O chumbo ameaça novamente nossas cabeças E é tempo de cupins alados. Protegemo-nos em nossas torres de barro Fagocitados por nossas próprias edificações. Tomamos nosso café, fraco e amargo, Pensando em caramelada cerveja preta. Espumamos de hidrofobia Em nossas coleiras de grilhões invisíveis (atados pescoço a pescoço) E por isso mesmo impossíveis de romper. Fodemos pra passar o tempo, Só pra ver se o pau ainda sobe, Se o gozo ainda nos dá 15minutos de falso afeto. Nossos guarda-chuvas estão abertos na sala E os pernilongos vomitam seu zumbido E sua menstruação contaminada em nós. Parte de nosso suor nos embosteia, Outra escorre e alaga nosso chão, E a maior, evapora, Criando uma atmosfera de neblina grudenta em nossos pulmões. Fodemos de novo. Não por desejo, E sim para manter estabelecida e clara A relação de domínio e jugo : Como gladiadores que mal se conhecem Mas sabem que um irá causar a morte do outro. Há um carnaval de pratos sujos Berrando na pia onde urinamos Por medo de despencarmos no abismo Que germinou no espelho do nosso banheiro. Gritos, que imigram de regiões mais frias, Nessa época do ano, Para a nossa caldeira constante, Batem nas janelas querendo fazer ninhos em nossos labirintos. O correio tenta, Afugentado pelos latidos de nossas mágoas, Passar angústias envelopadas por debaixo de nossa soleira E testemunhas de Jeová e vendedoras da Avon Estragam nosso almoço de domingo. Fodemos de novo. Não para provar nossa estima, Cada gozo infligido ao outro É uma amostra de poder pessoal, Um castigo por termos que viver juntos. A comida se reproduz, cresce, Se decompõe e cria Poltergeisters em nossa geladeira. Nossa própria pele, macilenta e emborrachada, Nos serve de sustento, Numa competição desleal com os ácaros do gênero Klingon. O rádio toca Belchior, Pombas brancas comem restos de carne podre E pelancas rejeitadas pelos açougues E em seguida defecam zoonoses nos parapeitos de nossas memórias. Fodemos de novo. Não pra criar vida, Mas sim para zombar e aviltar a mesma. Nos colidimos e esfolamos como duas pedras de sílex Ou gravetos secos pirógenos. Inflamamos, Desperdiçamos e maldizemos nossos gametas Abortando-os e lambuzando com eles a cara de Deus. Subo pelo cabo de aço Do elevador caído em nossos intestinos E me isolo em meu sótão de dimensão paralela. Abro minhas clarabóias E aguardo a enxurrada de ópio Que fertilizará o massapé de meus neurônios Nessa cela solitária que é meu próprio crânio: Sou uma tênia de mim mesmo.
O blog A Marreta do Azarão é uma obra de ficção. Os textos aqui publicados são exercícios de livre-pensamento. Melhor, são tentativas, experimentações de livre-pensamento. Bem-sucedidas, às vezes; malfadadas, quase sempre, como toda e qualquer experimentação, como toda e qualquer tentativa de romper e expandir com o estabelecido. Não querem, de forma alguma, os textos, se fazer passar por fatos, tampouco se colocarem ou se estabelecerem como verdades. São tão somente elocubrações de cunho jocoso, considerações irônicas acerca do comportamento humano. E não há distinção quanto ao tema ou ao assunto tratado, não há nenhum tipo de direcionamento : tudo aqui é posto sob a óptica da ironia; há muito de autoironia, inclusive. A ironia, segundo minha opinião - e você não é obrigado a compartilhar dela, aliás, nem espero que -, é a forma mais libertária de análise e pensamento, é a forma mais isenta de tentar entender a grande piada que é o mundo, e também a nós, seus personagens risíveis, que nos damos alta e indevida importância. Caso você seja um semiletrado, alguém sem grandes intimidades com a caneta, o que estou, basicamente, a dizer é que não há intenção de depreciar ou incitar violência contra quaisquer grupos ou segmentos sociais. Assim posto, se você é submisso à certezas preestabelecidas, se você é servo de convicções engessadas, lacaio de doutrinas pétreas, escravo de pragmatismos e dogmatismos - sejam de que ordem forem, políticos, religiosos, filosóficos, sociais, étnicos, sexuais etc -, seu lugar não é aqui. Há bilhões de outros endereços na internet que podem melhor lhe agradar, você não é obrigado a ficar por aqui. Se você está à procura de fatos e de "verdades" que confirmem e reconfortem sua visão tradicional do mundo, repito, seu lugar não é aqui; dirija-se ao site de algum jornal, ou revista semanal de variedades. Se ainda assim, se apesar deste aviso, deste esclarecimento, alguém se sentir ofendido ou vilipendiado por alguma postagem - o que, garanto, não é meu objetivo, lembre-se que nem lhe conheço -, o blog abre espaço para um direito de resposta, que deverá ser enviado através do campo de comentários do blog, na forma de um texto que conteste, que contradiga, que refute o que por mim foi escrito. O texto, caso o autor assim deseje, será publicado logo abaixo da postagem que o motivou a ser escrito. Artigo 5, inc. IX da Constituição Federal de 1988 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;
O Código Azarão
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