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segunda-feira, 17 de junho de 2024

Não é Carnaval, Mas é Madrugada (17)

Não gosto do Carnval festa em si - evento coletivo. Gosto do carnaval conceito - celebração individual.
Gosto do carnaval livramento. Do carnaval libertação - ainda que fugaz e, logo, ilusório - das amarras e das convenções morais, sociais e religiosas. Do carnaval alforria, principalmente de mim mesmo, de minha identidade oficial, da persona que fui/foram construindo ao longo do tempo. Gosto, assim como o Bandeira, do carnaval folguedo existencial. O carnaval do ser, do não-ser. Como é bom não-ser.

sábado, 11 de fevereiro de 2023

Não é Carnaval, Mas é Madrugada (16)

Acredito que um autoquestionamento seja recorrente entre nós, aqueles que, nos raros e desocupados momentos, ocupam-se assoberbadamente em pensar na vida, em dar asas e tratos à bola, sobretudo os já passados do meio da vida : é possível sentir saudades do que não vivemos?

sábado, 27 de janeiro de 2018

Não é Carnaval, Mas é Madrugada (15)

Não gosto de carnaval. E não é exclusividade da folia de Momo, esse meu desgostar. Tenho repulsa a toda atividade ou manifestação que implique em aglomerações, em ajuntamentos, em que centenas, milhares de pessoas, abrem mão - voluntária e prazerosamente - do que é mais caro e distintivo (ou deveria ser) à espécie humana, a individualidade, e se fundem e se esmerdeiam numa única massa acéfala e indiferenciada.
Por isso, não gosto das religiões. De futebol. De shopping centers. Do carnaval.
Gosto, contudo, de uma parcela significativa das músicas de carnaval. O filme pode ser uma bosta e a trilha sonora, boa. Gosto, na verdade, não das músicas feitas "para" o carnaval, para alegrar os foliões nos bailes, para tocar nos salões durante a folia - embora haja marchinhas (das muito antigas) muito bonitas e inspiradas. Sim das músicas que versam sobre os bastidores do carnaval, sobre  o que não se passa nem nos salões nem na avenida, sobre o antes - a expectativa, os preparativos, o gozo represado - e, sobretudo, sobre o depois, as decepções, a ressaca, o rescaldo; enfim, as Cinzas. Sim, não gosto das músicas de carnaval, mas adoro as das Cinzas, do anticlímax, da contraeuforia.
Músicas como Ela Desatinou (Chico Buarque), Retalhos de Cetim (Benito de Paula), Bloco da Solidão (Evaldo Gouveia), a bela Cachaça Mecânica (Erasmo Carlos), a belíssima Vila Esperança (Adoniran Barbosa) e tantas outras, muitas das quais registradas aqui no Marreta.
Maria, Carnaval e Cinzas : conhecia a canção por nome, de ouvir falar, sabia ser uma música que fora defendida por um Roberto Carlos em inícios de carreira (um dos raros sambas gravados por ele) no III Festival da Música Brasileira (1967), mas confesso - e eu mesmo me prendo, julgo e condeno sumariamente : nunca a tinha escutado. Hoje, conduzido até ela pelas tortuosas e inescrutáveis trilhas da internet, ouvi-a. 
Maria nasceu ao nascer de um carnaval. De fantasia foi o seu enxoval. Ocupados da folia, não lhe deram, como a tantas Marias, nome de santas, nome de flor. Somente Maria, semente de samba e de amor. Não era noite nem era dia. O futuro, incerto, por certo, lhe sorriria. Cresceria porta-estandarte. Cobiça dos olhos e dos sonhos dos foliões. Morre, porém, a nascitura Maria na quarta de cinzas do mesmo carnaval. De cinzas foi o seu enxoval. Que lhe dessem o nome, então, como o de tantas, nomes de santas, nome de flor. Jamais a sorte lhe sorriria. Jamais seria porta-estandarte, jamais estaria nos olhos e nos sonhos dos foliões. Maria, um rebento de samba e de dor.
Uma música bonita pra caralho! Uma letra primorosamente construída, arquitetada como há tempos não se faz. Triste pra cachorro. Cinza. Cinzas.
A música pegou o quinto lugar do Festival, "perdendo" para :
1)Ponteio (Edu Lobo/Capinam)
2) Domingo no Parque (Gilberto Gil);
3) Roda Viva (Chico Buarque); 
4) Alegria, Alegria (Caetano Veloso) 
Difícil dizer que houve injustiça ou favorecimentos no resultado, afinal, eram (são até hoje), todos os classificados, pesos-pesados da MPB, mas o fato é que Roberto Carlos sempre foi muito mais afinado que Chico Buarque e que Caetano Veloso, muito mais melodioso que Edu Lobo,  e que, sim, houve uma resistência/preconceito muito grande em relação àquele cabeludo, àquele cantor de iê-iê-iê querer se meter onde não foi chamado, se meter em um festival de música "séria", como bem mostra o misto de vaias e aplausos durante a apresentação da música (clicar link no final da postagem).
Vamos, enfim, às Cinzas, à Maria, Carnaval e Cinzas. É de arrepiar. É de fazer chorar. Ainda mais se você já tiver tomado umas a mais, como eu. Ainda mais se for madrugada. Ainda que não seja carnaval.

Maria, Carnaval e Cinzas
(compositor : Luís Carlos Paraná/ intérprete : Roberto Carlos)
Nasceu Maria quando a folia
Perdia a noite ganhava o dia
Foi fantasia seu enxoval
Nasceu Maria no carnaval.

E não lhe chamaram assim como tantas
Marias de santas, Marias de flor
Seria Maria, Maria somente
Maria semente de samba e de amor.

Não era noite, não era dia
Só madrugada, só fantasia
Só morro e samba, viva Maria
Quem sabe a sorte lhe sorriria.

E um dia viria de porta-estandarte
Sambando com arte, puxando cordões
Decerto estaria em plena folia 
Nos olhos e sonhos de mil foliões.

Morreu Maria quando a folia
Na quarta-feira também morria
E foi de cinzas seu enxoval
Viveu apenas um carnaval.

Que fosse chamada, então como tantas
Marias de santas, Marias de flor
Em vez de Maria, Maria somente
Maria semente de samba e de dor.

Não era noite, não era dia
Somente restos de fantasia
Somente cinzas, pobre Maria
Jamais a vida lhe sorriria

E nunca viria de porta-estandarte
Sambando com arte puxando cordões
E não estaria em plena folia
Nos olhos e sonhos de seus foliões

E não estaria em plena folia
Nos olhos e sonhos de seus foliões
.

Para ouvir e ver a emociante interpretação do Rei, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO 

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Não é Carnaval, Mas é Madrugada (14)

Carnaval é época de euforia, de carnalidades, de novos amores. Por isso, também é tempo de traições. E Chico Buarque compôs uma das mais belas canções de perfídia de nossos carnavais. Nem é só a traição da mulher ao seu homem, é a infidelidade da cabrocha à sua escola, ao seu próprio sangue, samba, seiva. É a deslealdade da porta-bandeira que troca a avenida pela galeria, pelo camarote, provavelmente bancada por um coroa rico.
A canção Quem Te Viu, Quem Te Vê é o lamento do corno, o desabafo do mestre-sala que marcava seu samba na cadência dos passos da infiel cabrocha, que a vestia de dourado pra que o povo admirasse. 
Mas o corno não perde a pose nem a classe, mantém-se altaneiro, sustenta feito um Atlas o peso dos chifres e dá uns belos tapas com luva de pelica na vagabunda : "Eu não sei bem com certeza porque foi que um belo dia Quem brincava de princesa acostumou na fantasia"; "Se você sentir saudade, por favor não dê na vista Bate palmas com vontade, faz de conta que é turista"
Faz de conta que é turista... É pra fazer qualquer puta chorar por onde mais lhe dói a saudade. É o Chico!
Quem Te Viu, Quem Te Vê
(Chico Buarque)
Você era a mais bonita das cabrochas dessa ala
Você era a favorita onde eu era mestre-sala
Hoje a gente nem se fala, mas a festa continua
Suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua


Hoje o samba saiu procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais a esquece não pode reconhecer


Quando o samba começava, você era a mais brilhante
E se a gente se cansava, você só seguia adiante
Hoje a gente anda distante do calor do seu gingado
Você só dá chá dançante onde eu não sou convidado


Hoje o samba saiu procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais a esquece não pode reconhecer


O meu samba se marcava na cadência dos seus passos
O meu sono se embalava no carinho dos seus braços
Hoje de teimoso eu passo bem em frente ao seu portão
Pra lembrar que sobra espaço no barraco e no cordão


Hoje o samba saiu procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais a esquece não pode reconhecer


Todo ano eu lhe fazia uma cabrocha de alta classe
De dourado eu lhe vestia pra que o povo admirasse
Eu não sei bem com certeza porque foi que um belo dia
Quem brincava de princesa acostumou na fantasia


Hoje o samba saiu procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais a esquece não pode reconhecer


Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria
Quero que você assista na mais fina companhia
Se você sentir saudade, por favor não dê na vista
Bate palmas com vontade, faz de conta que é turista


Hoje o samba saiu procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais a esquece não pode reconhecer

sábado, 17 de agosto de 2013

Não é Carnaval, Mas é Madrugada (13)

Cravo Branco, de Paulo Vanzolini, certamente não é uma música de carnaval. Acontece que os seus versos, Ai, o pobre, caído no chão/De bruços no sangue/Com o cravo branco na mão, lembraram-me muito d'outros versos, A vista incerta/Os ombros langues/Pierrot aperta/As mãos exangues/De encontro ao peito/Alguma cousa/O punge ali/Que ele não ousa/Lançar de si,/O pobre doido!/Uma sombria/Rosa escarlata/Em agonia/Faz que lhe bata O coração..., esses do poema a Rosa, de Manuel Bandeira, incluído no livro Carnaval. Está aí o carnaval.
São imagens fortíssimas, tanto o Pierrot que traz a rosa escarlate enraizada ao branco peito de cetim quanto o pobre de Vanzolini, de bruços no sangue com o cravo branco na mão.
Imagens fortes construídas pelo contraste e pelo inesperado, contraste entre o sereno branco e o revolto vermelho, o inesperado da morte, seja a morte literal, do corpo todo, ou a metafórica, do coração que é arrancado em rosa e arremessado à sarjeta, abandonado por seu dono, que se põe a andar - e a viver daí por diante - com um buraco no peito, mais à sarjeta que a rosa que tivera que abandonar.
Mais que pelo constraste e pelo inesperado, pelo confronto e pelo abrupto. 
O confronto entre o branco, ilibado e porvindouro, e o vermelho, carregado de culpa, remorso, devassidão e pestilência. 
O abrupto da morte que não se podia adivinhar, o solavanco do vivo-agora-morto-um-segundo-depois, a morte que não concede tempo para planejamentos, para avisar e preparar os familiares, escrever testamentos, despedir-se dos amigos, cometer última loucura; enfim, a morte mais temida de todas, e, paradoxalmente, a mais piedosa, também. A morte que não nos dá tempo de pensar nela, de sofrer de antecipado com a sua ideia, a morte que não dá tempo de ficarmos com autocomiserações, como disse o próprio Vanzolini em outra de suas letras : Quando eu for, eu vou sem pena, Pena vai ter quem ficar.
De qualquer maneira, é cada vez mais raro e espaçado no tempo uma música me arrepiar, aquele arrepio de pããããta que o pariu, que coisa bonita do cacete; cada vez mais raro e esporádico uma música fazer com que eu a retroceda no toca-CD e a reouça várias e várias vezes, até decorar-lhe a letra.
Acho que ficar velho é um pouco isso, é cada vez menos se surpreender, se emocionar e se arrepiar, é não ter vontade de rever qualquer filme, de reler qualquer livro, reescutar qualquer música... sabe-se que não se têm mais grandes tempos. E Cravo Branco me surpreendeu, me arrepiou.
Não é música de carnaval, mas, de qualquer forma, é madrugada. De qualquer forma, o fundo de minha caneca já se deixa ver, mal oculto pela fina lâmina residual de cerveja, quente e sem espuma, a última da noite, ou a primeira do dia.
Cravo Branco
(Paulo Vanzolini)
Saiu de casa de terno tropical,
Camisa creme,

Lenço e gravata igual,
Jantou e saiu satisfeito,
Pra antes da meia-noite,
Morrer com um tiro no peito.

(bis)
Ela lhe deu o cravo,
O outro se ofendeu,
Ele olhou no revólver,
Dava tempo e não correu,
Dobrou o joelho, desabou no chão,
Os olhos redondos,
E o cravo branco na mão.


Ai, o pobre, caído no chão,
De bruços no sangue,
Com o cravo branco na mão.


Ai, o pobre, caído no chão,
De bruços no sangue,
Com o cravo branco na mão. 

A música está no CD Paulo Vanzolini Por Ele Mesmo e também no CD 1 da coletânea Acerto de Contas. Para apenas ouvi-la, sem precisar baixar, você pode clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Não É Carnaval, Mas É Madrugada (12)

Uma das melhores letras de Erasmo Carlos, só dele, o Roberto nem passou perto.
Foi pisado pela escola, morreu de samba, de cachaça e de folia... Bonito pra cacete!
Cachaça Mecânica
(Erasmo Carlos)
Vendeu seu terno
Seu relógio e sua alma
E até o santo
Ele vendeu com muita fé
Comprou fiado
Prá fazer sua mortalha
Tomou um gole de cachaça
E deu no pé...


Mariazinha
Ainda viu João no mato
Matando um gato
Prá vestir seu tamborim
E aquela tarde
Já bem tarde, comentava
Lá vai um homem
Se acabar até o fim...


João bebeu
Toda cachaça da cidade
Bateu com força
Em todo bumbo que ele via
Gastou seu bolso
Mas sambou desesperado
Comeu confete
Serpentina
E a fantasia...


Levou um tombo
Bem no meio da avenida
Desconfiado
Que outro gole não bebia
Dormiu no tombo
E foi pisado pela escola
Morreu de samba
De cachaça e de folia...


Tanto ele investiu
Na brincadeira
Prá tudo, tudo
Se acabar na terça-feira...


Vendeu seu terno
E até o santo
Comprou fiado
Tomou um gole
João no mato
Matando um gato
Naquela tarde
Lá vai o homem...


João bebeu
Toda cachaça da cidade
Bateu com força
Em todo bumbo que ele via
Gastou seu bolso
Mas sambou desesperado
Comeu confete
Serpentina
E a fantasia...


Levou um tombo
Bem no meio da avenida
Desconfiado
Que outro gole não bebia
Dormiu no tombo
E foi pisado pela escola
Morreu de samba
De cachaça e de folia...


Tanto ele investiu
Na brincadeira
Prá tudo, tudo
Se acabar na terça-feira...

sábado, 22 de dezembro de 2012

Não É Carnaval, Mas É Madrugada (11)

Adoniran Barbosa, já disse isto aqui algumas vezes, era visto - e é lembrado pela maioria até hoje - como aquele sujeito engraçado, gaiato, de fala errada, sempre retratado de paletó, gravatinha borboleta e chapéu panamá, sempre de bem com a vida.
Nada disso. Adoniran era triste, porém não era piegas, não nutria nenhum grau de autocomiseração, não que demonstrasse em seus versos, pelo menos. Não culpava a ninguém por seus infortúnios, sabia que uma desgraça aqui, outra ali, fazia parte do jogo. Adoniran não era de bem com a vida, apenas sabia que ficar de mal com ela de nada adiantava. Que a vida está pouco se lixando para os nosso amuos, que a vida não cede às birras de bebês mimados e chorões.
Adoniran era o Pagliacci da postagem anterior, que postei sem nem pensar em Adoniran, Adoniran era um palhaço triste, figura que, recorrentemente, tem se posto à minha frente nas últimas semanas.
Talvez por me saber, eu próprio, um palhaço triste. Apresento-me a meu público apedeuta, faço rir a alguns, dormir a outros, desperto interesse em uma minoria, provoco a raiva de muitos. E entre uma apresentação e outra, a cada cerrar e descerrar de cortinas, em meu íntimo camarim, também choro, uma lágrima seca e hipócrita.
Elis Regina, também outra palhaça triste, já havia identificado, e se identificado com, a tristeza cômica de Adoniran. Em um documentário antigo, em preto-e-branco, da TV Cultura, ela inverte seu papel de entrevistada e pergunta indignada ao seu invisível interlocutor : como alguém pode achar graça em Saudosa Maloca? E é de Elis, na minha opinião, a melhor gravação que há de a Saudosa Maloca.
Elifas Andreato foi outro que percebeu logo de cara a natureza rir-para-não-chorar de Adoniran. Consagrado artista plástico e requisitado capista de LPs, com trabalhos feitos para Toquinho e Vinicius, Chico Buarque, Paulinho da Viola, entre outros - quem não se lembra da capa do LP Nervos de Aço, de Paulinho; ou do Vida, de Chico? -, Elifas havia preparado uma belíssima capa para o terceiro LP de Adoniran Barbosa, em que o retratava como um palhaço lacrimejante.
Elifas apresentou sua arte ao então presidente da gravadora Odeon, Roberto Augusto, que ponderou : "‘Está lindo, mas você acha que ele vai entender esse negócio de palhaço?’. Em uma segunda análise, Elifas pensou que realmente Adoniran pudesse se ofender com a imagem. E preparou um outro desenho, de um Adoniran sóbrio, com a clássica imagem do chapéu e gravata borboleta. Mandou emoldurar o desenho antigo e o entregou de presente ao produtor Fernando Faro, que pendurou o quadro em seu escritório. Depois de alguns meses, uma ligação do produtor chegava ao estúdio do ilustrador: ‘Elifas, tem alguém querendo falar com você aqui’. Era Adoniran, que, de frente para a arte rejeitada, pegou o aparelho e sentenciou: ‘Elifas, eu sou esse palhaço triste aqui, e não o alemão que você pôs na capa do disco’. Do outro lado da linha, o desenhista corou. ‘Nunca senti tanta vergonha. Artista não dá pra subestimar. Subestimar artista é uma merda’."
Adoniran foi mais um dos poucos caras que entendeu a piada que é tudo isso, que é a porra do mundo. Não achava muita graça nela, é verdade. Mas se sabia e se aceitava como parte e personagem da anedota e, principalmente, gostava de tirar sarro, de fazer piada com aqueles que não se sabiam parte da piada.
Adoniran foi o Pagliacci de Jaçanã, o Pierrot do Bexiga.
Como bom Pierrot, é de Adoniran uma das mais belas canções de carnaval a integrar nosso rico cancioneiro. A letra é um primor, nada fica a dever para Chico Buarque, Tom Jobim, ou Vinícius de Moraes. Nem ao Carnaval, de Manuel Bandeira.
Vila Esperança é de arrepiar, de chorar, de sair de casa, de madrugada, para ir buscar mais cerveja na loja de conveniência mais próxima.
Vila Esperança
(Adoniran Barbosa)
Vila Esperança, foi lá que eu passei
O meu primeiro carnaval
Vila Esperança, foi lá que eu conheci
Maria Rosa, meu primeiro amor

Como fui feliz, naquele fevereiro
Pois tudo para mim era primeiro
Primeira rosa, primeira esperança
Primeiro carnaval, primeiro amor, criança

Numa volta no salão ela me olhou
Eu envolvi seu corpo em serpentina
E tive a alegria que tem todo Pierrô
Ao ver que descobriu sua Colombina

O carnaval passou, levou a minha rosa
Levou minha esperança, levou o amor criança
Levou minha Maria, levou minha alegria
Levou a fantasia, só deixou uma lembrança.
  
Para ouvir Vila Esperança, com a participação do Quarteto Fantástico MPB-4, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Não É Carnaval, Mas É Madrugada (10)

Bandeira Branca, composta em 1970, é talvez o último dos clássicos dos velhos carnavais das marchinhas; depois de 1970, desgraçadamente, predominaram (e predominam até hoje) os nefandos sambas-enredos.
Bandeira Branca é de autoria de Laércio Alves e Max Nunes. Max Nunes, hoje com 90 anos de idade - nasceu junto com a Semana de Arte Moderna -, é o redator, diretor, produtor, e sei lá mais o quê, do Programa do Jô. E isso desde a época do Viva o Gordo, na década de 80, ou seja, desde quase sempre.
Max Nunes é o Jô Soares; melhor, Jô Soares é uma fração de Max Nunes, é um Max Nunes mais gordo, o Jô é um dos heterônimos de Max Nunes, uma de suas subpersonalidades, o Jô é o que o Max Nunes faz nas horas vagas.
Na letra, um Pierrot rende-se à força da dor da saudade; trêmulo, tremula a bandeira branca e pede paz, pede a volta da amada. É carnaval, porra. Não é hora para melindres e orgulhos feridos. Vergonhoso, no carnaval, é o cara passar as quatro noites na seca, no jejum. Bacalhau se come é no carnaval, e não depois da quaresma, na merda da sexta-feira santa. 
Aí, o sujeito perdoa tudo, sacanagens, cornagens, crocodilagens, tudo, o cara quer é rosetar, quer é despetalar a camélia que caiu do galho.
O que muita camélia incauta não sabe, nem sequer desconfia, é que, a hastear cada, aparentemente, submissa bandeira branca, há um mastro rijo, uma benga em riste prestes a lhe comer o rabo; a bandeira branca é a minhoca na ponta do anzol, ou, no caso, a minhoca na ponta do minhocuçu.
No carnaval, a tudo se perdoa e tudo é perdoável. Abandone as reservas, agite sua bandeira branca, sem vergonha e sem culpa. Ainda não é carnaval? Mas já é madrugada : valem as mesmas regras, bandeira branca, amor.
Bandeira Branca
(Max Nunes/Laércio Alves)
Bandeira branca, amor
Não posso mais
Pela saudade
Que me invade
Eu peço paz 


Bandeira branca, amor
Não posso mais
Pela saudade
Que me invade
Eu peço paz
 

Saudade mal de amor, de amor
Saudade dor que dói demais
Vem meu amor
Bandeira branca
Eu peço paz

Bandeira branca, amor

Não posso mais
Pela saudade
Que me invade
Eu peço paz

Bandeira branca, amor

Não posso mais
Pela saudade
Que me invade
Eu peço paz
 

Saudade mal de amor, de amor
Saudade dor que dói demais
Vem meu amor
Bandeira branca
Eu peço paz

Pela saudade

Que me invade
Eu peço paz

Saudade mal de amor, de amor

Saudade dor que dói demais
Vem meu amor
Bandeira branca
Eu peço paz

Bandeira branca, amor

Não posso mais
Pela saudade
Que me invade
Eu peço paz

Bandeira branca, amor

Não posso mais
Pela saudade
Que me invade
Eu peço paz

sábado, 30 de junho de 2012

Não É Carnaval, Mas É Madrugada (9)

Quando o Carnaval Chegar
(Chico Buarque)
Quem me vê sempre parado,
Distante, garante que eu não sei sambar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar


Eu tô só vendo, sabendo,
Sentindo, escutando e não posso falar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar


Eu vejo as pernas de louça
Da moça que passa e não posso pegar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar


Há quanto tempo desejo seu beijo
Molhado de maracujá...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar


E quem me ofende, humilhando, pisando,
Pensando que eu vou aturar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar


E quem me vê apanhando da vida,
Duvida que eu vá revidar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar


Eu vejo a barra do dia surgindo,
Pedindo pra gente cantar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar


Eu tenho tanta alegria, adiada,
Abafada, quem dera gritar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar


Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar...

sábado, 26 de maio de 2012

Não É Carnaval, Mas É Madrugada (8)

Um Amor de Carnaval
(Menotti del Picchia)
Arlequim:
Diz, queres-me bem?
Pierrot:
Fala, gostas de mim?
Colombina, hesitante:
Eu amo-te , Pierrot...... Desejo-te, Arlequim...

Arlequim, soturnamente:
A vida é singular! Bem ridícula, em suma... Uma só, ama dois... e dois amam só uma!..
Colombina , sorrindo e tomando ambos pela mão:
Não! Não me compreendeis... Ouvi, atentos, pois meu amor se compõe do amor dos dois... Hesitante, entre vós, o coração balança:
dizendo a Arlequim:
O teu beijo é tão quente...
dizendo a Pierrot:
O teu sonho é tão manso...
Pudesse eu repartir-me e encontrar a minha calma dando a Arlequim meu corpo e a Pierrot a minh’alma!
Quando tenho Arlequim, quero Pierrot tristonho, pois um dá-me o prazer, o outro dá-me o sonho!

Nessa duplicidade o amor todo se encerra: um me fala do céu... 
outro fala da terra!  
Eu amo, porque amar é variar, e em verdade toda a razão do amor está na variedade... Penso que morreria o desejo da gente, se Arlequim e Pierrot fossem um ser somente, porque a história do amor pode escrever-se assim:
Um sonho de Pierrot...

E um beijo de Arlequim!
   

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Não É Carnaval, Mas É Madrugada (7)

Ela Desatinou
(Chico Buarque)
Ela desatinou, 
Viu chegar quarta-feira
Acabar brincadeira, 
Bandeiras se desmanchando
E ela inda está sambando.

Ela desatinou, 
Viu morrer alegrias, 
Rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando
E ela inda está sambando.

Ela não vê que toda gente
Já está sofrendo normalmente,
Toda a cidade anda esquecida, 
Da falsa vida, 
Da avenida
Onde ela desatinou, 
Viu morrer alegrias, 
Rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando 
E ela inda está sambando.

Quem não inveja a infeliz, feliz
No seu mundo de cetim, assim,
Debochando da dor, 
Do pecado
Do tempo perdido, 
Do jogo acabado.

Ela desatinou
Viu morrer alegrias, 
Rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando 
E ela inda está sambando.

sábado, 6 de agosto de 2011

Não É Carnaval, Mas É Madrugada (6)

Noite dos Mascarados
(Chico Buarque)  


- Quem é você?
- Adivinha, se gosta de mim!

Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:

- Quem é você, diga logo...
- Que eu quero saber o seu jogo...
- Que eu quero morrer no seu bloco...
- Que eu quero me arder no seu fogo.

- Eu sou seresteiro,
Poeta e cantor.
- O meu tempo inteiro
Só zombo do amor.
- Eu tenho um pandeiro.
- Só quero um violão.
- Eu nado em dinheiro.
- Não tenho um tostão.
Fui porta-estandarte,
Não sei mais dançar.
- Eu, modéstia à parte,
Nasci pra sambar.
- Eu sou tão menina...
- Meu tempo passou...
- Eu sou Colombina!
- Eu sou Pierrô!

Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.

Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!

sábado, 18 de junho de 2011

Não É Carnaval, Mas É Madrugada (5)

ORGULHO DE UM SAMBISTA
(Gilson de Souza)
Você falou que junto comigo
Não mais desfilava
Se a minha escola perdesse
Você não ligava
Ensaiei o meu samba enredo
Prá minha escola ganhar
E na ala de porta bandeira
Você não quis desfilar
O meu povo inteiro chorou
E você sorria
Pois trocou nossa escola de tempos
Por um simples amor de três dias
Sufoquei minha dor em sorrisos
Para não chorar
Tudo isso ajudou
Minha escola ganhar
Mas esse orgulho eu vou levar comigo
Pro resto da vida
Me contaram que voce chorou
Quando eu passei na avenida
vendo outra de porta bandeira
Desfilando em seu lugar
Comissão julgadora presente
Falou que o meu samba ia ganhar
Meu bem
O azar foi seu
Ganhei o carnaval
E você me perdeu
Me perdeu...

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Não É Carnaval, Mas É Madrugada (4)

Bloco Da Solidão
(Evaldo Gouveia)
Angústia,
solidão,
um triste adeus em cada mão,
lá vai meu bloco, vai,
só desse jeito
é que ele sai,
na frente, sigo eu,
levo o estandarte
de um amor
O amor que se perdeu,
no carnaval,
lá vai meu bloco
e lá vou eu, também,
mais uma vez,
sem ter ninguém,
no sábado, domingo,
segunda e terça-feira,
e quarta-feira vem
e o ano inteiro
é todo assim,
por isso, quando eu passar
batam palmas prá mim.

Aplaudam quem sorriu

trazendo lágrimas no olhar,
merece uma homenagem,
quem tem forças prá cantar
tão grande é minha dor,
pede passagem
quando sai comigo só, 

lá vai meu bloco, vai.
Larará, larará, ...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Não É Carnaval, Mas É Madrugada (3)

Retalhos De Cetim
(Benito de Paula)

Ensaiei meu samba o ano inteiro
Comprei surdo e tamborim
Gastei tudo em fantasia
Era só o que eu queria
E ela jurou desfilar pra mim.

Minha escola estava tão bonita
Era tudo o que eu queria ver
Em retalhos de cetim
Eu dormi o ano inteiro
E ela jurou desfilar pra mim.
Mas chegou o Carnaval
E ela não desfilou
E eu chorei, na avenida eu chorei
Não pensei que mentia
E cabrocha que eu tanto amei.

Mas chegou o Carnaval
E ela não desfilou
E eu chorei, na avenida eu chorei
Não pensei que mentia 
A cabrocha que eu tanto amei.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Não é Carnaval, Mas É Madrugada (2)

Alvorecer 
(Florbela Espanca)
A noite empalidece.Alvorecer... 
Ouve-se mais o gargalhar da fonte... 
Sobre a cidade muda, o horizonte
É uma orquídea estranha a florescer.

Há andorinhas prontas a dizer
A missa d´alva, mal o sol desponte. 
Gritos de galos soam monte em monte 
Numa intensa alegria de viver.

Passos ao longe...um vulto que se esvai... 
Em cada sombra, Colombina trai... 
Anda o silêncio em volta a q´rer falar...

E o luar que desmaia, macerado, 
Lembra, pálido, tonto, esfarrapado, 
Um Pierrot, todo branco, a soluçar...

sábado, 27 de novembro de 2010

Não É Carnaval, Mas É Madrugada

A mesma máscara negra que cobre o teu rosto, eu quero matar a saudade...

Máscara negra
(Zé Kéti e Pereira Matos)
Tanto riso, oh quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando pelo amor da Colombina
No meio da multidão

Foi bom te ver outra vez
Tá fazendo um ano
Foi no carnaval que passou
Eu sou aquele pierrô
Que te abraçou
Que te beijou, meu amor
A mesma máscara negra
Que esconde o teu rosto
Eu quero matar a saudade
Vou beijar-te agora
Não me leve a mal
Hoje é carnaval.