domingo, 11 de abril de 2010

O Funeral da Rô Rô

Alguns cantores, eu escuto exaustivamente durante certas fases e depois os largo meio de lado. Não os esqueço nem desgosto deles, apenas deixo de visitá-los. Em um belo dia, de repente, do nada, volta a vontade de ouví-los.
Dia desses, isso se deu com a Ângela Rô Rô, a intérprete da birita, a crooner da porralouquice, a cantora dos excessos, a "Escândalo". Tenho vasto material dela, da década de 80, mas me deu vontade de conhecer os trabalhos mais recentes, os que vieram depois dela quase empacotar, bater as botas, justamente por conta dos excessos, álcool, comida, gordura, cigarro; há uns 10 anos, creio eu.
Quis saber se a Ângela Rô Rô, além da Ângela Maria Diniz Gonçalves, havia também sobrevivido ao peripaque.
Não sobreviveu.
"Emprestei" da net alguns trabalhos novos dela e os ouvi. A música ainda está lá, intacta, talvez até melhor. A letra, não! As novas letras se pretendem luminosas e otimistas, quando o diferencial da Rô Rô sempre foram os sentimentos em crepúsculo, enfumaçados, conturbados, toldados pelo álcool, destroçados pela rebordosa do dia seguinte.
Em uma das letras, ela chega a ser herética ao cantar: "... bebendo água pra lubrificar"; em outra, comemora (mas sinceramente sem me convencer) que agora não mais fuma nem bebe, que come pouco e sem sal (puta merda) e que acorda às 6 da manhã e pedala por uma hora.
Tudo bem que a Rô Rô tenha morrido e restado só a Ângela Maria Diniz Gonçalves, isso acontece, mas manter o nome da Rô Rô na capa do disco e dizer que adora água, que água é mais prazerosa que o goró, já é desrespeito à memória do morto, é manchar a reputação de quem se foi.
Tiveram melhor sorte, a exemplos, Raul Seixas, Renato Russo e Cazuza, almas cujos excessos mataram também os seus corpos-continentes, Raul Santos Seixas, Renato Manfredini Junior e Agenor de Miranda Araújo Neto, respectivamente. Sorte dos que morte total sofreram, os que morreram de corpo e alma, os que foram um só defunto o criador e a criatura.
Rô Rô não teve essa sorte, morreu-lhe a alma e ficou um corpo a conspurcá-la, a difamá-la. Um zumbi.
Diante disso, fiz o que podia fazer: apaguei os arquivos emprestados da net, coloquei um vinil da Rô Rô no toca-discos e entornei uma garrafa de vinho, uma só - também ando mais contido.
Não fiquei de ressaca no dia seguinte. Nem vomitei, mas houvesse e teria sido meu punhado de terra lançado sobre o caixão da Rô Rô, minha coroa de flores, meu funeral tardio.

sábado, 10 de abril de 2010

Os Libertos Do Viaduto

Todas as manhãs, eu passo por sob um viaduto cujo "teto" serve de local de dormida para umas tantas pessoas. Acostumado que já estou, nenhuma reação mais me causam. Aos que passam por ali não tão amiúde, elas não são indiferentes. Olham a essas pessoas dormindo sob o concreto com pena, com medo, com nojo, indignação e até repulsa, alguns, como se elas estivessem ali a sujar e atravancar o caminho por onde passam.
Acredito que, independente da reação gerada em cada um, todo o passante deve pensar em como aquelas pessoas conseguem viver daquela maneira. Sem casa, sem segurança, sem eletricidade, sem água encanada, sem geladeira, fogão e etc.
Mas não creio que esses moradores de rua, pelo menos a maioria, estejam interessados em uma casa com todo o conforto moderno. Muito menos em todas as obrigações e responsabilidades para manter tal conforto. De mais a mais, eles têm lá seus papelões, suas espumas, seus cobertores sapeca-negrinho, suas pingas. E de mais, não precisam.
Não sei se eles sentem falta de um banho quente ou de roupas de cama limpa. Mas, certamente, não sentem falta de pagar aluguel, condomínio, conta de água, conta de luz, IPTU, declarar imposto de renda, cumprir horários, ter patrão, ter hora pra dormir, pra acordar, pra beber, pra cagar, pra trepar, em renovar CPF, em atualizar título de eleitor, em enfrentar filas de banco, supermercados, em cumprir convenções sociais, em demonstrar pudores.
Tenho certeza de que não sentem falta de não serem livres. Essas pessoas são as únicas verdadeiramente livres, como são os outros bichos além do bicho humano, e por isso causam em quem as vê um misto de sensações contraditórias.
Elas não chocam por sua sujeira, mau-cheiro e feiura, que todos estamos acostumados a isso. Elas escandalizam por sua total e plena liberdade.
Não estamos acostumados a ser confrontados com tanta liberdade, uma liberdade que, para nós, chega a ser imoral. Ressentimo-nos da liberdade dessas pessoas, por isso a depreciamos.
Ofende-nos tanta liberdade assim, crua, rude, primal, não depilada, cheirando a humano, de pernas arreganhadas. Esfregada em nossas ventas.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Ganharam O Que A Luzia Ganhou Atrás Da Horta

Ontem, em mais uma manifestação na Av. Paulista, o sindicato dos professores do estado de SP, a APEOESP, decidiu dar por encerrada a greve iniciada em 08/03.
Pergunta: o que os professores ganharam com essa greve? O de sempre: o que a Luzia ganhou atrás da horta. Mas, com certeza, ajudaram os sindicalistas do alto escalão a ganharem umas benesses do governo, uns carguinhos de confiança.
Parece que alguns professores, inconformados com a decisão de cessar a greve, jogaram ovos na presidente da APEOESP. Bando de babacas. Deveriam era jogar ovos em si mesmos, pela burrice de ir atrás do sindicato mais uma vez. Agora voltam para as suas salas de aula com os rabinhos no meio das pernas, mais desmoralizados do que quando saíram, se é que isso é possível.
Acontece que professor serve para isso mesmo - ser bucha de canhão.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Falta de Ar

Ao escrever - alguém já disse -, o escritor está, na verdade, reescrevendo-se. Não concordo.
Não há como nem razão para nos reescrevermos, para nos passarmos a limpo. Somos rascunhos incorrigíveis, somos um aglomerado de rasuras que ganhou vida um dia, subitamente. Passarmo-nos a limpo seria entrar voluntariamente numa câmara de desintegração e deixar a sogra a tomar conta do botão de acionamento.
Também não concordo que a escrita sirva para autoconhecimento de quem a grafa, que seja uma lanterna a guiar por uma redentora rota de fuga das profundezas, até porque quem escreve alguma coisa que preste quer mais é continuar nas profundezas, não quer muita coisa com a superfície e suas superficialidades.
Antes pelo contrário: escrevo para poder continuar nas profundezas, escrevo para conseguir reabastecer meus cilindros de oxigênio, para não ter de pôr o nariz à tona. Cada vez que escrevo algo de que gosto, respiro mais anchamente, inspiro, perdulário, o oxigênio, sinto meus cilindros se intumescerem de atmosfera alpina.
É isso, a propósito, o que estou tentando obter agora, um novo suprimento de ar, pois acabei de olhar para o manômetro de meus cilindros e seu ponteiro já está se engraçando com a faixa vermelha do mostrador, arauta do pouco ar.
Mas, hoje, não sei, não...
Acho que terei de dar as fuças à luz. Para um breve respiro de cachalote.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O Nome Dela é Waldemar

Agora é lei. Um decreto publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo, em 18/03/2010, garante o direito aos transgêneros de serem chamados, em qualquer repartição pública, pelo nome através do qual se reconhecem, o chamado nome social.
Transgêneros são os travestis, transexuais e afins. Não confundir, por favor, com transgênicos, que são coisa séria.
Resumindo, a partir da supracitada data, todo transgênero deverá ser chamado, se ele assim o desejar, em qualquer repartição pública, pelo seu "nome de guerra". Vai que, por exemplo, o cara se chame José Roberto de Oliveira e se reconheça pelo nome social de "a borboletinha dos coqueirais", será assim que ele deverá ser mencionado em hospitais públicos, em fóruns de justiça, em escolas estaduais e etc.
Fico imaginando se isso também será válido para as circunscrições do serviço militar. O sargento adentra a sala dos alistados, com toda austeridade própria à sua patente, e começa a chamada para a inspeção : fulano de tal, siclano das tantas, beltrano da silva e, de repente, Samanta do Rego de Veludo, Michele Linguinha Ligeira, e por aí vai...
E quem se recusar em usar o nome de guerra do indivíduo será taxado de homofóbico, termo cujo emprego, aliás, é equivocado nesses casos. Fobia é medo. Eu não tenho medo de homossexuais ou transgêneros nem aversão a eles, só não tenho afinidades, só não tenho assunto, só não dá pra entabular uma prosa muito longa com eles.
Se alguém estiver duvidando de tal surrealismo, basta consultar o Diário Oficial de SP do dia 18/03/2010.
É como diz o outro: antigamente, homossexualismo era crime no Brasil, depois passou a ser tolerado, hoje é exaltado como conquista social... o negócio é mudarmos daqui antes que passe a ser obrigatório.
E é isso.
O que mais há para se dizer?

sexta-feira, 2 de abril de 2010

De Quando Eu Gostava de Heróis

Li quadrinhos de super-heróis por cerca de uns 20 anos, contínua e assiduamente, dos meus 12 anos aos meus 34, 35 anos. Então os heróis foram sendo modificados, modernizados, e eu desgostei deles. Se bem que é provável que eu acabasse desgostando de qualquer jeito, mais cedo ou mais tarde, coisas de velho. Velho tem disso, vai desgostando das coisas.
Quando eu ainda gostava de heróis, o meu preferido era o Capitão América, uma figura que sempre me fascinou. E não por conta de seus poderes extraordinários, que poderes extraordinários, ele não tinha nenhum. Claro que o cara tinha força e habilidades acrobáticas e marciais bem acima da média. Nada sobre-humano, contudo. Nada que um atleta nascido com um certo favorecimento genético e com férreas dedicação e disciplina não pudesse alcançar.
Apesar disso, curiosamente, ele sempre era o líder quando a coisa ficava preta demais para só um herói resolver e os Vingadores eram convocados e reunidos. O Capitão comandava, então, seres muitíssimo mais poderosos que ele : o Homem de Ferro (um tanque de guerra ambulante), o Visão (um sintozoide com controle da densidade corpórea), o gigante Golias (de força proporcional aos seus 12 metros de altura), os mutantes Mercúrio (um velocista capaz de quase quebrar a barreira do som) e Feiticeira Escarlate (com habilidade de alterar o campo das probalidades e realizar eventos virtualmente impossíveis, o que grosseiramente chamamos de bruxaria) e até um deus, Thor, o do Trovão, o Capitão tinha ao seu dispor; e esse deus com frequência se dizia honrado em atuar sob o comando do Capitão.

O fato desses seres superpoderosos obedecerem e seguirem cegamente ao Capitão me instigava à época.

Hoje, a razão dessa subordinação a um ser aparentemente inferior é clara. O verdadeiro superpoder do Capitão América era muito mais raro do que raios repulsores, martelos encantados, bruxarias ou força titânica. O verdadeiro superpoder do Capitão era a sua retidão de caráter e conduta, suas inabaláveis e incorruptíveis moral e ética, sua lisura de princípios. O Capitão dava credibilidade àquele grupo de - no fim das contas - desajustados.

Algumas situações eram recorrentes. Quando a casa estava para cair, quando os "mocinhos" estavam prestes a serem derrotados, no meio de todo o caos comum aos cenários de batalha, o Capitão surgia. Por entre os batentes de uma porta ou no alto de um prédio. Não fazia nem falava nada.

Apenas surgia.

E nunca vinha sozinho, a luz sempre o acompanhava (até a luz), sempre havia uma alvorada às suas costas. E o tempo parava por segundos, todos - mocinhos e bandidos - estacavam aparvalhados à visão do Capitão e seu escudo, todos "cagavam nas calças", nas palavras de um amigo meu. E esses poucos segundos eram os necessários e suficientes para os mocinhos virarem o jogo.
E daí que o cara veste o lábaro estadunidense? E daí que o cara vista uma bandeira? Todos não temos que vestir uma?
Talvez por isso eu gostasse tanto do Capitão. Ele não era o mais forte ou o mais rápido, ele era o mais probo e confiável, era o CDF dos super-heróis, o caxias. Eu não podia voar, lançar raios e nem era superforte, mas CDF eu podia ser.

E acho até que me dediquei em desenvolver a honorabilidade do Capitão durante algum tempo, por alguns e longos anos. Ser também um baluarte da integridade e da decência.
Eu deveria ter mais me dedicado em desenvolver uma fórmula que me conferisse poder de voo, superforça e invulnerabilidade. Ou peregrinar até um mosteiro no Tibet onde um monge me revelaria os segredos da invisibilidade, telepatia e telecinese. Ou me deixar picar por uma aranha ou qualquer outro inseto radiativo.
Em qualquer uma dessas improváveis empreitas, minhas chances teriam sido maiores.

quarta-feira, 31 de março de 2010

terça-feira, 30 de março de 2010

"Novas" Tecnologias

Todo dito popular é burro, e aquele que afirma ser "a necessidade a mãe de toda invenção" não foge à regra. A necessidade não é mãe da invenção porra nenhuma. É bem o contrário, a invenção é a mãe de toda necessidade.
Entra dia, sai dia e somos bombardeados com novas invenções, novas parafernálias que imediatamente se tornam indispensáveis à nossa vida e ao nosso bem-estar. Parafernálias que nem sonhávamos que pudessem existir ou mesmo que pudessem ser inventadas há 20, 15 ou 10 anos, e por cuja falta ninguém nunca morreu ou deixou de bem viver. Celulares, tvs de plasma, gps, blue-ray (seja lá o que for isso), bluetoth (idem) e até mesmo - e por que não? - o já parte da família, controle remoto. Quem morreu ou teve impedimentos para ser feliz na época em que essas engenhocas não existiam? Hoje, quem é mais feliz por conta delas?
Mas isso nem é o pior. O pior é quando pegam um produto que já existe há tempos, em forma simples, barata e altamente funcional, e o travestem de novidade, mudam-lhe o nome (para o inglês, de preferência), põem-lhe uma roupa futurista, enchem-no de botões e lampadinhas e sobretudo - esse é o objetivo - duplicam, triplicam, decuplicam seu preço.
É o caso dos purificadores de água.
Na semana passada, foi comemorado o Dia Mundial da Água. Bom, eu gosto de água, gosto muito de água, sou 65% água, mas quero que o Dia da Água se foda e tenho certeza de que cada manancialzinho de água do planeta tem a mesma opinião.
Acontece que em tal dia, os jornais saíram com suas páginas tingidas de azul-água (água não é incolor?), cheios daquela lenga-lenga de preservação e com suplementos especiais a respeito da data.
Em um desses cadernos comemorativos, havia um quadro comparativo entre as principais marcas de purificadores de água do mercado, onde se confrontavam os atributos de cada modelo. Estavam postos lado a lado, o sistema de filtragem de cada um, a eficácia em eliminar os diversos tipos de contaminantes e os respectivos preços.
O mais simples era munido de uma membrana de ultrafiltragem e de carvão ativado acondicionado em tubo de polipropileno revestido de prata coloidal. E a sandice seguia, o segundo era equipado com membrana de filtro oca com 40 bilhões de microporos, o seguinte irradiava luz ultravioleta (purifica e bronzeia ao mesmo tempo, o filho da puta), o próximo injetava ozônio na água e assegurava, além da desinfecção, um aumento na produção de interferon e interleucina pelo organismo (vai ver que o ozônio desse é para proteger do ultravioleta do anterior, compre o purificador e ganhe sua camada de ozônio particular), o último deles, diziam as especificações, e confesso que esse me assustou, unia os sistemas SNTA, HF e UVLS. Puta que o pariu, esse deve ser capaz de matar a própria molécula de água.
Os preços partiam de um minímo de 180 reais e superavam os 400 reais. A eficiência assegurada era a mesma em todos os casos, 99% para micro-organismos e impurezas sólidas e um pouco menos - 97, 98% - para cloro, pesticidas e metais pesados.
Fiquei apavorado. Se para obter uma água limpa, eu precisava de, no minímo, um tubo de polipropileno com carvão ativado e prata coloidal, eu estava fodido, verdadeiramente fodido. Afinal, eu uso, e sempre usei, o bom e velho filtro de barro.
Cheguei em casa e corri à net, pesquisar a eficiência do meu modesto e nada tecnológico filtro de barro. Pois bem, pasmem ou não, o filtro de barro demonstra uma eficiência de 99%em remover micro-organismos e resíduos sólidos e de 95 a 98% em eliminar cloro, pesticidas e metais pesados. Ou seja: exatamente a mesma coisa.
O filtro de barro é simples, grosseiro, rústico, porém altamente eficiente. Assim como eu.
Achei, inclusive, um site inglês - cuja tradução do nome seria "coisas simples que funcionam" - que lista artefatos do mundo inteiro que atendem a esses requisitos, simplicidade e funcionalidade. E não é que o brasileiro filtro de barro está lá?
Além de similar eficiência, existem inúmeras outras vantagens no filtro de barro, a começar do preço, algo em torno de 40 reais contra os 200 ou 300 das pratas coloidais importadas, ao comprar o filtro de barro, você não enche os bolsos das multinacionais.
A durabilidade também é superior, podendo atingir décadas de bom uso; quando jogado fora, por ser barro, é degradado e reabsorvido rapidamente pelo ambiente; a água dentro dele é sempre mais fresca, pois permite a evaporação das moléculas com maior energia através de suas paredes porosas; algumas argilas têm propriedades medicinais e são capazes de transmitir vibrações eletromagnéticas para a água e consequentemente para quem a consome; os minerais do barro que são percolados pela água também são de valia para as funções hepáticas e renais.
Tem mais : o filtro de barro não tem luzinhas multicoloridas e piscantes, não parece um painel de avião de tantos botões, não tem caninho entrando aqui e tubinho saindo acolá, não dá problema na rebimboca da parafuseta e qualquer um pode "instalar" e dar a adequada manutenção, ou seja, o filtro de barro, além de tudo, é isento de frescuras e viadagens, é o purificador do macho por excelência!
O filtro de barro tem o charme e a sedução das coisas artesanais, é classudo, é um clássico, é cult.
Assim como eu.

sábado, 27 de março de 2010

O Pau Comeu Na Casa de Noca

Agora sim!
Até que enfim a paralisação dos professores do estado de SP ganhou fuças de greve.
Ontem, 26/03/10, a polícia desceu o sarrafo na professorada, o embate aconteceu com a barreira policial montada para impedir o acesso dos grevistas ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.
Confesso a minha decepção com o resultado da contenda, 9 professores feridos contra 7 policiais idem.
E o governador Serra já disse que não negocia enquanto a greve se mantiver, que não fala com grevista. O Serra está certo, eu também faria o mesmo.
Grevista é um porre, sempre a mesma coisa, sempre aquelas faixas de abaixo isso, abaixo aquilo, abaixo aquiloutro, sempre carregando caixões de defunto a simbolizar a morte da educação. E o discurso de grevista? Quem aguenta aquele discursinho marxista-leninista-trotskista? E o visual a la Che? Sempre aquela barbinha rala, boina com estrelinha do PT e a indefectível lingua presa. O Serra está certo, eu também não receberia grevistas.
Voltando ao placar de Polícia 9 x Professores 7 - praticamente um empate técnico -, deixo aqui para o governador uma sugestão.
Demita os policiais feridos, afinal os caras são preparados para espancar grevistas e paramentados para tal, capacetes, escudões, cassetetes, balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio, com tudo isso em mãos, o cara tem que ser muito incompetente para se deixar alvejar por pedras de professor. Eu, com um escudão daqueles, fico inatingível. Viro o próprio Capitão América.
Demita os policiais feridos e contrate os professores que os feriram para ocuparem os seus postos. Mata-se, assim, dois coelhos com única cajadada, esses professores serão, muito provavelmente, mais hábeis com os cassetetes do que são com o giz e terão atendidas as suas reivindicações salariais, afinal, policial ganha bem melhor que professor nesse país.

quinta-feira, 25 de março de 2010

A Era Das Mariposas

Assisto pouco à TV, ainda menos aos telejornais e tento de todas as maneiras não tomar conhecimento de sensacionalismos. Mas volta e meia uma desgraça é eleita pelas mídias e repisada de tal maneira que se torna impossível não se inteirar dela.
É o caso dessa menina, Isabela Nardoni. Pelo que sei, ela foi jogada da janela de um apartamento (6º andar, é isso?) e os indícios apontam pai e madrasta como os autores.
É triste, terrivelmente triste. Estamos, porém, entre humanos e entre humanos essas coisas acontecem. Mais que o crime, causaram-me espanto (vi sem querer) as declarações da avó da menina aos jornalistas.
Essa senhora estava, acho eu, dirigindo-se ao local do julgamento quando foi cercada por repórteres e uma multidão a brandir cartazes e faixas clamando por justiça à Isabela, todos desejosos de aparecer no Jornal Nacional.
A avó envergava uns óculos escuros gigantes, parecia uma libélula dark, fazendo supor seu grande pesar, fazendo supor olhos chorosos por detrás. Entretanto o resto do semblante não era concernente à presumida tristeza dos óculos escuros, notava-se (eu notei, será que estou sendo maldoso?) até laivos de sorriso e ao ter os microfones e camêras ao seu dispor, a avó disparou que estava achando lindo aquilo tudo.
Peraí! Puta que o pariu! Ela estava achando lindo o quê? A neta ter sido assassinada? Estava achando lindo, emendou na sequência, o amor daquelas pessoas por sua neta. Que amor, porra? Quem ali conheceu a menina? E, para fechar a entrevista com chave de ouro, a avó levantou o braço para as camêras e exibiu uma tatuagem com o nome da neta no antebraço.
Tanta sandice, tanto descaso, tanto desatino e banalização por um único objetivo : aparecer.
Aparecer é o verbo que melhor representa essa Era em que vivemos. Todos querem ganhar notoriedade, tornar-se uma celebridade instantânea.
A Idade Média foi rotulada de a Idade das Trevas, sucedeu-lhe a Renascença e o Iluminismo, a Idade das Luzes, onde despontaram uns pensadores até que bem legaizinhos.
Vivemos, hoje, a Idade dos Holofotes, todos querem ser iluminados por luzes de 1000 W, todos querem brilhar, todos correm ávidos à procura de holofotes que lhes ilumine a região anatômica conhecida cientificamente como "lá onde o sol não bate". Brilhar é o que todos querem, a qualquer custo.
E esse tesão pelo neon é mais marcante nas mulheres (vide a avó, nem se falou do avô). Claro que existem homens também afeitos aos holofotes, mas são aqueles que se depilam, tiram as sobrancelhas, pintam os cabelos, passam hidratante, tiram cutícula... não dá nem pra chamar muito de homem.
A velha MPB, delicada e eufemisticamente, chama de mariposas a essas mulheres adoradoras dos luares artificiais (a nova MPB, que desconhece inclusive o que seja eufemismo, as chama mais realisticamente de cachorras).
As mariposas estão presentes em várias letras do antigo cancioneiro popular, de Adoniran Barbosa a Nélson Gonçalves.
E, para encerrar, vem de Nélson Gonçalves o recado e o alerta mais significativo para essas pessoas que se deixam deslumbrar pelos holofotes, no trecho da música "Mariposa":

"Segue teu caminho, mariposa,
Já que essa luz te embriaga.
Mas nunca te esqueças, mariposa,
Que toda luz se apaga.
Presta bem atenção, mariposa,
Nesse aviso derradeiro:
Antes que a luz da cidade se apague, pode cegar-te primeiro"

terça-feira, 23 de março de 2010

O Humano Nu

Em minha caminhada diária rumo ao trabalho, de uns 4 km aproximadamente, atravesso todo o centro da cidade, inclusive a região chamada de "baixada". Local de prostituição em cujas calçadas, pela manhã raiante, não são incomuns poças de vômito, camisinhas usadas, roupas intímas perdidas e amontoados de merda humana. Normal.
Semana passada, porém, eu a descer pela rua, a um quarteirão, quarteirão e meio de distância, vi uma figura anômala, mesmo para aquela região da cidade. Havia algo em desacordo na figura, alguma coisa fora do lugar e que, até pela distância, eu ainda não havia detectado o que fosse. Mais uns passos e constatei que aquele indivíduo, magro, alto, meio mulato, estava completamente nu. E passava um jornal ou um pedaço de papelão na bunda, como que a se limpar.
Atravessei para o outro lado da rua e continuei a andar, acabada a limpeza da bunda, o cara peladão sentou-se ali mesmo, na calçada, e dobrou-se ao meio, abraçando os joelhos, com a cabeça entre eles. E nem se dava pelos poucos passantes, estava alheio ao mundo, talvez drogado, sei lá.
Ao passar por ele, vi a seu lado o que havia restado de suas roupas, uma bermuda imersa num alagado de bosta. O cara não se aguentou, cagou-se todo e acabou lá, nu. Além de mim, os poucos que por ali passavam também olhavam àquilo com estranheza, piedade, medo, nojo, mas principalmente com incredulidade.
Nem eu nem os outros estávamos acostumados a ver um humano reduzido ao seu estado mais primal, puramente instintivo, sem nenhuma artificialidade.
Tenho cá comigo que todo o esforço do homem em construir seu conhecimento, suas tecnologias, erigir suas civilizações e até seus deuses, tem como objetivo primário, ainda que inconsciente, o de se negar como o animal que é, milênios de desenvolvimento humano destinados a um único intento, disfarçar sua natureza animalesca.
Nós nos depilamos, escovamos os dentes (não gostamos de nossos gostos e hálitos), cortamos nossas unhas, tomamos banho, lançamos mão de sabonetes, xampus, perfumes, cremes e uma infinidade outra de produtos que escondem nossos odores, nosso próprio cheiro nos parece podre, usamos roupas que disfarçam nossas imperfeições. Já pararam para pensar quanta tecnologia e dispêndio de energia há nessas poucos coisas que listei?
Pois bem. O cara nu, peludo, cagado e fedido punha abaixo todo esse esforço para não parecermos animais, demolia toda a empáfia humana em se julgar diferente e melhor. Daí o mal-estar dos que por ele passavam, inclusive o meu.
Contei o ocorrido para uns poucos colegas do trabalho, para aqueles com pontos de vista mais afins aos meus. Depois de feitas as considerações, o nó da questão foi em como um sujeito chega a tal ponto de degradação, o que faz com que uma pessoa fique daquele jeito, totalmente destituída de humanidade?
Destituída de humanidade, isso foi consenso geral entre meus pares.
Não concordo com eles. Fiquei quieto, não prolonguei a discussão, mas não concordo com eles.
O cara pelado, peludo, embosteado e fedorento não estava em nada destituído de sua humanidade.
Pelo contrário, ele estava totalmente revestido de humanidade, a humanidade impregnava e emanava de cada um de seus poros naquele momento, nada havia ali que humano não fosse, nada havia ali de artificial.
O cara nu estava pleno de humanidade. E só dela!
Por isso, a estranheza. Por isso, a repugnância.
A repulsa por isso.

domingo, 21 de março de 2010

LÁPIDES

E na lápide da humanidade:
"Até aqui estava dando tudo tão certo..."

E na minha lápide
- Ao lado da lápide da humanidade,
que ao lado (excluído) dela sempre fiz questão de me pôr -:
"Nem aqui vocês me dão paz".

E as briófitas e as pteridófitas tomam de volta os seus assentos,
Vicejam felizes e alheias a essa nossa desavença.

sexta-feira, 19 de março de 2010

FINESSE - Luiz Felipe Pondé

Publicado na Folha de São Paulo, 15/03/2010 (os trechos destacados em vermelho são de grifo meu, o Azarão)

O filósofo francês Blaise Pascal (século 17) dividia a inteligência em dois tipos de "espíritos". "Espírito", aqui, significa "atividade intelectual" e não alma penada ou um princípio pessoal e imaterial como no kardecismo. Os dois tipos são: o espírito geométrico e o espírito de "finesse".
O primeiro teria como vocação lidar com um grande número de questões ao mesmo tempo, arranjando-as de modo linear e encadeado, a fim de gerar deduções lógicas generalistas e de grande alcance. O segundo teria uma vocação para o detalhe e a sutileza, lidando melhor com um pequeno número de variáveis a cada vez, e fugindo das generalidades apressadas.
O geométrico ama a pressa e os resultados eficazes, o de "finesse" cultua a paciência e o cuidado, mas pode ser de eficácia duvidosa.
Normalmente eu tendo para o espírito de "finesse". O problema é que numa sociedade gigantesca como a nossa, com problemas de dimensões estatísticas, o espírito geométrico tende a devorar a alma. E, por definição, a alma vive mal na geometria. Seu habitat natural é a "finesse" porque a geometria tende ao grosseiro quando envolve seres humanos.
Em nossa complexa sociedade, algumas questões são tratadas de forma grosseira porque nós temos pressa em resolvê-las ou porque queremos fazer mentiras passarem por verdades. E aí, nós caímos num frenesi geométrico.
Leitores perguntam qual é minha posição quanto ao tema das cotas nas universidades. Outros, perguntam-me: "Você é a favor ou contra os direitos gays?".
O frenesi geométrico tende a dar respostas afeitas ao gosto de políticas públicas e movimentos sociais. Respostas geométricas são assim: "sou a favor" ou "sou contra" cotas ou direitos gays. E pronto.
Confesso: tenho alergia a esse negócio de "movimentos sociais" e suspeito muito do caráter de quem vive sempre metido neles. Não existe algo chamado "multidão do bem", toda multidão é do mal.
Recentemente ouvi um comercial no rádio que falava "todos juntos com uma só vontade e um só objetivo" (algo assim). Sinto um frio na espinha quando vejo "vontades unidas", pouco importa para quê.
Perdoe-me se isso parece uma falha de caráter, ou, quem sabe, se não sofri o suficiente na vida até hoje para confiar em multidões do bem, ou se conheço muitas mulheres bonitas e que gostam de tomar vinho antes do sexo. Na vida de um homem, o que decide sua realização é sempre sucesso profissional e sucesso com as mulheres, quem disser o contrário mente. Minha suspeita básica é de que desde os irmãos Caim e Abel (Caim matou Abel por inveja do amor de Deus pelo irmão), detestamos a felicidade no outro.
Mas e as cotas e os direitos gays? Tentemos uma resposta sem pressa.
Sou contra cotas raciais. Não acredito nessa coisa de dívidas históricas. Acho que isso serve para intelectuais fazerem carreiras ideologicamente orientadas (porque as universidades vivem sob repressão ideológica) e para pessoas politicamente articuladas garantirem seu futuro burocrático.
Sim, reinos africanos participavam do mercado de escravos e praticavam escravidão entre eles. Dizer que a escravidão dos africanos no Brasil foi uma mera questão de "europeus contra negros" é mentira. E mais: essa prática de cotas raciais (racismo "do bem") é tão racista quanto qualquer outra.
Dizer que reinos africanos e africanos libertos da escravidão no Brasil participaram do comércio de escravos não é "preconceito contra negros". Aqueles que afirmam isso o fazem por má fé.
Sou a favor de cotas em universidades públicas para estudantes de escolas públicas que se destacam em sua vida estudantil porque eu acredito em recompensar o mérito.
E os direitos gays? Não acho que gays devam ter direitos especiais. Leis que criminalizam gestos e palavras "contra os gays" para mim são mero fascismo.
Cirurgia para troca de sexo pago pelo Estado é um abuso para o contribuinte. Acho uma bobagem essa coisa de "homoafetividade".
É um abuso quando professores de educação sexual dão bananas para meninos colocarem camisinha com a boca, como se ser gay fosse "normalzinho". Deve-se respeitar o mal-estar das pessoas diante disso, e querer "formar" mentes nesse nível não é função da escola.
Entretanto, sendo gays pessoas comuns, acho que, sim, eles devem ter o mesmo direito que os outros: o direito de casar, criar filhos e ser (in)feliz no amor e na vida como todo mundo.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Sem Negociações

Em entrevista a Gabriela Dobner, do iG São Paulo, Paulo Renato Souza, secretário de educação paulista, disse sobre a greve dos professores: "Não há o que negociar".
Discordo dele. Existe muito a ser negociado. O que Paulo Renato quis dizer nas entrelinhas foi : o governo NÃO PRECISA negociar nada.
E não precisa, mesmo. É poderoso o suficiente para que não.
A Constituição assegura o direito de greve, mas não dá garantias de que ela irá funcionar ou de que terão de existir negociações. Espertíssimos esses rapazes que escrevem as leis no Brasil.
A greve é uma arma? Sim. Porém a serivço de quem, do trabalhador ou do governo?
Do trabalhador, bradarão os grevistas em uníssono.
Ora, professores, não sejamos burros, pelo menos não além do que eu já os considero, e pensemos, em que situação alguém (um Estado-Nação) concede a outrem (o trabalhador) o direito legal de lhe botar uma arma ao próprio peito?
Resposta simples: quando esse alguém se sabe totalmente invulnerável à ação daquela arma.
Mais: convencido da eficiência de tal "arma", o trabalhador deixa de pensar em outras formas de lutar, formas essas, talvez, com poder de coerção sobre o Estado.
O Estado só concedeu o direito à greve depois de muito bem se blindar contra ela e se equipar de um sem-número de recursos para desbaratá-la quando bem entender. E aí vem o trabalhador, bate no peito com orgulho, e acredita mesmo que tal direito constitucional foi conquista dele. E é a partir daí que o grevista trabalha a favor do Estado.
O Estado, como todo bom tocador de gado, sabe que nunca se deve encurralar totalmente o bicho, sempre deve restar ao animal o vislumbre de uma possibilidade de fuga (ainda que ínfima), de uma melhora (ainda que ilusória), deve sempre se dar ao bicho um alento, um respiradouro, uma válvula que alivie a pressão quando ela estiver próxima de seu ponto crítico, senão o bicho estoura verdadeiramente para cima do dono. E isso é tudo o que o dono não quer.
O direito constitucional à greve é essa ilusão dada ao trabalhador de que ele pode efetivamente, e pelas próprias mãos, dar rumos mais dignos à sua profissão. Não pode. O direito à greve é o engodo dado ao bicho de que ele é dono e senhor de seu destino. Não é. A greve é aquela valvulazinha que, de tempos em tempos, alivia a pressão.
Quando detectam que a coisa está realmente para explodir, governos e sindicatos confabulam, armam o circo da greve e põem tudo de volta em seus devidos lugares. Indubitavelmente, a greve tem importante função social, dá esperança (vã como todas) ao trabalhador, mantém tudo nos eixos.
Greve não é indício de desordem, antes pelo contrário, da reinstalação da ordem.
Mas, devo confessar, estou um tanto decepcionado com um aspecto dessa greve. Até agora, não vi professor apanhando em manifestações, não vi a polícia "chegando junto" nas passeatas, não vi ninguém ser pisoteado pelos cavalos, ninguém sair de olhos inchados de uma nuvem de gás lacrimogênio, ninguém a correr com balas de borracha a lhe pipocar o lombo.
Mas ainda resta uma esperança, parece que sexta-feira (19/03) haverá nova manifestação na avenida Paulista. Quem sabe dessa vez.
Rapaz...como eu gosto de ver grevista levar bordoada.

terça-feira, 16 de março de 2010

A Burrice Continua, Companheiro

Li no jornal "Zero Hora" que a APeoesp decidiu manter a greve dos professores de SP iniciada na segunda-feira, 08/03/10.
Façamos algumas considerações.
Se quiser lograr êxito, uma greve deve atender a requisitos básicos:
Tem que causar prejuízo ao empregador, a dos professores dá lucro, esses dias não pagos gerarão milhões de caixa para a campanha do Serra à Presidência;
Tem que ser relacionada a setores de urgência tais como saúde, segurança, coleta de lixo, transporte, tem que fazer falta imediata, a dos professores é prontamente festejada pelos alunos, teoricamente quem deveria se ressentir de nossos serviços;
Tem que ser rápida, para evitar desgastes e atritos entre os praticantes da profissão, nenhum grupo humano é capaz de permanecer por muito tempo em acordo e harmonia, sua rapidez também é necessária vista a supressão do salário dos dias parados, a dos professores, dados os dois motivos iniciais, é greve longa, cansativa, de muito fôlego;
Tem que ter apoio da população, ainda mais sendo uma greve pública, a dos professores não tem apoio nenhum da população, aos olhos da qual professor já ganha muito bem pelo que faz;
Por fim, mas ainda sem elencar todos os motivos pelos quais uma greve de professores nunca sairá vitoriosa, uma greve precisa de uma retaguarda forte, que dê respaldo ao grevista quando esse começar a sofrer as sanções e penalizações, ou seja, é elemento fundamental numa greve, um sindicato forte, honesto no mínimo, o dos professores é um sindicato canalha, vendido, seus dirigentes sempre barganham a bunda do professor por um carguinho público.
Então é óbvio mais um malogro dessa greve.
A greve continua, a burrice continua.
A Apeoesp noticia 80% de adesão, o governo estadual, 1%. Não acredito em nenhum dos dois.
Na mesma reportagem do "Zero Hora", havia informes da quantidade de professores na manifestação feita na sexta, 12/03/10, na avenida Paulista. A polícia diz que foram 5 mil, a Apeoesp, 15 mil, mas a Apeoesp, para efeito de números, conta até o sorveteiro, o vendedor de água, de cachorro-quente, o de CD pirata...
Passeata gay reúne mais de um milhão. Até o reino da bicharada é mais unido que professor.
Consideremos uns 10 mil participantes. São mais de 200 mil professores no Estado, isso nas minhas contas são 5% do total. Claro que devemos considerar as dificuldades de deslocamento dos professores das outras cidades para a capital, mas ainda é um número inexpressivo mesmo que levemos em conta apenas os professores sediados na capital.
Dizer de uma adesão de 1%, como diz o governo, é uma tentativa de dizer que o problema não existe, empurrar pra baixo do tapete, porém dizer de uma adesão de 80%, como diz a Apeoesp, é chamar todo mundo de idiota, de burro.
A burrice continua, companheiro.

Um Tango Argentino Me Vai Bem Melhor Que Um Blues

ADIOS, MUCHACHOS
Adios muchachos, compañeros de mi vida,
Barra querida de aquellos tiempos.
Me toca a mi hoy emprender la retirada,
Debo alejarme de mi buena muchachada.
Adios muchachos. ya me voy y me resigno...
Contra el destino nadie la talla...
Se terminaron para mi todas las farras,
Mi cuerpo enfermo no resiste más...

Acuden a mi mente
Recuerdos de otros tiempos,
De los bellos momentos
Que antaño disfrute,
Cerquita de mi madre,
Santa viejita,
Y de mi noviecita
Que tanto idolatre.
Se acuerdan que era hermosa,
Mas linda que una diosa
Y que, ebrio yo de amor,
Le di mi corazón?
Mas el señor, celoso
De sus encantos,
Hundiendome en el llanto,
Me la llevo.

Es dios el juez supremo.
No hay quien se le resista.
Ya estoy acostumbrado
Su ley a respetar,
Pues mi vida deshizo
Con sus mandatos
Al robarme a mi madre
Y a mi novia también.
Dos lagrimas sinceras
Derramo en mi partida
Por la barra querida
Que nunca me olvido.
Y al darle, mis amigos,
El adiós postrero,
Les doy con toda mi alma,
Mi bendición.

Adios muchachos, compañeros de mi vida,
Barra querida de aquellos tiempos.
Me toca a mi hoy emprender la retirada,
Debo alejarme de mi buena muchachada.
Adios muchachos. ya me voy y me resigno...
Contra el destino nadie la talla...
Se terminaron para mi todas las farras,
Mi cuerpo enfermo no resiste más...

Pneumotórax

(Manuel Bandeira)

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.


Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.


..................................................................................................


— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Geraldão Fanaticão

Taí, mais um que foi mexer com religião e se fudeu.
Eu não sabia, mas não é que o Glauco era o Papa do Santo Daime? O Sumo Pontífice da ayahuasca?
O "pai" do Geraldão era até dono de igreja, a Comunidade Céu de Maria, tudo na base do cipó sagrado.
E o cara que atirou nele era um dos fiéis, provavelmente com o cerébro cozido pelo alucinógeno (e pela religião, claro).
Carlos Eduardo Sandfeld Nunes, 24 anos, o assassino, queria sequestrar o cartunista para que esse o acompanhasse até a casa de sua mãe e dissesse a ela que o rapaz era Jesus Cristo...muito louco.
Mexe com doido, mexe.
O Geraldão morreu. Mas, depois de saber disso, já nem lamento tanto.

Morreu o Geraldão

Cartunista Glauco morre baleado em Osasco-SP

O cartunista Glauco Villas Boas, de 53 anos, morreu na madrugada de hoje após ser baleado durante uma suposta tentativa de assalto na Estrada Alpina, no bairro Jardim Santa Fé, em Osasco, na Grande São Paulo, segundo informações preliminares da Polícia Militar (PM). De acordo com o Hospital Albert Sabin, o cartunista deu entrada no pronto-socorro por volta da 0h30 e morreu cerca de meia hora depois. O filho dele, Raoni, de 25 anos, também foi atingido pelos disparos e morreu a caminho do hospital.
O crime aconteceu por volta de meia-noite. O caso foi registrado no 10º Distrito Policial de Osasco e os corpos do cartunista e do filho já foram encaminhados para o Instituo Médico Legal (IML) da cidade. Ninguém foi preso.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Pequeno Conto Noturno (11)

- Você disse mesmo o que eu ouvi? - Olga a Rubens.
- Sim.
-Então diz de novo.
- Pra quê? Vai significar a mesma coisa.
- Não vai, não. Eu não estava esperando, ficou igual a quando a gente põe um pedaço de chocolate na boca para ir derretendo bem devagar e, sem querer, acaba meio que engasgando e engolindo tudo de uma vez, não dá pra sentir o gosto direito. Fala de novo para meus ouvidos mastigarem cada sílaba, lentamente.
- Não sei se vou repetir, primeiro porque já disse e você bem o ouviu, e ademais perde um pouco o sentido quando não estou de pau duro e com você pulando em cima.
- Ainda assim quero que repita - e Olga sai de cima de Rubens, desacoplando o resto do pau murcho de dentro de si.
- E por quê?
- Porque sei que te causa um certo desconforto.
- Não seja por isso - diz Rubens -, pode me queimar com a ponta do seu cigarro aceso ou apertar minhas bolas.
- Não me interessa o teu desconforto físico, sara logo. Vai dizer ou não?
- Vai lá, pega a vodka no congelador - protela Rubens.
Rubens sempre pede às mulheres que busquem a bebida, gosta de vê-las por trás. Olga tem peitos pequenos, de mamilos azeitonados, e um belo e enorme rabo, com um rego fundo e confortável a desenhar acentuadamente o contorno das nádegas; cobertos de penugem descolorida por água oxigenada, o rego e as nádegas.
- Toma - diz Olga de volta -, pus um pouco de água tônica e limão, que dessa merda eu não tomo pura. Vai repetir ou não?
- Vou, mas e se eu te disser que isso não me causará nenhum desconforto ou aflição?
- Não vou acreditar, sei que te causará.
- E se não causasse?
- Aí não me interessaria ouvir de novo - Olga toma a mão de Rubens e a põe entre suas pernas, bem direcionando o dedo médio dele.
- Gosta de me ver sofrendo, é isso? - pergunta Rubens.
- Não, mas saber que sofrerá para me dizer dá mais credibilidade à tua fala e, é verdade, um tantinho de prazer pra mim.
- Certo - pondera Rubens -, mas proponho, então, uma troca de desconfortos.
- Lá vem...
- Interessada ou não?
- Tá, eu topo, pode dizer - e Olga sente o dedo de Rubens afundar-se.
- Repito o que eu disse e você retribui com algo que também te aflija, quase te penalize.
- E o que seria? - pergunta Olga, voz oscilando entre a apreensão e a excitação.
Rubens lhe cochicha ao ouvido o objeto da barganha, exatamente o que Olga sabia que iria ouvir, e tira o dedo melado de dentro dela.
- Vou repetir: eu te amo, Olga.
- Outra vez - pede Olga - e mais devagar.
- Eu te amo.
- Engraçado... - diz Olga, com certo desapontamento na voz.
- O que foi, agora?
- Sei lá, acho que não consegui aproveitar o teu sofrimento o quanto tinha imaginado.
- Pois te garanto que eu vou aproveitar muito bem o seu.
- É?
- É. Pode ir virando de bruços e arrebitando bem esse cuzinho.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Nós Quem, Cara-Pálida?

Conta-se uma história na qual Zorro e seu companheiro pele-vermelha, o Tonto, viram-se emboscados por centenas de índios, das mais variadas tribos do velho Oeste Americano. Após analisar todas as possíveis rotas de fuga e não achar nenhuma, Zorro teria dito a Tonto: "É, Tonto, dessa vez nós vamos nos fuder". Ao que Tonto teria respondido : "Nós quem, cara-pálida?"
Pois bem! A Educação do estado de SP está em greve, de novo. E de novo para o mesmo: nada conseguir ou, no máximo, conseguir o que já foi previamente acordado entre sindicato e governo do estado na calada da noite.
Porém a pergunta é: quem da chamada Educação está em greve? Ou melhor, a quem da Educação está sendo vantajoso estar em greve nesse momento?
Essa greve, iniciada na sexta-feira (05/03), mais uma vez não foi planejada e tampouco deflagrada pelos professores, elas nunca são. É um erro, no entanto, eximí-los de culpa. Os professores têm a mais pesada das culpas, que não é a de quem arquiteta e, sim, de quem segue burramente o rebanho. O professor têm culpa pela sua burrice, de não ser capaz de exercer o espírito crítico que tanto cobra de seus alunos.
O professor é sempre manipulado, serve sempre de bucha de canhão nesses movimentos reivindicatórios. Via de regra, é usado pela APEOESP, o sindicato dos professores do estado de São Paulo, que, é bem verdade, também está a dar as caras pelas escolas nesses dias, à cata de novos adeptos para a greve e novos associados para os seus quadros (principalmente isso).
Algo, porém, mostrou-se diferente nessa greve desde o seu início, algo estava a cheirar pior que o costume, por costume já não tão cheiroso.
Sempre houve, por parte das direções de escola, uma pressão muito grande em todas as greves anteriores no sentido de inibir a adesão do professor, ameaças veladas sempre foram feitas aos montes.
Nessa greve, o inverso tem se revelado. Há uma coação explícita dos diretores para que os professores entrem em greve e isso estava a me encafifar desde a sexta-feira.
Hoje, fato ou boato, a explicação surgiu na forma de um comentário trazido de outra escola : teria havido, antes do dia 05/03, uma assembleia a reunir apenas diretores de escola e nela se teria decidido pela deflagração da greve, decisão dos diretores, portanto.
Mas para eles não figurarem nos meios de comunicação como os responsáveis pelos transtornos que toda greve causa, resolveram, os diretores, posar de politizados e amigos do professor, dando o "maior apoio" para a professorada entrar em greve. Quando aparece algum pai para saber das coisas, lhe é dito que a greve foi decisão da maioria dos professores e o diretor tira o rabo dele da seringa, hoje mesmo presenciei uma cena dessas.
E o professor embarca feito um idiota nessa, acredita mesmo que é ele a conduzir a greve e pior, que está a mudar algo.
Um parênteses : não é só pela sua burrice ou ingenuidade que o professor abraça a greve, por detrás de cada decisão de adesão há um motivo pessoal alheio à Educação. A exemplos, o professor entra em greve para ir passear no shopping, ir à academia, ao clube, ao cabelereiro, cuidar de seus afazeres pessoais e até, os que trabalham na rede particular, usar esse tempo vago para umas horas extras e ganhar mais do que se estivessem trabalhando no Estado naquele momento. O professor é burro, sim, mas não é merecedor de pena ou compaixão.
Eu não entrei em greve. Nem vou entrar. Greve é coisa séria, é uma pequena guerra, e eu é que não entro numa guerra ao lado de um exército tão estropiado como a classe professoral, perto dela o Exército de Branca Leone é um primor de organização e disciplina. Mereço, no mínimo, compor as fileiras dos 300 de Leônidas (sem a parte da pederastia, é claro), por menos que isso, eu nem desembainho minha espada.
Perguntaram-me, hoje, se eu não tenho ideais; eu tenho, mas os meus, não os do coletivo. O chamado idealista é o cara que se pauta por ideais ditados por outrem como se por ele próprio fossem, o ideal coletivo é a maneira do burro se sentir parte de um todo pensante. Tô fora dessa suruba.
Bom, primeiro foram os sindicatos a usar os professores para suas politicagens, agora são os diretores. Quem virá depois? A turma da secretaria, o pessoal da limpeza, o cara da cantina, o rapaz do xerox? Não sei. Mas garanto uma coisa: o professor servirá muito bem a todos eles com a sua burrice.
Por isso, quando alguém ou algum conhecido me pergunta se "estamos" em greve, eu logo peço que ele me esclareça : nós quem, cara-pálida?

domingo, 7 de março de 2010

Anjo Louco

Foram-te as unhas,
Os dedos, os punhos,
Teu nome, teu mito, tua alcunha.

Foram-te também as nuvens,
O doiro, a tua triste hierarquia,
Os amores que supunhas.

Ficaram-te as próteses-ciborgue de asas
E a peçonha vermelha nos olhos,
Tua natureza de anjo.

sábado, 6 de março de 2010

Uma Boa Ação

Dia desses, vi uma velhinha colocando dois vasos com cactos em seu carrinho de compras do supermercado, encantada com as florzinhas a brotarem dos caules.
Não eram flores naturais àqueles cactos, tinham sido ali inseridas pela enganosa mão humana, eram daquelas florzinhas secas e coloridas artificialmente, as há em roxo, amarelo, vermelho, azul, até verde.
Pensei : vou fazer uma boa ação, denunciarei a falsificação à velhinha, não a deixarei ser iludida.
Pensei melhor e fiz a boa ação : não disse nada à velhinha, deixei-a ir com seus cactos floridos, com a sua ilusão.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Iguais Diferenças

Brindemos à descoberta de nossas diferenças,
Brinde maior à nossa amizade,
Inexorável a elas.

Mas não muito te animes
Nem saias em festejo, meu amigo:
No básico, és desgraçadamente igual a mim.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Plantas Carnívoras

Arremesso
(na madrugada calada, para que você leia logo pela manhã)
Um buquê de palavras em seu alpendre,
Quiçá na soleira de sua porta,
Se boa se mostrar minha pontaria
Ou o rum autorizar minha precisão.

Não de palavras-margaridinhas-do-campo,
Viçosas, orvalhadas, em botão.
Sim um buquê de palavras feito aquelas orquídeas exóticas,
De odores fétidos,
Sabendo a excremento, a esterco, a coito anal.


Você as tomará nos braços, cingidas aos seios,
Torcerá o nariz ao seu futum
(Que lhe lembrará sovaco mal-lavado)
E irá me maldizer um pouco.

Mas não as porá à sua calçada,
Ao lado de seu lixo reciclável.
Depositará minhas palavras,
Para que elas não ressequem e despetalem,
No empoeirado jarro de vidro em sua estante
Ou no empoçado da pia da cozinha,
Junto à sua louça suja.

E ali as deixará.
A exalar antigos bailes,
A recender velhas possibilidades.

Os Moluscos Do Brasil

Por Diogo Mainardi, Revista Veja, novembro de 2009
"Claude Lévi-Strauss descobriu o Brasil. O Brasil é assim mesmo: é descoberto e redescoberto continuamente, desde 1500. Se os portugueses, em 1500, descobriram o Brasil seguindo a corrente marinha, Claude Lévi-Strauss, quatro séculos mais tarde, em 1939, descobriu-o seguindo a linha telegráfica do marechal Rondon, em Mato Grosso. Ali, depois de se afastar da “escória de Cuiabá”, ele encontrou uma série de aldeias de índios em estado bruto, intocados pelos costumes do homem branco. Em particular, os nambiquaras.
Num de seus ensaios antropológicos, Claude Lévi-Strauss observou a indigência cultural dos nambiquaras e comparou-os a “uma raça gigante de formigas”. Eles se caracterizavam por ter orelhas grandes, por embriagar-se com “chicha”, por tocar uma música de uma nota só, por entreter-se cuspindo no rosto uns dos outros e por ignorar o estojo peniano devido à sua apatia sexual. Antes de Claude Lévi-Strauss, o geógrafo Edgar Roquette-Pinto já comparara os nambiquaras a “homens da Idade da Pedra”, acrescentando que a “pneumatose intestinal fá-los companheiros desagradáveis”. E o presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt, que passara por lá em 1914, acompanhado pelo marechal Rondon, dissera que os nambiquaras eram “ingênuos e ignorantes como animais domésticos”.
O contato com os nambiquaras deprimiu Claude Lévi-Strauss. Ele passou a se perguntar: “O que viemos fazer aqui? Com que esperança? Com que finalidade?”. Ele só conseguiu encontrar a resposta alguns anos depois, quando estabeleceu as bases do estruturalismo: “O maior interesse oferecido pelos nambiquaras é que nos defrontamos com uma das formas de organização social e política mais simples que se possam imaginar”. E prosseguiu: “A diferente estrutura do aparelho digestivo de homens, bois e moluscos não indica diferentes funções de seus sistemas digestivos. A função é sempre a mesma, podendo ser mais bem estudada e compreendida em suas formas mais simples, como a de um molusco”.
No Brasil, Claude Lévi-Strauss descobriu o homem reduzido à sua condição de molusco. Perseguido pelo nazismo na II Guerra Mundial, por ser judeu, ele tentou refugiar-se no país, mas Getúlio Vargas, o molusco que naquele tempo presidia o Brasil, simplesmente lhe fechou as portas. Claude Lévi-Strauss morreu na última semana. Setenta anos depois de seu contato com os nambiquaras, seguindo a linha telegráfica do marechal Rondon, nós ainda nos caracterizamos por tocar música de uma nota só, por cuspir no rosto uns dos outros e por sofrer de pneumatose intestinal. Nós ainda temos uma das formas de organização social e política mais simples que se possam imaginar. E nós ainda procuramos responder às mesmas perguntas: o que viemos fazer aqui? Com que esperança? Com que finalidade?"

segunda-feira, 1 de março de 2010

Mais Uma Da Peidagogia

Algumas escolas particulares de São Paulo adicionaram uma nova disciplina ao seu currículo, e devo já deixar aqui minha observação de que se fossem capazes de cumprir corretamente as tradicionais, até que poderiam instituir novas disciplinas, mas não é o caso.
Continuando, essa nova disciplina, mais um aborto elucubratório de algum peidagogo, atende pelo nome de "tutoria". E isso é de praxe dentro da peidagogia, o uso de um nome todo pomposo e solene para maquiar mais uma aberração, mais um descalabro.
Tal disciplina, a tutoria, propõe-se a "ensinar" organização ao aluno, "ensinar" a ele o horário em que deve fazer as tarefas, até "ensiná-lo" a arrumar a mochila para o dia seguinte.
Ora, vão todos à merda! Onde estão os vagabundos que atendem pelo nome de "pais", hoje em dia? Será que é muito difícil se "organizar"? Será que é necessário um "profissional" de nível superior para dizer que as tarefas devem ser feitas numa sequência que obedeça à ordem das datas em que cada uma será cobrada? Será preciso um "profissional" da educação para dizer que a mochila deverá conter o material para as aulas do dia?
Daqui a pouco, haverá mais novas disciplinas do genêro, "ensinando", por exemplo, que se deve escovar os dentes depois das refeições, uma "tutoria bucal", já que os pais também não devem ter tempo de ensinar isso aos filhos, outra disciplina que lhes "ensine" que após o banho (que lhes ensine antes que tenham que tomar banho) é necessário bem enxugar-se, e até outra que lhes "ensine" ser conveniente e de bom tom limpar os respectivos cus após uma bela cagada.
Exagero? Não. Pelo menos não de minha parte.
Li essa matéria na Folha de São Paulo de hoje (01/03/2010).
Há depoimentos de mães que estão adorando tal disciplina, já chegam com a matéria estudada em casa, diz uma delas. Mãe é o caralho, isso não é mãe nem na puta que a pariu, isso é uma grande duma descompromissada que está mais interessada em saracotear pelos shoppings e academias que na educação do filho. E esse tipo de mãe está cada vez mais em voga, mães que abrem as pernas, deixam o "bichinho" escorregar para a luz e o mundo que tome conta daí em diante, a sociedade que cuide de seu rebento.
Uma última observação, mais até um alerta: sou professor e já detesto que digam de mim que sou um "educador", se começarem a me chamar de "tutor", prometo, vou apelar feio.
A seguir, a reportagem:

"Ensinar alunos a organizar o tempo de estudo, a agenda e até a mochila agora faz parte do currículo"
TALITA BEDINELLI
DA REPORTAGEM LOCAL
Estabelecer os horários em que a criança fará a lição ou ensiná-la a organizar a agenda e a mochila são atribuições dos pais, certo? Nem sempre. Escolas particulares de São Paulo estão criando uma disciplina para ensinar essas tarefas e aumentar o compromisso de crianças e jovens com o estudo.
Em aulas que acontecem uma ou duas vezes por semana, tutores entram na sala para mostrar aos alunos como se organizar e estabelecer horários rígidos para os estudos em casa.
A mudança é estimulada por uma nova concepção de ensino. Antes, ele era mais focado na transmissão de informação e na "decoreba". Hoje, é mais centrado na interdisciplinaridade. "Os alunos precisam saber estabelecer relações [entre os conteúdos]", diz Elaine Marquezini, coordenadora do fundamental 1 do colégio Santo Américo (zona oeste), que criou no ano passado a disciplina "aulas de estudo semanal".
Ana Paula Braga Kienast, 39, mãe de Felipe, 10, aprovou a iniciativa. "A gente não precisa ficar cobrando, porque ele já vem com a matéria estudada."
Como esse novo tipo de aprendizado - exigido em vestibulares e provas como o Enem- é mais complexo, as escolas têm de fazer com que os alunos se dediquem mais.
Por isso, a disciplina, chamada na maioria dos colégios de tutoria, tem adquirido um papel tão importante quanto as aulas de português ou matemática. A ideia é que os pupilos "aprendam a aprender", na definição de Iberê Lopes, um dos tutores da Suíço-Brasileira.
Em geral funciona assim: quando entram no 6º ano (antiga 5ª série) e passam a ter mais professores, matérias e tarefas, os alunos são ensinados a se organizar -anotando a lição de casa na agenda, por exemplo. Conforme vão avançando de série e ganhando maturidade, aprendem as maneiras de estudar (com resumos, esquemas ou fichamentos).
Em alguns colégios, como o Stockler, o aluno tem até uma planilha que define qual disciplina deve ser estudada no dia e por quanto tempo. No Albert Sabin, o tutor é também uma espécie de terapeuta: conversa individualmente com todos os alunos sobre as suas vidas pessoais, tudo para saber a origem de eventuais dificuldades.
Já no I.L. Peretz, os tutores realizam com o aluno autoavaliações. "Vemos com eles quantas vezes o estudo é interrompido pela ida à geladeira", exemplifica Evelina Holender, assessora pedagógica da escola.
Nilson José Machado, chefe do departamento de metodologia do ensino da Faculdade de Educação da USP, considera positiva a introdução da tutoria nas escolas. "Na universidade, a tutoria é um trabalho de orientação. Um aluno da educação básica precisa de mais orientação ainda. Na conversa com os professores se estimula, se cria o interesse [pelo estudo]."
Mas ele não concorda com a transformação desse tipo de orientação em uma disciplina. "Há alunos que precisam estudar duas horas, outros, seis. É importante que a escola respeite essa diversidade."
O pedagogo Ulisses de Araújo, professor da USP-Leste, concorda. "Na educação tudo o que se tenta homogeneizar é um equívoco. Esse conceito [de tutoria] vem do modelo de empresas, quer deixar o aluno organizado, treinado. Para a criança que já tem autonomia, isso pode ser catastrófico."
As escolas dizem que, apesar de a aula ser comum a todos os alunos, aqueles com dificuldades recebem atenção individualizada. No Stockler, por exemplo, a tabela de estudos é definida com cada um dos jovens e seu uso não é obrigatório. "Ela me ajudou bastante. Aprendi a me organizar, e as notas melhoraram", conta Rogério Pereira, 16, aluno do 2º ano do ensino médio.