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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Quem Tem Medo de Sexta-Feira 13?

Há loucura e cagaços (o que os especialistas chamam de fobias) de todos os tipos. Há irracionalidades para todos os gostos e desgostos. Uma grande e variada coleção de irracionalidades é o que costumamos chamar comumente de ser humano.
E, então, entram em cena os estudiosos do irracional, os bam-bam-bans da psiquê - psiquiatras, psicológos, terapeutas e outros que tais. Tentam explicar o que eles consideram irracionalidade do ponto de vista do que julgam racional. Aí, não tem como. É o conhecido festival de psicoabobrinhas.
Os psicopicaretas fartam-se em explicar cada loucura ou fobia, em descrever seus sintomas, seus mecanismos, os gatilhos ambientais que as teriam desencadeado e as maneiras de controlá-las, de pô-las à coleira da racionalidade. E, tenho certeza, alcançam orgasmos anais múltiplos a nomeá-las, a cada fobia, a cada pane de nosso disco rígido - como o psicopicareta gosta de dar nomes complicados e eruditos a cada anomalia, real ou por eles mesmos inventadas.
Quanto mais pomposo, quanto mais longo o nome, melhor. Invariavelmente, são nomes compostos por palavras oriundas do grego ou do latim, que é pro psicopicareta ostentar toda a sua erudição do Almanaque do Biotônico Fontoura e/ou das palavras cruzadas Coquetel, nivel médio.
Aliás, tenho cá pra mim que os tais experts padeçam também de uma fobia, a de não dar nomes às fobias. O cara se depara com uma fobia dantes nunca vista, ainda não descrita nem catalogada e, no mesmo momento, uma angústia abissal se lhe abate, um ataque de pânico, um medo irracional e incontrolável se lhe acomete frente àquela fobia sem nome. E ele se vê obrigado, terapeuticamente, a inventar mais uma pernóstica denominação.
Descobri hoje que existe a parascavedecatriafobia, termo derivado das palavras gregas "paraskeví", que significa "sexta-feira", e "dekatreís" que significa "treze", ou seja, fobia de sexta-feira 13. O cara se caga de medo de que algum infausto ou infortúnio possa descer do nada sobre a sua cabeça, sem nenhuma razão, motivo ou circunstância, simplesmente porque é uma sexta-feira 13.
Para combater seus medos irracionais, o ser humano, via de regra, costuma se valer e se apoiar a estratagemas, subterfúgios e sortilégios tão ou mais irracionais do que são os seus próprios medos. Apega-se a rezas, mandingas, simpatias e amuletos. Os mais abastados chegam a consultar psicólogos e  psiquiatras.
No caso da parascavedecatriafobia, o cara acredita que pode se defender da amaldiçoada data se carregar consigo um pé de coelho, ou um trevo-de-quatro-folhas, ou uma ferradura (aliás, ele deveria calçá-las cotidianamente), ou uma figa na carteira, ou um ramo de arruda na orelha etc etc.
Recitar pequenos mantras e encenar pequenos rituais também podem servir de escudo contra o agourento e maledeto dia : pé de pato, mangalô três vezes, e bater três vezes na madeira com  os nós dos dedos são exemplos clássicos.
O louco é tão louco que acha que a sua fobia também tem lá as fobias dela. Crê que a sexta-feira 13 tenha pédecoelhofobia, trevofobia, ferradurafobia, espadadesãojorgefobia, salgrossofobia e outras tantas.
Pois com o Azarão não tem essa baitolagem de pé de pato, mangalô, nem de bater na madeira, nem de fugir de gato preto, nem de não passar embaixo de escadas, e nem, e principalmente, de andar com pé de coelho no bolso, ou à guisa de penduricalho de chaveiro.
Pé de coelho é o caralho! O que tira qualquer tipo de azar de um sujeito é uma boa buceta de coelhinha, como a abaixo.
Meu amigo, se uma felpuda buceta de coelhinha não tirar a sua uruca e a sua ziquizira, nada mais logrará êxito. Seu caso é incurável e terminal. Você tá no bico do urubu.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Sexta-Feira 13, o Dia do Azarão

Dia do azar é o caralho! Sexta-feira 13 é o Dia do Azarão!!!
E pra cima do Azarão não cola mandinga, despacho, olho-grande nem olho gordo, nome na boca do sapo nem na beiça da perereca, café coado em calcinha, ziquizira nem praga de puta. 
Vacino-me todos os dias. Moro em um prédio de 3 andares, sem elevador. Todos os dias, várias vezes por dia, ao iniciar minha subida pelos lances inferiores da escada, passo embaixo, óbvio, dos degraus superiores; passar embaixo de escadas é comigo mesmo. Tenho duas gatas, uma delas, preta como a noite sem lua e café turco; ela cruza meu caminho todos os dias, várias vezes por dia. Tenho anticorpos concentrados contra o azar. Meu sangue é o próprio soro antiofídico contra a peçonha da má sorte.
Sou composto do próprio mau agouro, sou monolito, matéria escura, buraco negro de má probabilidade.
Só uma coisa pode dar azar ao Azarão em uma sexta-feira 13 : trabalhar! Assim sendo, valendo-me de minha condição de funcionário público, doei sangue logo pela manhã e ganhei o dia todo de ociosidade. Doei sangue : pesar (72 kg), medir a pressão (11 x 7), verificar hemoglobina (49%); entrevista com enfermeira/assistente social - dormiu bem, viajou para outras regiões, fez tatuagem, tomou vacina, está em tratamento dentário, só transa com sua mulher, já transou com homem, recebeu sangue? -, agulha pra cavalo na veia, drenagem de meio litro de sangue, lanchinho - suco de manga, bolacha de água e sal e sanduíche de quase presunto e muçarela - e as recomendações de evitar esforços físicos e, principalmente, ingerir muito líquido, repor a seiva perdida.
Obediente que sou, ao chegar em casa, pus-me a seguir as prescrições médicas. Coloquei o toca-cd na mesa da sacada - só musicão antigo - pu-lo a tocar e me sentei a ouvir velhas canções e a me hidratar. Água de coco? Gatorade? À puta que pariu, que, assim como mau-olhado, viadagem também não cola : três bons latões gelados da boa Itaipava, concebida das cristalinas águas das serras de Petrópolis; em oferta nessa semana, R$ 1,59 o latão, boa e barata. E o dia esteve de fato proprício a essas pequenas e inofensivas licenciosidades, a fazer jus à sua fama : nublado, chuvoso, cinzento.
Emborcando um suco de cevada, ouvindo Adoniran, cabeça vazia, ateliê do diabo (e o diabo que molda suas argilas e seus mármores em mim é um Michelângelo, um Rodin), resolvi pesquisar a origem do azar injustamente atribuído à sexta-feira 13.
Sempre supus, dados os seus símbolos clássicos - bruxa, gato preto -, que remontasse à Idade Média, à caça às bruxas, à satância Santa Inquisição Católica. Errei. E gostei de errar. Surpreendi-me favoravelmente.
Não é que, aparentemente, a origem da má fama da sexta-feira 13 remete à mitologia nórdica, à patota do meu camarada Thor? Faz todo o sentido a sexta-feira 13 ser o dia do Azarão e ter descendência nórdica. Sempre fui muito mais afim da turma de Odin que da de Zeus. Não é à toa que há o martelo de Thor no frontispício do Marreta, ameaçando marretar a cabeça de deus e espalhar os miolos desse velho safado pelos confins do universo. Similia similibus curantur. Tenho alma escandinava! Só reencarnei, por artimanhas de Loki, o maldito, em errôneas latitudes. Um asgardiano encarcerado em corpo cucaracha.
O azar atribuído à sexta-feira 13 nasceu de duas lendas nórdicas. De acordo com a primeira, Odin resolveu organizar uma reuniãozinha entre amigos, um comes e bebes, um rega-bofe no Valhalla, a morada celestial dos guerreiros nórdicos, e convidou outros doze deuses para a festa. Esqueceu-se de Loki. Loki, o filho anão dos gigantes de gelo. Loki, o trapaceiro, o príncipe da mentira. Loki, filho adotivo de Odin, meio-irmão de Thor. Sentindo-se preterido, talvez por não ser filho legítimo de Odin, Loki reagiu ao bullying do Pai Celestial : apareceu na festa sem ser convidado e armou um baita de um quebra-pau cujo trágico desfecho levou à morte de Balder, o mais belo dos deuses. Instituiu-se, então, a superstição de que convidar 13 pessoas para jantar era desgraça na certa e esse número ficou marcado como símbolo do azar.
Faz sentido, isso de 13 comensais atraírem desgraça. Não eram igualmente treze, os convivas da santa ceia, Cristo e mais doze apóstolos? E vejam só o azar desgraçado que o cristianismo trouxe para o mundo.
A outra lenda diz respeito à gostosíssima esposa de Odin, Frigga. Se bem que nem precisava dizer que Frigga, deusa da fertilidade, amor e união, era gostosíssima. Ou alguém acha que Odin, sendo o Todo-Poderoso do panteão, iria desposar uma baranga? Uma troll de pernas e suvacos cabeludos, uma integrante do Femen de Asgard? Segundo essa lenda, quando as pagãs tribos nórdicas se converteram ao cristianismo, Frigga foi decretada bruxa e exilada no alto de uma montanha. Em retaliação, Frigga passou a se reunir, em todas as sextas-feiras, com mais 11 feiticeiras e o próprio Satanás - num total de 13 participantes, portanto - para rogar pragas sobre a humanidade. Que sortudo, o Satanás, uma orgia pagã com 12 gostosas em todas as sextas-feiras. O nome Frigga deu origem aos vocábulos friadagr e friday, sexta-feira em escandinavo e inglês, respectivamente.
Aliás, eu não entendo a conversão dos povos pagãos ao cristianismo; na verdade, não entendo a necessidade que a maioria tem de seguir uma religião, qualquer que seja ela. Mas deixar uma religião que celebra a natureza e suas forças, que tem a Vida, enfim, como deusa e doutrina, para seguir outra que celebra a morte e o suplício? Deixar uma religião que lida naturalmente com o corpo e seus desejos para seguir outra que o demoniza e trancafia, carrega-o de culpa e pecado? Aí, é que eu não entendo mesmo. No paganismo, tem festa do equinócio, do solstício, da colheita etc etc, parece uma Bahia com neve, e tudo com muita comida, muita bebida e todo mundo dançando pelado em volta da fogueira. Trocar uma religião na qual a fogueira serve de lúmen e calor para amantes copularem ao gélido ar livre por outra em que a fogueira serve para queimar gente, é instrumento de pena de morte?
Dia do azar é o caralho! Sexta-feira 13 é o Dia do Azarão. Matei o trabalho, tomei uns bons latões de boa e barata cerveja, ouvi uns musicões antigos, li um pouco de mitologia nórdica.
O seguro, contudo, morreu de velho. Não creio em bruxas, mas que elas existem, existem. Só para garantir, só por precaução, afinal, o Marreta é objeto de muito quebranto, posto aqui dois dos amuletos mais infalíveis contra o azar ; o trevo-de-quatro-folhas e o pé de coelho.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Sexta-Feira 13

Nenhum gato preto
Cruzou hoje o meu caminho rumo ao trabalho,
Também nenhuma escada se interpôs a ele,
Me obrigando a passar sob a sua sombra funesta,
Nenhum espelho se estilhaçou
À visão de minha cara emburrada.
O céu estava da mesma cor
O ar, com mesmo cheiro e secura.
As mesmas pessoas, 
No ponto de ônibus ao lado do viaduto,
A esperar pelo mesmo ônibus lotado,
Que virá no mesmo horário,
Com o mesmo atraso.
A mesma garça branca
No rio que a avenida tenta sufocar,
Sua brancura atolada no lodo,
Que a macula e a nutre.
As mesmas pessoas a atender na padaria,
As mesmas sentadas ao seu balcão,
Os mesmos cafés,
Os mesmo pães com manteiga,
Que, por preguiça ou falta de tempo,
Preferem comer na rua. 
Os mesmos trabalhadores da limpeza pública,
E seus vassourões, 
E seus fúnebres sacos de lixo pretos,
A recolher a carniça das ruas,
Deixando-as prontas para novamente serem emporcalhadas.
Os mesmos velhos já a se acomodarem com seus jornais
Em seus velhos bancos de praça,
Os mesmos pombos piolhentos 
A ciscar os restos de comida que os mendigos não quiseram,
Ou que ainda não viram,
Uma vez que ainda dormem,
Os mesmos, em seus mesmos cantos,
Com seus mesmos cobertores
E seus mesmos fiéis cachorros aos seus pés.
Os mesmos porteiros, dos mesmos edifícios,
A separar a correspondência, a varrer as calçadas
A dar o mesmo profissional bom-dia aos moradores que entram e saem.
Os mesmos inspetores às entradas das mesmas escolas,
Os mesmos alunos, os mesmos professores, a mesma farsa.
Nenhum desastre,
Nenhuma catástrofe,
Nenhum prenúncio do apocalipse.
Ninguém me lançou um mau-olhado
Nem mesmo um olhar.
Um dia sem nada de mais,
Um dia comum:
Azarado como qualquer outro.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Sexta-Feira 13 - O Dia Do Azarão

Discordo - e fico puto da vida - de quando as pessoas, referindo-se a um dia nublado e chuvoso, dizem que o tempo está ruim ou que o dia está feio. Poucas coisas são mais imponentes e majestáticas na natureza que um céu cinza pesado de chumbo, prestes a esmagar quem o tem por teto e que, no entanto, desfaz-se e desaba tão leve e redentoramente.
A maioria das pessoas é mesmo muito burra. Basta que comece uma rala chuvinha e já correm para abrigos como se mil demônios estivessem em seus calcanhares. Não obstante, expõem-se espontaneamente a borrascas diárias de chuva solar, a tormentas de raios ultravioletas mutagênicos e cancerígenos. A moça da previsão do tempo faz cara de cu ao antever um fim de semana chuvoso, mas ri feito uma débil mental ao anunciar um fim de semana altamente radiativo.
A mesma discordância, manifesto em relação às bobagens ditas e ao comportamento temeroso das pessoas quando o assunto é a Sexta-Feira 13. A Sexta-Feira 13 é um dia, digamos assim, de bagunça cósmica, o dia em que Lorde Caos e Mestre Ordem deixam os ternos no armário e vão tomar umas no bar.
É o dia dos elfos zombeteiros, dos elementais travessos, dos leprechauns bêbados, da sacizada traquinas, dos espíritos galhofeiros em geral. É o dia em que deus tem sua bunda chutada do trono. É o dia dos Azarões.
Hoje, então, é sexta-feira 13 e está nublado e chuvoso. Hoje não tem gato preto, não tem passar sob a escada, não tem espelho quebrado, não tem porra nenhuma que me segure. É o meu maior dia de poder; hoje, nada pode dar errado.
Como se não bastasse, a origem do mito da Sexta-Feira 13 é nórdica. Conta-se que, em certa feita, Odin, chefão do panteão nórdico, promoveu um banquete em Valhalla para o qual foram convidadas 12 divindades; Valhalla era o palácio para onde iam os guerreiros tombados em batalha. Loki, o saci nórdico, não estava entre os 12 convidados e, enciumado, apareceu de penetra e aprontou o maior pampeiro. Deste episódio, surgiu a ideia de que 13 pessoas à mesa era desgraça na certa.
Sexta-feira 13, chuvoso e de ascendência nórdica... pois não é a marreta de Thor a proteger esse blog?
Hoje, eu tô com tudo. Hoje não tem mau-olhado, não tem olho-gordo, não tem urucubaca, não tem ziquizira. Não tem nem quebranto, com o qual sofro tanto cotidianamente.
Mas só para garantir - e deixar o blog mais bonito, antes que meu primo comece novamente a reclamar da falta das gostosas -, posto abaixo uma foto da Scarlett Johansson. Duvido que alguém possa nutrir um mau pensamento ao mirar a pequena Scarlett, o trevo-de-quatro-folhas (e de dois belos peitos) do Marreta.