
House, como macho das antigas que é, aguentou firme os sete dias da aposta, mas não sem passar por excruciantes martírios, tanto de ordem física como psicológica. Chegou a quebrar propositalmente os dedos da própria mão com o pistilo de um gral para que a dor da fratura se sobrepusesse à dor da abstinência. Findo o tempo da aposta, ele não teve outra opção que não fosse conceder a vitória a Wilson.
- Admito que sou um viciado -, disse ao amigo.
Wilson, inocente, puro e besta feito todo humanista, feito todo aquele que acredita no ser humano e na possibilidade de sua mudança e redenção, disparou o velho clichê :
- Bom, admitir que se tem um problema é o sempre o primeiro passo.
No que House :
- Eu admito que sou um viciado, não disse que isso é um problema.
Grande Gregory House, pensa ele. Entorna o resto do latão e o descarta, o deposita na forquilha de um oitizeiro plantado à beira do meio-fio.

domingo, 10 de abril de 2022

Pequeno Conto Noturno (91)

Rubens dá um gole em seu Guerra Fria e olha para a Lua.
Meia-Lua - ele nunca sabe se ela está a crescer ou a minguar (e quem é que sabe isso das mulheres?). Parecida com queijo meia cura, cortado ao seu diâmetro e exposto nas prateleiras do Mercadão Central.
Rubens olha para a meia-Lua e sabe que ele é a metade que falta a ela.
Sabe que a meia-Lua olha para ele e o vê meio-Rubens.
A meia-Lua sabe também que Ela é a metade que falta a ele.
Rubens entorna o resto do Guerra Fria e ri, e gargalha da eterna incompletude.
O que mais ele poderia fazer?
(e no toca-CDs, põe a Estrela do Mar, com Dalva de Oliveira).

quinta-feira, 3 de março de 2022

Pequeno Conto Noturno (90)

02:22 h.
A madrugada, antes reconfortante e esplendorosa, hoje em dia parece a Rubens uma tela de TV toda chuviscada e cheia de ruídos de estática, feito na época em que as emissoras de TV saíam do ar a uma certa hora.
Rubens não ouve a música a tocar no toca-CD.
Rubens não sente o gosto da bebida a escoar do copo e a lhe descer pelo esôfago.
Rubens não sente nem mesmo o torpor do sono que o seminocauteia, sentado à sacada, na velha banqueta de madeira empenada.

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Pequeno Conto Noturno (89)

03:11 h. Pelas contas de Rubens, só há o suficiente para mais duas doses de rum na garrafa; o pirata e o papagaio lhe sorriem, zombeteiros. De uns tempos para cá, nessas horas mortas, que são as únicas em que ele se sente um pouco vivo, Rubens deu para se lembrar de G.
Nunca a conheceu por outro nome, que não G., pensa Rubens. Nunca se encontraram de fato. Não habitavam a mesma cidade, nem mesmo a mesma unidade da federação; uma distância oceânica entre eles. Não obstante, travaram intensa relação.
Rubens entorna a antepenúltima dose de rum e se lembra de que se "conheceram" via um comentário deixado por G. em um de seus textos espalhados por aí, em uma de suas garrafas de náufrago que, vez ou outra, ele lança no ciberoceano. Garrafas que volta e meia alguém desarrolha e lê o conteúdo. Mas não há como partir em resgate de Rubens, ele nunca informa as coordenadas de sua ilha. Escreve não para ser resgatado. Apenas para reafirmar sua condição de náufrago.
G., portanto, encontrou Rubens por Acaso. Isso, para aqueles que preferem acreditar na comodidade do Acaso, ao invés de se lançarem ao entendimento da matemática da existência, das peças que as probabilidades nos pregam muitas vezes.
Ao primeiro comentário da G., sucedeu-se um de Rubens. E muitos outros depois desses, de ambos. Trocaram e-mails. Passaram a se enviar textos mais extensos, relatos, declarações, desabafos. Mais íntimos, em muito pouco tempo.
Não raro, em suas tardes ociosas, recorda-se agora Rubens a ir pegar nova dose de rum, acontecia dele ir verificar alguma mensagem de G. em sua caixa de e-mail e de G. também estar lá, verificando a dela. Trocavam, então, mensagens em tempo real. Seus e-mails transformados em chats particulares e exclusivos.
G. contou a Rubens que, quando mais nova (G. ainda era muito nova então, 26 anos; Rubens a bater nos 50), era da pá virada, praticamente uma Geni, do Chico. Já uma jovem adulta conheceu aquele que tornara em seu marido. Sujeito não tão belo, mas recatado e do lar. Viu nele uma chance de redenção, um jeito de sossegar o facho e mudar de vida, deixar os tempos de devassidão para trás, tornar-se uma "mulher direita".
E, segundo ela, conseguira atingir o seu intento, aquietar o seu furor uterino. Por alguns anos, conseguira apaziguar os seus instintos. 
Até conhecer os textos de Rubens.
O contato com os textos dele trouxeram de volta os seus lascivos demônios interiores. Os textos de Rubens, contou ela, fizeram rachar e ruir o verniz de bom moça de G., romperam com as amarras da camisa de força autoimposta à sua sexualidade, ao seu pendor para a orgia.
Um, então, virou confessor pornô do outro. G. contou a Rubens experiências nunca dantes relatadas a ninguém, peripécias sexuais em que ela evitava até mesmo de pensar se perto de outras pessoas, no receio de haver um telepata entre elas.
Rubens, idem, escavou fundo o seu baú e o seu calabouço de podridão, também contou a G. todas as suas perversões e atrocidades cometidas em uma cama. 
Ou que gostaria de ter cometido.
Porque, com o passar do tempo, algumas das aventuras da G. pareciam ser inventadas, ou recicladas, uma maneira, talvez, de não deixar morrer o assunto entre eles, de continuar a excitar Rubens e a si própria. Rubens também passou a inventar e a reciclar algumas das suas.
Esgotados, possivelmente, o repertório individual de cada um, passaram a fantasiar situações entre os dois. Entre os dois e mais um. Entre os dois e mais outra. E mais outros. E mais outras. Promoviam, nas tardes em que calhava de se "encontrarem", verdadeiras bacanais vespertinas. G. masturbava-se sempre, gozava umas tantas vezes. Rubens, menos.
Olhando para a penúltima dose já pela metade no copo e tentando fazer ela render com pequenos goles, Rubens se lembra de quando G. começou a lhe enviar fotos. Inicialmente, de rosto. Uma mulher belíssima, a G. Certamente, a mais bela que  já se apaixonara por Rubens, a mulher mais linda da cidade, do Bukowski. Rubens só não gostava quando ela teimava em usar lentes de contato verdes. Depois, G. passou, numa sequência óbvia, a enviar fotos nuas para Rubens.
Peitos bem fornidos, com a turgidez própria da idade, aréolas grandes e castanhas. Peitos que, ela segredou-lhe, adorava que chupassem de forma violenta, que chegassem mesmo a tirar sangue deles, gozava com a dor.
Falsa magra, a G. Carnuda nos lugares certos. Carnes tonificadas em horas de exercícios físicos. Rubens surpreendera-se, no entanto, com a primeira foto da buceta da G. Imaginara-a, até aquele momento, um senhor dum bucetão. Nenhuma imaginação poderia ter sido mais falha: uma vulva diminuta, a de G., pequenos e grandes lábios também de reduzidas proporções, lábios que, em algumas fotos, ela afastava com os dedos para revelar a entrada da sua buceta a Rubens, uma entrada estreitíssima. Quem não a conhecesse jamais poderia supor o quanto de rola ela era capaz de aguentar; até mais de uma ao mesmo tempo, inclusive.
G. enviou dezenas de fotos ao longo da relação deles. Que durou o quê?, tenta precisar Rubens a secar o resto do rum no copo, meses?, dois ou três anos? Fotos enviadas mediante a garantia de que seriam todas deletadas ao encerrar da conversa entre eles naquele dia, imediatamente. Trato que Rubens, cavalheiristicamente, sempre honrou.
Rubens deve ter mandado umas duas ou três fotos de rosto para G. nesse tempo todo. E uma única da rola. Tirada a muito custo com uma velha máquina digital com zero pixels de resolução, tomada emprestada a Calil.
Então, de uma hora para outra, ou o que pareceu a Rubens ter sido de uma hora para outra - muito provavelmente ela há tempos planejava e tomava coragem para o seu sumiço -, G. abandonou Rubens. Sem nenhuma explicação num primeiro momento. E durante muito tempo. Simplesmente, comunicou-lhe que não mais se falariam. Rubens insistiu durante um tempo, enviou-lhe e-mails, vários e-mails, estranhando a decisão. Nenhum foi respondido.
Meses depois, talvez já se julgando mais protegida, mais imunizada contra o contágio por Rubens, G. mandou um e-mail e se explicou.
Precisara pular fora, contou. Aquela relação deles estava consumindo grande parte do seu tempo, de seu pensamento, de suas ações. Sentia que não estava cuidando, dando a necessária atenção às pessoas de sua vida real, que estava prevaricando de seus entes próximos e queridos. E que aquelas conversas clandestinas com Rubens não só tinham feito reaflorar como também estavam deixando sem controle o lado negro de sua Força, lado contra o qual tanto lutara para domesticar. Era a hora de jogá-lo de novo a uma masmorra.
Rubens entendeu, é claro. Espantou-se, no entanto. Não julgava que estivesse a causar mal a G. Pelo contrário, que as conversas entre eles, que as fantasias e desejos compartilhados, pudessem fazer um grande bem a ela, como faziam a ele. Julgava que fosse uma maneira dela extravasar todas as suas taras, fetiches e perversões sem, necessariamente, levá-las a cabo na prática, sem ter que pular a cerca, sem precisar colocar em risco, inclusive, sua própria integridade física. G. gostava de coisas bem pesadas. Rubens julgava que as lúdicas putarias trocadas entre eles pudessem mesmo ter um efeito terapêutico. Enganara-se, de novo. Antes, a envenenavam.
Rubens nunca teve nenhuma dificuldade para separar o mundo real do virtual, mesmo quando a realidade deste último muitas vezes se imponha. Rubens sempre soube separar perfeitamente as diversas realidades. Ele é um no seu ambiente de trabalho; outro, quando está com os amigos; outro, com as  mulheres que teve; outro, no mundo virtual. Nenhum influencia ou interfere com o outro. Rubens se diz, com um misto de ironia e orgulho, um esquizofrênico funcional. Mas se o mesmo não se dava com a G., só lhe restava aceitar.
Servindo-se da última dose de rum na garrafa, Rubens pensa que não deveria ter honrado tanto assim o acordo com G. de sempre apagar as fotos dela. Queria, agora, ter guardado uma foto de rosto ao menos. E não teria sido uma deslealdade da parte dele, caso tivesse reservado uma foto para si. Na verdade, nada teria sido mais justo.
G., é verdade, também não ficou com nenhum foto dele. Mas ficou com algo muito mais íntimo e pessoal : a caligrafia de Rubens. Os garranchos dele em suas carnes.
Num certo dia, G. pediu a ele que copiasse à mão o poema o Pássaro Azul, do Bukowski, o fotografasse e o enviasse para ela. G., então, imprimiu o manuscrito de Rubens, levou-o ao seu tatuador (ela tinha várias tatuagens), cuja rola por vezes chupara, e pediu que ele decalcasse à agulha a caligrafia de Rubens, a primeira estrofe do poema copiado por ele, na região de suas costelas, que a letra de Rubens ficasse eternamente a guarnecer um de seus flancos. O esquerdo ou o direito? Rubens não se lembra.
G. guardou em suas carnes o que há de mais particular e intrínseco para Rubens, a caligrafia dele, o rosto com o qual ele se apresenta para o mundo, o retrato 3x4 que, se ele pudesse, estamparia em seu R.G.
"Quero ficar no teu corpo feito tatuagem..."

domingo, 16 de janeiro de 2022

Pequeno Conto Noturno (88)

Silêncio. Um silêncio de já uns 20, 25, 40 minutos. Um silêncio habitado apenas por respirações, pulsações, batimentos cardíacos e ronronares intestinais involuntários. Um silêncio de pensamentos a andar nas pontas dos pés. Que é das coisas de que Rubens mais gosta com Yrina. A possibilidade desse silêncio.
Rubens sentado, encostado na cabeceira da cama, brincando com os restos de três cubos de gelo na boca, buscando extrair-lhes qualquer rum residual, protelando em ir até a cozinha pegar outra dose, para não desacomodar Yrina, deitada, posição quase fetal, a usar a coxa direita de Rubens como travesseiro, a correr e a riscar as unhas por ela, a enroscá-las em seus pelos. Tanto quanto uma boa dose de rum, Rubens gosta de Yrina a repousar a cabeça em sua coxa, nas cercanias de sua virilha. 
Yrina é quem rompe o silêncio. Levanta a cabeça da coxa de Rubens e sobe até a orelha dele, passa com a boca e o nariz pela barriga, costelas e peito de Rubens, deixa rastros viscosos feito uma lesma preguiçosa e lasciva. Na orelha, dentes mordiscam o lóbulo de Rubens, e uma língua silva e saliva na porta de seu ouvido : 
- Posso ir lá, Rubens? Posso mexer naquele seu lugarzinho, que eu sei que você não deixa nenhuma outra mexer, nenhuma outra pôr os dedos?
Tinham acabado de dar uma boa foda, Rubens e Yrina. Uma bela foda. Nem havia como ter sido diferente. Rubens conhece todos os botões de Yrina a serem apertados - e em que sequência -, todas as alavancas a serem acionadas, todos os fios a serem puxados. E Yrina, há tempos, entregara seu manual de instruções a Rubens, o mapa de Dante de seus Céu e Inferno particulares. Rubens não consegue negar nada a Yrina. Nem quer.
- Posso mexer lá, Rubens, meu bem?
Rubens ri.
- Pode, pode sim, pode devassar meu cômodo mais secreto, meu recôndito mais reservado.
Yrina se põe de pé e, com os grandes e inigualáveis peitos a saltar no ar, vai até o guarda-roupas de Rubens, abre a porta, agacha-se (a Rubens é possível vislumbrar os pentelhos de Yrina pelo vale de suas nádegas) e abre a última de quatro gavetas, a que guarda todos os escritos e manuscritos de Rubens. Todos os seus contos, poemas, crônicas, rascunhos. Yrina lê tudo o que Rubens escreve. E ela, só ela. Mais ninguém.
Yrina pega um amontoado confuso de folhas e volta com elas para a cama. Dá um beijo em Rubens, corre a língua pelos lábios dele, passa-a por entre seus dentes e gengivas. Rubens acaricia os peitões de Yrina.
Rubens deixa Yrina com seus papéis, vai à cozinha e volta. Uma nova dose de rum para ele; uma cerveja long neck para ela.
- Só não vá esperando grandes coisas, acho que já escrevi o que eu tinha para escrever. Acabou.
- Sempre dá pra aproveitar alguma coisa - diz Yrina, e dá um longo gole em sua long neck.
Rubens beija o peito esquerdo de Yrina, brinca com o mamilo dela com a língua, dentro da boca. Rubens não consegue se manter longe daqueles peitões.
- Sai pra lá, velho safado - fala Yrina - deixa eu ler essas suas porcarias aqui.
Rubens volta a se sentar na cama, encostado na cabeceira, entornando o rum e olhando para Yrina a dissecar as suas vísceras expostas em caneta Bic.
Yrina seca a long neck e pede outra a Rubens, que aproveita para recalibrar o seu rum.
- É verdade - começa Yrina -, aqui tem uns 3 ou 4 bons poemas e um conto decente. Mas só isso, bons e decente. Você desenvolveu um estilo, uma técnica, um jogo e um repertório de palavras e associações que garantem que seus contos e poemas sejam sempre bons, não tem como você escrever uma merda muito grande. Quem não te conhece e lê isso aqui, pode até se impressionar, mas quem há tempos sabe de ti, decepciona-se um tanto, vê o quanto seus escritos estão sem força, sem virilidade, até. Parece que escrever virou para você uma coisa meio burocrática, Rubens.
- Pois é, acho a vida imita e contamina a arte.
Os dois dão bons goles em suas respectivas bebidas. Yrina entrelaça sua mão à de Rubens e faz os seus dedos dançarem com os dele; um tango desconjuntado, talvez.
- O que acontece - diz Rubens - é que eu sou um farsante, não tenho um pingo de imaginação. Tudo o que eu escrevo, tudo o que já escrevi até hoje, tem caráter puramente autobiográfico. Só sei escrever sobre o que acontece ou aconteceu comigo. Ou, num laivo máximo de inspiração, como eu gostaria que tivesse acontecido. E não passo daí. Não vou além disso. E, claro, reciclo a maioria das minhas histórias, tento fazer com que pareçam outras. E só. Não tenho muito como escrever algo inédito se não vivo nada novo. Não tenho como surpreender se eu próprio não mais me aventuro e me surpreendo.
- Preguiça de viver coisas novas ou a certeza de que não há mesmo mais nada novo a ser vivido? - pergunta Yrina e acena com a long neck vazia de novo.
- Acho que um pouco das duas coisas - diz Rubens -, a segunda a justificar um pouco a primeira.
Desentrelaça os dedos dos de Yrina, vai à geladeira e volta com outra garrafa para ela.
- E não acha um pouco triste tudo isso? Esse marasmo, esse seu stand-by frente à vida, meio que só esperando a morte chegar? - e Yrina puxa Rubens para perto de si, confundindo, dessa vez, as pernas dela com as dele.
- Acho, até acho triste, sim. Mas mais que triste, possivelmente inevitável, natural, entrópico, eu diria. Penso que depois dos cinquenta, e você logo, logo, chegará a eles, a gente troca a Vida por aquele canal de tv a cabo, o Viva, que só passa reprises e reapresentações de programas antigos. E nos damos conta de que gostamos mais destes do que de qualquer coisa nova que venha sendo feita.
- A Vida pelo Viva... até que é uma boa sacada, mas ainda assim triste pra caralho, derrotista, sei lá...
- Bom, veja o lado bom da coisa - diz Rubens -, se eu não estivesse sintonizado no canal Viva, provavelmente você não estaria aqui neste momento, sentada aqui nesta cama, uma outra, mais novinha e viçosa, estaria no seu lugar a alisar as minhas bolas.
- Velho filho da puta! Então, eu sou só uma novela requentada, né, seu puto?
Rubens gargalha.
- É. Mas das boas. Das antigas. Uma Roque Santeiro. Uma Vale a Pena Foder de Novo.
Yrina puxa Rubens e se beijam. Ela afunda os dedos nas coxas dele, ele apalpa os peitos dela; Yrina avermelha, afogueiam-lhe as faces, o pau de Rubens começa a dar novos sinais de vida.
- Quem sabe eu não possa te dar algo para melhorar essa sua falta de inspiração, esse mais do mesmo dos seus textos? - fala Yrina.
- É?
- É, te dar algo novo em que pensar...
- Novo?
- Não exatamente novo, mas bem pouco usado nos últimos tempos.
- Ah, é?
- É...
Yrina desenrosca suas pernas das de Rubens e se deita de bruços. O rosto virado para os pés da cama e a bunda para Rubens. Pega um travesseiro, coloca sob a barriga e fica com o rabo bem empinado para Rubens. Afasta ligeiramente as pernas.
Rubens sabe que comer aquele cu não o fará escrever nenhum novo grande épico.
Ainda assim, cospe nos dedos e espalha a saliva pelo cuzinho de Yrina, que se contrai ao toque. Espalha por fora e por dentro.
Rubens sabe que comer aquele cu não o fará escrever nenhum outro "Pássaro Azul".
Ainda assim, escarra na palma da mão e lambuza a cabeça do pau com aquele muco.
Rubens sabe que comer aquele cu não o fará escrever sequer um outro "Um Cara Triste".
Ainda assim, Rubens se posiciona no rego de Yrina.
Ainda assim, a monta.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Pequeno Conto Noturno (87)

02:14 h. Toca o telefone (fixo) de Rubens. Ele não sabe por que mantém ainda essa linha.
- O tempo resolve tudo o que não fomos capazes de, Rubens, o que não quisemos, o que não pudemos, o que não tivemos coragem, o que julgamos a mudança não valer o esforço e as consequências - dispara Calíope.
- Bêbada e relendo Alice no País das Maravilhas, é? A questão é : quanto tempo?
Calíope ri do outro lado da linha. Rubens emborca o resto do rum já aguado e faz dançar as residuais pedras de gelo dentro da boca, com a língua. Antes, as trituraria entre os dentes, as moeria em seus molares, tentando tomar-lhes de volta a alma do rum que absorveram; hoje, melhor não arriscar seus dentes velhos e quebradiços; que a alma do rum se perca em parte, que evapore aos poucos; como a sua.
- O segredo é sabermos esperar, Rubens, mantermos como mantra que nada é para já, que amores serão sempre amáveis.
- Tempo, tempo, mano velho, falta um tanto ainda, eu sei, pra você correr macio?
- Também acho ela um tesãozinho. Não acredita mesmo em contos de fada, né, Rubens?
- Só nas fadas.
Pede que Calíope espere um pouco na linha. Reabastece o copo com rum.
- O segredo é mantermos nossos corações de monges, platônicos e estóicos. Acha que seu coração aguentará esperar, Rubens, meu bem? Acha que seu coração aguentará o tempo necessário para que o tempo decida por você?
- Coração? O fígado, minha linda, é a minha preocupação.

sábado, 31 de julho de 2021

Pequeno Conto Noturno (86)

A mesma praça 
Os mesmos bancos
Os mesmos postes de sódio
A mesma nostalgia.
 
A mesma loja de conveniência contígua
A mesma cerveja barata
Os mesmos canteiros órfãos de crisântemos
A mesma escadaria.
 
Sento-me ao seu primeiro degrau.
Bebo.
Quedo-me ali por uns trinta minutos.
Rever e brindar
A velhos fantasmas
(eu decido o dia do meu Dia de Finados).
 
Mas eles não aparecem
(apenas os mesmos morcegos na mesma jabuticabeira).
 
E é quando eles mais me assombram :
Quando não vêm me assombrar.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Pequeno Conto Noturno (85)

04:23 h, no visor vermelho do anêmico, artrítico e com canais dentários a tratar rádio-relógio de Rubens. Rubens foi acordado por vozes. Mas como? Se há tempos dorme com protetores auriculares a servir de travesseiros para os seus tímpanos, daqueles de espuma expansível cor de laranja? Rubens foi despertado por luzes. Mas como? Se, igualmente, amordaça os olhos com aquelas máscaras negras, que não a do Zé Keti? Rubens foi posto em vigília pelo ranger de seus dentes, pelo seu bruxismo. Mas como? Se, também, não de hoje, exorciza suas fadas e bruxas de Salem com uma placa de silicone moldada à sua arcada dentária inferior?
Rubens nunca ambicionou roupas e calçados de grife, carrões importados, relógios de ouro, modelos loiras e peitudas (não se tivesse que pagar por elas). Nunca ambicionara nada de material em especial. Até que assistiu ao filme Demolidor, o Homem sem Medo, com Ben Affleck. Rubens, então, desejou violentamente uma daquelas câmaras de isolamento, um daqueles esquifes metálicos de supressão de estímulos externos em que o espancado, lacerado e automedicado de opioides (quis os opioides também) Matt Murdock conseguia dormir (será que descansava?) após uma noite como o Demolidor, o mestre-cuca da Cozinha do Inferno; com seus super-sentidos, enfim, livres da algazarra do mundo.
Filme, esse, inclusive, dos mais injustiçados pelo público e pela crítica, dos mais subestimados da transposição da mitologia Marvel para os cinemas. O próprio Ben Affleck o renega, diz-se arrependido de tê-lo feito. A Marvel nem o considera parte de sua filmografia oficial. Rubens o tem como o melhor do gênero já realizado. O mais fiel aos gibis, à origem da personagem e aos seus propósitos ao vestir o uniforme. A cena do ringue em que Jack Murdock manda às favas o seu empresário mafioso e vence a luta que combinara perder, seguida de sua execução em um beco escuro, é puro John Romita Jr. As igrejas góticas e seus esplêndidos vitrais é puro Frank Miller. A duplicidade de ser advogado durante o dia e executor durante a noite é regada com a dose certa de angústia, remordimento e culpa católica do personagem. Dispensável, só a luta com a Elektra num playground infantil, as coreografias erótico-marciais no gira-gira, o tango de Shaolin nas gangorras. Mas o Demônio também precisa se divertir. Um puta dum filme, considera Rubens.
Quis intensamente uma daquelas cápsulas de alheamento do mundo. Mas nunca procurou saber se algo do tipo existia ou não, se era apenas adereço cinematográfico. Ainda que existissem, esses sarcófagos de pequenas mortes programadas e temporizadas, Rubens não teria numerário para adquirir um deles.
Improvisou com os protetores auriculares, a máscara negra e a placa bucal. Sua versão agonizante dos Três Macacos Sábios. Nada ouço, nada vejo, nada falo.
No entanto, Rubens foi acordado por vozes. Por quais vozes? Uma quimera delas, pareceram a Rubens. Uma figura de três aparelhos fonadores. Virna, Yrina, Selene.
Não obstante, Rubens foi despertado por luzes. Por quais luzes? Outra quimera. A leitosa da Lua Cheia, a azul-nicotina do Paulistânia em noite de cover do Raul, a da cozinha de sua casa, decomposta em arco-íris de tons de café recém-coado em coador de pano.
Ainda assim, Rubens foi posto em vigília pelo bruxismo. Por quais sortilégios? Mais que outra quimera, uma Hidra de Lerna, neste caso, uma cabeleira de Medusa. Sabe-se lá de quantos feitiços, mandingas, malefícios, simpatias e trabalhos de amarração, Rubens já não fora alvo?
Rubens retira a máscara negra e a placa bucal. Mantém os protetores auriculares - os mais difíceis de serem recolocados. Na geladeira, três latões de cerveja e uma garrafa de rum; com três ou quatro doses remanescentes, avalia Rubens.
Rubens pega o rum. E emborca.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Pequeno Conto Noturno (84)

Rubens, às 03:34 h da manhã, entornando a oitava dose de Guerra Fria (vodka + coca-cola, o melhor dos dois mundos), a ouvir "Gota d'água", "Mil Perdões", "Eu te Amo", "Atrás da Porta" e a invejar, sem querer mal, e a querer ser, sem deixar de ser-se, o Chico, reabastece a tigela de ração das gatas, duas senhorinhas não muito bem comportadas de 13 anos de idade, para não deixá-las em involuntário jejum caso durma até o sol a pino, embora saiba que seu sono nunca ultrapassa o horário do Globo Rural - não importa em que horas se deite, se renda, nem o quanto de álcool há em seu sangue a estofar feito plumas de ganso o seu travesseiro.
Na verdade, não teme acordar tarde e deixar as suas meninas ("olha as minhas meninas, as minhas  meninas, onde é que elas vão...") em dieta não consensual. Teme, ao mesmo tempo em que deseja, não acordar. Morrer. Na verdade, não quer suas confidentes ronronantes tenham de se alimentar de sua carne indigesta e amarga até que algum vizinho, incomodado pelo mau cheiro, acione a polícia, os bombeiros, o IML.
Anda pela sacada com o copo na mão. Apalpa e verifica a terra dos vasos do manjericão e da hortelã - ver se não está tão seca -, a terra dos vasos dos cactos e das suculentas - ver se não está tão molhada -, por fim, a dos vasos das samambaias e das orquídeas - calibrando, quando julga necessário, as umidades atlânticas propícias aos seus vicejares.
Senta-se, acaba com a dose, mastiga, tritura e engole as pequenas pedras de gelo residuais do fundo do copo. Fecha o caderno. Põe a tampa na caneta. Desiste de mais um poema que ficou sem desfecho, que ficou pela metade. Antigamente, as ideias lhe fluíam feito patinadores no gelo a estas horas da madrugada; hoje, são aleijados de muletas tentando andar em terreno de mangue. Mais uma ideia a não ser retomada e concluída. Mais um natimorto para o cemitério de suas gavetas.Vai à cozinha, prepara a nona Guerra Fria, volta à sacada ("passas em exposição, passas sem ver teu vigia, catando a poesia que entornas no chão..."). 
Pensa em Virna, em Yrina, em Selene. Desejaria tê-las ali com ele, naquele momento? Desejar? O que tem o Desejo a ver com isso? As pessoas, pensa Rubens a emborcar o copo, dão muita importância e prestam excessiva vassalagem ao Desejo. Superestimam-no e sujeitam-se a Ele como se não fosse possível não. Por que o sussurar do Desejo tem que, obrigatória e forçosamente, ser respondido com uma ação na busca e na captura de seu objeto? Não tem. Ter o Desejo não implica em ter de saciá-lo.
Há tempos que Rubens aprendeu a ignorar e dar as costas ao Desejo, esse ser andrógino de olhos dourados e irmão do Sonho e da Morte, a ouvir os Seus conselhos como aos de um louco.
Desejaria tê-las em lugar da placidez muda e do silêncio de placenta do envelhecer de suas gatas e do brotar de suas plantas? Ou tê-las somadas, em ruído dissonante, à inerte paisagem?
Não. Não mais. E ainda que desejasse, riria do Desejo. Diria ao Desejo que ele nada mais é que um Delírio.