quinta-feira, 22 de março de 2012

Os Eunucos De Cristo. Ou : Muito Além Da Metáfora

Quem acha que a igreja católica é castradora, da missa não sabe um terço.
As religiões - e digo mais da católica porque nasci num país imerso em suas podridão e hipocrisia - servem mesmo a esse fim, castrar, tolher, controlar o povão, domesticá-lo, mesmo.
Com sua doutrina baseada no pecado, na culpa e na submissão, o catolicismo não só cerceia, ele também coíbe e põe sob pena de pesadas sanções toda e qualquer manifestação de cunho puramente humanista, seja ela da mente ou do corpo.
O pensamento é pecaminoso, o desejo é pecaminoso, rejeitar dogmas e contemplar o mundo à luz da experiência e da lógica é crime, punheta é crime; se esse último realmente o fosse, um décimo círculo teria que ser adicionado aos nove infernais de Dante, só para os tocadores de bronha.
O catolicismo mantém o rebanho de ovelhas sempre contente (conformado) e em mansidão; na mais absoluta merda, mas pleno de felicidade. E o pior é que isso é dito claramente aos fiéis, que eles são um rebanho, e eles acham maravilhoso, uma virtude, orgulham-se.
Não é à toa que as religiões são muito benquistas pelos Estados-Nações, que delas não se desvinculam, e nem as contrariam seriamente, mesmo os que se declaram laicos.
Rebanhos castrados em pensamentos e atos são muito mais adequados aos governantes.
Não satisfeitos, alguns padres holandeses, ou que faltaram às suas aulas ginasiais sobre figuras de linguagem, ou que, simplesmente, são muito dos fihos das putas, extrapolaram o sentido figurado da castração católica, foram muito além da metáfora.
A igreja católica da Holanda está sendo acusada da castração de, pelo menos, dez meninos. Castração literal. Cirúrgica.
Os meninos capados pela santa igreja eram alunos de um internato católico e haviam, anteriormente à sua castração, sofrido abusos sexuais por parte dos padres. Alguns denunciaram a putaria, e veio, então, a represália da igreja.
Sob o pretexto de "curar" os meninos de sua homossexualidade, a igreja os emasculou. Tornou-os em eunucos de Cristo.
Quem faz a denúncia é o jornal holandês NRC Handelsblad.
Segundo a reportagem, um rapaz foi castrado em 1956, após contar à polícia que estava sofrendo abusos. Henk Hethuis, que era aluno de um internato católico, tinha 18 anos quando contou à polícia que um monge holandês estava abusando dele, ele foi então castrado por ordem de padres católicos e informado de que isso o "curaria" de sua homossexualidade.
O mesmo, segue o jornal, teria acontecido a dez outros meninos, colegas de Henk.
Na visão canalha da igreja católica, os "doentes" eram os meninos que sofreram os abusos, e não os padres que os cometeram.
Transferir a culpa para a vítima é procedimento comum da igreja católica em casos de abuso sexual e pedofilia.
Um caso exemplar disso, abrindo aqui um parênteses, foi o da menina de 9 anos, da cidade de Olinda, em 2009. Grávida do padrasto - que abusava dela e de sua irmã mais velha, de 14 anos - e correndo risco de morte, foi submetida a uma cirurgia para interromper a gestação.
A menina, a sua mãe e todos os médicos e enfermeiros envolvidos no procedimento foram excomungados pelo arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho. O padrasto estuprador, não.
O arcebispo argumentou que tanto o estupro como o aborto são crimes previstos na lei da igreja, mas, desses, apenas ao aborto cabe a penalidade da excomunhão.
Grande bosta ser excomungado, para mim. Contudo, para quem crê nessa merda toda, é a penalidade máxima, a vergonha absoluta, da qual o padrasto saiu ileso. Fica parecendo que a culpada pelo estupro foi a menina, que exerceu tentação irressístivel sobre o canalha do padrasto.
O repentista e poeta Miguelzinho de Princesa fez um belo cordel sobre o caso, a Excomunhão da Vítima.
Certamente, a igreja católica holandesa se valeu do mesmo raciocínio. A culpa não foi imputada aos padres filhos das putas, e sim aos jovenzinhos cujos corpos impúberes foram provação em demasia para os espíritos puros dos sacerdotes.
A culpa é do Satanás. O capetão em pessoa se apossa dos pequenos efebos para tentar os padres, para desviá-los de seu caminho de luz e em Cristo. E o demônio concentra seus poderes, sobretudo, nas piroquinhas da molecada.
Um padre não pode se deparar com uma piroca pueril possuída pelo tinhoso, imediata e inexoravelmente é atraído a se sentar nela. E não adianta fazer o pelo-sinal, rezar pai-nosso, ave-maria e salve rainha, nem tomar banho gelado, nem se açoitar com o látego. Os poderes da piroca satânica são inelutáveis.
Cortem-lhes as cabeças (as das pirocas, no caso), decreta a igreja. Privem o capeta de suas armas. Tudo em nome de Jesus.
E, engraçado, Jesus nem se importou.
A igreja católica holandesa promete apurar a denúncia e cooperar com as investigações, mas sabemos bem onde tudo isso vai dar. Em nada.
Houvesse uma nesga de dignidade e decência em suas fundações, a igreja não teria mandado castrar os meninos, e sim que tivessem costurado os cus dessa padraiada pederasta.
Fonte : BBC Brasil

terça-feira, 20 de março de 2012

Alain De Botton, Um Falso Ateu

Sou ateu. E ponto.
Não sou partidário, porém, do ateísmo, tampouco o defendo ou o promovo. Sou capaz até de, em certas circunstâncias, combatê-lo.
Que se crie uma doutrina em torno de uma crença, por mais ilógica que ela seja, e todas elas o são, tem, paradoxalmente, uma certa lógica.
Pode-se criar todo um sistema de pensamento para corroborar uma crença, ainda que tudo seja baseado em falsas premissas e estapafúrdias conclusões, mas se pode. E quanto mais sem pé nem cabeça for a doutrina, melhor ela "comprova" a existência de deus, já que a própria ideia de um deus bondoso e justo é a coisa mais sem pé nem cabeça que há.
Agora, criar uma doutrina - o ateísmo, no caso - em torno de uma inexistência, de uma ausência, de um nada, não faz o menor sentido. Chega a ser uma burrice maior do que a exibida pelos crentes.
Atualmente, há uma tendência entre certos ateus - os falsos ateus, que isso fique bem claro - de se unirem em torno de sua descrença. Encontros, reuniões, simpósios e congressos sobre ateísmo estão em voga.
Esses ateus moderados, que é como se autodenominam, querem ser amiguinhos dos crentes, querem contemporizar a celeuma, melhorar sua imagem junto à sociedade cristã.
Ateu moderado é o caralho! Ou o sujeito é ateu ou não é. Não tem meio-termo. O que seria essa porra de ateu moderado? O cara que acredita mais ou menos em deus? Ou que não acredita, mas não descarta a possível existência dele?
Não existe uma gradação para o ateu, uma escala que meça o ateísmo. O ateu é absoluto. Ou é um impostor.
Acima de tudo, o ateu, além de inteligente, tem que ser macho, tem que ter o saco roxo para assumir sua condição de descrente, tem que cagar e andar pra crentaiada, não pode estar nem aí com a imagem que se faça dele. No âmbito da fé e da descrença, não há lugar para a tucanaiada em cima do muro.
Não há ateu politicamente correto. Não pode haver. Ateu é radical. Ou é uma fraude.
O tal moderado é o cara que quer se fazer passar por ateu. Para criar uma aura de inteligência em torno de si, para se dar ares de intelectual, de livre pensador. Mas, na verdade, é um grande dum cuzão.
É o caso de Alain de Botton, filósofo suíço, que se declara um ateu moderado.
Autor do livro - vejam só o embuste - Religião Para Ateus, esse picareta diz que os ateus precisam aproveitar o que a religião tem de bom, como o estímulo à solidariedade e à aproximação entre as pessoas.
Ateu não quer se aproximar de ninguém, não quer se solidarizar com o mundo, nem salvá-lo pelo amor fraterno, ateu não faz festinha, ateu não quer fazer mais amigos do que os poucos que já tem, ateu não quer ter carteirinha do clube do Mickey.
Com vistas a seu objetivo, ele pretende organizar Santas Ceias para ateus, abrir um restaurante com o propósito de aproximar os descrentes. O restaurante é apenas parte de um projeto maior de Botton, um templo para ateus.
Ateus em um templo? Para adorar quem ? O próprio Botton?
Esse cara morre de vontade de virar pastor evangélico, ou de dar o rabo para um, morre de vontade de pagar um dízimo, de ser desencapetado, mas como é um intelectual, um filósofo, isso não faria bem para a sua imagem. Então, o cara se sai com essa farsa barata.
Sair por aí professando a doutrina do ateísmo, é fazer uma religião ao contrário. 
E eu estou fora de qualquer coisa relacionada à religião, mesmo que seja o seu oposto, que nada mais é, o oposto, do que uma imagem especular do objeto ao qual ele se contrapõe.
Ateu, sempre.
Ateísta, jamais.

A Cerveja Nossa De Cada Dia

Não são só os apreciadores do bom vinho, com grana para dar 80, 100 reais, ou mais, em reles 750 ml de líquido, é que podem ser frescos. Não são apenas os sommeliers viadinhos que podem impressionar a outros viadinhos com aquela conversa toda sobre bouquet, notas disso e aquilo, melhor comida para "harmozinar", temperatura ideal a se servir etc etc.
Você, pobre, fudido, tomador de Antarctica, Bavária, Cristal, Cintra, Sol, Belco, Glacial e outras, também pode tirar uma chinfra com uns míseros trocados. Você também pode encher o saco dos que o rodeiam - e que nada querem saber da bebida, só de beber - com detalhes sobre o dourado líquido e as formas mais sagradas de consumí-lo.
É o que garantem os Mestres-Cervejeiros da Antarctica, que dão, abaixo, informações de como melhor saborear a cervejinha nossa de cada dia.

01 - Uma latinha de cerveja tem exatamente a metade das calorias de um copo de suco de laranja (sem açúcar!)... Já aquela calabresa com cebola frita que sempre acompanha...
02 - Cerveja sai pronta da cervejaria: não pede, portanto, envelhecimento. Quanto mais jovem for consumida, melhor será seu sabor. Dura em média 90 dias.
03 - Deve ser guardada em pé, em lugar fresco e protegida do sol, para evitar oxidação prematura.
04 - Deve resfriar na geladeira sem pressa. "Não coloque no freezer, pois a violência no congelamento prejudica a bebida", afirma Cássio Picolo, um dos maiores experts de cerveja no Brasil.  
05 - Depois de gelada, deve ser consumida e jamais voltar à geladeira.
06 - A temperatura ideal para saborear as do tipo pilsen é entre 4 e 6 graus. Tomá-las "estupidamente geladas", como se diz, prejudica tanto a formação de espuma na cerveja, quanto "adormece" as papilas gustativas, comprometendo o sabor.
 07 - Copos e canecas pequenos e de cristal são os ideais, pois mantêm melhor a temperatura e a espuma. Evite canecas de alumínio, que, além de feias, tiram o prazer de apreciar o visual do líquido dourado.
08 - Resíduos de gordura no copo são fatais para a bebida: acabam com o colarinho e liberam o gás carbônico, deixando o líquido meio choco. Idem para resíduos de detergente.
 09 - "Tomar cerveja sem colarinho é uma heresia", ensina outro expert, Norberto D'Oliveira Neto. "Dois dedos de espuma são ideais para reter o aroma e evitar a liberação do gás carbônico."
 10 - A espuma cremosa revela a persistência e bom estado da cerveja. Para aproveitá-la melhor, sirva derramando uma dose. Depois, espere baixar o colarinho. Em seguida, incline o copo até 45 graus, despejando o líquido devagar enquanto o colarinho sobe.
 11 - Com 90% de água, a bebida é hidratante. E com apenas 3 a 5 graus de álcool, como as do tipo pilsen, a cerveja estimula o metabolismo, pelo menos quando ingerida moderadamente. Além disso, é rica em vitaminas, carboidratos, proteínas e aminoácidos. Apesar disso, não engorda;  é folclore associar o consumo de 80 calorias de um copo de 200 ml com a formação de barriga. Os acompanhamentos gordurosos é que engordam.

sábado, 17 de março de 2012

O Filhote De Peter Pan

Uma mãe, querendo mostrar a seu filho o valor da obediência aos ensinamentos dos pais, tomou como exemplo uma mãe bem-te-vi, que fizera o ninho no quintal de sua casa, e que estava a ensinar a arte do voo a seu filhote.
Sob a tutela da mãe, o filhote se lançava de seu ninho, batia suas descoordenadas asinhas quase implumes e fazia um pequeno voo desequilibrado, que era seguido de desastrado pouso.
Pacientemente, e quantas vezes fossem necessárias, a mãe bem-te-vi levava o filhote de volta ao ninho e o processo se repetia.
- Veja, meu filho - começou a mãe -, veja como o filhote obedece à sua mãe, veja como ele faz tudo o que ela manda sem reclamar ou chorar. Ele sabe que os pais não querem o mal dos filhos, que tudo que lhes ensinam e dizem é para o bem deles, os pais os preparam para a vida. Quando for adulto, o bem-te-vizinho só conseguirá sobreviver graças à sua mãe, que lhe ensinou a voar.
- Mãe... - pensa alto o menino.
- Diga, meu filho.
- Então, por que com a gente é o contrário ?
- Como assim, meu filho ?
- Por que vão nos desensinando a voar conforme crescemos ?

sexta-feira, 16 de março de 2012

Encheu O Cu De Dinheiro

O mundo - as pessoas - estão cada vez mais sensíveis, mais recatadas, mais e mais delicadas em seus brios, qualquer coisa ofende e macula suas impolutas honras. Uma viadagem só.
Ou, na verdade, assim se dizem, de honra ferida, para ganhar um dinheiro fácil processando àqueles que, supostamente, teriam-nas ofendido, constrangido ou exposto à humilhação. 
Toda essa educação e finura, no entanto, é unilateral, os ofendidinhos não demonstram para com os outros a mesma finesse com que querem ser tratados, o que prova as suas imposturas.
E que porra de honra é essa que se lava com dinheiro, que porra de honra é essa que tem preço tabelado no Código Penal?
Honra se lava é num duelo ao pôr do sol, Clint Eastwood de um lado e Charles Bronson de outro; honra se lava é com sabre, espada ou florete a estocar célere o coração de seu detrator, touché.
Danos morais, merda nenhuma. É a porra do politicamente correto, o estatuto do canalha.
Parece-me ser esse o caso de um ex-motorista de ônibus da Viação Andorinha, que pôs a boca no trombone ao ser demitido, após quatro anos a serviço da empresa.
O sujeito não se contentou com o fundo de garantia e demais acertos da demissão, claro que não. Tinha que levar mais do cruel e injusto patrão.
Alegou, então, que foi submetido a grande humilhação em seu exame físico admissional.
Foi obrigado a passar por uma, e aqui são palavras do próprio, inspeção anal. Teve seu fiofó, o famoso roscofe, vasculhado prega a prega para que fosse verificada a existência de possíveis hemorroidas. O exame foi realizado na frente de outros candidatos à mesma função.
Demitido, processou a empresa e o Tribunal Regional do Trabalho (TRT), na pessoa do desembargador José Geraldo da Fonseca, disse que a empresa agiu fora de seus poderes.
Não concordo. Considero o exame do brioco totalmente procedente.
O sujeito passará horas e horas sentado a um volante, muitas vezes irá varar madrugadas no comando de um veículo, as hemorroidas certamente seriam um grande obstáculo ao exercício de sua função, um cu em couve-flor não iria ajudar em nada o seu desempenho, até poria em risco os passageiros. O cara tira uma das mãos do volante por uns poucos segundos, para dar uma coçadinha no toba e aquela ajeitada pra dentro nas hemorroidas, e pronto, está feita a merda, é o suficiente para ele não conseguir brecar a tempo ou se desviar de outro veículo.
O TRT não levou isso em consideração. E encheu de dinheiro o cu do ex-motorista. O ex- funcionário ganhou o processo que movia contra a empresa e receberá 8 mil reais de indenização pela devassa em suas pregas, por danos morais.
Não é um cu barato, admito, mas, repito, que porra de honra é essa? O cara recebe 8 mil pela dedada que levou no bufante e desaparecem toda a humilhação e constrangimento que ele diz ter passado? Duzentos e cinquenta reais por prega arrebentada e, presto, todo o trauma é sanado - sim, segundo o Inmetro, um cu em bom estado de uso e de conservação tem cerca de 32 pregas.
É o homem do rabicó de ouro.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Pequeno Conto Noturno (25)

Núbia, saída da noite, passa pelo mercado 24 h, uma lata de água tônica como oferenda apaziguadora à ressaca que, em lugar de Apolo, estará a conduzir a carruagem do Sol de hoje, e um pacote de absorventes íntimos, com abas e, garante a embalagem, bem-estar e frescor que duram o dia todo.
Dá de topo com Rubens, saído de sua casa, a contragosto, um erro de cálculo o obrigou a caminhar até o mercado em busca de mais cerveja, um fardo de long necks pesa em sua cesta de compras; a noite, há tempos, para Rubens, é feito um bicho no zoo, bela, selvagem, agradável de se olhar, de fora, ele não mais enfia a cabeça na bocarra escura e carnívora dela.
Um ato reflexo faz Núbia iniciar um movimento em direção a Rubens, abraçá-lo, mas o impulso morre na medula, frente à imobilidade dele.
Sobram apenas, como sempre, e isso era o mais cansativo entre eles, as palavras.
- Você por aqui ? - começa Núbia.
- É o que parece.
- Como vão as coisas, a vida ?
- Daquele jeito.
- Ainda trabalhando?
- Quando deixam, não brigo mais para.
Há, entre eles, muitas desculpas a serem pedidas por tudo que se disseram, mais ainda pelo que não.
- Quer conversar ? - propõe Núbia.
- A julgar pelos absorventes em sua cesta, me parece que é o que há para hoje.
Saem do mercado, atravessam a rua e se sentam na beirada de um canteiro de margaridas malcuidadas, no estacionamento de uma clínica de estética, vazio a tal hora.
Rubens abre duas cervejas. Brindam um brinde que é mais praxe do que verdadeiro voto de saúde. Bebem.
Falam, mas pouco se ouvem. Nessa madrugada, todos os sons, códigos Morse, sinais de fumaça e pombos-correio, espocam dos olhos, que mal se miram.
A conversa é apenas um procedimento de segurança, um mecanismo de contenção à urgência das retinas, uma placa de contramão à revisita de sofrimentos repetidos.
Os últimos ônibus urbanos, os corujões, passam por eles, vazios, trafegando por obrigação, por hábito, apenas para fugirem ao tédio de suas garagens. Rubens e Núbia falam, e bebem.
Um ou outro catador de lixo a carregar sua féria do dia; um ou outro perdido à procura de uma farmácia de plantão, comprar antitérmico para o filho, talvez. Rubens e Núbia falam, e bebem.
O semáforo, camaleão exibicionista, faz seu malabarismo cromático para ausente plateia, nem putas ou pedintes há pelas ruas; apenas as grandes avenidas e os viadutos incontinentes se mexem vez em quando em seus sonos, espreguiçam-se incomodados, irritados por alguma ambulância ou por algum carro idiota a vomitar música alta.
Conversa vai, conversa vem, conversa volta, Rubens abre as duas últimas cervejas do fardo.
- Você não sente falta? Não sente falta da madrugada, dos bares, dos olhares desconhecidos que se reconhecem e terminam em alguma cama, falta de mim ? - pergunta Núbia.
- E isso importa ?
- Não respondeu à minha pergunta - insiste Núbia.
- E isso importa?

quarta-feira, 14 de março de 2012

O Estado Padrasto

O blog recebe comentários de vários anônimos, alguns me visitam recorrentemente. Há um que eu chamo de o anônimo de Cristo, que vive me rogando praga, dizendo que vou queimar no inferno pelas minhas blasfêmias; outro, o pior deles, é o anônimo citador; e há um outro que, até um dia desses, eu conhecia apenas como o anônimo das correções, que vive de olho  nos meus textos e a corrigir meus eventuais deslizes ortográficos e gramaticais.
Há alguns dias, o das correções se identificou : Enrique. Disse-me ter lido uma notícia que julgou interessante, escreveu um texto sobre ela e me perguntou da possibilidade de publicá-lo aqui no blog, a título de colaboração. Claro que respondi positivamente, e, hoje, recebi seu texto, que colo abaixo, sem nenhuma modificação ou correção, embora ele bem que merecesse provar do próprio veneno.
Trata de algo cada vez mais comum nos dias de hoje, a interferência do Estado na vida particular do cidadão, sobretudo na criação e educação dos filhos.
Obrigado, Enrique, pela colaboração (e pelas eventuais correções), mande outros textos sempre que quiser.

Marretowski!
Tá pronto o texto. Vou ir colando aos pedaços aqui nos comentários.
Um homem desesperado: a notícia que não chegou
Li algo que me deixou perplexo por duas razões. Primeiro, pelo fato de eu, leitor de jornais online (Folha, Estadão, Globo, Diário do comércio), não ter visto nada a respeito em nenhum dos veículos que leio. 
De fato, pesquisando hoje, tampouco encontro nada nos jornais estadunidenses que costumo ler (Washington Post e New York times). Segundo, pelo próprio conteúdo do que li. O que escrevo aqui, para alguns, terá um pouco de "teoria da conspiração". Não me importo.
Fiquei perplexo porque não soube por meio dos jornais de maior circulação no Brasil que um homem ateou fogo em si mesmo, no dia 16 de junho de 2011, na frente da Corte de New Hampshire, EUA. 
Perplexo, porque os nossos jornais, com a sua tendência sensacionalista e fofoqueira, não deixa de informar-nos sobre a calcinha da atriz hollywoodiana X que apareceu, ou do divórcio do ator Y, de 60 anos, da atriz Z de 22 anos... e coisas do tipo. 
Mas o fato de um sujeito se banhar em gasolina e atear-se fogo, queimando até a morte na frente de um tribunal nos Estados Unidos, esse não ganhou qualquer menção, nem nas páginas de notícia "séria" (falarei que é uma notícia séria), nem nas de fofoca. 
Eu só soube do acontecido hoje (04-03-2012) por um acaso, porque um blog de feminismo me conduziu a um blog de machismo que tinha links para outros blogues de machismo e uma pessoa postou a notícia como fato probante de "perseguição" aos homens. 
Mas a notícia me surpreendeu tanto que fui pesquisar e soube até que umas pessoas foram ao funeral do suicida. O fato de a imprensa brasileira não noticiar a coisa me cheira muito mal - e aqui entro na minha parte conspiratória. 
Cheira mal -pior do que carne queimada-, porque os motivos do suicídio foram as condições morais e psíquicas a que um indivíduo foi levado por causa da ingerência do Estado na vida das pessoas, em sua casa, no seu casamento e na educação dos seus filhos. Recuso-me a acreditar que o fato não foi divulgado porque é "instrução" dada aos jornais não divulgar suicídios por isso poder dar a ideia a outras pessoas: não teríamos notícias sobre Columbine, Realengo, homens-bomba e outros casos se assim fosse. 
Não, não foi divulgado porque é uma clara demonstração da destruição da vida de uma pessoa que as políticas de Estado, cada vez mais interventoras, podem causar: a perda de contato com filhos e esposa, a pobreza, a loucura... o suicídio. 
Políticas de Estado que o nosso país está adotando cada vez mais, intervindo na escolha educacional dos pais para os seus filhos, no modo de repreensão que os pais utilizam para maus comportamentos etc.
O que aconteceu, pois? Que sujeito é esse, que ateou fogo a si mesmo? O nome dele era Thomas J. Ball. Os seus problemas começaram em abril de 2001, no dia em que ele deu um tapa no rosto da filha de quatro anos. 
A esposa dele pediu-lhe que saísse de casa naquela hora. Mais tarde, ele ligou para casa e soube que ela havia chamado a polícia, e que ele não poderia dormir mais em sua residência. No dia seguinte foi preso no seu trabalho. 
Para a sensibilidade de hoje parece um absurdo dar um tapa na cara de uma criança de quatro anos... desculpo-me, mas para a minha, é impossível imaginar a minha mãe sendo presa no seu trabalho por uma ou outra cintada que me deu quando eu a tirei do sério, simplesmente seria estúpido me privar da minha mãe aos 4, 5 ou 6 anos porque ela me deu uma cintada. 
Continuando, Ball foi preso no trabalho, e veio a saber mais tarde, que se a sua mulher não houvesse ligado para a polícia e um vizinho bisbilhoteiro o tivesse feito, OS DOIS, pai e mãe, teriam sido presos, sendo ela considerada cúmplice.
Ball, levado a julgamento, foi inocentado, mas a esposa já havia se divorciado dele então. Mesmo inocentado, ele foi proibido de visitar as suas crianças. Por conta do divórcio, Ball passou a ter que pagar pensão alimentícia, que, para sustentar ex-esposa e crianças, não deve ter sido pequena.
De 2001 a 2011 seriam dez anos de pensão, mas em junho de 2011 completavam-se dois anos desde que Ball estava desempregado. No dia seguinte ao seu suicídio -caso não o tivesse cometido- ele seria preso por não pagar a pensão. 
Durante anos Ball lutou contra a justiça para reaver o direito de ver as crianças. Em vão, porque no momento da denúncia e prisão em 2001 elas passaram a ser custodiadas pelo Estado (sim, ainda que a mãe quisesse permitir a Ball que visse as visse, caberia ao Estado decidir se ela poderia deixar que os encontros acontecessem), e o Estado Omnipotente, criador e interpretante máximo das leis, não permitiu. 
Ball deixou detalhados em uma nota de suicídio de 15 páginas toda a sua luta, uma pena que não a possamos ler, porque ele a enviou a um jornal que cobra assinatura pelo acesso (http://www.sentinelsource.com/news/local/last-statement-sent-to-sentinel-from-self-immolation-victim/article_cd181c8e-983b-11e0-a559-001cc4c03286.html). 
Sabemos do seu conteúdo indiretamente porque o autor de um texto intitulado "When the State Breaks a Man" (http://freedominourtime.blogspot.com/2011/06/when-state-breaks-man.html) o menciona. 
Nela, Ball diz que o seu suicídio deve servir de "faísca" para iniciar um incêndio, uma revolta de pessoas na sua mesma situação, que, mesmo inocentadas em julgamento, veem-se privadas da família e da convivência com os filhos.
O que tem isto tudo a ver com o Brasil, não é mesmo? Nada, ao certo. Só lembra vagamente a "lei da palmada", as sentenças que criminalizam pais que preferem o “homeschooling” (http://g1.globo.com/vestibular-e-educacao/noticia/2011/02/condenado-pela-justica-casal-de-mg-mantem-filhos-fora-da-escola.html) ao invés de escolas públicas que chegam a contratar "professores" reprovados em processos seletivos e, até, que sequer os prestaram (http://www1.folha.uol.com.br/saber/1053430-alckmin-chama-professor-reprovado-para-dar-aulas.shtml), entre outras bagatelas jurídicas que transferem ao Estado o poder sobre os filhos, que -antes da insanidade dos autointitulados sabedores do que é melhor para você e seus filhos- é legitimamente dos pais.
Ball era veterano de guerra, esteve no Vietnã. Além da filha aqui citada, deixou ainda outra menina e um menino. Quando cresçam, talvez venham a ter conhecimento sobre o modo como seu pai faleceu; resta saber qual a imagem dele que lhes será devolvida pela sociedade em que irão viver quando adultos: a de um homem descontrolado e um fora-da-lei ou a de um homem desesperado, enlouquecido pela própria lei. Creio que será a primeira.
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é isso aí, marreta!

terça-feira, 13 de março de 2012

Gênios E Biscates

Faz-me um grande mal a leitura de certas obras de Bukowski. Todavia, poucas coisas me põem tão vivo e me dão visão tão nítida do mundo e da humanidade. Por isso, às vezes, arrisco-me em seus subterrâneos.
Reli "Factotum", que narra a trajetória de Bukowski pelos EUA pós-Segunda Guerra Mundial, buscando ainda ser publicado e pulando de subemprego para subemprego; demitido de todos. Apesar da linguagem propositalmente fácil de Bukowski, o livro é denso e triste.
Só não é choroso porque Buk não vacila. Nenhuma de suas linhas, por nenhum segundo, tomba às facilidade e comodidade da autocomiseração. Bukowski não chora e chora até ficar com dó dele mesmo; Buk bebe e vomita no mundo. Buk é estóico na desgraça. Não só não sente pena de si, é também seu maior crítico e algoz.
A tristeza de Bukowski não é das mundanas. É tristeza sem choro que a alivie, é tristeza abissal, sem nesga de luz no fim do túnel; sem túnel, inclusive.
No dobrar de esquina de cada página, há uma pequena e certeira porrada à espreita; no contorno de cada vírgula, uma rápida e precisa cutelada a tomar de assalto o leitor, a miná-lo lenta e infalivelmente. De novo, é tristeza rara, sem o menor respingo de pieguice. É tristeza aninhada e arraigada na placenta da melancolia. Tristeza do abandono a si próprio. 
Factotum foi transposto para o cinema, virou filme de mesmo nome. Sabendo, não resisti, e acabei por assisti-lo num dia desses. Uma porcaria. Do começo ao fim. Em tudo. Adaptação, roteiro, cenários...tudo uma merda, em nada condizente com o mundo do velho Buk. Como se não bastasse, o canastrão Matt Dillon foi o escolhido para encarnar o Velho Sujo - Bukowski lhe cuspiria na cara.
Fiz questão de ver até o fim, inclusive os créditos. A produção é uma parceria entre EUA, Noruega e Alemanha, e a responsável pelo projeto foi Linda Bukowski, a última mulher do escritor, a que estava com ele no azo de sua morte.
Os créditos finais de um filme deveriam ser os iniciais. Soubesse que ela estava metida na produção, nem teria começado a assistir.
Linda era uma estudantezinha de literatura quando conheceu Bukowski, e, imediatamente, deu-se conta do valor literário - e monetário - de sua obra. Amancebou-se ao escritor e, verdade seja dita, até cuidou dele em seus derradeiros anos; na verdade, cuidou da obra dele.
Ela foi recolhendo os escritos que Bukowski deixava dispersos pelo chão da sala, pelo quarto, pelo banheiro, cozinha etc. Humildemente, como quem recolhe as migalhas de seu senhor, foi organizando e catalogando a desordenada obra de Buk. Estava a encher o próprio baú, sabendo que viveria mais que ele e herdaria seu espólio.
Hoje, desgraçadamente, Linda é detentora dos direitos de toda a obra de Bukowski, e sobre ela tem total poder de decisão. Li uma vez - não sei se realmente procede - que os preços impostos por Linda à publicação da obra de Bukowski chegam a ser proibitivos para editoras de pequeno e médio porte.
Curioso como essa relação entre um gênio e uma aproveitadora sem talento é recorrente.
Acontece que esses caras, via de regra, são extremamente alheios às coisas práticas, muitas vezes mal se apercebem do valor do que produzem. É onde, então, eles abrem uma brecha para essas oportunistas improdutivas, que lhes "ajudam" a organizar suas vidas.
Em troca, ficam com a alma do gênio, e a comercializam. Negam-lhes, inclusive, o desejo de todo poeta maldito : o de que sua alma descanse no inferno. Prendem a alma do poeta em documento lavrado em cartório, selada, registrada, carimbada e rotulada.
Aproveitando o gancho, caso similar, no Brasil, é o de Raul Seixas. Kika Seixas, a última esposa do Maluco Beleza, esbalda-se com o legado de Raul. Decide quem grava e quem não grava as músicas dele, e, inclusive, quais músicas podem ser regravadas.
Zé Ramalho, amigo de longa data de Raul, teve o repertório de seu CD Zé Ramalho Canta Raul Seixas, um tributo póstumo, praticamente determinado por Kika Seixas. Muitas músicas que Zé pretendia gravar não foram liberadas por Kika.
Bukowski enviava de três a quatro contos semanais para revistas e editoras, esperando ser publicado. Não fazia cópia do que enviava nem tinha a certeza de que os originais seriam devolvidos. Raul, quando produtor da CBS, cansou de fazer música para os contratados da gravadora e nem punha seu nome nos créditos; o cantor estava para fechar o disco, precisava de mais uma ou duas músicas, o Raul ia lá, sentava, fazia e dava pro cara gravar.
Bukowski e Raul tinham o desapego que todo gênio tem da própria obra. Para eles, é igual a cagar. Podem até passar um, dois ou três dias constipados, mas têm a certeza de que logo a cagada desce, farta e quente.
O mesmo não acontece com suas ex-mulheres. Se elas não forem mesquinhas e gananciosas com as obras dos maridos, nada terão, pois nada são capazes de produzir. Totalmente desprovidas de talento, aferram-se ao legado do defunto, os cadáveres dos maridos são suas galinhas dos ovos de ouro, suas imerecidas aposentadorias.
Urubus da genialidade alheia, essas mulheres. Sem nenhuma criatividade, a roer e chupar o tutano dos verdadeiros criadores, sem-terras escrotas a estabelecerem assentamentos sobre latifúndios intelectuais e a usufruírem de todas as suas benfeitorias, nenhuma realizada por elas.
Acabam mesmo acreditando - tamanhos os cinismo e descaramento - que, por terem vivido ao lado do gênio, são responsáveis por parte de sua obra, coautoras, até.  Tsc, tsc, tsc.
Um brinde do mais puro e intragável rum - aquele da adega especial do Barba Negra - aos gênios criativos, escritores, pintores, músicos, cientistas etc.
E um trago de bosta às suas mulheres parasitas. Que nem sanguessugas podem ser consideradas, o sangue do poeta lhes é dádiva demasiada. São tênias, que mais do que os excrementos do gênio não merecem. Que não merecem sequer uma bela esporrada em suas caras.

domingo, 11 de março de 2012

Bebuns Psicodélicos

Aí, fica fácil.
Um novo tratamento contra o alcoolismo está sendo proposto pelos pesquisadores noruegueses Teri Krebs e Pal-Orjan Johansen.
O estudo nada tem de novo, os dois noruegueses revisitaram estudos feitos entre 1966 e 1970 e confirmaram os resultados originalmente obtidos há mais de 40 anos : o LSD, uma das mais poderosas drogas alucinógenas conhecidas pelo homem, inibe a compulsão pelo consumo de álcool.
Mais de quinhentos bebuns de carteirinha, pinguços militantes, daqueles filiados aos seus sindicatos, foram utilizados em seis experimentos, nos quais um grupo recebeu doses de LSD entre 210 e 800 microgramas, e outro, menos afortunado, contou apenas com sua determinação em largar o vício, apenas com sua força de vontade, meditação, ioga, visitas ao psicólogo, apego a uma religião e outras bobajadas.
Dos que receberam o sagrado psicotrópico, 59% mostraram uma queda no consumo de bebidas alcoólicas; apenas 38% do outro grupo exibiram resultados similares. O estudo foi publicado no Journal of Psychopharmacology.
Uma melhora da autoimagem, dizem os pesquisadores, e talvez seja esse o motivo do grande sucesso do LSD, é fundamental ao sujeito que queira se livrar da dependência do álcool, ele precisa aumentar a estima de si mesmo, precisa operar enormes mudanças na maneira de como se vê. E é exatamente isso o que o LSD faz, afirma Pal-Orjan Johansen.
Eu acho que procede. Não sou cientista nem pesquisador, muito menos norueguês, mas acho que procede. O cara toma o LSD e passa a se ver de uma maneira totalmente diferente. Passa a pensar que é um protozoário, um asquelminte fosforescente, uma estrela-do-mar sonora, um michel teló, um cogumelo falante, uma sequóia, uma água-viva, um passarinho com tentáculos de polvo no lugar das asas etc etc.
Tudo, menos um ser humano. E, óbvio, larga da cachaça.
O efeito de uma única dose, asseguram os noruegueses, persiste por 6 meses, quando, então, começa a decair e desaparece por completo depois de um ano.
"De acordo com as provas sobre o efeito benéfico do LSD contra o alcoolismo, é difícil entender por que esta abordagem de tratamento foi amplamente ignorada". É um efeito muito forte. É difícil encontrar algo com resultados tão bons. Provavelmente, não há nada melhor (para tratar alcoolismo)", eles afirmaram.
Quer dizer que se o cara for viciado em analgésicos - dipirona, ibuprofeno, paracetamol -, basta tratá-lo com morfina? Uma dosezinha de morfina e o cara nunca mais quer ver um comprimido de neosaldina pela frente.
Tenho certeza de que o "tratamento" funciona. Se o cara tiver acesso legal ao LSD, uma cervejinha servirá de quê?
Esses noruegueses só podem estar de sacanagem, estão é querendo conseguir legalmente o LSD sob o pretexto de pesquisa científica.
Mas tem o seguinte : se o tratamento se mostrar eficaz, tiver seu uso aprovado pelos conselhos de medicina, e os A.A. (alcoólicos anônimos) começarem a fornecê-lo a seus membros, no mesmo dia, eu faço a minha adesão. Não faltarei sequer a uma reunião.
Fonte : BBC Brasil

quinta-feira, 8 de março de 2012

Pagando A Dívida Em Verdinhas

A cidade espanhola de Rasquera pretende pagar em verdinhas sua dívida de 1,3 milhões de euros. As verdinhas, no caso, não são notas de dólar. São folhas de Canabis sativa, a maconha, a diamba, o bagulho, a bazuca, o beck, a marijuana, o cigarrinho do capeta.
A lei espanhola permite o cultivo e o consumo da erva em bases pessoais ou compartilhada; o tráfico é punido com penas de até 6 anos de xilindró.
A Associação de Uso Pessoal de Canabis de Barcelona, associada à Prefeitura de Rasquera, quer começar o cultivo em julho, nas montanhas da Catalunha, e já gastou 40 mil euros (120 mil reais) no arrendamento de um terreno de sete hectares, o equivalente a dez campos de futebol
A população de Rasquera, com pouco menos de mil habitantes, vê o cultivo da chibaba com desconfiança. 
Alguns cidadãos aprovam o plantio caso sua venda seja destinada às indústrias de medicamentos, para a confecção de remédios à base do THC, o princípio ativo da maconha; para uso recreativo, a população condena o cultivo.
Além de pagar a dívida do munícipio, o plantio gerará cerca de quarenta empregos diretos - o que corresponde a  5% de sua população. Segundo o prefeito, o cultivo oficial enfraquecerá o mercado negro e promoverá a segurança local.
As autoridades espanholas declararam que esse tipo de atividade é ilegal e que promotores vão investigar o caso e intervir assim que possível.
Se o Brasil resolve entrar nessa, pagamos a dívida de todo o Terceiro Mundo, e ainda sobra pra emprestar uns trocados para a Grécia.
Fala-se muito em investir na pequena propriedade e na agricultura familiar. Eis uma bela sugestão, diretamente de Rasquera. 
Coloquemos todo esse povo encostado e inútil do MST para plantar maconha. E o Fernando Gabeira como ministro da Agricultura. Mas sem sunga de crochê, façam-me o favor.
Fonte : BBC Brasil

quarta-feira, 7 de março de 2012

Fora Com A Porra Do Crucifixo

O Brasil, declara sua Constituição, é um estado laico, que não está atrelado a nenhuma religião nem sofre influência de alguma.
É comum, no entanto, a presença de imagens religiosas nas repartições públicas, escolas, hospitais, câmaras municipais, até em tribunais.
O campeão disparado é o crucifixo, o Cristo lá, só de sunga e com cara de coitado, de vítima, um bon vivant é o que ele foi, supondo, claro, sua existência sem provas;  já vi também rosários, imagens de santos e bíblias abertas nos mais diversos setores públicos, em clara infração à Constituição.
Sem contar os funcionários públicos que são verdadeiros outdoors da ignorância humana, dirigem-se ao seu trabalho vestindo camisetas com imagens de santos, ostentam enormes cruzes a penderem em meio aos seus flácidos peitões gordos, usam escapulários etc.
É um claro absurdo, mas poucos são os que tem a coragem de contestar esse crime, poucos são os que tem a coragem de fazer valer a lei.
Num ótimo exemplo a ser seguido, a ONG Liga Brasileira de Lésbicas - odeio ONGs, mas adoro as lesbiquinhas - pediu judicialmente a retirada de todos os crucifixos e demais símbolos religiosos das salas do Judiciário do Estado do Rio Grande do Sul.
O pedido já havia sido feito pelas moças do sapato grande no ano passado, e negado pelo TJ.
Sem machos no RS para encarar essa briga, as raladoras de coco insistiram no pedido e foram atendidas pelo desembargador Cláudio Baldino Maciel : "um julgamento feito em uma sala onde há um "expressivo símbolo" de uma doutrina religiosa não é a melhor forma de mostrar que o julgador está "equidistante" dos valores em conflito".
Os religiosos, as beatas sopradoras de apito de chamar anjo, as crentes dos cus quentes, ainda tentam "argumentar" a favor da manutenção do Cristo pelado, dizendo que o Estado é laico - desvinculado de qualquer religião -,  mas não é ateu - descrente de deus.
Que seja. Então, tirem o Cristo - que representa uma única doutrina religiosa - e coloquem uma foto de deus. Não dá, né? O filho da puta não existe.
E se um juiz, um diretor de um hospital, de uma escola pública, ou mesmo um parlamentar, pusessem um orixá africano em suas salas? Ou um deus hindu com cabeça de elefante ou de pica? Ou, até, a imagem do capeta?, o satanismo também é uma religião.
É só a cruz que pode? Pois que a enfiem em vossos cus, com o Cristo e os pregos juntos.
Parabéns à justiça gaúcha, pelo cumprimento da lei, do óbvio.
E parabéns em dobro às coladoras de velcro dos Pampas, as verdadeiras detentoras do saco roxo em seu Estado. Adoro as lesbiquinhas (já falei isso, né?)

terça-feira, 6 de março de 2012

O Cine São Paulo

Faço a pé o meu caminho para o trabalho.
Só com isso, "contribuo" muito mais para com o planeta e o meio ambiente do que um exército de ecologistas militantes em seus carrões, esse bando de nazistas verdes filhos das putas.
O ecologista é o gordo em eterno regime. O cara come, sozinho, uma pizza grande com bordas recheadas de catupiry. Com coca diet, porém. Para aplacar a culpa.
O ecologista, como todos nós, usufrui de todas as benesses e comodidades de uma sociedade virulentamente industrializada, capitalista e predadora; contribui também para que ela seja assim através de seu consumismo. Mas usa sacola retornável ao fazer suas compras, separa a porra de seu lixo para a coleta seletiva, usa detergente biodegrádavel, papel reciclado etc.
A sacola retornável e a coleta seletiva são a coca diet do ecologista. Não valem de porra nenhuma. Apenas aplacam a consciência culpada do sujeito, auxiliadas pela burrice inata a ele.
Claro que não ando a pé pelo bem do planeta, merda nenhuma. Assumo tranquilamente a natureza destrutiva e perniciosa de minha espécie.
Ando a pé porque me faz bem. Se contribui para o oxigenação do planeta, eu não sei, mas que oxigena pra caralho o meu cérebro, isso oxigena. E meu cérebro é o meu mundo, o meu planeta.
Tenho quatro rotas para o trabalho, entre as quais me alterno ao longo da semana; às vezes, mesclo essas rotas e elas se tornam doze, dezesseis, vinte. 
Li, em algum lugar, que não é saudável, para o cérebro, mantermos a rotina de um mesmo trajeto. Mudar constantemente de caminho, obriga o cérebro a prestar mais atenção ao derredor, a trabalhar mais, manter-se mais atento e, em suma, mais ativo.
Na minha rota de número dois, passo em frente a um prédio morto, no velho centro da cidade, que foi, outrora, o imponente Cine São Paulo, localizado no térreo do edifício mais antigo da cidade; se não, o segundo.
O seu letreiro de neon ainda está lá, quebrado, sem nenhum neon a lhe correr nas veias; o guichê da bilheteria está no mesmo lugar, sem a placa com o horário das sessões e o preço do ingresso ao alto, e sem a bilheteira a nos cobrar a carteirinha de estudante a propósito da meia entrada e da verificação de nossa idade; o carpete da entrada, do qual bem me lembro, felpudo e azul, apresenta-se uma lixa de cor indecifrável; o balcão de doces, cujo corpo de polido vidro nos permitia divisar jujubas e Mentex em suas entranhas, está rachado de rugas, macilento, amargurado.
Guardo boas recordações do Cine São Paulo, e da época em que ele e mais outros onze cinemas se espalhavam pelo centro da cidade, antes do advento dos hediondos e impessoais shopping centers.
Foi na sala escura do cine São Paulo que assisti ao clássico Star Wars, em 1977 - sala com cheiro de cinema (as salas, hoje, não cheiram mais a cinema, tem o mesmo cheiro que o banheiro dos shoppings em que se localizam).
Um tremendo choque, um tremendo de um bom choque, o primeiro filme da primeira trilogia de George Lucas. Nada havia como, ou parecido, ao que víamos na grande tela do cine São Paulo, era algo totalmente inédito. Exceção concedida aos nossos sonhos, nunca havíamos visto carros voadores e espadas laser a se acenderem.
Durante muito tempo, no recreio da escola, discutimos de que maneiras eram feitos cada um dos truques do filme, aventávamos as mais absurdas hipóteses. A imaginação de George Lucas foi um incentivo e exercício às nossas.
Até hoje, quando, por acaso, vejo trechos do primeiro episódio de Star Wars, a lembrança do cine São Paulo é inevitável. E, ainda que pudesse ser, evitá-la por quê?
Com o declínio do velho centro e a migração insana para os shopping centers, o cine São Paulo e seus onze companheiros adoeceram; vítimas de um vírus epidêmico, definharam, agonizaram e morreram. Uns mais rápido que outros.
O cine São Paulo e o cine Comodoro resistiram bravamente, tornaram-se cinemas pornôs, como último recurso, como tentativa de um último fôlego, uma sobrevida quase digna de seus áureos tempos.
Já era a decadência, sem muita elegância. Ainda assim, reservo boas lembranças também dessa fase do cine São Paulo.
Em tempos em que a internet sequer era sonhada, tampouco o acesso irrestrito à pornografia que ela nos proporcionou, o cine São Paulo tornou-se um oásis de bundas, bucetas e peitos; eram tempos em que o próprio - e já extinto - videocassete era muito pouco acessível e difundido.
Vi grandes clássicos do pornô no cine São Paulo, Garganta Profunda, O Diabo na Carne de Miss Jones, toda a série Taboo Americano.
Eram dias mais inocentes dos cinemas pornôs, bem antes deles se transformarem nos pontos de prostituição masculina que são hoje.
Geralmente, íamos em grupo de três ou quatro amigos, na sessão das 20 horas. Antes, comíamos um lanche no Xis (à época, o hambúrguer mais barato da cidade) e passávamos em uma banca para comprar uns gibis de super-heróis, que colecionávamos assiduamente. Já em casa, cada um na sua, lembrávamos das cenas do filme e socávamos uma bela bronha.
Hamburgão, gibizão, pornozão e punhetão... Éramos felizes. E bem sabíamos disso.
Hoje, sempre que passo pelo túmulo do cine São Paulo, ergo um brinde de rum imaginário à sua memória, às nossas memórias.
Se eu rezasse, faria-o para que a alma do cine São Paulo repousasse em paz por toda a eternidade. Rezasse, faria-o fervorosamente pela sua demolição, seu honroso funeral. Rezasse, cairia de joelhos na intenção de que seu prédio jamais se torne mais uma dessas igrejas evangélicas, que é o pior que pode acontecer com a alma de qualquer um.

sábado, 3 de março de 2012

Que Fossa, Hein, Meu Chapa, que Fossa...(4)

Um clássico. Simplesmente.

Trocando Em Miúdos
(Chico Buarque/Francis Hime)
Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim!
O resto é seu.


Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças.


Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter.


Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado.


Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu.

Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde.

Diretora Poderá Ser Punida Por Querer Moralizar Escola

Quem tem mais de 30, 35 anos (ou mais de 40, no meu caso), sempre foi à escola devidamente trajado com o uniforme exigido pela instituição. Fato que nunca nos traumatizou ou nos fez sentir tolhidos em nossa liberdade e individualidade.
Cheguei a frequentar a escola em épocas de uniforme total, ou seja, camisa branca, de botões, com emblema da escola, bermuda azul-marinho para os meninos, saia de mesma cor e de comprimento decente para as meninas, que no inverno eram substítuidos por calça de abrigo, sapato preto da vulcabrás com meias brancas, tênis conga para a educação física. Quem não estivesse trajado na íntegra não assistia às aulas. E fim de papo. Sem discussões ou debates sobre.
Com o tempo, foi aceita a calça jeans e o tênis preto ou azul-marinho, foi mantida apenas a camiseta (já sem botões) com o brasão da escola, mas ainda numa única cor. Acho que já era a má influência das teorias peidagógicas modernas começando a agir. 
O passo seguinte foi oferecer a camiseta da escola em diversas cores e modelos, permaneceu apenas o nome da escola impresso, pequeno, no canto, apagado, só um detalhe.
A escola, para agradar sua clientela, parecer moderna e democrática, instituiu o paradoxal uniforme variado. O multiforme, como eu o chamo há tempos.
Isso sem contar as camisetas de formatura, nas quais cada turma de terceiro ano do ensino médio e de oitava série do fundamental põem os nomes da sala toda nas costas, escolhem-nas  na cor que desejam e as estampam com os mais estapafúrdios desenhos e frases.
O brasão da escola praticamente desaparece, fica feito os emblemas dos times de futebol de hoje, perdidos em meio às logomarcas de seus patrocinadores.
Todo esse desregramento e licenciosidade, porém, ainda são poucos para os jovens da atual geração, em sua maioria, sem normas, limites nem a mínima noção de respeito, maus hábitos que praticam dentro de suas próprias casas; em sua maioria, filhos de pais mais indisciplinados, ignorantes, idiotas e babacas que os próprios filhos.
Hoje, grande parte dos alunos das escolas públicas se recusa a usar o uniforme da instituição, mesmo que ele já seja o multiforme, lhes oferecido nas mais diferentes versões. Chegam para as aulas vestidos da maneira que bem lhes apraz.
O pior : a escola nada pode fazer de muito incisivo contra. Pasmem os que não sabem do que vou dizer, mas há uma lei que proíbe a escola de barrar o aluno pela falta do uniforme; hoje, a escola é que é proibida de tudo, não o aluno.
Sim, há uma lei que não mais dá o direito à escola pública de cobrar o uso do uniforme. O aluno vai uniformizado se quiser, se ainda tiver a sorte de possuir pais conscientes.
A escola, segundo dizem as leis de diretrizes e bases, tem a função de educar o aluno, mas não há leis que garantam às escolas o efetivo exercício desse encargo. Para que bem se eduque, há a necessidade de normas e leis inflexíveis a ampararem o processo. Essas normas não mais existem.
Os embates, portanto, são mais que previsíveis. E inevitáveis.
Foi o que aconteceu na E.E. "Dr. Alarico Silveira", na Barra Funda, zona oeste de São Paulo.
Cansada do desrespeito ao uniforme e do abuso praticado pelos alunos, a diretora decidiu moralizar o ambiente escolar, decidiu fazer o que as leis de diretrizes e bases do ensino apregoam, educar aqueles adolescentes a se portarem da devida maneira em ambientes que não sejam os de suas casas.
Auxiliada por professores, a diretora ficou no portão de entrada da escola e impediu o acesso de um grupo de "estudantes" de 15 e 16 anos, em sua maioria mulheres, trajado de forma não concernente ao convívio escolar.
Impediu a entrada de estudantes vestidas de forma "sexy e provocativa". Blusas justas, sutiãs coloridos e saias apenas "conceituais" foram os critérios da triagem. Ou seja, a diretora impediu a entrada da biscataiada na escola.
No que fez muito certo. A escola não é lugar de quem se veste feito puta. Não deveria ser, pelo menos.
A reclamação foi generalizada, alunos e seus pais se queixaram formalmente da diretora à Secretaria Estadual da Educação, acusam-na de abuso de poder e de submeter seus filhos a constrangimento.
Constrangimento? A menina vai para a escola com os peitos de fora, o rego do cu aparecendo, a buceta a tomar vento, e se sente constrangida pela ação disciplinar da diretora? É brincadeira? Não, não é.
A Secretaria Estadual da Educação, recebedora da denúncia dos pais, afirmou, por meio de nota, que determinou que o episódio seja apurado em caráter de urgência. Depois disso, analisará as "medidas cabíveis" contra a atitude da diretora.
Por querer punir o que era justo que fosse, ela, a diretora, é quem o será. É o cu da cobra. É o poste mijando no cachorro e a merda enterrando o gato.
Acredito que a punição a ser decidida para a diretora, pelo pouco que conheço do serviço público, nada terá de sumária ou definitiva; não obstante, qualquer que seja, será por demais severa, uma vez que imerecida. 
Ela não será afastada de suas funções, tampouco exonerada de seu cargo. Provavelmente, ela receberá uma dura advertência de seu superior imediato e terá de se retratar, pedir desculpas a libertinos e imorais pais e filhos.
Nada de muito sério e irreparável será lavrado em sua ficha funcional.
Apenas a humilhação ante desclassificados, a constatação da inutilidade de décadas de esforço a serviço da Educação e a sensação do dever nunca cumprido, nunca deixado que ela o cumprisse.
Só isso.
Na reportagem que li, não foi citado o nome da diretora, apenas o de sua escola. De qualquer forma, o Marreta a parabeniza pela atitude moralizadora. Faz votos de que ela tenha sempre, e muito firme, a certeza de ter agido corretamente, e de que não se abale frente a esse lamentável e injusto revés.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Um Pouco De Tietagem

O meu modesto bloguezinho tem uma média de 60, 70 acessos diários, o que eu considero um bom número, visto que ninguém me conhece, que não ponho propaganda etc etc.
Qual não foi minha surpresa ao ver que, das 21 horas de ontem até as 23 e pouquinho, mais de 300 pessoas haviam acessado o Marreta.
Havia três comentários elogiando o texto Da Inteligência e De Seus Usos (Ou o Paradigma de Roger Moreira), um dos quais feito por alguém que se identificava como o próprio Roger, vocalista do Ultraje a Rigor.
Duvidei, claro. Achei que fosse uma pegadinha, e respondi isso no comentário. Fui dormir.
Intrigado, acordei, fiz um cafezão para rebater a ressaca e liguei a net (o número de acessos já ultrapassou os quatrocentos agora). 
O cara havia respondido ao meu comentário. Confirmava sua identidade, era mesmo Roger, e fornecia seu endereço no twitter caso eu quisesse confirmar.
Fui ao twitter e estava lá, o cara é realmente o Roger, e ele postou em seu twitter o endereço do Marreta. Daí, esse acesso recorde. Meu poderoso Marretão está felicíssimo, mais em riste do que nunca.
Roger foi um dos ídolos de minha geração, quando éramos adolescentes nos anos 80. Receber um elogio do cara de quem a gente comprava discos é muito legal, quase surreal. Ainda mais que o cara tem um QI de 172.
Puta que o pariu. Um gênio elogiou um texto meu.
Valeu, Roger, pela indicação em seu twitter.
Obrigado por ter invadido a praia do Marreta.
Abraços.

Em tempo : o twitter de Roger, a quem interessar possa, é o @roxmo

quinta-feira, 1 de março de 2012

Uma Elegia À Cláudia Ohana (3)

"...E me agarrei nos teus cabelos
Nos teus pelos, teu pijama
Nos teus pés, ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta..."

Da Inteligência E De Seus Usos (Ou O Paradigma de Roger Moreira)

O indivíduo que possua um QI de 140, 160, ou 180 pontos, tem que, obrigatoriamente, realizar grandes feitos com ele? Tem que, necessariamente, colocar suas habilidades a serviço do resto da humanidade (leia-se, a serviço dos burros) ou dedicá-las às causas consideradas nobres?
Não. Óbvio que não. Porra nenhuma que tem.
As habilidades são dele, bem como a decisão do uso que dará a elas. E quem não as tem que se foda.
O inteligente não tem obrigação alguma de pôr suas pestanas a queimar em prol do bem comum, em prol da melhoria da vida humana.
Ele até pode, se quiser. E alguns superdotados até o fazem, e o fizeram. O inteligente, porém, pode muito bem "trabalhar" só para si, pode muito bem usar suas potencialidades para obter, sem muito esforço, uma vida cômoda e aprazível.
Ele não tem que curar o câncer, colocar o homem em marte, decifrar buracos negros ou a origem do universo. Ele pode usar a sua inteligência para fazer a merda que quiser. 
Ele não recebeu a sua inteligência de um deus, junto com a incumbência de usá-la em favor dos menos favorecidos. Ele pode usá-la, inclusive, para não fazer nada.
Aliás, é necessária muita inteligência para decidir nada fazer, para perceber que nada do que for realizado mudará o mundo ou resultará em melhoria da espécie humana. 
É necessária muita inteligência para se dar conta da inutilidade de qualquer grande feito.
Um bom exemplo disso é Roger Moreira, o vocalista do grupo Ultraje a Rigor. Sim, o autor de Inútil e Marylou tem um QI de 172. Um dos mais altos do país, quiçá do mundo. Roger pertence à MENSA, uma organização internacional, com subsedes em vários países, que tem como membros os maiores cérebros do planeta.
Jô Soares, por exemplo, morde-se de ciúme (e de inveja) de Roger. Em uma de suas entrevistas com Roger, o gordo disse não ser membro da MENSA, que chegou a fazer o teste, mas, admitiu acanhadamente ao líder do Ultraje, que seu QI não ultrapassou os "modestos" 152 pontos.
Multitalentos, Jô Soares é humorista, escreve para a TV, teatro, cinema e literatura, atua, dirige e é artista plástico. Não faz parte da MENSA.
Roger, lá com seu rockinho básico e suas letras simples, safadas e bem-humoradas, é membro honorário.
Roger poderia ter uma produção artística tão grande quanto a de Jô Soares, ou até maior? Sim, claro que sim. E por que não a realiza? Porque não quer. Porque não precisa. Pura e simplesmente. E ponto.
Roger é aquele tipo de gênio cuja inteligência lhe permitiu claramente perceber a grande piada que é a existência humana, e a grande piada que ela sempre será. Roger optou por participar da piada ao invés de combatê-la; optou em escarnecer da farsa de dentro da própria.
Em termos de grandes feitos, Jô Soares supera Roger Moreira em muito. Em termos de inteligência, está aquém dele.
O inteligente, o verdadeiro, tem plena consciência de seu potencial, não precisa prová-lo a todo instante. Para ninguém. Nem para ele mesmo.
É o burro que fica cobrando a realização de grandes feitos por parte do inteligente. É o burro que acha que o inteligente deve grandes realizações à humanidade. É o burro que exige que o inteligente faça por ele o que ele (burro) não é capaz, não nasceu dotado para.
E de todos os burros, a sua pior subespécie : os citadores.
Os citadores são aquelas pessoas que, justiça lhes seja feita, sempre estudaram muito, sempre leram muito, devoraram livros e mais livros, feito traças ninfomaníacas.
Apesar disso, os citadores são incapazes de terem ideias próprias, uma única que seja. Até entendo o martírio deles, viver em um mundo de ideias e não as ter por conta própria.
Os citadores precisam desesperadamente do inteligente. O citador mal entabularia uma conversa de boteco se não se apossasse da fala do inteligente; comunicaria-se por mímica, o desgraçado citador, se não houvesse o inteligente.
O citador precisa de que o inteligente o abasteça de ideias continuamente, dai a cobrança por grandes feitos. Longe do inteligente, o citador entra em síndrome de abstinência.
E o citador sai falando, alto e sem parar, para que todos, querendo ou não, interessados ou não, saibam de sua falsa erudição, sai vomitando tudo o que engoliu, sem digerir nem entender picas.
O citador é o intelectual photoshopado. A gente olha a gostosa na capa da revista e ela não é tão gostosa assim, é tudo fake computadorizado.
A gente escuta o citador e acha que ele é inteligente. Não é porra nenhuma. Basta uma olhada um pouco mais atenta e veremos que o citador é puro photoshop, façamos um escrutínio um tanto mais minucioso e as estrias e celulites de sua burrice surgirão, flácidas e assustadoras.
Só para finalizar, cito aos citadores um trecho da música Nada a Declarar, letra de Roger Moreira, o rei do QI e da vida mansa :
"Eu não tenho nada pra dizer
Também não tenho mais o que fazer
Só pra garantir esse refrão
Eu vou enfiar um palavrão : cu."