terça-feira, 20 de novembro de 2012

O Ilustrador (parte 2)

Tinha prometido ir almoçar na casa da Bernadete, mas não tava com paciência para a comida da Bernadete e nem para comer a Bernadete depois disso, sei que ela ficaria furiosa, mas logo se acalmaria, sabe que eu apareceria mais tarde, sabe que não tenho muito mais pra onde ir. 
Preferia ter almoçado sozinho, mas a despensa vazia me fez ir almoçar na casa da minha mãe. Minha mãe me recebeu dizendo que eu devia aparecer mais, que tô que é só pele e osso, que devia arrumar uma mulher pra cuidar de mim, quase disse da Bernadete, fiquei quieto mastigando uma batata frita, a Bernadete não é o tipo de mulher que minha mãe aprovaria, chupei uma laranja e disse que tinha que ir, ela me fez prometer que iria cuidar mais de mim, da minha saúde, eu prometi e ela acreditou, quer dizer, eu fingi prometer e ela fingiu acreditar, eu sabia que não ia cumprir minha promessa e ela sabia mais ainda, mãe sempre sabe mais que a gente, mas pensam que fingindo acreditar, os filhos cumprirão o prometido para não magoá-las, nós nunca cumprimos. Senti uma coisa boa quando me despedi dela, uma vontade de dar um beijo na sua testa, não dei, só fui embora, nunca tinha dado um beijo nela, só levaria a mais perguntas, e eu tinha pressa, não havia o que eu pudesse fazer, e fui embora. 
Para que eu tinha pressa?, só se fosse para não chegar ainda na casa da Bernadete. Fui prum parque da cidade cheio de árvores, lagos, ver se conseguia desenhar alguma coisa, umas paisagens. Foi nesse parque que conheci Bernadete, estava rascunhando lá umas tartarugas tomando sol nas pedras e a Bernadete chegou por trás de mim e disse que tava muito bonito o meu desenho. Nem duas horas depois, eu já tava no apartamentão da Bernadete, enfiado no meio das pernas da Bernadete. Depois, enquanto Bernadete se lavava no chuveiro, a Bernadete sempre se lava depois, eu pensei que tudo bem, meus desenhos não me davam o sustento, mas já era alguma coisa se me traziam alguma buceta. Muito depois soube que não foi meu desenho que pegou a Bernadete, nem pra isso servem, foi a Bernadete que me pegou usando meu desenho, tempos depois confessou que achou meu desenho horrível, a cabeça da tartaruga parecia um champignon, champignon é um cogumelo, a Bernadete me disse quando perguntei, mas que elogiou só pra me comer, que nem aqueles caras que dizem pruma gorda que ela não precisa perder peso e a idiota cai direitinho na arapuca, eu também caí, tudo bem, Bernadete é boa.
A Bernadete tem 44 anos, é 18 anos mais velha que eu, tá com tudo em cima, é viúva, viúva fresca diz ela e ri, nunca consegui entender a graça disso, perdeu o marido de quem não gostava e ganhou a pensão dele, que não é muita coisa segundo sua boca, mas é capaz de sustentar uma vida de pequenos vícios e manter os dentes brancos e saudáveis, nunca vi Bernadete fumar, cheirar, injetar, raramente tomava vinho, então achei que seu pequeno vício fosse dar morada a garotões como eu, não era morada grátis, ela cobrava em suor e porra, mas não dava pra reclamar, também nunca perguntei isso pra Bernadete, futebol e religião a gente até discute e condena, os vícios, não, ninguém deve falar e julgar os vícios dos outros, todos nós precisamos de alguns, e se esse era um dos da Bernadete, tudo bem, não importava pra mim. 
Tava sentado num banco lembrando disso e desenhava um martim-pescador que tava morgando na beira d’água, nem sei pra que tava desenhando essa merda, quando chegou um velho e disse que queria saber desenhar bonito assim, pergunto pra ele, se por acaso, ele é, ou conhece, algum editor de livro ou revista de vida animal, ecologia, essas coisas, ele olhou pra mim com estranheza e disse que não, então eu mandei ele ir passear, encher o saco de outro, o velho saiu naquele passo de velho que a gente nunca sabe se é falta de força ou se é só pra gente ter dó, não fui rude com o velho porque ele achou meu desenho bonito, foi porque de que adiantava isso? Senti uma coisa ruim, teria sido capaz de afogar o velho num dos lagos, amarrar seu corpo descarnado nas pedras para ele não flutuar e voltar todo dia pra ver o quanto os cágados e as tilápias já tinham comido dele, mas não havia o que eu pudesse fazer, só o que fiz foi rasgar o esboço do martim-pescador, levantar do banco de cimento, jogar uma pedra no martim-pescador, o filho da puta nem piscou, de tão longe que a pedra passou, e fui embora.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Guarani Kaiowá De Boutique - Luiz Felipe Pondé

Pondé foi direto ao alvo em relação aos nossos "bons" indígenas : "Sou contra parques temáticos culturais (reservas) que incentivam dependência estatal e vícios típicos de quem só tem direitos e nenhum dever. Adultos condenados a infância moral seguramente viram pessoas de mau-caráter com o tempo"
Abaixo o texto na íntegra, publicado na Folha de São Paulo de hoje, 19/11; os trechos destacados em vermelho são por minha conta.
Guarani Kaiowá de boutique
As redes sociais são mesmo a maior vitrine da humanidade, nelas vemos sua rara inteligência e sua quase hegemônica banalidade. A moda agora é "assinar" sobrenomes indígenas no Facebook. Qualquer defesa de um modo de vida neolítico no Face é atestado de indigência mental.
As redes sociais são um dos maiores frutos da civilização ocidental. Não se "extrai" Macintosh dos povos da floresta; ao contrário, os povos da floresta querem desconto estatal para comprar Macintosh. E quem paga esses descontos somos nós.
Pintar-se como índios e postar no Face devia ser incluído no DSM-IV, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.
Desejo tudo de bom para nossos compatriotas indígenas. Não acho que devemos nada a eles. A humanidade sempre operou por contágio, contaminação e assimilação entre as culturas. Apenas hoje em dia equivocados de todos os tipos afirmam o contrário como modo de afetação ética.
Desejo que eles arrumem trabalho, paguem impostos como nós e deixem de ser dependentes do Estado. Sou contra parques temáticos culturais (reservas) que incentivam dependência estatal e vícios típicos de quem só tem direitos e nenhum dever. Adultos condenados a infância moral seguramente viram pessoas de mau-caráter com o tempo.
Recentemente, numa conversa profissional, surgiu a questão do porquê o mundo hoje tenderia à banalidade e ao ridículo. A resposta me parece simples: porque a banalidade e o ridículo foram dados a nós seres humanos em grandes quantidades e, por isso, quando muitos de nós se juntam, a banalidade e o ridículo se impõem como paisagem da alma. O ridículo é uma das caras da democracia.
O poeta russo Joseph Brodsky no seu ensaio "Discurso Inaugural", parte da coletânea "Menos que Um" (Cia. das Letras; esgotado), diz que os maus sentimentos são os mais comuns na humanidade; por isso, quando a humanidade se reúne em bandos, a tendência é a de que os maus sentimentos nos sufoquem. Eu digo a mesma coisa da banalidade e do ridículo. A mediocridade só anda em bando.
Este fenômeno dos "índios de Perdizes" é um atestado dessa banalidade, desse ridículo e dessa mediocridade.
Por isso, apesar de as redes sociais servirem para muita coisa, entre elas coisas boas, na maior parte do tempo elas são o espelho social do ridículo na sua forma mais obscena.
O que faz alguém colocar nomes indígenas no seu "sobrenome" no Facebook? Carência afetiva? Carência cognitiva? Ausência de qualquer senso do ridículo? Falta de sexo? Falta de dinheiro? Tédio com causas mais comuns como ursinhos pandas e baleias da África? Saiu da moda o aquecimento global, esta pseudo-óbvia ciência?
Filosoficamente, a causa é descendente dos delírios do Rousseau e seu bom selvagem. O Rousseau e o Marx atrasaram a humanidade em mil anos. Mas, a favor do filósofo da vaidade, Rousseau, o homem que amava a humanidade, mas detestava seus semelhantes (inclusive mulher e filhos que abandonou para se preocupar em salvar o mundo enquanto vivia às custas das marquesas), há o fato de que ele nunca disse que os aborígenes seriam esse bom selvagem. O bom selvagem dele era um "conceito"? Um "mito", sua releitura de Adão e Eva.
Essas pessoas que andam colocando nomes de tribos indígenas no seu "sobrenome" no Face acham que índios são lindos e vítimas sociais. Eles querem se sentir do lado do bem. Melhor se fossem a uma liquidação de algum shopping center brega qualquer comprar alguma máquina para emagrecer, e assim, ocupar o tempo livre que têm.
Elas não entendem que índios são gente como todo mundo. Na Rio+20 ficou claro que alguns continuam pobres e miseráveis enquanto outros conseguiram grandes negócios com europeus que, no fundo, querem meter a mão na Amazônia e perceberam que muitos índios aceitariam facilmente um "passaporte" da comunidade europeia em troca de grana. Quanto mais iPad e Macintosh dentro desses parques temáticos culturais melhor para falar mal da "opressão social".
Minha proposta é a de que todos que estão "assinando" nomes assim no Face doem seus iPhones para os povos da floresta.

domingo, 18 de novembro de 2012

2º Encontro Nacional De Ateus

O 2º Encontro Nacional de Ateus, a ser realizado em 17 de fevereiro de 2013, já conta com a adesão de nove estados, além do Distrito Federal, São Paulo, Sergipe, Paraná, Maranhão, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Goiás e Paraíba.
Sou ateu. Mas um encontro nacional de ateus me parece uma idiotice descomunal. O que poderia nortear uma reunião de ateus, eles se congregariam a fim de quê?  Para não rezar? Para não louvar a deus, para discutir a inexistência dele? Patético!
Fica parecendo uma festa baile para tetraplégicos, ou uma convenção de broxas realizada num puteiro. Não tem o menor sentido. É triste.
Segundo os organizadores do evento, haverá debates em torno do racionalismo e do ceticismo. Então, que chamem de encontro de racionalistas e céticos. Ateu é outra coisa, é coisa bem diferente.
Uma reunião desses neoateus - desses filhotes de Richard Dawkins, que como cientista evolucionista é brilhante, mas que como militante do ateísmo prestou um grande desserviço aos verdadeiros ateus - deve ser um porre. Corrijo : um porre, não, que um bom porre é das melhores coisas que podem ocorrer a um sujeito, uma reunião de ateus deve ser uma ressaca daquelas brabas, daquelas de Vesúvios a regurgitarem pela boca e um bloco inteiro do Olodum a tocar em nossa cabeça. Mais que chato, repito : triste.
Explico : o crente, por mais burro que ele seja (e ele o é), reúne-se em torno de algo, de uma crença, de um objeto que ele julga existente e palpável. E esses neoateus de merda? Reúnem-se em torno do nada, do vazio, da descrença. E, acreditem, ter a descrença como elemento agregador é coisa das mais tristes que há.
O vazio que um deus preenche no mundo dos crentes, permanece imensa lacuna no dos ateus. Para a grande maioria das pessoas, o vazio, o nada, o abismo, são exasperantes, aflitivos, causam pânico, devem ser preenchidos a qualquer custo, mesmo às custas de seu livre pensamento, de sua identidade; trocam o penso, logo existo pelo creio em deus, logo sou feliz. Existir e ser feliz costumam não ser atividades muito relacionadas.
Ser ateu é ter a noção de que o vazio existe e aceitar - entender - que vazio ele deve continuar, que há um sentido no vazio, embora não o conheçamos, que o Universo é constituído de mais de vazios que preenchimentos, de mais interrogações que pontos finais, de mais vácuos que respirações.
Ser ateu é conviver com o vazio, não é querer dar um sentido a ele, muito menos cultuá-lo como se fosse a um deus, que é o que fazem esses neoateus em seus encontros.
Já disse, aqui no blog, que os ateus são mais honestos, mais inteligentes e até melhores fodedores, mas nunca disse que são mais felizes. Não são. Não são festivos em torno de sua descrença. Não ficam se reunindo em grupinhos ou irmandades.
Proselitismo ateu? Não tem jeito. Ateu nasce ateu, não é convertido. O ateu verdadeiro é aquele cara que tem coragem de olhar ao abismo sabendo-o, pura e simplesmente, abismo, e nada mais. Se o sujeito olhar para o abismo procurando seja o que for nele, já não é ateu, já é alguém à procura de um preenchimento, de um deus.
O cara pode nem acreditar ou se satisfazer com o deus atual e vigente, mas se não suporta o vazio, a visão do abismo, não é um ateu genuíno, é só um crente em potencial à espera de um novo deus que se encaixe em seus anseios, necessidades e conveniências, que estofe seu travesseiro e lhe proporcione um sono tranquilo. No fim das contas, deus é isso : paina para travesseiros e consciências pesadas. Ateu não tem sono tranquilo. Nem está em busca de.
Digo mais : o ateu macho de verdade é o que encara o vazio e se deixa ser olhado por ele; não tem medo do que verá (ou, no caso, do que não verá) no vazio e  nem do que o vazio verá nele.
Se você não tem os colhões necessários para coabitar com o abismo, não se diga ateu, não fique promovendo encontros de outros frouxos feito você, não organize missas ateias. Vão logo procurar uma religião, seus neoateus do caralho, ou fundar uma nova.
Reunir-se em torno de uma divindade imaginária, erigir templos em nome dela, já é de causar dó e não mostra grandes sinais de inteligência, praticamente nenhum. Agora, congregar-se em torno do nada, promover encontros em torno do vazio, é mais triste ainda, e só revela uma estupidez total e absoluta. Irreversível.
Para finalizar, e piorar ainda mais, o encontro desse ano traz uma novidade, vide cartaz : foi declarado o Dia do Orgulho Ateu.
Dia do Orgulho Ateu ???  Sei não, seus neoateus... parece coisa de viado.
O 2º Encontro Nacional de Ateus, que vai se realizar no dia 17 de fevereiro de 2013, um domingo, já tem a adesão de 9 Estados, além do Distrito Federal: São Paulo, Sergipe, Paraná, Maranhão, Rio, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Goiás e Paraíba.

Leia mais em http://www.paulopes.com.br/2012/11/encontro-2013-de-ateus-ja-tem-confirmacao-de-nove-estados.html#ixzz2CbUKiWHb
Paulopes informa que reprodução deste texto só poderá ser feita com o CRÉDITO e LINK da origem.
O 2º Encontro Nacional de Ateus, que vai se realizar no dia 17 de fevereiro de 2013, um domingo, já tem a adesão de 9 Estados, além do Distrito Federal: São Paulo, Sergipe, Paraná, Maranhão, Rio, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Goiás e Paraíba. Em cada um desses Estados o encontro será promovido por uma associação de livres-pensadores.

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O 2º Encontro Nacional de Ateus, que vai se realizar no dia 17 de fevereiro de 2013, um domingo, já tem a adesão de 9 Estados, além do Distrito Federal: São Paulo, Sergipe, Paraná, Maranhão, Rio, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Goiás e Paraíba. Em cada um desses Estados o encontro será promovido por uma associação de livres-pensadores.

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O 2º Encontro Nacional de Ateus, que vai se realizar no dia 17 de fevereiro de 2013, um domingo, já tem a adesão de 9 Estados, além do Distrito Federal: São Paulo, Sergipe, Paraná, Maranhão, Rio, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Goiás e Paraíba.

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sábado, 17 de novembro de 2012

E Quem Um Dia Irá Dizer Que Existe Razão Nas Coisas Feitas Pelo Coração? E Quem Irá Dizer Que Não Existe Razão?

Aconteceu em Oklahoma, EUA.
Ele (à esquerda na foto) nasceu Esmerald e se tornou Arin Andrews; Ela (à direita na foto) nasceu Lucas e se tornou Katie Hill. Encontraram-se e se apaixonaram.
A menina que virou menino se apaixonou pelo menino que virou menina, e vice-versa.
Confuso? Que nada. Bonito, isso sim. Bonito pra caramba.
Tivesse a menina continuado menina e o menino, menino, teriam se apaixonado? Sim. É certo que sim.
"Menino e menina se conheceram quase sem querer/Não foi por obra do acaso/Tinha mesmo que acontecer/Eles se julgavam diferentes como todos os amantes imaginam ser/Faziam tantos planos que seus vinte e poucos anos eram poucos pra tanto querer/Ah, se eles soubessem/O que eles pensam saber..."

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Deu$ Seja Louvado

O Ministério Público Federal, na pessoa do procurador Jefferson Aparecido Dias, entrou com uma ação civil pública nesta segunda-feira (12/11) em que pede que as novas cédulas de real passem a ser impressas sem a expressão "Deus seja louvado". 
A expressão surgiu em 1986, por ocasião do Plano Cruzado, que trocou a moeda do país, o cruzeiro (Cr$) pelo  cruzado (Cz$). A inclusão da frase foi sugestão de José Sarney,  o então presidente da república.
O procurador justifica sua ação pela observância da laicidade do Estado, e diz que manter a expressão se configura numa predileção pelas religiões adoradoras de Deus como divindade suprema, o que impediria a coexistência em condições igualitárias de todas as religiões praticadas no país.
Não acho! Se a expressão fosse Cristo seja louvado, eu concordaria, seria uma clara preferência pelo cristianismo. Mas deus não. Toda e qualquer religião cultua um deus (ou vários) como entidade suprema.
O problema é que quando se fala em Deus (com letra maiúscula) ocorre a correspondência imediata ao deus cristão. O cristão é tão pouco criativo e sem imaginação que não conseguiu dar um nome ao seu deus, resolveu simplesmente chamá-lo de Deus.
Acontece que "deus" é um substantivo comum, é um termo genérico que se refere a toda e qualquer divindade cultuada pelo ser humano, as que já existiram e morreram, as atuais e as vindouras. O cristão transformou deus em substantivo próprio, Deus. Tão próprio, que dele, Deus, se apropriou, tornou-o sua patente e propriedade. 
Deus não é Deus, é deus, vale para qualquer um.
Dessa forma, a expressão Deus seja louvado nas cédulas de real não é capaz de ferir nem ofender ninguém, de injuriar nenhuma religião. Se o cara é muçulmano, ele lê deus na nota e o associa a Alá, se é testemunha de Jeová, óbvio, a Jeová, se é judeu, a Adonai, e assim por diante. Não vejo o porquê de tanto barulho em torno disso.
Teoricamente, os ateus seriam os únicos que poderiam se sentir ofendidos com a "presença" de deus no dinheiro. Teoricamente. Porque, na prática, o ateu não está nem aí, está cagando e andando para deus e as religiões. Digo do ateu verdadeiro, do ateu sério, não o chamado neoateu, o que sai por aí professando o ateísmo feito uma religião às avessas.
Para o verdadeiro ateu - o que é o meu caso -, tanto faz estar escrito Deus seja louvado ou Papai Noel seja louvado, ou Coelhinho da Páscoa seja louvado, ou Mula-sem-cabeça seja louvada. São todas entidades míticas; e o que não existe, não pode ofender ninguém.
Além disso, a própria Igreja Católica se posicionou contra a petição do procurador, quer que seu Deus seja mantido no dinheiro - por que será, hein? Será que a Igreja Católica leva uma comissão da Casa da Moeda do Brasil? Ora, se os próprios donos de Deus não se ofendem em ver o sacro nome Dele estampado no vil metal, no símbolo máximo de um sistema econômico desigual e nada cristão, quem sou eu, um ateu, para me ofender, para ficar com melindres?
O que ofende mesmo é um procurador da República, um funcionário público bem remunerado e regiamente pago pelos impostos dos cidadãos, não se ocupar de assuntos mais sérios e relevantes à nação.
Deus? Quero que deus se foda!

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Verde Que Te Quero Verde

O vermelho nunca foi inclinação natural da terra brasilis,
O verde sempre foi nossa nativa vocação,
Ainda que desmatado, sempre o verde.
Carnavalizaram demais com o verde,
Vestiram o papagaio com pele de lobo,
Lobo das estepes, o lobo do homem.
Fantasiaram o portuga-afro-índio de cossaco,
Puseram a foice e o martelo em suas mãos
(logo nas de quem...).
Deu no que deu!
Uma transfusão se faz urgente,
Do sangue pela seiva,
Do vermelho pelo verde.
Pelo verde-oliva, se necessário for ou se mostrar.
Sim, pelo verde-oliva
E por que não?
Já deu certo uma vez, não deu?
Não é mais hora
Nem há mais espaço para conciliações e conchavos.
É hora de redefinições e novos maniqueísmos,
Que as elocubrações, intermédios e meios tons
Sejam deixados nos lugares que bem lhes cabem,
Nas conversas de boteco e nos livros de filosofia.
A realidade é dicotômica:
Verde é verde, vermelho é vermelho.
Tente misturá-los e terá um marrom-merda em suas mãos,
O marrom-merda que tomou conta do país nas últimas décadas,
Marcadamente na última.
Não é mais hora de moderações,
Do equilibrista em cima do muro,
Não é mais hora de confusões e conluios cromáticos,
Não é mais hora para daltonismos:
Verde que te quero verde.

O Ilustrador (parte 1)

Saí pelas grandes portas de vidro verde de uma editora de livros infantis com minha pasta cheia de ilustrações recusadas debaixo do braço. Pronto. Caí o mais que pode cair um ilustrador, acho que é o mais, fui recusado para ilustrar as páginas de livros infantis. 
Fui recusado diversas vezes para outros tipos de ilustrações, agora ser rejeitado para fazer uns rabiscos em livros infantis é foda. Foram a geladeira e o estômago vazios e as contas a pagar que me aconselharam a esmolar esse serviço, não devia ter ouvido esses mendigos, nunca devemos dar atenção a mendigos, e agora isso, mais uma recusa. 
Eu sou um ilustrador, dos bons, só que ninguém mais se tocou disso, tenho certificado e diploma de desenho artístico e perspectiva, diploma do Instituto Universal Brasileiro, tem neguinho que ri disso, mas não é pouca coisa, não, garanto que não é qualquer um que passa por todos aqueles módulos, não, e em quase todos módulos eu recebia grau dez dos avaliadores que eu nunca vi, um ou outro grau nove, menos que isso, não. Acho que sempre quis foi desenhar quadrinhos de heróis, cresci vendo os bons, os clássicos, Jack Kirby, Jim Steranko, Neal Adams, Sal e John Buscema, Paul Gulacy, Barry Smith, Frank Miller, só os grandes. Fui recusado, disseram que faltava ação, cinética, sei lá o que é isso, ao meu traço.
Tentei então coisas menores, caricatura era meu caminho, fui recusado, meu traço não tinha a verve, sei lá o que é isso, humorística necessária; parti para tiras de jornais, uma coisa descartável, tosca, fui recusado, minha composição era muito prolixa, sei lá o que é isso, não tinha a síntese, sei lá também que porra é essa, a que se pretende o veículo, pensei em perguntar que merda de veículo era esse, mas não discuto quando sou recusado, sinto uma coisa ruim, mas não há o que eu possa fazer.
Achei que seria fácil com livros infantis, criança se contenta com qualquer rabisco, inda mais essas crianças meio retardadas que ficam lendo esses livros escritos para elas por adultos meio retardados, achei que seria fácil, criança se contenta com qualquer rabisco, mas parece que os adultos retardados que escrevem para essas crianças não se contentam tão fácil, fui recusado, seu colorido não tem a candura, sei lá que porra é essa, que desejamos imprimir aos nossos livros, foi o que me disseram a gorda muxibenta, tentando equilibrar a bunda na cadeira, e o viadinho de óculos de armação retangular e grossa.
Quis perguntar o que era candura, se fosse alguma tinta, alguma cor diferente, eu podia acrescentar no desenho, mas pensar nessas palavras difíceis acabou me dando dor de cabeça. Senti uma coisa ruim; na hora, teria sido capaz de pegar o viadinho e enfiar ele de cabeça na buceta gorda da gorda, mas não havia o que eu pudesse fazer, só o que fiz, foi sair e atravessar as grandes portas de vidro verde da editora.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

José Dirceu É Condenado A 10 Anos De Prisão

Há quase 50 anos - sim, em 2014 irá ocorrer o cinquentenário do chamado golpe militar de 64 -, as Forças Armadas tomaram o poder no Brasil para evitar que um mal maior o fizesse : o comunismo.
O comunismo canalha, nos mesmos moldes da URSS, da Cuba de Fidel e da China de Mao, estava a um triz de ser implantado no país por quadrilhas de guerrilheiros, das quais faziam parte ilustres "defensores da democracia" , entre eles : José Genoíno, José Dirceu, e a vossa querida presidenta Dilma. A ação mais famosa desse grupo foi o assalto ao cofre do governador Adhemar de Barros, além de roubos de armas do exército, assaltos a banco e sequestros.
Vale sempre relembrar : eles nunca lutaram por uma democracia, mas sim por uma ditadura comunista, chamada por eles de ditadura do proletariado, nas cartas que trocavam entre si.
Deles, os militares disseram : subversivos, bandidos, canalhas, formadores de quadrilhas.
Daí, prenderam uns tantos (prenderam pouco, na minha opinião), deram uns catiripapos em alguns (bateram pouco), alguns morreram (morreram poucos) e outros foram postos a correr, foram para o exílio, e depois anistiados.
Sobre a anistia, já ouvi os mais velhos que eu contarem essa história algumas vezes, o ex-presidente João Baptista Figueiredo, à ocasião de sua assinatura, de caneta em punho, desculpou-se antecipadamente com a nação, palavras dele, pela merda que estava prestes a fazer. Ele era um soldado, um bom soldado, obedecia a ordens.
O governo militar caiu em 1985 e a canalhada da esquerda, já de volta do exílio e livre da cadeia, tomou o poder, nadou a largas braçadas desde então.
Quase 50 anos depois, a Justiça de um Estado Democrático, referindo-se a José Dirceu, José Genoíno, e outros do PT, diz : bandidos, facínoras, formadores de quadrilhas.
A Justiça mostra, agora, exatamente o que os militares disseram há 50 anos. Exatamente a mesma coisa.
Precisou quase meio século, e um país enxovalhado em sua Constituição e dilapidado em seu erário público, para que a razão fosse dada aos militares, que pegaram pesado com essa turma, deveriam ter pego muito mais pesado, na minha opinião. Tivessem expulsado e matado mais uns tantos, talvez o mensalão não houvesse acontecido, talvez um analfabeto e, agora, uma ex-guerrilheira não tivessem chegado ao mais alto cargo político do país.
Podem ser atribuídos os mais diversos defeitos ao governo militar, como igualmente ao atual governo e também a todos os governos vindouros.
Em uma coisa, contudo, os militares são inegavelmente especialistas, são praticamente infalíveis : em reconhecer o inimigo! Há meio século, identificaram com precisão suíça os verdadeiros inimigos do país : o banditismo vermelho, o atual PT.

Em tempo : Em 13 de abril de 2011, após três décadas de sigilo, o Arquivo Nacional tornou público um documento da Aeronáutica que revela que a organização guerrilheira VAR-Palmares - da qual fez parte a atual presidente Dilma Rousseff - determinou o "justiçamento", ou seja, o assassinato de oficiais do Exército e de agentes de outras forças tidas como reacionárias, nos anos da ditadura militar.

domingo, 11 de novembro de 2012

Que Fossa, Hein, Meu Chapa, Que Fossa...(12)

Adoniran Barbosa é sempre lembrado por suas músicas bem-humoradas e sua pronúncia errada - propositadamente errada.
Contudo, grande parte da aparente graça de suas composições advém da maneira pela qual são tocadas pelo grupo Os Demônios da Garoa, o intérprete oficial de Adoniran.
As letras de Adoniran, em sua maioria, não têm nada de engraçadinhas. Pudera. Filho de imigrantes italianos, vivia de subemprego em subemprego, vivia de bicos, e morava em cortiços, as malocas, espécies de favelas da época.
Suas letras cantavam esse submundo, retratavam os trabalhadores braçais, os analfabetos, os desvalidos. Qual a graça nisso? Qual a graça que pode haver na letra de Saudosa Maloca, nas pessoas assistirem à demolição de seu lar sem terem a mínima noção de onde passariam a residir?
Acontece que Adoniran não faz drama, não choraminga, e, talvez, as pessoas confundam a falta do drama e do choro com bom humor. Não é. O drama está lá, denso e onipresente.
Será que alguém consegue mesmo rir da clássica Iracema? Da Triste Margarida, da Viaduto Santa Efigênia, da Aguenta a Mão, João, da Abrigo de Vagabundos etc etc?
Adoniran não é alegre, nem poderia ser, ele tão somente ri da própria desgraça, que é uma das formas mais profundas de tristeza que conheço. 
Ele registra a conformidade do homem simples frente ao que não entende nem pode controlar ("Cada táuba que caía, Doia no coração, Mato Grosso quis gritá, Mas em cima eu falei: Os homis tá cá razão, Nós arranja outro lugar, Só se conformemo quando o Joca falou: "Deus dá o frio conforme o cobertor"); ele retrata a resignação do impotente, do cara que leva a porrada e não tem como revidá-la, só tentar absorvê-la, remendar as feridas, dar aquela choradinha no travesseiro, que ninguém precisa ver nem tomar conhecimento, e torcer para aguentar a próxima; Adoniran canta a submissão daquele que não tem outra opção a não ser submeter-se ("- Iracema, fartavam vinte dias pra o nosso casamento, Que nóis ia se casar, Você atravessou a São João, Veio um carro, te pega e te pincha no chão,Você foi para Assistência, Iracema, O chofer não teve curpa, Iracema,Paciência, Iracema, paciência").
Se alguém ainda acha Saudosa Maloca engraçada, fuce pela net, encontre a gravação feita por Elis Regina e depois venha me contar.
E para quem acha que é só o homem que sai para comprar cigarro e nunca mais volta ao lar, leiam a letra e depois escutem a música a seguir. Nesta história, é a mulher que sai e não volta mais, sai para comprar o pavio do lampião. Inêz, sua biscate.
Apaga o Fogo, Mané
(Adoniran Barbosa)
Inez saiu 
Dizendo que ia comprar um pavio
pro lampião
-Pode me esperar Mané

Que eu já volto já
.


Acendi o fogão, botei a água pra esquentar

E fui pro portão

Só pra ver Inez chegar.

  Anoiteceu e ela não voltou
Fui pra rua feito louco

Pra saber o que aconteceu.

 
Procurei na Central

Procurei no Hospital e no xadrez

Andei a cidade inteira

E não encontrei Inez

Voltei pra casa triste demais

O que Inez me fez não se faz.

 
E no chão bem perto do fogão

Encontrei um papel

Escrito assim:

-Pode apagar o fogo Mané que eu não volto mais.

Pode apagar fogo, Mané. E paciência, Mané, paciência.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Cadialina

Realmente, em tempos de politicamente correto e de pessoas que querem tudo pela lei do menor esforço, a vida de quem tem senso de humor está cada vez mais complicada. Perigosa, até.
Um médico de Salvador (BA), contratado da Fundação José Silveira, que percorre as comunidades carentes da capital baiana, receitou um inusitado regime a uma paciente muito da gorda e esfomeada.
Receitou-lhe o remédio Cadialina. Genial.
A moça, com o peso inversamente proporcional ao QI, não entendeu o chiste, perguntou onde ela poderia encontrar tal remédio. O médico disse, então, que ela passasse em uma loja de ferragens e comprasse 6 cadeados : um para a sua boca, outro para a geladeira, outro para o armário, outro para o freezer, outro para o congelador e outro para o cofre de casa. Há!Há!Há!Há!
E para que ela não tivesse dúvidas, até prescreveu a receita. Abaixo, a gabiru de 1,53m e 100 kg, e a receita do médico gaiato, que, apesar do humor, não deve também dos mais letrados, vejam como ele escreveu freezer, frize.
O médico ainda ofereceu uma terapia alternativa à Cadialina. Caso ela não quisesse os cadeados, o único jeito seria fazer jejum em 4 dias da semana, e só beber água nos outros três.
Pode até parecer sacanagem, a brincadeira do médico, mas queriam que ele dissesse o quê? Que explicasse para ela os processos de anabolismo e catabolismo? Que falasse dos gastos energéticos basais e necessidades energéticas totais? Que desfiasse cálculos de IMC e calorias contidas em cada alimento?
Ele, a seu modo galhofeiro, falou o linguajar que o povão consegue entender, ou seja, se quiser emagrecer, tem que fechar a boca. Receitar uma dieta balanceada também seria besteira. Povão gosta de coisa gordurosa, boiando no óleo. Uma saladinha com um bifezinho grelhado não têm graça para eles, não tem gosto. 
O que a moça queria era receber um desses remédios milagrosos, esses queimadores de gordura e inibidores de apetite, que ela deve ter lido que essa ou aquela atriz usa, queria uma pílula mágica para continuar a encher a pança de vatapá, abará e acarajé, tudo regado a muita caipirinha, cerveja, axé e olodum.
A paciente fez queixa ao Conselho de Medicina da Bahia e o médico foi afastado para averiguações.
Ouvido, o médico disse que usou linguagem figurada e pediu desculpas caso tenha sido mal interpretado pela paciente.
"É uma paciente que tem compulsão por alimento. Infelizmente, ela vive numa comunidade que não tem capacidade de abstrair as coisas", afirmou o médico à TV. 
Há!Há!Há! Genial, esse cara. Primeiro, receita Cadialina, depois pede desculpas dizendo que a gordinha vive numa favela e que não tem a capacidade de abstrair as coisas, ou seja, que também é burra!
Além disso, o médico não assinou nem carimbou a receita. Ele pode muito bem só ter escrito como brincadeira e ela ter levado o papel consigo já pensando em uma indenização, que, para esse tipo de coisa, não tem ninguém burro; que, para tirar dinheiro de quem trabalha, não tem ninguém analfabeto nesse país.
A moça disse não aceitar as desculpas e que seguirá com o processo contra o médico.
Brasileiro é isso aí. Ouviu o que não queria, que teria que fechar a boca, que não existem milagres para emagrecer, ficou ofendida e agora que arrancar uns trocados do médico. Com a grana que provavelmente receberá, ela poderá encher a geladeira, o freezer e o armário. 
Será que o médico não tinha nenhuma amostra grátis do Cadialina genérico para dar à paciente? Nem que fosse um só, só para a boca, só para começar o tratamento?

A Milésima Marretada Do Azarão

Esta é a milésima postagem da Marreta!
O blog começou por sugestão de uma grande amiga; aliás, sugestão, não. Exigência. Imposição. E aqui está o Marreta, já há quase quatro anos. Transformou-se num bom hábito, quando fico dois ou três sem nada postar, inquieto-me, boto a cabeça à cata de argumento ou notícia para comentar.
Não gosto de futebol e tô cagando e andando se o Pelé fez 1000 gols. Acontece que, nesse país, infelizmente, nada representa melhor um milésimo feito que o milésimo gol do negão. O Marreta, nesse caso, rende-se ao simbolismo da imagem.
E acabei descobrindo algo curioso em minha busca por uma imagem da comemoração do milésimo gol do Pelé. Como tudo no Brasil, o selo comemorativo acima, lançado pela ECT, e que ilustra o Pelé em seu clássico pulo seguido de um soco no ar, é falso. É armação!
O selo retrata o negão a trajar a camisa da seleção brasileira de futebol, quando, na verdade, ele marcou seu milésimo gol pelo Santos Futebol Clube. Puta que o pariu! Nada é verdade na história do Brasil.
O quadro A Primeira Missa no Brasil, de Vitor Meireles, é pura cenografia, mostra a indiara toda lá, assistindo contrita à missa, só faltou aquele caderninho com o roteiro da missa nas mãos; o quadro O Grito do Ipiranga, de Pedro Américo, também foi pródigo em imaginação do artista, não teve corcéis imponentes nem brados retumbantes, D.Pedro I estava montado num burro à caminho de Santos, onde iria ter (e meter) com sua amante, e tinha acabado de aliviar os intestinos atrás de uma moita.
E agora o Pelé. Nem o milésimo gol do negão, o fato histórico mais importante do Brasil no século XX, escapou da adulteração em seu registro.
De qualquer forma, deixando a profundidade de lado, como diria o bom Belchior, esta é a milésima marretada do Azarão. Que venham outras mil, pelo menos. Enquanto a Marreta aguentar.
Valha-me, Thor.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Todos Somos Corruptos

Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais e pelo Instituto Vox Populi revelou, mais uma vez, o que todo mundo já sabe : o brasileiro é corrupto! De berço, de nascença!
Aliás, via de regra, o ser humano é corrupto, independente da nacionalidade ou etnia. O que muda são os conjuntos de leis aos quais as nações submetem seus cidadãos. Leis mais rígidas, cidadãos aparentemente mais educados e respeitadores; leis menos rígidas... De resto, é tudo o mesmo barro.
Conheço o caso de um sueco, professor universitário, que, em intercâmbio pelo Brasil e a lecionar em uma de nossas mais diletas universidades públicas, saía todas as tardes à calçada de sua casa e jogava ali o lixo, espalhava o lixo, sem latão nem saco plástico.
Aí, o orgulho nacional foi ferido, alguns alunos que o flagraram em tal imundície, colocaram-no contra a parede, perguntaram ao nobre docente nórdico se ele tinha o mesmo comportamento em seu país, a Suécia. O professor disse que não, mas que havia concluído, pelo que observara nas ruas da cidade, que no Brasil era permitido jogar lixo nas ruas. Primeiro, o cara não está errado em sua conclusão, está? Segundo, se o cara fosse mesmo educado e consciente, o mundo a sua volta poderia estar atulhado de lixo, ele jamais jogaria o seu nas ruas, fosse na Suécia, fosse no Brasil.
O fato é que o ser humano educado só existe sob um código severo de leis. O que, no Brasil, não existe.
A situação por aqui anda tão ruim que o brasileiro é corrupto cotidianamente, em várias de suas práticas tidas como normais, e nem se dá conta disso, exerce plenamente a corrupção como ela fosse um direito legítimo, como se ela nem fosse corrupção.
A partir dos dados da pesquisa, a UFMG e o Vox Populi elaboraram uma lista com as 10 corrupções preferidas do brasileiro, um top ten do nosso famoso jeitinho : 
- Não dar nota fiscal
- Não declarar Imposto de Renda
- Tentar subornar o guarda para evitar multas
- Falsificar carteirinha de estudante
- Dar/aceitar troco errado
- Roubar TV a cabo
- Furar fila
- Comprar produtos falsificados
- No trabalho, bater ponto pelo colega
- Falsificar assinaturas
E tem muito mais. No supermercado, por exemplo, pessoas consomem produtos durante suas compras e descartam as embalagens vazias nas prateleiras, muitas vezes não pagando pelo artigo; o caixa nunca tem moedas de 1 centavo para o troco exato, pessoas com carrinhos abarrotados entram na fila do caixa rápido, jovens na fila reservada aos idosos.Vagas e lugares destinados a deficientes físicos raramente são ocupados por quem lhes é de direito. E a coisa segue por aí.
A pesquisa revelou também que ainda há uma certa esperança, e ela vem dos jovens, que estão mais conscientes e engajados.
Lamento informar aos pesquisadores que o jovem é tão corrupto quanto o velho, sei porque trabalho no meio deles, não se iludam com os discursos dos jovens. A única diferença entre o velho e o jovem, no quesito corrupção, é o discurso, o do jovem é mais hipócrita, a prática é a mesma. Lamento informar aos pesquisadores que os jovens mentiram na pesquisa, eles mentem mais que os velhos.
O adolescente é o primeiro a colar na prova, a tentar falsificar identidade para entrar em festas e comprar bebidas alcoólicas, a tentar fraudar provas de vestibulares com o uso de celulares, instagrans etc. O jovem é tão corrupto quanto o velho, ou até mais, pois suas desonestidades são vistas como normais à idade, como atos de rebeldia. Não são. São safadezas, mesmo.
No serviço público, então, é que o caldo engrossa e entorna de vez. Uma vez protocolado um pedido qualquer, uma gorjetinha,  um agrado ao carimbador maluco da seção sempre agiliza o processo. É o famoso "apressamento". Um diploma de conclusão de graduação universitária, por exemplo, chega a levar um ano, ou mais, para ser devidamente registrado em um órgão federal. Mas se o graduado precisar dele com urgência, um apressamento põe o canudo em suas mãos no prazo de dois ou três dias.
Por isso, quando um país feito o nosso, quase que em uníssono, num heróico brado retumbante, conclama a prisão dos mensaleiros, não é por consciência cidadã que ele o faz, não é por anseios morais que tal grito se lança ao céu, que nosso lábaro ostenta estrelado : é por inveja, pura inveja.
O cidadão comum, o corrupto mequetrefe, morre de inveja do corrupto bem-sucedido.
Fonte : BBC Brasil

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Autorretrato

Pequeno Conto Noturno (31)

- Não entendo o porquê de você ser tão infeliz - Morgana, a se aninhar, nua, nos lençóis amarfanhados da cama de Rubens, cama que ele nunca arruma.
- Tão? Para mim, feliz ou infeliz eram estados absolutos, existe mais feliz/infeliz, ou menos?
- Você me entendeu... - e Morgana esvazia o resto da garrafa de vinho em sua taça, mal preenchendo a metade.
- Eu não sou infeliz - Rubens tomando a taça das mãos dela e dando um bom trago.
- Também não é exatamente pessoa das mais alegres.
- E desde quando infeliz é antônimo de alegre?
- E não é? - Morgana deita de bruços ao lado de Rubens, pedindo por cafuné feito um pássaro preto, desses de gaiola.
Morgana tem asas de libélula tatuadas nas costas. Quatro. Duas a brotar de cada espádua.
- Não, não é - prossegue Rubens -, o contrário de alegre é triste, não infeliz. Triste, um tanto, admito que eu seja.
- E dá pra ser triste e não ser infeliz? - Morgana se enrodilhando toda e ronronando sob o cafuné de Rubens, tem mulher que quase goza com cafuné.
- Óbvio.
- Não parece óbvio para mim.
- É que você não é uma coisa nem outra.
- Você me entendeu...
- Digamos que eu seja triste, entre outras coisas, por você não poder estar sempre aqui; e que não chego a ser infeliz justamente porque recebo suas visitas clandestinas, vez em quando.
- Está dizendo que sou parte de sua tristeza e também de sua não-infelicidade?
- Estou.
- Gostei, achei bonito.
- Eu também.
- E é verdade? - Morgana, a olhar para o copo seco e para os olhos, idem, de Rubens
- Vai lá buscar outra garrafa na geladeira, vai - diz Rubens.
E fica a contemplar a bunda de Morgana, saltitante, lépida em direção à geladeira. 
As mulheres sempre tentam estragar tudo com suas perguntas, pensa ele. O segredo não é saber o que responder às mulheres, o segredo, conclui Rubens, é aprender a não lhes responder.
E fica a admirar os peitos de Morgana, saltitantes, céleres, de volta em sua direção.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Capitão América No ENEM (Ou : Ressuscitem Hitler, Por Favor)

Foi um amigo que me deu a notícia, ontem à noite, por telefone : "Azarão, o Capitão América caiu no Enem".
E saiu a dizer que era o reconhecimento, antes tardio do que nunca, dos quadrinhos como uma forma de arte, como uma metalinguagem, como um veículo dinâmico de informação e conhecimento etc etc.
Fiquei a ouví-lo, sem contestar, primeiro porque nem fazia ideia do que ele falava, Capitão América no Enem, e depois porque tenho poucos amigos, não dá pra ficar brigando com eles por qualquer motivo. Falei que ia ver a tal questão e retornaria a ligação.
Quando dizem que algo finalmente foi reconhecido, querem dizer que o tal objeto, supostamente injustiçado e diminuído em sua importância durante anos, foi alçado a uma dimensão pretensamente maior. 
No caso dos quadrinhos, que eles deixaram de ser vistos simplesmente como quadrinhos e passaram a ser considerados como uma das legítimas expressões do pensamento humano de uma época, elevados a verdadeiras enciclopédias ilustradas, de ciências, história, filosofia, matemática etc, dignos até de serem objetos de uma prova de âmbito nacional, o ENEM.
Grande bosta. Os quadrinhos e o ENEM.
Fui um leitor mais que assíduo de quadrinhos de super-heróis entre 1977 e 2001, era meio fanático, mesmo. Adorava-os na época, e ainda gosto muito dos que ainda mantenho guardados e organizados em velhas caixas com naftalinas, cerca de 3 mil exemplares.
Mas não sou nem nunca fui idiota. Os quadrinhos nunca foram diminuídos em sua importância, eles sempre foram considerados o que são : quadrinhos. Gibi! E gibi é gibi! É pura diversão, puro entretenimento. Dar-lhes qualquer relevância outra é cometer uma injustiça às avessas. Até porque divertir e entreter é função das mais nobres, nada há de depreciativo em dizer que algo é "simples" diversão.
Quando era adolescente, minha afeição aos quadrinhos não era bem vista pelos meus pais, diziam que nada se aprendia com aquilo. E eles estavam certos. Eu também sabia disso, tanto que lia meus quadrinhos e também os clássicos da literatura indicados pelos professores, sempre soube reconhecer perfeitamente a diferença, sempre soube identificar onde eu estava aprendendo e onde estava me divertindo.
Claro que os quadrinhos, sobretudo os de super-heróis, fazem diversas referências à ciência, e isso até pode despertar o interesse do leitor em cursar uma faculdade de química, de física ou de robótica, a exemplos, mas que fique bem claro que o leitor nunca vai aprender química, física ou robótica num gibi. Essa diferença sempre foi bem clara para mim.
Aprender, aprendemos nos livros, sentando o bundão na cadeira e deitando os olhos horas a fio sobre as linhas de um livro amarelado de biblioteca.
E agora vem a merda do ENEM usar a capa da primeira edição americana do Capitão América como se fosse um registro histórico. Não é.
Fui ver a tal questão e ela é "dificílima", acho que nem o próprio Capitão a acertaria, nem o próprio Adolf Hitler. A capa mostra o Capitão América, de escudo em punho, acertando uma muqueta na cara do Adolfinho, e aí vem a pergunta que deveria figurar, inclusive, nos vestibulares do ITA, quiçá nas provas seletivas da NASA: 
Quem o Capitão América combatia? a) Tríplice Aliança, na Primeira Guerra Mundial;  b)Os regimes totalitários, na Segunda Guerra Mundial; c) O poder soviético, durante a Guerra Fria; d) O movimento comunista, na Guerra do Vietnã; e) O terrorismo internacional, após 11 de setembro de 2001. 
Será que é muito difícil o aluno reconhecer a figura do Hitler e associá-la à Segunda Grande Guerra? Notem que havia uma única alternativa com a Segunda Guerra.
A Segunda Guerra foi um evento dos mais complexos da história humana, todo o mundo atual é ainda moldado pela Segunda Guerra, todo o sistema econômico, a produção industrial, o próprio desenho do mapa-mundi (exceção feita à antiga URSS), os governos que dominam o planeta, tudo. Tudo ainda é herança da Segunda Guerra Mundial.
Vem o ENEM e reduz tudo a : a quem o Capitão América combatia? Combatia a puta que te pariu!!!
Como se não bastasse, li várias declarações de professores de conceituados cursinhos a elogiarem a questão. Uma disse que a maioria dos alunos jamais viu a tal capa do gibi, mas assistiu ao Capitão em recente filme nos cinemas, e só do aluno conseguir reconhecer e relacionar o personagem da tela como sendo a mesma figura do papel já mostra que ele possui sei lá que habilidades cognitivas, que ele é capaz de acessar as diversas mídias, seja que porra isso for.
À puta que o pariu, de novo!!! Merda, merda e mais merda.
Quadrinhos de super-heróis não são fonte de conhecimento, não são arte, não são registro histórico. São quadrinhos, e ponto.
O bom e velho Capitão ser usado como objeto de vestibular  não mostra a integração das diversas linguagens, das diversas mídias, das habilidades cognitivas...porra nenhuma! Só vem a mostrar o deplorável nível em que se encontram a educação e o estudante brasileiros.
Pior : uma questão idiota desta, numa prova idiota feito o ENEM, irá credenciar o aluno a ingressar em muitas das Universidades Federais do país. Serão os futuros cérebros do país.
Lamentável.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Uma Elegia À Cláudia Ohana (9)

"Eu quero me esconder debaixo
Dessa sua saia prá fugir do mundo.
Pretendo também me embrenhar
No emaranhado desses seus cabelos."

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Punheta? Nem No Potinho, Diz o Padre Azevedo Jr.

O Padre Paulo Ricardo de Azevedo Jr, da Arquidiocese de Cuiabá (MT), é um dos grandes asnos atuais da ala ultraconservadora da Igreja Católica. Volta e meia, ele aparece na mídia a divulgar suas esdrúxulas regras morais dos tempos da Inquisição.
Desta vez, ele invoca um parecer dado pelo Papa Pio XI em 1929 para condenar a masturbação em todas as suas formas e possibilidades. O homem não pode tocar uma nem para realizar exames clínicos, nem para fazer um espermograma.
E o que o Papa Pio XI disse em 1929, o Papa Pio XII confirmou por duas vezes, em 1948 e 1956 : "a moral católica não permite o ato masturbatório para obter o esperma para a sua utilização em um exame. Esse método é inaceitável, é ilícito, é imoral”.
E como fazer na necessidade de um exame?
Para o padre Azevedo Jr. há duas alternativas "católicas" :
1) Intervenção cirúrgica, cortar o saco do sujeito e colher o esperma in loco, direto dos testículos;
2) Após um relação matrimonial, colher o esperma do fundo da vagina da mulher do cara, ou o residual da uretra do pênis.
Quer dizer que tocar uma santa punhetinha, não pode, mas o médico ficar lá, no quarto do casal, esperando acabar a trepadinha para depois escarafunchar na buceta da mulher, pode? Aí, tá tudo certo, tudo de acordo com a moral católica. 
O padre prossegue com sua demência e mostra que não é tão radical assim. Diz haver a possibilidade de um terceiro método, ainda que controverso às vistas da igreja, o cara pode se relacionar com a mulher utilizando uma camisinha previamente furada, o que possibilitaria recolher uma parte da porra.
Nunca entendi essa perseguição da igreja católica aos punheteiros. Será que esse padre nunca esgoelou o sabiá, nunca descascou o inhame?
Acho, na verdade, que o problema da igreja é em relação à punheta solitária, o cara tocar para si próprio, o que configura um ato do mais puro egoísmo, realmente incompatível para com o espírito fraternal católico.
Parece-me, no entanto, que se for uma bronha trocada entre dois camaradas seminaristas, por exemplo, o ato está de acordo com o compartilhar cristão, com o congregar em Cristo e, portanto, está perdoado.
Se for, então, uma punheta tocada para um coroinha adolescente, é bem capaz da Igreja até canonizar o sujeito.
Fonte : Paulopes