domingo, 18 de maio de 2014

Nebacetin ou Na Bucetinha?

Texto de um de meus alter egos, de uma dimensão vindoura, de dias de um futuro esquecido, Antenor Barbeiro:
Aprendi o ofício de barbeiro aos 11 anos, levado por meu velho pai, um portuguesão bronco de Cascais, à barbearia de um patrício seu, o seo Afonso.
Apesar de ser comerciante de confortáveis posses e ter tido condições de bem manter os três filhos longe da faina, meu pai fez questão de que todos aprendessem um ofício, como se dizia à época. Eu fui ser barbeiro, o do meio, alfaiate, e o caçula, que começou como office boy, acabou concursado pelo Banco do Brasil.
Que dizia meu finado e já decomposto pai - que ouviu do pai dele, que ouviu do pai do pai dele, que ouviu do pai do pai do pai dele, que deve ter ouvido do primeiro macaco de nossa árvore genealógica - que cabeça vazia era oficina do diabo.
Eu não tive filhos para transmitir-lhes o atávico conhecimento, mas acho que é isso mesmo. Hoje, vejo essa meninada à toa por aí - diz que tem até uma lei que proíbe menino de trabalhar -, vagabundeando pelas ruas, pelas praças, pelos shoppings, sem nenhuma obrigação a cumprir, com uma vida que é só facilidades, confortos e liberdades. E como eles aproveitam esse vidão que lhes caiu dos céus? Vão fumar maconha! Ou dar o rabicó!
Não sou homem de muitas letras, a muito custo terminei o antigo grupo, mas tenho certeza de que muito da droga e da perobagem que aí estão têm a ver com a vida mansa dessa garotada. A vida na flauta deixa o gajo frouxo das vontades - e aí a droga entra -, e frouxo das pregas - e aí todo mundo sabe o que entra, pois não?
O que estou a dizer é que de petiz me fiz homem em ambiente de trabalho árduo e cansativo, exclusivamente masculino, chucro, de assuntos e conversas de baixo calão. E barulhento. Muito barulhento. Sobretudo barulhento.
Há dias em que encerro o expediente com os ouvidos exaustos, extenuados - muito mais fatigados que minhas varicosas pernas, que meus braços e que minhas mãos, já há décadas tortas e deformadas pelo empunhar da tesoura, pente e navalha. E só. Que aqui não tem isso de secador de cabelo, não. Aquele vento quente na nuca e atrás da orelha não é coisa de barbeiro, é de cabelereiro.
O ouvido é que mais sofre. Ninguém percebe isso, mas o ouvido é que não tem descanso em nenhum momento. As pernas, a gente se senta, estica-as um pouco, feito um lutador de boxe cansado, e volta para o round seguinte. Os olhos, secos, vermelhos, ardidos, a gente fecha um tantinho e o escuro lhes serve de hidrantante e analgésico; até o nariz, saturado dos cheiros do talco Ross, da espuma de barba Bozzano e da aqua velva Williams, a gente pode tapar e conceder-lhe breve descanso de sua labuta.
Os ouvidos, não. Por mais que se tente isolá-los das conversas altas da freguesia, um fiapo de som, de barulho, sempre consegue lhes invadir. O ouvido nunca para de ouvir. O ouvido não tem  aqueles 15 minutos de descanso para ir ao banheiro, tomar um café, pitar um Minister ou um Vila Rica.
De vingança, feito funcionário que deseja ser demitido, o ouvido começa a mal trabalhar, começa a sabotar seu trabalho. E nem digo de ficar surdo. Só de pirraça, o ouvido começa a embaralhar as palavras à nossa volta, mistura-as no meio do caminho para o cérebro.
Pega uma palavra que um fala aqui, uma que outro fala ali, outra que outro diz acolá, vai quebrando e misturando as sílabas, distorcendo tudo, formando palavras que nunca foram ditas - e tudo de sacanagem, tudo de putaria.
Dia desses, tive que ir ao centro velho da cidade. Aquilo é um horror, uma bagunça só, uma sujeira de dar desgosto, um povo feio e mal-educado, e barulho pra tudo quanto é lado : carros, músicas saídas dos alto-falantes das lojas, os berros dos vendedores ambulantes etc etc. 
De repente, ouvi :  - duas chupetinhas por 10 "real", duas chupetinhas por 10 "real". Olhei e vi que o anúncio provinha de uma moça, uma jovem na faixa dos vinte e poucos anos, com um traje colorido berrante, havia um logotipo à esquerda e à altura do peito de sua blusa, que o véio, sem óculos que estava, não consegui ler. Andei mais uns quarteirões e de novo : - duas chupetinhas por 10 "real", duas chupetinhas por 10 "real". Outra moça, de mesmo biótipo que a primeira, de mesmo  uniforme. Mais algumas esquinas e outra vez : - duas chupetinhas por 10 "real", duas chupetinhas por 10 "real". Aí, o véio não resistiu. Cheguei mais perto para conferir a generosa oferta. Não era nada daquilo. Era o ouvido pregando peças no véio. As moças eram promotoras da operadora de celulares Tim, e o que elas diziam era : dois chips da Tim por 10 "real", dois chips da Tim por 10 "real" Uma pena. O véio achou que ia se dar bem naquele dia.
Pior foi na semana passada. Apareceram uma coceiras, umas inflamações no pau do véio, e lá fui eu ao médico. Dermatite de contato, o doutor diagnosticou. O pau fica lá à toa o dia todo, num lugar quente, úmido, esfregando a cabeça na cueca, vai ferindo e dá essas infecções. "Mas o tratamento é muito simples, seo Antenor", disse o médico, "é só passar na bucetinha, de oito em oito horas, durante uma semana".
Passar na bucetinha? E onde o véio ia arrumar uma bucetinha para passar o pau a cada oito horas? Além disso, desde quando passar o pau numa bucetinha cura alguma coisa? Antes pelo contrário. O véio, quando não era véio, já pegou muita moléstia de bucetinhas, muita gonorreia, que era doença à toa, curava fácil com penicilina.
Olhei espantado para o médico e perguntei : passar o pau onde, doutor? "Não é onde, seo Antenor, é o quê", respondeu. Tirou tubinho de amostra grátis da gaveta e me esclareceu : "o senhor vai passar essa pomada aqui, Nebacetin. Nebacetin de oito em oito horas." 
Nada de na bucetinha. De novo o ouvido me sacaneando. De novo eu perdendo a chance de me dar bem. Homessa! 
Comecei a ficar ressabiado. Seria o tal do Alzheimer, que na minha época era chamado de caduquice? Estava pensando seriamente em consultar um médico da cabeça, fazer um eletro da cachola. Foi quando contei esses causos para o dr. Edson, freguês antigo, doutor dentista. O dr. Edson é formado pela USP, em uma das primeiras turmas, e é um craque em palavras cruzadas, vive com um caderninho delas nas mãos. E ninguém sabe mais das coisas que doutor formado na USP e que um aficcionado em cruzadas.
Primeiro, o dr. Edson riu a se valer das minhas histórias; depois, disse que eu não tava gagá coisa nenhuma, não ainda, não por isso. Falou que isso era cacofonia. Acontece quando a junção de duas sílabas, uma no final da palavra e outra no início de outra, se encontram, se encavalam e resultam um "som desagradável", acabam formando outra palavra, às vezes de baixo calão. E deu-me alguns outros exemplos : a boca dela, desculpa então, uma mão, o albúm dela etc.
- Êêê, seo Antenor - disse o dr. Edson -, quer dizer, então, que o senhor achou que fosse se dar bem, né? Duas chupetinhas por 10 reais. E que fosse chegar na farmácia com receita médica para uma bucetinha três vezes ao dia?
- Pois é, doutor, mas a culpa não é minha, não é? É da tal cacofonia.
- Isso não é cacofonia, não, seo Antenor, é taradice, mesmo. É excesso de testosterona guardada no saco.
- Quem me dera, dr. Edson, quem me dera. Há muito se foi o tempo em que eu mijava contra o vento. Hoje, eu só acerto o dedão do pé.

sábado, 17 de maio de 2014

Nescachaça

Depois - muuuiiiito depois; aliás, já não era a hora - dos úteis e práticos leite e café, desponta no mercado um novo produto no setor dos liofilizados, dos solúveis, a birita em pó.
É a Nescachaça!
Acaba de ser aprovado, pelo Alcohol and Tobacco Tax and Trade Bureau, dos EUA, o Palcohol, a birita em pó. Segundo o fabricante, o álcool em pó é encapsulado molecularmente, e produz um drinque alcoólico quando misturado com água. Entre as opções, o Palcohol tem vodca, rum e mais duas outras bebidas alcoólicas, além de quatro coquetéis: Cosmopolitan, Mojito, Powderita e Lemon Drop.
Para a sua efetiva comercialização só faltam ajustes de caráter técnico-burocrático, parece que o teor alcoólico expresso no rótulo - 58% em pó e 12% depois de diluído a 100 ml - não condiz com o real. Frescura, pura frescura. Alguém acha que bêbado se importa com uns porcentinhos a mais ou a menos?
Mas parece que o produto não é novidade, na Alemanha já existe um produto similar, o Subyou, e na Holanda, o Booz2go
No entanto, não há previsão para a chegada do produto ao Brasil, nem mesmo manifestações de interesse por parte da empresa estadunidense de por aqui comercializá-lo. E nem precisa. Quero que os estadunidenses dissolvam seu Palcohol, congelem-no e enfiem em vossos estrelados e respectivos cus. Que, pra tomar cachaça, o brasileiro não precisa da ajuda de ninguém, não precisa importar tecnologia.
Corre pela internet uma receita de como fazer o seu próprio mé em pó. Receita que, nunca me esquecendo do caráter de utilidade pública do Marreta, ajudarei a divulgar agora. 
O segredo é você usar um produto na forma de pó que absorva o álcool e continue a ser um pó. E isso existe? Sim, e é de fácil obtenção. É a maltodextrina, uma forma hidrolisada do amido; em suma, um carboidrato composto por moléculas de glicose, encontrado em farmácias ou lojas de suplementos alimentares.
De posse da maltodextrina e, lógico, da cachaça que quer tornar em pó, um bom rum, por exemplo, é só ir adicionando lentamente a bebida ao pó branco, pode-se usar um liquidificador para a mistura ficar mais homogênea. Quando a mistura começar a formar grumos, pelotas, o que significa que o pó já está saturado, adicione mais um pouco do pó para eliminar os grumos e seu mé em pó está pronto. A receita que corre pela net sugere 50 ml de bebida destilada para 150 g do pó. Depois é só acondicionar a birita em pó em envelopes ou saquinhos plásticos e carregá-la, segura e discretamente, para onde julgar que ela lhe será de grande urgência.
É o soro caseiro do bebum!!! O bebum começou a ficar desidratado, é fácil. Esteja onde estiver, sem que ninguém suspeite de que ele vai dar uma boa duma talagada, ele abre seu envelopinho de soro caseiro, dissolve e emborca. Pronto, tá reidratado, tá calibrado.
O autor da receita só não recomenda fazer a birita em pó com a cerveja ou outras bebidas mais diluídas. Seria preciso uma quantidade muito grande de maltodextrina e o teor alcoólico final seria muito baixo. Também o cara querer fazer cerveja em pó, é de cagar. Cerveja é praticamente água. Fica parecendo aquela velha piada do cientista português que inventou a água em pó, a solução para o problema das regiões assoladas pela seca. Bastaria colocar o produto português em um copo e, obviamente, adicionar uns tantos mililitros de água. Sem graça pra cacete!
Há um enorme leque de usos cotidianos para a birita em pó. 
Aniversário de crente. Quem é que nunca caiu numa arapuca desta, aniversário de crente? É festa de camelo, ninguém bebe. Numa dessa, o bebum não se aperta, tira sua dose de rum em pó (acredito que aqueles saquinhos plásticos para xup xup sejam bem adequados para o acondicionamento), mistura com coca-cola e tem uma bela e redentora cuba libre. Aliás, coca-cola, não. Baré cola, que crente compra é baré cola. Umas três ou quatro cubas e o bebum canta até o "derrama, senhor, derrama, senhor, derrama sobre ele o seu amor", na hora do parabéns a você.
Cafezinho na casa da sogra. Numa grande xícara de café, jogue a sua dose de whisky em pó e terá um reconfortante café irlandês. Se a sogra estranhar e quiser especular, saber o que é, sogra sempre especula, basta dizer que é um adoçante especial, receitado pelo seu médico.
No trabalho. De uns tempos para cá, virou moda, por incrível que pareça, uma moda boa, as pessoas carregarem garrafas com água em seus locais de trabalho, os chamados squezzes. É só você dissolver o pó de sua preferência e ir consumindo ao longo de sua faina diária. O serviço sai até melhor, ou, pelo menos, mais divertido.
Pode ser consumido também in natura. Lembram do Dip n' Lik, o pirulito em pó anunciado pelo Bozo? Era um saquinho com açúcar colorido e aromatizado que vinha com uma haste de plástico junto. A criança lambia a haste plástica, enfiava no açúcar e lambia de novo, enfiava e lambia. O produto virou "maldito" depois de boatos que diziam que ele continha um pouco de cocaína, como forma de viciar as crianças. Pois então, o bebum pode colocar o mé em pó num saquinho de Dip n' Lik e ir se embriagando de forma lúdica, recordando-se da doce e perdida infância.
Pois fica aqui a dica do Azarão. Devem existir inúmeras outras aplicações da birita em pó, é só usar a imaginação, que, aliás, funciona bem melhor depois de umas doses. Se pensar em  alguma outra, conte para mim.
Fonte : HypeScience

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Bukowski

notificação

cidadãos do mundo
eu renuncio a vocês.

eu renunciei
há muito tempo.
mas isto é uma notificação
formal
eu contra
vocês
uma ordem de
restrição.

fodam-se
ressequem
desapareçam.

não venham até
minha porta
com pizza
bucetas
ou ofertas de
paz.

é tarde demais.

a música
congelou no
ar
castrada pela
ausência de sua
presença.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Por Este Preço, Eu Só Dou Aula

O estado de São Paulo, o mais rico da 7ª nação mais rica do mundo, responsável por 1/3 da arrecadação nacional, paga aos seus professores ingressantes, aprovados em concurso de provas e títulos etc, a nababesca quantia de R$ 10,52 por hora/aula. Considerando que o professor ingressa com uma jornada inicial de 20 aulas semanais e que o salário mensal é calculado em cima de 4,5 semanas, o noviço no magistério terá um rendimento bruto de R$ 946,80. Bruto. No ano seguinte, o professor pode ampliar sua carga horária até um máximo de 40 aulas semanais, passando a receber a faraônica monta de R$ 1894,12 mensais. Aí é que o cara não sabe mesmo o que fazer com tanto dinheiro.
Os dados são do próprio site da Educação do Estado de São Paulo :
"Os docentes da rede estadual de ensino paulista recebem atualmente um salário-base 59,5% superior ao piso nacional atual. Um professor de educação básica que leciona no ciclo II do Ensino Fundamental e no Ensino Médio, com jornada de 40 horas semanais, tem hoje um salário-base de R$ 1.894,12, ou seja, 59,5% maior do que os R$ 1.187,97 definidos atualmente na Lei do Piso para todas as Unidades da Federação."
Perceberam que o estado ainda se jacta de pagar tão mal para os seus professores?
Não tenham dúvidas : não há menor valor por hora trabalhada que o pago a um professor público.  Pensem no quanto vale a hora da pessoa que corta o seu cabelo, a do último chaveiro, encanador ou eletricista de quem vocês tenham feito uso, a da diarista que limpa seus apartamentos em três ou quatro horas, e terão a real dimensão do que digo. Aliás, lápis, caderno e borracha são mais caros que o professor; o professor é o material escolar mais barato que existe. Só chinês trabalhando na fábrica da Nike ganha menos, se é quê.
E aí, a cada concurso realizado, a cada ingresso de nova safra docente, não demora e já começa a conversa costumeira, não demora e o governo tira o seu rabo da reta e coloca no do - adivinhem?- professor. Começa a noticiar que o professor é malformado, é incapaz; na verdade, ele usa o termo não capacitado, mas quer dizer a mesma merda.
Primeiro, se ele é malformado, é porque, em grande parte, graduou-se numa dessas faculdades de beira de estrada, numa dessas arapucas de curso superior, que funcionam com a aprovação do MEC. Aliás, bons tempos os das faculdades de beira de estrada, hoje, são virtuais, nem existem. Que tal o governo federal ser mais rigoroso na autorização da abertura de cursos superiores, sobretudo os tais à distância? Mas aí como é que ficam as pagas de favores, o toma lá, dá cá entre políticos e grandes empresários da educação? Como é que fica o leitinho das crianças?
Segundo, se o professor, aos olhos do Estado, é um incapaz, como é que ele foi aprovado num concurso realizado pelo próprio Estado? Qual é a do Estado? Primeiro me dá o emprego e depois me chama de inútil? Que tal, então, concursos mais severos, mais específicos, mais direcionados em cobrar o conhecimento que o Estado julga tornar alguém capaz? Que tal contratar professor para ser professor, e não babá de uma geração de filhos cuja educação os pais terceirizaram para o Estado?
Acontece que por novecentos reais por mês não dá pra selecionar muito, né? Não dá para dar uma peneirada minimamente decente. Profissionais bem e malformados existem em todas as áreas, mas quem vocês acham que um salário de menos de mil reais atrai? A nata da categoria? A elite?
Vai ser professor, hoje, o cara que ou é muito idealista (e são cada vez em menor número, pudera) ou o cara que não conseguiria ganhar os mesmos quase mil reais varrendo rua, ou catando latinhas para reciclagem, ou sendo flanelinha, ou fazendo malabarismos no sinal.
E a coisa já chegou a um ponto - e ainda piorará muito - em que ter o professor malformado em sala de aula nem é o pior; o pior é que, em certas disciplinas, não existe nem o malformado. Ou alguém acha que o sujeito que vai ser professor porque tem preguiça de ser flanelinha se formará em quê, em Química, Física? O cara vai é fazer pedagogia! Ou outra formação em Humanas, que, embora uma área de indiscutível relevância, como Letras, História, Geografia, teve, nos últimos tempos, sua importância canalhamente reduzida a cursos de dois ou três anos, e tudo à distância, um prato cheio para o vagabundo.
Há uma falta absurda de professores de química, física e ciências, mesmo dos malformados.
Então, o governo, como sempre não disposto a resolver efetivamente o problema, surge com mais uma de suas gambiarras ; inventou as disciplinas correlatas e afins.
O cara tem licenciatura plena em Matemática, curso que conta com x horas de Física em seu programa. Pronto, problema resolvido : automaticamente, o cara vira professor de física na falta de um licenciado específico. O sujeito tem habilitação plena em Biologia, curso que conta com x horas de Física, de Química e de Matemática em seu programa. Pronto, de novo : resolvida está a falta de licenciados específicos em tais disciplinas.
O governo anda a pegar professores a laço, está tentando aproveitar ao máximo o que tem nas mãos, usar, de todas as maneiras possíveis e inventáveis, os loucos que ainda se dispõem a ser professores. Faz o que faz e reclama de uma suposta falta de capacitação docente?
Diálogo durante uma atribuição de aulas, hipotético, mas perfeitamente plausível :

Diretor da escola : - O senhor tem licenciatura plena em Biologia, certo?"
Professor :  - Isso.
Diretor da escola :  - Também dá Física?
Professor : - Dou.
Diretor da escola : - Dá matemática?
Professor : - Dou.
Diretor da escola :  - Dá ciências?
Professor : - Dou.
Diretor da escola : - Dá química?
Professor :  - Dou.
Diretor da escola :  - Dá a bunda?
Professor : Daria... mas não por esse preço.

Por esse preço, meus amigos, eu só dou aula. Por esse preço, não pinto uma parede, não troco uma tomada, não faço uma faxina.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Esquizofrênico Funcional

Minha ocupação :
Ora creche, ora hospício, ora reformatório
Ora circo, ora matadouro.
E eu vou me revezando :
Ora esquentador de mamadeira, 
Ora alfaiate de camisas de força,
Ora carpinteiro do universo, 
Ora catador de merda de elefante
Ora magarefe.
E eu vou sendo multi
E vou sendo nulo
Fatiado por prismas de Newton
E moedores de carne :
Um esquizofrênico funcional.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Volta de Jesus Foi Promessa de Bêbado, diz Vaticano

O tão anunciado e aguardado retorno de Jesus Cristo sempre me pareceu conversa pra boi dormir, mais uma empulhação da Igreja Católica. E digo porquê. Não há evidências conclusivas da existência real de um homem chamado Cristo, de carne e osso; na verdade, não há nenhum tipo de evidência, conclusiva ou não. Só especulações em torno da vontade de que tenha existido um cara feito Jesus Cristo, uma divindade que acreditou, apiedou-se e se sacrificou pela podre humanidade. Só mais um delírio de grandeza coletivo tornado em "verdade".
Assim sendo, como alguém que não existiu de fato pode regressar? Fica parecendo aquele famoso filme de meus tempos de infância, A Volta Dos Que Não Foram. Ou, no caso, A Volta Do Que Não Veio, ou, ainda, A Volta Do Que Não Foi (não existiu).
Apregoar o retorno do Cristo é só mais uma das maneiras de manter os fiéis na linha, à espera do salvador que regressará trazendo a recompensa do reino dos céus aos que tiverem bem se portado, aos que forem merecedores. Uma forma de manter os fiéis na linha e, claro, pagando o dízimo. 
Agora - sabe-se lá por quais razões, a Igreja sempre as têm bem escondidas -, o Vaticano, em 25 de abril passado, anunciou oficialmente ao mundo que Jesus não voltará, pelo menos não por ora, não por enquanto. Mas que a notícia não deve ser motivo para o esmorecimento da fé católica, pede que todos continuem firmes em sua ignorância.
O porta-voz do Vaticano, Cardeal Giorgio Salvadore, disse que esse ano, o 1981º aniversário da Igreja Católica, é o último em que alguma esperança de uma breve volta do Cristo pode ser nutrida. Se não voltou até agora, aos do Vaticano, parece que ele não volta mais. Se não veio até então, não há prognósticos de rápido retorno.
Disse o cardeal :"acabamos de perceber que Jesus/Yeshua não voltará. Ele, provavelmente, está em outro lugar, fazendo outras coisas muito boas para as pessoas."
Acabaram de perceber? Pãããããta que o pariu!!!! Eu que nunca estudei teologia, filosofia e essas porras e tampouco tenho uma linha direta com o Céu, sempre percebi isso.
O cardeal tenta ainda limpar um pouco a barra do tratante Jesus, tenta fornecer, se não um álibi, ao menos um atenuante para o bon vivant da Galiléia, para o Nazareno folgazão. Segundo o cardeal, e não custa lembrar que ele é um porta-voz oficial do Vaticano e, logo, do Papa, há quase dois mil anos, no capítulo João 14:1-3 da Bíblia, Jesus prometeu aos seus discípulos que voltaria um dia : "Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede em mim também. Na casa de meu pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também".
Promessa é promessa, inda mais uma do Cristo, certo? Mais ou menos... Disse o cardeal que não há de se levar muito a ferro e a fogo a promessa de Jesus, pois o seu poder de transformar água em vinho trouxe-lhe muitos altos e baixos, muitos prós e contras, e que, muito provavelmente, Cristo estaria embriagado no momento da promessa aos seus apóstolos e, consequentemente, à sua querida humanidade. Quer dizer que, pelo visto, Cristo ficava transformando água e vinho o dia inteiro. Não é de se espantar que tenha angariado tantos seguidores e em tão pouco tempo. Até eu seguiria um cara com esse dom.
"Quando estamos bêbados, todos nós fazemos promessas que não podemos cumprir depois. Jesus não foi diferente", arremata o cardeal. 
Pãããããta que o pariu!!!!! Toda a fé e a esperança do mundo ocidental, nos últimos dois mil anos, está alicerçada na promessa de um bêbado. Toda devoção e submissão à espera de uma remissão milagrosa fundamentadas em papo de cachaceiro.
É igual ao cara que enche a cara e começa a cantar a mocreia. O cara diz que ela é maravilhosa, a mulher mais bonita que já viu, que quer namorar com ela, apresentar pra família, casar etc. Come a mocreia, jura amor eterno e diz que vai ligar no dia seguinte. E não liga nunca mais.
Cristo enchia a cara com seus apóstolos e dizia que a humanidade era linda e maravilhosa, que ele traria a salvação para os seus pecados, daria-lhes o reino dos céus, a ressurreição, a vida eterna, que iria e voltaria, que ligaria no dia seguinte. Fudeu com a humanidade, deu aquela "migué" de ascensão aos céus, picou a mula para a casa do Pai e nunca mais voltou. Jesus é o bêbado que não liga para a mocreia no dia seguinte. E a mocreia fica o resto da vida esperando por sua ligação.
Como é que eu não percebi isso antes? Que tudo o que o Cristo falava era papo de buteco, ou, melhor, de taverna? Que toda aquela conversa mole, aquele papo de dar a outra face, que todo aquele amor, aquela compreensão e tolerância para com a humanidade nada mais eram que 171 de pé de cana? Até eu, quando bebo umas a mais (várias a mais), acho a humanidade tolerável. Que dirá, então, o filho do Criador? Grande coisa, aliás. Transformando água em vinho, até eu.
Genial esse cardeal. Quis limpar a cara do Cristo e acabou embosteando mais. De quebra, chamou toda a cristãozada de burra. Convidá-lo-ei para colaborador honorário do Marreta!
Então, nem é mais a Volta dos Que Não Foram. É a Volta do Boêmio! Cristo é o Nélson Gonçalves do Céu. Ele voltou, o boêmio voltou novamente, partiu daqui tão contente, por que razão quer voltar?
O Nélson tinha as suas razões para voltar, com certeza. O Cristo, nenhuma. Ou você voltaria para um povo que livrou a cara do ladrão Barrabás e pôs o seu santo rabo na reta?
E enquanto Cristo não vem, deixemos de coisa e cuidemos da vida; o cardeal disse que a igreja se ocupará agora de reconstruir sua imagem pelo mundo.
E o Inri Cristo, como é que ele fica nessa história?

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Tourada dos Idiotas

Não há batalha mais perdida que aquela travada contra o idiota; nada o demove de sua estupidez. O idiota é invencível. E tem uma taxa de proliferação exponencial. 
Ai daquele que fez disso a sua profissão, guerrear contra o idiota.
Mil vezes ai daquele cuja profissão, ora nobre arte e ofício, foi transformada, vil e torpemente e à sua revelia, nisso, em tremular a já fosca e rota capa vermelha e a dançar na arena com os idiotas.

sábado, 10 de maio de 2014

Campanha de Aleitamento Literário

Desde 2011, mais ou menos por essa época do ano, aproveitando as temperaturas mais aprazíveis da primavera nova-iorquina, o que para eles lá significa aragens de 10ºC, 15ºC, um clube de leitura muito peculiar (e gostoso) se reúne nos gramados do Central Park, um grupo de amigas que cultiva o hábito da leitura ao ar livre. E com as tetas de fora.
É o Outdoor Co-Ed Topless Pulp Fiction Appreciation Society (sociedade do topless para a apreciação de Pulp Fiction ao ar livre). As moças encontram-se para debater sobre seu gênero literário favorito, o Pulp Fiction - histórias de fantasia, policial e ficção científica publicadas em papel de baixa qualidade - e, lógico, para fazer topless, balangar a peitaria.
Essas valorosas mecenas das letras mostram que ler não tem nada de chato; antes pelo contrário, que ler pode ser um tesão. E tem melões de todos os tipos e para todos os gostos.
Mas, claro, sempre tem que haver uma "justificativa cabeça" para ficar pelada, uma premissa de cunho social, filosófico e educativo, que se pretende, muito mais que simplesmente exibir as mamadeiras, à discussão e à conscientização da mulher para o real papel de sua figura na sociedade contemporânea, a fornecer subsídios intelectuais para que a mulher se torne efetivamente dona de seu próprio corpo, sinta-se à vontade com ele, exerça-o plenamente, para que ela própria, a mulher, se desvencilhe dos estereótipos da vil opressão machista.
Alethea Andrews, uma das fundadoras do grupo, conta que, em 2011, ela e uma amiga sua do peito discutiam o porquê das mulheres nova-iorquinas não exercerem o direito ao topless, apesar dele ser permitido na cidade de Nova Iorque. Chegaram à conclusão que o motivo das nova-iorquinas circularem pelas ruas da cidade com os peitos vestidos era a desinformação. Daí para a criação do Outdoor Co-Ed Topless Pulp Fiction Appreciation Society foi um pulo. O clube se formou mais rápido que o desabotoar de um sutiã. 
"Então montamos um grupo para podermos fazer topless juntas. Transformamos num clube de leitura porque amamos livros e amamos passar nosso tempo com outras pessoas que amam os livros", explica Andrews.
"Queremos abrir os olhos das pessoas ao fato de que é legal para as mulheres fazerem topless e de que o corpo da mulher não é mais vergonhoso ou mais sexual do que o do homem", continua a moça. "Escolhemos a 'pulp fiction' como nosso gênero porque é divertido e porque as mulheres das capas dos livros quase sempre estão escandalosamente despidas, como nós".
Discordo de Alethea. É claro que o corpo feminino é mais sexual do que o do homem. Tem mais reentrâncias, mais recônditos, mais mistérios. E vejam como Alethea quer provar que corpo é simplesmente corpo, independente do sexo a que pertence : escolhe como tema de suas leituras a apreciação de um gênero em que as mulheres aparecerem peladas e fortemente erotizadas.
E a moça, que tanta atenção queria chamar para o topless, reclama agora da notoriedade conseguida. Depois que o grupo teve suas fotos publicadas no site "Huffington Post", as moças se incomodaram com o assédio da imprensa e não permitiram mais a presença de jornalistas nos encontros : "Não queremos que nossos eventos tranquilos se tornem um circo midiático", diz Andrews. Perguntas, agora, só por e-mail.
Pããããta que o pariu!!! Exibem a peitaria em praça pública e não querem que o evento seja "transformado" em circo? Já é um circo, minha cara. E que graça tem fazer perguntas para uma peituda via e-mail? Será que ao menos elas deixam a webcam ligada?
Mas não estou reclamando, não. De forma alguma. Muito pelo contrário. Dou o maior apoio à iniciativa das moças. E faço sinceros votos de que inspirem outros grupos pelo mundo. Acho mesmo que elas deveriam receber verba pública do ministério estadunidense da educação, por tamanho incentivo à leitura.
No Brasil, porém, país de pouquíssima leitura e, por isso mesmo, de menor ainda educação, onde a ignorância vem de berço esplêndido, creio que o Ministério da Saúde é que deveria subvencionar iniciativas feito a das nova-iorquinas. Complementarmente à louvável e bem-sucedida (e, nesse caso, falo sério) Campanha de Aleitamento Materno,  caberia ao Ministério da Saúde implementar a Campanha de Aleitamento Literário. Ler também é saúde, mens sana..., também nutre, você tem fome de quê?
Publicidade governamental com peitudas a ler um grosso calhamaço deveria ser veiculada na TV, em horário nobre. Cartazes com peitudas a nos conscientizar dos benefícios da leitura deveriam estampar as paredes dos postos de saúde, das escolas, das bibliotecas e das repartições públicas, ser afixados em supermercados, bancas de jornais, nas paradas de ônibus. Só não digo que devessem virar aplicativos para celular porque quem vive grudado em celular não tem mais salvação, o cérebro cozinhou, jamais adquirirá o hábito de leitura. E, digo mais, talvez nem o gosto por uma bela peitaria. Vejo uns jovens por aí que, claramente, têm mais prazer em manipular e digitar em seu celular o dia inteiro do que dar umas apalpadelas nuns peitos, do que dar uma boa buzinada em fartas mamas.
Abaixo, duas amigas, de forma serena e idílica, dividem a mesma toalha durante a fraternal leitura.
Outras duas, mais dadas à discussão e à polêmica, debatem sobre seus livros de forma mais acalorada.
Ah!!! E ainda tem mais. Do principal, eu já ia me esquecendo. Alguns dos saraus literários das moças também podem acontecer em ambientes privados, em coberturas de prédios, geralmente. Nessas ocasiões, aos livros, são adicionadas algumas garrafas de um bom espumante e elas podem tirar toda a roupa. Topless - que são os peitos sem nada a cobri-los - e bottomless - que é o "butão" sem nada.
Aí, sim! Aí é que a coisa pega! Aí é que o verdadeiro objetivo do Clube do Livro se revela. É o rock das aranhas, meu velho!!!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Prepare o Seu Coração Pras Coisas Que Eu Vou Contar

Taí um cara que eu pensava que jamais fosse morrer. Existe gente que é assim, tem ares de imortal. Se uma lista de pessoas imperecíveis me fosse encomendada, Jair Rodrigues, na certa, estaria em seu topo.
Nem envelhecer o cara envelhecia. Sempre que estava em um programa de TV, fosse de auditório, de entrevistas, um debate etc, Jair Rodrigues não parava quieto, era elétrico, agitado, um desassogego só, mexia e brincava com todo mundo, desde o apresentador até os câmeras e contrarregras.
No palco de seus shows - nunca tive a oportunidade de vê-lo ao vivo -, até bananeira ele plantava. E, de súbito, vem o mal-humorado e rabugento do tal miocárdio e resolve infartar, pedir aposentadoria compulsória.
Jair Rodrigues deixou de cantar hoje, aos 75 anos. Calou-se de forma inesperada para a família e fãs, pois gozava de boa saúde e mantinha-se trabalhando normalmente, estava em meio à turnê de seu mais recente lançamento "Samba Mesmo".
Sua última apresentação se deu em São Lourenço (MG), palavras do organizador do show, Daniel Moura : "Jair cantou e dançou por mais de uma hora demontrando a típica alegria e vitalidade. Ele plantou bananeira no palco e fez uma homenagem para Elis Regina". Segundo Moura, antes de cantar "Romaria", Jair conversava com Elis como se ela estivesse no palco: "Olha Pimentinha, manda um abraço para São Pedro porque eu não estou com pressa".
Brinca com São Pedro, brinca...
Deixo aqui a letra de "Bloco da Solidão", de autoria de Evaldo Gouveia e Jair Amorim e uma das gravações de Jair Rodrigues de que mais gosto.
Bloco da Solidão 
Angústia, solidão,
Um triste adeus em cada mão,
Lá vai meu bloco, vai,
Só desse jeito é que ele sai,
Na frente sigo eu,
Levo o estandarte de um amor,
O amor que se perdeu no carnaval,
Lá vai meu bloco,
Lá vou eu também,
Mais uma vez sem ter ninguém,
No Sábado e Domingo,
segunda e terça-feira,
E quarta-feira vem,
O ano inteiro,
É todo assim,
Por isso quando eu passar,
Batam palmas pra mim.

Aplaudam quem sorrir,
Trazendo lágrimas no olhar,
Merece uma homenagem,
Quem tem forças pra cantar,
Tão grande é a minha dor,
Pede passagem quando sai,
Comigo só,
Lá vai meu bloco, vai...
 (1939 - 2014)

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Museu do Caralho

Pode parecer mentira (não é), pode parecer sacanagem (e até é, só pode ser) : na Islândia, há um museu de cujos corredores e galerias eu quero passar longe, é o Hið Íslenzka Reðasafn. Que traduzido para o português do Brasil significa "O Museu Falológico da Islândia", o museu da piroca, ou, na tradução para o português de Portugal, a famosa Casa do Caralho.
É a pintoteca! Pããããta que o pariu!!!!
Tudo começou em 1974, quando Sigurður Hjartarson, ex-professor de história e hoje proprietário e curador do museu da benga, ganhou um pinto de boi de um amigo, que quisera tirar uma de sua cara, sacaneá-lo. Pensam que Sigurður Hjartarson ficou puto da vida com o amigo? Que xingou, esbravejou, mandou o amigo tomar no cu, reações normais a qualquer macho de respeito, que fariam o amigo dar desbragadas risadas e renderia uma boa história para ser relembrada e contada nas reuniões fraternais? Acham que ele jogou fora o presente de mau gosto? Nada disso. Simplesmente guardou o presente do amigo. Talvez tenha se afeiçoado a ele.
Depois disso, a história se espalhou e Sigurður Hjartarson começou a ganhar de presente um monte de caralhos, dos mais variados animais da Islândia, o que despertou sua curiosidade "científica" e fez com que passasse a colecionar e a catalogar os tarugos. Em 1997, já de posse de 283 membros de 93 espécies diferentes de mamíferos, ele decidiu abrir um pequeno museu para expor a sua macabra coleção. O museu começou a atrair turistas, que, além de pagarem por um ingresso, também traziam mais exemplares para Sigurður Hjartarson.
Em 2004, as acomodações do pequeno museu se mostraram modestas para tanta rola e Sigurður Hjartarson o transferiu para o local onde funciona até hoje, estava fundado o Museu Falológico da Islândia. 
O museu do salame atrai, segundo Sigurður Hjartarson, cerca de 20 mil visitantes anuais, ao valor de 1250 coroas islandesas cada um, o equivalente a 20 e poucos reais.
E tem de tudo na casa do caralho, desde de pintos de hamster e porquinhos-da-índia até gigantescos falos de baleia, como o da cachalote, com 1,80m e 68 quilos e que, de acordo com Sigurður Hjartarson, não está exposto na íntegra, originalmente tinha 5 metros e pesava mais de 300 quilos, ou seja, Sigurður Hjartarson só pôs a cabecinha da benga da cachalote em exposição.
Em 2011, ele realizou um sonho : depois de muitos anos em busca de um exemplar de cacete de Homo Sapiens, conseguiu um doador de órgão (literalmente), um islandês morto aos 95 anos, que resolvera deixar seu pinto para a posteridade. Sabem o nome do cara? Pall Arason! Pall!!!! É verdade! E só podia ser.
Mas a generosidade de Pall Arason não aplacou a sede científica por pau de Sigurður Hjartarson, que se revelou até um pouco ingrato em uma declaração : “Eu ainda quero conseguir um exemplar humano melhor e mais atraente”.
Melhor e mais atraente? Huummmm.... Eu tava me segurando desde o início, não tava querendo pôr em dúvida a masculinidade do islandês, para não dizerem que o Azarão é maledicente,  preconceituoso e etc, mas, depois dessa, a mim não restam dúvidas : o Museu Falológico da Islândia é para consumo próprio de  Hjartarson.
E, agora, o sonho de um cacete humano melhor e mais atraente (sic) acaba de se concretizar para o insaciável islandês. 
John Falcon, americano de 45 anos, considerado o dono da maior mandioca do mundo (isso porque o Zé Bonitinho não é conhecido em âmbito mundial), resolveu doar a sua terceira perna para o museu. John Falcon, há coisa de uns dois ou três anos, ficou mundialmente conhecido no mundo das subcelebridades ao ser parado em um aerporto dos EUA depois que os agentes de segurança suspeitaram que ele estivesse carregando uma arma na calça. Não deixava de ser uma pistola, mas não era uma arma de fogo, embora Falcon garanta que nunca tenha negado fogo. O calibre do moço : 23 centímetros dormindo e 34 centímetros em estado de alerta. Convenhamos, é de fazer égua olhar para trás.
O convite para a imortalidade partiu, óbvio, de Sigurður Hjartarson. Ao qual, Falcon respondeu : "Fiquei lisonjeado com o convite. Aprecio a devoção do seu museu à ciência, e seria uma honra ter a minha masculinidade em exposição. Espero estar exposto entre os apêndices sexuais de uma baleia e de um urso polar". 
Huummm... ter minha masculinidade em exposição... Sei não, esse Falcon, também. Ele deve amar, idolatrar o seu pescoço de girafa. No mínimo, deve chupar o próprio pau, fazer um autoboquete. O que, nesse caso, nem requer dele grandes habilidades de contorcionismo. E ele próprio se mostrou, igualmente a Sigurður Hjartarson, um acadêmico do pinto, por conta própria realizou a taxonomia de sua benga : entre a cachalote e o urso polar. Quer dizer que o urso polar, o fofíssimo garoto-propaganda natalino da Coca-Cola também é bengudo? E naquele gelo e frio todo? É um animal a se respeitar.
O que me lembrou de uma piada : o sujeito, bem-nascido e agraciado pela natureza e pela evolução, daqueles "má-criados" mesmo, um dia foi à praia e, inadvertidamente, vestiu uma bermuda branca de nylon, daquelas que deixam tudo transparente quando molhadas. Sem se dar conta, entrou na água, curtiu umas ondas e foi se secar à areia. Assim que saiu da água, a benga ficou em relevo, uma protuberância que lhe descia pela perna esquerda e quase lhe alcançava o joelho. Todos começaram a olhar para ele, as crianças com medo, não sabiam o que era aquilo, os homens com inveja e ódio, as mulheres com lascívia e baba a lhes pingar dos cantos da boca. O cara percebeu que todos olhavam para ele e que o alvo dos olhares era o seu cacete. Não se fez de rogado : "Que que foi, seus porras? Vão dizer que o pau de vocês também não encolhe quando entra na água fria?".
Abaixo, uma visitante a apreciar o falo embalsamado de um elefante.
O que me lembrou de outra piada : bem ao lado de um convento, um carro bateu numa carroça, matando o jumento que a puxava. A carroça e o carro logo foram retirados do local, mas o jumento foi deixado ali, a aguardar por providências do Ibama, da sociedade protetora dos animais, do controle de zoonoses etc. Nesse meio tempo, passa um filho da puta pelo local e resolve fazer uma sacanagem. Corta o pau do jegue e o arremessa por cima do muro do convento. Daí a pouco, a irmã Anunciação, da ordem das Carmelitas, passa pelo bucólico jardim do convento, vê a benga e se horroriza : "Valha-me Deus!!! Mataram o padre José!!!!!"

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Pequeno Conto Noturno (40)

Vagalhão que se arrebenta, se acalma e se espraia em tapete de espuma efervescente, Marina sai de cima de Rubens, senta-se na cama, as costas contra a parede e puxa o lençol para o meio das pernas. Ofega. Suada e salgada. Marina não usa nenhum tipo de desodorante, antiperspirante, hidrantes e outros que tais. Toma dois, três, às vezes, quatro banhos diários, se necessário achar, mas nunca usa mascaradores de cheiro.
Marina cheira a sal, óleo e sargaço; a mangue e lodaçal, em certos lugares.
Rubens sai da cama, vai à cozinha e volta com duas licenciosas doses de rum, um copo em cada mão. Passa o com maior quantidade de gelo para Marina. Marina emborca o rum sem medo nem cerimônias. Retém o líquido âmbar e amadeirado por um tempo na boca, sente-o queimar suas mucosas, suas papilas gustativas, engole-o num único sorvo em seguida, sente-o a cauterizar seu esôfago, a se aninhar e a lhe pôr enxofre fumegante no estômago. Queria-o a encharcar cada uma de suas células : muito mais que uma bebida alcoólica, um antisséptico para a sua existência.
- Você lembra do tempo em que andávamos por aí, sem lenço nem bússola e sabíamos exatamente quem erámos, sabíamos onde queríamos chegar? - pergunta Marina.
- Hoje temos nossos diplomas, nossas profissões "estáveis", as escrituras de nossas casas, as nossas raízes de baobá, as nossas mortes como certas, os nossos sonhos realizados - fala Rubens.
- Pois é..., então, por que e de onde essa vontade de nos lançarmos em naus furadas e periclitantes, querer descrer de Galileu e despencar pela borda do mundo? - Marina secando o copo.
- Talvez pela vontade de não sentirmos o chão sob nossos pés, pela vontade de voar, que volta e meia nos retorna e aflige.
- Mas já sabemos, Rubens, descobrimos, que não podemos voar.
- Nunca descobrimos nada, sempre soubemos da impossibilidade de voar. Mesmo quando ainda tentávamos.
Rubens sai e volta com mais duas doses. Sem gelo, ambas.
- E por quê? - insiste Marina - Essa vontade já não deveria estar morta e enterrada frente aos fatos? Por que a exumamos de tempos em tempos? Por que nos frustrarmos repetidamente com seus ossos?
- Vontade não rui nem se alicerça frente a fatos. Vontade é desejo, é vaidade, é capricho. Cede sob sua própria insustentabilidade, e ressurge de sua própria leveza e leviandade. A vontade de voar nos eleva mais que o voo em si. A concretização do voo se tornaria em uma rotina, com o tempo, nos acomodaria em altitudes cada vez mais baixas, engessaria-nos; se voássemos, perderíamos o prazer do voo.
- A realidade do voo cortaria nossas asas? É isso que está dizendo? - e Marina dá mais um gole no rum, de fazer inveja a qualquer pirata.
- E não é o que toda realidade faz? Corta-nos as asas, engaiola-nos e, a exemplo do Assum Preto, nos fura e nos cega os olhos para que, não vendo mais as grades e imaginando ainda o azul infinito às nossas costas, cantemos melhor?
- Então, se tudo, o tempo inteiro, é só ilusão, o que nos resta, Rubens?
- Nos resta matar esse rum e cantar aquela do Oswaldo Montenegro, Estrelas : Pela marca que nos deixa a ausência de som que emana das estrelas, pela falta que nos faz a nossa própria luz a nos orientar. Doido corpo que se move, é a solidão nos bares que a gente frequenta, pela mágica do dia, que independeria da gente pensar.  Não me fale do seu medo, eu conheço inteira sua fantasia e é como se fosse pouca e a tua alegria não fosse bastar. Quando eu não estiver por perto, canta aquela música que a gente ria, é tudo que eu cantaria e quando eu for embora, você cantará.
- Até que você canta bem, Rubens - Marina já se encostando e se enroscando em Rubens, sal, óleo e algas.
- Canto o caralho que canto!!! Tá querendo dar de novo pra mim, né?

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Te Amo, Espanhola

Embora os defensores do E.C.A. digam que sim, que o Estatuto da Criança e do Adolescente impinge inúmeros deveres aos jovens sob os seus auspícios, a verdade é que não há, na prática, no entender da lei, nenhuma real obrigação do adolescente para com a sociedade.
O ECA é um conjunto de apenas direitos do adolescente; aliás, direitos, não : privilégios, regalias, mordomias. O ECA trata o adolescente como a um fidalgo, alça-o à categoria de aristocrata; pior, à de um faraó. Duvido, inclusive, que o jovem Tutankamon tenha desfrutado de tantas facilidades e gozado de tantas irresponsabilidades em seu tempo.
Um estatuto que só dá direitos e nenhum dever é um manual para criar bandidos. É isso o que o ECA é, uma cartilha para formar delinquentes, com distinção e louvor.
Criado, teoricamente, o ECA, para ser uma proteção à criança e ao adolescente, forjado para lhes servir de escudo, tornou-se uma metralhadora giratória na mãos dos menores de idade, uma arma de destruição em massa, que deveria ser expressamente proibida pela Convenção de Genebra.
A escola não lhes pode corrigir, sob o risco de, segundo os peidagogos de merda, interromper os seus processos de desenvolvimento cognitivo, de traumatizá-los. Desde quando alguém aprende sem ser corrigido? Desde quando ser orientado em como fazer o certo interrompe o processo de aprendizagem, traumatiza? Cheguei a trabalhar em uma escola em que as avaliações eram obrigatoriamente corrigidas com caneta verde; o vermelho era considerado, lá pela peidagoga deles, uma cor agressiva, ofensiva ao educando.
A outros exemplos, a escola não pode impedir a entrada do jovem que chega atrasado às aulas, ainda que isso lhe seja um comportamento recorrente. O ECA e a LDB (lei de diretrizes e bases) garantem ao jovem relapso que ele entre na escola na hora em que bem entender; também não pode barrar sua entrada se ele não estiver uniformizado (o uniforme ainda existe, mas, às vistas da lei, tornou-se apenas um acessório, um adereço) , nem se ele quiser entrar em sala de aula sem nenhum material escolar, de mãos abanando, sem um lápis ou caneta sequer.
A escola não pode reprová-lo por rendimento insatisfatório, por ele não estudar : segundo ECA e LDB, se o aluno não estuda, a culpa é da escola e do professor, logo, reprová-lo seria puni-lo por algo que não é de sua responsabilidade, aliás, hoje em dia nada é de responsabilidade do aluno, nem de sua família.
A escola  não pode mais expulsar o aluno indisciplinado, o sujeito pode aprontar o que quiser em ambiente escolar, pode cagar na cabeça de todo mundo, professores, inspetores, coordenadores, diretor, que nada de efetivo lhe acontece. Os cada vez mais raros e esporádicos casos de expulsão - aliás, expulsão, não : transferência compulsória, que dizer expulsão também traumatiza - ocorrem somente em situações em que há o envolvimento com drogas ilegais, porte ou comércio delas. Mas aí nem é um problema educacional, pedagógico, já é caso de polícia.
Ainda assim, a escola, antes de colocar o jovem para fora, tem que conseguir vaga para ele em outra unidade de ensino. Isso mesmo, se o diretor não conseguir vaga para o vagabundo em outra escola, não pode mandá-lo embora, ainda que o conselho de escola já tenha decidido por sua transferência. Ainda assim, se os responsáveis pelo menor não aceitarem a nova vaga conseguida pelo diretor, o aluno ali permanece; ainda assim, se os responsáveis forem ter com algum promotor da infância e da juventude, não tenham dúvidas, o vagabundo imediatamente será reintegrado ao ambiente escolar por uma ordem judicial, cumpra-se e fim de papo.
Em casa, igualmente à escola, a situação dos pais - dos bons pais, quero dizer - não é muito melhor. Repreender mais severamente um filho também é ato visto como delito contra o jovem pelo ECA. Se a criança ou o adolescente levarem a boa, velha e eficiente palmada pedagógica na bunda, o que é muito diferente de espancamento, esse sim inadmíssivel, eles podem denunciar os pais por maus-tratos, que responderão judicialmente por isso. A chinelada educativa, que pode valer mais do que mil palavras, também traumatiza e prejudica o desenvolvimento pleno do potencial do jovem safado. Um simples elevar de voz, um grito dado pelos pais, é considerado violência psicológica.
Dia desses, ouvi um psicopeidagogo dizer que os pais não devem traçar comparações entre seus filhos, ou entre seu filho e um amigo dele. Que falar para a criança que ela deve ser como o seu irmão, ou como seu amiguinho, que é mais educado, mais obediente, mais estudioso, é também um tipo de violência psicológica contra ela, também pode barrar o seu processo de crescimento emocional. Ora, vão à merda!
Fazer com que a criança participe das responsabilidades da casa também é proibido. Se uma mãe "obriga" seu filho a limpar e a arrumar o próprio quarto, a lavar o prato e o copo que ele próprio sujou, a auxiliá-la nas tarefas domésticas, ela também pode ser denunciada por seu querido rebento às autoridades competentes. Responderá por trabalho infantil.
O ECA é ou não é uma cartilha para criar delinquentes?
E o pior é que o ECA é visto pelos especialistas internacionais da área como um modelo de avanço e modernidade, como um dos códigos mais em acordo com os direitos humanos, com os parâmetros estabelecidos por órgãos internacionais ligados à educação, como a Unesco, por exemplo.
Verdade seja dita : os canalhas que governam nosso país são mesmo inteligentíssimos, sabem perfeitamente fazer leis que parecem maravilhosas e progressistas no papel e que, na prática, desestruturam cada vez mais os valores básicos da sociedade, a começar pela educação.
Se por um lado, não há a menor chance do Brasil se tornar um país verdadeiramente civilizado, educado por definição - sim, o processo é irreversível, e digo isso sem nenhuma alegria, apenas por força da constatação -, por outro lado, países muito melhores que nós - que sempre foram melhores e sempre serão - já detectaram o problema do adolescente vagabundo, já perceberam os efeitos nocivos que a vida mansa dada aos adolescentes acarreta para a sociedade.
Na Itália, em 2010, o Ministro da Administração Pública, Renato Brunetta, propôs que fosse criada uma nova lei para forçar filhos adultos a sair da casa dos pais. Segundo Brunetta, os filhos deveriam ser obrigados a deixar a casa dos pais aos 18 anos de idade, mesmo que por força de lei.
A proposta do ministro nasceu das inúmeras e crescentes reclamações de idosos cujos filhos, todos já passados da casa dos 30, 40 anos, ainda viviam de chupinhar as aposentadorias dos velhos pais. E mais especificamente como uma reação a uma decisão de um tribunal da cidade de Bergamo, que obrigou um pai - Giancarlo Casagrande, de 60 anos - a contribuir para as despesas da filha de 32 anos que ainda mora com a família, embora ela tenha concluído um curso universitário há oito anos.
Se a sugestão do ministro italiano foi ou não levada a cabo, se transformou-se ou não em uma lei, não li mais notícias. O que importa, no entanto, é que ela mostra uma constatação do problema, e uma reação a ele.
Agora, é a Espanha que dá mostras de querer abandonar a "modernidade educacional" e retomar os modelos tradicionais de educação, os verdadeiros, os únicos que funcionam.
Um projeto de lei que está sendo analisado pelo Parlamento da Espanha, caso seja aprovado, obrigará (em meio ao caos, gosto cada vez mais desse verbo, obrigar) crianças e adolescentes de até 18 anos a ajudar nas tarefas domésticas, determinadas de acordo com o gênero e com a idade.
De acordo com o projeto, crianças e adolescentes se tornam obrigados a "participar da vida familiar" e a "obedecer pais e irmãos". Além disso, a proposta legislativa afirma que os menores têm que "respeitar as regras escolares", estudar o tanto quanto for exigido pela escola e manter uma "atitude positiva".
Ou seja, a proposta espanhola tenta reestabelecer o óbvio, o básico, que todos devem ter obrigações, que todos devem ter contas a prestar à sociedade, de acordo, claro, com as capacidades e limitações de sua faixa etária.
É isso aí, espanholada! Te amo, espanhola! Olé!