segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Dias De Furia (Contida)

Havia uma pilha de colchões em embalagens plásticas do lado direito e externo à porta principal do hipermercado.
Ela estava encostada na pilha, postura largada, deselegante, loira tingida, calça de cós baixo mostrando o ínicio de sua cloaca, overdose de batom, piercing no umbigo, manuseando um telefone celular com a destreza que só os semianalfabetos têm, iluminada por um sol intrasigente.
Odeio hipermercados, mulheres deselegantes, loiras biscates, batons pega-moscas, piercing no umbigo, celulares, semianalfabetos e sóis exibicionistas. Abomino.
Ela de quatro naquela pilha de colchões, eu a jogando de quatro naquela pilha de colchões. Meter tudo e de uma única tacada, no cu, a palo seco, dar duas ou três bombadas, arrancar o pau pra fora e esguichar nas costas dela, esperar cessar os espamos do gozo, chacoalhar o pau, eliminando as últimas gotas a exemplo da miccção, limpar o pau - da porra e do esgoto - nas nádegas dela, guardá-lo nas calças e a deixar lá, a acomodar seus intestinos, a empurrar as tripas de volta para dentro.
Quando passo por ela e cruzo os batentes da loja, já estou bem mais calmo.
Tais pensamentos me apaziguaram os ânimos.
Vingaram-me, por ora, dos hipermercados, das biscates, dos semianalfabetos com celulares e das estrelas impiedosas.

sábado, 5 de dezembro de 2009

O Pensamento e a Evolução/A Evolução do Pensamento/Ou, ainda, de gafanhotos e louva-a-deuses

Quando se quer dizer da Evolução às pessoas médias, alguns exemplos, alguns paradigmas, são clássicos. Ainda que esses modelos não sejam inteiramente factuais, ainda que sejam mostrados em apenas um aspecto de seus inúmeros, são extremamente úteis didaticamente. Dos meus preferidos, é o dos insetos cujo desenho do corpo assemelha-se a folhas, sobretudo gafanhotos e louva-a-deuses.

Ao povaréu - é consenso comum -, parece que tal bichinho, vendo o ambiente que o cercava, resolveu imitá-lo, já sabendo que assim melhor se ocultaria; outros, lamarckistas sem nunca terem ouvido falar de Lamarck, garantem que de tanto viver em contato com aquela folhagem, esses insetos acabaram por adquirir suas “feições”. Como aqueles casais que, depois de anos de convivência, tornam-se um a cara do outro. Será que isso é o tal do “achar sua cara-metade”? Fujamos desse assunto, por ora.

Voltemos aos insetos e mais ganharemos. Será que esses lamarckistas intuitivos nunca pensaram o inverso? Por que, já que a convivência é o fator da mudança, não temos por aí folhagens com aparência de insetos? Bastaria-lhes esse raciocínio para toparem com a idiotice de sua certeza. Aliás, o raciocínio, o pensamento, são os culpados de todo esse preâmbulo, essa encheção de linguiça, logo chegaremos a eles. Outros, pouca coisa mais atualizados na genética, dizem que mutações levaram àquela forma, mas ainda tem arraigada a convicção de que essa mutação foi direcionada, que algum tipo de sensor no DNA do inseto detectou uma pressão ambiental e correu em socorro de seu portador.

Nada disso. Características novas são dadas, também, por mutações. Mas nunca, jamais, em tempo algum, elas foram, são ou serão direcionadas, “pensadas’. O provável, no caso desses insetos, é que mutações em algum óvulo, espermatozoide ou zigoto tenham gerado alguns indivíduos com uma certa deformidade.

Sim, deformidade. Aquela asa folhosa era inicialmente uma deformidade, um erro. Por acaso, e por sorte desses aleijadinhos, sua deformidade assemelhava-se a componentes outros de seu ambiente, a vegetação, nesse caso. Esses aleijadinhos melhor puderam se esconder de predadores, viviam, em média, mais que os “normais” e produziam mais descendentes ao longo de sua mais longa vida. Porque aleijado ou não, para se fazer filho sempre se arruma um jeito. Por sua vez, os descendentes desses aleijadinhos eram, em sua grande parte, também aleijadinhos, que por sua vez também viveram mais e deixaram mais e mais aleijadinhos. Esse processo, ad infinitum, fez com que todos os indivíduos daquela espécie, milheiros de anos depois do primeiro aleijadinho, passassem a apresentar tal característica. O “normal” desapareceu daquele ambiente.

Portanto, novas características surgem por erros, ao acaso, e, se vantajosas, levam alguns milhares de anos para migrar do indivíduo à espécie. E o que tem a ver o pensamento com isso? Vamos lá.

O pensamento, o racional, o sistemático, o metódico, o feito em exercício, é uma característica nova na espécie humana. Recentíssima. Basta observar que a maioria recusa-se ao pensamento, são, inclusive, agressivos se chamados a ele. Isso porque a espécie humana não é ainda adaptada ao pensamento. Penoso o é, para a grande massa, o pensamento. Besteira achar que a espécie como um todo é dele portadora. Mas sair dizendo isso aos quatro cantos é correr o risco de ser taxado de nazista, eugenista e outros istas. Risco que corro e assumo com o maior prazer.

O pensamento, como instituição, não é dado a toda espécie. Justamente por ser tão recente seu surgimento. Não houve tempo hábil à sua incorporação. E nem haverá.
Pensemos, nós que o temos: o pensamento propicia vantagens aos seus portadores? Sim. Essas pessoas viverão mais tempo? Sim, na média, sim. Via pensamento, essas pessoas aprimorarão certas habilidades, terão melhores condições sociais, financeiras, alimentarão-se melhor, terão mais numerário para tratar-se de doenças... Sim. O pensamento aumenta a longevidade do indivíduo que o ganhou no jogo de dados da genética. Portanto, daqui a alguns milhares de anos, todos serão pensantes? Todos os Homo serão sapiens? Errado. Isso não ocorrerá. Estou me contradizendo? Também não.

O ser humano, como não podia deixar de ser, subverteu mais uma lei natural, avacalhou com a evolução. É simples: para que uma vantagem seja incorporada à espécie não basta que seus portadores vivam mais, eles têm também de deixar mais descendentes. E é aqui que a coisa enrosca. Um ser humano verdadeiramente pensante, nas condições atuais do planeta, deixa um número mínimo de descendentes. Quanto mais pensante, quanto mais esclarecido, menos filhos. Com isso, a característica “pensar” tem chance de se propagar a um reduzidíssimo número de indivíduos. Em contrapartida, os acéfalos não fazem melhor outra coisa, reproduzem-se feito bactérias em placas de Petri, e a característica “não-pensar” continua sendo transmitida a um maior, muito maior, número de indivíduos, que, por sua vez, gerarão proles e mais proles de não-pensantes, que gerarão proles e mais proles de, justamente, proletariados. O não-pensar é que será mantido pela espécie.

O pensamento nunca se tornará característica intrínseca à espécie humana. Nunca lhe será bagagem genética garantida.
O pensamento está fadado a ser, eternamente, uma deformidade de poucos.

Um brinde de rum a nós, os deformados.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

ÁCAROS NO COLCHÃO

Os amores são ácaros que dão nas camas,

Amores descamam,

Amores desfolham,

Amores descoram,

Amores entortam...

Que pena!

Amores são rotas que empenam.

A VOZ DO BAÚ (2)

Silvio Santos cada vez mais abalado com a morte do amigo Lombardi.
E preocupado. Com o cu na mão, para ser mais exato.
Diz que o Lombardi já chegou no céu e fica cantando: "Silvio Santos vem aí, lá, lá, lá, lá, lá, lá, Silvio Santos vem aí..."
No que o capeta retruca lá das profundas: "O Silvio Santos é coisa nossa, o Silvio Santos é coisa nossa, mas que vai, vai, mas que vem, vem, mas que vai, vai..."

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A VOZ DO BAÚ

Morreu Lombardi, locutor oficial do Programa Silvio Santos por mais de quatro décadas.
Morreu a Voz do Baú.
Silvio Santos se diz abalado com a morte do amigo. O motivo do estremecimento de Senor Abravanel, porém, já dizem à boca pequena, não é propriamente o passamento de Lombardi e, sim, as últimas palavras dele.
Lombardi, em seu leito de morte, com Sílvio Santos postado a seu lado, teria apontado para o "patrão" e dito antes de seu suspiro derradeiro: "Agora é você, Silvio!!!"
Piadas à parte, e elas virão às baciadas, a morte de Lombardi, acredito, não abalará somente a pessoa de Silvio Santos, também o Programa Silvio Santos oscilará à falta da Voz do Baú, e por que não dizer todo o SBT?
O livro gráfico "V de vingança", escrito por Alan Moore e ilustrado por David Lloyd (e tragicamente adaptado para o cinema), mostra uma Londres totalitária, sob um regime de controle e vigilância absoluta da população, parecido com o 1984, Orwell.
Um dos trunfos do regime da Londres de Moore é a "Voz do Destino", locutora da rádio oficial - e única - dessa Londres quase fictícia. Não havia um nome, não havia um rosto, só havia a Voz do Destino.
Segundo o livro, voz que reunia uma combinação única e ideal de timbres, entonações, modulações e etc que fazia qualquer comunicado do regime parecer verossímel, essas qualidades fonéticas aliadas ao costume, gerações e gerações nasceram naquela Londres narrada pela Voz do Destino, tornavam aquela voz inquestionável e também tudo o que fosse dito por ela.
"V", um subversivo que pretendia pôr todo o regime abaixo, antes de qualquer outro ato, matou o dono da Voz do Destino.
Tentaram substituí-la por outra, houve estranhamento e desconfiança da população. Sem a Voz do Destino e o conforto que ela transmitia, as notícias oficiais começaram a perder a credibilidade, e a perda da credibilidade é o início da queda de um regime, seja ele qual for. E a história segue em diante. Se quiserem, que comprem e leiam.
Será que a morte da Voz do Baú demarcará o início da ruína do império Abravanel?
Será que Silvio Santos e SBT ruirão sob o peso do silêncio de Lombardi?
Espero que sim.
Espero que não.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Esse Nosso Mundo De Formigas

Em o "Cavaleiro das Trevas" - de Frank Miller, 1986, a melhor história de super-herói feita até hoje, passada num futuro de data indeterminada - , os super-heróis foram obrigados a se aposentar por determinação do Decreto Keane, que proibiu a ação dos vigilantes uniformizados. Teve a permissão assegurada, somente o Superman, usado como arma estratégica pelos EUA, foi mantida a Guerra Fria na minissérie; ainda assim o escoteiro-azulão-bundão agia apenas na surdina, não tinha sua existência oficialmente reconhecida.
Seria de se supor uma revolta imediata dos super-heróis ante a promulgação de tal decreto, no entanto, houve uma pacifíca aceitação por parte dos fantasiados, o decreto trouxe-lhes, estranhamente, alívio.
Estranhamente? Até que não.
A humanidade é composta preponderantemente de pessoas pequenas, minúsculas, ridículas, elas são a maioria esmagadora. E esmagadora, aqui, não é figura de linguagem. A choldra ignóbil esmaga mesmo os que não são pequenos, os que têm habilidades e talentos especiais, seja em que área for. A gentalha, que fica espalhando a fedentina de seus suores e hálitos cariados pelos pontos de ônibus, teme e inveja os hábeis e, feito hienas, só esperam uma distração desses para esmagá-los e devorar seus ossos.
A aceitação da aposentadoria compulsória, por parte dos heróis, veio do fato de que eles poderiam sumir, abandonar suas máscaras, serem desconhecidos e, principalmente, não mais alvo da inveja dos sem poderes.
O único a se opor foi Bruce Wayne, o mais fraco deles, o único sem poderes mágicos, e que depois de 10 anos de inatividade (a minissérie começa ser narrada desse ponto), resolve voltar a ativa, envergar mais uma vez o manto do morcego. E o fez com grande estardalhaço, com fulgurantes pirotecnias. Ele lembrou aos anões da existências dos gigantes. Foi a sua desgraça. Começou, a partir daí, uma caçada ao morcego, ele se tornou um risco político.
"A cada ano que passa, eles ficam cada vez menores. Não devem ser lembrados de que gigantes caminham entre eles. Mas você tinha que estragar tudo, né, Bruce?", diz um Clark Kent cansado a um Batman em êxtase pela volta, um Superman exausto, também desejoso de se aposentar, com o azar de ser poderoso demais para usufruir tal privilégio. O resto da história, vocês que leiam.
Sou professor, há 15 anos, e a cada ano que passa, os alunos - e seus pais, acho que até mais os pais - ficam cada vez menores. A cada ano, cada vez mais tacanhos, medíocres, desinteressados, burros, catatônicos e, o pior, cada vez mais orgulhosos de sua ignorância.
Eu mesmo, como professor, apenas ligeiramente acima da média, sofro com fofocas e maledicências de alguns meus "pares", um bando de fihos das putas que não tem minha habilidade e nem tem como me atacar no aspecto profissional, partem para as falácias, inveja do pequeno; o professor fica menor a cada ano, também.
Acabei de ter um filho.
A tentação de ser pequeno é enorme. O pequeno é feliz, é sempre bem-vindo, é convidado para as festas, sempre aparece rindo nas fotos, não morre de infarto.
Acabei de ter um filho.
E lutarei junto com ele contra suas eventuais fraquezas em querer ceder à tentação de ser pequeno, lutarei com ele contra as "vantagens" que um mundo cada vez mais globalizado (cada vez menor, por conseguinte) oferece aos medíocres, aos desprezíveis, aos consumidores em massa, lutarei junto com ele contra a felicidade fácil do burro.
Meu filho será um homem de elevada estatura, ensinarei-o a desprezar e se precaver contra os pequenos.
Meu filho será portentoso.
É o legado que pretendo deixar a ele.
Esperando que não se torne também a sua maldição.

sábado, 28 de novembro de 2009

Pequeno Conto Noturno (6)

O que você tem?

Nada.

Nada? Tá estranho...

Então é tristeza. Essa resposta te satisfaz mais?

E por quê?

Por nada.

Tem que haver um motivo.

Já ouviu dizer de pessoas que implodem em combustão espontânea?

Já.

Pois então.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Com Que Rosto Que Eu Vou ?

Dois procedimentos legais, quero ainda tomar.
Um é providenciar meu desbatizado, outro - nem sei se é possível ou previsto em lei - é lavrar um documento em cartório impedindo que meus familiares realizem meu velório. Não quero ser velado. Uma vez dado como morto, quero também que me eviscerem, aproveitem para doação ou ração de cachorro os órgãos que ainda se prestarem a uma coisa ou outra, pois eviscerado não haverá chance de um erro médico me fazer acordar sepulto.
Não quero velório. Não quero ficar exposto ao público. Não sem ter controle.
Eu-defunto seria o ponto de convergência do evento meu velório, mas não controlaria nada, seria o centro das atenções e não seria nada.
Seria só meu rosto e meu rosto, per si, não é nada. Meu rosto é somente a base para todas as máscaras que desenhei, para cada tipo de situação, cada tipo de pessoa, me apresento com uma máscara.
Tenho máscaras temíveis e horrendas... bem como máscaras belíssimas e suaves.
Eu, morto, só ostentarei meu rosto, tela em branco onde cada passante de meu funeral projetará em mim a ideia que tinha a meu respeito.
Dirão, uns e outros, que até fui uma pessoa boa, justa... Nunca fui bonzinho, sempre quis que meu inimigo (e por inimigo, entenda: quem não pensa igual a mim) se fodesse.
Não quero velório, não gosto do cheiro da vela queimando, não quero cravos e crisântemos me cobrindo, enfiados nos meu cu, não quero uma imagem de cristo atrás do meu caixão, quero que cristo se foda (aliás, ele já se fodeu).
Ninguém tem o direito de me ver uma imagem alheia à que eu tenho de mim.
Ninguém tem o direito de olhar para mim e não se arriscar a receber meu olhar de volta, no funeral, o morto é julgado sem poder julgar.
A morte é triste, sobretudo a minha.
A morte é - talvez - o evento mais triste na cultura ocidental.
Pudera,
a morte não é o fim da vida, é o fim da mentira, sustentáculo da civilização.
Pudera,
A morte é o fim de todas as máscaras.
E nada é mais triste que isso.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Ao Anônimo

Há um anônimo que volta e meia faz comentários de minhas postagens. Adoro os anônimos.
Acerca do meu "Pequeno Conto Noturno (5)", ele disparou: "Dá menos aporrinhações e nenhum tesão também... é a lei da compensação???"
Caro anônimo (seja você lá quem for), vamos por partes, como diria o Jack.
"É a lei da compensação?", você pergunta.
Sim. É. Claro que é.
Pense em suas relações, misterioso anônimo, nas profissionais, nas familiares, nas amorosas, nas escusas, nas inconfessáveis, qual delas não se pauta pela lei da compensação? Nenhuma, não é?
Não há incondicionalidade nas relações humanas, deixe de ingenuidade. Ou de burrice.
"Dá menos aporrinhações e nenhum tesão também...", você afirmando algo que eu não escrevi no conto.
Nenhum tesão? Quem disse?
A conversa entre Rubens e Calil é cheia de provocações, sarcasmos, defesas de pontos de vista (ainda que de futilidades, mas o que não é?) e até argumentações físicas, ou seja, é um diálogo repleto de tesão.
Não de tesão sexual, não da parte de Rubens, pelo menos, que conheço bem e é macho de verdade, Calil conheço menos, não ponho a mão no fogo. Deixe de maniqueísmos, de reles dicotomias, caro anônimo. Existem os mais variados tipos e graus de tesão.
Você me parece uma pessoa de visão limitada, tacanha, capaz de entrever um único aspecto de cada questão (isso quando muito), amplie sua visão, amigo anônimo.
Conselho do Azarão: leia os grandes pensadores, os filósofos, procure uma terapia, fume maconha, sei lá.
Devo, antes, confessar a inutilidade do conselho sugerido em minha própria pessoa: comecei a ler os filósofos e não encontrei nada que já não tivesse observado ou deduzido por conta própria; comecei a fazer terapia e também não descobriram nada de mim que eu já não houvesse desbravado; maconha, oficialmente, nunca provei, mas acredito que não me apetecesse.
Sou meu próprio filósofo, próprio bandeirante da minha psiquê e meu próprio THC.
Foi inócuo para mim, mas pode funcionar para você, siga meu conselho.
Abraços, caro anônimo, nos vemos por aí.
(mas nem iremos nos reconhecer... e não é isso que é o legal?)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Pequeno Conto Noturno (5)

- Ainda tem cerveja na geladeira? - Calil pergunta a Rubens, cansado, entretido com um livro.
- Tem.
- Quantas?
- Umas quatro.
- Das normais ou daquelas grandes?
- Das grandes.
- 'Cê já reparou quantos ml tem essas porras, Rubens?
- Meio litro, sei lá.
- Algumas até têm, mas a maioria tem 473 ml, de onde tiraram isso, 473 ml?
- Nem imagino.
- 'Cê não pensa nessas coisas, não?
- Não, só bebo.
- Tenho certeza - se empolga Calil - que é mais uma daquelas merdas de medidas inglesas, saca, né?, aquelas porras de libra, milha, jarda...
- Não, não saco.
- Escuta o que eu tô dizendo, Rubens, inglês é tudo doido, Jack Estripador, a família Real inteira, aqueles museus de cera, aqueles ônibus de dois andares, os caras gostam de Duran Duran e Elton John, puta que o pariu, viver numa ilha dá nisso, cara.
- Pode ser.
- Minha teoria é que parte da loucura dos ingleses vem dessas medidas fudidas que eles usam, medir é uma coisa exata, certo? Para a inglesada, não. Uma polegada é 2,541 cm, uma libra, 0,4536 kg, um pé, 30,48 cm, uma jarda, 0,9144 m, tem até uma tal de onça, que é 28,352 g, tem uns xampús e produtos de beleza que usam essa porra. Já pensou medir usando essas merdas? Deixa qualquer um doido. Imagina o moleque querendo medir o pau pra ver se cresceu... 4,32 polegadas, até o moleque entender, o pau já murchou, deve ser por isso que os ingleses são dos povos que menos trepam. Esses 473 ml devem ser uma doideira dessas, vou lá pegar uma, tá?
- Não.
- Não?
- Você já matou a meia garrafa de rum que eu tinha, se quiser cerveja, vá comprar.
- Ei, já são quase três da madrugada...
- O Posto da Forquilha fica aberto direto, e só tá a uns 3 quarteirões daqui.
- É que não sou muito bem visto por lá...
- Caloteiro não é bem visto em lugar nenhum - e Rubens fecha o livro, desistindo da leitura.
- Que merda é essa que 'cê tá lendo?
- Que eu tava tentando ler.
- Que seja.
Rubens vira o livro e mostra a capa a Calil.
- Só podia... não sei o que 'cê vê nessa merda de Bukowski, o cara só fala de bebedeira, buceta e cu.
- E do que mais há para se falar?
- Muitas coisas, não lembro nenhuma agora, mas muitas coisas. Taí, Rubens, o Bukowski negaria cerveja a um amigo?
- Bukowski não tinha amigos, e ainda que os tivesse, seria capaz de negar-lhes a própria merda recém-saída do rabo. E você não é meu amigo.
- Puta ingratidão, Rubens, eu tô aqui nesse seu momento de necessidade...
- Eu nunca te chamo pra vir aqui, você é quem sempre aparece sem avisar e sem cerveja, e não estou com porra de necessidade nenhuma.
- Como não tá? Olha, até admiro esse tipo durão que 'cê faz, mas a Andréa foi embora, não foi? Te deu um pé na bunda, certo? Todo mundo que toma um pé na bunda quer companhia.
- Se você tivesse um fornido par de mamas, isso seria verdade, só que não é o caso. Além disso, Andréa ter me dado um pé na bunda é só um modo de ver a coisa.
- Só um modo? Que outro? Ou foi você que deu uma bundada no pé dela?
- Talvez eu tenha deixado ela me dar um pé na bunda, tenha induzido ela a isso, mais fácil que dispensá-la e aguentar choradeira, gritaria, ser taxado de canalha, essas coisas.
- Sei. Pra cima de mim? Ninguém dispensa um bucetão daquele, com todo respeito, Rubens, mas ela devia ter um bucetão, certo?
- Tinha. Tem.
- Então, eu tô aqui pra te ouvir, dar um apoio moral, vou lá pegar uma lata.
Calil levanta e tem seu passo bloqueado por Rubens, que também se levanta e sabe que só há um modo de parar Calil quando ele entra nesse estado frenético.
Rubens não é brigador, não sabe técnicas de bater, porém tem seus 90 e alguns quilos contra os 60 e poucos de Calil. O soco de Rubens, na boca do estômago, faz Calil dobrar ao meio, chega a erguê-lo uns centímetros do chão.
Calil cai em posição fetal, xingando.
Rubens vai à geladeira, volta com uma lata, senta-se no sofá e retoma o livro.
- Rubens... - diz Calil antes de apagar, derrubado pelo soco e pela meia garrafa de rum - enfia o Bukowski no cu.
O Bukowski não iria gostar disso... nem eu, pensa Rubens, e retoma a leitura, não se concentra.
Andréa se foi.
Mulheres se vão, são assim.
Mulheres enjoam rápido, amam um vestido hoje, usam duas ou três vezes e já o odeiam, o mesmo com sapatos, cortes de cabelo, homens.
Homens são mais estáveis, confiáveis. Até usam uma roupa diferente de vez em quando, pra variar, pra brincar, mas são fiéis ao básico, usam a mesma roupa por anos, até gastar e furar, ainda assim só a jogam fora porque a mulher reclama que ela está gasta e furada.
São assim com os relacionamentos, também.
Homens são muito mais confiáveis, só que não têm peitões, conclui Rubens.
- Vai continuar a me negar essa merda dessa tua cerveja barata? - Calil, do chão, sem abrir os olhos.
Rubens não se sente disposto a lhe dar outro soco. De mais a mais, Calil é outra voz no pequeno apartamento, que não a sua. Outras vozes, que não a nossa, ajudam a manter a loucura afastada, adiam-na.
Rubens levanta, tem ânimo e punhos cansados, calça seus chinelos, põe uns trocados no bolso da bermuda, verificando se não é o furado, e desce. Vai ao posto, comprar mais um fardo com 6 cervejas, para quando Calil acordar.
De qualquer maneira, Calil lhe dá muito menos problemas e aporrinhações que Andréa.
Ou que qualquer outra.

domingo, 22 de novembro de 2009

Um Pouco Mais de Bukowski

CERVEJA
não sei quantas garrafas de cerveja consumi
enquanto esperava
que as coisas melhorassem
não sei quanto vinho e quanto whisky
e cerveja
sobretudo cerveja
consumi
após pedaços de mulheres
- à espera que o telefone tocasse
à espera do som dos passos,
e que o telefone tocasse
à espera do som dos passos,
e o telefone nunca toca
a não ser quando é demasiado tarde
e os passos nunca chegam
a não ser quando é demasiado tarde
quando o meu estômago está a subir
a sair pela minha boca
eles chegam frescos como flores primaveris:
"mas que merda fizeste contigo?
demorarão 3 dias até que me possas
dar uma foda novamente!"
a fêmea é durável
vive sete anos e meio mais que o macho
e bebe muito pouca cerveja
porque sabe que faz mal à figura.
e enquanto nós estamos a enlouquecer
elas saíram
e andam lá fora a dançar e a rir
com cowboys entesados.
pois bem, há cerveja...!
sacos e sacos de garrafas vazias
e quando apanhas um do chão
a garrafa cai através do fundo molhado
do saco de papel
rolando
fazendo barulho
entornando cinza molhada
cerveja fresca,
ou o saco cai às 4 da manhã
produzindo o único som da tua vida.
cerveja...
rios e mares de cerveja...
a rádio a passar canções de amor...
enquanto o telefone permanece silencioso
e as paredes permanecem direitas
de cima abaixo
de cima abaixo...
e cerveja...
cerveja é tudo o que resta.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

E La Nave Va

Alegre-se, não há funerais;
Enlute-se, não há ressurreições.
Resigne-se,
Não há finais nem recomeços:
Só continuações.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Sem Direito De Morrer

Noite dessas, o céu estava iracundo.
O tecido negro de sua raiva rasgado por raios, na horizontal, na vertical, nas diagonais. Grandes talhos a jorrar sangue de elétrons, como que feitos por uma grande navalha. Ou por um poderoso martelo.
Outrora, eu saía semidesnudo na tempestade e me expunha aos seus rigores, largava-me alvo de suas agulhadas. Hoje, não faço mais isso. Não mereço. Portanto, deixei lá a tempestade e fui dormir.
Nem bem adormecido nem bem desperto, naquela fase de modorra, ouvi um barulho na sacada, algum vaso vitimado pelo vento, talvez.
Acendi a luz e lá estava o cara, com a tempestade a lhe fazer fundo, ele, o Thor.
Não o Thor loirinho e barbeadinho da Marvel, que bem podia se prestar a ator de propaganda de xampú e prestobarba, não mesmo.
Era O Thor, o ruivo, de barba de arame farpado, o ogro.
- Como ousaste abandonar a marreta?, ribombou Thor.
Eu nada respondi, até porque havia acabado de me cagar todo.
- Teu blog tinha enorme repercussão em Asgard, até Loki, meu meio-irmão, mais traiçoeiro que uma prostituta troll, muito o apreciava.
- Tá brincando comigo, né?, eu falando com Thor como fosse a mais natural das coisas.
Olhos de cumulus nimbus me atingiram, deixando bem claro que deuses não brincam, e seguiu:
- Somos deuses esquecidos, moribundos... A cada acesso ao teu blog, alguém via lá estampada a minha marreta e lembrava de mim e dos meus, a cada acesso ao teu blog, eu e toda Asgard recebíamos pequenas injeções de poder, a cada acesso, uma taverna voltava a se acender.
Fiquei comovido com a coisa das tavernas.
- Eu nem fazia ideia de que...
- Basta - atalhou-me Thor - reassuma meu martelo, reempunhe Mjolnir.
E tirou do cinto uma réplica menor de seu martelo, o qual empunhava à semelhança de um cajado, o martelo a mim ofertado era mais próximo ao dos quadrinhos, cabo curto. Tomei-o em minha mão esquerda.
- Guarda e honra esse símbolo. És o único, entre os mortais de Midgard, digno de brandir e fazer erguer minha marreta.
Dita dessa maneira, pareceu-me um pouco coisa de viado, mas eu é que não ia dizer isso praquele cara ali, com seus 2,30 m, uns 300 kg (a compleição asgardiana é três vezes mais densa que a humana) e músculos de fiorde.
Agradeci e prometi honrar a marreta.
- Tens aí uma cerveja? - perguntou Thor.
Eu tinha. Abri o litrão, ele pegou e emborcou no gargalo, o litrão parecia uma ampola de injeção na mão do cara.
- Até mais ver, mortal - sentenciou Thor.
E o cara sumiu, teleportou-se pela bifrost, a ponte do arco-íris.
O foda é que ele levou a cerveja junto, era a última.
Espero que ele devolva o "casco" depois.

domingo, 1 de novembro de 2009

Oh, Crianças, Isso É Só O Fim

Agradecendo a Thor pelo inestimável empréstimo de sua Marreta,
esse blog encerra, hoje e definitivamente, suas atividades.

sábado, 31 de outubro de 2009

O DIA DO SACI

O Saci é traquinas, levado, safado, moleque, elemental dos bambuzais, inconveniente, arruaceiro, pregador de peças, irresponsável, um leprechaun preto, um curinga mulatinho, um Macunaíma de uma perna só.
O Saci é o brasileiro.
Aldo Rebelo (PC do B - SP), em 2003, instituiu a comemoração de "O Dia do Saci", em 31 de outubro, através de um projeto de lei federal e a imprensa tentou ridicularizá-lo.
Aldo Rebelo é político e já tem meu desprezo por isso, mas o cara defende certas causas nacionais com as quais concordo, ele luta pela defesa da língua portuguesa contra estrangeirismos, por exemplo.
O Dia do Saci foi proposto em contraposição ao tal do Halloween, uma tradição estadunidense, chatíssima por sinal, já incorporada ao "folclore" brasileiro.
O Saci é muito mais honesto, muito mais representativo, encarna muito mais a índole preguiçosa do brasileiro, a "esperteza" nacional. E, devo admitir, muito mais simpático que aquela cabeça de abóbora.
O Dia do Saci deveria, inclusive, ser feriado nacional.
Deveria substituir o Dia da Consciência Negra, o Saci deveria ser herói da raça, e não a bichona do Zumbi.
Eu gosto do Saci.
Invejo o Saci ventando livre pelas matas, pelos capoeirões do Monteiro Lobato, dando um "pega" em seu cachimbinho.
É quase meia-noite agora, a lua está cheia...
E me veio uma vontade danada de pegar carona num redemoinho e sair por aí, assoviando, perturbando sonos, fazendo gorar ovos, trançando as crinas da biscataida, fazendo pipocas virarem piruás no fundo das panelas, tocando as campainhas das casas, perturbando a prima Cuca.
Feliz Dia do Saci, Saci.
Não que você se importe.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Decadence Avec Élegance

"E no final da madrugada, perambulando pelos bordéis
Decadence - é melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez"
Hoje em minha caminhada matinal rumo ao trabalho, veio-me à cabeça, nem sei porque, essa música do Lobão, da qual extraí o trecho acima e o título dessa postagem.
Nela, lá pelos idos de 1985, Lobão apregoava, em altos e desafinados berros, a mais que batida estética do "morrer jovem e belo", do brilhar intensamente e consumir-se de instantâneo, de viver em alta velocidade.
Alguns contemporâneos e amigos de Lobão tiveram tal fim. Primeiro foi Júlio Barroso, do Gang 90 e as Absurdetes, num voo soprado a LSD pela janela de um apartamento, Lobão compareceu ao seu funeral; depois, Cazuza, poetinha queima-rosca, Lobão marcou presença em seu velório; por fim, Renato Russo, poetaço queima-rosca, Lobão também foi prestar suas condolências em seu enterro.
Foi então que lhe veio o insight, o lampejo de que o próximo poderia muito bem ser ele, dada a parecença dos estilos de vida.
E Lobão tirou o pé do acelerador. Até porque estava na hora de viver calmamente às custas do dinheiro ganho em dizer que se devia viver desbragadamente.
Lobão não teve o mesmo fim. Não morreu jovem. Muito menos belo.
Infelizmente.
Hoje, o cara ainda está por aí, gordo, faces coradas, produzindo álbuns cada vez mais inexpressivos e no comando de um programinha da MTV, o Debate, onde, além de demonstrar sua total inabilidade como mediador, compartilha a sua sabedoria dos anos 80 com um público adolescente imbecil, mais imbecil que a geração de adolescentes da qual Lobão fez parte um dia, que, bem ou mal, tinham algo a dizer e o disseram muito bem, para a época.
Contudo o que disseram Lobão e seus amigos dos anos 80 não é atemporal, não é universal.
Lobão acha que sim. E continua com a mesma cantilena.
Lobão não percebe a própria decadência - processo natural e inevitável a tudo -, logo não consegue se portar com a devida e necessária elegância.
Lobão amarelou, fugiu do destino de "morrer jovem e belo" e abraçou o de se tornar uma triste caricatura.
O rock errou.
O Lobão errou.
Eu também errei. E pra caralho.
Mas - convenhamos - sou um velho decadente bem mais elegante.

** se quiserem ver e ouvir Lobão, ainda com os Ronaldos, no programa do Chacrinha, em "Decadence avec Élegance", é só dar uma clicadinha aqui, na minha Poderosa Marreta

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Fé De Mais

Mais um exemplo do que a religião faz às pessoas menos pensantes que nós ateus, ou seja, aos outros 95% da população planetária.

Familia espera Neide ressuscitar; e o corpo é sepultado cheirando mal

A família de Ivaneide Barbosa do Nascimento demorou três dias para enterrar o corpo (foto) dela porque a Irmã Neide, como era conhecida, tinha dito que ia ressuscitar.

Evangélica que dava conselhos espirituais a quem lhe procurasse, Irmã Neide, um pouco antes de morrer, disse à família que tinha obtido uma revelação de Deus segundo a qual ia ressuscitar, como Jesus.

“Vou ser arrebatada e muitos vão pensar que estou morta, mas estou viva”, ela teria dito.

O corpo de Neide foi sepultado na terça (27) cheirando mal.

Eudmarco Medeiro de Farias, 33, amigo da família, disse que não chegou a acreditar que Neide iria se levantar da caixão, mas reconheceu que havia uma “expectativa geral” de que isso ocorresse.

Neide morreu aos 66 anos de idade. Sofria de artrite e artrose, doenças que a mantiveram na cama por 20 anos. Morava em João Pessoa, capital da Paraíba.

O translado do corpo para o cemitério ocorreu em carro aberto do Corpo de Bombeiro, que foi acompanhado por batedores da Polícia Militar. Familiares da Irmã Neide foram transportados por um ônibus pago pelo governo do Estado.

O cemitério Parque das Acácias ficou pequeno para receber tanta gente: evangélicos (na maioria), jornalistas, autoridades e curiosos.

Fernando Rodrigues, do ClickPB, escreveu: “Pastores oravam, irmãs gritavam e os céticos não pareciam tão céticos à espera do milagre [a ressurreição]”.

O pastor Altamir, da Assembleia de Deus, citou trechos da Bíblia que se referem à ressurreição.

Por fim, ele se conformou: “Deus não quis que a Irmã Neide ressuscitasse.”

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Pequeno Conto Noturno (4)

Rubens acolhe a boca que se lança em direção à sua.
Lábios se esmagam em missão de reconhecimento e logo começam a sobrepôr-se, um querendo mostrar que é mais hábil naquilo que o outro, muito mais uma tentativa de jugo que de afeto; as línguas esgrimam no espaço vazio da boca, arranham-se nos dentes, nas arestas mal-polidas das obturações.
- Beijo gostoso... - diz Natália.
- É. - concorda Rubens, já querendo dar a questão por encerrada.
- Eu tinha certeza que seria, desde que entrei e te vi ali quieto naquele canto. Você também não teve a mesma impressão, assim que me viu, de que seria bom? - e Natália lhe toma de novo a boca.
- Tive - responde Rubens - assim que sua língua volta a lhe pertencer, quando Natália encerra o beijo - e toma um grande gole de sua cerveja morna.
Esse é o problema, pensa Rubens, quando esse tipo de contato é estabelecido num bar, tem-se que ficar dispensando certa atenção à pessoa e a cerveja esquenta no copo.
Todo primeiro beijo é bom, pensa ainda Rubens, com Natália já a lhe aplicar outra ventosa, e também todos os subsequentes a ele dados na mesma noite.
Depois disso, pasteuriza.
Vira apenas mais uma outra boca.
- Vamos ali pra mesa, deixa eu te apresentar pros meus amigos - Natália, querendo exibir a captura.
- Olha, é melhor não.
- Você é tímido, né? Bem que eu percebi.
- Não, nada disso. Só não sou muito bom com amigos dos outros. Nem com os meus.
- Deixa disso, vamos lá - e puxa Rubens.
- Pessoal, esse é o Rubens.
Rubens percorre a mesa com o olhar, finge cumprimentar a todos com leves movimentos de cabeça, não se fixa ou registra nenhum dos rostos, olha através deles, o mesmo pastiche humano de sempre.
Sentam-se.
- E aí, Rubens? - e a voz lhe aperta a mão.
- Viu que sacanagem o jogo, aquela bola...
- Não vi - corta Rubens - não vejo.
- Torce pra quem?
- Não torço.
- Ah! Só pra seleção, então.
- Muito menos. Não torço nem pra mim.
A voz apertadora de mãos recua, disfarça e vai olhar alguma merda no celular.
- Sabe que a Natália ficou afim de você desde que a gente chegou? - outra voz, dessa vez feminina, lhe cumprimenta com três beijinhos nas faces, perfume cítrico e um belo par de tetas.
- Sei, tô sabendo.
- E o que você faz da vida, Rubens?
- Nada.
- Nada?
- Às vezes - segue Rubens, simpático - saio e tento beber em paz, mas não é sempre que me deixam.
O perfume cítrico e as duas belas mamadeiras também recuam.
Mais uns quinze minutos se passam.
Jogos de futebol, dietas, técnicas revolucionárias de alisamento de cabelos, modelos novos de celular, novos nomes no cenário musical sertanejo, resumo de novelas, a evidente vantagem do twitter sobre o orkut e outros temas tão úteis como um furúnculo no saco circularam pelas bocas.
Rubens quieto. Alheio.
- Você não é mesmo muito bom com gente, né? - Natália, generosa.
- Eu avisei.
- Tudo bem - Natália se achegando e passando a mão pela virilha de Rubens - então me dá outro daqueles beijos, delicioso.
Rubens a beija.
Sem nenhum significado.
Sem nenhuma fúria.

sábado, 24 de outubro de 2009

Um Pedido Levemente Canalha

O Curinga
- carta bastarda de qualquer baralho -
Não devia ter pedido que tu ficasses.
Aliás, o Curinga
- vira-latas sem naipe nem pedigree -
Pediu-te?
Disse-me, ele, que não.
Disse-me, o Curinga
- bobo, bufão, saci-menestrel -,
Que te pediu para que pensasses em não ir.
É diferente, assegurou-me
- anão corcunda e demente -
O Curinga.
É diferente?
Aliás, o Curinga
- volúvel arcano -
Pediu-te?
Se não, desculpe o Curinga
- arlequim à procura de seu carnaval existencial -;
Se sim, desculpe o Curinga
- bardo-Oswaldo a atirar com alaúdes e bandolins -;
Se sim, considerarás o pedido do insano palhaço
Que só pode te prometer o que vocês já não têm?
Se não, acreditaste que o Curinga
- boneco de corpo sanfonado-mola-cuco-pêndulo frenético
que salta zombeteiro quando levantas a tampa da boceta de Pandora -
Não quis mesmo ter te pedido?
Se fores,
Assegurou-me o Curinga
- Inconstante como ele só e já cheirando a álcool -
Que o ambiente, isento de ti,
Torna-se-á um tanto quanto mais insuportável.
E ele, de guizos murchos e cadentes,
Ainda um pouco mais triste:
Um Pagliacci de lágrimas negras, perenes e coaguladas.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Além Do Ponto

Trecho do conto "Além do ponto", de Caio Fernando Abreu:

"Tão geladas as pernas e os braços e a cara que pensei em abrir a garrafa para beber um gole, mas não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era."

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

(IN)COMPETÊNCIAS

Sou inábil e desajeitado.
Escorrego e arrebento o cóccix
Lavando o banheiro ou a cozinha,
Quebro o pé em batentes e pés de mesas,
Esmigalho o polegar
Se um prego tiver de pôr à parede.
Não sei consertar torneiras,
Tomadas nem válvulas de privada.

Mas me deem umas boas doses de rum,
Uma boa banda do velho rock'n'roll,
Uma madrugada de farta Lua,
Uns telhados inclinados para eu galgar
E arrisquem-se em ver do que sou capaz.
Ou se acaso são capazes de mesma primazia.

Topem comigo nas horas silentes
Eu, portando meu capuz, meu brasão e minha caneca.
E vejam se podem me segurar.

domingo, 18 de outubro de 2009

LUA BONITA

Composição: Zé do Norte / Zé Martins
intérprete: Raul Seixas
Lua bonita,
Se tu não fosses casada
Eu preparava uma escada
Pra ir no céu te buscar
Se tu colasse teu frio com meu calor
Eu pedia ao nosso senhor
Pra contigo me casar
Lua bonita
Me faz aborrecimento
Ver São Jorge no jumento
Pisando no teu clarão
Pra que cassaste com um homem tão sisudo
Que come dorme faz tudo, dentro do seu coração?
Lua Bonita, Meu São Jorge é teu senhor,
E é por isso que ele "véve" pisando teu esplendor
Lua Bonita se tu ouvisses meus conselhos
Vai ouvir pois sou alheio,
Quem te fala é meu amor
Deixa São Jorge no seu jubaio amuntado
E vem cá para o meu lado
Pra gente viver sem dor.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O POETA E A FLOR

"Uma flor tímida."
Diz o poetinha sobre a menina,
Da musa de sua pena (ou de suas teclas).
Imbecil poeta.
Ingênuo, burro e desavisado,
Candidato fatal a monumental par de chifres.
Nenhuma flor é tímida,
Posto que órgãos sexuais escancarados elas são.

sábado, 10 de outubro de 2009

A LUA É DO RAUL


A LUA É DO RAUL

Raio de lua.
Luar.
Lua do ar
azul.

Roda da lua.
Aro da roda
na tua
rua,
Raul!

Roda o luar
na rua

toda
azul.

Roda o aro da lua.
Raul,
a lua é tua,
a lua da tua rua!
A lua do aro azul.

poema de Cecília Meireles

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O Despertar Dos Mágicos

Mágica?
Não tem nada de mágica!
Se algo assim lhe parece
Ou vier a lhe parecer, acredite:
É somente burrice de sua parte.

Pequeno Conto Noturno (3)

- Gostou?
- Gostei. - diz Rubens
- Trepo bem?
- Trepa.
- Bem-bem ou muito bem?
- Muito bem.
- Tá vendo como não é só puta que pode transar bem? Sou livre-pensadora, escritora, socióloga, escultora, pintora, mãe, avatar eletrônico de professor...
- Parabéns.
- E de qual faceta você mais gosta, agora que acabou de conhecer a que ainda te faltava?
- A de trepadora, você é melhor foda que todas as outras suas habilidades.
- Canalha, insensível.
- Que é isso, meu bem? É preciso ser muito sensível para dizer a uma mulher que ela é uma grande trepadora, sensibilidade masculina, claro, agora se está dizendo de frescuras e afetações, a história é outra.
- Você não acredita mesmo na mulher como produção intelectual, né?
- Claro que acredito, verdade. Admiro muito certos pensamentos femininos, mas não me identifico com eles, não me tiram faíscas da alma.
- Ah, é?
- É. Gosto de bastante coisa da Cecília Meireles, tenho certeza de que gosto muito da Clarice Lispector apesar de nunca ter conseguido lê-la, Florbela Espanca... mas nada de faíscas da alma.
- Você tem boas desculpas.
- Não são desculpas, já te comi, não preciso mais ficar agradando.
- Sei.
- É meio como o balé, acho bonito e tudo, reconheço a técnica, a disciplina e talento necessários. E tem o boxe, puta que o pariu, esse sim gera faíscas, é figadal, entende?
- Ham???
- É. Hemingway dos bons tempos é figadal, Rubem Fonseca dos bons tempos, Henry Miller dos bons tempos, o Chico compositor dos bons tempos, Marlon Brando dos bons tempos, Bukowski de qualquer tempo.
- E eu? Tiro faíscas de sua alma?
- Você tirou um bocado de faíscas hoje, se bem que não exatamente da alma, se entende o que quero dizer.
- Canalha. Pega um copo d'água pra mim?
- Ih! Tô cansadão, vai lá você, a garrafa de vidro é a que tá mais gelada.
- Aposto que se você tivesse brochado ou esporrado rapidinho ao invés de ter me deixado gozar quantas vezes eu quis e aguentei, estaria mais subserviente, atenderia a tudo que eu pedisse.
- Pode ser.
- Não vai pegar, né?
- Não.
- Então eu vou.
Rubens a vê pelas costas, uma bunda com imperfeições normais da idade, de textura e densidade próprias da carne, bunda de mulher, do jeito que ele gosta.
- Achou a garrafa?
- Achei.
- Aproveita e me traz uma cerveja.
- Filho da puta.
- As do lado esquerdo estão mais geladas, meu bem.
- Tá boa a cerveja? - ela pergunta já encostada nele, brincando com o pau.
- Boa.
- Sabe? Acho que estou com vontade de novo, o que acha?
- Acho que tudo bem.
- Então acaba a tua cerveja que vou me lavar um pouco e já volto.
- Por mim, não precisa.
- Eu prefiro.
- Tá.
- Rubens... - ela, do banheiro.
- Diz.
- Acho que não vai dar pra foder de novo.
- Você é quem sabe.
- Parece que acabei de menstruar.
- E isso é um problema pra você, boneca?
- Não é pra você?
- Não.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Mais Uma Piada Pronta

Essa saiu no jornal "O Cruzeiro do Sul", Sorocaba, na data de hoje.
Evangélico é roubado em igreja...
E eles não são sempre?

Evangélico é roubado dentro da igreja
Cruzeiro On Line SOROCABA - [ 02/10 ]
Um homem de 27 anos foi roubado dentro da igreja evangélica Assembleia de Deus, enquanto participava de um ensaio de músicas na noite de quinta-feira (01). S.A.N, de 27 anos, diz ter visto um homem que simulava estar armado entrar na igreja, situada na Alameda Augusto Severo, esquina com Santos Dumont, Vila Angélica. Duas mulheres se assustaram e correram para o banheiro. O ladrão fugiu, levando R$ 72,00 de S. e o aparelho de som do local. Ninguém foi preso.