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quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Luto : Teu Nome é Cleonice

A poucos seres, eu sou tão agradecido pela oportunidade da convivência, por tê-los conhecido. De poucos, a companhia pelas madrugadas me foi tão preciosa e tanto me locupletou. A poucos, gostei tanto de me dedicar, zelar e agradar. E nenhum outro fez mais jus aos meus cuidados. E nenhum outro respondeu e correspondeu tão à altura.

terça-feira, 18 de julho de 2023

Viagra Para a Cabeça do Canário

Quando eu era moleque, isso lá pelo meio da década de 1970, sobretudo em período de férias, frequentava bastante a casa do meu primo Leitinho, apenas um ano mais novo que eu. Na época, o meu tio mantinha várias gaiolas com passarinhos em casa, prática/costume que não eram reprovados e condenados então (e que eu, particularmente, que nada tenho de politicamente correto, sempre achei uma puta duma crueldade). Entre essas, havia umas três ou quatro com curiós, pássaros canoros de nossa fauna dos mais valorizados por seu canto melodioso. As gaiolas ficavam dependuradas numa da paredes externas da casa, ladeada por um corredor, limitado entre ela e o muro.

quarta-feira, 28 de junho de 2023

A Sustentável (porém, chata pra caralho) Sobriedade do Ser

Em criança, quando tentávamos resistir às suas administrações, ou reclamávamos do amargo do xarope para tosse (na nossa infância raiz não tinha xaropinho gosto de laranja, cereja, baunilha ou outras viadagens saborizadas) ou do antisséptico que, passado-nos nos ralados dos joelhos, ardia-nos até as nossas inocentes almas sem pecados, a mãe, não sem um quê de terno sadismo, enunciava-nos o axioma-mor da alopatia : remédio ruim é que cura, ou ainda, se tá ardendo é porque tá fazendo efeito. Era um combater de fogo com fogo. Para um mal, um mal que o sobrepujasse.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

O Sorriso da Cleonice

Tenho um móvel na sala.
De madeira
Retangular
1,5 m x 0,8 m.
Uma espécie de estante.
Dividida não em prateleiras horizontais,
Sim em quadriculados,
Feito aqueles escaninhos antigos,
4 x 2.
Em cima dela,
Um porta-retratos
Um vaso de cristal
Dois elefantes com as bundas viradas para a porta de entrada.
Nos quadriculados,
Enfio ali
Meus cadernos
Rascunhos
Estojo de canetas
Fios de extensões
Minha bolsa de lona cáqui  
Cartelas de Dipirona
Livros já lidos
Em andamento,
À espera.

Minha gata Cleonice
Também costuma se meter
E hibernar por ali.
Escolhe sempre a célula mais abarrotada.
Podem estar todos os quadrados vazios
E apenas um ocupado :
É para esse que ela pula.
E com sua pata almofadada
E movimentos de tai chi chuan de que só os gatos são capazes,
Vai empurrando para fora,
Para o chão,
O que julga necessário para ali se enrodilhar :
Às vezes, um livro
Às vezes, o estojo de canetas
Às vezes, meus óculos.
Horas depois,
Pula para o chão.
Franze e ajusta os olhos
Alfinetados pela luz.
Boceja,
Espreguiça.
Sai, belisca uns grãos de ração,
Alivia-se na caixa de areia.
Volta
Arranha o tapete
E vai se encaixar na caixa de sapatos
Ao pé da árvore de Natal.

E passa o dia nisso,
Nessa rotina
Nesse vai e vem
De lugar nenhum pra nenhum lugar.
Sem nenhum problema
Sem nenhum exaspero
Sem nenhum drama de consciência
Sem nenhum tipo de frustração
Pela mesmice
Sem culpa nenhuma pelo ócio.

Gatos,
Mais que qualquer outro ser vivo,
Coexistem tranquilamente
Com o inexistente sentido da existência.
A Cleonice não pensa na vida.
Ela só vive.
Só é.
Cleonice não precisa de álcool,
De antidepressivos, 
De religiões.

Sem contar que,
De madrugada, 
Amiúde,
Desperto com ela
Sobre o meu peito,
Acocorada em esfinge.
A me observar
A me guardar
A me proteger de meus demônios
Com seus olhos de topázio.
Mais lindos que os de qualquer mulher
Que já tive a chance de vislumbrar.
De uma serenidade
Que eu já tive
E há muito perdi.
De quem era capaz
De reler Alice no País das Maravilhas
Numa única tarde
Sentado ao banco 
De uma umbrosa praça.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Os Gatos de Bukowski

Sei de muitas pessoas que não gostam de gatos. Sentem desconforto frente a eles, têm-lhes mesmo repulsa, aversão, ganas de exterminá-los.
À parte serem uns canalhas dignos de forca, pudera. O ser humano tende a repelir e a odiar com todas as suas forças tudo o que não compreende, o que não consegue controlar e subjugar, do que morre de inveja.
O ser humano não compreende o gato, sequer tem a certeza de como tenha se dado a aparente domesticação do elegante animalzinho. Enquanto o cão doméstico surgiu concomitantemente em várias regiões do planeta, a origem do gato caseiro teve um único epicentro, de onde, depois, foi levado a outras plagas : o antigo Egito, em plena aurora dos faraós, e deles era dileto mascote, compunha até o panteão de seus deuses, havia uma deusa-gata.
Quem garante que os gatos não nos chegaram a bordo das mesmas naves intergalácticas que por aqui desembarcaram faraós e deuses egípcios, ou, pelo menos, que não tenham por eles sido engendrados a partir da modificação genética de uma espécie nativa? Os gatos são enigmas, são pirâmides que deslizam fidalgas sobre quatro almofadadas patas.
Não há sequer indícios seguros de que o homem tenha domesticado o gato. Todos os animais que o homem domesticou, fê-lo para imputar algum fardo laborial ao bichinho, fê-lo com intenção puramente utilitarista. O cão, para a guarda e defesa da tribo e como auxiliar nas caçadas; o cavalo, transporte e força motriz; o gado bovino, carne, leite e couro para vestuário.
E o gato? De que uso prático e mundano é o gato para o homem? Com que intenção o homem o teria domesticado? A resposta é : o homem não domesticou o gato, não o convidou à sua casa. Se alguém é de utilidade para alguém, é o homem para o gato.
O provável é que o gato - ardiloso, manhoso e velhaco que só ele - tenha se oferecido em domesticação, de olho em abrigo e comida; o provável é que o gato tenha se convidado a entrar em casa humana e, com seu jeito discreto, furtivo, come-quieto, foi ficando, ficando...
Ao contrário do que ocorreu ao cão, ao cavalo etc, o homem não selecionou no gato as características de seu interesse - não havia nenhuma que fosse - : foi o gato que selecionou os humanos que se lhe prestavam à convivência. O homem foi escolhido pelo gato. O gato domesticou o homem para seus fins. Daí, a incompreensão do doutrinador doutrinado, o incômodo, o desejo, muitas vezes, de matar seu adestrador.
O homem, igualmente, não consegue controlar e subjugar o gato. O cão é um perfeito idiota babão, puxa-saco do homem; o homem diz, senta, e o bicho senta, diz, rola, e o bicho rola, joga um pedaço de pau e o bicho corre, pega e trás de volta, todo bobo alegre e festivo; por isso, o homem diz do cão o seu melhor amigo, o au-au faz tudo o que o bicho homem lhe ordena.
Alguém, por outro lado, já viu um gato adestrado? Ao comando humano, um gato se sentar, rolar, dar a pata e abanar o rabinho? O gato tá cagando pro homem. Experimente arremessar um graveto e ordenar que um gato o pegue. O bichano o olhará com um ar de indiferença, de enfado, virar-lhe-á as costas, sairá andando lânguida e sinuosamente, de rabo levantado, mostrando-lhe o cu, e aninhar-se-á em algum canto da casa, para uma boa soneca.
O gato não se prostitui pela ração barata que o homem lhe dá. O gato tem dignidade, tem amor-próprio. Eis outra grande evidência de que o homem não selecionou o gato, pois dignidade e amor-próprio são características que não lhe interessam selecionar em nenhuma espécie; nem nele mesmo.
E o homem morre de inveja dos gatos. Da liberdade noturna deles - gatos tem pirilampos por olhos, são pequenas luas argênteas, ágeis e com molas nas articulações -, de suas felinas distinção e elegância - por isso, por despeito, diz que todos são pardos -, de seus arrojo e leveza - gatos são tufos de paina com garras retráteis -, até da vida sexual dos gatos, o homem tem inveja - gatos são semideuses bacantes a fecundar os telhados.
Já eu, eu sou um entusiasta declarado dos gatos. Sou deles um confesso domesticado. Admiro-lhes a altivez, a galhardia, a graça fluida e esguia do andar. Encanta-me a independência deles. O cão, o dono tem que dar banho, ficar catando as bostas e lavando a urina espalhadas pelo chão, tem que levar pra passear etc, não faz porra nenhuma sozinho, o cão, um completo retardado. Com o gato, não tem nada dessas frescuras. O gato se banha com a própria língua e tem a refinada educação de enterrar seus dejetos - o gato é autolimpante. Já viram alguém a passear com um gato numa coleira? Claro que não. O gato traça suas próprias rotas, e não gosta muito de companhia ao caminhá-las. 
Independência, o seu nome é gato. Já viram alguém domesticado ser independente?
Arrebata-me, em definitivo, usufruir da luxuosa e discreta companhia dos gatos. O gato fica ali com você, mas na dele, não superlota o espaço com arfares, babares e ganidos. O gato é a melhor companhia que um solitário pode querer. 
Não à toa, o gato é o parceiro preferido dos grandes pensadores - afinal, quem é que consegue pensar em algo com um cachorro babando em sua perna e querendo brincar de ir pegar graveto? -, dos grandes escritores - os gatos são contemplativos, mesclas de solidão e melancolia.
Entre os aficionados por gatos, estão : Charles Bukowski, Truman Capote, Jorge Luis Borges, Ernest Hemingway, Neil Gaiman, Stephen King, Edgar Allan Poe, Patricia Highsmith, William S. Burroughs e Julio Cortázar.
Dos gatos, disse, certa vez, o velho sujo Bukowski, que chegou a ter nove de uma só vez : "Gosto de olhar os meus gatos, eles me acalmam. Eles me fazem sentir bem. Você sabia que os gatos dormem 20 das 24 horas do dia? Não se admira que tenham melhor aparência do que eu. Na minha próxima vida, quero ser um gato. Dormir 20 horas por dia e esperar ser alimentado. Sentar por aí lambendo meu cu. Os humanos são desgraçados demais, irados demais, obcecados demais".
Eu sempre tive gatos por animais de estimação. Corrijo : eles sempre me tiveram, sempre tive o privilégio de me elegerem para o seu dono de estimação. Houve a Quica, uma esbelta e delgada siamesa; nas madrugadas que eu varava a estudar para as provas da faculdade, ela se postava à minha frente, em cima da mesa, geralmente sobre um livro ou caderno, e ficava lá, em pé e imponente a me olhar, sem produzir único ruído, uma verdadeira estátua egípcia, uma pequena Bubastis.
Hoje, tenho duas gatas em casa, a Pretinha, exímia caçadora de beija-flores, e a Cleonice, minha parceira sempre presente e, no mais das vezes, imperceptível, como os gatos são mestres em ser. Estou na cozinha a preparar alguma comida e ela está a me observar, a me vigiar e guardar; estou a fazer faxina e ela segue o suado caminho da vassoura, a brincar e pular com os ciscos recolhidos do chão; se tiro um cochilo à tarde, ela vem se encostar em mim. 
Ao fim da noite, ou ao começo da madrugada, quando esposa e filho já estão a dormir, quando a própria casa ressona em profundo, geralmente me sento à sacada para contemplar a cidade, ouvir uma musiquinha, escrever minhas coisas, matar a última lata de cerveja, e a Cleonice vem. Pula em meu colo, roda, afofa meu colo com suas unhas e se enrodilha, sem peso algum. E fica. A ouvir minhas músicas, a escutar meus pensamentos... seu eu pudesse, sairia em desabalada carreira com ela pelos telhados.
Então, pego e leio um poema do Bukowski para ela. Não sei se ela entende, o que sei é que seu peito vibra e ronrona. E o meu também.
Bukowski e suas companhias prediletas : seus escritos, a birita e os gatos.