terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Valdemiro Santiago Recebe Passaporte Diplomático

Ainda ontem - e em outras inúmeras vezes -, eu disse aqui no blog que a maneira mais segura de se burlar a lei no Brasil é alegar motivos religiosos para a infração, seja ela qual for. Por mais espúrio que seja o ato, basta dar um aspecto religioso à canalhice e o sujeito escapole ileso pelas brechas da justiça, pelas pregas frouxas do cu de nossa Constituição.
O exemplo usado ontem foi o de Geraldinho Rastafári, lider da "igreja da maconha"; ele e seus seguidores querem transformar sua igreja num maconhódromo, numa embaixada da ganja, alegando que a maconha, no caso de sua religião, é de uso ritual, o que lhes garantiria uso livre do cigarrinho do capeta.
Só que Geraldinho Rastafári é uma brincadeira, é só um hippie querendo fumar o seu sem ter problemas com a lei, tem mais é que ser solto do xilindró onde está trancafiado.
O exemplo de hoje é muito mais grave. Muito mais sério.
Uma decisão assinada pelo ministro interino Ruy Nunes Pinto Nogueira, das Relações Exteriores, e publicada ontem, 14/01/2013, no Diário Oficial da União, concedeu o privilégio do Passaporte Diplomático ao chefe da Igreja Mundial, Valdemiro Santiago, e à sua esposa, Franciléia Santiago.
Isso mesmo. Passaporte diplomático! Como se fossem, ele e esposa, representantes do Brasil em viagens ao exterior.
O Itamaraty justificou a medida com base no artigo 6º do Decreto 5.978/2006, segundo o qual o documento especial pode ser concedido “às pessoas em função do interesse do país”.
E que tipo de interesse nacional, que lhe valesse tamanha honraria, poderia ser representado ou defendido por Valdemiro no exterior? Interesses religiosos? Não haveria justificativa legal para tal, uma vez que o Brasil é um Estado laico e, portanto, sem interesses religiosos. E ainda que fossem os interesses religiosos a desculpa para o passaporte diplomático, haveria pessoas muito mais capacitadas a isso que Valdemiro Santiago, já que claros se fazem sua chucriche e semianalfabetismo, o cara não sabe nem falar direito.
A rigor, o passaporte diplomático só poderia ser concedido a presidentes, vices, ministros de Estado, parlamentares em missão no Exterior, ministros dos tribunais superiores e ex-presidentes. 
A decisão do ministro Ruy Nunes Pinto Nogueira elevou Valdemiro Santiago ao mesmo patamar de importância de um chefe de estado, ou rebaixou todos os chefes de estado à condição de Valdemiro.
Isso tem cara de paga de favor político. Quem garante que a Igreja Mundial não patrocinou campanhas políticas de deputados e senadores e agora começa a receber parte do que investiu? Será que esse ministro é evangélico, ou tem alguma ligação, mesmo que indireta, com  a igreja de Valdemiro? Acredito que uma pequena investigação não faria mal nenhum nesse caso.
Gozam dos mesmos privilégios diplomáticos, os cardeais da igreja católica , e também Edir Macedo (da Igreja Universal do Reino de Deus), R.R.Soares (da Igreja Internacional da Graça), e respectivas esposas.
Os portadores do passaporte diplomático não precisam apresentar vistos nos países em que entram; nos aeroportos, não precisam pegar a fila das pessoas comuns, escapando, inclusive, as suas bagagens de serem revistadas.
Lembram do caso dos bispos da Igreja Renascer em Cristo, Estevam e Sônia Hernandez, pegos no aeroporto de Miami com milhares de dólares não declarados em sua bagagem e presos por evasão de divisas e lavagem de dinheiro? Pois bem, se o casal cristão fosse possuidor de um passaporte diplomático, não teria sido pego. Os bispos teriam levado tranquilamente a grana para algum banco estrangeiro, para algum paraíso fiscal, e poderiam ter continuado com a prática até hoje, sem ninguém saber.
Não estou dizendo que a igreja católica, Edir Macedo, R.R. Soares e, agora, Valdemiro Santiago, evadam divisas do país nem que pretendam fazê-lo. Mas o fato é que podem. E dada a quantidade de dinheiro que arrecadam, sem uma declaração fiscal precisa do quanto, é algo a se pensar sobre.
Podem isso e muito mais. O fato é que são imunes às leis que incidem sobre a cabeça da grande maioria dos brasileiros, e dos cidadãos de outros países, também. Aos seus felizes portadores, o passaporte diplomático garante imunidade contra infrações cometidas em outros países. Se o cara, só para citar exemplo dos mais inofensivos, avançar um sinal vermelho na Espanha, em Cingapura, na China, na Rússia, no Nepal etc, nem adiantará o guarda multá-lo, será jogar papel fora, o infrator diplomático vive em outra esfera, a da impunidade.
A voz do povo é a voz de deus, dizem os estúpidos. Só se for a voz da absoluta mudez, da plena afasia. Nem o povo - que só existe como massa de manobra - e nem deus - que não existe - têm voz. Contudo, como são poderosos os que tomam para si as vozes do povo e de deus : os políticos e os líderes espirituais. Em nomes de um povo e de um deus abstratos, eles cometem os maiores descalabros e gozam de privilégios legais inimagináveis para nós, meros mortais. 
E o pior é que o povo e deus - feitos às imagem e semelhança da mesma burrice  - devem achar realmente que eles merecem tais regalias por representá-los. Políticos safados não cessam de ser reeleitos; líderes espirituais escarnecedores não cessam de proliferar.

Em tempo : há uma petição pública online pedindo o cancelamento do passaporte diplomático de Valdemiro, o link da petição, a quem interessar possa, é : www.peticaopublica.com.br/PeticaoAssinar.aspx?pi=P2013N34617
O Marreta já assinou.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Libertem Geraldinho Rastafári

A questão é controversa e aparentemente intrincada.
Drogas consideradas ilícitas podem ser utilizadas livremente dentro de um contexto religioso, em uma cerimônia ou culto? Suas produção e distribuição, tão somente destinadas aos louváveis propósitos da fé, espiritualidade e outras embromações,  podem não ser consideradas como tráfico de entorpecentes?
A resposta, segundo Geraldo Antônio Baptista, o Geraldinho Rastafári, é sim. 
Geraldinho Rastafári, 53 anos, é o Papa da Primeira Igreja Niubingui Etíope Coptic de Sião do Brasil, conhecida como “igreja da maconha” e sediada na cidade de Americana (SP). Segundo o guru da chibaba, o cultivo da maconha para fins religiosos é permitido pela legislação brasileira.
Não obstante, Geraldinho foi detido e enquadrado por tráfico de drogas. Geraldinho foi grampeado em 15 de agosto do ano passado, depois que a polícia encontrou 37 pés de maconha palntados em sua casa; aliás, 6 pés a menos que a quantidade encontrada na laje da casa da vovó da maconha, em Diadema (SP).
De acordo com a esposa de Geraldinho, Marlene Martins, que ficou responsável pela igreja e pela saúde espiritual dos fiéis durante, digamos, o retiro espiritual do Sumo Sacerdote da Cannabis, a medida judicial não alterou em muito a rotina dos cultos : “Perdemos nossa liderança, então o movimento cai um pouco. Muitos universitários, principalmente, ficaram com receio após a prisão. Mas continuamos funcionando normalmente”.
Universitários, é lógico. O que seria desse nosso país se não fossem os universitários, sempre ávidos por novos conhecimentos e doutrinas?
Os advogados de Geraldinho Rastafári argumentarão que a maconha pode ser usada de forma ritual nos cultos da igreja e que, ao não permitir que isso ocorra, a Justiça desrespeitaria o item constitucional que garante liberdade religiosa aos brasileiros. 
É claro que tudo isso é uma grande duma enrolação, ninguém está interessado em aperfeiçoamento espiritual porra nenhuma. Claro que é só uma desculpa esfarrapada para fumar maconha. Mas e daí?
O álcool, ainda que legalizado, é a droga que mais mata mundialmente, e o padre não dá lá a talagada no vinho dele durante a missa, no draculesco ritual do sangue de Cristo, que é seguido da canibalesca comunhão do corpo de Cristo? A turma do Santo Daime não vomita até as tripas depois de ingerir suas infusões alucinógenas?
Além disso, as religiões já servem mesmo para tanta merda, para tanta coisa ruim. Guerras, matanças, genocídios, enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, tráfico de influências, acobertamento de pedófilos. Se passarem a se prestar também para o sujeito fumar a maconhazinha dele em paz, sem incomodar ningém, será o menor de seus males.
A próxima audiência, que decidirá o futuro do Bispo da Marijuana, está marcada para o dia 17 de janeiro próximo, no fórum de Americana.
Enquanto isso, Marlene, fiéis da igreja da maconha e defensores da causa não estão de braços cruzados. Uma petição online já angariou 3200 assinaturas em prol da absolvição de Geraldinho Rastafári, e o grupo também pede o auxílio de entidades como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e CNJ (Conselho Nacional de Justiça).
Entre outras coisas, Geraldinho Rastafári carrega uma bíblia com uma folha de maconha em dourado na capa e afirma que Cristo operou seus milagres sob o efeito da erva. Não duvido. Não mesmo.
Soltem logo o Geraldinho, porra!!! Libertem Geraldinho Rastafári!!!
Deixem que o sacerdote do cigarrinho do capeta continue a conduzir seu desorientado rebanho pelos vales da morte e das sombras. E da fumaça. 
Geraldinho Rastafári, a rezar fervorosamente.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Ao Poeta Do Hediondo

Encontro-me entre feras, 
Mas não sinto a tua necessidade, Augusto, 
De também ser fera. 
Meu desejo é mais penoso e tem maior custo: 
A vontade de não mais ser humano, em mim impera, 
Mas aí é que dano, Augusto; 
Como perder a humanidade sem me tornar fera? 

Já amputei a mão que afaga, verti cal na chaga 
E beijos, Augusto, nunca mais quererei. 
Ainda assim, a vida em mim naufraga 
Na incerteza de se fera me tornarei. 
E da questão, essa ambigüidade é todo o cerne 
Ah, que vida frugal e sem conflitos 
Deves estar levando aí com seus amigos, Augusto, os vermes. 

Mas sobre esse dilema, uma nova luz incide, 
A dualidade da questão, a resposta em si encerra. 
Podes dormir tranquilo, Augusto. 
Achei a solução! 
Devemos perder – e perderei – a nossa humanidade 
Para que ela jamais nos torne em feras.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Considerações Sobre As Diversas Visões

Acabo de chegar do oftalmologista : ele dilatou os meus olhos (as pupilas);
Semana que vem, tenho consulta marcada no urologista : um temor difuso e de origem indefinida começa a me assaltar...
Lembrei-me do clássico LP de Tom Zé, Todos os Olhos do Mundo, cuja capa é das mais instigantes que já vi, se não a mais.
A bolinha de gude, claramente, faz as vezes de um globo ocular, e o cu em que ela repousa - sim, é um cu -, reza a lenda, não sei se é verdade, dizem ser da Maria Bethânia.
Pode até ser. Esses meninos da Tropicália, sempre metidos com psicodelismos, esoterismos, visão do terceiro olho. Essas coisas. 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Mijadinha Ecológica

A prática, em si, não é nova. Todo mundo a faz - ou costumeiramente, ou esporadicamente. É um daqueles pequenos tabus caseiros, não se pergunta a respeito dele, não se comenta sobre, nunca foi recomendado aos filhos que não o praticassem, finge-se que não existe.
É a relaxante urinada que se dá durante o banho, geralmente no início dele, quando o cair da água do chuveiro estimula que mais água venha abaixo, libera a micção. 
Há os que mijam diretamente no ralo, e acredito que componham a maioria, há os que aproveitam o jato de urina para ir empurrando pequenos detritos para o ralo, restos de espuma do banho anterior, fios de cabelo etc.
Quando eu era criança, transformava a pistola numa verdadeira pistola d´água, mijava tentando acertar aqueles mosquitinhos comuns aos boxes de banheiro, uns bem miudinhos, cinzentos. Parei com isso. Não porque eu não seja mais criança, mas porque aqueles mosquitinhos há muito sumiram de meu banheiro.
Bom, se o ato é dos mais comuns e antigos, um vereador propor publicamente que ele seja estimulado entre a população, até onde eu saiba, é fato inédito.
É exatamente esta a sugestão do vereador Bert Wassink, do partido ecológico GroenLinks, da cidade de Drenthe, Países Baixos. Ele quer inserir sua proposta dentro do projeto maior de sustentabilidade e economia de água, carro-chefe da prefeitura de seu município para o ano de 2013.
Urinar durante o banho leva a uma economia de água e de dinheiro. "Se você combina banho e urina, economiza bastante água e dinheiro. Então por que não?", pergunta Bert, e aproveitou para se declarar um antigo adepto do esporte.
É a mijada sustentável! É o mijão politicamente correto! E eu? Que sou ecológico e nem sabia? Puta que o pariu!!!
Só acho que o cartaz acima, o símbolo da campanha de Bert, precisa ser um pouco melhorado. Fica parecendo que o cara tá mijando embaixo de poste de iluminação pública, não de um chuveiro; o que, confesso, também já fiz várias vezes, naqueles madrugadões, as ruas agradavelmente desertas, voltando para casa meio bêbado.
E se formos pensar bem, a mijada num poste, árvore, pneu de carro, banca de jornais etc, guarda, igualmente, um aspecto ecológico. A urina vai, escorre, volta para a natureza, rega as plantas, ajuda a reabastecer os lençóis freáticos, seus compostos nitrogenados são reciclados pelas bactérias. 
O Marreta apoia a iniciativa do nobre edil.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O Carnaval Do Barbosa

Estamos a exato um mês da virada do ano e os preparativos estão a todo vapor. Virada do ano, sim. Que em todo o mundo ocidental, a passagem para o Ano Novo se dá em 1º de janeiro, e nós até que fazemos uma festinha por conta disso. Mas Ano Novo mesmo, no Brasil, só começa, desgraçadamente, depois do carnaval. 
Carnaval, isso sim é que é uma festa de responsa para saudar o novo ano. Foguetinhos a enfeitarem os céus por alguns minutos? Uma champanezinha Sidra Cereser a espocar aqui e ali? Comer umas não sei quantas uvinhas para dar sorte? Usar calcinhas dessa ou daquela cor para atrair os benefícios desejados?
Nada disso. Festa de Ano Novo que se preze dura quatro dias. Não tem nada de fogos de artifício, tem é de ficar de fogo; nada de espumantezinhos, só cerveja e destilados misturados com refrigerantes ou energéticos; e se seu carnaval for dos bons, você nem se lembrará de onde perdeu as calcinhas.
Todo carnaval elege seus heróis, aquelas personalidades cujos rostos transformados em máscaras vestirão os foliões. A máscara do Lula já foi campeã de vendas de carnavais passados, a do Ronaldinho, a do Bin Laden, a do Obama e, mais recentemente, a do palhaço Tiririca, sensação do carnaval de 2011.
Para o carnaval deste ano, a máscara mais vendida, com mais de 25 mil unidades negociadas e já esgotada das prateleiras, é dele, do Justiceiro-Mor da República, Joaquim Barbosa, responsável pela condenação inédita de toda a petralhada de Lula no caso do mensalão.
As máscaras de Barbosa evaporaram das lojas, feito os bons e velhos lança-perfumes dos antigos carnavais. Os fabricantes estão trabalhando no limite de suas máquinas e prometeram um reforço de 15 mil máscaras, reforço que será insuficiente, dizem eles.
Este ano não vai ter nem pro Rei Momo, este ano é do Barbosa e ninguém tasca. A Justiça pode ser meio cegueta, mas usa óculos e tem a cara do Barbosa. A cara da Justiça, nesse país de descarados, é a cara do Barbosa. Ou será apenas a máscara da Justiça?
Dane-se. É carnaval, e todo mundo quer vestir a cara do Barbosa, canibalizar suas retidão e honradez.
Esperemos que o fenômeno Joaquim Barbosa não se mostre um carnaval, de fato. Esperemos que todo o esforço e o risco que ele correu na condenação da alta cúpula do PT (nos últimos dias de julgamento, ele contava com proteção do Exército) não terminem numa triste quarta-feira de cinzas. 
O que parece estar a caminho de acontecer; condenados, muitos foram, presos, ainda nenhum.
De qualquer forma, Joaquim Barbosa fez o seu carnaval, e nós, tolos e eternos pierrots traídos, por quatro metafóricos dias, aderimos esperançosos ao seu bloco, engrossamos o coro de seu cordão.

Femen, As Excluídas Do BBB 13

Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, em sua música Eu Gosto É De Mulher, diz : "Vocês sabem que eu adoro um peito, peito pra dar de mamar, peito só pra enfeitar".
Não tem como discordar do cara, eu também adoro um peito. Dois, de preferência, um ao lado do outro. Ver uns peitos livres e soltos, não importa o contexto, é sempre bom.
Mas acho, sinceramente,  lamentável o uso que as meninas do Femen fazem dos seus. Penso que prestam um desserviço a tudo o que as mulheres conseguiram na sua longa e constante luta por direitos iguais.
Quem me conhece, ou lê o Marreta de vez em quando, sabe que eu não simpatizo com e nem, muito menos, defendo qualquer desses chamados movimentos sociais; de forma geral, são grupos atrás de privilégios constitucionais, e não, como apregoam, de igualdade.
Não obstante, e filtrando seus excessos, inerentes a qualquer causa que se defenda, tenho uma certa afinidade pelo movimento feminista. Afinal, são mulheres, né? E homem não resiste ao choro de uma mulher - choro que aqui tem conotação muito além do pranto, que representa todas as reivindicações e reclamações das mulheres, principalmente a nosso respeito, os homens, a sociedade patriarcal. No que, quase sempre, elas têm razão.
Os registros mais antigos do movimento feminista datam da Revolução Francesa. Em 1791, a revolucionária Olímpia de Gouges compôs uma célebre declaração, proclamando que a mulher possuía direitos naturais idênticos aos dos homens e que, por essa razão, tinha o direito de participar, direta ou indiretamente, da formulação das leis e da política em geral.
O caso de Olimpia de Gouges, porém, foi um ato isolado em sua época. O feminismo voltou à toda carga a partir de fins do século XIX, início do século XX, e obteve a maioria dos direitos atuais nas décadas de 1960 e 1970.
O que quero dizer é que foram séculos de luta para que a mulher começasse a ser minimamente respeitada e ouvida em suas opinões e necessidades - e muito resta a se conseguir. Centenas de anos para que passassem a ser vistas como mais que simples objetos sexuais, mais que corpos inanimados, mais que bonecas infláveis de carne à disposição do macho.
E agora, que conseguiram pleno espaço para expor seus pensamentos e argumentar de igual para igual com os homens, vêm essas meninas do Femen e fazem o quê, quando algo as contraria, quando se julgam alvo de alguma injustiça ou discriminação?
Mostram os peitos!!!
Tanto tempo e tanta luta para nos convencer de que são possuidoras de cérebro e razão e defendem suas causas de que forma? Mostram os peitos!!! As integrantes do Femen só vêm a reavivar e a reforçar o estereótipo machista que boa parte da sociedade guarda da muher, só fazem recrudescer a ideia (errada) de que mulher é isso mesmo, um corpo usufruível, o qual ela usa como arma e único argumento para sensibilizar o homem.
As integrantes do Femen não expõem sua ideias. Mostram os peitos!!! E olha que nem são "aqueles" peitos. No mais das vezes, são uns peitos meio mixurucos, pequenos, mirradinhos, já caídos e murchos, pela falta do uso de sutiã, esse artefato de dominação e castração masculina - tenho certeza de que elas pensam assim.
Os "argumentos" do Femen não fazem mira no cérebro do homem e na possibilidade de mudá-lo um pouco, eles visam a outra cabeça masculina, a cabeça do pau. O Femen faz o que toda arrivista, o que toda maria chuteira, o que toda periguete faz : usa o corpo para conseguir o que quer.
Aliás, tenho cá para mim, que as Femen são periguetes enrustidas. Adorariam ser cobiçadas para capas de revistas e para madrinhas de bateria das escolas de samba , mas não apresentam os atributos físicos para tal. Daí, utilizam-se do subterfúgio de um pretenso engajamento político e social para... mostrar os peitos!!! Tornarem-se subcelebridades, feito as que criticam. E das quais morrem de inveja.
Não sei se, na Ucrânia, berço do Femen, mostrar os peitos possa ter um significado além de, simplesmente, mostrar os peitos. Sei lá, é frio pra caralho na Ucrânia, peitos à mostra não é coisa que se veja todos os dias em terras gélidas, admito que uma certa coragem é necessária para encarar os rigores do clima - ou uma vontade muito maior de aparecer gratuitamente nos noticiários. Mas aqui no Brasil? Aqui não tem jeito, mostrar os peitos, é só mostrar os peitos. Peitos de fora fazem parte de nosso triste carnaval cotidiano.
Todo esse meu blá-blá-blá porque o Femen Brazil - sim, os politizados peitos ucranianos abriram franquias pelo mundo - foi agente de mais um protesto de altíssima relevância, ontem, no Santana Parque Shopping, Zona Norte da cidade de São Paulo.
Dessa vez, elas desnudaram suas muxibas para espernear contra a presença da Casa de Vidro, uma instalação da Rede Globo que abriga, em pleno shopping, candidatos a participantes do Big Brother Brasil 13. 
O BBB, se é que alguém ainda não conhece, é um reality show que glorifica o vagabundo e, sobretudo, a biscate. Biscate que, em rede nacional e horário nobre, faz sabem o quê, basicamente? Mostra os peitos!!! E uns peitos muito mais caprichados que os das meninas do Femen.
Puta que o pariu!!! É o roto falando do rasgado! Ou, no caso, é a despeitada (do Femen) falando da peituda (do BBB).
Não tenham dúvidas, o que essas moças mais gostariam é de também serem convocadas a participar do BBB, a mostrar seus "argumentos" para todo o país. O sonho secreto das Femen é exibir seus peitos no paredão do BBB. Vão me desculpar (ou não), mas mulher séria, mulher de verdade, não sai por aí a balançar publicamente os peitos.
As manifestantes conseguiram seu objetivo, foram abraçadas e agarradas por homens - os seguranças do Shopping e da Rede Globo.
Para finalizar, quero deixar claro que esse texto não é antimulher nem antifeminista, de forma alguma. Eu adoro as mulheres. Mas é, declaradamente, anti-Femen, que, repito, presta um grande desserviço a toda história e tradição feministas, enxovalha com a imagem de toda mulher que verdadeiramente vai à luta.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Os Tomates Psicodélicos Da Vovó

Uma denúncia anônima - sempre tem um filho da puta de um vizinho alcaguete - levou os policiais civis da DISE (Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes) às portas de uma senhorinha de 69 anos de idade, moradora de Diadema (SP). A velhinha peitou os meganhas, não os deixou entrar, chamou a PM e só após a chegada desta permitiu a entrada dos policiais.
A velhinha era metida a horticultora, plantava na laje de sua casa o que, segunda ela, eram uns pezinhos de tomate, para o molho do macarrão dos netinhos, o espaguete dominical da nona. Os tais pezinhos de "tomate" eram nada mais nada menos que 43 pés de maconha, a famosa Canabis.
Pega no flagra, e sem nenhum puto de um tomate a nascer para confirmar sua história, a velhinha tentou se sair a la Bezerra da Silva, e afimou desconhecer a planta.
Um profeta do cotidiano, esse Bezerra da Silva : "Quando alguém lhe perguntava/Que mato é esse que eu nunca vi?/Ele só respondia/Não sei, não conheço isso nasceu ai/Quando os federais grampearam/E levaram o velhinha inocente/Na delegacia ela disse/Doutor não sou agricultora, desconheço a semente."
A velhinha, que mora com o ex-marido, um aposentado de 62 anos, foi autuada em flagrante e indiciada por tráfico de drogas. O ex-marido é deficiente visual e não teria acesso à laje, dessa forma, foi considerado apenas uma testemunha.
Vejam os tomatinhos da singela vovozinha. Fazer tricô e cuidar dos netos que é bom, ninguém quer, né?
Fonte : O Estadão

Pessoas Religiosas Pensam Que Suas Vidas Têm Um Sentido Mais Profundo; Na Verdade, Só São Loucas, Mesmo.

Mais uma que o Azarão sempre soube e que a ciência agora vem a confirmar.
Um estudo conduzido por pesquisadores da University College London reuniu fortes indícios de que pessoas religiosas são muito mais propensas a distúrbios mentais que aquelas que enxergam o mundo por um prisma lógico e racional.
Concordo com os dados do estudo - até porque são empíricos -, mas discordo da conclusão levantada pelos pesquisadores, a qual julgo ser exatamente o contrário : não é o fato do sujeito ser religioso que o torna mais propenso a um distúrbio mental, e sim o fato dele já ser possuidor de um distúrbio mental que o torna mais propenso a ser religioso, ou seja, o religioso não fica louco com mais facilidade, é o louco que tem maior facilidade de se tornar religioso. Óbvio. Claro e cristalino.
Só sendo portador de um razoável nível de demência para acreditar que um ser uno tenha criado todo o universo conhecido - só em nossa galáxia, a Via-Láctea, são 100 bilhões de planetas e uma quantidade equivalente de estrelas, constatou um estudo recente. Mas até aí, tudo bem, eu até dou um desconto, de repente, o lesado acha que o universo é só esse planetinha aqui.
Mas só sendo irreversivelmente um doido de pedra para achar que esse mesmo ser fique o tempo todo a olhar e velar por ele, que esse todo-poderoso o escute, que se preocupe com ele, que seja seu amigo; além de louco, o cara é megalomaníaco. Já cheguei a ver um adesivo no vidro traseiro de um carro (ou talvez na porta de uma casa, sei lá) que dizia o seguinte, não sou o dono do mundo, mas sou filho do dono. Puta que o pariu!!! É bonzinho da cabeça, um cara desse, né?
Como se não bastasse serem loucas, essas pessoas acreditam que conseguem dar um sentido mais profundo às suas vidas que os não religiosos. Qual o sentido (e o querem profundo ainda por cima) que há na reunião de um bando que fica a rezar, a uivar para um ser inexistente, e a se congregar num transe quase orgástico pelo Jesus pelado, sangrento e pendurado na cruz?
Alguns "argumentarão" que cerca de 90% da população mundial crê em algum tipo de poder divino, estarão todos loucos? Sim. A resposta é sim!!! Vivemos num manicômio em forma de planeta, e onde os loucos tomam conta do hospício. Olhem bem ao seu redor e tentem me desmentir, se forem capazes.
O estudo foi realizado com 7403 homens e mulheres britânicos selecionados aleatoriamente entre a população. Deles, 35% autodeclararam-se religiosos praticantes, frequentam uma igreja, mesquita, sinagoga ou coisa que o valha, sendo a maioria cristã; 19% disseram ter uma crença espiritual, mas não seguem uma religião específica; e os 46% restantes não eram religiosos, espiritualistas etc.
Alguns dados obtidos na pesquisa:
- as pessoas religiosas se mostraram 50% mais propensas a um transtorno de ansiedade generalizada, e 72% a desenvolverem algum tipo de fobia. Mais que evidente, para mim. Quem prima pela racionalidade não fica esperando que uma força maior interceda por ele, que arrume sua vida, não fica à espera de um milagre, não aguarda nada dos céus, não anseia, portanto. O racional sabe que ele está nesse mundo por suas próprias pernas, ele não anseia, ele vai e faz. Se consegue bons resultados em sua tentativa, ou não, é outra história, mas tem plena consciência de que tanto o sucesso quanto o fracasso são de sua responsabilidade. Quanto às fobias, é mais óbvio ainda; o cara que acredita num deus a lhe vigiar o tempo todo, está a um pequeno passo de começar a ver monstros a sair de seus armários e de baixo de sua cama.
- os declarados religiosos também se mostraram 77% mais sujeitos a uma dependência de drogas, 37% mais suscetíveis a um transtorno neurótico, e 40% mais concordantes em receber um tratamento médico com drogas psicotrópicas. Óbvio, de novo. O cara não é capaz de pensar, não é maduro o suficiente para planejar sua vida, não é capaz de, por suas próprias forças, tornar seu mundinho melhor. Num primeiro momento, ele recorre a um deus. Quando esse deus, porém, começa a dar mostras de sua inexistência, quando ele percebe que só rezar não muda a sua situação, ele, incapaz que é de encarar a realidade, apela para outra fuga, para outro ardil que torne, ou, pelo menos, faça seu mundo parecer melhor, sem que isso demande nenhum esforço : o psiquiatra e seus remedinhos milagrosos, os seus somas de Huxley. Querem coisa melhor que um bom tarja preta para deixar cor-de-rosa o mundo que os cerca? Os tarjas pretas são um substituto químico para deus.
- foi pesquisado também o nível de felicidade autodeclarado de religiosos e inteligentes; esse quesito foi o único ponto concordante nos diversos grupos, todos são igualmente felizes ou infelizes, independente de terem fé em deus ou em si próprio.
Conclusão dos pesquisadores, da qual, repito, discordo, por sabê-la às avessas : "Nós concluímos que há evidências crescentes de que as pessoas que professam crenças espirituais são mais vulneráveis ​​ao transtorno mental. A natureza desta associação necessita de maior exame qualitativo e quantitativo na pesquisa em perspectiva."
Sempre educados e polidos, esses cientistas, ainda mais que são britânicos. Educados e espertos, sabem que não convém despertar a ira dos irracionais.
Educados, mas pragmáticos, para quem os sabe ler. O que eles disseram em sua conclusão, escrita com neutralidade, como bem cabe à ciência, e até com uma aparente humildade, fazendo-nos supor que o estudo possa precisar de mais dados e ajustes, foi : que os religiosos são doidos, são; só falta qualificar e quantificar os fatores que os tornam doidos.
E isso é o mais fácil : basta perguntar a qualquer ateu.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Festival Do Corno

Salvos os casos verdadeiramente traumáticos de rompimento amoroso - aqueles de causar fratura exposta no chifre e AVC na honra -, acho que, vez em quando, a todo mundo assalta a vontade de rever um antigo caso.
Um reencontro sem nenhuma maldade ou intenção posterior, uma pequena recaída, sem febre, sem a menor chance de adoentar, muito menos pôr em coma, o atual relacionamento. Um ato civilizado, em suma. Só sentar, conversar, tomar um café - cerveja ou qualquer outra poção etílica seria abusar da sorte, ou da falta dela -, saber o que os anos fizeram um ao outro; duas pessoas que, não obstante não mais amantes, em inimigos não se tornaram.
Mas como convencer à atual adversária da inocuidade dessa pequena, digamos assim, recidiva de catapora emocional - e também se deixar convencer por ela, pois o troco é certo? E que tal incrementar um pouco mais a situação? Que tal estabelecer um dia do ano para essa revisita ao passado sentimental de cada um, que tal marcar uma data em vermelho no calendário para retirar da gaveta as velhas fotografias, que ainda que saibam a naftalina e a amarelos, só mostram os bons momentos? Na fotografia, sempre estamos felizes, como já disse o bom e velho Chico Buarque. É um risco. O risco da cornagem consentida.
, porém, um risco muito maior que o da cornagem de comum acordo e, óbvio, que o do cair na maledicência do povo, que essa sempre vem, sendo você corno ou não. É o risco de você perder o jogo de goleada. Vai que a ex dele continue toda bonitona, gostosona e desejável e o seu ex tenha ficado gordo, careca e broxa, ou vice-versa? Essa derrota, sem prorrogação nem direito a pênaltis, é o que mais vai lhe doer pelo resto da vida, o passado do outro permanecer melhor que o seu é de lascar.
Logo, pelo menos em nossa sociedade, esse reencontro com o ex continuará a se dar apenas em nossa imaginação, e o faremos com todo o zelo, com o cuidado de não pensarmos alto.
Acontece que o ser humano é plural, diverso, multicultural etc, toda essa bobajada politicamente correta, mas, principalmente, o bicho humano é engenhoso e profícuo em arrumar maneiras de cornear o outro - e também, em contrapartida, criar jurisprudências para ser corneado, no que, paciência, só resta se apegar ao dito, chifre trocado não dói. Ou se dói, é dor da qual não se pode queixar, é dor que se há de fingir que deveras não se sente.
Pois um pequeno povoado do Vietnã resolveu esse impasse. Encontrou uma solução genial para tal dilema e todos os anos, no terceiro mês do calendário lunar, vários habitantes da fronteira de Taiwan com a China se reúnem na vila Khau Vai, para conversar com ex-namorados. Por mais inacreditável que possa parecer, brigas são eventos raríssimos nessa reunião, não há notícias de tiros, facadas, tampouco chifradas letais.
Esse brilhante povo se refugiou numa antiga lenda local para justificar essa pequena escapadela sazonal, subterfugiou-se na lenda, ou, quem sabe?, a lenda tenha sido criada justamente com esse propósito; do ser  humano, toda sacanagem pode ser esperada.
A lenda conta mais ou menos o seguinte :  uma garota da tribo Giay teria se apaixonado por um rapaz da tribo Nung. Mas a moça seria tão bonita que sua comunidade proibiu que ela se casasse com um forasteiro, o que gerou uma guerra entre as duas etnias.Vendo a tragédia, os dois pombinhos resolveram se separar - mas combinaram que, uma vez por ano, eles se encontrariam na vila de Khau Vai. A tradição se mantém até hoje e os ex-namorados se vestem com cores vibrantes, que simbolizariam o amor proibido. 
Um participante chamado Lau Minh Pao conta que encontra sua ex-namorada lá todos os anos e que conversam sobre o tempo em que namoravam, sem ressentimentos. "Não pudemos nos casar porque morávamos longe um do outro, agora nós derramamos nossos corações sobre o tempo, quando nós estávamos enamorados", explica o vietnamita que hoje é casado com outra mulher. Ele garante que sua atual esposa não tem problemas com o festival - ela também encontra seu ex-namorado por lá, também está, ao mesmo tempo que Lau Minh Pao, derramando seu coração sobre o tempo. Sem nenhuma culpa ou constrangimento.
É a feira livre da cornagem. É o mercado de peixe do boi zebu. É o festival do corno. E lá se reúnem as cornagens antigas, as atuais e as vindouras; as curadas, as em carne viva e as ainda em embrião. Sim, porque num lugar desse, velhos ressentimentos podem ser perdoados, afinidades esquecidas, restauradas. O corneador pode virar corno de quem corneou, o corneado pode tornar em corno quem o corneu com quem fora corneado, e vice-versa, e pelo avesso, e assim por diante, ad infinitum, a mancheias.
Abaixo, um instantâneo do festival do corno, todo mundo de turbante, que é para disfarçar o chifre, aquele chifrinho incipiente, feito um dente do siso a romper a fronte do sujeito, chifre de viadinho novo.
Bem já dizia o Seo Israel - o velho bedel do colégio onde concluí meu colegial - tentando ajudar, quando reparava num aluno meio cabisbaixo e macambúzio por conta de um pé na bunda, vergado sob o peso do calendabro judaico instalado em sua fronte : "fica assim, não, menino, que chifre é mesmo coisa do homem, o boi usa é de enxerido".
É claro que não ajudava em nada, o Seo Israel. Aí é que o cara desmoronava de vez. E o Seo Israel sabia disso. Por experiência própria, o velho safado.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

MEC Aprova Cursos Reprovados No Enade

Já não é de hoje que a nota final do aluno, aquela que será responsável por sua aprovação ou retenção, não é mais obtida pela média aritmética dos quatro bimestres letivos. Não nas escolas públicas do estado de SP, pelo menos.
Teoricamente, a média mínima para a aprovação é cinco, numa escala de zero a dez. Teoricamente. Pro forma. Para inglês ver.
Tomemos o seguinte exemplo, hipotético nesse momento, mas bem recorrente no cotidiano das escolas públicas de SP : o aluno obtém nota 2 no primeiro bimestre, 2 no segundo, 3 no terceiro e uma nota 5 no último bimestre. 
Seguindo o que manda a boa matemática, tal educando conseguiu uma somatória de 12 pontos ao longo do ano, que divididos por quatro, o número de bimestres, dá-lhe uma média de 3. Logo, não há discussão, o aluno em questão é reprovado e refará a mesma série no ano seguinte, certo?
Errado. Totalmente errado. Eu, você, e todos os grandes mestres da matemática, todos errados.
Esse aluno, pasmem, será promovido tranquilamente para a série seguinte; aliás, já foi, já está em casa há muito tempo, curtindo suas imerecidas férias.
Há uma boa década que as orientações da Secretaria de Ensino de SP e de suas mandatárias, as Diretorias de Ensino, são no sentido de ignorar a mais reles matemática, subvertê-la, pior ainda. Esse aluno não poderá, segundo eles e seus peidagogos de gabinete, ser reprovado, de forma  alguma. 
Esqueçam a matemática nesses casos, ordenam. Deve ser considerada a "evolução" do aluno. Ele tirou 2, 2, 3, e 5, apresentou um comportamento ascendente, uma tendência positiva. Reprová-lo, nesse momento, ainda que ele esteja longe da média mínima necessária, seria barrar todo o crescente interesse que ele vem demonstrando pelo estudo, seria desestimulá-lo, derrubar sua autoestima, traumas irrecuperáveis poderiam ser impressos no educando.
Balela. Patifaria. Canalhice. Acontece que a escola pública virou uma fábrica de diplomas, uma linha de produção gigantesca de analfabetos com certificado de escolaridade, uma enorme indústria governamental de geração de dados estatísticos, usados para melhorar os índices do Brasil frente ao cenário internacional.
Alguns poucos professsores ainda tentam resistir, reclamam, esbravejam, vociferam, mas não tem como, são vencidos. O sistema é implácavel. Inexpugnável.
Lógico que o aluno sabe disso, e bem se adapta ao ambiente que o cerca. Muitos ficam coçando o saco até agosto, setembro, todos os anos, quando, então, começam a mostrar "interesse" pela escola, declaram-se arrependidos aos professores, puxam um pouco o saco, fingem-se de subservientes. O professor, ingênuo e sempre com o ego carente de ser inflado, entra na do sujeito. A reboque, vêm o cinco no último bimestre e a redentora aprovação.
E não é que, agora, o MEC, órgão máximo de nossa educação e de nossa vergonha, terá o mesmo procedimento para com os cursos superiores que não atingiram a nota mínima no ENADE, conceito que lhes garantiria a continuidade de seu funcionamento?
A nota mínima para um curso superior continuar em atividade é - seria - 3,0, numa escala de zero a cinco. O que eu já acho pouco, mas vá lá que seja.
Aplicado trienalmente, os ENADEs de 2008 e 2011 foram desastrosos.
Em dezembro desse ano, a pasta divulgou que 200 cursos que tiveram notas baixas em 2008 e 2011 não poderiam abrir vagas para este ano, 2013. Porém...
Sempre há um porém nessa merda de país, sobretudo se for um porém para o vagabundo, para o errado. Vamos ao porém : pelas novas regras divulgadas ontem pelo MEC, destes 200 cursos reprovados, 112 poderão pedir revisão, por estarem com "tendência positiva". 
Olha o golpe aí!
Do grupo dos 112, apenas seis mudaram de patamar, de nota 1 para 2, na escala até 5 - grande merda! E a coisa ainda fica melhor, pior, quero dizer : os demais 106 cursos melhoraram apenas nas casas decimais. Engenharia ambiental da faculdade Oswaldo Cruz (São Paulo), por exemplo, subiu de 1,90 para 1,91. 
Isso é tendência positiva? Puta que o pariu!!! Só o uso de duas casas decimais já mostra a má-fé do MEC. E tenham certeza, se não houvesse nenhuma "melhora" detectada até a segunda casa decimal, o MEC usaria três, quatro, cinco, ou quantos dígitos depois da vírgula fossem precisos, até encontrar a tal tendência positiva.
A média é 3,0, mas com 1,91 já dá pra passar. Dá pra passar...igualzinho a uma reunião de final de ano de escola pública.
Tem mais :  segundo essas novas regras divulgadas, se o curso estiver em instituição com boa avaliação, o processo será mais rápido. Não haverá, por exemplo, visita de comissões in loco.
Para que, então, gastar milhões na realização do ENADE, mais uns tantos milhões na divulgação dos cursos picaretas, se nada vai mudar no fim das contas? A resposta está nos milhões. 
Todo esse processo retira dos cofres públicos uma dinherama cujo montante sequer somos capazes de imaginar. Dinherama que vai se perdendo, que vai se pulverizando pelo caminho, feito uma garoa fina a molhar muitas e muitas mãos. E depois do resultado divulgado, mais dinheiro vem.
Óbvio que, com a divulgação dos resultados, o MEC sofreu uma "pressão financeira", digamos assim, dos donos dos cursos reprovados. Daí, essas novas regras, permissivas até a última instância.
No fim, todos ficam felizes, e a grande indústria da educação e da enganação segue de vento em popa. Da autoenganação, o que é pior. Afinal, se o brasileiro primasse por uma educação de qualidade, se, ao pagar por uma faculdade, estivesse mesmo em busca de um curso de alto nível, e não de apenas mais um diploma a dizer que ele é capacitado para algo em que ele efetivamente não chega nem perto de ser, de nada adiantaria o MEC mudar as regras durante o jogo.
Se o interesse do brasileiro fosse pela qualidade, a partir do momento da publicação dos resultados negativos dos tais 200 cursos, os mesmos ficariam sem interessados em frequentá-los, a demanda por eles seria tão baixa que seu fechamento se daria naturalmente, pouco importando o que o MEC dissesse depois, pouco importando o quanto eles "melhorassem" decimalmente, centesimalmente etc.
Acontece que são cursos mais baratos e de menor duração. Diploma por diploma, pensa o brasileiro, vai o mais fácil, o mais baratinho. Vai essa merda mesmo. A máxima culpa da baixa qualidade de ensino atual é do próprio aluno, ele quer o mais imediato - acha que curso universitário é mais um aplicativo para seus malditos celulares -, e imediatismo sempre se traduz em porcaria. 
Nenhum governo pode ser julgado culpado pela sacanagem que faz com seus cidadãos, ele meramente visualiza a brecha, o ponto fraco do povo, e a alarga. Não querem estudar a sério?, pergunta o governo. Então tomem aí essa merda disfarçada de escola, que para vocês está de bom tamanho. E está mesmo.
O MEC, porém, garante que não é a casa da Mãe Joana, a coisa também não vai ser fácil assim, não. Nenhum dos 112 cursos está automaticamente liberado, pois todos passarão por avaliação.
Imagino.

Receita Para Afastar Um Amante - Xico Sá

Publicado na Folha de São Paulo, 03/01/13
"Finalmente encontro Amaro. Queria agradecer por um conselho amoroso. Havia se manifestado apenas por email.
O desejo de Amaro, aproveitando minha passagem nas praias de Pernambuco, era oferecer um banquete, o que o fez de forma pantagruélica, babélica, dionisíaca etc, na sua residência em Piedade.
Amaro está feliz, em lua de mel restaurada, com a cria da sua costela. Ao drama, felizmente resolvido, para quem não lembra mais:
O leitor aflito me escreve. Quer ajuda, conselhos, alguma consolação, ombro, ouvidos… Invoco a Miss Corações Solitários que costuma fazer morada nesta pobre caveira envelhecida em barris de bálsamo.
Não posso deixá-lo a mascar o jiló do abandono. Está desconsolado, como o Sizenando de Rubem Braga, que viu a amada cair nos braços de um playboy. Um idiota que não sabia sequer uma palavra de esperanto.
A vida é triste, Sizenando, como soprou-lhe o cronista.
Com Amaro, chamemos assim o nosso personagem, não foi diferente.
Quis o destino parafusar objetos pontiagudos à testa da pobre criatura.
Sim, ela tem um amante. Daqueles amantes que se encontram à tarde, num intervalo qualquer, no recreio da vida chata.
Nem foi preciso contratar o detive particular, conta-me o nosso Amaro. Ele mesmo fez as vezes de cão farejador da própria desgraça.
Que fazer?, indaga, num email no qual até a arroba bóia em poças de lágrimas.
Mato o desgraçado?
Tiro a vida da desalmada?
Vou-me embora pra Tegucigalpa?
Salto mortal da ponte Buarque de Macedo?
Um trágico, esse rapaz. Como os de antigamente. Amaro é do tempo em que os homens coravam. Ainda tenho vergonha na cara, diz, urrando vaidades e orgulhos.
Sossega, Amaro.
O melhor que fazes, respondi ao marido em fúria, é sumir por uns dias, inventar uma viagem, e dar todo tempo do mundo ao infeliz desse amante.
Banalizar o amante, meu caro e bom Amaro.
Entendeste?
Deixar que eles durmam e acordem juntos por vários dias seguidos. Que tenham seus problemas, que percam o luxo dos encontros fortuitos e vespertinos, que se esbaldem.
É necessário deixar a Bovary sentir o bafo matinal da rotina.
A vida dos amantes dura porque eles só vivem as surpresas e valorizam cada minuto do relógio que põem sobre a cabeceira daquele motel barato.
Nada mais cruel para o amante da tua mulher que presenteá-lo com o pão-com-manteiga do dia-a-dia. A rotina é o cavalo de tróia do amor.
Amaro, nada de violência ou besteiras desse naipe.
Ao amante, todas as chances do mundo. Ao amante aquela D.R., a famosa discussão de relação, em plena TPM.
Um amante nunca sabe o que venha ser uma mulher sob o domínio da TPM. Ela faz questão de reservar todos os direitos desse ciclo ao pobre marido.
Ao amante, Amaro, a tapioca fria e sem recheio da rotina do calendário.
Ao amante, Amaro, a falta de assunto.
Ao amante, os cabelos revoltos da mulher, naqueles dias em que nem mesmo ela se agüenta ou encara o espelho. Naqueles dias em que os cabelos brigam com as leis do cosmo e não há pente ou diabo que dê jeito.
Some, Amaro, depois me conta."

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Raul Gil Não Tira o Chapéu Para Marquito (Ou : Tiririca, O Analfabeto Que Fez Escola)

Depois da estrondosa votação recebida pelo palhaço Tiririca nas eleições estaduais e federais de 2010, outros palhaços resolveram arriscar a sorte. E deram sorte.
É o caso de Marquito, o homem que não tem mosquito, alcunha lhe dada pelo apresentador Barros de Alencar, um de seus inúmeros "patrões". Marquito também já foi assistente de palco de Raul Gil, seu tio, e atualmente auxilia o bigodudo Ratinho, do SBT.
Lembro de Marquito fazendo as mais escabrosas imitações e dublagens, trajado conforme cada artista imitado e com o disco (nos bons tempos do LP) em rotação mais alta, 78 rpm provavelmente, produzindo uma voz distorcida e acelerada, ao som da qual Marquito dançava, gesticulava e dublava, tudo na mesma velocidade. Sua dublagem clássica, sua obra imortal, é Malagueña, imperdível e impagável.
"Esquisito por esquisito, vote no Marquito", sugeriu o candidato aos eleitores durante sua campanha. E os eleitores acataram a sugestão. Não obteve a mesma votação assombrosa de Tiririca, angariou parcos 22.198 votos, que lhes garantiram, no entanto, o posto de primeiro suplente de Celso Jatene, agora licenciado para ser secretário de esportes da gestão Haddad.
Sai Jatene e entra Marquito.
Em sua posse, ontem, 02/01/13, Marquito disse que não sabe se fará oposição a Fernando Haddad. "Vou conversar com minha assessoria ainda", após cochichar com um de seus assessores. Puta que o pariu! Marquito foi assistente de palco a vida inteira, agora terá assessores. No plural, e bota plural nisso, meia dúzia deles. Todos ajudando o palhaço a rir. E não faltarão motivos para Marquito rir seu riso banguelo, o salário, só o salário - fora todas as regalias e auxílios isso e aquilo -, só o famoso "faz me rir" de um vereador da capital paulista é de R$ 15 mil.
Nada mal para quem diz ter gasto R$ 8 mil em sua campanha.
Como não poderia deixar de ser, não faltaram presenças ilustres na posse de Marquito. Seu tio, o apresentador Raul Gil, esteve lá para prestigiar o sobrinho, que já deve ter lhe dado muito trabalho. Raul Gil declarou aos repórteres : "O Marquito é filho da minha irmã e eu cuido dele praticamente desde criança. Ele que quis seguir essa carreira [de artista]. Eu o levei para conhecer os artistas nas boates. Ele tem talento. Se ele botar esse talento artístico na política, vai se sair bem. Ele é inteligente. Não teve muito estudo porque não gostava de estudar, não porque faltou dinheiro, não (risos). Mas está aí, seja o que Deus quiser."
Bom, basta a gente dar uma olhada mais atenta ao mundo para ver bem o que "deus quer".
Raul Gil, como de costume, estava todo sorridente, e assistiu à cerimônia de posse a usar um chapéu preto, sem tirá-lo por um momento sequer. Ou seja, Raul Gil não tirou o chapéu para o sobrinho Marquito.
Marquito garante que não é outro Tiririca, mas que se espelha nele, sim. Indagado sobre seus projetos, ele segue os passos do professor : "Ainda não tenho, mas vou lutar por mais saúde e educação. Vou fazer o que vereador tem que fazer."
Marquito não sabe o que faz um vereador, assim como Tiririca declarava não saber das funções de um deputado.
E nós, o que fazemos? Faremos o quê?

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Cachaça Atômica

Mal acabara de acionar a contagem regressiva automática do novo protótipo da Bomba Gama e Dr. Robert Bruce Banner, emérito físico nuclear a serviço do exército dos EUA, vê um desatento jovem adentrar a área de testes. Interromper a contagem era impossível, emitir qualquer alerta ao jovem dali de seu laboratório, idem. Bruce Banner, então, abandona as grossas paredes e vidros à prova de radiação de seu observatório e acorre em direção ao rapaz. Sem tempo para explicar, arrasta Rick Jones - esse era o nome do rapaz - e o arremessa para o fundo de uma espécie de trincheira de proteção. Porém, quando estava, ele próprio, prestes a saltar também para a trincheira, a Bomba Gama explode às suas costas. Milhões e milhões de letais partículas gama atravessam o seu franzino corpo de cientista.
Para a sorte do doutor, ele não vive em nosso planeta Terra, pelo menos não em nossa linha de tempo ou plano dimensional. Bruce Banner habita o universo Marvel, terra das maravilhas. Assim, ao invés de ser vaporizado, desintegrado, ou, na melhor das hipóteses, derretido a uma massa cinza e disforme, ele sobreviveu. E ganhou poderes inimagináveis. Sempre que fica nervoso ou é exposto a uma situação de risco, seu DNA gamicamente alterado opera transformações : Bruce cresce, seus músculos centuplicam de tamanho, sua camisa se rasga, seus sapatos estouram, suas calças se esfarrapam, sua pele ganha tons verdes, sai Bill Paxton e entra Lou Ferrigno, e Hulk sai a esmagar e a dar seus saltos de sete léguas.
Na nossa Terra, os raios gamas são bem mais monótonos. São utilizados na esterilização de alimentos e equipamentos médicos, em radioterapia e na tomografia computadorizada.
Essa história, entretanto, está para mudar. Cientistas manguaceiros do Laboratório de Radiobiologia e Meio Ambiente do Cena (Centro de Energia Nuclear na Agricultura) da USP descobriram uma aplicação mais nobre para os raios gamas : acelerar o envelhecimento da cachaça, a famosa pinga.
Uma pinga considerada boa pode passar até 3 anos a envelhecer em barris de madeira; o mesmo resultado é alcançado em apenas alguns minutos de irradiação gama sobre a água que passarinho não bebe, garante Valter Arthur, um dos coordenadores do projeto, já com a fala meio engrolada.
O processo de fabricação não sofre nenhuma mudança, a diferença é que, depois de destilada, em vez de ir para os barris envelhecer, a cachaça já é engarrafada, e, na garrafa mesmo, é submetida a um irradiador gama. A radiação desencadeia instantaneamente reações químicas que levariam anos para ocorrer dentro dos barris de madeira, alterando pH, teor alcoólico e outras propriedades  físico-químicas da aguardente.
O maior obstáculo, segundo Valter Arthur, seria convencer as pessoas de que o consumo da cachaça irradiada é seguro. Irradiada  não é a mesma coisa que contaminada, diz. Uma vez cessada a irradiação, a cachaça pode ser prontamente consumida.
O sommelier de cachaça Jairo Martins provou da branquinha e não aprovou. A acidez ainda estava muito forte, não substitui a madeira, foi seu veredito. Sommelier de cachaça? Puta que o pariu! De vinho, ainda vá lá, é mesmo aquela coisa mais fresca, mais francesa, digamos assim. Mas de cachaça? Cachaça não se degusta, entorna-se. 
Contrariando o sommelier, a equipe toda do projeto provou exaustivamente a cachaça atômica e disse que o gosto não tem diferença. Temendo, contudo, uma possível parcialidade, e resolvida a tirar a prova dos nove, a equipe do projeto levou a cachaça para fora do laboratório e fez um teste com 40 estudantes da USP, que não detectaram a menor diferença entre a pinga tradicional e a "marvada" irradiada.
Ora, com quem  ficamos? Quem entende mais de pinga? Um sommelier de cachaça (é muita viadagem) ou estudantes universitários? A resposta é óbvia, ninguém entende mais de cachaça que estudante universitário.
Mas quem melhor para carimbar o selo ISO 9000 na cachaça gama que ele, ele que mais entende do assunto, o Incrível Hulk? O gigante esmeralda também provou da novidade e agora irá se pronunciar a respeito:
Fonte : Folha de São Paulo/Caderno Ciência

Uma Elegia À Cláudia Ohana (11)

"Teu cabelo preto
Explícito objeto
Castanhos lábios
Ou pra ser exato
Lábios cor de açaí"