segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Lactoxavasccus Vivos

Quando de minha infância, há coisa de 40 e poucos anos, felizmente não havia a criminosa publicidade infantil - arma a lavar pueris cérebros e a pilhar paternos bolsos.
Ainda assim, volta e meia, um produto se tornava sucesso de público e de vendas, a divulgação do produto se dava através da aprovação popular e da mais honesta e confiável das propagandas, o boca-a-boca, uma moda que independia da televisão, já existente à época, é verdade, porém, ainda ausente na maioria dos lares.
O leite fermentado Yakult com lactobacilos vivos, indicado para bem compor a flora intestinal da meninada, foi um desses fenômenos do boca-a-boca. Uma amiga o recomendava a outra amiga; uma vizinha, a outra vizinha (era época em que vizinhos se falavam aos portões, às calçadas, nas feiras livres, por sobre os muros das casas; para o bem e para o mal); as professoras, às mães de seus pupilos; lembro-me, inclusive, de que, em certo dia da semana, havia Yakult na merenda escolar.
A popularidade do Yakult se fez tanta que, ao sorveteiro com sua gaita de Pã, a fazer-se seguir pela molecada de Hamelin, e ao vendedor de algodão-doce, fiandeiro de diáfanos e açucarados sonhos, juntou-se, ao imaginário da criançada, outra muito aguardada figura : a da moça do Yakult.
Ela surgia semanalmente a conduzir seu carrinho refrigerado, batia de porta em porta e deixava pequenos fardos de saúde fermentada; uns com 6, outros com 12 pequenos frascos de conteúdo bege. E o melhor é que a moça do Yakult e seu elixir eram também benquistos pelas mães, diferente da água com anilina e do nocivo açúcar em fios vendidos, respectivamente, pelo sorveteiro e pelo homem do algodão-doce. Todos ficavam felizes com a moça do Yakult, uma espécie de sorveteira probiótica.
O tempo - esse hábil engenheiro e igualmente exímio demolidor - passou, mudamo-nos para um novo e distante bairro, talvez, supunha eu, inalcançável para as pernas da moça do Yakult. Meus pais continuaram ainda a nos abastecer, a mim e à minha irmã, com suprimentos regulares de Yakult, porém, adquiridos em supermercados; muito do gosto do Yakult se perdeu pela ausência da moça do Yakult, mas seu efeito terapêutico se mantinha, função sem alegria, bactérias burocráticas, enfim.
Então, chegou o fatídico dia em que fomos informados de que não mais precisávamos de Yakult (não precisávamos, quem, cara-pálida?), de que ele sairia de nossos cafés da manhã, de nossos lanches, de nossas sessões da tarde. Não éramos mais crianças, e só a elas o Yakult era destinado.
Hoje - dei uma pesquisada no site do Yakult antes de escrever essa postagem -, vejo que nosso Yakult não foi cortado por sovinice paterna ou materna; o próprio fabricante o recomenda apenas para crianças.
Crescemos, pois, órfãos do Yakult e da moça do Yakult, toda uma geração de constipados - afinal, onde adultos poderiam obter suprimento de lactobacillus
A resposta é : na moça do Yakult! E o melhor : toda moça é uma moça do Yakult! Toda mulher é inesgotável cornucópia de lactobacillus - bactérias que conseguem atravessar, vivas e incólumes, o fosso de ácido clorídrico do estômago e se instalar no intestino, em cujas vilosidades, via fermentação, produzem ácido láctico, que torna o meio fértil e propício à proliferação das bactérias de nossa flora íntima e pessoal, do nosso jardim de inverno.
A vagina é um enorme (umas mais enormes que outras) biotério de bactérias do gênero lactobacillus. É o Yakult da xavasca! São o lactoxavasccus vivos.
Foi o que constatou Cecilia Westbrook, estudante de doutorado da Universidade de Wisconsin (EUA). Através da análise de material colhido da própria vagina, ela verificou que os lactobacillus são o gênero de bactérias mais comuns da casa do caralho. E pensou : por que não fabricar um iogurte pessoal e intransferível? Uma coalhada customizada?
Cecilia usou três recipientes em seu afrodisíaco experimento : no primeiro, colocou apenas leite, sua amostra de controle; no segundo, leite com uma cultura tradicional de lactobacillus; e na terceiro, leite com os lactoxavasccus. Deixou as amostras à temperatura ambiente e foi dormir; ao acordar, surpresa!, a maior quantidade de iogurte fora formada na cultura de lactoxavasccus vivos.
Era chegada a hora da prova dos nove. Cecilia misturou umas frutinhas lá deles - cranberrys, blueberrys, chuckberrys etc - ao iogurte, degustou-o e descreveu o "bouquet" : "azedo e com um aroma especial, deixando um leve formigamento na língua".
Pãããããta que o pariu!!! Aroma especial? Adoro e odeio esse eufemismo ianque, esse politicamente correto norte-americano. Formigamento na língua? Sempre achei, quando me sirvo dos lactoxavasccus in natura, que fosse o início de uma cãibra na língua.
Larry Forney, microbiologista do mesmo departamento de Cecilia, adverte : não é aconselhável ingerir bactérias vaginais, sob o risco de contrair más cepas. Por acaso, algum macho das antigas já passou mal depois de lamber uma buceta? Deve ser uma bichona enrustida, esse Forney; deve é gostar de lactorolludus erectus.
Portanto, machos de plantão, saudosos do Yakult, nossos problemas terminaram. Usemos, abusemos e nos lambuzemos de lactoxavasccus vivos. Lamber uma boa buça gosmenta é melhor que lactopurga e activia! Lamber, meter e bem cagar... o que é a vida, além disso? O que mais alguém pode querer?
Às mães dos pequenos machos desse nosso Brasil cada vez menos varonil, fica o conselho do Azarão, deemYakult às mancheias para seus pequenos varões, condicionem-os ao gosto azedo do produto dos lactobacillus, para que, nostálgicos, quando adultos, procurem pelos lactoxavasccus.
O Yakult, portanto, pode ser não só a solução para a merda empedrada, como também para a viadagem galopante. É o Yakult feito em profilaxia contra a boiolagem!
Cecilia Westbrook e o iogurte de xavasca

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Ao Birdman Aninhado em Cada um de Nós (Ou:As Minhas Sinceras Desculpas a Michael Keaton)

Assisti a Birdman. Por acaso. E improvavelmente. Assistia muito a filmes em minha infância, adolescência e substancial parte de minha idade adulta. Arriscava-me em filmes russos, catalãos, escandinavos, iranianos, vi muita coisa boa, muita coisa ruim, também. Arriscava-me. Tinha tempo para me arriscar. Nunca fui cinéfilo, desses chatos que sabem o nome do diretor, o ano da filmagem, o autor da trilha sonora, o nome do contrarregra, do iluminador etc; fui um grande assistidor de filmes, somente. Hoje, assisto-os de forma cada vez mais rarefeita. Um pouco por falta de tempo, um pouco, falta de paciência, e muito pela incipiente velhice, fase em que temos definidas nossas preferências e desagrados, já estabelecemos do que gostamos e do que não. Não arriscamos nosso escasso tempo remanescente em duas horas de algo do qual poderemos não gostar; preferimos rever, reler, reouvir; que a velhice não quer atribulações, adrenalina, sobressaltos ou coração saindo pela boca, a velhice quer apenas mais tempo para ser velha.
Assisti a Birdman. Por acaso. Estava a saltar por 180 canais de mais do mesmo, a sacizar pela paisagem imutável da TV a cabo, e parei num canal em que alguém comentava algo sobre Birdman, essas entrevistas, esses making ofs que passam entre os intervalos dos filmes, coisa rápida, 10, 15 minutos, e já o peguei da metade para o final. De forma que, ao assisti-lo, não sabia que era obra do cultuado diretor Iñárritu, muito menos que fosse um dos favoritos ao Oscar. Tanto melhor. Tivesse sabido previamente, provavelmente não o teria assistido. Outro preconceito de velho que trago comigo desde que era jovem : se ganha o Oscar, não pode ser bom.
Assisti a Birdman. Por acaso. Principalmente por curiosidade : pela primeira vez, olhei para Michael Keaton, o protagonista de Birdman, e não vi a sombra do morcego a pairar por sobre a sua face; pela primeira vez, olhei para Michael Keaton e não o associei ao inexpressivo Bruce Wayne, de Tim Burton. Sim, Bruce Wayne de Tim Burton; hoje percebo que a canastrice que Keaton imprimiu a Bruce Wayne nunca veio de suas habilidades (ou da falta delas) como ator, sim da visão deturpada de Tim Burton de como deveria ser o semblante de um milionário fútil e leviano. Maldito seja Tim Burton. Vi o envelhecido Keaton e nenhum bat-sinal estampou-se no céu. Algo havia mudado ali.
Assisti a Birdman. Baixei o filme e o assisti. E gostei (repito : sem saber de que porra de diretor era e que fosse um dos favoritos à estatueta da Academia). Gostei do começo ao fim. No começo, apesar de Keaton (velhos preconceitos são difíceis de demolir); do meio para o fim, por causa de Keaton. Registro aqui minhas mais sinceras desculpas a Michael Keaton.
O mote do filme não é dos mais originais, antes pelo contrário, é a recorrente e aflitiva indagação a respeito da decripitude humana, seja ela física, mental, moral, emocional ou profissional. Keaton é Riggan Thomson, ator que angariou fama e fortuna na pele de Birdman - um personagem de quadrinhos adaptado às telas dos cinemas -, e que caiu em ostracismo ao recusar o papel para estrelar o quarto filme da franquia, para tentar se dedicar a trabalhos mais sérios e significativos, conquistar o reconhecimento como grande ator, e não ser lembrado apenas como uma celebridade do entretenimento.
O filme começa com um já envelhecido Riggan Thomson em um momento de decisiva encruzilhada existencial, numa puta sinuca de bico, na hora do ou vai ou racha. Riggan Thomson apostou todas as suas fichas, tudo o que restou dos dólares de seus dias de glória, na adaptação de uma peça teatral, da qual é produtor, diretor e protagonista, e que ou lhe trará o buscado reconhecimento como ator, ou lhe arruinará por completo.
Ao longo do filme, Thomson tem a companhia luxuosa de ninguém mais ninguém menos que o próprio Birdman. Nos momentos de percalços e contratempos da produção e execução da peça, Birdman voa à volta e assombra Thomson, a mau agourá-lo e a tentar demovê-lo de seu objetivo, a tentar convencê-lo a voltar a ser o Birdman; não voltar a ser, mas convencê-lo de que ele é o Birdman, de que sempre o foi.
Ora Birdman se manifesta apenas como voz, ora como corpo. Em alguns momentos, Thomson cede à pressão de Birdman, às suas lembranças de um áureo tempo, parece mesmo prestes a jogar a toalha, sua realidade mistura-se aos seus delírios e reminiscências, Thomson e Birdman fundem-se, confundem-se. A ponto de, a exemplo, em uma das cenas mais belas do filme, Thomson ter a percepção de que está mesmo a voar por entre os desfiladeiros de arranha-céus de Nova York a caminho do teatro onde irá se apresentar, quando, na verdade, está a realizar o trajeto a bordo de um táxi. Pura esquizofrenia. Da mais tocante e poética.
Muitos viram em Birdman uma relação direta com a carreira do próprio Michael Keaton : alçado ao firmamento de Hollywood pelos filmes Batman e Batman, o Retorno, o ator nunca mais igualou tal sucesso. Haveria em Birdman, portanto, uma dose deliciosa e irresístivel de autoironia, de autodeboche, uma evisceração de Keaton e a consequente exposição em praça pública de suas entranhas, de seus fracassos. E sempre há um grande público para a desgraça alheia.
Mas acredito que não tenha sido essa a origem do inusitado êxito alcançado por Birdman - a morbidez em se consolar com o infortúnio de outrem, tampouco a arte que imita a vida, que imita a arte etc.
E sim porque todos nós, sobretudo os homens, mais ainda os acima dos 40 ou 50 anos, fomos Birdman um dia, por um tempo; e sim porque também já tenhamos tido nossos nunca repetidos sucessos de bilheteria. Aquela fase da vida em que tínhamos mais amigos, divertíamo-nos mais, rendíamos barbaridade em nossos estudos, fazíamos mais planos, comíamos mais mulheres. Aquele período do qual, quando estamos hoje em nossos raros e necessários momentos de solidão e contemplação, nos recordamos e dizemos : bons tempos, bons tempos... Só que chega a hora em que temos que recusar o quarto filme da franquia, em que temos que virar as costas a Birdman : tchau, Birdman, divertimo-nos muito, sou-lhe muito grato, mas tenho que ir cuidar da vida, trabalhar, pagar as contas, amadurecer, casar, criar os filhos, bye-bye, so long, farewell, Birdman, fly, robin, fly. Mas o Birdman não voa para longe, fica nos arredores, nas sombras do quarto, atrás das portas, nos interstícios do guarda-roupas e, sobretudo, em nossas gavetas. E naqueles nossos momentos de fraqueza, de guarda baixa, Birdman vem nos assombrar, deixa disso, diz-nos Birdman, largue de tanta chatice e seriedade, vamos dar uma voadinha por aí, beijar umas nuvens e cagar em alguns telhados. E todos bem sabem da saudade que temos das nuvens e dos telhados.
Para alguns, o Birdman pode ter acontecido aos 15, 18 anos; para outros, aos 30; aos 40; para outros, que afirmam nunca terem sido Birdman, o Birdman pode estar a acontecer no presente tempo, e ser, portanto e por ora, imperceptível. Só sabemos do Birdman, que fomos Birdman, e damos real valor a ele, quando nossas asas perdem sua efetiva função; só nos damos conta de que voávamos quando a dura, áspera e gravítica realidade do chão se impõe como nossa última estação.
Ainda e talvez : o que julgamos ter sido nosso Birdman pode apenas ter sido o ovo do Birdman; tomado erroneamente, em nossa azáfama de fazer a vida se cumprir e se definir, pelo próprio pássaro.
Foi o caso do personagem de Keaton no filme. O Birdman, a celebridade aclamada e ovacionada, foi apenas o ovo do verdadeiro Birdman, do verdadeiro voo, do ator completo e acabado. O fracasso, o ostracismo, o descrédito de público e de crítica, o aprender a lidar com isso - e mesmo a esquizofrenia - foram a ideal bunda de galinha que chocou o ovo, que o burilou, lapidou.
Ou, talvez, e muito provavelmente, não seja nada disso. Talvez nem seja eu a escrever nesse momento, talvez seja meu Birdman, de asas desfraldadas e libertas, pela madrugada e pelo álcool.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Bengala de Selfie

Enquanto a preguiça de escrever algo que preste não passa, vou postando umas merdas, só para manter a marreta em riste.
E essa postagem vai especialmente para meu primo Leitinho, fervoroso adepto do pau de selfie!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O Que Teria Mudado? Meu Carnaval ou Eu?

Então repito a pergunta
Que o tempo não respondeu
O que teria mudado?
O meu carnaval ou eu?

Saudosismo
(João de Barro)
Onde andará a Colombina
Que o carnaval esqueceu
Com seu olhar de menina
Travessa que Deus lhe deu?

Onde andará a Colombina
Onde andará seu Pierrô?
Sempre à procura de um sonho
Que nunca realizou

Hoje o carnaval está mudado
E o palhaço vai ao baile de "blu-jim"
O Arlequim não muda de bermuda
E a Maria Antonieta nua é o fim

Não há mais lança perfume
Nem serpentinas no ar
Meu carnaval se resume
Em ver a escola passar

Então repito a pergunta
Que o tempo não respondeu
O que teria mudado?
O meu carnaval ou eu?Saudosismo
(João de Barro)

Onde andará a Colombina
Que o carnaval esqueceu
Com seu olhar de menina
Travessa que Deus lhe deu?

Onde andará a Colombina
Onde andará seu Pierrô?
Sempre à procura de um sonho
Que nunca realizou

Hoje o carnaval está mudado
E o palhaço vai ao baile de "blu-jim"
O Arlequim não muda de bermuda
E a Maria Antonieta nua é o fim

Não há mais lança perfume
Nem serpentinas no ar
Meu carnaval se resume
Em ver a escola passar

Então repito a pergunta
Que o tempo não respondeu
O que teria mudado?
O meu carnaval ou eu?


A mesma máscara negra que cobre teu rosto; confetes, pedacinhos coloridos de saudade; e lança-perfume Colombina, cuja embalagem, depois que o conteúdo era vaporizado e inalado, ainda dava muita alegria para a mulherada e aos Cabeleiras do Zezé de plantão.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

De Volta aos Velhos Carnavais

Ausentar-me-ei por uns dias desta virtual esfera. Aproveito as brejeiras folias de Momo e parto em retiro espiritual. Muita contemplação. Muita meditação. E muita cerveja!
Não vos deixo, no entanto, desamparados. Fica a dica de carnaval do Azarão. Sobretudo para os saudosos dos velhos carnavais : O Carnaval da Brasileirinhas, com Rita Cadilac.
Mais velho que isso, impossível!
"Quanto riso, oh, quanta alegria... "

Não é Carnaval, Mas é Madrugada (14)

Carnaval é época de euforia, de carnalidades, de novos amores. Por isso, também é tempo de traições. E Chico Buarque compôs uma das mais belas canções de perfídia de nossos carnavais. Nem é só a traição da mulher ao seu homem, é a infidelidade da cabrocha à sua escola, ao seu próprio sangue, samba, seiva. É a deslealdade da porta-bandeira que troca a avenida pela galeria, pelo camarote, provavelmente bancada por um coroa rico.
A canção Quem Te Viu, Quem Te Vê é o lamento do corno, o desabafo do mestre-sala que marcava seu samba na cadência dos passos da infiel cabrocha, que a vestia de dourado pra que o povo admirasse. 
Mas o corno não perde a pose nem a classe, mantém-se altaneiro, sustenta feito um Atlas o peso dos chifres e dá uns belos tapas com luva de pelica na vagabunda : "Eu não sei bem com certeza porque foi que um belo dia Quem brincava de princesa acostumou na fantasia"; "Se você sentir saudade, por favor não dê na vista Bate palmas com vontade, faz de conta que é turista"
Faz de conta que é turista... É pra fazer qualquer puta chorar por onde mais lhe dói a saudade. É o Chico!
Quem Te Viu, Quem Te Vê
(Chico Buarque)
Você era a mais bonita das cabrochas dessa ala
Você era a favorita onde eu era mestre-sala
Hoje a gente nem se fala, mas a festa continua
Suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua


Hoje o samba saiu procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais a esquece não pode reconhecer


Quando o samba começava, você era a mais brilhante
E se a gente se cansava, você só seguia adiante
Hoje a gente anda distante do calor do seu gingado
Você só dá chá dançante onde eu não sou convidado


Hoje o samba saiu procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais a esquece não pode reconhecer


O meu samba se marcava na cadência dos seus passos
O meu sono se embalava no carinho dos seus braços
Hoje de teimoso eu passo bem em frente ao seu portão
Pra lembrar que sobra espaço no barraco e no cordão


Hoje o samba saiu procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais a esquece não pode reconhecer


Todo ano eu lhe fazia uma cabrocha de alta classe
De dourado eu lhe vestia pra que o povo admirasse
Eu não sei bem com certeza porque foi que um belo dia
Quem brincava de princesa acostumou na fantasia


Hoje o samba saiu procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais a esquece não pode reconhecer


Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria
Quero que você assista na mais fina companhia
Se você sentir saudade, por favor não dê na vista
Bate palmas com vontade, faz de conta que é turista


Hoje o samba saiu procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais a esquece não pode reconhecer

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Tem Culpa Eu?

O estilista Sérgio K. (o qual nunca vi mais gordo) resolveu tirar partido da merda em que se encontra o país e lançou uma camiseta de sua grife com uma mensagem de apoio a Aécio Neves, ou contra Dilma Roussef.
A camiseta traz a inscrição : A culpa não é minha - Eu votei no Aécio.
Eu também votei no Aécio. Tem culpa eu?
Contudo, se Sérgio K., por um lado, veste literalmente a camisa pró-Aécio, por outro lado, quer enriquicer ilicitamente feito a máfia do PT. O estilista tem a cara de lula de cobrar noventa e nove reais por uma camiseta Hering com um silk mais ou menos.
Noventa e nove reais... É quase um japonês, ou seja, cem pau!!!

Construindo o Cidadão Jeca Tatu

Chegue para um engenheiro e diga-lhe : olha, não precisa se preocupar em cumprir com o prazo da obra, amanhã, mês que vem, daqui a dois anos, não há problema, cada obra tem suas peculiaridades, o seu tempo, devemos respeitar o ritmo de cada obra. Não dê, igualmente, tanta importância em seguir à risca o projeto da planta; se a edificação sair com dois ou três andares a menos, paciência, imprevistos acontecem, coisas da vida; se algum cômodo for esquecido de sua fiação, encanamento, ou mesmo de seu teto, distrações acontecem, errar é humano, também não há grandes inconvenientes, não se exaspere por tão pouco. E deixe de rigores extremos, liberte-se de cálculos e precisões opressoras, inflexíveis, tirânicas; uma infiltração aqui, uma rachadura ali, um desmoronamento acolá, são naturais percalços, vicissitudes do ofício.
Absurdo? Sandices? Surreal?
Pois é isso, exatamente isso, apenas trocando-se pelos jargões específicios da área, que é dito cotidianamente ao professor. Não apenas dito. Imposto.
Não se preocupe em cumprir  com o conteúdo de cada série, professor. Se o aluno não aprender a ler nesse ano, aprove-o, promova-o de série, ele aprenderá no ano que vem, no outro, ou no outro, cada aluno tem seu ritmo de aprendizado e devemos observá-lo para que não hajam traumas que bloqueiem para sempre seu processo cognitivo; idem para os rudimentos de ciências e matemática. O importante é ele estar na escola, socializando-se, construindo-se como um cidadão.
(E aqui não invento tampouco exagero; eu, em inícios de carreira, inocente, puro e besta, por algumas vezes fui "advertido" quanto à minha rigidez em querer cumprir com o conteúdo, que já é o minímo do mínimo. Não imaginam quantas vezes eu ouvi da boca de coordenadores que o conteúdo não é o mais importante. O que mais é, então, em uma escola?)
E deixe de rabugices e absolutismos, caro mestre. Deixe de cobrar que o aluno chegue no horário à sua aula, que ele esteja de uniforme, que ele traga o material e que realize as opressoras tarefas que são lhe são dadas, que ele tenha comportamento adequado; a escola é a continuação da casa do aluno, professor.
(De novo, não estou a carregar nas tintas; antes pelo contrário, até as diluo, até as pinto em aquarela ao invés de em densa pasta a óleo que lhe faria mais jus).
A Lei de Diretrizes e Bases do Ensino, a LDB, garante a entrada do aluno na escola e em sala de aula de maneira incondicional : se ele entra às 7h e chega, por exemplo, às 10h na escola, a escola é obrigada a deixá-lo entrar, ainda que nenhuma justificativa ele dê para o atraso; se ele chega sem uniforme, idem; sem material didático (que é lhe fornecido gratuitamente pelo Estado), ibidem. O aluno pode chegar às 10h na escola, de chinelos havaianas, bermuda verde, camiseta laranja fosforescente, boné, sem portar um único caderno ou caneta que seja : ele vai entrar.
E o que é que tem isso, professor? Ensiná-lo a ser responsável, disciplinado, compromissado com suas obrigações, para quê? De que servirá a ele responsabilidade e disciplina? Deixe de recalques, caro educador. Cada um tem o seu tempo para amadurecer. O importante é ele se sentir acolhido pela escola, sentir-se pertencente a um lugar, o importante é a inclusão social, é trabalhar a autoestima do educando, é construi-lo como cidadão.
Química, Física, Biologia, Literatura? Ora, professor, são meros detalhes, adereços, atávicos apêndices herdados da antiga escola - elitista e excludente-, insignificantes pretextos para a escola existir em seu objetivo maior : construir o cidadão.
Direcionar os temas de sua disciplina para o vestibular, professor? Onde o senhor pensa que está, numa escola? Deixe de arcaísmos e obsoletismos, professor, desvencilhe-se dos velhos ranços. Professor, construa o cidadão (irresponsável, indisciplinado, semianalfabeto), que ele, uma vez erigido, estará apto a trilhar com sucesso o caminho que bem escolher. É a escola-cidadã! A escola-cidadã é o discurso em voga nas últimas duas décadas, já a entrar na terceira. Construa o cidadão, professor!
Um cidadão com dois ou três andares a menos que a planta original, com algum cômodo esquecido de fiação e encanamento, marejado e mofado de infiltrações, com rachaduras e inevitavelmente sujeito a desmoronamentos. Paciência, professor, não se exaspere por tão pouco, dedicado mestre; são naturais percalços, vicissitudes da vida.
Que venha, pois, o Carnaval. Que é o único título que ainda nos resta : o país do carnaval. Título demeritório, é verdade, mas ainda um título; que, ao idiota, se for dito que ele é o rei dos idiotas, ele muito se alegrará, estufará o peito de orgulho, assumirá ares de fidalgo.
Fomos também, outrora, o país do futebol. O holocausto alemão dos 7 a 1 arrancou as chuteiras da pátria de chuteiras; e descalços, do glorioso amarelo-canarinho, restou-nos apenas o amarelão nacional, o da verminose, o do Jeca Tatu.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Viúva Negra, Comê-la ou Não Comê-la, Eis a Questão.

No mundo dos insetos e do aracnídeos, o canibalismo pós-copulatório não é ocorrência incomum. Ao término da foda, a fêmea (essa eterna ingrata) de certas espécies, ao invés de relaxar, fumar um cigarrinho, tomar um banhozinho pra ficar cheirosa e cobrir de carinhos e agradecimentos o macho que lhe deu tanto prazer, ataca seu nobre e dedicado consorte e, sendo normalmente maior que ele, mata-o e o devora na grande maioria das vezes, raros são os afortunados don juans que conseguem se pirulitar. Matam sem dó nem remorso o macho que lhes permitiu cumprir com o sagrado desígnio da natureza, o da maternidade.
Ingratidão, ingratidão, teu nome é mulher!
O louva-a-deus é um desses casos da eterna ingratidão feminina. Sim, o louva-a-deus, aquele bichinho com ares zen, contemplativo, que parece estar sempre a meditar e a orar com sua patas postas em posição de prece. Não vou dizer que ele não esteja mesmo a rezar e a louvar a deus, a questão é : pelo que ele tanto reza, o que tanto pede a seu deus? A suculenta cabeça de um macho!
O macho vai lá, todo solícito e disposto, de pica em riste - a maior demonstração de respeito que um macho pode ter pela fêmea -, dá aquela assistência, faz um amorzinho gostoso. Mal o pau do louva-a-deus amolece, a fêmea já o imobiliza em certeiro bote, e seu alvo primário é a cabeça do macho, que ela decepa com suas patas serrilhadas e devora com prazer maior que o sexual. O macho ainda tenta brigar por sua vida, debata-se, luta valorosamente para escapar das mãos que tanto beijou - sim, amigo, a mão que afaga é a mesma que apedreja -, mas tomba em campo de batalha, morre heroicamente.
Mas, sem dúvida, a mais notória devoradora (literalmente) de homens do reino dos artrópodes é a famosíssima viúva-negra. E como toda fama que se preze, seja para o bem ou para o mal, a da viúva-negra também é injustificada. A viúva-negra não mata o macho depois da trepadinha. O macho morre, sim, é devorado por ela, sim, mas sua morte não se dá pelas mãos da fêmea, por nenhuma da oito. 
A morte do macho da viúva-negra tampouco tem de combativa e heroica, tem é de patética, eu diria. O macho não luta por sua vida contra uma oponente maior e impiedosa; ele morre por hemorragia do pau. Pããããta que o pariu!!! 
É isso mesmo. Acontece que o macho, depois de dar aquela gozadona e entupir a fêmea de esperma, retira bruscamente o pênis de dentro dela; ou melhor, tenta retirar, pois o pau do macho (chamado de bulbo) quebra no tranco e fica dentro da fêmea, ele sai eunuco, emasculado, perde grande quantidade de seu fluido vital através do ferimento, a hemolinfa, e morre.
Uma vez morto, não há porquê desperdiçar o cadáver, a fêmea o devora; que, na natureza, nada se perde e nada se cria, tudo se transforma. 
E não há quem possa orientar as novas gerações de machos jovens acerca dos perigos do amor e do sexo. Instrui-los, por exemplo, na técnica e na arte do coito interrompido : mete à vontade, meu filho, mas goza fora. O macho impúbere cresce iludido, não vendo a hora de dar sua primeira trepada, afoito para perder o cabaço. Mal sabe ele. Quem poderia lhe alertar, já era. A castração pós-coito não é conhecimento que passa de pai pra filho.
Feito a história do instrutor de pilotos kamikazes. Ele se dirige aos novos cadetes e diz : prestem atenção, que eu só vou explicar uma vez. O macho da viúva-negra só trepa uma vez.
E você, caro amigo, arriscaria sua benga em uma trepada com uma fatal viúva-negra, aventuraria-se nas entranhas de uma aranha devoradora de cobras? E se fosse a viúva-negra abaixo, a dos Vingadores, a Scarlett?
Deixo aqui uma enquete aos leitores machos do Marreta (vale para você também, ex-boiola que comenta sempre por aqui) : se fossem lhes dadas apenas duas opções, perder o pau na Viúva Negra - nessa Viúva Negra -, ou passar o resto da vida na bronha, qual você escolheria?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O Homem Olha a Chuva

O homem olha a chuva.
De seu aquário seco,
De sua ilha cercada de vácuo por todos os lados,
O homem olha a chuva.

O homem olha a chuva.
Com olhos de confusão e de embaraço
De quem reconhece de pronto a um velho amigo
E esse nem faz ideia de quem ele seja,
O homem olha a chuva.
Com a prostação e a paraplegia
De um abraço que não encontra outros braços,
O homem olha a chuva.
Com as retinas saudosas de quem,
A procurar
Por meias, cuecas,
Comprovantes de votação
Ou simplesmente
A pôr novas naftalinas nas gavetas
A proteger o passado do apetite desrespeitoso das traças,
Dá de cara com foto de amante antiga,
O homem olha a chuva.

O homem olha a chuva.
À qual já serviu de superfície,
A qual já usou por cobertor e samovar.

A chuva olha o homem
Estranha não vê-lo metido e a nadar em seu útero,
Mas precipitada
Tempestuosa que é
Esquia
Enxurrada
Meio-fio abaixo
A ninar barquinhos de papel.
Esquece do homem,
Mantém-se chuva.

O homem olha a chuva.
Fere-lhe não ser mais girino
Em sua bolsa amniótica,
Mas contido, prudente
Covarde que é,
Conforma-se
Convence-se
Deserta do convés
Põe fogo em seus galeões de papel.
Abstém-se da chuva,
Desfaz-se como homem.

Bukowski Manda um Olá

Olá, como você está?
esse medo de ser o que eles são:
mortos.

pelo menos eles não estão na rua, eles
têm o cuidado de ficar dentro de casa, aqueles
malucos que se sentam sozinhos na frente de suas tvs,
suas vidas cheias de enlatados, riso mutilado.

seu bairro ideal
de carros estacionados
de pequenos gramados
de pequenas casas
as pequenas portas que abrem e fecham
quando seus parentes os visitam
durante as férias
as portas se fechando
atrás do moribundo que morre tão devagar
atrás do morto que ainda está vivo
em seu tranquilo bairro de classe média
de ruas sinuosas
de agonia
de confusão
de horror
de medo
de ignorância.

um cão parado atrás de uma cerca.

um homem silencioso na janela.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Mimetismos (14)

A flor é o órgão sexual das plantas. A florada de uma árvore é seu período de cio exuberante. Um ipê florido, a exemplo, é uma fêmea arreganhada a conclamar toda a espécie de fornicadores para fecundá-la, borboletas, vespas, abelhas, besouros, pássaros etc.
A flor é o órgão sexual das plantas. Não é à toa que o mancebo apaixonado oferta belos e portentosos buquês de rosas à sua amada. A intenção do canalha é bem clara. O cara está a lhe dar, minha cara donzela incauta, um ramalhete de órgãos sexuais. E a moça toma aquele buquê de órgãos sexuais e o abraça, leva-o junto ao peito, esfrega aqueles órgãos sexuais no rosto, aspira seu cheiro, suspira, enleva-se e extasia-se. E vai alegre mostrar para a mãe, que também se derrete toda, elogia o pretendente, é o genro que ela pediu a deus, e aproveita para criticar o marido, que há tempos não lhe manda flores - óbvio, o cara já comeu o que havia para.
A flor é o órgão sexual das plantas. As fotos abaixo não me deixam mentir. A semelhança de formas é impressionante. Já o cheiro... quanta diferença...
Tem até uma cabeludinha! E uma hermafrodita! Pãããããta que o pariu!!!!

Deixe Estar

Eu queria deixar :
De acordar antes do despertador alarmar um novo dia;
Do excesso de café
(sorriso para o cérebro e ácido sulfúrico para minha gastrite);
A cerveja só para os fins de semana,
Para as comemorações.
Mas a vida não deixa.
Deixar a vida?
Ainda não.

Na Boca da Noite

Oh, Lua
De pouca gravidade
E menos ainda siso,
Tomo de assalto o teu sorriso
Com minha capadócia espada.
E se te inflamas,
Se te intumesces
Se te pões túrgida
E escorres
E te liquefazes,
Ordenho-te
Mamo-te
Esgoto-te
Deixo-te à míngua.
E minguante
Te boto no colo
Te faço cafuné
Te dou café forte
Para que te restaures
Te renoves.
E nova, 
Pouso em ti 
Outra vez.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

A Petrobrás, por Paulo Francis

Diário da Corte é o nome da coluna semanal escrita por Paulo Francis no jornal O Estado de São Paulo durante os anos de 1975 a 1990. Era marreta pura! Artilharia pesada! Paulo Francis foi, sem a menor sombra de dúvida, o maior polemista do jornalismo brasileiro, até hoje insuperável. E também um dos maiores intelectuais que já passaram por uma redação de jornal.
De Francis, diz outro jornalista, Ricardo Setti : "O homem amável, de gestos suaves e maneiras gentis, era temporariamente exonerado entre um texto e outro. Na hora de lidar com palavras, materializava-se a entidade agressiva, de temperamento beligerante, extraordinariamente hábil no ataque frontal, na ironia desmoralizante, no humor ferino, no sarcasmo impiedoso".
Posteriormente, setenta e tantos de seus artigos para O Estadão foram reunidos e lançados em um livro, O Diário da Corte de Paulo Francis. Baixei o livro em pdf e, sempre que me sobra um tempinho, pinço aleatoriamente um de seus artigos e leio. Numa dessas randômicas escolhas, dei de cara com Francis descendo a marreta na Petrobrás. E isso em 1994, há exatos vinte anos do petrolão.
Leiam, aprendam e se regozijem com a prosa elegante, não obstante, afiada feito navalha, ou afiada feito navalha, não obstante, elegante, de Paulo Francis.
Sobre a Petrobrás, uma constatação e uma profecia de Francis :
"O mundo está inundado de petróleo barato. A Petrobrás é uma excrescência arcaica e nos custa os olhos da cara. A produção das companhias internacionais é por empregado 130 barris por dia. Nas companhias latino-americanas é de 98 barris por dia. Da Petrobrás, 33 barris por dia. Mas temo que, sem cesarismo, a Petrobrás permaneça saqueando o Brasil até a sua (nossa) ruína. Seu lobby, seus inocentes úteis, a mística que soube criar em torno de si própria (tem um departamento de relações públicas maior do que a General Motors) precisam de um antídoto elefantino." (O Estado de São Paulo, 03/04/94)

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Stephen Fry Diz Que Deus é Monstruoso, Egoísta e Maníaco

O ator britânico Stephen Fry é ateu, dos legítimos, dos das antigas, assumidíssimo. E quando alguém se assume publicamente como ateu, os dependentes da fé, os viciados em deus - a droga alucinógena mais poderosa de todas; LSD, louvado seja deus -, não lhe dão sossego, não perdem a chance de espezinhar o ateu, de querer empurrar deus goela herege abaixo, de cutucar o ateu com a vara do pensamento curto.
Em um programa televisivo irlandês, o entrevistador, provavelmente um católico mal-intencionado a querer colocar o ator numa saia justa, perguntou a Fry o que ele diria a deus caso fosse colocado diante Dele.
Fry, como bom ateu, não se intimidou, não pôs papas à língua, não tentou ser polido nem politicamente correto, e, com toda a fleuma britânica que lhe é peculiar, abriu o verbo, e o verbo de Fry se fez em pura marreta. Visivelmente inflamado pela pergunta idiota que o levava a fazer uma suposição mais idiota ainda, a de que deus existe, disse que, se Deus existisse, diria a Ele que é “monstruoso”, “egoísta” e “maníaco”. 
Falaria também: “Como você se atreve a criar um mundo em que há tanta miséria que não é nossa culpa? Não está certo. Você é absolutamente mal. Por que eu deveria respeitar um Deus caprichoso e estúpido que cria um mundo tão cheio de injustiça e dor? Câncer ósseo em crianças? Por que você está fazendo isso? Sim, o mundo é esplêndido, mas também tem insetos que se introduzem nos olhos das crianças, tornando-as cegas. Elas comem os olhos de dentro para fora. Por quê? Por que você fez isso com a gente? Você poderia facilmente ter feito uma criação em que isso não existe”. E ainda temos de passar a nossa vida de joelhos agradecendo-lhe?! Que tipo de Deus faria isso?"
É o famoso Paradoxo de Epicuro, um trilema : 1) enquanto onisciente e onipotente, deus tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então não é onibenevolente; 2) enquanto onipotente e onibenevolente, então tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o mal está. Então ele não é onisciente; 3) enquanto onisciente e onibenevolente, então sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo. Mas não o faz, pois não é capaz. Então ele não é onipotente.
Sou ateu, também das antigas, não desses neoateusinhos de merda, discípulos de Richard Dawkins, uma molecada que resolveu rejeitar deus (o que é muito diferente de não crer), ficar de mal do todo-poderoso porque Ele não lhes dá as roupas de grife que querem, ou um novo modelo de celular, ou o namoradinho (a) que tanto amam. 
Sou ateu, de nascença, de DNA. Todavia, não concordo muito Stephen Fry. Nem com Epicuro. 
SE (um SE bem grande) deus existisse, ele não seria mau nem bom, que mau ou bom são conceitos criados pelos humanos e, portanto, só a eles aplicáveis. Para mim, esse deus judaico-cristão, supondo sua existência e que tenhamos por ele sido criados, está mais para indiferente, ou seja, tá cagando e andando pra humanidade. 
Dizer que ele pratica maldades conosco é, ainda que de uma forma torta e masoquista, considerar que ele pensa em nós, que ele gasta um tempinho de seu infinito tempo a planejar suplícios para jogar sobre nossas cabeças; é, ainda que de uma forma das mais doentes, achar que ele nos dá alguma atenção. Deus (ainda supondo que ele exista) não provoca câncer ósseo em crianças, caro Stephen, apenas deixa o câncer se manifestar livremente, apenas pouco se Lhe dá que o câncer se alastre em quem quer que seja, aliás, nem sabe se o câncer acomete ou não os pueris ossinhos, duvido mesmo que saiba o que é um câncer. Não sabe e nem quer saber. 
O tal do livre-arbítrio já não nos dá uma boa dica desse desdém divino? O que é o livre-arbítrio se não o pai que dá a emancipação legal ao filho? O cara tá dizendo, te vira, malandro, doravante, estás por conta própria, fazes o que queres, mas não venhas mais me aporrinhar para que te livres das consequências das tuas cagadas. Ou seja, ao dar o livre-arbítrio ao ser humano, Deus disse : "Fui!"
Portanto, caro Stephen, nem monstruoso nem maníaco nem egoísta. Nem bom nem mau.
Indiferente. Ausente. E, lógico, inexistente.
Em tempo : fica aqui uma dica, assistam ao filme Wilde, protagonizado por Fry. Fora o inquestionável talento, é impressionante a caracterização e a semelhança física de Fry com o gênio Oscar Wilde.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

FHC, Lula e o Açucareiro

O instantâneo abaixo registra uma cena que seria das mais triviais e corriqueiras, dois amigos num momento de folga, num intervalo da faina diária a tomar seus cafezinhos e a jogar conversa fora; quem sabe a reclamar do técnico de seus times de futebol, a dizer mal da sogra, a praguejar contra o patrão explorador etc.
Uma cena que seria das mais triviais. Se os tais "amigos" não fossem Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva, dois de nossos ex-presidentes e declarados e ferrenhos opositores.
O que figadais inimigos estarão a fazer em momento tão prosaico, em tão terna e meiga trégua, que conversas ou propósitos acompanharão seus cafezinhos com açúcar e com afeto? De que estarão a tratar nesse retrato em branco e preto a maltratar meu coração? A falar mal das sogras e dos respectivos clubes, pode até ser; mas do patrão?  FHC aposentou-se aos 38 anos de idade, Lula, aos 42; ambos com polpudíssimas aposentadorias.
Estarão a combater o bom combate ideológico, a afiar as arestas de suas rivalidades? Estarão a discutir suas diferenças partidárias e a buscar um meio-termo para uma nação mais justa e igualitária?
Frente a tão idílica cena, não pude deixar de me lembrar de um antigo quadro humorístico, o do Paulo Silvino e o açucareiro. No esquete, Paulo Silvino e um amigo sempre se sentavam a uma mesa de um bar para tomarem um cafezinho e conversarem sobre as notícias e atualidades da semana, porém, os açucareiros dados a eles estavam invariavelmente entupidos. Não eram açucareiros como o da foto, desses de pegar o açúcar com a colherinha, sim daqueles açucareiros altos, compridos, de vidro e com um bico dosador, os quais bastam se inclinar e despejar a quantidade desejada de açúcar.
Silvino e o amigo iam conversando e tentando adoçar seus respectivos cafés, agitando levemente os açucareiros na tentativa de que saísse algum açúcar dali, a conversa ia ficando mais enfática, os amigos iam se inflamando com os descalabros praticados contra a nação e sacudindo cada vez mais forte o açucareiro, até que, no auge da indignação, Silvino segurava o açucareiro de ponta cabeça com uma das mãos e batia com a palma da outra mão contra o fundo dele, forte e repetidamente, numa claríssima alusão ao conhecido gesto do "top top", o famoso "vai se fuder".
A exemplo, eles iam falando da economia e tentando adoçar o café, iam se enfurecendo com as medidas econômicas adotadas pelo governo e agitavam com mais vigor seus açucareiros, então, Silvino falava algo do tipo: se a inflação não abaixar, se o desemprego não diminuir, o povo vai se...(e aí batia contra o fundo do açucareiro, com força e vontade)... dar mal, continuar levando na cabeça. Ou, sobre futebol, falava, se o técnico não convocar fulano e sicrano, se não mexer no esquema tático, a seleção vai (e mais porrada no fundo do açucareiro) tomar de goleada, vai ser desclassificada.
Pois me parece que é justamente isso que Lula e FHC estão fazer na foto. Que briga ideológica, que nada! Que, no Brasil, política não se faz com ideologias e sólidas plataformas de governo, sim com conveniências e conchavos. Que discussão partidária, que nada! Que esses dois nada tem de inimigos. São apenas antagonistas profissionais, só até o desligar das câmaras e dos microfones, até o apagar das luzes dos estúdios.
Depois, saem para confraternizar, e, como todo homem, contar vantagens num balcão de bar. Devem ficar comparando seus feitos, disputando quem tomou essa ou aquela medida que mais ferrou com o Brasil e com o brasileiro, quem mais embolsou com licitações, privatizações, negociatas e falcatruas. E como devem se divertir! Como devem gargalhar!
Enfim, dois amigos, dois compadres a adoçar seus cafés e a  fazer a mímica do açucareiro pro povão!
Paulo Silvino, o povo, ó, só na tarraqueta!!!

Aniversário do Marreta do Azarão

Seis anos de Marreta dura! E sem viagra!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Exame de Próstata do Gaúcho (Ou : o Dedo Bandido)

A prosseguir com minha sacrossanta e incansável cruzada pela divulgação do bom folclore brasileiro, em contraposição aos raloins da vida, trago-vos hoje uma pérola da lírica regional do rio grande do sul, uma poesia das mais representativas acerca da alma calejada - não obstante, sensível - do homem dos Pampas.
Sim, porque folclore não é só o Saci, a Cuca, a Mula-sem-cabeça e outras lendas, explicações de cunho mágico e fantástico para os mistérios do mundo que nos rodeia; folclore é também a música tradicional de um povo, suas danças, suas vestimentas e cozinhas típicas, artesanato, jogos e brincadeiras, produção literária etc, ou seja, é o conjunto dos costumes e tradições de um povo, ou de uma região.
O poema a seguir, de autoria do poeta tradicionalista gaúcho Mano de Lima, de São Pedro do Sul (RS), é a quintessência do gaudério, do centauro dos pampas, a mais perfeita tradução do gaúcho macho, esse ser também folclórico e lendário.
Exame de Próstata (o dedo bandido)
(Mano de Lima)
Andava mijando errado
Com as urina em atraso
Era uma gota no vaso
Três ou quatro na lajota
Quando não era nas bota
Na bombacha ou nos carpim
Eu mesmo, mijando em mim
Que tamanha porcaria
E o meu tico parecia
Uma mangueira de jardim

O pensamento mandava
O pau não obedecia
Quando a bexiga se enchia
Eu mijava à prestação
Pro banheiro, em procissão
Uma ida atrás da ôtra
Numa mijada marota
Contrastando com meu zelo
Pra beber, era um camelo
E pra mijar, um conta-gota

Depois de passar um bom tempo
Convivendo com esse horror
Me fui atrás de um doutor
Que atendesse meu pedido
Me desse algum comprimido
Pra mim empurrar goela abaixo
Tenho certeza, não acho,
Que bem antes que eu prossiga
É importante que eu diga
Que não deixei de ser macho

Mas buenas, voltando ao causo
Que é natural que eu reclame
Depois de um monte de exame
De urina e ecografia
E até fotografia
Da minha arma de trepá
 
Me obrigaro desaguá
Ajoelhado num pinico
E me enfiaro um troço no tico
Que me dói só de lembrá
Ainda dei o meu sangue
Pros vampiro diplomado
Pensei que tinha acabado
Só me faltava a receita
já tinha uma idéia feita
Me trato e adeus, doutor
Recupero o mijador
Nem sonhava em concluir
Que alguém iria invadir
Meu buraco cagador
 
Fiquei bem contrariado
Tomei um baita dum choque
Quando me falaram em toque
Achei bem desagradável
Pra um macho é coisa impensável
Um dedão campeando vaga
No lugar que a gente caga
Vejam só o meu dilema :
O pau é que dá problema
E o meu cú é que paga

Tentei todos argumentos
Me esquivei o quanto pude
Mas se é pra o bem da saúde
Não deve me fazer mal
Expor assim meu anal
Fazer papel de mulher
Nem tudo que a gente quer
Tá de acordo com os planos
Fui derrubando meus panos
E se salve quem puder
 
De cotovelo na mesa
A bunda véia empinada
No cú não passava nada
Nem piscava de apertado
Mas era um dedo treinado
Acostumado na bosta
E eu, que nunca dei as costa
Pra desaforo de macho,
Pensava, de pinto baixo,
O pior é se a gente gosta

Pra mim foi mais que um estupro
Aquilo me entrou ardendo
E então eu fiquei sabendo
Como  se caga pra dentro
Aquele dedo nojento
Me atolando sem piedade
Me judiou barbaridade
Que alívio quando saiu
Garanto pra quem não viu
Que não vou sentir saudade
Enfiei a roupa ligeiro
Com vergonha e desconfiado
Vai que o doutor abusado
Sem pena das minhas prega
Chamasse um outro colega
Pra uma segunda opinião
Apertei o cinturão
Fiz uma cara de brabo
Dois mexendo no meu rabo
Aí seria diversão

Depois daquela tragédia
Que pior pra mim não tem
Não comentei com ninguém
Pra evitar o falatório
Se alguém fala em consultório
Me bate um pouco de medo
Não faço nenhum segredo
Dessa macheza que eu trago
Mas cada vez que eu cago
Me lembro daquele dedo

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (11)

Fevereiro, mês a partir do qual o ano efetivamente se inicia. Fevereiro, o mês do carnaval. 
Carnaval é bebedeira, é libertinagem, é putaria, é fuleiragem da boa e, consequentemente, como não podia deixar de ser, de muita cornagem. E da maior festa popular do país, o seu corno mais clássico : o Pierrô.
O Pierrô é o eterno corno. O padroeiro dos mansos! É o corno que leva a mulher para festa já sabendo que vai ser corno. O Pierrô entrega a biscate da Colombina de mão beijada para o ricardão Arlequim. O Arlequim não tem nem o trabalho de buscar a Colombina em casa, pagar a entrada do baile, nada disso. O Pierrô entrega-a prontinha, cheirosinha, de banho tomado, xavasca depilada, levemente embriagada, depenada e desossada, pronta para consumo e deleite.
O Pierrô é corno de tamanho importância que faz parte do calendário oficial das festividades do país. Primeiro, vem o Pierrô, depois, o coelhinho da Páscoa, os santos das festas juninas, a nossa senhora, o papai noel e o corno de novo, ad infinitum.
Embora seja personagem oriundo da comédia italiana de costumes, o Pierrô muito bem se adaptou por aqui, foi muito bem acolhido pelos foliões brasileiros; em parte, acredito, pela nossa forte descendência carcamana (sobretudo no estado de São Paulo), em parte, e principalmente, porque não é só o italiano que è tutto corno. O Pierrô é o estrangeiro que veio a passeio, jogou o passaporte fora e fixou residência. O Pierrô é o corno naturalizado. Pierrô é corno para quem o Brasil deu asilo político. O Pierrô é o corno que é patrimônio cultural e imaterial do país! 
Abaixo, a clássica marchinha carnavalesca.
Pierrô Apaixonado
(Noel Rosa/Heitor dos Prazeres)
Um Pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma Colombina
Acabou chorando, acabou chorando


Um Pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma Colombina
Acabou chorando, acabou chorando


A Colombina entrou num butiquim
Bebeu, bebeu, saiu assim, assim
Dizendo: "Pierrô, cacete!
Vai tomar sorvete com o Arlequim!"


Um Pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma Colombina
Acabou chorando, acabou chorando


Um Pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma Colombina
Acabou chorando, acabou chorando


Um grande amor tem sempre um triste fim
Com o Pierrô aconteceu assim
Levando esse grande chute
Foi tomar vermute com amendoim
O Pierrô - de joelhos, corno choroso -, a biscate da Colombina e o ricardão Arlequim, reparem, já passando a mão na bunda dela.