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quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Filho de Ateu, Peixinho É

Na volta do trabalho para casa, a pé, já e sempre em companhia do meu filho de 9 anos, passamos pelo grande muro lateral do que foi, em áureas outroras, uma tradicional indústria cervejeira, a Companhia Cervejaria Paulista, cujas instalações servem hoje de um centro cultural, o Espaço Cultural Kaiser.
Em certo ponto do extenso muro, há uma reentrância, um nicho quadrado, que se estende do rés da calçada a um metro, um metro e meio de altura, por mesmas medidas aproximadas de largura e profundidade; um buraco quadrado, enfim.
Desde os meus tempos de menino - talvez ele tenha mesmo sido feito com esse propósito -, esse nicho faz a função de uma pequena capela, um oratório. Ali, transeuntes anônimos depositam imagens religiosas, oferendas e acendem velas.
O cenário da pequena orada muda a cada dia. Ora velas brancas, ora vermelhas, ora pretas. Igualmente, se alternam e se revezam, e muitas vezes convivem, imagens de diferentes designações religiosas. 
Dentre os santos católicos, os mais recorrentes são Nossa Senhora Aparecida e São Jorge (que, na umbanda, é Ogum) - talvez corintianos pedindo pela vitória do Timão. 
Dentre os da umbanda, os campeões de audiência são Iemanjá e uma figurinha que tive que pesquisar para saber quem era, um homenzinho de pele negra e vestido como os antigos malandros cariocas - calças, terno e chapéu brancos, camisa vermelha, sapato bicolor. Descobri que é o Zé Pilintra, um espírito de luz da umbanda, do bem, um espírito humilde, patrono dos bares, rei da vida noturna, boêmio e apaixonado por jogos, disputas e putas.
Outra imagem, menos recorrente, mas que volta e meia aparece por lá, é a de uma mulher-demônio, vestida apenas com minúscula tanga, corpão acinturado, apetitoso, tipo violão, uns belos duns peitões, chifrinhos na testa e rabo pontudo. Não consegui descobrir com exatidão a sua identidade. Talvez uma exu-mulher; mas, mais certamente, trata-se de uma entidade ligada não à umbanda, sim ao satanismo, ou à magia negra. Gostosa, a capetinha. Se não fosse pelo provável cheiro de enxofre, eu botava uma camisinha de amianto no pau, levantava-lhe o rabo e passava-lhe a vara! Fácil, fácil.
De onde se infere que tal nicho é espaço dos mais ecumênicos e democráticos. Nele se acendem, literalmente, uma vela para deus e outra para o diabo.
Hoje, ao por lá passarmos, a profusão além do normal de velas acesas e de fumaça chamou a atenção do meu filho. Havia até dois maços inteiros de cigarro queimando em oferta a alguma entidade.
Meu filho comentou : "ah, pai, essas igrejas ficam queimando esse monte de velas e só vai piorando o efeito estufa."
Pãããããããta que o pariu!!!! Genial, meu filho - eu disse -, genial!!!
Nem mesmo eu jamais pensara nisso. 
Muito se fala - e com razão - das emissões dos veículos automotivos movidos a derivados de petróleo, das indústrias, das queimadas e mesmo dos grande rebanhos bovinos cuja flatulência joga toneladas e mais toneladas do gás metano para a atmosfera. Mas, da atividade religiosa como fonte emissora de gás carbônico, nunca ninguém falou.
Só meu filho! Genial, meu filho, genial! - repeti a ele.
Imaginem santuários católicos como os de Aparecida do Norte, de Fátima, ou de Lourdes : são verdadeiras chaminés de devoção. De fazer inveja a qualquer indústria carvoeira da China. Imaginem uma cidade sincrética como Salvador, por exemplo, com suas centenas (talvez até chegando à casa do milhar) de igrejas católicas e terreiros de umbanda e candomblé em plena atividade. De fazer inveja a uma rave de fãs do Bob Marley. Imaginem todos os templos indianos, budistas e outros que tais espalhados por todo o planeta, queimando incenso dia e noite. De dar inveja às "queimadas do Bolsonaro".
Genial, meu filho, genial! Fiquei tão alegre com a astúcia e, sobretudo, com este indício, ainda que leve, com este broto, ainda que incipiente, de um futuro ateísmo de meu rebento, ou, ao menos, de uma visão dele nada mágica e santificada das igrejas, que entramos numa sorveteria e comprei-lhe um belo dum sorvetão, uma vaca preta.
Acontece que meus raros momentos de alegria e deleite duram pouco. Facilmente se deixam toldar. E a culpa é mesmo minha. Não nasci com uma pulga atrás da orelha : nasci com uma pulga no meu DNA. Vivo sabotando a mim mesmo com dúvidas, dilemas, questionamentos e outros entretantos.
Mal a euforia deflagrada pela marretada do meu filho na igreja tinha atingido seu pico, ocorreu-me : mas que história é essa de preocupação com o efeito estufa e outras questões ambientais?
Se, por um lado, ao que tudo indica, meu filho não irá se tornar em mais uma ovelhinha de Deus, será que, por outro, se tornará em um desses ecochatos?
Será que terei o prazer e a realização de não vê-lo um carola, um comedor de hóstia, um pagador de dízimo, só para ter o desgosto de vê-lo um afiliado do Greenpeace? De vê-lo um militante com a fé cega de que salvará o planeta vendendo camisetas, bonés e broches estampados com pandas e micos-leões-dourados?
Espanei a pulga da dúvida para longe. Deixei-a lá, incubada, feito vírus da  herpes. Concentrei-me apenas na alegria do meu filho a tomar o sorvete e a tagarelar sobre o efeito estufa, sobre os ursos polares e as foquinhas que estão morrendo de calor, e disse para mim mesmo : um problema de cada vez, meu velho, um problema de cada vez.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Quem Já Ouviu Dizer de um Rebanho de Gatos?

Sexta-feira. Dia de comer pastel na feira com o filho, na barraca da japonesa. Ele pede sempre o de carne com queijo; eu, o de bacalhau. Muito bom, o bacalhau da japonesa. Nossos últimos pastéis de feira até a chegada das próximas férias escolares.
Segunda-feira, conduzido coercivamente de volta ao Inferno. Que só nos dá esparsas férias para que continue com o seu poder sobre nós, para que se mantenha como Inferno. Não nos desse, o Inferno, pequenas folgas para vermos que há melhores plagas e climas, o tomaríamos como única realidade possível, perderíamos a esperança de escapar dele, deixaríamos de sofrer, portanto. Porque é disso de que se alimenta o Inferno : do sofrimento causado pela esperança vã de dele fugirmos.
Então, antes mesmo  de nossos pastéis estarem prontos, uma voz, um chamamento às minhas costas. Não do Inferno - ainda. De década, década e meia atrás.
- Homem sem fé! - a voz ecoou e evocou.
A gorda comendo de boca aberta olhou pra mim, também a japonesa, o motoboy e a velha cheia de varizes.
- Dê cá um abraço, ímpio colega.
Levantei e o abracei. Valtinho Barba. Que não é o seu real sobrenome, sim epíteto cuja origem se faz evidente à primeira vista. Reza a lenda que nunca ninguém, que ainda tenha idade para estar vivo, viu o Valtinho sem sua basta e cerrada barba. Acho que nem o Miele uso barba por tanto tempo, ininterruptamente. Nem a Cláudia Ohana.
Valtinho Barba não fez, exatamente, faculdade comigo. Fazia outro curso, o de Biomédicas, mas por conta de umas dependências em Química e Cálculo I que ele havia pego, cursou-as conosco, os da Biologia.
De cara, apegou-se a mim - tenho esse poder sobre os desajustados. Aferrou sua companhia à minha a partir do momento em que me descobriu ateu. Como ele. 
- Esse cara é igual a mim - ele dizia, batendo nas minhas costas, quando já meio alto de cerveja, nos churrascos, nas chopadas da faculdade, no finado bar do finado Ali.
Não somos iguais, Valtinho Barba e eu. Poucas pessoas poderiam, ainda que muito se esforçassem, ser mais distintas que nós. Ele assim julgava apenas porque éramos, ambos, ateus. Éramos, ele assegurava, gêmeos univitelinos em descrença separados no nascimento. Nunca o desmenti. Mas dizer que duas pessoas são iguais tão-somente por serem ateias é o mesmo que dizer que todas as mulheres são iguais, simplesmente, por serem mulheres; todos os negros, por serem negros; todos os boiolas, por serem boiolas; todos os são-paulinos, por serem boiolas.
Valtinho Barba - e isso é a mais pura verdade -, só para dar uma ideia do tipo de louco que eu, involuntariamente, cativo - é mesmo um dom nato -, trabalhou por muitos anos como maquiador de funerária. - Nunca vi Deus, o Espírito Santo nem anjo nenhum vir buscar a alma de ninguém - ele dizia.
Pediu um pastel de palmito para a japonesa e puxou uma banqueta para o meu lado. Perguntou-me da vida. Falei que me casei, apresentei-lhe o meu filho e disse que continuo no hoje poço de areia movediça que outrora foi o nobre ofício do magistério.
Ele nunca se casou. Juntou os trapos um par de vezes. Tudo doida, malucas de pedra, ele me disse à guisa de explicação para a sua solteirice. Depois de formado, trabalhou por muito tempo como biomédico em um laboratório de análises clínicas, mas era pouca a paga para ficar o dia todo fuçando a merda alheia. Até que, em 2011, a avó paterna morreu e, na impossibilidade do já falecido pai do Valtinho receber os espólios da mãe, de quem era filho único, Valtinho Barba foi herdeiro único e direto da velha. Herdou uma propriedade no centro da cidade, um pequeno prédio de três andares com oito apartamentos. Valtinho passou a morar em um deles e a alugar os outros sete. Renda mais que o suficiente para ele levar a vida na flauta. Mas ainda faz uns bicos de vez em quando, me disse. Não perguntei de que tipo. Continuará, vez ou outra, a embelezar defuntos? Terá Valtinho Barba maquiado a sua própria avó, tive vontade de perguntar.
- Como anda essa vida de ateu? - perguntou.
- Acho que da mesma maneira que a vida de quem acredita em deus, uma vez que não faz diferença nenhuma acreditar ou não na hora de pagar as contas.
Valtinho Barba riu. Disse, "acho que você não acredita nem no ateísmo".
Desconfio do ateísmo de ateus feito o Valtinho. Ateus que se apegam à sua descrença e a exaltam como sendo sua melhor qualidade, feito os religiosos o fazem com as suas fés.
Seguindo no assunto que - na visão dele - nos une, Valtinho Barba falou que, com o tempo livre garantido pelos aluguéis da avó, tentou fundar uma organização de ateus aqui em Ribeirão Preto. Aos moldes da ATEA (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos), da qual é sócio desde a fundação. Uma espécie de franquia, uma subsidiária, uma retransmissora da ATEA aqui na chamada capital da cultura - da monocultura; no passado, a do café; hoje, a da cana-de-açúcar.
Falhou em seu intento. Ribeirão é provinciana demais, um povinho sem educação nem cultura, não tem gente esclarecida o bastante para serem ateus, ele me disse.
Com a primeira parte, que Ribeirão Preto é uma puta duma província de chucros, eu concordo, mas que não haja ateus em número suficiente para uma associação, ou que é necessária certa dose de leitura e ilustração para ser um ateu, eu discordo.
Ateu, nasce. Não se faz, não se converte. Eu já era ateu antes mesmo de ir pra escola, antes de percorrer as primeiras linhas da Caminho Suave. Aliás, foi na escola, aos meus 12 anos, que eu "descobri", que me falaram que eu era ateu. Falaram-me em tom reprovativo e acusatório. Eu gostei. Gostei do termo "ateu". Não o achei tão mau, depreciativo. Se algum desmiolado religioso quisesse chegar perto de conseguir me ofender, teria que caprichar muito mais.
Também divirjo de Valtinho Barba de que não haja ateus em grande número em Ribeirão Preto. Creio que eles existam nas mesmas proporções que em outras grandes cidades. Com certeza, há muitos ateus por aqui.
A questão - e a grande falha no projeto do desocupado Valtinho Barba - é que ateu que é ateu, ateu de nascença, ateu das antigas, não gosta de se reunir em associações, clubes, agremiações, ou qualquer outro tipo de rebanho.
Ateus de verdade não gostam do bando, não gostam do gregário, de congregar, de comungar em torno de um interesse em comum. Se gostássemos, não seríamos ateus, seríamos religiosos. 
Por isso, desconfio muito da autenticidade dessas associações ateístas, desses neoateuzinhos, desses apóstolos de Richard Dawkins (a quem respeito muitíssimo como o grande geneticista que é, mas em nada como o Messias do ateísmo em que se tornou), desses ateus de boutique que acabam por fundar seitas em torno de uma suposta descrença. Destes, tenho certeza, é só questão de tempo até acharem um deus e uma religião que lhes convenham.
Nós, os verdadeiros ateus, somos feito os gatos. Somos seres de hábitos, caminhos e de pensamento independentes, livres. Embora acatemos e nos curvemos, por mera questão de sobrevivência, a ordens e hierarquias, não reconhecemos, de fato, legítimos líderes e lideranças. Olhamos para eles com condescendência, com, nem sempre bem disfarçado, enfado, pois, muitas vezes, deles dependem nossa água fresca e nossa ração na tigela. Só por isso. Gatos não reconhecem machos alfa, beta ou ômega.
Alguém já ouviu dizer de um rebanho de gatos? De uma "matilha" de felinos? Não é possível arrebanhá-los; ou não seriam gatos, seriam gado, ovelhas, andorinhas, patéticos cachorrinhos de madame. O mesmo vale para nós, ateus. Não é possível nos arrebanhar, ou não seríamos ateus, seríamos devotos pagadores de dízimo e papadores de hóstia.
Somos como os gatos. Andamos sozinhos. Sem ninguém para amparar nossos tropeços e nossos tombos - e eles são muitos. Mas caímos sempre de pé. Nunca deitados no divã de algum psicopicareta. Tivemos que aprender desde cedo a cair de pé. Sempre soubemos que não há rede de segurança para nos amparar. Não há deus.
Somos feito os gatos. Cagamos para o mundo. E temos a decência de lamber e de limpar nossos próprios cus. Não creditamos nossas cagadas a ninguém.
Valtinho Barba anotou meu telefone e meu e-mail. Futuramente, combinar uma gelada.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Dia do Orgulho Ateu é o Cacete!

Está aí. Divulgo a data. Mas só para dizer que não me identifico com ela, tampouco me reconheço como membro desse grupo de "orgulhosos ateus". Antes pelo contrário, considero uma data e uma comemoração inúteis e idiotas. Como, aliás, assim também considero todas e quaisquer datas e comemorações relacionadas ao orgulho desse, daquele ou daqueloutro segmento social. 
Da Parada Gay à Marcha da Maconha, passando pela Marcha para Jesus e pela Marcha das Vadias, considero tudo um espetáculo de circo mambembe, puro exibicionismo, uma romaria de autocomiseração, um desfile carnavalesco de lamentações, chororôs e choramingos - vejam como eu sou perseguido, vejam como eu sou uma vítima inocente e indefesa, um coitadinho infeliz fustigado pela sociedade.
Virou moda se dizer vítima. Tanto que até alguns poucos ateus entraram nessa onda. Sim, alguns poucos, pouquíssimos; asseguro-lhes que um número muito abaixo do que seria representativo em relação ao montante total de ateus, cerca de 2 a 3 milhões no Brasil. De uns tempos para cá, esses ateus pingados se organizaram e se anunciaram como a nova minoria perseguida - mais uma para nos encher o saco com suas lamúrias -, as vítimas da vez, para se dizerem discriminados e injustiçados e, de preferência, fazer disso seu meio de vida : fundar ONGs, promover palestras, viajar para congressos de ateus etc etc. Birra de bebê chorão! O mundo não se ajusta à minha vontade, então, eu esperneio e me faço de melindroso e de ofendidinho.
Tem duas coisas que o ser humano adulto precisaria entender de uma vez por todas : 1) o mundo não é bonzinho com ninguém. Obstáculos, das mais diversas naturezas, são colocados à frente de todos, o tempo inteiro, você não é o único a passar por agruras, não é o único que será injustiçado várias vezes ao longo da vida; você próprio cometerá algumas injustiças contra outros; 2) ninguém é obrigado a gostar de você, a lhe elogiar por suas escolhas, seu modo de vida etc.
Eu sou ateu. Já fui impedido, por duas vezes, de chegar às etapas finais de seleção de emprego por ser ateu. Ambas as vezes em colégios religiosos, claro. Nos dois casos, as entrevistas estavam indo muito bem, até que me perguntaram sobre minha religiosidade. Quando ouviram a palavra ateu, imediatamente deram a entrevista por encerrada. Eu não me encaixava no perfil da escola, disseram-me. Acho que eu teria tido mais chances se, ao invés de ateu, tivesse me declarado um pedófilo. Pensando bem, visto que eram colégios religiosos católicos, as minhas chances teriam aumentado em muito, seria um item positivo no meu currículo. Acham que me senti discriminado, vítima de preconceito, que pensei em processar os colégios para lavar minha honra, para fazer valer meus direitos de cidadão? Porra nenhuma. Caguei e andei. Azar das porras das freiras. 
Elas me tiraram uma pequena e tacanha possibilidade de emprego, só isso. Não tiraram minha capacidade de trabalho, minha força produtiva. Claro que se fosse em um órgão público, tal atitude seria inadmissível, mas em uma empresa particular, de cunho religioso, não vejo nada de absurdo, nem mesmo de ofensivo, o dono considerar que um professor ateu, independente de sua competência acadêmica, seja persona non grata em seu quadro de funcionários. Repito : azar deles. Não me fiz de vítima nem de coitadinho, não fundei ONGs nem promovi marchas para atrapalhar o trânsito e o sábado. Continuei a fazer o que sempre fiz na vida, segui a trabalhar.
E por que orgulho em ser ateu? Que merda é essa? No meu entender, orgulho é um sentimento que só se justifica se advindo de um grande feito, de uma conquista, de uma realização a que tenhamos muito nos dedicado, na qual tenhamos despendido muito tempo, esforço, estudo e planejamento.
Orgulho de ser ateu? Eu não fiz esforço algum para ser ateu, não me instruí para, não me disciplinei para tal. Nasci ateu. Eu sou ateu antes mesmo de conhecer a designação, antes mesmo que alguém, por volta dos meus 13 ou 14 anos, um padre, me dissesse que eu era ateu. Ateu verdadeiro, nasce; não se converte, não se constrói.
A crença religiosa não é racional - é impossível provar a existência de deus -, o crente simplesmente olha para o mundo ao seu redor e vê a presença de deus em tudo, sente o todo-poderoso em tudo que o circunda. Da mesma forma, e contrariando o que pensam a maioria dos ateus, o ateísmo também não é racional - igualmente, é impossível provar a inexistência de deus -, o ateu simplesmente olha para o mundo e não vê nenhum indício de deus nele; para o ateu, deus é uma componente, uma variável, uma hipótese desnecessária para a sua explicação ou visão de mundo. Não só desnecessária : incômoda, inconveniente, atravancadora, contraproducente, um ponto fora da reta a ser desprezado, uma inconsistência no experimento.
Eu nunca senti a presença, muito menos a necessidade de um deus em meu mundo, em minha realidade. E não que o mundo não tenha tentado me impor deus, me inocular com a peçonha da fé cega. Na infância, primos, irmã, colegas de escola, todos fizeram a tal primeira comunhão; cheguei a estudar por um tempo em colégio de padres e, sinceramente, toda essa "presença" de deus ao meu redor nunca me disse nada. Nem me tocou de alguma forma - sempre mantive distância segura de padres.
Por isso, repito : ateu, o verdadeiro, o legítimo, não se constrói, nasce. Não tem, portanto, orgulho de algo que lhe é natural. Tampouco se ressente quando alguém critica sua descrença. É parte dele, sempre foi.
Isso posto, garanto-vos : não são ateus genuínos, de nascença, de DNA, que promovem essa palhaçada de Dia do Orgulho Ateu. Isso é coisa de neoateu, de ateuzinho de boutique, de shopping center, de merda. Papagaiada das crias malparidas de Richard Dawkins - brilhante biólogo evolucionista, mas que perdeu todo o meu respeito desde que, deploravelmente, começou a professar o ateísmo científico mundo afora, desde que se tornou uma espécie de antimessias e angariou uma legião de seguidores, os neoateus, que o seguem como os crentes a Cristo, que têm no best-seller do inglês, Deus, um delírio, a bíblia de suas descrenças.
Não são ateus porra nenhuma. Ateu que é ateu não se reúne com outros ateus para conversar sobre suas falta de fé. Não existe o A.A, ateus anônimos. Ateu que é ateu não participa de grupos de apoio para desabafar, para compartilhar experiências, para dar testemunhos de vida, para ser aplaudido ou consolado. Sempre que pessoas se reúnem em torno de uma única particularidade, das duas uma, ou é fundado um novo partido ou uma nova religião. Esses ateuzinhos de araque estão é atrás disso, de pertencer, de se congregar e de se congraçar com um grupo, estão é atrás de uma nova religião, de um clero cientificista cujo Papa já está eleito : Richard Dawkins. Embusteiros é o que são. Farsantes.
Farsantes e burros ainda por cima. Ignorantes. Iletrados. Incultos. A data do Dia do Orgulho Ateu, 12 de fevereiro, foi escolhida por ser o dia do nascimento de Charles Darwin, o teórico da Evolução. Acontece, seus ateuzinhos de bosta, que Darwin nunca foi ateu. Pelo contrário, foi religioso ferrenho durante a maior parte de sua existência. Só próximo ao fim da vida é que se declarou, muito do hesitante, como agnóstico - alguém que não acredita nem nega a existência de deus, um em cima do muro, um tucano religioso.
Em sua autobiografia, ele relata que foi ridicularizado por oficiais do navio da Marinha Britânica HMS Beagle, embarcação a bordo da qual fez a famosa expedição que originou A Origem das Espécies, por acreditar que a Bíblia era uma autoridade final sobre a moralidade. 
Em sua passagem pelo Brasil, absorto e embasbacado pelas belezas naturais que se lhe apresentavam, Darwin as declarou como sendo a manifestação de um ser superior.
Em 1879, em carta enviada a um amigo, depois publicada por seu filho, Francis Darwin, no livro A Vida e a Correspondência de Charles Darwin, o pai da Evolução confessou :  "Sejam quais forem as minhas convicções sobre este tema [religião], elas só pode ter importância para mim próprio. Mas, já que mo perguntas, posso assegurar-te que o meu juízo sofre, amiúde, flutuações…Nas minhas maiores oscilações, nunca cheguei ao ateísmo no verdadeiro sentido da palavra, isto é, nunca cheguei a negar a existência de Deus"
Eu li o livro A Origem das Espécies em minha juventude, e a impressão que tive foi exatamente essa : Darwin postulou a Evolução de forma científica e acadêmica, mas, em seu íntimo, pareceu-me mesmo que ele considerava a Evolução como um expediente de que deus lançara mão para criar novas espécies, considerava que deus dera o pontapé inicial no processo.
Retiro o que disse acima : a data 12 de fevereira é bem oportuna, é perfeita. Os neoateuzinhos atiraram no que viram e acertaram no que não viram. Sendo eles falsos ateus, nada mais adequado que o dia de seu orgulho tenha como data o dia do nascimento de um outro falso ateu, Charles Darwin.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O Ateísmo É A Base Da Viadagem, Declara Papa Bento XVI

O que o Papa João Paulo II tinha de diplomático, de conciliador, de inteligência política, enfim, da hipocrisia polida de que todos gostam, o seu sucessor, o Papa Bento XVI, tem de estouvamento, de rispidez, de falta de tato. E de burrice.
Na tentativa desesperada de conter o sangramento copioso das fileiras católicas frente às novas religiões, sobretudo as neopentecostais, e, quero crer, frente aos crescentes esclarecimento e grau de instrução da população, que levam parte dela a rejeitar as idiotices da fé, o Papa Bento XVI anda a bombardear seus fiéis (e ao mundo, o que é pior) com os mais despropositados pronunciamentos, as mais descabidas declarações travestidas de dogmas.
Desde o início de seu papado, o revigoramento do secularismo e a união homoafetiva legal são dois de seus alvos preferidos, nos quais ele acredita que descer a borduna possa conter o esvaziamento de suas igrejas e que, na prática, dadas as suas desastradas falas, só está fazendo por fortalecê-los.
Agora, num ato próprio de quem está na mais profunda desesperança e na cólera de não poder moldar o mundo à sua vontade, como nos bons tempos da Inquisição, o Papa Bento XVI tenta criar um vínculo de causa e efeito entre seus dois maiores inimigos, declara que ateísmo e viadagem são intrinsecamente ligados, tenta matar dois coelhos com uma só porrada. Resultado : os dois coelhos lhe escapam.
Numa de suas declarações mais estapafúrdias, Bento XVI diz que toda a doutrina que subsidia o casamento gay tem origem no ateísmo.
O Papa mistura alhos com bugalhos e, nesse caso, refere-se à teoria de gêneros, que ele classifica como "uma antropologia de fundo ateu". 
A teoria dos gêneros defende que a identidade sexual é determinada pela educação e o meio ambiente, e não por diferenças genéticas, e é largamente preconizada pelos defensores do casamento gay, que acreditam que a identidade feminina ou masculina não é predeterminada.
Balela. Também discordo da teoria de gêneros. Claro que a pessoa já nasce homem ou mulher, claro que ela já nasce, inclusive, homo ou heterossexual, o que, a meu ver, só legitima ainda mais sua condição e seu direito de exercê-la livremente. Claro que a teoria de gêneros é outra de uma grande sandice pseudocientífica, mas não pelos motivos alegados pelo Papa.
Bento XVI tenta desqualificar a fraca e ridícula teoria de gêneros não pelas suas inconsistências acadêmicas crassas e mais que visíveis, mas através de outra falsa hipótese, a de que ela tenha sido proposta por ateus, a de que os ateus, em uma conspiração global, busquem endossar cientificamente a viadagem para com isso minarem os alicerces da família e, consequentemente, os da igreja.
Antes de mais nada, estabeleçamos o absurdo da fala papal. Ser ateu significa, simples e unicamente, não acreditar em deus. E ponto. A isso, não se segue nenhuma outra regra ou dogma, não vêm anexos nenhum manual ou cartilha normativa de conduta ateia. O ateu pode ser heterossexual ou homossexual, pode ser negro ou branco, pode ser honesto ou canalha, pode ser trabalhador ou vagabundo, pode ser qualquer coisa, independente de ser ateu. Ser ateu não implica em mais nada além de ser ateu, nada diz das qualificações outras nem mesmo do caráter do sujeito. O ateu não nutre amor a nenhum deus, mas bem pode ter amor às suas pregas. Uma coisa nada tem a ver com a outra.
Demos, no entanto, tratos à bola, façamos um exercício de  imaginação e suponhamos que a correlação ateísmo-viadagem feita pelo Papa possa ter um fundo de verdade, consideremos tal suposição, não para apoiarmos o sumo pontíficie, mas, antes pelo contrário, para colocá-lo em maus lençóis, em ainda piores lençóis.
Ao afirmar que o ateísmo é o substrato filosófico da viadagem, Bento XVI também está a afirmar que o ateísmo se faz presente nos fundamentos teóricos da igreja católica. É isso mesmo. É óbvio que sim.
É público e notório que a grossa maioria dos sacerdotes católicos, de alto a baixo na hierarquia eclesiástica, é composta de homossexuais, de bichonas enrustidas sob a batina. Ora, é o mais puro e simples silogismo : 1) O ateísmo é a base da viadagem; 2) A viadagem é a base da igreja católica; 3) Logo, o ateísmo é a base da igreja católica.
Ao tentar vincular o ateísmo às roscas queimadas, o Papa está a declarar que lidera uma igreja predominantemente constituída de sacerdotes portadores das mesmas falhas morais e de caráter que ele, Bento XVI, jurou combater e expurgar do planeta. É a cobra mordendo o próprio rabo. É o ovo do cuco.
O medo que o Papa tem do secularismo é de motivo evidente. Quanto menos idiotas pelo mundo, quanto mais pessoas optando pelo exercício da racionalidade e pela crença em si próprio, menos moedinhas a tilintarem nos cofres santos.
No pavor da união gay, o Papa consegue colocar melhores disfarces, sai-se com a clássica lenga-lenga dos valores éticos, morais, familiares etc, mas a máscara da falsa moral cai facilmente frente a um olhar mais escrutinador. Sacerdotes católicos não podem se casar com mulheres e constituir família, tal proibição consta há séculos dos estatutos, cânones, ou sei lá o quê, da igreja católica; volta e meia, o assunto é até discutido, mas sua proibição já é fato consumado, é líquida e certa.
Pois bem, o grande medo do Papa Bento XVI é que, com a legalização mundial do casamento gay, a padraiada comece a querer se casar entre si. Casar com mulher não pode, e com outro homem, com outro sacerdote? Não há nada previsto nas leis canônicas a esse respeito, nem que sim nem que não.  
Padre com bispo, monsenhor com diácono, sacristão com coroinha, cardeal com cônego... Vai ser uma loucura. O que o Papa mais teme é que a Basílica de São Pedro se torne a catedral mundial da união homoafetiva.
Fonte : G1 Globo

domingo, 18 de novembro de 2012

2º Encontro Nacional De Ateus

O 2º Encontro Nacional de Ateus, a ser realizado em 17 de fevereiro de 2013, já conta com a adesão de nove estados, além do Distrito Federal, São Paulo, Sergipe, Paraná, Maranhão, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Goiás e Paraíba.
Sou ateu. Mas um encontro nacional de ateus me parece uma idiotice descomunal. O que poderia nortear uma reunião de ateus, eles se congregariam a fim de quê?  Para não rezar? Para não louvar a deus, para discutir a inexistência dele? Patético!
Fica parecendo uma festa baile para tetraplégicos, ou uma convenção de broxas realizada num puteiro. Não tem o menor sentido. É triste.
Segundo os organizadores do evento, haverá debates em torno do racionalismo e do ceticismo. Então, que chamem de encontro de racionalistas e céticos. Ateu é outra coisa, é coisa bem diferente.
Uma reunião desses neoateus - desses filhotes de Richard Dawkins, que como cientista evolucionista é brilhante, mas que como militante do ateísmo prestou um grande desserviço aos verdadeiros ateus - deve ser um porre. Corrijo : um porre, não, que um bom porre é das melhores coisas que podem ocorrer a um sujeito, uma reunião de ateus deve ser uma ressaca daquelas brabas, daquelas de Vesúvios a regurgitarem pela boca e um bloco inteiro do Olodum a tocar em nossa cabeça. Mais que chato, repito : triste.
Explico : o crente, por mais burro que ele seja (e ele o é), reúne-se em torno de algo, de uma crença, de um objeto que ele julga existente e palpável. E esses neoateus de merda? Reúnem-se em torno do nada, do vazio, da descrença. E, acreditem, ter a descrença como elemento agregador é coisa das mais tristes que há.
O vazio que um deus preenche no mundo dos crentes, permanece imensa lacuna no dos ateus. Para a grande maioria das pessoas, o vazio, o nada, o abismo, são exasperantes, aflitivos, causam pânico, devem ser preenchidos a qualquer custo, mesmo às custas de seu livre pensamento, de sua identidade; trocam o penso, logo existo pelo creio em deus, logo sou feliz. Existir e ser feliz costumam não ser atividades muito relacionadas.
Ser ateu é ter a noção de que o vazio existe e aceitar - entender - que vazio ele deve continuar, que há um sentido no vazio, embora não o conheçamos, que o Universo é constituído de mais de vazios que preenchimentos, de mais interrogações que pontos finais, de mais vácuos que respirações.
Ser ateu é conviver com o vazio, não é querer dar um sentido a ele, muito menos cultuá-lo como se fosse a um deus, que é o que fazem esses neoateus em seus encontros.
Já disse, aqui no blog, que os ateus são mais honestos, mais inteligentes e até melhores fodedores, mas nunca disse que são mais felizes. Não são. Não são festivos em torno de sua descrença. Não ficam se reunindo em grupinhos ou irmandades.
Proselitismo ateu? Não tem jeito. Ateu nasce ateu, não é convertido. O ateu verdadeiro é aquele cara que tem coragem de olhar ao abismo sabendo-o, pura e simplesmente, abismo, e nada mais. Se o sujeito olhar para o abismo procurando seja o que for nele, já não é ateu, já é alguém à procura de um preenchimento, de um deus.
O cara pode nem acreditar ou se satisfazer com o deus atual e vigente, mas se não suporta o vazio, a visão do abismo, não é um ateu genuíno, é só um crente em potencial à espera de um novo deus que se encaixe em seus anseios, necessidades e conveniências, que estofe seu travesseiro e lhe proporcione um sono tranquilo. No fim das contas, deus é isso : paina para travesseiros e consciências pesadas. Ateu não tem sono tranquilo. Nem está em busca de.
Digo mais : o ateu macho de verdade é o que encara o vazio e se deixa ser olhado por ele; não tem medo do que verá (ou, no caso, do que não verá) no vazio e  nem do que o vazio verá nele.
Se você não tem os colhões necessários para coabitar com o abismo, não se diga ateu, não fique promovendo encontros de outros frouxos feito você, não organize missas ateias. Vão logo procurar uma religião, seus neoateus do caralho, ou fundar uma nova.
Reunir-se em torno de uma divindade imaginária, erigir templos em nome dela, já é de causar dó e não mostra grandes sinais de inteligência, praticamente nenhum. Agora, congregar-se em torno do nada, promover encontros em torno do vazio, é mais triste ainda, e só revela uma estupidez total e absoluta. Irreversível.
Para finalizar, e piorar ainda mais, o encontro desse ano traz uma novidade, vide cartaz : foi declarado o Dia do Orgulho Ateu.
Dia do Orgulho Ateu ???  Sei não, seus neoateus... parece coisa de viado.
O 2º Encontro Nacional de Ateus, que vai se realizar no dia 17 de fevereiro de 2013, um domingo, já tem a adesão de 9 Estados, além do Distrito Federal: São Paulo, Sergipe, Paraná, Maranhão, Rio, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Goiás e Paraíba.

Leia mais em http://www.paulopes.com.br/2012/11/encontro-2013-de-ateus-ja-tem-confirmacao-de-nove-estados.html#ixzz2CbUKiWHb
Paulopes informa que reprodução deste texto só poderá ser feita com o CRÉDITO e LINK da origem.
O 2º Encontro Nacional de Ateus, que vai se realizar no dia 17 de fevereiro de 2013, um domingo, já tem a adesão de 9 Estados, além do Distrito Federal: São Paulo, Sergipe, Paraná, Maranhão, Rio, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Goiás e Paraíba. Em cada um desses Estados o encontro será promovido por uma associação de livres-pensadores.

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O 2º Encontro Nacional de Ateus, que vai se realizar no dia 17 de fevereiro de 2013, um domingo, já tem a adesão de 9 Estados, além do Distrito Federal: São Paulo, Sergipe, Paraná, Maranhão, Rio, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Goiás e Paraíba. Em cada um desses Estados o encontro será promovido por uma associação de livres-pensadores.

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O 2º Encontro Nacional de Ateus, que vai se realizar no dia 17 de fevereiro de 2013, um domingo, já tem a adesão de 9 Estados, além do Distrito Federal: São Paulo, Sergipe, Paraná, Maranhão, Rio, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Goiás e Paraíba.

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terça-feira, 20 de março de 2012

Alain De Botton, Um Falso Ateu

Sou ateu. E ponto.
Não sou partidário, porém, do ateísmo, tampouco o defendo ou o promovo. Sou capaz até de, em certas circunstâncias, combatê-lo.
Que se crie uma doutrina em torno de uma crença, por mais ilógica que ela seja, e todas elas o são, tem, paradoxalmente, uma certa lógica.
Pode-se criar todo um sistema de pensamento para corroborar uma crença, ainda que tudo seja baseado em falsas premissas e estapafúrdias conclusões, mas se pode. E quanto mais sem pé nem cabeça for a doutrina, melhor ela "comprova" a existência de deus, já que a própria ideia de um deus bondoso e justo é a coisa mais sem pé nem cabeça que há.
Agora, criar uma doutrina - o ateísmo, no caso - em torno de uma inexistência, de uma ausência, de um nada, não faz o menor sentido. Chega a ser uma burrice maior do que a exibida pelos crentes.
Atualmente, há uma tendência entre certos ateus - os falsos ateus, que isso fique bem claro - de se unirem em torno de sua descrença. Encontros, reuniões, simpósios e congressos sobre ateísmo estão em voga.
Esses ateus moderados, que é como se autodenominam, querem ser amiguinhos dos crentes, querem contemporizar a celeuma, melhorar sua imagem junto à sociedade cristã.
Ateu moderado é o caralho! Ou o sujeito é ateu ou não é. Não tem meio-termo. O que seria essa porra de ateu moderado? O cara que acredita mais ou menos em deus? Ou que não acredita, mas não descarta a possível existência dele?
Não existe uma gradação para o ateu, uma escala que meça o ateísmo. O ateu é absoluto. Ou é um impostor.
Acima de tudo, o ateu, além de inteligente, tem que ser macho, tem que ter o saco roxo para assumir sua condição de descrente, tem que cagar e andar pra crentaiada, não pode estar nem aí com a imagem que se faça dele. No âmbito da fé e da descrença, não há lugar para a tucanaiada em cima do muro.
Não há ateu politicamente correto. Não pode haver. Ateu é radical. Ou é uma fraude.
O tal moderado é o cara que quer se fazer passar por ateu. Para criar uma aura de inteligência em torno de si, para se dar ares de intelectual, de livre pensador. Mas, na verdade, é um grande dum cuzão.
É o caso de Alain de Botton, filósofo suíço, que se declara um ateu moderado.
Autor do livro - vejam só o embuste - Religião Para Ateus, esse picareta diz que os ateus precisam aproveitar o que a religião tem de bom, como o estímulo à solidariedade e à aproximação entre as pessoas.
Ateu não quer se aproximar de ninguém, não quer se solidarizar com o mundo, nem salvá-lo pelo amor fraterno, ateu não faz festinha, ateu não quer fazer mais amigos do que os poucos que já tem, ateu não quer ter carteirinha do clube do Mickey.
Com vistas a seu objetivo, ele pretende organizar Santas Ceias para ateus, abrir um restaurante com o propósito de aproximar os descrentes. O restaurante é apenas parte de um projeto maior de Botton, um templo para ateus.
Ateus em um templo? Para adorar quem ? O próprio Botton?
Esse cara morre de vontade de virar pastor evangélico, ou de dar o rabo para um, morre de vontade de pagar um dízimo, de ser desencapetado, mas como é um intelectual, um filósofo, isso não faria bem para a sua imagem. Então, o cara se sai com essa farsa barata.
Sair por aí professando a doutrina do ateísmo, é fazer uma religião ao contrário. 
E eu estou fora de qualquer coisa relacionada à religião, mesmo que seja o seu oposto, que nada mais é, o oposto, do que uma imagem especular do objeto ao qual ele se contrapõe.
Ateu, sempre.
Ateísta, jamais.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Os Ateus São Mais Inteligentes - Richard Lynn

O cientista afirma que as pessoas de Q.I. mais alto tendem a questionar a existência de Deus
O pesquisador britânico Richard Lynn dedicou mais de meio século à análise da inteligência humana. Nesse tempo, publicou quatro best-sellers e se tornou um dos maiores especialistas no assunto. Nos últimos 20 anos, passou a investigar as relações entre raça, religião e inteligência. Ao publicar um trabalho na revista científica Nature, que sugeria que os homens são mais inteligentes, um grupo feminista o recepcionou em casa com o que ele chamou de salva de ovos. O mesmo aconteceu quando disse que os orientais são os mais inteligentes do planeta. “Faz parte do ofício de um cientista revelar o que as pessoas não estão prontas para receber”, diz. Ao analisar mais de 500 estudos, Lynn disse estar convencido da relação entre Q.I. alto e ateísmo. “Em cerca de 60% dos 137 países avaliados, os mais crentes são os de Q.I. menor”, disse. Seu trabalho será publicado em outubro na revista científica Intelligence.
ÉPOCA — Por que o senhor diz que pessoas inteligentes não acreditam em Deus?
Richard Lynn — Os mais inteligentes são mais propensos a questionar dogmas religiosos. Em geral, o nível de educação também é maior entre as pessoas de Q.I. maior (um Q.I. médio varia de 91 a 110). Se a pessoa é mais educada, ela tem acesso a teorias alternativas de criação do mundo. Por isso, entendo que um Q.I. alto levará à falta de religiosidade. O estudo que será publicado reuniu dados de diversas pesquisas científicas. E posso afirmar que é o mais completo sobre o assunto.
ÉPOCA — Segundo seu estudo, há países em que a média de Q.I. é alta, assim como o número de pessoas religiosas.
Lynn — Sim, mas são exceções. A média da população dos Estados Unidos, por exemplo, tem Q.I. 98, alto para o padrão mundial, e ao mesmo tempo cerca de 90% das pessoas acreditam em Deus. A explicação é que houve um grande fluxo de imigrantes de países católicos, como México, o que ajuda a manter índices altos de religiosidade nas pesquisas. Mas, se tirarmos as imigrações ao longo dos últimos anos, a população americana teria um índice bem maior de ateus, parecido com o de países como Inglaterra (41,5%) e Alemanha (42%).
ÉPOCA — Cuba é um país mais ateu que os Estados Unidos, mas o nível de Q.I. não é tão alto.
Lynn — Você tem razão. É outra exceção. Pela porcentagem de ateus (40%), o Q.I. (85) dos cubanos deveria ser mais alto que o dos americanos. Mas há também aí um fenômeno não natural que interferiu no resultado. Lá, o comunismo forçou a população a se converter. Houve uma propaganda forte contra a crença religiosa. Não se chegou ao ateísmo pela inteligência. A população cubana não se tornou ateia porque passou a questionar a religião. Foi uma imposição do sistema de governo.
ÉPOCA — E o Brasil, como está?
Lynn — O Brasil segue a lógica, um porcentual baixíssimo de ateus (1%) e Q.I. mediano (87). É um país muito miscigenado e sofreu forte influência do catolicismo de Portugal e dos negros da África. Fica difícil mensurar a participação de cada raça no Q.I. atual. O que posso dizer é que a história do país se reflete em sua inteligência.
ÉPOCA — O senhor quer dizer que a miscigenação influenciou nosso Q.I.?
Lynn — Sim, é uma hipótese em análise ainda. Os japoneses são os indivíduos que na média têm o maior Q.I. (105) entre as raças estudadas. É mais alto que o dos europeus e dos americanos. Em negros da África Subsaariana, o resultado foi 70. Em negros americanos, esse valor é maior (85). Isso pode ser explicado pelos 25% dos genes da raça branca que os negros americanos possuem.
ÉPOCA — O senhor está sugerindo que índios, brancos e negros têm Q.I. diferente entre si?
Lynn — Exatamente. Isso se explica pela história da humanidade. Quando os primeiros humanos migraram da África para a Eurásia, eles encontraram dificuldade para sobreviver em temperaturas tão frias. Esse problema se tornou especialmente ruim na era do gelo. As plantas usadas como alimento não estavam mais disponíveis o ano inteiro, o que os obrigou a caçar, confeccionar armas e roupas e fazer fogo. Ao exercitar o cérebro na solução desses problemas, tornaram-se mais inteligentes. Há também uma mutação genética que teria acontecido entre asiáticos e dado uma vantagem competitiva a essa raça.
ÉPOCA — O senhor chegou a alguma conclusão sobre a inteligência das raças?
Lynn — Sim. Os asiáticos são os mais inteligentes. Chineses, japoneses e coreanos têm o Q.I. mais alto (105) da humanidade. E isso acontece onde quer que esses indivíduos estejam, seja no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa ou em seu país de origem. Em seguida, vêm europeus (100) e nas últimas posições estão os aborígenes australianos (62) e os pigmeus do Congo (54).
“Os negros americanos são mais inteligentes que os africanos porque têm 25% de genes da raça branca”
ÉPOCA — Se fosse assim, seria mais fácil encontrar um gênio entre os japoneses ateus, não?
Lynn — Não. Os asiáticos têm Q.I. alto, mas são um grupo mais homogêneo. Há menos extremos positivos e negativos. Eu não diria que é mais fácil nem mais difícil. Na verdade, não sei. Os gênios aparecem em todos os povos, em todos os países, mas é difícil medi-los. E não é porque se é religioso que se é menos inteligente. Mas há uma tendência de encontrar Q.I. mais alto em pessoas não-religiosas. Em minha opinião, isso acontece porque a inteligência aprimorada leva ao questionamento da religião.
ÉPOCA — Há outras habilidades relacionadas ao sucesso profissional e à felicidade, além do Q.I.?
Lynn — Os testes de Q.I. não devem ser tomados como a coisa mais importante da vida. Há muito de cultural nesses testes. E isso se reflete no mau desempenho de tribos rurais. Há também a tão alardeada inteligência emocional e uma série de características sociais que geram vantagem nos tempos modernos. Mas insisto que o Q.I. é um item fundamental para medir a inteligência de uma pessoa.
ÉPOCA — Que outras conclusões podemos tirar a partir do teste de Q.I.?
Lynn — Inúmeras. É uma área de estudos muito produtiva hoje em dia. Acredita-se que pessoas com Q.I. elevado tenham menores índices de mortalidade e menos doenças genéticas. Aparentemente, há uma relação forte entre saúde e Q.I. alto. Os indivíduos mais inteligentes também apresentam menos risco de sofrer de depressão, estresse pós-traumático e esquizofrenia.
ÉPOCA — Qual é seu Q.I.?
Lynn — Meu Q.I. é 145 (Lynn seria superdotado de acordo com a escala mais popular de Q.I. ). É um número alto, eu sei, mas não destoa entre os colegas da academia. Há Q.I.s mais altos que o meu na Academia de Ciências dos EUA. Mas lá também vale a regra. O número de ateus chega a 70%.
ÉPOCA — Como o senhor vê o papel da religião na sociedade?
Lynn — A religião é um instinto, o homem primitivo tem crença religiosa e isso, por algumas razões, se manteve até hoje. Mas, acredito, somos capazes de superar isso com a razão.
 
Richard Lynn é professor emérito e chefe do Departamento de Psicologia da Universidade do Ulster, na Irlanda do Norte. É Ph.D. pela Universidade de Cambridge, é um dos maiores especialistas em estudos de inteligência em raças e gêneros. Publicou quatro livros sobre inteligência ligada à raça e ao sexo, entre eles Race Differences in Inteligence: an Evolutionary Analysis, e dezenas de artigos em revistas científicas, como a britânica Nature.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Estatuto Da ATEA - A Quem Interessar Possa

Divulgo aqui o estatuto da ATEA (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos) citada em minha postagem anterior. Postagem que me rendeu um irritante número de comentários de pessoas preocupadas com meu bem-estar espiritual, idiotas querendo me convencer de que seu deus existe, com os mesmos argumentos através do quais eles foram convencidos : deus existe, todo mundo sabe; ele está em tudo o que vemos; outros, como bons cristãos, rogaram pragas, um dia deus vai te provar que ele existe e ai será tarde pra você etc etc. 
Publiquei alguns desses comentários, os que, ao menos, foram escritos em português legível, a maioria, inintelegíveis que eram, descartei. Bem ou mal escritos, o fato é que todos eram isentos de qualquer reflexão ou indício de inteligência, apenas repetições de estórias da Carochinha lhes contadas em criança. Estórias da Carochinha, sim. Contos de Fadas, sim. Toda mitologia o é.
Se, por exemplo, a estória do João e o Pé de Feijão fosse colocada na merda da Bíblia e passada nos catecismos da vida como uma escritura sagrada, estaríamos, hoje, cheios de adultos estúpidos e acéfalos afirmando por ai tal verdade inquestionável, que o Gigante representa o Mal e João é o escolhido, o messias, aquele que se sacrificou por nós.
Caso algum ateu leia esse blog e queira se associar à ATEA, as instruções estão no estatuto a seguir. Eu, particularmente, não me associo a nada, sou dos seres menos gregários que conheço, não gosto dessa coisa de turma, de clube, de carteirinha, fica parecendo igreja.

Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos
A Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos é uma entidade sem fins lucrativos sediada virtualmente no site www.atea.org.br, registrada na Receita Federal - Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) sob o número 10.480.171/0001-19 e no 1º Oficial de Registro de São Paulo/SP. A ATEA surgiu da necessidade crescente de ateus se organizarem e conta atualmente com mais de 1300 associados. Foi criada em 2008 por Daniel Sottomaior, Alfredo Spínola e Mauricio Palazzuoli. 
É uma associação de direito privado, constituída por tempo indeterminado, sem fins econômicos, de caráter organizacional, filantrópico, assistencial, promocional, recreativo e educacional, sem cunho político ou partidário, com a finalidade de desenvolver atividades no campo da ordem social que busquem promover o ateísmo, o agnosticismo e a laicidade do Estado.

A Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos tem como objetivos:


  • Congregar ateus e agnósticos, defendendo seus interesses e direitos, em todo o território nacional, bem como nos países ou estados independentes onde o Estado Brasileiro possui representação diplomática;
  • Combater o preconceito e a desinformação a respeito do ateísmo e do agnosticismo, dos ateus e dos agnósticos;
  • Auxiliar a auto-afirmação dos ateus e agnósticos frente ao preconceito e a rejeição sociais;
  • Apontar o ateísmo e o agnosticismo como caminhos filosóficos viáveis, consistentes e morais;
  • Promover sistemas éticos seculares;
  • Promover a laicidade efetiva do Estado, combatendo em todas as esferas legais qualquer tipo de associação que seja contrária ao descrito na Constituição da República Federativa do Brasil;
  • Promover o pensamento crítico e o método científico; e
  • Defender os direitos legais de ateus e agnósticos podendo participar e contribuir com as instituições democráticas legalmente descritas e fundamentadas na Constituição da República Federativa do Brasil, fazendo sugestões, participando de discussões sociais e representando ações públicas ou privadas sempre com base nos objetivos descritos e fundamentados no estatuto. 
Por que se associar? Veja a seção de Perguntas e Respostas.
É permitida a reprodução, total ou parcial, do conteúdo publicado no Portal da ATEA desde que citada a fonte.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

José Saramago - O Fator Deus

Alguém já se tocou, além de nós, ateus, é claro, que não existe ateu burro?
Texto contundente de Saramago, a seguir:

O FATOR DEUS

Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá “ver” cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes. Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro. Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos, seqüestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo. Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.
As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante da tortura, da agônica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova York tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mais limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefação para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez “aqui estou” quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdômen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietnã cozido a napalme, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas, daqueles caminhões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, devíamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os talebanes, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactuado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.
E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gêmeas de Nova York, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela ação dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o “fator deus”, esse, está presente na vida como se efetivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um Deus, mas o “fator Deus” o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, e não a outra...) a bênção divina. E foi no “fator Deus” em que o Deus islâmico se transformou, que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um Deus andou a semear ventos e que outro Deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres Deuses sem culpa, foi o “fator Deus”, esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.
Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiraram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento de não poder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do “fator Deus”. Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.