O colossal transatlântico espacial - ou melhor dizê-lo um transgaláctico? - Avenue 5 segue firme e seguro em seu luxuoso cruzeiro de turismo pelas estrelas sob a intrépida e infalível batuta do capitão Ryan Clark, interpretado pelo britânico Hugh Laurie, o eterno Dr. Gregory House.
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2023
quarta-feira, 3 de novembro de 2021
ELA
Podemos nos apaixonar por um sistema operacional? E por que não? Não somos todos, sistemas operacionais? Se acondicionados e enclausurados em um HD ou em um cérebro, qual a diferença? Se sistemas operacionais à base de carbono ou de seu primo, o silício, qual a importância? Não somos todos, cérebros? Não existimos se não enquanto pensamento? Não somos o que pensamos, e também o mundo como o vemos?
Pode, um sistema operacional, se apaixonar por nós? Desenvolver emoções próprias e genuínas, além das que lhe foram programadas? Nós desenvolvemos emoções próprias e genuínas? Que emoções são deveras nossas, quais parte de nossa programação, biológica e social? O que de fato sentimos além do que nos foi ensinado a sentir?
O que chamamos de emoções não são tão-somente interações físico-químicas que nos causam ora bem-estar, ora desconforto? Há dois tipos de reações químicas. As exotérmicas, que liberam energia : que bem podemos interpretar como alegria, amizade, amor, paixão, êxtase. E as endotérmicas, que absorvem energia : talvez as sintamos como tristeza, melancolia, frustração, depressão. Não são, os próprios pensamentos, fagulhas elétricas geradas por reações químicas?
Pode, um sistema operacional, desapaixonar-se? Ou polienamorar-se? Sentir forte interação por vários outros sistemas operacionais, simultaneamente, ter vários sistemas-gêmeos?
Não somos todos, insaciedade? Não somos todos, Desejo?Há tempos que eu já colocara o filme ELA (Her) na minha lista de filmes a assistir. Em parte, porque, na época de seu lançamento (2013), ouvi boas críticas a seu respeito; nem me lembro agora do que diziam as críticas, apenas que eram boas. E em parte, na maior parte, por o elenco contar com a apetitosa Scarlett Johansson.
Sobre o filme, duas notícias. Uma boa e outra ruim.
A boa : o filme é bom pra caralho! Difícil, de uns bons tempos para cá, um filme (ou um livro, uma música etc) me surpreender. Que esse é o maior mal da velhice : já vimos tanto e tantas versões das mesmas coisas que não mais nos surpreendemos. ELA me surpreendeu. Pensei que assistiria a um filme "sessão da tarde", a uma comédia romântica, talvez com leves toques dramáticos, provavelmente com um final feliz.
Porra nenhuma! O filme é uma porrada existencial e filosófica do começo ao fim. Quinze rounds com Muhammadi Ali a nos socar com as luvas dos nossos próprios abismos e fantasmas íntimos. Um nocaute na concepção prepotente que fazemos do que é ser ou não humano. Final feliz? E há final feliz para nós? Por quanto tempo seríamos felizes vivendo num definitivo final feliz?
Assistam à ELA. Como dizem os viadinhos de hoje em dia : eu super recomendo.
A notícia ruim : a suculenta Scarlett não aparece em um único momento da película. Em nem uma ceninha sequer. Nem um rápido peitinho. Ela é apenas a voz do Sistema Operacional Samantha (puta nome de travesti), por quem Joaquin Phoenix se apaixona; e ela, Samantha, por ele. Aliás, o Joaquin Phoenix, de bigodão, está uma mistura do Tom "Magnum" Selleck com o Belchior. Pãããããããta que o pariu!!!!
Não vos deixarei, no entanto, na mão, caros leitores. A Scarlett não aparece em ELA, mas nunca deixa de aparecer por aqui, no Marreta.
sábado, 23 de novembro de 2019
JOaKin : Achei uma Bosta!!!
Já aos primeiros comentários a respeito, não simpatizei com ele, o Coringa, o Joker de Joaquin Phoenix, o qual passarei a chamar, pejorativamente e para diferenciá-lo dos outros verdadeiros Coringas, de JOaKin.
Soube, via primeiras críticas que me caíram aos olhos, que haviam mudado e mexido em sua origem; agora, depois de assisti-lo, digo que chafurdaram em sua origem.
Não se mexe em um clássico! Pode-se até, de tempos em tempos, dar-lhe uma renovada, uma repaginada, como diriam os afrescalhados de plantão. Pode-se acrescentar novos elementos à história e à mitologia do personagem, mas não mexer no básico. Pode-se criar e contar histórias nunca contadas, adicionar ao clássico adereços e penduricalhos, histórias de bastidores nunca reveladas; enfim, de tempos em tempos, pode-se dar ao clássico uma nova roupagem.
Uma nova roupagem, uma nova vestimenta, um novo verniz, uma nova superfície. Nunca, jamais, em tempo algum, no entanto, mudar-lhe o cerne, o âmago, a quintessência. E que maior pedra angular do personagem que a sua origem?
Mexer na origem é matar o clássico, é parir outro personagem, ainda que insistam que é o mesmo. Não é. Outro homem tivesse engravidado a sua mãe, ou, nem precisaria ter sido outro homem, outro espermatozoide de seu pai, dentre os milhões possíveis, tivesse fecundado o óvulo que lhe deu origem, você seria você? Não. Não seria.
Não fui ao cinema assistir a JOaKin, quando de seu lançamento. Não suporto aglomerações humanas; cinemas, os quais muito já frequentei, hoje me causam sufocamento e claustrofobia. Assisti ao filme ontem. Baixei-o da internet. Com boas qualidades de imagem, som e legendas. Só não com boa qualidade de filme. Mas, aí, a culpa não é dos valorosos piratas e ripadores deste nosso Brasil dantes mais varonil.
O JOaKin não é o Joker, não é o Coringa. Em nenhum momento das excruciantes duas horas de filme, vi o Joker em JOaKin. Vi um sujeito desequilibrado, transtornado, psicótico e cheio de autopiedade. Mas e o Coringa, onde estava? Em nenhum lugar.
Para começar, o JOaKin não foi dado à luz da loucura do mundo por conta da queda e imersão em um tanque cheio de um gosmento produto químico, do qual emergiu tantã e lelé da cuca e já, e em definitivo, com a pele descolorida e branca, os cabelos verdes e os músculos faciais ligados à boca deformados, irreversivelmente, na forma de um perpétuo sorriso - como foi estabelecido e sacramentado por Bob Kane, Jerry Robinson e Bill Finger e, depois, fielmente acatado e reproduzido por Tim Burton e Jack Nicholson.
O JOaKin nasceu e enlouqueceu a partir de uma sucessão de percalços e de desgraças pessoais que se abateram sobre a vida de um tal de Arthur Fleck (de onde tiraram a porra desse nome?), um comediante fracassado de stand up. O mundo foi batendo, batendo em Arthur - como bate em todos nós - até que, num belo dia, ele quebrou. E surgiu o JOaKin. O JOaKin surgiu da inabilidade de Fleck em revidar, ou, ao menos, absorver, as pancadas que o mundo nos dá cotidianamente. O JOaKin pinta os cabelos de verde com tintura Wellaton, maquia a cara com pasta d´água e desenha com batom o deformado sorriso.
Origem de merda. Plágio do caralho. História muitíssimo melhor contada, inclusive, no inigualável Um Dia de Fúria (1993), dirigido por Joel Schumacher e estrelado por Michael Douglas, um outro clássico. Exponencialmente melhor contada.
Sem contar que entra por uma linha de pensamento muito da mal-intencionada, que se propõe a justificar o porquê do sujeito ter se tornado um bandido, um assassino, que se propõe a transformar o canalha em vítima, em coitadinho, em produto do seu meio, que se propõe a granjear e a promover a simpatia e a empatia da sociedade - a verdadeira vítima - para com o seu algoz. Quantos não passaram pelas mesmas, ou piores adversidades, e se mantiveram íntegros?
Daí em diante, como não podia deixar de ser, o filme só piora.
O JOaKin ri desbragada e desrespeitosamente frente a situações não tidas como engraçadas, tidas como sérias, cruéis, trágicas, repulsivas e assustadoras - exatamente igual ao Joker. Mas não ri, diferentemente do Joker, porque acha graça delas, não ri devido ao seu peculiar senso de humor, que vê e extrai comicidade da calamidade e do caos. O JOaKin ri desbragada e desrespeitosamente, simplesmente, porque não consegue deixar de rir.
Inventaram lá para o JOaKin uma condição médico-psiquiátrica que lhe estoura o riso a qualquer momento, em qualquer lugar, em qualquer situação, sem aviso nem contenção possível : irrefreável, angustiante. Inventaram lá para o JOaKin uma espécie de Síndrome de Tourette, que faz jorrar um vomitório de gargalhadas ao invés de palavrões, insultos e xingamentos.
O riso louco do Joker é desbragado, desrespeitoso e, sobretudo, prazeroso, muito prazeroso, um orgasmo histriônico para o Coringa. O riso insano do JOaKin é desbragado e desrespeitoso, porém, torturante para ele. Não há nenhum prazer na risada do JOaKin; há angústia e consternação, mesmo remorso e culpa. Mais uma vez, querer fazer o bandido de vítima?
E a cereja deste bolo de merda : há a tentativa de estabelecer um grau de parentesco, um vínculo consanguíneo entre o JOaKin e o Batman; no caso, o jovem Bruce Wayne, à época em que se passa o filme. Há a tentativa de fazê-los irmãos de sangue. Meio-irmãos, por parte de pai.
Há, e sempre houve, nos quadrinhos, uma relação estreita, simbiótica e indissociável entre o Coringa e o Batman, como fossem as duas faces do mesmo dólar de prata, como se a existência de um houvesse convocado e justificado e fosse condição sine qua non para a existência do outro. Jack Napier, assaltante pé de chinelo, caiu no tanque de produtos químicos ao tentar fugir do Batman, e se tornou no Coringa; pode-se dizer que Batman o criou.
Há versões que dizem que foi Jack Napier, em uma tentativa desastrada de assalto, quem matou Thomas e Martha Wayne, os pais do jovem Bruce Wayne, trauma que levou o menino a jurar, sobre os corpos dos pais, que dedicaria sua vida ao combate ao crime, e tornou-se o Batman; pode-se dizer que Jack Napier criou o Batman, que iria recriá-lo como Coringa.
Sempre houve, entre os dois personagens, essa relação estreita, essa codependência de suas origens. Mas irmãos? Ora, vão à merda.
Segundo o filme, Arthur Fleck é filho bastardo de Thomas Wayne, pai de Bruce, concebido na época em que a mãe do futuro JOaKin trabalhava como empregada na Mansão Wayne. Ao longo do filme, tal ligação consanguínea, confidenciada, às portas da morte, pela mãe a Arthur, é desmentida por Thomas Wayne, que conta a Arthur que a mãe era uma psicótica com delírios sobre a realidade, que estivera, quando Arthur era criança, internada no Asilo Arkham e tal. E que Arthur nem era filho legítimo da própria mãe, que havia sido adotado por ela. E tirou, Thomas Wayne, o seu cu fidalgo da reta da paternidade de Arthur.
JOaKin vai investigar os desmentidos de Wayne. Vai ao sanatório Arkham e tem acesso a documentos e registros que comprovam a versão de Wayne. Mas vai saber? Não poderia, Thomas Wayne, o homem mais poderoso financeira e politicamente de Gotham, ter a tudo forjado para não reconhecer o bastardo? Para alguém com seus recursos, nada mais fácil que ter comprado psiquiatras que lavrassem laudos falsos a respeito da saúde mental da mãe de Arthur Fleck. Nada mais fácil que ter comprado a cumplicidade de médicos e enfermeiros e internado à força o seu caso extraconjugal. Nada mais fácil que ter submetido a moça a sessões de eletrochoques e, quiçá, a uma lobotomia. Nada mais fácil que obter um certificado falso de adoção. A ideia do parentesco foi lançada e, ainda que desmentida, ficou a pairar no ar. Talvez para ser usada numa futura sequência do filme. Que, garanto e adianto, não verei nem sob tortura.
Transformar a rivalidade de Coringa e Batman numa eterna rixa de ódio entre irmãos? Acho que esta história também já foi contada. Salvo engano, os nomes dos irmãos eram Caim e Abel e ela figura na tal da Bíblia, livro de questionável qualidade literária.
Um conselho : se querem brigas entre irmãos e, assim como eu, preferem os quadrinhos à Bíblia, fiquem com Thor e Loki.
Onde está o grande filme do ano? A película tão incensada pela crítica especializada? E, a pergunta mais relevante de todas, onde está o Coringa, o Joker? Não está. Não o vi. Vi o JOaKin.
Para mim, Coringa por Coringa, foi muito mais Coringa, e tem muito mais o meu respeito, o Cesar Romero, da icônica e avacalhada série Batman, de 1966. Aquela do Pow!, Zap!, Sock!, Biff!, Kapow!
quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
Hoje é Dia de Sala Especial, Baby
Seus olhos brilharão em festiva nostalgia, caro leitor das antigas do Marreta, você que já está na faixa etária dos 45 anos para mais, quando eu revelar o tema desta postagem.
Sua memória, tal e qual a minha, uma fita Basf de ferro já desgastada e desmagnetizada pela vida e pela lida se acenderá em leds a sinalizar as estradas vicinais do passado. Você que não se lembra nem do que comeu ontem (ou quando foi a última vez que comeu alguém) terá reativadas as mais recônditas de suas memórias : a memória afetiva e, sobretudo, a memória punhetiva.
O assunto, hoje, é, rufem os tambores : a Sala Especial.
Lembrou dela, né? Claro que lembrou. Com seus dois cérebros; com sua massa encefálica e com sua massa fálica. Se não ficou em riste, ao menos uma meia-bomba, tenho certeza, a lembrança lhe provocou.
Aos mais novos, cabe aqui um breve esclarecimento histórico.
A Sala Especial era um dos principais - se não o principal - carros-chefe da programação da TV Record dos fins da década de 1970 a meados da de 1980. Era a atração semanal da TV mais aguardada pelos punheteiros deste Brasil dantes mais varonil. Um respiro de luxúria em uma época em que a necessária e terapêutica pornografia era artigo escasso. Época em que, só a lhes dar uma ideia, revistas como a Playboy não podiam exibir a genitália nem os bicos das tetas das gostosas.
A Sala Especial exibia a nata, o suprassumo da vasta produção da pornochanchada brasileira sempre às sextas-feiras no horário das 23:30 h (embora sempre começasse depois da meia-noite) e, geralmente, após a Sessão Faixa Preta, dedicada a filmes de kung fu, gênero de filme então muito em voga. Que é disso que o macho das antigas gosta, de pancadaria e de buceta.
A Sala Especial era o horário nobre da TV Record. O Fantástico dos punheteiros.
Porém, nem tudo eram flores. Quando o filme começava a esquentar, quando, finalmente, parecia que veríamos uns peitinhos, uma bucetinha, ou uns amassos mais ousados, a cena era cortada. Ou entravam os comerciais, ou a cena era dirigida para uma tomada externa, o calçadão de Copacabana, o centro de São Paulo, uma bucólica fazenda etc.
Esta era a grande sacanagem da Sala Especial : não mostrar a sacanagem.
E não era só isso. Não era só esperar chegar a sexta-feira, ligar a TV e pronto. Nada disso. Assistir à Sala Especial não era atividade simples e tranquila. Envolvia toda uma preparação, uma estratégia quase que de guerra e estávamos sempre sob grande estresse.
Éramos adolescentes, morávamos com os pais, e a putaria não era aceita e liberada como é hoje. Para assistir à Sala Especial tínhamos que estar sempre atentos para burlar a vigilância e a censura materna - muito piores que as do Geisel e as do Figueiredo.
Primeiro, chegado o grande dia, tínhamos de esperar (e torcer muito para) que os pais fossem dormir, o que nem sempre acontecia. Depois, uma vez os genitores em seus justos e merecidos sonos, não podíamos deixar que o som da TV - um gemido mais gozoso de uma atriz - os acordasse e os alertasse do que estávamos a assistir. Fechávamos, pois, a porta que dava para o corredor e que separava a sala dos quartos e dos banheiros. Mais : pais dormindo, porta da sala fechada, havia ainda o risco de um dos queridos genitores se levantar para ir ao banheiro, ou acordar com algum barulho na rua e aproveitar para dar uma fiscalizada na sala. Assim, assistíamos à Sala Especial grudados ao aparelho de TV, para que, ao menor ruído no corredor, trocássemos rapidamente de canal; é, meus caros, na época, controle remoto era item de ficção científica, o negócio era no dedo mesmo, nos botões analógicos e barulhentos da TV, a cada troca de canal era um clec, clec, clec desgraçado. Desenvolvi, inclusive, uma elaborada técnica para trocar de canal sem produzir barulho nas teclas.
E tudo isso, para quê? Para quase vermos um peitinho? Uma sombra de peito, um mamilo eriçado visto na contraluz, feito em um teatro de sombras, já nos dava inspiração para a punheta da semana inteira. Apesar de todo o risco e da pouca recompensa, não desistíamos : na sexta-feira seguinte, estávamos todos lá de novo, a postos.
E todos aqueles peitinhos e aquelas bucetinhas que nos foram negados ao longo dos anos? Para onde iam depois que a cena era cortada? Onde ficavam? Por onde andarão todos eles?
Então, ontem, ao ligar a TV no canal Netflix, surgiu a sugestão de um filme recém-colocado no catálogo do canal : "Histórias que nosso cinema (não) contava.
Li a sinopse e meus olhos marejaram. Ali, bem à minha frente e ao toque do meu controle remoto. Ali estavam todos eles, os peitinhos e as bucetinhas não nos mostrados na Sala Especial.
O filme-documentário foi engenhosamente montado apenas com cenas de vários filmes de pornochanchada das décadas de 1970 e 1980, cenas que foram cortadas não apenas da Sala Especial, mas também dos cinemas em que tiveram suas exibições. Cenas estirpadas das películas pelo departamento de censura da época, por motivos moral e/ou político.
Costuradas em ordem cronológica, as cenas não apresentam apenas os peitinhos e as bucetinhas há tanto escondidos de nós. Embora este seja o fio condutor do filme - os peitinhos e as bucetinhas -, ele pretende também montar um painel social e político do Brasil do "milagre econômico".
Tanto que, caro leitor, você terá de resgatar aquela velha paciência do passado, aquela paciência de atirador de elite em campana à espera do alvo, a paciência de quando assistia à Sala Especial, para passar pela primeira meia hora de filme, a partir do quê, peitinhos, bundinhas e bucetinhas começarão a balouçar e a pulular pela sua tela.
Peitos das antigas. Sem silicone. Cada um de um formato. Cada um de um tamanho. Uns mais em pé, outros menos. Uns mais caídos, outros menos. Uns mais rosados, outros mais morenos. Todos apetitosos. Destaques para Vera Fischer e Sandra Bréa no auge de suas gostosuras
Além das gostosas, outra tônica do filme são algumas falas dos atores. Falas que fariam arrepiar os pelos das pernas e dos suvacos das feministas. A exemplos : dois amigos olhando para uma cuzuda na praia, comentam : com um rabo desses, eu vivia de renda, diz o primeiro; e ficaria rico, conclui o segundo; dois outros amigos estão a apreciar o derrière de uma mulata e um deles fala : se bunda pagasse imposto, essa mulata tava falida; e, a melhor de todas, dita pelo depois galã global Rubens de Falco, o Leôncio de A Escrava Isaura : "vocês, mulheres, é que são felizes, já nascem com um talão de cheques entre as pernas".
Pããããããããta que o pariu!!!!! Perto disso, o que hoje é considerado politicamente incorreto é um escoteirinho bem comportado.
O filme foi montado com cenas de alguns dos clássicos da pornochanchada nacional : A Super Fêmea, As aventuras amorosas de um padeiro, Amadas e Violentadas, Cada um dá o que tem, o Corpo Devasso, o Enterro da Cafetina, Histórias que Nossas Babás não Contavam, Os Mansos, Palácio de Vênus, A Ilha das Cangaceiras Virgens, Elas São do Baralho etc.
Abaixo, cenas de dois dos grandes campeões de audiência e de punhetagem da Sala Especial.
A Super Fêmea; com Vera Fischer
As Histórias que Nossas Babás Não Contavam; com Adele de Fátima, ex-mulata do Sargentelli, no papel de Clara de Neves, com direito a sete anões bem-dotados e tudo. Pããããta que o pariu!!! Repito, perto disto, o que hoje chamamos de politicamente incorreto é nada mais que um tímido e pudico coroinha.
Devo confessar, no entanto, que apesar de muito ter apreciado os peitinhos e as bundinhas censurados, alguma coisa pareceu faltar. Algumas coisas. Primeiro, faltaram os meus 14 anos. Depois, faltou a espera pela sexta-feira, a expectativa, faltaram a tensão e a orelha sempre em pé para não ser flagrado. Faltou até a TV Telefunken, em preto-e-branco, à válvula e com suas teclas barulhentas.
Enfim, faltaram todas as coisas que o despotismo do tempo nos cortou, todas as coisas as quais a ditadura do tempo censurou.
segunda-feira, 16 de julho de 2018
A Antena
"Uma cidade sem voz, onde só a cantora sem rosto pode falar."
Pura poesia em preto-e-branco.
Sem som. Repleta de fúria e significado.
Uma ode à palavra.
Um tango frenético e lascivo de luz e sombra.
Uma sinfonia executada em uma velha máquina de escrever.
Ousou ir, e foi, muito além de Orwell e 1984, de Welles e Cidadão Kane.
O tipo de filme para o qual o cinema foi inventado.
O tipo de filme do qual eu gosto, e que já tinha até me esquecido de.
sábado, 21 de fevereiro de 2015
Ao Birdman Aninhado em Cada um de Nós (Ou:As Minhas Sinceras Desculpas a Michael Keaton)
Assisti a Birdman. Por acaso. E improvavelmente. Assistia muito a filmes em minha infância, adolescência e substancial parte de minha idade adulta. Arriscava-me em filmes russos, catalãos, escandinavos, iranianos, vi muita coisa boa, muita coisa ruim, também. Arriscava-me. Tinha tempo para me arriscar. Nunca fui cinéfilo, desses chatos que sabem o nome do diretor, o ano da filmagem, o autor da trilha sonora, o nome do contrarregra, do iluminador etc; fui um grande assistidor de filmes, somente. Hoje, assisto-os de forma cada vez mais rarefeita. Um pouco por falta de tempo, um pouco, falta de paciência, e muito pela incipiente velhice, fase em que temos definidas nossas preferências e desagrados, já estabelecemos do que gostamos e do que não. Não arriscamos nosso escasso tempo remanescente em duas horas de algo do qual poderemos não gostar; preferimos rever, reler, reouvir; que a velhice não quer atribulações, adrenalina, sobressaltos ou coração saindo pela boca, a velhice quer apenas mais tempo para ser velha.
Assisti a Birdman. Por acaso. Estava a saltar por 180 canais de mais do mesmo, a sacizar pela paisagem imutável da TV a cabo, e parei num canal em que alguém comentava algo sobre Birdman, essas entrevistas, esses making ofs que passam entre os intervalos dos filmes, coisa rápida, 10, 15 minutos, e já o peguei da metade para o final. De forma que, ao assisti-lo, não sabia que era obra do cultuado diretor Iñárritu, muito menos que fosse um dos favoritos ao Oscar. Tanto melhor. Tivesse sabido previamente, provavelmente não o teria assistido. Outro preconceito de velho que trago comigo desde que era jovem : se ganha o Oscar, não pode ser bom.
Assisti a Birdman. Por acaso. Principalmente por curiosidade : pela primeira vez, olhei para Michael Keaton, o protagonista de Birdman, e não vi a sombra do morcego a pairar por sobre a sua face; pela primeira vez, olhei para Michael Keaton e não o associei ao inexpressivo Bruce Wayne, de Tim Burton. Sim, Bruce Wayne de Tim Burton; hoje percebo que a canastrice que Keaton imprimiu a Bruce Wayne nunca veio de suas habilidades (ou da falta delas) como ator, sim da visão deturpada de Tim Burton de como deveria ser o semblante de um milionário fútil e leviano. Maldito seja Tim Burton. Vi o envelhecido Keaton e nenhum bat-sinal estampou-se no céu. Algo havia mudado ali.
Assisti a Birdman. Baixei o filme e o assisti. E gostei (repito : sem saber de que porra de diretor era e que fosse um dos favoritos à estatueta da Academia). Gostei do começo ao fim. No começo, apesar de Keaton (velhos preconceitos são difíceis de demolir); do meio para o fim, por causa de Keaton. Registro aqui minhas mais sinceras desculpas a Michael Keaton.
O mote do filme não é dos mais originais, antes pelo contrário, é a recorrente e aflitiva indagação a respeito da decripitude humana, seja ela física, mental, moral, emocional ou profissional. Keaton é Riggan Thomson, ator que angariou fama e fortuna na pele de Birdman - um personagem de quadrinhos adaptado às telas dos cinemas -, e que caiu em ostracismo ao recusar o papel para estrelar o quarto filme da franquia, para tentar se dedicar a trabalhos mais sérios e significativos, conquistar o reconhecimento como grande ator, e não ser lembrado apenas como uma celebridade do entretenimento.
O filme começa com um já envelhecido Riggan Thomson em um momento de decisiva encruzilhada existencial, numa puta sinuca de bico, na hora do ou vai ou racha. Riggan Thomson apostou todas as suas fichas, tudo o que restou dos dólares de seus dias de glória, na adaptação de uma peça teatral, da qual é produtor, diretor e protagonista, e que ou lhe trará o buscado reconhecimento como ator, ou lhe arruinará por completo.
Ao longo do filme, Thomson tem a companhia luxuosa de ninguém mais ninguém menos que o próprio Birdman. Nos momentos de percalços e contratempos da produção e execução da peça, Birdman voa à volta e assombra Thomson, a mau agourá-lo e a tentar demovê-lo de seu objetivo, a tentar convencê-lo a voltar a ser o Birdman; não voltar a ser, mas convencê-lo de que ele é o Birdman, de que sempre o foi.
Ora Birdman se manifesta apenas como voz, ora como corpo. Em alguns momentos, Thomson cede à pressão de Birdman, às suas lembranças de um áureo tempo, parece mesmo prestes a jogar a toalha, sua realidade mistura-se aos seus delírios e reminiscências, Thomson e Birdman fundem-se, confundem-se. A ponto de, a exemplo, em uma das cenas mais belas do filme, Thomson ter a percepção de que está mesmo a voar por entre os desfiladeiros de arranha-céus de Nova York a caminho do teatro onde irá se apresentar, quando, na verdade, está a realizar o trajeto a bordo de um táxi. Pura esquizofrenia. Da mais tocante e poética.
Muitos viram em Birdman uma relação direta com a carreira do próprio Michael Keaton : alçado ao firmamento de Hollywood pelos filmes Batman e Batman, o Retorno, o ator nunca mais igualou tal sucesso. Haveria em Birdman, portanto, uma dose deliciosa e irresístivel de autoironia, de autodeboche, uma evisceração de Keaton e a consequente exposição em praça pública de suas entranhas, de seus fracassos. E sempre há um grande público para a desgraça alheia.
Mas acredito que não tenha sido essa a origem do inusitado êxito alcançado por Birdman - a morbidez em se consolar com o infortúnio de outrem, tampouco a arte que imita a vida, que imita a arte etc.
E sim porque todos nós, sobretudo os homens, mais ainda os acima dos 40 ou 50 anos, fomos Birdman um dia, por um tempo; e sim porque também já tenhamos tido nossos nunca repetidos sucessos de bilheteria. Aquela fase da vida em que tínhamos mais amigos, divertíamo-nos mais, rendíamos barbaridade em nossos estudos, fazíamos mais planos, comíamos mais mulheres. Aquele período do qual, quando estamos hoje em nossos raros e necessários momentos de solidão e contemplação, nos recordamos e dizemos : bons tempos, bons tempos... Só que chega a hora em que temos que recusar o quarto filme da franquia, em que temos que virar as costas a Birdman : tchau, Birdman, divertimo-nos muito, sou-lhe muito grato, mas tenho que ir cuidar da vida, trabalhar, pagar as contas, amadurecer, casar, criar os filhos, bye-bye, so long, farewell, Birdman, fly, robin, fly. Mas o Birdman não voa para longe, fica nos arredores, nas sombras do quarto, atrás das portas, nos interstícios do guarda-roupas e, sobretudo, em nossas gavetas. E naqueles nossos momentos de fraqueza, de guarda baixa, Birdman vem nos assombrar, deixa disso, diz-nos Birdman, largue de tanta chatice e seriedade, vamos dar uma voadinha por aí, beijar umas nuvens e cagar em alguns telhados. E todos bem sabem da saudade que temos das nuvens e dos telhados.
Para alguns, o Birdman pode ter acontecido aos 15, 18 anos; para outros, aos 30; aos 40; para outros, que afirmam nunca terem sido Birdman, o Birdman pode estar a acontecer no presente tempo, e ser, portanto e por ora, imperceptível. Só sabemos do Birdman, que fomos Birdman, e damos real valor a ele, quando nossas asas perdem sua efetiva função; só nos damos conta de que voávamos quando a dura, áspera e gravítica realidade do chão se impõe como nossa última estação.
Ainda e talvez : o que julgamos ter sido nosso Birdman pode apenas ter sido o ovo do Birdman; tomado erroneamente, em nossa azáfama de fazer a vida se cumprir e se definir, pelo próprio pássaro.
Foi o caso do personagem de Keaton no filme. O Birdman, a celebridade aclamada e ovacionada, foi apenas o ovo do verdadeiro Birdman, do verdadeiro voo, do ator completo e acabado. O fracasso, o ostracismo, o descrédito de público e de crítica, o aprender a lidar com isso - e mesmo a esquizofrenia - foram a ideal bunda de galinha que chocou o ovo, que o burilou, lapidou.
Ou, talvez, e muito provavelmente, não seja nada disso. Talvez nem seja eu a escrever nesse momento, talvez seja meu Birdman, de asas desfraldadas e libertas, pela madrugada e pelo álcool.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
Mickey "Balboa" Rourke
Em Rock Balboa (2006), o último filme da série de seis sobre o boxeador consagrado e imortalizado por Sylvester Stallone - ou melhor, sobre o boxeador que consagrou e imortalizou Sylvester Stallone -, deparamo-nos com o garanhão italiano aposentado há décadas dos ringues, proprietário de uma cantina em que serve massas e antigas histórias de boxe aos seus clientes e a bater na casa dos sessenta anos.
Um encadear de contingências (quem quiser detalhes que veja o filme) põe Balboa frente a uma nova chance - a última - de voltar aos ringues. Contra o jovem campeão Mason Dixie, um campeão legítimo, saído das ruas e tudo o mais, porém, sem muito carisma e, principalmente, sem adversários à altura que legitimem a posse de seus cinturões em campo de batalha, que lhe proporcionem um batismo de suor, sangue, supercílios desbeiçados, maxilares triturados e retinas descoladas, o que torna suas lutas desinteressantes e as coloca sob suspeita de serem arranjadas, marmelada pura.
Rocky aceita o convite, volta a treinar - aquela coisa de subir escadaria, de socar quarto traseiro de boi em gélidos frigoríficos, com Eye of the Tiger a tocar ao fundo -, e faz luta das mais decentes e combativas contra o jovem Dixie, dá mais trabalho ao jovem detentor do título mundial dos pesos-pesados que todos os adversários anteriores dele, juntos.
Balboa aguenta firme os doze rounds, como cada um fosse uma façanha de Hércules, beija, faz Dixie beijar a lona por várias vezes e perde por pontos, em decisão apertada dos juízes. O campeão, incrédulo ao começo do combate e surpreendido ao seu final, agradece a Balboa pela luta de macho e recebe a gratidão de Balboa pela chance do último combate, de um encerrar digno de carreira, de poder sepultar de vez fantasmas do passado e outras viadagens e salamaleques só permitidas aos verdadeiros machos.
Lembro-me que, à época do lançamento de Rocky Balboa, a crítica bateu pesado em Stallone, mais que Apolo, o Doutrinador, Clubber Lang e Ivan Drago. Mesmo para um filme de ficção, Stallone, desta feita, exagerara, um sessentão voltar aos ringues e encarar de igual para igual um jovem campeão no auge da forma, na ponta dos cascos, era por demais absurdo. Até para Hollywood.
Ou melhor, só para Hollywood, só para o cinema, que é a cópia borrada, sem graça, formatada e politicamente correta da vida. Um sexagenário enfrentar um jovem só não é plausível na ficção e na sétima arte, terreno em que a lógica e a coerência são necesssárias. A vida real não se pauta por nenhuma espécie de lógica, manda a coerência às favas. A arte tem que ter manter uma coerência, a vida não.
Há duas semanas, a vida imitou a arte, que é vulto formado em espelho fosco da vida. A sexagenária vida desafiou a jovem arte, subiu com ela ao ringue. E lhe deu um belo dum cacete. Feito os personagens de A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen, o Balboa de Stallone fendeu a tênue barreira dimensional entre a telona do cinema e a realidade e tomou corpo entre nós. Na figura única, tresloucada, psicótica e grotesca de Mickey Rourke.
Aos 62 anos de idade, vinte anos depois de ter abandonado os ringues pela segunda vez, o ex-galã de 9 e 1/2 Semanas de Amor (um dos filmes mais bregas de todos os tempos), o cara que lambeu Kim Basinger de cabo a rabo (principalmente o rabo), voltou a lutar, enfrentou o jovem Elliot Seymour, de 29 anos, e derrotou-o. Por nocaute, no segundo round. Numa clássica porrada no fígado.
Derrotou! E não simplesmente, feito Balboa, aguentou o castigo do jovem adversário e conseguiu chegar capengando ao último assalto, o que já seria chamado, pelos politicamente corretos de plantão, de "vitória moral". Rourke não está nem aí para vitória moral, nem para a moral.
Tudo bem que Elliot Seymour não é nenhum virtuose dos ringues, nenhum campeão mundial. O jovem batido por Rourke ocupa a 265ª posição no ranking do boxe mundial e só venceu uma de suas dez lutas como profissional, ou seja, é um zé mané, um pau de bosta.
Mas até aí, se Elliot Seymour nunca foi um Mason Dixie, Mickey Rourke, muito menos, foi um Rocky Balboa. Ainda que Rourke colecione apenas vitórias e empates em suas carreiras amadora e profissional - 13 vitórias em 13 lutas como amador e sete vitórias e dois empates como profissional - sempre atuou nos baixos escalões do boxe, nunca foi do primeiro time, nunca subiu ao ringue escoltado por Don King. De semelhantes níveis técnicos, portanto, Seymor, com trinta e três anos a menos que Rourke, deveria tê-lo estraçalhado.
Deveria... Mas acontece que Rourke é Rourke. É daqueles sujeitos cujo espírito parece ter reencarnado em época errada. Rourke se sentiria muito mais à vontade num campo de chachina viking, decapitando o inimigo com um pesado machado e depois indo a uma taverna, descansar, beber e dançar junto à fogueira com uma ruiva gostosa e carnuda. Rourke sentiria-se muito mais vivo e satisfeito numa planície do Pleistoceno, a rachar crânios dos recém-evoluídos Homo Sapiens com um porrete feito de um fêmur de mamute.
Mickey Rourke não tem paciência para civilidades. É o cara que prefere sangrar e se quebrar num ringue do que, a exemplos, enfrentar uma fila de banco ou de mercado, esperar em casa pelo encanador, renovar a carteira de motorista, discutir um problema conjugal e outros inimigos imateriais, que ele não pode esmagar.
Quando as aporrinhações da civilização começam a lhe pesar, Rourke volta aos ringues. Onde, apanhando ou batendo, o que tem que fazer é claro e objetivo, de solução rápida e definitiva, e o inimigo, reconhecível e palpável.
Abaixo, Mickey Rourke, ao fim da luta com Elliot Seymour, sendo declarado vencedor pelo árbitro da contenda. Sessenta e dois anos de idade, corpinho de 60 e cara de 113 anos.
Quantos aos filmes de Mickey Rourke, não percam tempo com 9 1/2 Semanas de Amor, um soft porn. Nas telas, Rourke é encontrado em sua melhor forma em filmes como O Selvagem da Motocicleta, Coração Satânico, Barfly (em que interpreta Henry Chinaski, um alter ego do beberrão Bukowski), Harley Davidson e Marlboro Man, Homeboy, Johnny Handsome, O Lutador e Sin City.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Rock Balboa vs. Jake LaMotta (Ou : Os Velhinhos Se Divertem)
Não tem nada de Muhammad Ali x Joe Frasier, nada de Rocky Marciano x Joe Louis, nem de Éder Jofre x Harada, tampouco de Mike Tyson x Evander Holyfield.
A luta que passará a figurar como o grande embate do século, deste e do passado, de toda a história do boxe, aliás, será a de Rocky Balboa, o Garanhão Italiano vs. Jake LaMotta, o Touro Indomável. E haja coice, chifrada e testosterna.
Sylvester Stallone, 67 anos, e Robert de Niro, 70, se enfrentam nos ringues da telona do cinema em Ajuste de Contas. Não vestirão, dessa vez, o couro dos boxeadores que eternizaram, Rocky Balboa (da hexalogia Rocky) e Jake LaMotta (de O Touro Indomável), respectivamente.
A ideia de dois setentões num ringue pareceu estranha até a Stallone, que encarnou Rocky Balboa pela última vez em 2006, quando completava 60 anos. Disse : "Não tinha intenção de voltar ao ringue em outro filme de boxe. Eu no ringue? Nesta idade? Isso não teria a menor credibilidade, afinal estou chegando aos 160 anos. E o que aconteceu? Bem, Robert De Niro me telefonou".
Depois de muita conversa, o garanhão italiano concluiu : "O boxe, afinal, é uma metáfora da vida. A vida te derruba. O que faz uma pessoa ser bem-sucedida é ela conseguir se levantar de novo. O que realmente me atrai em roteiros hoje é uma mensagem de segunda chance."
O boxe é uma metáfora da vida... Pããããta que o pariu!!! Só por essa fala já dá para antever a papagaiada que vem por aí. Puro chavão, pura filosofia barata - aliás, o único tipo que há.
Stallone é Henry "Razor" Sharp e de Niro, Billy "The Kid" McDonnen, arqui-inimigos que ganham a chance de voltar a calçar suas luvas e se enfrentar três décadas depois de seu último confronto. Provar, definitivamente, qual o melhor dos dois.
Não é um filme de boxe, garante Stallone, é sobre o envelhecimento, e traz, garante o ator, até uma mensagem, a de que você não precisa entregar os pontos só porque envelheceu. Puta mensagem! Também não é um filme sobre um homem massacrar o outro, são biografias, histórias de vida, de dois homens frustrados com o término mal resolvido de suas carreiras, homens que querem recuperar um nível emocional. Pãããta que o pariu!!! Filosofia e psicologia a serviço dos parachoques de caminhão!!!
Chavão puro, lugar-comum até não poder mais, saudosismo e sentimentalismo dos mais rasteiros. Mas não é disso que o cinema vive? Não é disso, e por isso, que as pessoas vivem?
A idade avançada dos dois lutadores é explorada massivamente nas piadas do filme e, óbvio, as referências aos clássicos "Rocky - Um Lutador" e "Touro Indomável" são constantes. E inevitáveis. E obrigatórias, o público sairia decepcionada se não as houvesse.
Ajuste de Contas parece ser um longa-metragem de clichês A começar dos próprios protagonistas, que hoje são clichês de si mesmos.
Robert de Niro não é mais o ator de Taxi Driver, de o Franco Atirador, de o Touro Indomável, de o Cabo do Medo, de Os Bons Companheiros, ator dos mais versáteis e plásticos que já passaram por Hollywood : é só Robert de Niro, e é Robert de Niro quem as pessoas pagam para ir ver, e ele que se recuse a sê-lo, fica sem emprego.
Robert de Niro não é mais o ator de Taxi Driver, de o Franco Atirador, de o Touro Indomável, de o Cabo do Medo, de Os Bons Companheiros, ator dos mais versáteis e plásticos que já passaram por Hollywood : é só Robert de Niro, e é Robert de Niro quem as pessoas pagam para ir ver, e ele que se recuse a sê-lo, fica sem emprego.
Stallone também não é mais o ator de Rocky, ou de Rambo, é só Stallone. Se bem que nesse caso, justiça seja feita, Stallone nunca foi ator de nada, nunca interpretou sequer uma personagem no cinema. Os atores eram o Rocky e o Rambo. Eles é que interpretaram o Stallone nas telas. Stallone foi interpretado seis vezes por Rocky Balboa e quatro vezes por John Rambo. Nesse aspecto, a carreira de Stallone é mais coerente e sólida que a de de Niro, não houve decadência em Stallone.
Não tá no gibi o que vai ter de velhinho com ilusões de eterna juventude enfrentando fila no cinema, de bengala, de andador, de fralda. Filme de autoajuda para a terceira idade. Campeão de audiência nos DVDs dos asilos. Muitos da terceira idade não conseguem nem limpar a própria bunda, e Stallone e de Niro ficam aí, pondo-lhes caraminholas na cabeça, dizendo que podem resgatar isso, aquilo e aquiloutro de suas existências, que podem ter uma segunda chance e lutar um último e decisivo round de suas vidas. Segunda chance, depois dos setenta? Só se houver reencarnação.
Se eu vou assistir a Ajuste de Contas, o filme que promete ser o maior amontoado de besteiras do ano? Pãããããta que o pariu!!!! É claro que eu vou!!! Quem resiste aos canastrões Rocky e Jake LaMotta, a Stallone e de Niro? Quem resiste à maior luta desde Freddy Krueger x Jason? E, principalmente, quem resiste em não querer saber do resultado desse combate?
Alguém arrisca um palpite? Eu acho que dará empate. E que depois da luta, depois de resolvida a treta entre eles - essas viadagens de macho que tem que provar que é melhor que o outro -, os dois vão sair pra tomar cerveja, encher a cara, exercitar a incontinência urinária.
terça-feira, 6 de março de 2012
O Cine São Paulo
Faço a pé o meu caminho para o trabalho.
Só com isso, "contribuo" muito mais para com o planeta e o meio ambiente do que um exército de ecologistas militantes em seus carrões, esse bando de nazistas verdes filhos das putas.
O ecologista é o gordo em eterno regime. O cara come, sozinho, uma pizza grande com bordas recheadas de catupiry. Com coca diet, porém. Para aplacar a culpa.
O ecologista, como todos nós, usufrui de todas as benesses e comodidades de uma sociedade virulentamente industrializada, capitalista e predadora; contribui também para que ela seja assim através de seu consumismo. Mas usa sacola retornável ao fazer suas compras, separa a porra de seu lixo para a coleta seletiva, usa detergente biodegrádavel, papel reciclado etc.
A sacola retornável e a coleta seletiva são a coca diet do ecologista. Não valem de porra nenhuma. Apenas aplacam a consciência culpada do sujeito, auxiliadas pela burrice inata a ele.
Claro que não ando a pé pelo bem do planeta, merda nenhuma. Assumo tranquilamente a natureza destrutiva e perniciosa de minha espécie.
Ando a pé porque me faz bem. Se contribui para o oxigenação do planeta, eu não sei, mas que oxigena pra caralho o meu cérebro, isso oxigena. E meu cérebro é o meu mundo, o meu planeta.
Tenho quatro rotas para o trabalho, entre as quais me alterno ao longo da semana; às vezes, mesclo essas rotas e elas se tornam doze, dezesseis, vinte.
Li, em algum lugar, que não é saudável, para o cérebro, mantermos a rotina de um mesmo trajeto. Mudar constantemente de caminho, obriga o cérebro a prestar mais atenção ao derredor, a trabalhar mais, manter-se mais atento e, em suma, mais ativo.
Li, em algum lugar, que não é saudável, para o cérebro, mantermos a rotina de um mesmo trajeto. Mudar constantemente de caminho, obriga o cérebro a prestar mais atenção ao derredor, a trabalhar mais, manter-se mais atento e, em suma, mais ativo.
Na minha rota de número dois, passo em frente a um prédio morto, no velho centro da cidade, que foi, outrora, o imponente Cine São Paulo, localizado no térreo do edifício mais antigo da cidade; se não, o segundo.
O seu letreiro de neon ainda está lá, quebrado, sem nenhum neon a lhe correr nas veias; o guichê da bilheteria está no mesmo lugar, sem a placa com o horário das sessões e o preço do ingresso ao alto, e sem a bilheteira a nos cobrar a carteirinha de estudante a propósito da meia entrada e da verificação de nossa idade; o carpete da entrada, do qual bem me lembro, felpudo e azul, apresenta-se uma lixa de cor indecifrável; o balcão de doces, cujo corpo de polido vidro nos permitia divisar jujubas e Mentex em suas entranhas, está rachado de rugas, macilento, amargurado.
Guardo boas recordações do Cine São Paulo, e da época em que ele e mais outros onze cinemas se espalhavam pelo centro da cidade, antes do advento dos hediondos e impessoais shopping centers.
Foi na sala escura do cine São Paulo que assisti ao clássico Star Wars, em 1977 - sala com cheiro de cinema (as salas, hoje, não cheiram mais a cinema, tem o mesmo cheiro que o banheiro dos shoppings em que se localizam).
Um tremendo choque, um tremendo de um bom choque, o primeiro filme da primeira trilogia de George Lucas. Nada havia como, ou parecido, ao que víamos na grande tela do cine São Paulo, era algo totalmente inédito. Exceção concedida aos nossos sonhos, nunca havíamos visto carros voadores e espadas laser a se acenderem.
Durante muito tempo, no recreio da escola, discutimos de que maneiras eram feitos cada um dos truques do filme, aventávamos as mais absurdas hipóteses. A imaginação de George Lucas foi um incentivo e exercício às nossas.
Até hoje, quando, por acaso, vejo trechos do primeiro episódio de Star Wars, a lembrança do cine São Paulo é inevitável. E, ainda que pudesse ser, evitá-la por quê?
Com o declínio do velho centro e a migração insana para os shopping centers, o cine São Paulo e seus onze companheiros adoeceram; vítimas de um vírus epidêmico, definharam, agonizaram e morreram. Uns mais rápido que outros.
O cine São Paulo e o cine Comodoro resistiram bravamente, tornaram-se cinemas pornôs, como último recurso, como tentativa de um último fôlego, uma sobrevida quase digna de seus áureos tempos.
Já era a decadência, sem muita elegância. Ainda assim, reservo boas lembranças também dessa fase do cine São Paulo.
Em tempos em que a internet sequer era sonhada, tampouco o acesso irrestrito à pornografia que ela nos proporcionou, o cine São Paulo tornou-se um oásis de bundas, bucetas e peitos; eram tempos em que o próprio - e já extinto - videocassete era muito pouco acessível e difundido.
Vi grandes clássicos do pornô no cine São Paulo, Garganta Profunda, O Diabo na Carne de Miss Jones, toda a série Taboo Americano.
Eram dias mais inocentes dos cinemas pornôs, bem antes deles se transformarem nos pontos de prostituição masculina que são hoje.
Geralmente, íamos em grupo de três ou quatro amigos, na sessão das 20 horas. Antes, comíamos um lanche no Xis (à época, o hambúrguer mais barato da cidade) e passávamos em uma banca para comprar uns gibis de super-heróis, que colecionávamos assiduamente. Já em casa, cada um na sua, lembrávamos das cenas do filme e socávamos uma bela bronha.
Hamburgão, gibizão, pornozão e punhetão... Éramos felizes. E bem sabíamos disso.
Hoje, sempre que passo pelo túmulo do cine São Paulo, ergo um brinde de rum imaginário à sua memória, às nossas memórias.
Se eu rezasse, faria-o para que a alma do cine São Paulo repousasse em paz por toda a eternidade. Rezasse, faria-o fervorosamente pela sua demolição, seu honroso funeral. Rezasse, cairia de joelhos na intenção de que seu prédio jamais se torne mais uma dessas igrejas evangélicas, que é o pior que pode acontecer com a alma de qualquer um.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
O Lutador
O escuro da tela se desfaz sobre um mural de recortes de jornal.
A câmera segue uma única trajetória por sobre as notícias dos desenlaces dos combates, trajetória única com dois sentidos: crescente cronologicamente, 1987 a 1989, e descendente na extensão física do mural bem como no aspecto dos êxitos do lutador, do auge ao nocaute, e salta 20 anos, do mural para um vestiário e cai sobre as costas velhas e reumáticas de Randy "The Ram", o das fotos dos recortes dos jornais.
A câmera segue uma única trajetória por sobre as notícias dos desenlaces dos combates, trajetória única com dois sentidos: crescente cronologicamente, 1987 a 1989, e descendente na extensão física do mural bem como no aspecto dos êxitos do lutador, do auge ao nocaute, e salta 20 anos, do mural para um vestiário e cai sobre as costas velhas e reumáticas de Randy "The Ram", o das fotos dos recortes dos jornais.
Lutador de luta livre, vertente de combate que teve sua expressão maior aqui no Brasil através do programa Telecatch, décadas de 60 e 70, nas Tvs Excelsior e Record, nas figuras de Ted Boy Marino, Verdugo, Fantomas e outros.
Eram aquelas lutas de "marmelada", coreografadas, resultados combinados nos vestiários. Os resultados eram combinados, os golpes ensaiados, porém os machucados, as torções, as contusões aconteciam de fato, eram verdadeiras. Não havia a verdade. Nem por isso não havia o desgaste.
Randy "The Ram" (Mickey Rourke) é um desses lutadores, um homem que viveu de encenar, foi um campeão de mentira há vinte anos, um arremedo da própria mentira no tempo atual.
Entope-se de analgésicos para encenar a si próprio um corpo ainda vigoroso, acreditar talvez que ainda suporte mais uns vinte anos. Vive mais de dar autógrafos e tirar fotos com fãs em convenções que de lutas propriamente, mas ainda se arrisca nos ringues, contando com o respeito e condescendência dos lutadores jovens.
Eram aquelas lutas de "marmelada", coreografadas, resultados combinados nos vestiários. Os resultados eram combinados, os golpes ensaiados, porém os machucados, as torções, as contusões aconteciam de fato, eram verdadeiras. Não havia a verdade. Nem por isso não havia o desgaste.
Randy "The Ram" (Mickey Rourke) é um desses lutadores, um homem que viveu de encenar, foi um campeão de mentira há vinte anos, um arremedo da própria mentira no tempo atual.
Entope-se de analgésicos para encenar a si próprio um corpo ainda vigoroso, acreditar talvez que ainda suporte mais uns vinte anos. Vive mais de dar autógrafos e tirar fotos com fãs em convenções que de lutas propriamente, mas ainda se arrisca nos ringues, contando com o respeito e condescendência dos lutadores jovens.
Sobrevém um infarto após uma luta, dizendo ao homem que viveu de encenar que o espetáculo havia terminado, não haveria mais encenações, só mundo real. Volte a lutar e morra, foi o diagnóstico do médico.
The Ram mantém um único relacionamento próximo do que pode ser classificado como afetivo, com Cassidy (Marisa Tomei, em perfeitíssima forma), uma stripper. Uma stripper também é pura encenação, uma stripper, nos moldes daqueles bares americanos, dança sem ser uma bailarina e é uma puta que não transa com os clientes, oferece uma dança que não é dança e sugere um sexo que não vai acontecer, as passarelas acima dos balcões por onde desfilam e os postes por onde se esfregam são os seus ringues, seus combates encenados. Esse relacionamento é restrito aos limites do clube da stripper; não existem The Ram e Cassidy no mundo real.
The Ram mantém um único relacionamento próximo do que pode ser classificado como afetivo, com Cassidy (Marisa Tomei, em perfeitíssima forma), uma stripper. Uma stripper também é pura encenação, uma stripper, nos moldes daqueles bares americanos, dança sem ser uma bailarina e é uma puta que não transa com os clientes, oferece uma dança que não é dança e sugere um sexo que não vai acontecer, as passarelas acima dos balcões por onde desfilam e os postes por onde se esfregam são os seus ringues, seus combates encenados. Esse relacionamento é restrito aos limites do clube da stripper; não existem The Ram e Cassidy no mundo real.
The Ram – Robin, no mundo real, tenta: carregador de caixas em um depósito, atendente de balcão em uma delicatessen, podia até ter tentando ser professor.
Faz uma triste e melancólica tentativa de reaproximação da filha, não funciona, ele é inepto para o mundo real, a filha o rejeita. Procura Cassidy – Pamela fora do clube – em outra tentativa de um vínculo real, também é rejeitado.
Até que um cliente da delicatessen o reconhece no balcão, reconhece “The Ram” por detrás do avental, da touca para os cabelos, do crachá escrito Robin. O reconhecimento foi pior que o não-reconhecimento. Ser reconhecido e não ser mais o objeto do reconhecimento, ser uma caricatura da caricatura, um campeão de mentira fatiando frios num mercado qualquer. Ele soca a máquina fatiadora, corta a mão e sai espalhando seu sangue pelo mercado. Se era sangue que a realidade queria dele, acabava de conseguir. Pela última vez.
The Ram vai viver mais uma vez, nem que seja a derradeira, mas que seja como The Ram. Faz ligações, remarca lutas.
Puta arrependida, Pam/Cassidy, vai até The Ram, tentar impedi-lo. Mas já é tarde, não há mais Robin, nunca houve, só há Randy The Ram. Ela o segue até o local da luta e até o último momento, segundos antes da entrada dele pelo corredor que o levaria ao ringue, ela tenta.
Ele entra. E volta a viver. Luzes, cartazes com seu nome, gritos do público. E o principal: um puta sorriso na cara dele, ali ele existia. A morte perto disso é muito pouco, não assusta.
A luta começa, programada para ele ganhar, socos, pontapés, acrobacias, cadeiras se quebrando em cabeças. O adversário está “subjugado”, mas falta o gran finale, falta o golpe para finalizar a luta, o golpe que sempre foi sua marca registrada, ficar em pé num dos cantos do ringue, se lançar ao ar e cair com o cotovelo no peito do inimigo, o golpe “The Ram esmaga”.
Começa a sentir dores no peito, no entanto. Subir ao canto do ringue e se lançar poderá ser fatal, o público o impulsiona, alheio a sua dor, à sua impotência. Ele sobe. E antes de se lançar, olha uma última vez para o alto das arquibancadas, para a pequena porta por onde desceu ao ringue, ver se Pam/Cassidy estava lá, olhando, esperando por ele. Ela não estava.
Ele se lança ao ar.
E a tela volta a ficar escura.
The End.
Morreu? Nunca ficaremos sabendo.
E pouco importa.
Importa que o cara executou o seu “The Ram esmaga”
Importa que ele deu seu salto no vácuo com joelhada.
domingo, 26 de julho de 2009
Besame Mucho
BESAME MUCHO é basicamente um filme de amigos, dos melhores e mais tocantes que já vi.Daqueles amigões, que quem tem ou teve, ainda que estejam distantes hoje, sabe do que vou falar.
Besame Mucho (de Mário Prata) narra retroativamente a história de dois amigos, XICO e TUCA.
O filme começa em 1984, com a crise das relações dos dois casais: XICO (José Wilker) está se separando de OLGA (Glória Pires) e TUCA (Antônio Fagundes) está enlouquecido e broxa, ameaçando DINA (Crhistiane Torloni) com uma faca.
A partir desses fatos, a história passa a ser narrada do fim para o começo, retrocede de 1984 até 1968.
Primeiro vem o efeito e depois vão se descobrindo as causas.
XICO veio do interior para São Paulo e é escritor de sucesso. Só que seus livros são escritos por sua mulher OLGA, que também veio do interior, exilou-se em Paris em 1968 e criou reputação como socióloga.
TUCA é amigo de XICO desde a infância, permaneceu no interior como homem de negócios realizado e se casou com DINA, que escolheu ser esposa e mãe. Mas ela tem a cabeça cheia de ensinamentos religiosos e por isso vive as mais loucas fantasias sexuais na tentativa de conseguir gozar.
As relações desses casais são mostradas como um retorno no tempo, com passagem por baile de debutantes, colégio de freiras, concurso de Miss Brasil, PT, machismo e feminismo, Marilyn Monroe, AI-5, as lutas políticas de 1968, a revolução de 64, namoros nas noites interioranas de domingo, ejaculação precoce, campeonato de punheta, bolinação de peitinhos no cinema, bailes com orquestras e cuba-libre... Tem tudo o que todo mundo deveria ter tido e passado um dia.
Esse retorno mágico e realista no tempo, descreve a amizade entre dois homens—nascidos na mesma cidade do interior—que viveram a alegria dos anos 60, o desencanto dos anos 70 e a queda na real dos anos 80. Um retorno que, no final, chega às causas que fizeram dos personagens o que eles são: o namoro com as duas garotas, ingênuas e simples, ao som da música que dá nome ao filme.
Mas aqui vai um aviso:
se o assistir num daqueles dias em que está um pouco melancólico, saiba que irá chorar no fim/começo do filme, ainda mais se tiver tomado umas e outras, e será um choro desavergonhado, choro de homem.
Outro detalhe: é filme para ver sozinho, sem mulher ao lado; no máximo com um amigo.
Não! Sozinho é melhor. Se estiver com um amigo do calibre de Besame Mucho, o melhor é sair com ele, beber, rir, chorar, fazer planos, viver...
Para que outros filmes como Besame Mucho possam ser contados.
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