sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Loch Ness

O meu pensamento assim se comporta: 
Neblina, colóide branco cegante, 
Névoa infiltrável. 
Do tipo de onde saem os monstros, 
De onde suporam os estripadores. 
Abandono meu pensamento 
Pra receber um beijo seu: 
Gosto. Sinceramente gosto. 
Mas não entendo mais o que ele pode querer me dizer. 

O meu humor, a mim, assim se reporta: 
Nitrogênio e breu rarefeitos em meu ar, 
Útero cistoso, esponjoso. 
Do tipo onde nadam deformidades, 
De onde vêm a furo os suicidas. 
Disfarço meu humor 
Pra retribuir o beijo seu: 
Você gosta. Sinceramente gosta. 
E ainda acha que entende o que ele quer lhe dizer.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Soneto do Desprevenido

Eu lhe amo porque de me defender não houve jeito,
Amo porque de evitar não houve intenção, não houve intento
Porque quebrou o velocímetro em meu peito,
Fui multado porque, às suas placas, aos seus radares, eu não estava atento.

Eu lhe amo porque nunca pensei em lhe amar,
Houvesse pensado, teria me precavido.
Amo porque não consigo deixar de lhe amar
Porque não fui pai desse amor recém-nascido.

Eu lhe amo porque nunca imaginei que você viesse,
Amo-lhe como fosse a última da espécie,
Porque há muito queria amar sem porquê.

Eu lhe amo sem tempo, sem hora, sem ponteiro
Amo-lhe sem maquiagem, amo sua cara saída do travesseiro
Amo porque você é você.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Soneto do Olfato

Esboço de barba a agulhar o rosto
Sou um velho decrépito de 30 e poucos anos
Não mais afeito aos prazeres mundanos
E não há outro tipo de prazer que o já acima exposto.

É que o desejo pelo prazer vem do cheiro.
São fundamentais a estampa, o paladar, a voz, o tato
Porém, todo o conjunto queda não houver beneplácito do olfato
O odor da pele é juiz e veredicto derradeiro.

As mulheres de minha idade ou pouco mais, cheiram a gavetas fechadas
A neuroses e irritantes notas de naftalina desafinadas
Aterrorizam o desejo, só atraem compaixão.

E o cheiro das mais novas
Ah! A fragrância e os olores das mais novas...
As mais novas fedem à traição.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Barrichello na Manifestação Pelo Impeachment

O Clã de Um Homem Só

Engana-te
- o que não é incomum -,
Não tiro das pedras
Inspiração.
Nem leite.
Como também não a extraio
A inspiração
Do peito
Uma vez que igualmente pedra
Monolito de sílex paleolítico.
O que arranco do peito
A duras marretadas
São fagulhas,
Centelhas, faíscas
Para acender minha fogueira.
Que não é para o  bando
Que é flama particular e intransferível
Que levemente fosforece e amorna
Apenas a mim e à minha toca.
E mantém à distância segura
Pernilongos e tigres-de-dentes-de-sabre.
Sou meu próprio clã
E totem.

domingo, 16 de agosto de 2015

Pequeno Conto Noturno (55)

Três e dezoito da manhã, Rubens vê no visor do caixa do supermercado 24h, e passa por ele com 4 latões de cerveja, para bem acabar a madrugada e se garantir umas precárias horas de sono conturbado.
Avista Valéria a uns 5 ou 6 caixas de distância do que está. Ela ainda não o viu. E Rubens pretende chegar até ela sem que isso aconteça, de surpresa, invisível. O que é fácil para ele.
Rubens tem um poder quase que mutante de se tornar invisível, de passar despercebido. Em parte - em uma pequena parte - porque não possui nenhum atributo físico que atraia olhares cobiçosos, Rubens é mesmo feio; em parte - em uma pequena parte - porque se traja sempre com cores neutras de padronagem lisa, preto, cinza, azul-marinho, marrom, meio que se camufla à triste paisagem, Rubens não veste outdoors vermelhos com inscrições douradas; mas, principalmente, Rubens deve seu dom de invisibilidade ao fato de que não é aquele cara que faz com que alguém, ao sair de casa para seus afazeres e atribulações diárias, pense : que puta saudade do Rubens, como seria bom encontrá-lo por acaso no supermercado, no banco, na padaria. Ninguém nunca está pensando em encontrar Rubens : fica fácil se tornar invisível. E ele prefere assim.
Cá entre nós, e que Rubens não nos ouça, ele acredita que prefere assim, mas não tem parâmetros para tal certeza. Nunca foi de outro modo.
Para Rubens, só existem dois tipos de amor, paixão ou como quer que as pessoas chamem a tais brutais reações químicas dos corpos. O amor que acontece, que se realiza, que constrói fortificações, ergue cidadelas com fossos e pontes levadiças em torno dos amantes; que depois são tomadas, invadidas e saqueadas pelos pequenos e insuportáveis defeitos de cada um, pela rotina e pelo tédio ("se esse amor, ficar entre nós dois, vai ser tão pobre, amor, vai se gastar...") e, finalmente, capitulam feito impérios decadentes. E o amor que não acontece, que fica só na intenção, no terreno das ideias, incubado, juntando pó e mofo, fermentando, e que acaba por explodir em pútrida pústula, um furúnculo que vem a furo, um tubérculo no pulmão, uma flor negra de Pasteurella pestis, um sarcoma de Kaposi.
Do segundo tipo, o amor entre ele e Valéria.
O mercado oferece três tipos de bebida quente como cortesia aos seus fregueses, disponíveis em garrafas térmicas à saída do último caixa : uma com chá, outra com café sem açúcar e outra com café com açúcar. Rubens se serve de dois pequenos copos, um com açúcar e o outro sem, e com eles se aproxima de Valéria, que só dá por Rubens quando ele está bem às suas costas, à distância em que ele planejou mesmo que ela o percebesse, à distância que ele quis se fazer visível.
Nem Rubens nem Valéria dizem nada. Rubens estende, então, os dois braços em direção à Valéria, o café sem açúcar na mão esquerda, o com açúcar na direita, mostrando a ela suas opções.
- Qual você prefere? - pergunta Rubens, levantando ligeiramente a mão esquerda em relação à direita - Sem açúcar e com afeto, ou - baixando a mão esquerda e erguendo mais a direita - com açúcar e sem afeto?
Valéria, calada (Rubens não ouvirá a voz dela hoje), pega o café da mão direita de Rubens e volta a ensacar as suas compras.
Eles ainda não estão prontos para ter qualquer tipo de conversa. Rubens segue e entra de novo no mercado. Vai pegar mais dois latões. A madrugada será mais longa do que ele havia imaginado. Mesmo que o sol raie - e ele sempre raia, indiferente - em seu horário habitual.

sábado, 15 de agosto de 2015

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (18)

O corno é um missionário, um abnegado, um reformador de almas. O corno tira a vaca das ruas, das sarjetas, da vida fácil. O corno dá um lar para a puta, conserta-lhe os dentes, cura-lhe as doenças venéreas, matricula-a num supletivo para a puta aprender a ler, dá-lhe a oportunidade de se tornar uma dona de casa, uma mulher de família, até o seu sobrenome o corno dá para a puta.
Mas não tem jeito. Quem nasceu com o gene da biscatice não se emenda, não consegue passar a vida sentando em única piroca. O corno não deve se considerar um perdedor, mas deve desistir da luta. Afinal, mesmo paciência e testa de corno têm limites. 
É fazer como fez Zeca Pagodinho, é chegar para a moça tão dada e dizer : vai vadiar!
Vai Vadiar
(Zeca Pagodinho)
Eu quis te dar um grande amor
Mas você não...se acostumou
A vida de um lar
O que você quer é vadiar

Vai vadiar, vai vadiar
Vai vadiar, vai vadiar (vai vadiar)
Vai vadiar, vai vadiar
Vai vadiar, vai vadiar

Agora não precisa se preocupar
Se passares da hora
Eu não vou mais lhe buscar
Não vou mais pedir
Nem tampouco implorar
Você tem a mania de ir pra orgia
só quer vadiar
Você vai pra folia se entrar numa fria
Não vem me culpar, vai vadiar!

Vai vadiar, vai vadiar
Vai vadiar, vai vadiar (vai vadiar)
Vai vadiar, vai vadiar
Vai vadiar, vai vadiar

Quem gosta da orgia
Da noite pro dia não pode mudar
Vive outra fantasia
Não vai se acostumar
Eu errei quando tentei lhe dar um lar
Você gosta do sereno e meu mundo é pequeno
Pra lhe segurar
Vai procurar alegria
Fazer moradia na luz do luar, vai vadiar!

Vai vadiar, vai vadiar
Vai vadiar, vai vadiar
Vai vadiar, vai vadiar
Vai vadiar, vai vadiar.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

General Mourão - A Frase da Semana

"As mesmas pessoas que chamam os presidentes militares de ditadores, chamam Fidel Castro de presidente."

Punheta no Mundo Animal

Grande parte do desenvolvimento de nossa inteligência, garantem os evolucionistas, deu-se graças à aquisição de uma ferramenta até hoje única na natureza, a mão com polegar oponível ou opositor, ou seja, um dedo que se dobra em oposição aos demais, permitindo que nós, humanos, sejamos capazes de segurar e manipular objetos como nenhuma outra espécie. Nenhuma outra estrutura criada pela evolução é tão complexa e eficiente quanto a mão humana, quando o assunto é manipular objetos e, posteriormente, modificá-los.
De posse dessa inédita e exclusiva ferramenta, o Homo Sapiens se pôs a matutar sobre maneiras de como utilizá-la, começou a quebrar a cabeça para encontrar serventias para ela. E foi de tanto pensar em usos para o seu polegar oponível que o seu cérebro começou a desenvolver novos processos e caminhos cognitivos, que, assim como o polegar oponível, também são exclusivos da espécie humana.
Foi o polegar oponível que tirou o homem das cavernas e o tornou capaz de construir pirâmides, erguer e destruir impérios e chegar à Lua. Muito mais importante que todos os feitos anteriores, foi também o polegar oponível que tornou o ser humano apto a tocar a boa e velha punheta, a bronha, capacitado a descascar o inhame, descabelar o palhaço, esgoelar o bem-te-vi, depenar o sabiá, espancar o macaco, envernizar o pescoço da girafa.
Em função do ser humano ser o único animal que possui o polegar oponível, até hoje eu pensava que ele também fosse o único animal capaz do famoso cinco-contra-um, da mariquinha-maricota-com-a-direita-com-a-canhota. Afinal, imagine-se, meu amigo, tentando tocar um punhetão sem o uso de seu polegar. Pensava...
Acontece que a natureza não tem predileção por esse ou por aquele filho. A natureza não deixa seus rebentos na  mão, mesmo aqueles que nem têm mão, ou pelo menos não as têm com o salvador polegar oponível.
Várias outras espécies também desfrutam dos prazeres do onanismo, entre elas :
1) Os macacos, é claro, nossos parentes mais próximos. A punheta foi observada em mais de 80 espécies de primatas, entre macacos e lêmures. Apesar de não terem o polegar oponível, eles compensam tal ausência usando as duas mãos no ato;
2) Os golfinhos. Sim, o simpático Flipper também é chegado numa boa bronha. Na hora do aperto, eles esfregam a pistola em qualquer coisa que estiver disponível, paredes de tanques (se estão em cativeiro), outros animais, quaisquer objetos firmes que encontrem no fundo do mar etc. O golfinho, como visto, além de punheteiro também é um encoxador;
3) Os elefantes. O gracioso Dumbo não é portador apenas de uma grande tromba, ele possui também um baita dum caralhão cujos movimentos consegue controlar graças a um forte conjunto de músculos na base do saco. Assim, ele se masturba golpeando repetidamente seu pênis ereto contra a barriga;
4) As morsas, aquelas "focas" com dentões e bigodões, o Leôncio do desenho do Pica-pau. Os machos conseguem esfregar as patas dianteiras ao longo do eixo de seu pau surpreendemente grande e são capazes também de autofelação, ou seja, de pagar um boquete para eles mesmos; vai dizer que você nunca pensou nisso?;
5) Os esquilos. Os frenéticos Tico e Teco são dos maiores maníacos sexuais da natureza. Os machos se masturbam em todas as épocas do ano, mesmo na época de reprodução, quando as fêmeas estão no cio e a punheta poderia ser dispensada. Mas aí é que eles se masturbam pra valer. A bióloga Jane Waterman, da Universidade de Manitoba, no Canadá, a primeira a quantificar este comportamento, sugere que os machos que têm muitas companheiras masturbam-se imediatamente após o sexo para evitar de pegar e espalhar infecções sexualmente transmissíveis;
6) Os morcegos. Os morcegos machos, feito as morsas, também são capazes de se satisfazer com o uso da própria língua, um autoboquete, a qual também podem usar para satisfazer a fêmea. Aliás, o morcego é o único macho do reino animal que prefere quando a fêmea está menstruada. Machos de morcegos vampiros já foram flagrados dando prazer oral a machos de morcegos frugívoros e recebendo de volta, também. Não é à toa aquela velha desconfiança que recai sobre o Batman.
7) Os pinguins. O Happy Feet também não tem nada de puro e inocente. Eles se agarram a pedras, como se elas fossem uma fêmea, e realizam os mesmos movimentos de cópula, chegando a ejetar seu sêmen sobre a terra ou o gelo.
Comportamentos autoeróticos também foram observados em menor grau em alguns répteis como iguanas e tartarugas. A natureza, sem dúvida, é uma grande duma putaria.
Taí o macaquinho tocando uma, provavelmente em "homenagem" à Chita.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Pastel de Feira : A Minha Comida Japonesa Preferida

Há cerca de uma década - possivelmente um pouco menos -, de um lustro - possivelmente um pouco mais -, a cidade de Ribeirão Preto foi tomada por uma profusão de restaurantes de culinária japonesa. Só no bairro em que resido, contei oito; num trecho de pouco mais de dois quarteirões de uma rua no centro da cidade por onde passo a caminho do trabalho, mais quatro; nas páginas amarelas da lista telefônica, parei de contar quando cheguei aos cinquenta. Uma verdadeira invasão dos sabores do Sol Nascente. Um Pearl Harbor de sushis, sashimis, tempuras, shoyus e outras bombas de sódio.
Minha esposa adora comida japonesa; eu como, não é minha preferida, mas eu como, afinal, japonesa eu como de qualquer jeito. Só que não! Só que não é culinária japonesa porra nenhuma! Desafio qualquer um a encontrar um japonês no comando da cozinha de um restaraurante japonês - pelo menos aqui em Ribeirão, e acredito que isso seja extensivo ao estado de SP no geral.
Não há um único par de olhinhos puxados a fatiar postas de salmão ou a enrolar algas em rolinhos de arroz, não há um só súdito de Hirohito. Só tem cabra da peste! A culinária japonesa foi encampada, expatriou-se e naturalizou-se nordestina. Tem muito mais nordestino destrinchando e fatiando salmão e atum que fazendo sarapatel ou costurando bucho de bode. E com destreza até superior à do japonês.
Não é de surpreender. Na falta dos lendários samurais, cujos descendentes poderiam transferir a habilidade no manejo da katana de seus ancestrais para o corte de peixe e à extração cirúrgica da glândula de veneno do baiacu, temos o não menos lendário Virgulino Ferreira, o Lampião, cujos descendentes transpuseram a perícia, a ligeireza e a malandragem do manejo da peixeira, a katana da caatinga, de seus ancestrais para a precisão e a delicadeza necessárias à culinária japonesa, e dela se apropriaram. Aliás, eu duvido que algum samurai conseguisse enfrentar um ás da peixeira e sair da contenda com as tripas dentro do bucho.
Então, não há, Azarão, alguém poderá perguntar, no Brasil, a autêntica cozinha japonesa? Sim. Há. A genuína cozinha japonesa ainda resiste bravamente num último front gastronômico, num último xogunato de opsofagia : as barracas de pastel das feiras livres! O pastel de feira é a verdadeira comida japonesa. E é a minha preferida - claro que a Sabrina Satto também viria bem a calhar e seria muito bem-vinda.
Faço agora o desafio inverso : andem pelas feiras livres de SP e tentem encontrar uma única barraca de pastel que não seja chefiada por um japonês. Inclusive, eu suspeito que exista uma espécie de CRJ - um Conselho Regional de Japonês -, que obrigue a presença de pelo menos um japonês em cada barraca de pastel; o dono da barraca pode nem ser oriental, mas para obter alvará de funcionamento etc tem que pôr um japonês lá, tem que contratar um. Feito são obrigatórias, a exemplos, a presença de um farmacêutico em uma farmácia, imposta pelo CRF, mesmo que ela seja alopática e só venda às vistas de receita médica, ou a de um veterinário, conquista do CRV, em todo pet shop, ainda que lá só se venda ração, xampu e se ofereça apenas serviços de banho e tosa.
Desde já, fica a dica do Marreta para os machos que me leem : quando você estiver com o filme queimado com a digníssima esposa etc, quando a coisa não estiver boa para o seu lado, surpreenda sua companheira e limpe a sua barra, chegue pra ela e diga que vai levá-la para comer uma comida japonesa. Ela vai ficar toda empolgada, primeiro porque é moda e mulher adora moda, segundo porque restaurante japonês é caro pra caralho e mulher gosta de coisa cara, o gosto pode ser uma bosta, mas se for caro, ela come e lambe os beiços. Aí, você pega e a leva para comer um pastel na feira. Sai muito mais barato, meu amigo.
Quando estou de férias, levo sempre meu filho para comermos um belo dum pastel numa feira livre próxima de nossa casa. Há quatro barracas de pastel nessa feira, e eu já experimentei as quatro, sendo que a melhor é a mais modesta delas, uma que fica bem num dos extremos da feira, quase sem nenhum movimento, com uma japonesa e sua filha no atendimento. Excelentes pastéis. Sequinhos. Genorosos recheios. Há os clássicos e indefectíveis de carne e de queijo e também outros sabores menos usuais. Um muito bom de calabresa acebolada, um apetitoso de escarola e bacon e o insuperável e imbatível pastel de bacalhau. 
Uma delícia o bacalhau da japonesa. Molhado e suculento sem ser empapado; salgadinho na medida certa. Tem vezes que vem até com uns pentelhos no meio!
Pããããta que o pariu!!!!!
Pastel de feira, garantido, né?

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Poema Sujo

Hoje não vou nem mesmo me banhar 
Quero feder à heresia 
A esgoto lançado ao mar 
E assim devo me deixar. 
Já que não sou mesmo de nenhuma utilidade 
Pra que toda essa limpeza, 
Toda essa vaidade? 
Nada mais de polir a casca 
E o interior a se desmanchar. 
Que se igualem, pois, os dois 
Que seja tudo única sujeira 
Um único queloide. 
Já que não tenho mesmo nenhuma serventia 
Pra que tanto zelo, 
Tanta assepsia? 
Nada mais de semblante amável 
E um coração que só sabe odiar. 
Serei completo ódio 
E darei estetoscópios ao mundo 
Pra que ninguém deixe de meu ódio escutar. 
Já que não sirvo mesmo pra nada 
Pra que desalojar a imundície, 
Por que não deixar o sebo criar camada? 
Nem a remela dos olhos, hoje, vou tirar 
Vou deixar minha fedentina 
Qual grudenta serpentina 
Em seu perfume do Boticário se enroscar. 
Deixar-me criar fungo 
Crescer craca no dorso 
Leucemia em tudo que é osso 
Raspar essa minha pele de carnaval. 
E já que não sou mesmo de nenhuma função 
Pra que tanta higiene, 
Tanta dedetização? 
E esperar... 
Um motivo, 
Uma necessidade, 
Uma vida, 
Uma nova era glacial.  

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Calor na Bacurinha

Bacurinha
(Maria Alcina)
Papai ai qui calor
calor na bacurinha
calor não é na tua aiaiai pai so é na minha

Papai ai qui calor
calor na bacurinha
calor não é na tua aiaia pai so é na minha

E la de trás da minha casa tem um pezinho de limão
e la de traz da minha casa tem um pezinho de limão
essa bichinha se lava é com uma barra de sabão

Papai ai qui calor
calor na bacurinha
calor não é na tua aiaiai pai so é na minha

Papai ai qui calor
calor na bacurinha
calor não é na tua aiaia pai so é na minha

E la de trás da minha casa tem um pezinho de limão
e la de traz da minha casa tem um pezinho de limão
quem chama isso bacurinha nunca viu um fui capão

Papai ai qui calor
calor na bacurinha
calor não é na tua aiaiai pai so é na minha

E la de traz da minha casa tem um pé de muzumbe
E la de traz da minha casa tem um pé de muzumbe
eu tenho essa bacurinha e eu não do ela a você

Papai ai qui calor
calor na bacurinha
calor não é na tua aiaiai pai so é na minha

E meus amigos é cidadão todos me presti atenção
E meus amigos é cidadão todos me presti atenção
Vou pega essa porquinha e vou bota ela junto aquele
barrão


Papai ai qui calor
calor na bacurinha
calor não é na tua aiaiai pai so é na minha

E meus amigos e cidadão arreparo o meu repente
e meus colegas e cidadão arreparo o meu repente
eu tenho essa bacurinha e não do a qualquer gente

Papai ai qui calor
calor na bacurinha
calor não é na tua aiaiai pai so é na minha

Ai lá de traz da minha casa tem um pé de desencano
Ai lá de traz da minha casa tem um pé de desencano
A bichinha esta zangada e parece que tá suando

Papai ai qui calor
calor na bacurinha
calor não é na tua aiaiai pai so é na minha

Anagrama Herege

Essa eu recebi por e-mail - sim, eu ainda uso e-mails. Se algum amigo quiser falar comigo, me mandar algum recado, ou ele me telefona (telefone fixo, nunca tive celular), ou me manda um e-mail (redes sociais? um sujeito antissocial como eu?). E já fui pior. Durante os quatro anos em que morei sozinho, fora de minha cidade natal, nem telefone fixo eu tive. 
Eu só atendia por cartas, que, para quem não sabe, é uma folha de papel pautada e escrita a mão, dobrada e colocada dentro de um envelope, que é uma espécie de saquinho retangular de papel, levada a uma agência dos correios, pesada em uma balança de um prato só para que seja determinado o valor da tarifa e, finalmente, selos de valor correspondente são colados ao envelope, no lado do destinatário, que é a pesssoa a quem a carta é endereçada, e não do lado do remetente, que é quem está a enviá-la, sendo que selos são pequenas estampilhas adesivas, geralmente de papel, utilizadas para comprovar o franqueamento de objetos postais ou o pagamento de prestação de serviços postais, normalmente ilustrados com motivos de cunho artístico, histórico e cultural. Sou do tempo do "tem que ser selado, registrado, carimbado, avaliado e rotulado se quiser voar".
Como percebem, eu melhorei muito de uns tempos para cá, estou muito mais condescendente para com a espécia humana; na verdade, desisti dela.
Ao e-mail : ele consta de um anagrama muito bem sacado. Anagramas são palavras ou frases formadas pelo rearranjo das letras de outra palavra ou das palavras de outra frase. Roma e amor é um exemplo clássico de anagrama. Iracema e América, caminho e minhoca, armário e romaria, são outros exemplos.
Podem conferir, para não acharem que é embromação de ateu que não tem o que fazer da vida. Eu conferi. São as mesmas 10 letras, um "J", dois "E"s, dois "S"s, um "U", um "T", um "M", e dois "A"s. Mas sendo um  anagrama é uma via de duas mãos, uma faca de dois gumes, tanto pode servir para pregar a descrença, a secularização, como para promover o proselitismo, tanto para dizer da farsa e do vazio do mito de Cristo como para dizer que dentro de cada ateu há uma fé incubada, prontinha para se alastrar, infectá-lo de cabo a rabo.
De qualquer forma, sei lá se Jesus te ama, mas o certo é que eu não.

domingo, 9 de agosto de 2015

Pinto Brochado

Quem passa por aqui de vez em quando sabe que sou professor, que leciono para o ensino médio e blá-blá-blá. A lista com os resultados do Enem de 2014 foi publicada nesta semana e lá fui eu ver a colocação alcançada pela escola em que leciono - baixei-a na forma de uma planilha de excel, o que simplifica em muito a busca. Do total de 15.640 escolas avaliadas pelo exame, ela ocupa a 7527ª posição. Meio que no meio do ranking. Atingiu a média geral de 507,77 pontos num total de 1.000 possíveis. De novo, meio que no meio. E restringindo cada vez mais o universo de comparação, para que posições relativas (e reconfortantes para o conformismo e para a preguiça) sejam calgadas, ela ficou em 6º lugar entre as escolas públicas estaduais da cidade; fomos terceiro lugar há dois anos e quarto no ano passado.
Mesmo frente ao declínio, tendo em vista de se tratar de uma escola pública de um estado, São Paulo, cuja principal diretriz pedagógica é a promoção automática do aluno - seja ele um gênio ou um semianalfabeto -, o resultado foi considerado satisfatório pelos professores, coordenadores etc. Tendo em vista de se tratar de uma escola que, embora pública, atende a uma clientela de classe média, que come três vezes por dia, que tem sua casa digna para morar, que tem todos os dentes na boca, que é corada e bem nutrida, que tem seus tênis caros pra caralho e seus inúteis celulares de último tipo etc, eu considero que o resultado poderia ter sido bem melhor. Mas, enfim, nem é essa a questão ou o motivo desta postagem.
Acontece que eu tenho sérios problemas com rankings, as listas de classificação. Não me basta saber em que colocação está minha escola, ou a minha cidade, ou minha classificação num concurso, ou, se eu torcesse para algum, a colocação do meu time no campeonato. Quero - tenho - que saber também dos outros listados. Acho que sou uma espécie de mexeriqueiro estatístico.
Claro que não olhei cada uma das quinze mil e tantas escolas, aí já seria compulsão das brabas. Mas fui brincando com a lista na tela do computador, fui rolando-a, para cima e para baixo, aleatoriamente, uma espécie de roleta-russa de nossa miséria educacional, e lendo os resultados das escolas em que parava.
Quando, na posição de número 8.530 do ranking, sediada na cidade mineira de Unaí, surge à minha frente a E.E. Domingos Pinto Brochado. Pãããããta que o pariu! Pinto brochado! Tão de sacanagem! Pelo menos, os pais que batizaram seu rebento com a fatídica combinação de sobrenomes. Qual dos sobrenomes será o advindo da mãe? Ou o pequeno Domingos herdou o pinto brochado exclusivamente do pai, que herdou do avô, do bisavô etc? É de surpreender que os pinto brochados tenha gerado descendência.
Em idade escolar, um nome deste foi uma irremovível folha de caderno afixada às costas do menino Domingos, daquelas em que se escrevem, me chutem, passem a mão na minha bunda etc. Tá vendo só, caro Jotabê? E você se queixando do seu Botelho Pinto.
Não sei qual foi a contribuição de Domingos para seu município nem de que área ele foi emérito representante para receber a comenda de ter seu nome a estampar um estabelecimento educacional. Talvez um político, um prefeito que muito tenha trabalhado e feito pelos concidadãos, ou um médico que dedicara seus dons de esculápio aos desvalidos, ou ainda um valoroso professor.
Se for o último caso, espero que ele tenha exercido o outrora nobre ofício em priscas eras, décadas de 50, 60, no máximo 70. Hoje, um professor Pinto Brochado não aguentaria uma semana em sala de aula, com duas, ficaria louco, com três, seria afastado por depressão e síndrome do pânico, ao fim do mês, pediria exoneração.
E para o alunos da escola Pinto Brochado, então, principalmente para os meninos? Imaginem o menino, em plena adolescência, fase da afirmação de sua masculinidade (ou não), indo de casa para a escola, ou voltando da escola para casa, andando pelas ruas de Unaí a envergar orgulhoso o uniforme de sua escola, a camiseta geralmente branca com o brasão da instituição (nem quero pensar no que há desenhado no brasão) e, em letras garrafais, possivelmente azuis, escrito : Pinto Brochado. Pããããta que o pariu!!! Não há autoestima que resista! Não há psicólogo que dê conserto ao menino! Não há livro de autoajuda que o socorra.
Sou pelo tradicional. Sou a favor do uniforme obrigatório, e dos completos, sapatos, meias, calças e camisa. Sou a favor das salas serem organizadas em filas no pátio e cantarem o Hino Nacional ao início de cada dia letivo. Sou a favor do aluno ficar em pé à entrada do professor em sala de aula. Sou a favor até que lhe batam continência. Nesse caso, contudo, meu apreço pela disciplina vai para as picas. Eu não só apoiaria como também organizaria um motim contra o uso do uniforme. Consegue se imaginar a andar por aí com um Pinto Brochado estampado no peito?
Tendo isso em vista, até que a Pinto Brochado não está tão lá embaixo no ranking, não está tão "caida" assim.
Alíás, essa coisa de nomes constrangedores me lembrou de uma estória. O cara se chamava Francisco Bosta e, obviamente, não via a hora de atingir a maioridade e mudar o nome. Vinte e um anos completados, o cara correu a um cartório e foi informado de que a mudança era possível, sim. Mas havia, claro, um longo trâmite a ser seguido (e, claro, várias taxar a se pagar, que é apenas a isso que se presta a burocracia). Ele tinha que preencher um requerimento, protocolar, reconhecer firma etc etc etc e trazer duas testemunhas, convivas seus de longa data, que atestassem situações constrangedoras por ele sofridas. Porém, assim que ele preencheu o primeiro campo do requerimento, o do nome atual, o tabelião imediatamente o interrompeu. Em vista daquele Francisco Bosta, o tabelião lhe disse que, nesse caso, iria dispensar Francisco Bosta dos morosos caminhos legais, pois a necessidade, mais que isso, a urgência da mudança era inequívoca. O tabelião abriu uma gaveta à altura de seu peito e retirou o formulário final da mudança de nome, para lavrar e oficializar a nova identidade de Francisco Bosta.
- Pois não, seo Francisco Bosta, como o senhor quer passar a se chamar e a ser chamado a partir de agora? - perguntou o tabelião. 
- Pedro Bosta!

À Luz de Velório

Risque o meu nome do teu caderno.
Disque o meu número
E aguarde na linha umbilical ocupada e congestionada
Que cai no PABX do inferno.

Whisky, baby, whisky.
E como estão meu sapato, minha gravata
E meu terno?

Triste, baby, triste
São para o teu enterro.
Para um jantar romântico com teu féretro
À luz de velório.

Meu guarda-chuva.
Deem-me meu grande e hidrofóbico guarda-chuva
Que quero teu funeral de céu choroso de Hollywood.

Deem-me meu covarde e misantrópico para-raios
Que não quero que me vejam chegar
Nem sair
Que não quero watts nem volts 
Nem holofotes de atenção 
Voltados para mim.

Deem-me meu mofado, desbotado,
Confeccionado com penas de corvo,
Paraquedas
Que eu quero saltar das tuas beiras
Dos teu umbrais.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Tequila, Chicas, Tequila!

O Marreta do Azarão, sempre atento e cioso para com seu vasto, cativo e insaciável público femino, e procurando satisfazê-lo da melhor maneira dentro do possível, afinal, ei, mãe, não sou mais menino, traz agora um novo e revolucionário tratamento facial, que promete hidratar e rejuvenescer a delicada tez do sexo frágil : tequila, chicas, tequila! Ay, ay, ay!
Quem garante é Leah Crump, nutricionista, esteticista e diretora do Ocean Pearl Spa, na California (EUA). Segundo ela, uma máscara feita à base de tequila limpa, esfolia, hidrata e promove a redução dos aspectos dos poros, seja lá o que signifique isso.
E não é só o conhecimento a serviço da futilidade que exalta as propriedades da tequila, tampouco seus efeitos terapêuticos restringem-se à pele, ela deixa por fora bela a viola e também trata por dentro do pão bolorento.
Estudos realizados pelo Centro de Investigación y de Estudos Avançados, Biotecnologia e Bioquímica Irapuato, em Guanajuato, México, e apresentados à American Chemistry Society, mostram que os agavins, açúcares extraídos da planta agave, da qual é feita a tequila, têm potencial para se tornarem os melhores substitutos do açúcar comum e grandes aliados dos diabéticos. "Ao contrário da sacarose, da glicose e da frutose, os agavins não são absorvidos pelo organismo, então eles não podem elevar glicose no sangue", conclui Mercedes G. López, pesquisadora à frente do trabalho. Além de não aumentarem a taxa glicêmica per si, os agavins ainda desencadeiam a produção de insulina pelo corpo, auxiliando no controle da glicose ingerida via outros alimentos. Ricos em fibras, causam também a sensação de saciedade, reduzindo o apetite e, consequentemente, o peso. Reduzem ainda o estresse e a ansiedade. Realmente, meia garrafa de tequila e não há estresse que resista.
Confesso que não me surpreendi com as constatações científicas dos benefícios da tequila. Quem lê o blog bem sabe que várias foram as vezes em que eu me antecipei à ciência, que pela simples observação do mundo, minha mente arguta já concluiu muita coisa que o cansativo e enfadonho empirismo científico só veio a confirmar muito depois. Só para citar alguns casos :  
Eu também já sabia dos benefícios da tequila antes de ter lido essa reportagem hoje, mas devo que confessar que, nesse caso, o visionarismo não foi meu, foi de minha amiga Jota; mentes argutas são amigas de mentes argutas. Não é de hoje que Jota louva as miraculosas propriedades da tequila, que prefere consumir na forma de um estranho drink chamado submarino. E Jota não fica apenas no terreno das ideias feito eu, Jota põe as mãos à massa, é uma empírica visceral, tem fôlego de lenhador quando o assunto é ciência, ou, ao menos, quando é tequila.
Podem se fiar na Jota, meninas; e, se quiserem, também nos cientistas mexicanos. Tequila, chicas, tequila. Para ficarem hermosas, com pele viçosa e hidratada, molhadíssimas. Tequila, chicas, tequila! A tequila ainda, embora os estudos não apontem para tais resultados, aumenta também o vigor físico-muscular, melhora as articulações, proporciona sobre-humanas elasticidade e flexibilidade à mulher que entorna umas boas doses : as pernas se abrem fácil, fácil, em angulações nunca dantes imaginadas, os músculos ficam plenamente alongados e aquecidos para a hora da ginástica localizada, e bota localizada nisso.
Tequila, chicas, tequila! E viva Zapata! E as sapatas, também! E viva la revolucion! Arriba, arriba! Ai, mamacita!

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Desomenagem do Google a Adoniran Barbosa

O mundo tá cheio de elogio errado. Têm homenagens que mais prestigiariam o homenageado se não tivessem sido feitas. É o caso da prestada pelo Google aos 105 anos do nascimento de Adoniran Barbosa, nascido João Rubinato, o pai do Trem das Onze, da Saudosa Maloca, do Tiro ao Álvaro, do Samba do Arnesto, da Iracema, da Vila Esperança etc etc etc.
Vejam que merda de doodle o Google confeccionou em seu tributo.
Onde é que essa porra parece com o Adoniran? Nem aqui nem em Jaçanã!
Só o chapéu e ainda com muita boa vontade. Acho que confundiram com o Lamartine Babo.
Pããããããããta que o pariu!!!!!

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Que Fossa, Hein, Meu Chapa, Que Fossa... (31)

Todo mundo conhece a canção Grito de Alerta, um dos clássicos da fossa, aquela do "primeiro você me azucrina, me entorta a cabeça..." Muitos, acredito, até sabem que seu autor é Gonzaguinha, filho do Gonzagão.
Mas duvido que alguém saiba, e aposto uma de minhas bolas do saco nisso, em intenção de quem Gonzaguinha a compôs.
Você, meu amigo, que já embalou a dor de um pé na bunda dado por aquela ingrata ao som de Grito de Alerta, que mesmo a cantarolou baixinho à guisa de canção de ninar e anestésico para seus cotovelo e testa escalavrados, com certeza imagina que Gonzaguinha a tenha composto em situação similar à sua, em lamento a mais uma buceta que se foi.
Pois saiba que a canção que você tanto já ouviu, cantou e com cuja letra tanto se emocionou e se identificou, como se para si ela tivesse sido escrita, não foi inspirada por nenhuma buceta desertora.
Muito pelo contrário. Uma rola, meu amigo, um cacetão foi o que serviu de mote à Grito de Alerta. Gonzaguinha, filho do cabra macho e da peste Gonzagão, um boiola? Nada disso.
A ideia para a música surgiu de uma desilusão amorosa de outrem, confidenciada ao compositor por um amigo, um dos maiores intérpretes da nossa MPB, Agnaldo Timóteo - sim, você pode até torcer o nariz pro repertório do cara, para o seu temperamento explosivo e polêmico, ou para os seus posicionamentos políticos, mas que o cara canta pra caralho, canta.
O personagem que serviu de inspiração para Grito de Alerta foi Paulo César Souza, o Paulinho, frequentador assíduo e badalado da boemia gay carioca das décadas de 70 e 80, habitué da Galeria Alaska e do Posto Três, com quem Timóteo teve intenso e duradouro affair. Gonzaguinha apropriou-se de chifre alheio e compôs sozinho Grito de Alerta, cujo título foi sugerido pelo próprio Timóteo. 
Não sei quais são os aspectos técnicos e legais que configuram uma parceria musical, mas, moralmente falando, na minha opinião, Gonzaguinha deveria ter dado parceria a Timóteo em Grito de Alerta. Não deu.
E pior : não deu a Timóteo nem mesmo exclusividade de gravação de sua própria história, de sua própria dor; gravou-a ele próprio, Gonzaguinha, e também Maria Bethânia, na voz de quem a canção explodiu nas rádios da época.
Foi o que bastou para que Timóteo rodasse a baiana, soltasse seus cachorros para cima do amigo : “Eu fiquei pau da vida com o Gonzaguinha, porque aquela história era minha, eu deveria ter sido até parceiro dele na música. Eu falei: 'Puta que pariu, Gonzaguinha, então eu te conto uma história da minha cama e você dá a música para Bethania gravar!?"
Portanto, meu amigo, em cada uma das vezes que você cantou e se confortou na letra e nos acordes de Grito de Alerta, você estava era a louvar e a se aninhar na rola do Paulinho!
Isso é que é fossa, hein, meu chapa, isso é que é fossa...
Grito de Alerta
(Gonzaguinha)
Primeiro você me azucrina
Me entorta a cabeça
Me bota na boca
Um gosto amargo de fel...

Depois
Vem chorando desculpas
Assim meio pedindo
Querendo ganhar
Um bocado de mel...

Não vê que então eu me rasgo
Engasgo, engulo
Reflito e estendo a mão
E assim nossa vida
É um rio secando
As pedras cortando
E eu vou perguntando:
Até quando?...

São tantas coisinhas miúdas
Roendo, comendo
Arrasando aos poucos
Com o nosso ideal
São frases perdidas num mundo
De gritos e gestos
Num jogo de culpa
Que faz tanto mal...

Não quero a razão
Pois eu sei
O quanto estou errado
E o quanto já fiz destruir
Só sinto no ar o momento
Em que o copo está cheio
E que já não dá mais
Pra engolir...

Veja bem!
Nosso caso
É uma porta entreaberta
E eu busquei
A palavra mais certa
Vê se entende
O meu grito de alerta

Veja bem!
É o amor agitando o meu coração
Há um lado carente
Dizendo que sim
E essa vida dá gente
Gritando que não...(2x)

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Atentado a Bomba ao Instituto Lula : O Riocentro do PT?

Os comunas do nosso Brasil varonil, a malta vermelha que hoje é majoritariamente representada pelos do PT, nunca foram inimigos verdadeiros dos militares, nunca opositores de fato do regime militar.
Vermelhoides e verdes-oliva divergiam, sim, quanto à ideologia que professavam, em seu blá-blá-blá-blá, em sua conversa para boi dormir, mas nunca existiu divergência alguma quanto ao objetivo pretendido por ambos, a tomada antidemocrática do poder, nem divergência quanto à forma de mantê-lo, repressão e truculência.
Vermelhoides e verdes-oliva nunca foram rivais por pretenderem dar diferentes rumos e destinos à nação, eram simplesmente cachorros raivosos brigando desesperadamente pelo mesmo osso, e com igual intenção de o que fazer com ele.
Engana-se quem ainda se deixa levar pela conversa mole dos comunistas de que eles, lá na década de 1960, opunham-se ao regime militar por um país livre e democrático. Porra nenhuma. Os comunas morriam era de inveja do militares, queriam ter exatamente o poder que eles possuíam e que deles emanava. Nunca foi intenção dos comunas depor os militares para aqui instalar uma democracia, uma Suíça tupiniquim; queriam simplesmente substituí-los na tirania, queriam acabar com a ditadura militar para instalar uma ditadura comunista, a chamada ditadura do proletariado, aos moldes de Cuba e China. Nesse aspecto, ter evitado a cubanização do Brasil, agradeço à intervenção militar.
Por isso, repito : os comunistas nunca foram inimigos de fato dos militares, sim inimigos de ocasião. A rivalidade nunca se deu por diferenças de princípios ou de escrúpulos, mas justamente pela coincidência deles.
Inevitável : inimigos que se odeiam, mas que têm objetivos comuns, acabam por, secretamente, desenvolver certa simpatia e admiração pelo outro, acabam por se espelhar no sucesso do outro, por aprender com ele, por absorver suas táticas e estratégias.
Na sexta-feira passada (31/07), um atentado a bomba foi perpetrado contra o Instituto Lula, na cidade de São Paulo. Uma bomba caseira foi jogada de dentro de um carro e deu uma chamuscada na porta da garagem do prédio, sem baixas nem maiores danos estruturais. Como se quem jogou a bomba não quisesse realmente causar reais avarias ao prédio, como se nutrisse até certo apreço e consideração pelo que bombardeou, uma espécie de risco calculado, de um pequeno mal que se torne em um grande bem, como se confiasse que o maior poder de seu traque, de seu estalinho de salão, fosse o sentido político a ele posteriormente atribuído e não o seu real poder de concussão.
 
Avarias causadas pela bomba; à esquerda, vista externa, à direita, vista interna.

A direita, os coxinhas, a elite branca - acusarão aos gritos, às raias de um orgasmo bolchevique, os militantes da esquerda. Aí, eu me pergunto, por que a direita atentaria de forma terrorista contra o PT e sua figura maior, o sapo barbudo Lula?
O ato terrorista, o autêntico, sem querer de forma alguma justificá-lo, é um pouco que o último recurso do fraco frente ao onipotente, muitas vezes sua única forma de resistência - agir nas sombras, à covardia -, e não ação do poderoso.
Politicamente falando, ninguém se mostra atualmente mais fraco e vacilante que o governo petista; e ninguém, mais fortalecidas que as lideranças da direita, PMDB e PSDB. A direita atentar de forma terrorista contra a esquerda? O forte agir pelas costas do fraco? Chutar cachorro (quase) morto?
Impossível não traçar instantâneo e estreito paralelo com o Atentado ao Riocentro.
Em 1981, o regime militar estava mais pra lá do que pra cá, mal das pernas que só ele, em seus estertores finais. Uma ala mais moderada dos militares dera início a um lento, porém, gradual processo de abertura política e redemocratização - acho até que nem eram militares mais moderados, eram mais inteligentes e estavam cansados, apesar de ser uma de suas funções, segurar essa bucha de canhão que é o Brasil; moderados é o cacete, eles estavam é querendo se livrar dessa encrenca, mas enfim...
Então, em 30 de abril de 1981, uma ala mais radical dos militares planejou o atentado a bomba ao Pavilhão do Riocentro, local onde aconteceu um show comemorativo ao Dia do Trabalho. A ideia era jogar duas bombas nos geradores de energia, promover um apagão, acabar com a alegria do proletariado, instalar o pânico, imputar a autoria a grupos terroristas de esquerda e, assim, justificar uma nova onda de repressão aos comunas, barrar o processo de abertura política e revigorar o regime militar.
Uma das bombas até chegou a ser jogada, mas não causou o efeito esperado, deu xabu. A segunda bomba explodiu eficiente e magnificamente, porém, antes da hora, antes de ser lançada. Explodiu dentro do carro em que era transportada pelo sargento Guliherme do Rosário e pelo capitão Wilson Dias Machado. Explodiu no colo do sargento, em cima de suas bolas. O carro, um Puma GT, um dos ícones automobilísticos da década de 70 e 80, foi pro saco, deu perda total; o sargento morreu e o capitão, hoje coronel e educador no Colégio Militar de Brasília, passa muito bem e obrigado.
Os militares tentaram ainda colocar a culpa nos comunas, mas a história não colou e o atentado, ao contrário de fortalecer o regime, só serviu para intensificar sua queda.
Hoje, quem está mais pra lá do que pra cá, mal das pernas pra caralho, em seus esgares finais, é o governo do PT. Será essa bomba chinfrim um simulacro do atentado ao Riocentro para que à direita seja atribuída a culpa e o comuna possa encarnar o papel que melhor representa, o de vítima? Terá um militante de esquerda - a mando de partidos ou em ação solitária e quixotesca - lançado a bomba para mostrar que a direita não dorme nem descansa, que a elite branca está prestes a cravar de novo (isso lá na visão deles) seus dentes na jugular do pobre povo brasileiro, e conclamar a população à necessidade de um novo mandato de Lula? Ou terá sido tão somente um cidadão descontente com o preço da cebola e do álcool combustível? Pode ainda ter sido mesmo a direita a lançar a tal bomba com a intenção de que pensem que foi alguém da esquerda com o objetivo de botar a culpa na direita, mas aí já é conspiração demais para o meu gosto.
Claro que não posso e nem estou a afirmar nada, nem que tenha sido a direita nem que tenha sido a esquerda. Mas que posso desconfiar, fazer conjecturas, isso eu posso.

Oxota : Para Abrir e Cair de Boca

Reza a lenda que os holandeses e os alemães são os maiores especialistas em cerveja do planeta, que suas formulações de água, lúpulo e malte são receitas secretas que remontam o tempo dos alquimistas, imbatíveis, verdadeiros elixires da longa vida.
Mentira! Como toda lenda. Ou, ao menos, um puta dum exagero.
Os russos são quem mais entendem de cerveja no mundo. Vodka? Fazem só para passar o tempo. Vodka? Apenas um produto de exportação para turistas otários. É em cerveja que os russos são os fodões, pelo menos em cerveja de macho.
Eis a Oxota russa, de tons avermelhados, como eu sempre pensei que realmente fosse. Imagine, caro amigo apreciador do produto, uma Oxota toda suadinha, praticamente escorregando por nossas mãos. E a Oxota não é mesmo para viadinhos degustadores de cervejas artesanais : ela tem 8% de graduação alcoólica, praticamente o dobro das aguadas pilsens brasileiras, que ficam em torno de 4%, 4,5%. É para tomar um porre de oxota. Levantar com ressaca de oxota. Acordar com o gosto de oxota na boca. Oxota é para abrir e cair de boca. Deixar correr pelos cantos da boca. Tomar direto no gargalo.

Tá tudo dominado: universidades federais oferecem cursos gratuitos para invasores do MST

Da coluna de Rodrigo Constantino
Não é fácil acordar domingo com uma notícia dessas. Às vezes fico na dúvida se meus leitores gostam mesmo de mim ou se são sádicos. Uma leitora me mandou a seguinte notícia: UFPE vai oferecer cursos de graduação a jovens do campo. Aí você pensa que são cursos para agricultores, para os filhos dos pequenos produtores rurais que dão duro para tocar honestamente seus negócios. Mas não é nada disso! É molezinha com dinheiro público para invasores do MST mesmo:
A UFPE está construindo com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) o projeto pedagógico de cursos de graduação a serem oferecidos pela Universidade a jovens do campo ligados ao MST, com recursos do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), nas áreas de Medicina e Pedagogia, no Centro Acadêmico do Agreste (CAA).
No último dia 23, o reitor Anísio Brasileiro esteve reunido com Jaime Amorim e outras lideranças do MST, na Fazenda Normandia, na Rodovia BR-104, em Caruaru, que hoje é considerada o símbolo da luta pela terra em Pernambuco. Na fazenda, funciona um núcleo de formação de professores para o campo. “Fizemos a visita para dar continuidade à construção do projeto pedagógico de turmas de graduação a serem oferecidas pela UFPE a jovens do campo e também fortalecer nossas relações com os movimentos sociais”, destacou o reitor, acrescentando que há interesse do MST também em turmas do curso do Direito.
Reitor da UFPE e líderes do MST: claro que a toalha tinha que ser vermelha!
“Nosso interesse é ajudar a fortalecer a identidade dos jovens que moram no campo”, disse Anísio Brasileiro, que participou também, no dia 23, em Caruaru, na sede da Fafica, do Seminário de Conclusão do Curso de Aperfeiçoamento em Educação do Campo para Professores (as) de escolas Multisseriadas do Campo, promovido pelo Núcleo de Pesquisa, Extensão e Formação em Educação do Campo (Nupefec), do Centro Acadêmico do Agreste da UFPE. O seminário foi coordenado pela professora Iranete Lima.
O reitor destacou ainda que a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proexc) vai realizar evento, que acontecerá até o final do ano, sobre a cultura e a juventude do campo, bem como projetos na área de agricultura familiar. Há interesse de que a Universidade e o Hospital das Clínicas possam adquirir produtos oriundos destes grupos sociais.
Identidade? Cultura? Repararam nos termos usados? Falar em conhecimento objetivo, em formar médicos de verdade, isso é coisa para quem ainda não viu a luz que foi acendida por Paulo Freire. E a pedagogia? Nada mais adequado: esses jovens invasores serão os professores de amanhã, para produzir invasores em massa, defensores da “reforma agrária” nos moldes do Zimbábue. Tudo pago com o nosso dinheiro!
Não basta a UFRJ, por exemplo, ter um reitor comunista que veste, literalmente, o boné do MST. Não basta o próprio MST ter um programa de “ensino” para os “sem-terrinha” que os deforma na mentalidade marxista desde cedo. É preciso fechar parcerias entre as universidades federais e os criminosos do MST, que levam o terror para o setor agrícola, que defendem um modelo ultrapassado de reforma agrária, que se julgam acima das leis para invadir e pilhar.
Essas pessoas vão ter privilégios em nossas universidades federais. Você nem sabia. Só tem que pagar a conta. E depois louvar Paulo Freire, o “patrono” da “educação” brasileira…
Rodrigo Constantino