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terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Bêbados

Bêbados,
Quando arrumam um tempo para beber
(e nós sempre arrumamos um tempinho),
Não estão buscando fugir da realidade ou do mundo.
Que esses
Não nos valem
Sequer o esforço de traçarmos um plano de fuga.

sábado, 9 de julho de 2022

Bukowski, Dois Tipos de Inferno

frequentei o mesmo bar por 7 anos, das 6 da manhã até as 2 da madrugada.
às vezes eu não me lembrava de haver voltado para meu quarto.
era como se eu ficasse sentado naquela banqueta do bar continuamente.
eu não tinha dinheiro mas de algum modo os drinques iam chegando.
eu não era o palhaço do bar mas sim o louco do bar.
mas com frequência um louco pode encontrar alguém ainda mais louco para
lhe oferecer bebidas. afortunadamente, era um lugar
cheio de gente.
mas eu tinha um objetivo: eu estava esperando que algo extraordinário
acontecesse.
mas enquanto os anos se passavam à deriva nada acontecia a não ser que eu provocasse.
um espelho de bar quebrado, uma luta com um gigante de mais de dois metros, um flerte com uma lésbica,
a habilidade de dar nome aos bois e de resolver discussões que eu não havia começado etc.
um dia eu simplesmente me levantei e caí fora. simples assim.
e quando comecei a beber sozinho achei minha própria companhia mais que satisfatória.
então, como se os deuses estivessem chateados por minha paz de espírito, as mulheres começaram a bater à minha porta.
os deuses estavam mandando mulheres para o louco!
as mulheres chegavam uma por vez e quando uma ia embora
os deuses imediatamente — sem dar nenhuma folga — me mandavam outra.
e cada uma delas parecia à primeira vista ser um milagre renovado, mas então tudo
que à primeira vista parecia maravilhoso acabava mal.
minha culpa, é claro, era o que elas habitualmente me
diziam.
os deuses simplesmente não deixarão um homem beber sozinho; eles têm ciúmes dos
prazeres simples; assim eles mandam que uma mulher vá bater em sua porta.
lembro todos aqueles hotéis baratos; era como se todas as mulheres fossem uma; a primeira batida delicada na madeira e então,
“oh, ouvi você tocando aquela música adoróvel em seu rádio. somos vizinhos. moro aqui no 603 mas nunca o vi
no saguão antes!” “entre”
e lá se foi sua reclusão.
você também se lembra da vez em que
subiu atrás do gigante de 2 metros e derrubou seu chapéu de caubói, berrando,
“aposto que você é alto demais para chupar os peitos da sua mãe!”
e alguém no bar dizendo, “ei, senhor, esqueça, ele é um caso psiquiátrico, é um chato, ele não sabe o que está
dizendo!”
“sei EXATAMENTE o que eu estou dizendo e vou dizer de novo, ‘aposto que você é alto demais...”’
ele ganhou a briga mas você não morreu, não do modo como você morreu por dentro depois
de os deuses arranjarem para que todas aquelas mulheres viessem bater à sua porta.
a troca de socos foi mais justa: ele era lento, estúpido e estava até um pouco
assustado e a batalha foi a seu favor por algum tempo
do mesmo modo como aconteceu no começo com aquelas mulheres que
os deuses
lhe mandaram.
a diferença sendo, eu resolvi, que ao menos tive uma chance com as
mulheres.

sábado, 10 de julho de 2021

Bukowski, E o que Mais Há Para Se Ser?

bem, é assim que é...
 
às vezes quando tudo parece estar no
fundo do poço
quando tudo conspira
e atormenta
e as horas, os dias, as semanas
os anos
parecem desperdiçados –
estirado ali na minha cama
no escuro
olhando para o teto
recaio em algo que muitos considerariam
um pensamento repugnante:
ainda é bom ser
Bukowski.
E ainda também é bom ser eu, meu velho. E 0 que mais há para sermos?

terça-feira, 27 de abril de 2021

Bukowski, sem Remédio

Não há remédio para isso

há um lugar no coração que
nunca será preenchido

um espaço

e mesmo nos
melhores momentos
e
nos melhores
tempos

nós saberemos

nós saberemos
mais do que
nunca

há um lugar no coração que
nunca será preenchido

e

nós vamos esperar
e
esperar

nesse
espaço.

sábado, 23 de janeiro de 2021

Bukowski na Sala dos Professores

O escritor universal é aquele que, fazendo um retrato 3 x 4 de sua aldeia, pinta um imenso painel do mundo. Menos ainda que falar da sua aldeia, que uma aldeia, por menor que seja, já tem gente demais. É aquele que, escrevendo de dentro das quatro paredes de seu quarto, atravessa, sem passaporte e sem as alfândegas do idioma, todas as fronteiras, de todos os países. É aquele que bem falando só do próprio mal-lavado umbigo, fala da beleza e das mazelas de toda a humanidade, de todas as épocas. 
Bukowski é um desses caras, desses escritores universais.
Bukowski, sobre os hipódromos e as apostas em cavalos, principalmente sobre o intervalo entre as apostas, quando não se há muito o que fazer, e ninguém consegue guardar o respeitoso e inteligente silêncio :
 
"A gente sente a vida sendo reduzida à polpa pela inútil perda de tempo. Quer dizer, a gente fica ali sentado na cadeira ouvindo vozes que discutem quem vai ganhar e por quê. É realmente nauseante. Às vezes a gente pensa que está num asilo de loucos. E de certa forma está. Cada um daqueles babacas acha que sabe mais que os outros, e lá estão todos juntos num mesmo lugar. E lá estava eu, sentado no meio deles".
 
Nunca pus meus pés num hipódromo. 
Bukowski, no entanto, parece-me, conhece intimamente uma sala de professores! Igualzinho à sala de professores da minha escola! Sem tirar nem pôr! Cuspido e escarrado! Pãããããããããta que o pariu!!!! 
E lá estou eu, sentado no meio deles.
Tá rindo, né, velho safado?

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

O Ano em Que Conheci Bukowski

Neste mês, será comemorado (pelo menos, eu comemorarei) o centenário de nascimento de Charles Henry Bukowski. Em 16 de agosto de 1920, era expelido para o mundo a criança que viria a se tornar o Velho Safado.
Conheci Bukowski há exatos 20 anos, no ano de 2000. O ano mais atípico de minha vida e do qual guardo boas e saudosas recordações.
Aprovado em 1998 em um concurso de provas e títulos para professor da Rede Pública do Estado de São Paulo, tomei posse do meu cargo em inícios de 2000. Com apenas uma vaga da minha disciplina na cidade, preenchida por uma menina que ficou em 6º lugar na classificação geral do Estado (eu fiquei em 47º), escolhi minha vaga e fui de mala e cuia para a cidade de Mococa, a uns 100 km de Ribeirão.
Concomitante à minha conquista do cargo, e há três semanas já em novo endereço, levei um fragoroso pé na bunda da namorada. Pé na bunda não de todo inesperado; alguns ameaços, algumas simulações haviam ocorrido nos últimos meses. O que não impediu, no entanto, que tenha sido o fora mais doído que já levei.
Devo ter chorado e bebido um pouco além da conta por uns quatro ou cinco dias, mas não cheguei ao ponto de comprar um CD sertanejo. Depois disso, estranhamente, meio que do nada, ao invés de me sentir abandonado, peguei-me liberto. Eu era um forasteiro, agora. Em uma nova cidade, com uma nova vida sem nenhum vínculo com nada ou ninguém. Um perfeito anônimo. Talvez daí a sensação de libertação.
Fora o tempo que eu gastava empolgado com a nova carreira, labutando na crença imberbe de fazer alguma diferença ao mundo e outras pataquadas em que acreditamos quando temos a juventude ao nosso lado, pouco havia o que se fazer. Eu não tinha ninguém com quem me preocupar, nem mesmo um gato magro ou um vaso de cactos para regar uma vez por semana.
Comprei lá uma televisão de 20 polegadas, porém, tendo em vista os quatro ou cinco canais que ela sintonizava, eu pouco a ligava; exceto para, ao chegar em casa de minhas aulas noturnas, dar o meu boa-noite de todas as noites à bela Ana Paula Padrão, então apresentadora insubstituível do Jornal da Globo. Possuía também um rádio com tocador de CD e uma meia dúzia de títulos; rádio que, quando eu dava sorte, conseguia sintonizar uma boa rádio FM de Vargem Grande do Sul, especializada em MPB das antigas, mas, no mais das vezes, interferências impediam a sua boa audição. Telefone, nunca tive por lá. E não falo de celular, não; que deste eu não tenho nem nunca tive. Digo de telefone fixo, mesmo. Passei os três anos em que residi em Mococa sem telefone em casa. Trazia sempre comigo um daqueles cartões de telefones públicos, cujos créditos gastava para ligar uma ou duas vezes por semana para os meus pais, dizer que eu estava vivo. Muitos na escola, no começo, estranhando eu não ter algo "imprescindível", perguntavam como as pessoas iriam me achar. Eu respondia que essa era mesmo a ideia, que elas não me achassem.
Com todo esse tempo disponível e uma vida praticamente monástica, de monge trapista, eu lia. Lia muito. Pra caralho. Como nunca em nenhum outro período da minha vida. Uma média de dois livros por semana; três se eu não fosse para a casa de meus pais no fim de semana. Morava a poucos quarteirões da Biblioteca Municipal, instalada em um antigo casarão dos tempos auriverdes do ciclo do café, um tanto quanto já desgastado e mal conservado, mas com um charme dos mais peculiares. Feito eu.
E foi na Biblioteca Municipal de Mococa, em 2000, que dei de cara com o primeiro romance escrito por Bukowski, Cartas na Rua.
Confesso que quase não o retirei para ler. Normalmente, nem o título - que sugeria, talvez, um algum romance açucarado em torno de cartas de amor - nem a composição da capa teriam atraído mais do que alguns segundos de minha atenção, e logo o enfiaria de novo em seu nicho na estante. Normalmente. Porém, uma sensação de familiaridade com aquela capa, um déjà vu, fez com que eu o mantivesse por um tempo nas mãos - tentava lembrar de onde eu o vira antes. Boa que era então, minha memória me socorreu de pronto. 
Eu vira aquele livro há uns 15 ou mais anos, uma foto dele num catálogo do Círculo do Livro, do qual minha mãe foi sócia por muito tempo - li muitos Sidney Sheldon e Danielle Steel de minha mãe. Por uma taxa fixa, os sócios recebiam o Livro do Mês e um catálogo de lançamentos, caso quisessem encomendar outros títulos.  Era de um desses catálogos que eu me lembrava do livro. Tocado, talvez, pela lembrança, resolvi arriscar, emprestei-o e o levei para casa. Dentro daquele envelope que fica colado na terceira capa dos livros de biblioteca, a ficha de empréstimo me informava que ele nunca fora retirado.
Ainda bem que eu o fiz. Sem exagero nenhum, a minha relação com a escrita pode ser dividida em a.B e d.B. Antes e depois de Bukowski. Muito provavelmente, entre outras coisas, este blog não existiria como tal se eu, naquele dia há 20 anos, não tivesse levado o velho Buk para casa. Eu já escrevia poemas à época, mas nunca me ocorrera a possibilidade de escrever narrativas um pouco mais longas, crônicas e contos. Até a ocasião, havia para mim uma certa aura de impenetrabilidade nesses gêneros. Crônicas, escreviam-nas o Fernando Sabino, o Luís Fernando Veríssimo. Contos, o Machado de Assis, o Murilo Rubião, o Otto Lara Rezende. Eu? Meter-me a tal? Pois Bukowski me mostrou que era possível - ainda que se faça sem nenhum estilo, como eu.
Cheguei com o livro em casa na hora do almoço, e, como não lecionava à tarde, comecei a lê-lo por volta das treze horas. Tudo naquelas páginas era novo; ao mesmo tempo, tudo se revelava como se fosse um velho conhecido meu. Nem parecia uma leitura, parecia uma conversa mental entre mim e aquele livro de cujo autor eu nem fazia ideia de como fosse a cara. Capítulos curtos e concisos, feito jabs de um habilidoso boxeador; diálogos que nem eram diálogos, sim conversas de mesa de buteco, de intervalo no batente para o cafezinho e o cigarro. E Henry Chinaski, então, que personagem era aquele? Um bêbado fodido e sempre na merda, mas muito bem resolvido com sua condição de bebum. Nenhuma culpa, nenhum arrependimento, nenhuma lamentação ou autocomiseração naquele sujeito. Nenhuma vontade ou intenção de sair daquela vida, de se "curar" da birita. "Qualquer um pode ser sóbrio, mas é preciso talento para ser bêbado", dizia Chinaski/Bukowski, "para ir trabalho de ressaca trezentas vezes no ano". Os percalços e atropelos de Chinaski não eram narrados na tentativa de granjear alguma simpatia piedosa por aquele funcionário dos Correios que vivia de ressaca; pelo contrário, expunha toda a sua podridão e as suas falhas de caráter, o tornava odiável, repugnante. Nunca vira antes tamanha crueza e honestidade na composição de um personagem, ainda mais que, fundamentalmente, de cunho autobiográfico. Tampouco as suas histórias recheadas com elementos considerados pornográficos e escatológicos eram feitas para chocar, mas sim porque assim eram as coisas no mundo de Bukowski.
Eu já estava abduzido pela leitura. Foi quando, então, durante uma conversa com uma companheira de copo, que reclamava da misantropia dele,  Chinaski disparou : "não é que eu odeie as pessoas, mas me sinto melhor quando elas não estão por perto". Neste momento, ele acabara de me ganhar. Definitivamente.
Quando dei por mim, o livro já ia pela sua terça parte e eram cinco e meia da tarde. Precisava tomar banho, engolir alguma coisa e sair dentro de uma hora para minhas aulas da noite, que começavam às 19 horas. No banho, deu-me um puta vontade de beber. Cerveja, não havia nenhuma na geladeira. Mesmo que tivesse, eu não a tomaria tão perto que estava do meu horário de trabalho - eu ainda tinha certos pudores e pruridos.
Resolvi - e até hoje não sei por quê - provar de uma droga para mim inédita : o café. Com 32 para 33 anos de idade, nunca havia provado café na minha vida. Gostava do cheiro e tudo, mas nunca me apetecera tomá-lo. Havia um pacote de café no meu armário da cozinha, do qual poucas colheres tinham sido subtraídas, comprado por ocasião da única visita da minha ex em meu apartamento, ao fim da qual, recebi minha demissão sem justa causa. Também uma caixa de papel de filtro e suporte. Não sabia nem a medida a ser usada. Arrisquei lá uma colher de sopa bem cheia para uma caneca de água, adocei e entornei. Gostei do gosto, mas não era nada do outro mundo, nada de mais. O que as pessoas tanto viam no café, a ponto de se viciarem nele? A resposta me veio poucos minutos depois. Quando eu estava a terminar de me vestir e pegar meu material para sair, o efeito bateu! Virgens de cafeína que eram, os meus neurônios, sempre tão pouco afeitos a qualquer tipo de confraternização, deram uma festa na minha cabeça, um baile de debutantes, de formatura, sapatearam pra valer no meu crânio. Que sensação boa era aquela. Melhor que o meu primeiro beijo. Que minha primeira trepada.  
Pela rua, a caminho da escola, segui naquele leve estado de leveza e euforia, com o café e o Bukowski nas veias. Coquetel que me deu coragem de chegar junto numa professora. Que, eu julgava, parecia se insinuar para o meu lado há algum tempo, há uns 15 dias. Doida de pedra, esquizofrênica diagnosticada, tarja preta 4º dan, garantiram-me dois professores antigos da casa, quando lhes disse de minhas intenções - informações que pude comprovar na prática.
Era uma sexta-feira. No intervalo, dei uma calibrada com um copo do café servido na sala dos professores, sentei-me ao lado dela, jogamos meia dúzia de palavras e gracejos fora e fiz o convite. A noite acabou numa bebedeira de vinho Canção - bom e barato, comprado à uma loja de conveniência 24 h - no meu apartamento. De dentro do livro, deixado ao pé do sofá da sala, o velho Buk me dava a sua bênção. E me imprimia a sua maldição.
Eu estava de volta ao jogo.

domingo, 5 de julho de 2020

Bukowski, Para Jane

Para Jane
225 dias debaixo da grama
e você sabe mais do que eu
há tempos levaram seu sangue,
você é um ramo seco numa cesta.
é assim que funciona?
nesse quarto
as horas do amor
ainda fazem sombras.
quando você partiu
você levou quase
tudo.
à noite me ajoelho
diante de tigres
que não vão me deixar em paz.
o que você foi
não vai acontecer de novo.
os tigres me encontraram
e eu não me importo mais.
Elogio a uma nobre mulher dos infernos
alguns cachorros quando dormem à noite devem sonhar com ossos
eu me lembro dos seus ossos
na sua carne
ficavam ótimos
naquele vestido verde escuro
naquele seu salto-alto turvo,
e voce sempre me amaldiçoava quando bebia
seu cabelo para baixo escorria
enquanto você parecia que explodia
mas o que te segurava:
podres memórias
dum
podre
passado,
e quando
você morreu
deixou meu presente
roto
e desde que partiu
da minha mente
há 28 anos
não saiu.
você era a única
que entendia
a futilidade
dos preparativos
da vida;
todos os outros estavam apenas
descontentes
com suas triviais existências
reclamando
sem sentido
sobre o
que não faz
sentido;
Jane, você foi
assassinada por
saber demais
aqui vai um brinde
ao seu esqueleto
que
dos sonhos
deste cachorro
fazem parte
por inteiro.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Bukowski, Vida e Loucuras de um Velho Safado

Ao contrário do Rei Roberto, uma das metas de minha vida, talvez a única que tenha atingido, sempre foi, justamente, não ter um milhão de amigos.
Nunca fui muito de amigos, ou os amigos nunca foram muito de mim. Jamais os tive em número superior a dois ou três a cada temporada, ou estágio de minha vida. Por temporada, ou estágio, refiro-me a cada escola, trabalho, cidade ou geração da família pelos quais eu tenha passado.
Desses poucos eleitos - ou amaldiçoados -, a maioria se perdeu na poeira dos anos, virou poeira com os anos (e eu para eles), um outro tanto, jaz conservado em naftalina em velhas e emperradas gavetas da memória, visitadas vem em quando, nos meus Finados existenciais. E quatro, apenas quatro, sobreviveram às separações e às distâncias, enfim, aos trâmites normais da vida. A vida, meus caros, separa muito mais que a morte.
Quatro. Dá pra contar meus amigos nos dedos de uma mão. Até na mão esquerda do Lula.
Por isso, é de surpreender - de me surpreender, ao menos - que, em parcos oito anos de blog, eu tenha feito igual número de amigos virtuais que os que fiz em cinquenta anos de vida : quatro. 
Um de Sorocaba (SP), dois de Belo Horizonte (MG) e um de Garanhuns (PE).
E foi de um deles, um de Belo Horizonte, que recebi um puta dum presentão na semana passada. Uma biografia caprichadíssima do Bukowski, o velho Buk, o velho safado.
O livro é do caralho. À altura do biografado. À altura das loucuras, peripécias e filha da putices do velho Buk.
E para lê-lo a contento, estreei um marcador de páginas que trouxe comigo de minha viagem ao Chile no ano passado. Na verdade, um marcador de páginas adaptado, concebido originalmente para outra função, não menos nobre que a leitura. É uma propaganda de um clube de strip chileno, um bordelzinho básico, dada a mim por um rapaz que as distribuía aos passantes masculinos em uma movimentada rua da capital chilena. Guardei-a. Agora, ela encontrou sua real vocação.
Aposto que o velho Buk aprovaria o uso. Frente e verso.

Mais uma vez : valeu, Cirilo, pelo presentão. Terminei de lê-lo hoje.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Os Gatos de Bukowski

Sei de muitas pessoas que não gostam de gatos. Sentem desconforto frente a eles, têm-lhes mesmo repulsa, aversão, ganas de exterminá-los.
À parte serem uns canalhas dignos de forca, pudera. O ser humano tende a repelir e a odiar com todas as suas forças tudo o que não compreende, o que não consegue controlar e subjugar, do que morre de inveja.
O ser humano não compreende o gato, sequer tem a certeza de como tenha se dado a aparente domesticação do elegante animalzinho. Enquanto o cão doméstico surgiu concomitantemente em várias regiões do planeta, a origem do gato caseiro teve um único epicentro, de onde, depois, foi levado a outras plagas : o antigo Egito, em plena aurora dos faraós, e deles era dileto mascote, compunha até o panteão de seus deuses, havia uma deusa-gata.
Quem garante que os gatos não nos chegaram a bordo das mesmas naves intergalácticas que por aqui desembarcaram faraós e deuses egípcios, ou, pelo menos, que não tenham por eles sido engendrados a partir da modificação genética de uma espécie nativa? Os gatos são enigmas, são pirâmides que deslizam fidalgas sobre quatro almofadadas patas.
Não há sequer indícios seguros de que o homem tenha domesticado o gato. Todos os animais que o homem domesticou, fê-lo para imputar algum fardo laborial ao bichinho, fê-lo com intenção puramente utilitarista. O cão, para a guarda e defesa da tribo e como auxiliar nas caçadas; o cavalo, transporte e força motriz; o gado bovino, carne, leite e couro para vestuário.
E o gato? De que uso prático e mundano é o gato para o homem? Com que intenção o homem o teria domesticado? A resposta é : o homem não domesticou o gato, não o convidou à sua casa. Se alguém é de utilidade para alguém, é o homem para o gato.
O provável é que o gato - ardiloso, manhoso e velhaco que só ele - tenha se oferecido em domesticação, de olho em abrigo e comida; o provável é que o gato tenha se convidado a entrar em casa humana e, com seu jeito discreto, furtivo, come-quieto, foi ficando, ficando...
Ao contrário do que ocorreu ao cão, ao cavalo etc, o homem não selecionou no gato as características de seu interesse - não havia nenhuma que fosse - : foi o gato que selecionou os humanos que se lhe prestavam à convivência. O homem foi escolhido pelo gato. O gato domesticou o homem para seus fins. Daí, a incompreensão do doutrinador doutrinado, o incômodo, o desejo, muitas vezes, de matar seu adestrador.
O homem, igualmente, não consegue controlar e subjugar o gato. O cão é um perfeito idiota babão, puxa-saco do homem; o homem diz, senta, e o bicho senta, diz, rola, e o bicho rola, joga um pedaço de pau e o bicho corre, pega e trás de volta, todo bobo alegre e festivo; por isso, o homem diz do cão o seu melhor amigo, o au-au faz tudo o que o bicho homem lhe ordena.
Alguém, por outro lado, já viu um gato adestrado? Ao comando humano, um gato se sentar, rolar, dar a pata e abanar o rabinho? O gato tá cagando pro homem. Experimente arremessar um graveto e ordenar que um gato o pegue. O bichano o olhará com um ar de indiferença, de enfado, virar-lhe-á as costas, sairá andando lânguida e sinuosamente, de rabo levantado, mostrando-lhe o cu, e aninhar-se-á em algum canto da casa, para uma boa soneca.
O gato não se prostitui pela ração barata que o homem lhe dá. O gato tem dignidade, tem amor-próprio. Eis outra grande evidência de que o homem não selecionou o gato, pois dignidade e amor-próprio são características que não lhe interessam selecionar em nenhuma espécie; nem nele mesmo.
E o homem morre de inveja dos gatos. Da liberdade noturna deles - gatos tem pirilampos por olhos, são pequenas luas argênteas, ágeis e com molas nas articulações -, de suas felinas distinção e elegância - por isso, por despeito, diz que todos são pardos -, de seus arrojo e leveza - gatos são tufos de paina com garras retráteis -, até da vida sexual dos gatos, o homem tem inveja - gatos são semideuses bacantes a fecundar os telhados.
Já eu, eu sou um entusiasta declarado dos gatos. Sou deles um confesso domesticado. Admiro-lhes a altivez, a galhardia, a graça fluida e esguia do andar. Encanta-me a independência deles. O cão, o dono tem que dar banho, ficar catando as bostas e lavando a urina espalhadas pelo chão, tem que levar pra passear etc, não faz porra nenhuma sozinho, o cão, um completo retardado. Com o gato, não tem nada dessas frescuras. O gato se banha com a própria língua e tem a refinada educação de enterrar seus dejetos - o gato é autolimpante. Já viram alguém a passear com um gato numa coleira? Claro que não. O gato traça suas próprias rotas, e não gosta muito de companhia ao caminhá-las. 
Independência, o seu nome é gato. Já viram alguém domesticado ser independente?
Arrebata-me, em definitivo, usufruir da luxuosa e discreta companhia dos gatos. O gato fica ali com você, mas na dele, não superlota o espaço com arfares, babares e ganidos. O gato é a melhor companhia que um solitário pode querer. 
Não à toa, o gato é o parceiro preferido dos grandes pensadores - afinal, quem é que consegue pensar em algo com um cachorro babando em sua perna e querendo brincar de ir pegar graveto? -, dos grandes escritores - os gatos são contemplativos, mesclas de solidão e melancolia.
Entre os aficionados por gatos, estão : Charles Bukowski, Truman Capote, Jorge Luis Borges, Ernest Hemingway, Neil Gaiman, Stephen King, Edgar Allan Poe, Patricia Highsmith, William S. Burroughs e Julio Cortázar.
Dos gatos, disse, certa vez, o velho sujo Bukowski, que chegou a ter nove de uma só vez : "Gosto de olhar os meus gatos, eles me acalmam. Eles me fazem sentir bem. Você sabia que os gatos dormem 20 das 24 horas do dia? Não se admira que tenham melhor aparência do que eu. Na minha próxima vida, quero ser um gato. Dormir 20 horas por dia e esperar ser alimentado. Sentar por aí lambendo meu cu. Os humanos são desgraçados demais, irados demais, obcecados demais".
Eu sempre tive gatos por animais de estimação. Corrijo : eles sempre me tiveram, sempre tive o privilégio de me elegerem para o seu dono de estimação. Houve a Quica, uma esbelta e delgada siamesa; nas madrugadas que eu varava a estudar para as provas da faculdade, ela se postava à minha frente, em cima da mesa, geralmente sobre um livro ou caderno, e ficava lá, em pé e imponente a me olhar, sem produzir único ruído, uma verdadeira estátua egípcia, uma pequena Bubastis.
Hoje, tenho duas gatas em casa, a Pretinha, exímia caçadora de beija-flores, e a Cleonice, minha parceira sempre presente e, no mais das vezes, imperceptível, como os gatos são mestres em ser. Estou na cozinha a preparar alguma comida e ela está a me observar, a me vigiar e guardar; estou a fazer faxina e ela segue o suado caminho da vassoura, a brincar e pular com os ciscos recolhidos do chão; se tiro um cochilo à tarde, ela vem se encostar em mim. 
Ao fim da noite, ou ao começo da madrugada, quando esposa e filho já estão a dormir, quando a própria casa ressona em profundo, geralmente me sento à sacada para contemplar a cidade, ouvir uma musiquinha, escrever minhas coisas, matar a última lata de cerveja, e a Cleonice vem. Pula em meu colo, roda, afofa meu colo com suas unhas e se enrodilha, sem peso algum. E fica. A ouvir minhas músicas, a escutar meus pensamentos... seu eu pudesse, sairia em desabalada carreira com ela pelos telhados.
Então, pego e leio um poema do Bukowski para ela. Não sei se ela entende, o que sei é que seu peito vibra e ronrona. E o meu também.
Bukowski e suas companhias prediletas : seus escritos, a birita e os gatos.