sábado, 26 de setembro de 2009

Pequeno Conto Noturno (2)

Rubens senta no banco da praça a olhar a padaria defronte e apalpa as moedas em seu bolso, tentando lhes adivinhar o valor e calcular se a somatória chega para uma última cerveja, sabe que tem pouco mais de uma hora até o sol surgir, e o montante parece-lhe o suficiente, desde que a padaria não esteja cobrando bandeira 2 da cerveja, uma prática a se tornar corriqueira nessa maldita cidade de onde ninguém consegue escapar, que é aumentar o preço da bebida da meia-noite às seis da manhã.
E daí voltar ao seu reduzido apartamento; nem sabe como irá achá-lo, nem lembra de como o deixou, somente sabe que encontrará o lençol amarfanhado, o copo sujo na pia ao lado da talha, umas duas ou três contas de luz (senão a energia elétrica já cortada) e um número igual de "recados" de mesma natureza do síndico. Nem sabe se a chave em seu bolso e a fechadura da porta se reconhecerão depois desses três meses.
Dos três meses em que esteve cativo na casa de Marisa.
Fodendo-a incessantemente, fazendo valer cada taça de vinho e copo de cerveja com os quais ela lhe cevava.
E agora Marisa o havia posto fora. Puta injustiça.
Marisa não gozava com o marido e - dizia - gozava de montão com Rubens.
Mas mulher não quer gozar. Isso é mentira!
Mulher quer é exclusividade. E Rubens é um cara até bem exclusivo, em 95% do tempo, digamos.
E de mais a mais quem não cederia àquilo? À vizinha da frente que coincidentemente saía a pôr o lixo sempre que Rubens tinha a mesma ideia? Só de delgada camiseta branca de algodão e calcinha, a vizinha. Quem não capitularia àqueles mamilos em ângulo de 45 graus e aos lanosos pelos pubianos a se esgueirarem delicadamente pelas margens da calcinha? Quem resistiria? Rubens é que não.
Rubens junta as moedas na palma da mão e se levanta. E tudo o que ele mais quer, tudo o que mais deseja fervorosamente nesse momento é que a padaria não esteja cobrando bandeira 2 da cerveja.
Rubens terá de pagar pela sua bebida daqui por diante.
Será uma vida bem mais dura.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

La Luna En Botella

Sempre me pareceu curiosa a relação do ser humano com o objeto garrafa, uma relação de emergência que assume diversos matizes: de esperança (falsa), de salvação (ilusória), de alento (vazio) e outras tantas.
O alcoólatra;
O naufrágo que nela deposita sua mensagem de socorro;
o gênio preso na garrafa cujo destampar premiaria o libertador com três desejos, essa, inclusive, com uma versão tupiniquim, a do saci cativo em uma garrafa depois de colhido de seu redemoinho a golpe de peneira e privado de seu barrete vermelho e encantado, o saci também realizaria tarefas a seu aprisionador em troca de reaver seu barrete;
as lendárias garrafadas medicinais à base das mais variadas e miraculosas ervas, que prometem resolver desde unha encravada até a temida paumolescência.
Vinícius de Moraes já não disse, em alusão ao predicado canino de melhor amigo do homem, que o whisky é o cachorro engarrafado?
Pois então.
Há conteúdos e continentes para todos os gostos, necessidades e perversões.
Madrugada dessas, eu estava a olhar a noite - que poderia estar mais escura não fossem as luzes dos prédios e que poderia estar mais radiante não fosse a falta de um elemento precioso das horas de breu, a Lua.
A danada devia estar em sua fase de Nova, que acho que é a TPM da Lua, período em que ela se resguarda dos olhares das gentes e dos lobos e dos cães.
Foi aí, eu já havia esvaziado algumas garrafas, que me surgiu a ideia. Estapafúrdia. Maravilhosa possível fosse : engarrafar a Lua.
Pô-la a meu dispor em um belo garrafão âmbar, para degustar licorosas doses dela nas noites sem Lua, nos dias sem Lua, nas vidas sem Lua.
A Lua, escrava branca de formas túrgidas, para os olhos de mais ninguém.
Uma Lua portátil de uso particular, impetraria ordem de despejo a São Jorge.
Crueldade? Egoísmo?
Não, nada disso, nada tão dramático assim.
Apenas parte do instinto colecionador do homem, que aprisiona para seu deleite exclusivo tudo o que considera belo, obras de arte em galerias pessoais, livros raros em estantes no porão, pássaros em gaiolas, peixes em aquários, cônjuges em alianças...
E a Lua.
A minha Lua na garrafa, por meu abajur e farol.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Superfícies, Nada Mais

Caras como eu,
Somos empedernidos,
Ressequidos, rochosos.
Não contamos com a possibilidade
De uma remoldagem redentora.

"Mas você mudou", dizem alguns.

Não, não mudei
- Penso comigo, mudo, sem dar trela a maiores delongas -,
Não mudei,
Apenas fui derrotado.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Bertolt Brecht

A TROCA DA RODA 
Estou sentado à beira do caminho.
O condutor troca a roda.
Não gosto de estar lá de onde venho.
Não gosto de estar lá para onde vou.
Por que olho a troca da roda
Com impaciência?

A Arquitetura Da Flor

Tenho recebido, nos últimos tempos, vários e-mails com fotos de Dubai, a exaltar as maravilhas arquitetônicas e urbanísticas da cidade.
Sinceramente, eu acho até bonito e coisa e tal, mas não fico embevecido, embasbacado por tais construções, como fica a maioria das pessoas.
Essa exaltação toda faz parte de um ritual masturbatório intraespecífico, ou seja, é o cara que toca uma punheta em homenagem a ele mesmo, em frente ao espelho e com o dedo enfiado no cu. É a espécie humana glorificando a si própria.
Prédios em feitio de veleiro, ilhas artificiais a imitar coqueiros, montanhas de gelo para a prática de esqui em pleno deserto... nenhum desses prodígios me impressiona ou comove.
Nada supera nem sequer iguala a arquitetura da flor.
E não me refiro ao atributo romântico dado pelo ser humano à flor, presentear com flores na intenção de conseguir outra flor, de aroma menos delicado e néctar menos doce.
Digo do aspecto geométrico e exato da flor, milhões e milhões de anos de evolução criaram o mais perfeito equilíbrio de formas, arcos, ângulos, circunferências e elipses; isso sem dizer - e já dizendo - das infinitas e muito bem dosadas paletas de cores e cheiros.
Dubai é porra nenhuma perto disso, nem dá pra considerar.
A propósito, "Arquitetura da Flor" é o nome do CD mais recente de Francis Hime, parceiro de Chico Buarque nas décadas de 70 e 80. É deles a clássica "Trocando em miúdos".
Se quiser ouvi-la, interpretada pelo Chico, é só dar uma clicadinha aqui, na minha poderosa MARRETA

domingo, 20 de setembro de 2009

Pequeno Conto Noturno

Madrugada, Rubens andava pelas ruas, 3 e meia da manhã, sem rumo. Sem rumo, mas sempre pelo mesmo caminho de quando se punha a andar, a espairecer.
"Ei, rapaz! Dou cinquenta reais pra chupar teu pau."
Rubens olha em direção à voz e a identifica saída de um carro parado ao meio-fio, vermelho, vidros escuros baixados até a metade.
"Olha minha senhora" - uma dona de seus 50 anos, ainda bem garbosa, maquiagem pesada, perfume doce e peitos inflados - "eu só saí para dar uma volta, não quero confusão..."
"DOU CINQUENTA REAIS PRA CHUPAR TEU PAU", a dona elevando a voz.
"Deixa disso, dona. Garanto que meu pau nem vale tanto."
"DOU CINQUENTA REAIS PRA CHUPAR TEU PAU", ainda mais alto, beirando ao escândalo.
Rubens entra no carro, temendo que algum morador próximo resolvesse chamar a polícia.
A dona põe a nota de cinquenta no painel, abre a braguilha de Rubens e abocanha.
Abocanha uma massa mole, borrachenta, que no mesmo estado permanece, alheia à dedicação da dona, que sabia muito bem do ofício.
"Essa porra não sobe ?!?!?!?!?!", fala com metade do pau na boca e torna a engolir tudo, com gana.
Rubens sente os dentes da dona a lacerar seu pau e lhe dá um tapão.
"ENFIM UMA ATITUDE DE MACHO!", urra a dona, transverberada de excitação e com o sangue do pau de Rubens a escorrer dos lábios.
Faz menção de abocanhar de novo. Rubens desfere outro tapa, outro, mais outro e um soco de mão fechada.
Nocauteia a dona.
Ele avisou que o pau dele não valia aquela grana.
Mesmo assim, pega a nota de cinquenta sobre o painel, guarda o pau ensanguentado e sai.
Os cinquenta reais cobrirão os gastos com mercurocromo e nebacetin.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Salvem O Planeta, Mas Não Encham O Meu Sacolão

O mercado onde me abasteço - mantenho meu equilíbrio hídrico, por assim dizer - embarcou também na tal "onda verde", adquiriu consciência ecológica, o mercado.
Passou a comercializar uns sacolões em lona, ou coisa parecida, com o intento de reduzir o consumo daquelas sacolas plásticas usadas para carregar as compras, e anuncia sua "preocupação ecológica" em cartazes gigantes (de matéria plástica) espalhados pelos corredores, com ilustrações de um mundo mais colorido e cheio de borboletinhas. Só ficou faltando o sol sorrindo de óculos ray-ban.
Balela. Patifaria ecológica.
Patifaria de ambos os lados.
De quem vende os tais sacolões - há descontos polpudos nos impostos das empresas que incluem a preocupação ecológica em suas pautas - e de quem os compram, o indivíduo continua jogando lixo nas ruas e passeando com seus automóveis fumadores, mas comprou o sacolão verde, então está contribuindo, então está tudo certo, junto com o sacolão o cara recebe um apaziguador de consciência.
O mesmo mercado, preocupado com o impacto ambiental causado pelas sacolas de plástico, despeja diariamente toneladas de papel nas ruas e nas portas das residências, milhares de panfletos com anúncios de suas ofertas.
E ninguém parece se dar conta dessa brutal contradição. E seguem comprando seus sacolões.
Quer reduzir verdadeiramente o uso das sacolas plásticas?
Fácil, óbvio: deixem de fornecê-las aos clientes às saídas dos caixas.
Eu não tenho nada contra as sacolinhas plásticas, nada mesmo.
Faço bom uso delas, duas por dia para recolher os excrementos das minhas duas gatinhas e mais uma para receptar meu lixo doméstico.
Lixo que, a propósito, não separo para a coleta seletiva, não reciclo, nada disso, ponho tudo num só balaio. E nem quero saber onde isso tudo será jogado.
Assumo minha natureza humana, assumo a índole predadora e parasita intrínseca à minha espécie, estamos aqui para aniquilar, ponto pacífico.
Não tenho preocupação ecológica nenhuma!
Aliás, ninguém a tem.
Eu só não finjo, eu tão-somente admito, não fico por aí comprando produtos "verdes" para aplacar sentimentos de culpa nem tentando lucrar com o remorso alheio.
Em tempo: quero que o Greenpeace, WWF, S.O.S. Mata Atlântica e assemelhados (não esquecendo do mercado onde me abasteço) vão todos às respectivas putas que os pariram.

sábado, 12 de setembro de 2009

Mais Uma Noite Dos Demônios

Hoje, a noite está indócil, barulhenta, desacomodada;
há nódulos nos músculos, há eletricidade estática pelo ar,
dessa que atrai nossos pelos quando aproximamos o braço da tela da tv;
há zumbidos de pernilongos (ou da consciência) que não conseguimos matar,
há o sono que não conseguimos pôr em arapuca,
e, logo, o nascer do sol que não conseguiremos abortar;
essa será mais uma noite dos demônios,
dessas onde a saída é caminhar, caminhar
e caminhar...
todavia a saída está fechada,
me embebedo,
deito,
e torço pro demônio não me achar.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Gosto Muito De Te Ver, Leãozinho

Não acredito nessas coisas de vidas passadas.
Mas fiz, dia desses, a título de curiosidade, uma regressão hipnótica.
Descobri que eu já vivi na Roma Antiga, no auge do gládio, do Coliseu.
E não vou mentir aqui que tenha sido algum imperador, senador, conselheiro, gladiador laureado ou centurião de mil conquistas.
Fui um cidadão dos mais comuns, meu nome não figura em nenhum registro da época, mas eu era um cidadão extremamente feliz com minha humilde profissão, anonimamente feliz.
Eu fui um criador de animais e os fornecia diretamente ao Império.
Eu fui um criador de leões, criava leões para que cristãos fossem jogados a eles, fui o abastecedor oficial de leões do Coliseu, criava panteras e tigres também, mas os leões sempre foram meus prediletos.
Alugava-os para cada espetáculo, um gigolô de leões, ganhava uns bons denários e sestércios com isso. Tinha uma dedicação sacerdotal ao meu ofício. Mantinha os bichinhos sempre muito bem escovados, sem carrapatos, jubas de brônzea cintilância, e famintos, famélicos.
E como descrever a cara de satisfação dos bichinhos quando retornavam a mim, narizes e bigodes rubros e doce-ferruginosos de sangue cristão? Vinham-me dóceis e gratos gatinhos e eu os abraçava quase a chorar de orgulho, orgulho pelos meus meninos.
Esmerava-me em meu labor.
Contudo já viram, né?
Entra vida, sai vida, vai encarnação, vem reencarnação, e uma coisa não muda em mim : sou de uma incompetência profissional absoluta, minha dedicação nunca supriu minha falta de talento.
Não veem nesse caso? Que, inclusive, foi um dos motivos da queda do Império Romano?
Faltaram leões.
Não dei conta do recado, não dei conta da demanda.
Não consegui - desgraçadamente - criar leões em quantidade suficiente, não consegui criar leões na justa medida.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Dia Nacional Da Marcha Para Jesus

Primeiro e antes de tudo, quero que Cristo se foda.
Aliás, ele já se fodeu. Mas não tanto quanto quem nasceu depois dele ao lado ocidental desse mundo desgraçado.
Cristo foi nada mais que um bêbado esperto, cheio de chinfra, cheio de balacobaco, que chegava nas tavernas e contava umas historinhas pro povo, que estava sempre disposto a pagar suas despesas; o povo sempre está disposto a pagar as despesas de quem pensa mais que eles (de onde vocês acham que nasceram os políticos?).
Bêbado tão esperto que até água em vinho ele transformou. Será?
Porra nenhuma! Outro 171 do barbudo.
Ele pegou uns barris velhos, abandonados, cheios de mosto ressecado, pôs água e sacudiu, só isso (se você não sabe o que é mosto, que se foda, pesquise).
O cara - Cristo - não era muito chegado ao batente, tanto que fugiu de casa quando José quis lhe impôr o ofício de carpinteiro. Eu também teria fugido, José é o santo padroeiro dos cornos, chato como todo corno.
Cristo foi brilhante em sua fuga: peregrinar pelo mundo atendendo ao chamado do Pai. Brilhante, esse menino Cristo.
O meu "céu" seria um bar, e eu tomando todas com Raul, Bukowski e Cristo. Os quatro rindo da humanidade. O garçon bem que podia ser Lúcifer.
O foda nem foi o que Cristo disse por aí em troca de bebida e antepasto, o foda foi o que o filho da puta do Pedro fez com isso.
Cristo fazia pra si mesmo e seus chegados, coisa pequena. Pedro mercantilizou. Grande filho da puta, esse Pedro.
E agora reservam um dia para marchar por Cristo.
E vejam quem: "bispo" Crivella, casal Hernandes da Igreja Renascer, regresso ao Brasil após cumprir sentença por entrar nos EUA com 56 mil dólares não declarados, acusados lavagem de dinheiro, estelionato e formação de quadrilha (detalhe: parte do dinheiro contrabandeado estava no fundo falso de uma bíblia) e Lula a dar sua chancela.
Tudo gente boa. Todos preocupados com a espiritualidade da população.
Mefistófeles e Paulo Maluf devem estar deprimidos, acabrunhados, morrendo de inveja.
Se ao final da tal marcha para Cristo haver um gólgota para pregar cada cristão e deixá-lo lá a desidratar feito charque, vou mudar de profissão: passarei o ano todo a fabricar cruzes para pregar esses filhos das putas.
E, para não dizerem que não tenho espírito caridoso e cristão, só cobrarei a cruz.
Os pregos e as marretadas sairão de graça.

domingo, 6 de setembro de 2009

Síndrome de Belchior

Acredito que todos - ou quase - tem uma estratégia de fuga guardada em algum lugar, uma fantasia de sumir no mundo, e do mundo, quando as agruras pesarem sem remédio.
Eu - e nisso sou como a maioria - também tenho a minha, que nem é das mais originais.
Vejo-me evadido do mundo no cimo de uma serra gelada, numa casa de toras de madeira à Daniel Boone (alguém lembra?), tosca e rústica, mas sem que isso impeça uma calafetação, água encanada, energia elétrica. Até porque não estaria fugindo de um certo conforto e comodidade, estaria fugindo da humanidade, pura e simplesmente.
Exoneraria-me do meu cargo, encerraria contas em bancos, tiraria o nome dos talões de água, luz, IPTU, cartões e documentos dos mais variados, órfão do mundo.
E viveria de produzir vinhos, pães e queijos, para consumo próprio e para pequenos escambos com outros víveres, realizados na cidadezinha ao pé da serra, distante, muito distante, eu a avistando por entre brumas e ela nem desconfiando da minha existência.
Receberia escassas visitas, poucos e seletos amigos e poucas e seletíssimas amigas, que nem só de vinho, pão e queijo vive o homem.
Tenho esse plano de escape há muito tempo, acho que desde os meus vinte e poucos anos.
Claro que nunca se tornará real, mas pensar em sua possibilidade quando o dia se mostra mais carrancudo, dá um certo alento.
Mas até isso - a possibilidade de uma ilusão -, essa sociedade globalizada, esse mundo Orwelliano está nos tirando.
Vejamos o caso desse rapaz, o Belchior.
Músico, pintor e, principalmente, poeta. Dos bons, dos verdadeiros.
O cara resolveu sumir, deixar o mundo para trás, escondeu-se lá numa cidadezinha uruguaia de pouco mais de 2 mil habitantes. E não foi, como pensam os mais rasos de alma, das dívidas que ele fugiu. Tenho plena certeza de que não. Belchior fugiu da civilização, e de todos os seus danosos efeitos colaterais.
Fugiu? Fugiu porra nenhuma.
Armaram um esquema de busca, mobilizaram o país para acabar com o sossego do cara.
Torci fervorosamente para que não o encontrassem, mas, já viram, né?, sempre fui um puta dum pé-frio.
A TV Globo achou o cara, eu não vi a reportagem, mas quem viu me disse que ele não estava com semblante dos mais animados. Também pudera. Primeiro porque ele nunca foi das pessoas mais otimistas, basta ouvir algumas de suas letras (sugiro "A palo seco"), e nem é pra menos, ele é pensante, isso tira qualquer chance de otimismo; e segundo, quem poderia ficar animado ao estar lá tranquilo e sossegado e, de repente, ver irromper a bichona do Zeca Camargo pela sua porta?
Não poder nem mais encetar um tentativa de fuga...
Comecei a me sentir mal, ficar ruim, a me dar uma ansiedade, uma falta de ar, um peso nos pés, na cabeça, um travar de mãos, uma claustrofobia ainda que em espaços abertos.
Estamos diante do advento de um novo transtorno psicossomático.
Requeiro desde já o seu batismo, esse ninguém tasca: Síndrome de Belchior.

*se quiserem ouvir Belchior em "A palo seco" é só dar uma clicadinha na minha Marreta

Mais Bukowski

uma palavrinha sobre os fazedores de poemas rápidos e modernos


é muito fácil parecer moderno

enquanto se é o maior idiota jamais nascido;

eu sei; eu joguei fora um material horrível

mas não tão horrível como o que leio nas revistas;

eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais

que não me deixará fingir que sou

uma coisa que não sou-

o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa

na poesia

e o fracasso de uma pessoa

na vida.

e quando você falha na poesia

você erra a vida,

e quando você falha na vida

você nunca nasceu

não importa o nome que sua mãe lhe deu.

as arquibancadas estão cheias de mortos

aclamando um vencedor

esperando um número que os carregue de volta

para a vida,

mas não é tão fácil assim-

tal como no poema

se você está morto

você podia também ser enterrado

e jogar fora a máquina de escrever

e parar de se enganar com

poemas cavalos mulheres a vida:

você está entulhando a saída- portanto saia logo

e desista das

poucas preciosas

páginas.

domingo, 30 de agosto de 2009

CHARLOTTE ROCHE

Sei lá se a literatura dessa moça, Charlotte Roche, vale alguma coisa, mas em seu livro, fortemente autobiográfico, através da personagem Helen, ela marreta as mulheres "limpinhas", obcecadas por depilação e excesso de perfumes; recomenda que as mulheres se perfumem apenas com gotinhas do líquido vaginal atrás das orelhas.
Assume publicamente que sai com calcinhas furadas e cultiva um belo dum matagal entre as pernas, a famosa estética Cláudia Ohana.
"A depilação está se tornando uma coisa extrema, uma loucura. As mulheres não têm mais pelos pubianos. Parecem menininhas" , diz Charlotte.
E eu concordo absolutamente com ela!!!
Como disse, não sei se ela tem algum talento literário, não li ainda seu livro "Zonas Úmidas", mas que a moça é uma grande marretadora, isso é.
Se quiserem ler a entrevista da moça à revista Época, clique no link abaixo:
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI64004-15228,00-CHARLOTTE+ROCHE+A+DEPILACAO+ESTA+SE+TORNANDO+UMA+LOUCURA.html

sábado, 29 de agosto de 2009

TOFRANIL

Tofranil, antidepressivo tricíclico.
Sugeriram-me, assim meio em off, que eu procurasse um psiquiatra à obtenção da receita de tal fármaco. Sugeriu-me, justamente, a pessoa a quem recorri para que eu não tivesse que chegar a esse ponto.
Ironia? Sim. Da mais destilada.
Mas quem é que não anda dando topadas com elas - as ironias - feito dedo mínimo do pé em pernas e pés de mesas e batentes de portas? Quem é que não anda por campos minados delas feito sola de sapatos a pisar em merda de cachorro?
Esse prodígio da farmacologia moderna faz promessas de aplacar minha ansiedade, abrandar meu convívio social, amansar minha compulsão de verificar repetidamente se fechei o gás, janelas, torneiras, portas, geladeira, se desliguei o ferro de passar roupas, lâmpadas, ventiladores, se fechei o gás, janelas, torneiras, portas, geladeira, se desliguei o ferro de passar roupas, lâmpadas, ventiladores, se fechei o gás, janelas, torneiras, portas, geladeira, se desliguei o ferro de passar roupas, lâmpadas, ventiladores, se fechei o gás, janelas, torneiras, portas, geladeira, se desliguei o ferro de passar roupas, lâmpadas, ventiladores, se fechei o gás, janelas, torneiras, portas, geladeira, se desliguei o ferro de passar roupas, lâmpadas, ventiladores...
Promete, por fim, tornar-me mais feliz.
Daí, lembrei-me da história do cara com diarreia que vai à farmácia a fim de resolver sua questão e o farmacêutico, distraído, ao invés de um anticagatório, vende-lhe um calmante. Horas depois, o cara retorna à farmácia e o balconista lhe pergunta se melhorou.
O cara responde : "Tô todo cagado, mas calminho, calminho".
Pesquisei a bula na internet, ver os efeitos colaterais, alguns deles:
- secura da boca, o que pode levar ao aumento da incidência de cáries;
- ganho de peso;
- distúrbios visuais;
- prisão de ventre;
- cansaço e fadiga;
- distúrbios do sono;
- diminuição da libido;
- cansaço e fraqueza muscular;
- aumento da frequência cardíaca.
Puta que o pariu!!! Isso lá é remédio?
Vou, se decidir pelo uso, ficar banguelo, obeso, cegueta, entupido, sonâmbulo, broxa e - também pudera - ter um infarto do miocárdio.
E, já ia me esquecendo, garante a bula, ficar muito mais feliz.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Oração dos Ateus

Essa oração - mais uma contribuição do Samuel, o famoso Nariz, ao blog - mostra que ateu não é o cara que não acredita em nada; é o cara que simplesmente não acredita em tudo, em qualquer coisa, em toda besteira não provável que tentam lhe empurrar pela goela.

ORAÇÃO DOS ATEUS (ou a Prece ao DNA)

Creio no DNA todo poderoso
criador de todos os seres vivos,
creio no RNA,
seu único filho,
que foi concebido por ordem e graça do DNA polimerase.
Nasceu como transcrito primário
padeceu sobre o poder das nucleases, metilases e poliadenilases.
Foi processado, modificado e transportado.
Desceu do citoplasma e em poucos segundos foi traduzido à proteína.
Subiu pelo retículo endoplasmático e o complexo de Golgi
E está ancorado à direita de uma proteína G
Na membrana plasmática
De onde há de vir a controlar a transdução de sinais
Em células normais e apoptóticas
Creio na Biologia Molecular
Na terapia gênica e na biotecnologia
No sequenciamento do genoma humano
Na correção de mutações
Na clonagem da Dolly
Na vida eterna.
Amém

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Revoadas

Pus-me de pé, hoje, sobremaneira antissocial.
De antemão exasperado pelos rostos, pelas vozes, pelos cheiros, pela geleia nojenta de gente que tenho que aturar a garantir meus parcos vencimentos, meu quinhão de sal - os soldados romanos tinham seus soldos pagos em sal, daí o termo salário.
Talvez fosse tão-somente os últimos fiapos de um sono abortado ainda enroscados no áspero da cerveja da noite passada, talvez esse clima de névoa seca, talvez influência do beligerante planeta Marte que, hoje, dizem - recebi 4 e-mails, por volta da meia-noite, fulgurará no céu feito em uma segunda, cheia e sangrenta lua.
O mais certo, porém, é que seja a falta de revoadas.
Quer coisa mais bonita e renovadora de ânimo que uma bela e revoltosa revoada?
Estou precisado de uma boa revoada.
E pode ser revoada de qualquer coisa :
de maritacas, de latas de cerveja, de amigos que você mais via há 10 anos atrás (os amigos da "Lista" do Oswaldo), de falenas de asas de pó de giz, de falenas de meia arrastão e minissaia, de músicas do Chico, de gavetas abertas, de abraços que nunca foram dados, de cartas amareladas, de bucetinhas que você tanto quis e não comeu, de bucetinhas que você nem queria tanto e acabou comendo, de piadinhas infames, de anjos com enormes tetas, de arroubos insones, de petálas de ipê-amarelo, roxo, branco e rosa, de matinês de cinema, de navalhas à cata de uma jugular, de gatos a acasalar nos telhados cheios de lodo, de livros do Monteiro Lobato, de morcegos (dos bonzinhos) com a boca melada de sumo de jambo, de nuvens com a forma dos sonhos, de sacis de carona em redemoinhos, de baleias e golfinhos encalhados por ousarem seguir diferente rota, de cafunés, de lembranças a escorrerem salgadas dos olhos.
Estou a ouvir dizer de uma intensa revoada de um novo vírus de uma nova gripe.
Contudo, essa tal não aplaca minha necessidade de revoadas, uma vez que invisível a não-nanoscópicas retinas.
A noite não me traz mais revoadas há muito.
Só sei que, hoje, vou assistir a um episódio repetido de House, em seguida, subir ao telhado do prédio por um tipo de alçapão invertido que dá para um bat-sótão, e daí para a cobertura.
Estará em minha companhia, uma garrafa de um bom e seco vinho tinto.
Sentarei-me à beira do telhado e lá ficarei, a sorver pelo gargalo o vinho e o bordô do céu, em aguardo do plenilúnio de Marte.
À espera de Marte pleno nos Ares.
E, com sorte, quem sabe, de uma revoada de granizos mornos.

sábado, 22 de agosto de 2009

Alex Vallauri

Lembro da primeira vez que vi uns grafites desse italiano (apesar de nascido na Etiópia), era final da década de 70, começo da de 80, de novo minha memória não me dá garantia absoluta.
Morador de cidade do interior, ainda que não das menores, nunca tinha vista nada parecido, acredito até que o termo "grafite" não me fosse familiar para designar aqueles desenhos feitos a spray, na época só havia pelos muros de minhas andanças a pichação.
Vi esses grafites de Alex Vallauri nas paredes do SESC aqui da cidade onde moro. E fiquei embasbacado, atordoado, confuso. Aquilo era absolutamente novo pra mim.
Desenhos traçados com tinta spray através de moldes vazados, a chamada Stencil Art.
Pareceu-me possível, quase fácil fazer aquilo que acabava de ver nas paredes, as figuras femininas ao telefone, encostadas nos postes à espera de clientes, uma bota preta de salto fino e, acho que sua marca registrada, as ninfas de Vallauri em danças circulares.

Até tentei criar uns moldes vazados, umas máscaras...
Mas deu-se o de sempre: constatei que tinha mais pretensão que talento.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Kakinho Big Dog

Quem gosta do humor genuinamente brasileiro, baixo, chulo, politicamente incorreto, não obstante muito inteligente, não pode continuar a não conhecer Kakinho Big Dog.
Músicas destaques: "a volta do Bráulio", "ataque epilético", "paixão de gaúcho", "cumpade osório", "capô de fusca", "pai toshiro", "zé gaguinho" ; procurem e baixem na net.
Só pra terem uma amostra, posto abaixo a letras de "ataque epiléptico"
Esse cara é uma marretada.


ATAQUE EPILÉPTICO

LÁ na festança tinha pinga tinha dança,
Saculejo di porpança, aprontei um escarcel.
E era cada muiézão, cada bitela,
Escolhi a melhor delas, piquei a mula pro motel.
Tomemo banho quente inté ficar vermeiu,
Ja cas calça nu joelho comessemo a se beijar.
Nóis se garrava chei de ansea e de malicia,
Doidim com a semergoissa com vontade de cruzar.

E parecia que eu possuia motor,
Miór qui firme pornô era minha evolução.
Eu fundava e desfundava com destreza,
Eu moiava a calabresa pra carcar no parmezão.
A muié gritava i rivirava os zói,
Babava q nem um boi, resmungando palavrão.
Tanto delirio, rala i rola no entra i sai.
Que nem abriu em cim em baixo puxa e vai.

(Refrão)

Eu feliz já me gabando, do meu desempenho atlético.
De amor me derretendo, mais a muié tava tendo,
Era um ataque epilético (2x)

E parecia que eu possuia motor,
Miór qui firme pornô era minha evolução.
Eu fundava e desfundava com destreza,
Eu moiava a calabresa pra carcar no parmezão.
A muié gritava i rivirava os zói,
Babava q nem um boi, resmungando palavrão.
Tanto delirio, rala i rola no entra i sai.
Que nem abriu em cim em baixo puxa e vai.

(Refrão)

Eu feliz já me gabando, do meu desempenho atlético.
De amor me derretendo, mais a muié tava tendo,
Era um ataque epilético (2x)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Saudades De Quando Os Robôs Eram De Lata

Ontem, longe de ser um de meus passeios preferidos, acabei por ir a um dos shoppings centers aqui da cidade. Sempre me entristeço com o gênero humano quando vou a esses lugares, mas ontem me entristeci mais.
Por conta do curto tempo de que eu dispunha para um compromisso que teria logo mais, acabei almoçando por lá, também.
A praça de alimentação estava atulhada de gente. Gente? De seres, gente, não sei.
Mesmo búfalos, gnus, girafas, zebras e outros "irracionais" conseguem ser mais organizados quando se reúnem à volta de um lago lamacento para beber.
Muitos desses seres (vou evitar chamá-los de gente daqui por diante), e garanto que não eram uma parcela inexpressiva da manada que ali se reunia, não se apercebiam do que acontecia em seu redor, isolados que estavam em seus aparelhos eletrônicos.
Raras as mesas onde duas ou mais pessoas conversavam ou, ainda que não conversassem, que apenas se alimentassem.
Esses seres alheios apresentavam um padrão básico: um laptop aberto à sua frente, um macqualquerbosta na boca, um fone de seus mp3, mp4, mpqp no ouvido e outro fone no outro ouvido, de seus celulares; uma mão no mouse do laptop e outra a se alternar entre segurar o sanduíche e verificar mensagens no telefone.
O rôbo do clássico Metropólis de Fritz Lang (foto acima) tem menos fios que esses seres que fiquei a observar ontem, imersos numa bolha virtual, em um mundo de catatonia e imbecilidade. Poderia passar a Angelina Jolie ao lado desses imbecis, que eles nem notariam.
Alguns brincavam com jogos em seus laptops, outros liam e-mails, outros consultavam coisas do trabalho.
E, desgraçadamente me ocorreu, alguns estivessem até "estudando", assistindo a "aulas" em seus laptops, esses cursos à distância que existem hoje em dia, talvez estivessem consumindo a imagem de um professor na tela juntamente com o macqualquerbosta.
Realmente não acredito nesses filmes de ficção que vaticinam um mundo onde as máquinas controlem humanos, mas vai ficar - já está - cada vez mais difícil saber onde começa um e termina o outro.
Chamem-me do que quiserem, mas eu me recuso a ser um professor virtual.
Nego-me a ser consumido juntamente - e no mesmo nível de importância - com um alimento
fastfood, com uma mensagem em mau português no celular e com uma música sertaneja no mp3.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Palavras Cruzadas

Agora, depois de velho, dei de apresentar a tal da ansiedade.
Frescura, viadagem, mesmo.
Mas fazer o quê?
A ansiedade vem da consciência (no meu caso) ou do saber instintivo (no caso da maioria) de que já se fez tudo o que tinha de ser feito, de que já deu sua cota à vida e que, apesar disso, ainda lhe restam muitos anos a serem vividos, que ainda vão lhe cobrar uma atividade, uma utilidade por muito tempo.
A ansiedade é provocada por essa procura do que ainda fazer, do que ainda ser. Quando não há mais nada, quando não há mais o quê. E é natural que assim seja, que não haja mais o quê. A ansiedade vem do homem em ser antinatural.
A ansiedade é deflagrada pela consciência do bicho que sabe do seu papel já cumprido, que sabe que já está a torrar mais oxigênio que o quinhão que lhe foi destinado.
Ansiedade é o sintoma manifesto pelo bicho que, em consciência de todo o supradito, só quer descansar, mas sabe que não irão deixá-lo.
Comprar e consumir exageradamente - seja comida, roupas, eletroeletrônicos e outros "teres" - não aplaca minha ansiedade, como é regra geral.
Prozac, Rivotril e outros ansiolíticos, ainda não os experimentei (li, dia desses, que o Rivotril é o remédio mais vendido hoje no Brasil, mais que aspirina, merthiolate, hipoglos, lacto-purga).
Maconha, outro ansiolítico, idem: ainda não a provei. Não por preconceito, não tenho nada contra droga nenhuma - salvas as religiões. É que, simplesmente, não me agrada a ideia de nenhuma espécie de fumaça a me invadir as ventas. Se houvesse maconha líquida, talvez já tivesse tomado uns goles.
Três ou quatro latinhas de cerveja - visto que o que ganho não chega para um bom Jack Daniels - têm contribuído para um sono menos entrecortado.
Mas o que funciona melhor para mim são as palavras cruzadas. Verdade.
Quando fico andando pra lá e pra cá, sem o que fazer, meio aflito, pego e vou preencher umas horizontais e umas verticais. Consigo me concentrar nas cruzadas em qualquer ambiente ou situação, em casa, na escola, em frente à televisão, com pessoas grasnando à volta, com cachorros latindo, com o barulho do trânsito.
Carrego-as, inclusive, ao banheiro. E fico ali, arriando, riscando a porcelana... e cruzadeando.
Mas são, as palavras cruzadas, uma droga como qualquer outra, doses cada vez maiores vão sendo requeridas. O cara começa com as do nível fácil, passa para o médio e assim por diante.
Há tempos que já me utilizo das que trazem a inscrição "Difícil" em sua embalagem, porém acho que estou sendo ludibriado, que estou a comprar "comprimidos de farinha", um placebo.
De qualquer forma, sempre aprendo algo novo ou, ao menos, lembro e reforço o que já conhecia; de qualquer forma, ainda está a fazer efeito.
As palavras cruzadas podem nem dar um "barato" feito essas fluoxetinas ou clonazepans da vida, mas são bem mais baratinhas.
E bem mais saudáveis.
Saudáveis? Sei lá.
Mas também quem aqui está atrás disso?

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

José Saramago - O Fator Deus

Alguém já se tocou, além de nós, ateus, é claro, que não existe ateu burro?
Texto contundente de Saramago, a seguir:

O FATOR DEUS

Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá “ver” cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes. Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro. Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos, seqüestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo. Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.
As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante da tortura, da agônica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova York tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mais limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefação para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez “aqui estou” quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdômen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietnã cozido a napalme, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas, daqueles caminhões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, devíamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os talebanes, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactuado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.
E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gêmeas de Nova York, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela ação dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o “fator deus”, esse, está presente na vida como se efetivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um Deus, mas o “fator Deus” o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, e não a outra...) a bênção divina. E foi no “fator Deus” em que o Deus islâmico se transformou, que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um Deus andou a semear ventos e que outro Deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres Deuses sem culpa, foi o “fator Deus”, esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.
Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiraram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento de não poder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do “fator Deus”. Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

MULTIVERSO

NÃO É QUE TENHA DADO ERRADO;

SÓ NÃO DEU CERTO, SÓ ISSO.

PERSISTE A POSSIBILIDADE,

EXISTE AINDA UM PLANETA DESABITADO.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

AUGUSTO DOS ANJOS

Eu tenho algumas - muitas - invejas literárias, escritos que eu gostaria de ter escrito.
Entre elas, está esse soneto de Augusto dos Anjos, o poeta da putrefação.
Nessas 14 bem arquitetadas linhas, ele condensa a perfeita tradução da natureza humana.

VERSOS ÍNTIMOS
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

AGRIDOCE

AGRIDOCE 
(Pato Fu)
Por que você às vezes
Se faz de ruim?
Tenta me convencer
Que não mereço viver
Que não presto, enfim
Saio em segredo
Você nem vai notar
E assim sem despedida
Saio de sua vida
Tão espetacular
E ao chegar lá fora
Direi que fui embora
E que o mundo já pode se acabar
Pois tudo mais que existe
Só faz lembrar que o triste
Está em todo lugar
E quando acordo cedo
De uma noite sem sal
Sinto o gosto azedo
De uma vida doce
E amarga no final
Saio sem alarde
Sei que já vou tarde
Não tenho pressa
Nada a me esperar
Nenhuma novidade
As ruas da cidade
O mesmo velho mar.

O Professor-Gabiru

Há umas duas décadas, pouco mais, pouco menos, desconto dado à minha memória já não tão boa, ouvi dizer do Homem-gabiru.
Homem-gabiru é uma designação criada em Pernambuco por pesquisadores do Centro Josué de Castro: Tarsiana Portela, Daniel Amos e Zelito Passavante.
Esse homem seria o início do surgimento de uma possível subespécie humana, uma derivação do gênero ajustada a viver em condições extremas de miséria, adaptada a sobreviver com um gasto mínimo de energia.
A grosso modo, o homem-gabiru apresentaria um nanismo nutricional, estatura bem abaixo da média humana, atributo que lhe daria vantagens sobre os normais nessas regiões de alimento escasso, pois seu menor organismo requereria menor gasto energético.
Nessas regiões, seriam selecionados os indivíduos com esse nanismo, o que poderia levar à consolidação de uma derivação da espécie humana. Obviamente, o homem-gabiru também teria o intelecto bem reduzido em relação ao Homo Sapiens, no qual já não é grande coisa. O gabiru consome menos energia: menos energia, menor atividade cerebral, visto que cerca de 1/5 da energia consumida por nós é gasta pelo cérebro.
Não tenho ouvido falar muito do homem-gabiru ultimamente. O que não significa que ele não continue a existir, simplesmente não é mais noticiado. Mas, aparentemente, esses programas assistenciais do governo, essas esmolas eleitoreiras, deram uma barrada no processo de formação do homem-gabiru.
Mas se o homem-gabiru não existe como subespécie biológica, ele existe aos montes no aspecto comportamental do brasileiro, sobretudo no âmbito profissional.
Profissionais mal-formados é o que mais se vê hoje em dia. Desaculturados com diplomas.
Há médicos-gabiru, engenheiros-gabiru, administradores-gabiru, eletricistas-gabiru, encanadores-gabiru... o processo se alastrou por todas as áreas, em todos os niveis.
O mais perigoso dos gabirus: o professor-gabiru.
Um médico-gabiru, um engenheiro-gabiru, não necessariamente formam outros iguais.
O professor-gabiru, inevitavelmente, forma outros gabirus.
O professor-gabiru é aquele que não prepara sua aula, aquele fica conversando sobre a vida pessoal - dele e do aluno - ao invés do conteúdo que lhe cabe, aquele passa um filme para a classe sem nenhuma relação com o contexto, aquele que leva o aluno a passeios tão despropositados quanto, aquele que se faz de amigo do aluno para que esse desculpe sua inabilidade, aquele que se mete a ser psicólogo, conselheiro, assistente social e etc não por bondade, mas simplesmente porque não é capacitado nem para ser professor, é o professor que faz suas especializações em cursos de fim de semana, à distância, não-presenciais, é aquele que nem consegue se expressar num razoável português.
Mas ele nem é o mais perigoso.
O mais perigoso é o professor, os raros professores, que não é gabiru, mas que está desgraçadamente se dispondo a formar gabirus.
Esses professores tem sólida formação acadêmica, armanezam um grande cabedal de informações, são bem formados culturamente, sabem do valor do conhecimento obtido de modo árduo.
E apesar disso, de uns tempos para cá, tornaram-se divulgadores do conhecimento superficial, frugal, leviano, até. De uns tempos para cá, vêm renegando o estudo e conhecimento verdadeiro, os responsáveis por serem o que são.
Quem são esses não-gabirus formadores de gabirus? São aqueles que dão aulas nesses cursos à distância, são aqueles que pensam - talvez nem por maldade - que a grande massa é, como eles, capaz de estudar por conta própria, sendo dispensável a figura do professor, são aqueles que gravam suas aulas em vídeo, autênticos Cid-Moreiras da educação.
Se eles fossem também gabirus e formassem gabirus, estariam desculpados.
Não é o caso.
Execro aqui esse formadores de gabirus e sem medo de parecer saudosista. Até porque não ser saudosista não é aceitar toda e qualquer mudança dos tempos, se a mudança for para pior não é ser saudosista : é ter princípios, é não vendê-los por meros centavos.
Execro aqui esses Cid-Moreiras da educação.
Boa noite!

domingo, 9 de agosto de 2009

Professor É Burro, Sim

Por que é obrigatória a presença de um farmacêutico diplomado numa farmácia? Ainda que ela só venda remédios alopáticos e com receita? O farmacêutico não pode receitar, pode?
Por que, apesar da lei facultar ao cidadão o direito de se representar, a presença de um advogado é imprescíndivel num processo? Mesmo que seja uma briga de vizinhos banal?
Por que uma indústria que fabrique, digamos, xampú e que já o produza há muito tempo, que só repete infinitamente a mesma fórmula, precisa de um químico responsável para assinar a mesma velha fórmula de sempre? Sabemos que, na grande maioria dos casos, o químico apenas passa no fim do mês para receber o salário pela sua assinatura.
Por que uma simples e vulgar pet shop, ainda que só venda ração e ofereça serviços de tosa e banho, precisa ter um veterinário responsável?
Simples.
A resposta pra todas as perguntas, na verdade uma única, é : sobrevivência profissional.
Todas essas categorias citadas, e mais outras diversas, através de seus conselhos regionais, impõem-se pela lei.
Vão ocupando legalmente esses nichos. Todas as categorias profissionais impõem a sua presença, a sua "necessidade", ainda que pouco necessárias sejam. E elas estão certas. Se quer que sua profissão seja valorizada, você tem que ser o primeiro a afirmar categoricamente que ela tem valor. Mesmo que não tenha.
Mas existe uma categoria que faz exatamente o oposto.
Uma categoria que é a primeira a dizer que seus serviços são dispensáveis ou que podem ser feitos por qualquer um.
Uma categoria que comete, cada vez mais, suícidio profissional.
É a categoria dos PROFESSORES.
Professores, hoje, gravam aulas que serão passadas 0nline, simultaneamente, em diversas escolas. Escolas onde, em cada uma, deveria existir a presença de um outro profissional naquele momento. Mas não há. Há a tela.
E os que isso fazem dizem que são ótimos profissionais, que estão "antenados" com as novas tecnologias. Balela. São assassinos da categoria.
Professores, hoje, fazem seus cursos de especialização - complementação ou coisa que valha - à distância, em faculdades de "fim de semana", de qualidade mais que questionável.
Vai ser burro assim na puta que o pariu.
Quando um professor se torna aluno de um curso à distância, não-presencial, ele está sendo o primeiro a afirmar que a figura do professor não é importante no processo de aprendizagem.
É um tiro no pé, caralho!!!! (e no caralho, também).
Por isso digo, o que não me torna bem visto em meu ambiente de trabalho, que o professor merece tudo o que ele apanha. E mais: que apanha pouco.
Não podem : farmácia sem farmacêutico, xampú sem químico, tribunal sem advogado, pet shop sem veterinário...
Escola sem professor, pode. E com o aplauso dos mesmos.

Dizem que o professor é mal remunerado.
Discordo totalmente.
Qualquer que seja o salário pago à burrice, ele é sempre alto.

sábado, 8 de agosto de 2009

Caio Fernando Abreu

Escritor fantástico.
Quem não conhece deixou de ter ótimos momentos de leitura, tristes, amargos, sangrentos e, sobretudo, de uma tentativa indescritível de sobrevivência.
Dois endereços para leitura do autor:http://www.pensador.info/autor/Caio_Fernando_Abreu/; http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2006/09/os-sobreviventes.html.

Algumas frases retiradas desses endereços:

"Acho que sou bastante forte para sair de todas as situações em que entrei, embora tenha sido suficientemente fraco para entrar."
"Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra."
"Importante é a luz, mesmo quando consome. A cinza é mais digna que a matéria intacta".
"Tudo já passou e minha vida não passa de um ontem não resolvido"
"Tenho dias lindos, mesmo quietinhos"
"Mudei muito, e não preciso que acreditem na minha mudança para que eu tenha mudado"
"Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva".
"Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem".
"Seria tão bom se pudéssemos nos relacionar sem que nenhum dos dois esperasse absolutamente nada, mas infelizmente nós, a gente, as pessoas, têm, temos - emoções."

E uma das minhas preferidas:

"Não, meu bem, não adianta bancar o distante: lá vem o amor nos dilacerar de novo..."

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O Lutador

O escuro da tela se desfaz sobre um mural de recortes de jornal.
A câmera segue uma única trajetória por sobre as notícias dos desenlaces dos combates, trajetória única com dois sentidos: crescente cronologicamente, 1987 a 1989, e descendente na extensão física do mural bem como no aspecto dos êxitos do lutador, do auge ao nocaute, e salta 20 anos, do mural para um vestiário e cai sobre as costas velhas e reumáticas de Randy "The Ram", o das fotos dos recortes dos jornais.
Lutador de luta livre, vertente de combate que teve sua expressão maior aqui no Brasil através do programa Telecatch, décadas de 60 e 70, nas Tvs Excelsior e Record, nas figuras de Ted Boy Marino, Verdugo, Fantomas e outros.
Eram aquelas lutas de "marmelada", coreografadas, resultados combinados nos vestiários. Os resultados eram combinados, os golpes ensaiados, porém os machucados, as torções, as contusões aconteciam de fato, eram verdadeiras. Não havia a verdade. Nem por isso não havia o desgaste.
Randy "The Ram" (Mickey Rourke) é um desses lutadores, um homem que viveu de encenar, foi um campeão de mentira há vinte anos, um arremedo da própria mentira no tempo atual.
Entope-se de analgésicos para encenar a si próprio um corpo ainda vigoroso, acreditar talvez que ainda suporte mais uns vinte anos. Vive mais de dar autógrafos e tirar fotos com fãs em convenções que de lutas propriamente, mas ainda se arrisca nos ringues, contando com o respeito e condescendência dos lutadores jovens.
Sobrevém um infarto após uma luta, dizendo ao homem que viveu de encenar que o espetáculo havia terminado, não haveria mais encenações, só mundo real. Volte a lutar e morra, foi o diagnóstico do médico.
The Ram mantém um único relacionamento próximo do que pode ser classificado como afetivo, com Cassidy (Marisa Tomei, em perfeitíssima forma), uma stripper. Uma stripper também é pura encenação, uma stripper, nos moldes daqueles bares americanos, dança sem ser uma bailarina e é uma puta que não transa com os clientes, oferece uma dança que não é dança e sugere um sexo que não vai acontecer, as passarelas acima dos balcões por onde desfilam e os postes por onde se esfregam são os seus ringues, seus combates encenados. Esse relacionamento é restrito aos limites do clube da stripper; não existem The Ram e Cassidy no mundo real.
The Ram – Robin, no mundo real, tenta: carregador de caixas em um depósito, atendente de balcão em uma delicatessen, podia até ter tentando ser professor.
Faz uma triste e melancólica tentativa de reaproximação da filha, não funciona, ele é inepto para o mundo real, a filha o rejeita. Procura Cassidy – Pamela fora do clube – em outra tentativa de um vínculo real, também é rejeitado.
Até que um cliente da delicatessen o reconhece no balcão, reconhece “The Ram” por detrás do avental, da touca para os cabelos, do crachá escrito Robin. O reconhecimento foi pior que o não-reconhecimento. Ser reconhecido e não ser mais o objeto do reconhecimento, ser uma caricatura da caricatura, um campeão de mentira fatiando frios num mercado qualquer. Ele soca a máquina fatiadora, corta a mão e sai espalhando seu sangue pelo mercado. Se era sangue que a realidade queria dele, acabava de conseguir. Pela última vez.
The Ram vai viver mais uma vez, nem que seja a derradeira, mas que seja como The Ram. Faz ligações, remarca lutas.
Puta arrependida, Pam/Cassidy, vai até The Ram, tentar impedi-lo. Mas já é tarde, não há mais Robin, nunca houve, só há Randy The Ram. Ela o segue até o local da luta e até o último momento, segundos antes da entrada dele pelo corredor que o levaria ao ringue, ela tenta.
Ele entra. E volta a viver. Luzes, cartazes com seu nome, gritos do público. E o principal: um puta sorriso na cara dele, ali ele existia. A morte perto disso é muito pouco, não assusta.
A luta começa, programada para ele ganhar, socos, pontapés, acrobacias, cadeiras se quebrando em cabeças. O adversário está “subjugado”, mas falta o gran finale, falta o golpe para finalizar a luta, o golpe que sempre foi sua marca registrada, ficar em pé num dos cantos do ringue, se lançar ao ar e cair com o cotovelo no peito do inimigo, o golpe “The Ram esmaga”.
Começa a sentir dores no peito, no entanto. Subir ao canto do ringue e se lançar poderá ser fatal, o público o impulsiona, alheio a sua dor, à sua impotência. Ele sobe. E antes de se lançar, olha uma última vez para o alto das arquibancadas, para a pequena porta por onde desceu ao ringue, ver se Pam/Cassidy estava lá, olhando, esperando por ele. Ela não estava.
Ele se lança ao ar.
E a tela volta a ficar escura.
The End.
Morreu? Nunca ficaremos sabendo.
E pouco importa.
Importa que o cara executou o seu “The Ram esmaga”
Importa que ele deu seu salto no vácuo com joelhada.
Um brinde de vodka-tônica aos que ainda saltam.

A Noite Será Devagar, Bukowski, é Claro

bem, aqui estou eu
de novo
ouvindo as boas e velhas
músicas
de novo,
sentindo tristeza,
a boa
tristeza
à moda antiga
em que as lágrimas
não chegam
a sair.
bom.
ouço mais um pouco.
a mente pode
consumir quantidades
mágicas de
memória
enquanto a noite se
desdobra
noite adentro,
enquanto outro charuto
é acesso,
como se pode ficar
terrivelmente amuado
quando velhas
músicas seguem-se
uma às
outras,
rostos são
lembradas,
rostos jovens,
como fatias novas de uma
maçã,
estão mortos
agora,
quase todos
eles
mortos
agora.
a aparente
beleza e
a aparente bravura,
se foram.
sentado aqui
permitindo que meus
melhores sentidos
sejam diluídos pela
melancolia,
um homem
velho,
lembrando
de novo,
olhando de cima
a baixo o bar imaginário
cheio de assentos
vazios,
pensando naquela
criança com os loucos
olhos
vermelhos
que sentava lá
enchendo o copo e
enchendo e enchendo e
enchendo
de novo
ao ponto da
imbecilidade,
agora lembrando,
ouvindo
de novo,
permitindo a idiotice
entrar
de novo,
somos todos
idiotas para sempre
idiotizados
para sempre.
alegremente.
agora.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

OS INOCENTES - Rubem fonseca

O mar tem jogado na praia pinguim
[tartaruga gigante, cação, cachalote.
Hoje: mulher nua.
Depilada pareceria enorme arraia podre.
Porém cabelos e pelos lembram animal
[da família do macaco;
corpo lilás de manchas claras mármores de carrara
[incha exposto;
sangue, tripas, ossos perderam calor e pudor;
olhos, lábios, boca, vagina: peixes devoraram.

Banhistas instalam barracas longe da coisa morta,
logo envolvida por enorme círculo de areia, indiferença,
[asco.

Policial limpa suor da testa, olha gaivota, céu azul.
Afinal, rabecão: corpo carregado.
Espaço branco vazio cercado
pelo colorido das barracas, lenços, biquínis, chapéus,
[toalhas,
por todos os lados.

Chega família:
"Olha, parece que reservaram lugar para nós".