quarta-feira, 27 de julho de 2016

Pequeno Conto Noturno (65)

Duas horas da manhã. Rubens pega a penúltima lata de cerveja na geladeira e vai verificar sua caixa de e-mails. Sim, Rubens tem lá o seu antigo e-mail, não é um completo homem das cavernas, embora considere que será justamente toda essa tecnologia que levará o homem de volta às cavernas, mas isso é outra estória.
Rubens não abre seus e-mails todos os dias. Uma vez por semana, quando muito. Sendo mais frequente a cada duas. E o e-mail de Rubens é igual à sua caixa de correio real : ou está vazio, ou repleto de propagandas. Se abre seus e-mails agora, é na espera da resposta de uma provocação feita a um velho amigo velho. A resposta do amigo não está lá.
Quatro mensagens de Yrina, sim. Depois de o quê, cinco, seis anos?
Na primeira, enviada às 22:43 h, Yrina diz que está por perto do apartamento de Rubens, que conseguiu um álibi e toda uma conjuntura de fatores favorável a uma pequena, rápida e clandestina incursão noturna, tomarem uma gelada juntos, dentro do carro, pelos velhos tempos, e informa o endereço da loja de conveniência onde se encontra no aguardo de Rubens; na segunda mensagem, às 23:01 h, apenas 15 minutos depois, Yrina diz já se sentir uma idiota, sentada dentro do carro, tomando as cervejas que queria tomar com ele; na terceira, às 23:19 h, Yrina diz que está em outro lugar, comendo algo para ir embora; na quarta e derradeira, às 23:44 h, Yrina diz que não entende o que fez de errado para que Rubens a tenha ignorado dessa forma, se mostra ofendida, machucada, ultrajada pelo "bolo" que levara de Rubens.
Rubens conhece Yrina. Ela dirá que ele a tratou com desdém, que fez pouco caso dela, que até riu com escárnio de sua vã espera. Tratante, ela dirá.
Rubens não tratara nem combinara nada com Yrina. Nem ao menos falara com ela. Há tempos que não.
E então, numa bela noite, Yrina, que sempre foi de grandes sumiços e de grandes urgências, consegue um perfeito alinhamento planetário para um reencontro, consegue um álibi para um crime quase perfeito, uma brecha no espaço-tempo, vistas as horas dos e-mails, de pouco mais de uma hora e se sente ofendida pela ausência dele?, pensa Rubens.
Uma fugaz e estreita fenda de coordenadas indefinidas entre o real e o Sonhar e Rubens tinha de estar ali, bem na hora, ao lado da fenda?
Yrina deve pensar que Rubens é feito a massa de idiotas que habita o planeta, que vive 24 h por dia conectado a e-mails, a redes sociais e outras coleiras eletrônicas. Deve pensar, não; Yrina deve se esquecer, pois sabe da alergia de Rubens a tais traquitanas.
Yrina dera sorte, de certa forma. Não fosse a espera de Rubens pela resposta do amigo, as mensagens de Yrina poderiam ter ficado lá perdidas por mais uma semana, ou duas, sem serem lidas. Foram lidas no mesmo dia, ainda que não a tempo.
Yrina dirá que Rubens é covarde e cagão.
Muitas vezes, pensa Rubens, o que chamamos de covardia nada mais é do que a ausência de um bom álibi, e a tão vangloriada coragem, uma mão de pôquer cheia deles.
Rubens não está sozinho nos últimos tempos. Virna reapareceu há mais de ano e não dá mostras de querer partir. Nem Rubens de lhe tomar a chave da porta da frente, ou a gaveta em que ela guarda suas calcinhas. Há as aporrinhações da vida a dois, assente Rubens, mas ele tem dormido mais, tem bebido menos.
Ainda que Rubens tivesse lido os e-mails a tempo, não teria ido ao encontro de Yrina. Não teria um álibi.
Ainda que tivesse um álibi, ou que forjasse um de última hora, que dissesse, por exemplo, que tinha perdido o sono e precisava sair para uma caminhada em busca de mais bebida, álibi que pareceria dos mais consistentes para Virna, não teria ido ao encontro de Yrina.
Rubens não tem mais disposição, paciência, estômago, ou chamem do que quiserem, para véus e escamoteios, para jogar jogos de estratégia, para brincar de esconde-esconde.
Ainda que tivesse lido os e-mails em tempo, que tivesse ou forjasse um bom álibi, que decidisse, nem que por puro saudosismo, reviver seus tempos de 007, de disfarces e vidas duplas, não teria ido ao encontro de Yrina.
Virna tinha procurado por Rubens duas vezes hoje - deve estar ovulando - e o velho pau bem correspondeu em ambas. Nenhum homem que tenha dado duas boas fodas em um dia tem o que fazer na rua, de madrugada. Nada tira um homem de pau mole de dentro de casa.
Rubens fecha os e-mails, desliga o computador, pega a última lata na geladeira e vai tomá-la na sacada escura. Rubens entende a decepção, a frustração e mesmo a possível ira de Yrina, mas não compartilha delas. Podemos controlar os sonhos, não a realidade. Querer forçar a realidade à bitola de nossos trilhos é, geralmente, destroçar sonhos, fazê-los descarrilar.
Rubens é  um homem velho. Cansado. Se sabe velho e cansado. Não nutre revolta contra isso. Nem inúteis saudosismos. Não tem mais estrelas nos olhos nem jeito de herói, não é mais forte nem veloz. Aceita placidamente tudo isso. É mais fácil viver assim.
Rubens é um homem pesado de tempo. Rubens é o que o tempo fez dele. Dá o último gole em homenagem a isso e vai se deitar.

terça-feira, 26 de julho de 2016

A Preguiça é a Mãe de Todos os Pecados

Recebi esse vídeo por e-mail do meu amigo Margá. A distinta donzela que o protagoniza reclama, pelo visto, da atual geração de homens de nosso Brasil dantes varonil, hoje mais para metrossexual. Com uma educação suíça, a virginal querelante se queixa da preguiça dos homens em realizarem um serviço completo. E ela está coberta de razão. Concordo com cada uma das polidas e galantes palavras dela. É uma verdadeira lady.
Pois isso não aconteceria se ela, e toda essa geração de jovens mulheres mal servidas pelos atuais frouxos que se depilam, tiram sobrancelha, vão à manicure etc, procurassem pelo verdadeiro macho, recorressem aos préstimos do macho das antigas.
O macho das antigas não tem preguiça nem nojinho de nada, nem de pelo, nem de menstruação, nem de resto de merda seca nos cabelinhos do cu. Mija que eu bebo, peida que eu trago, é o lema do macho das antigas.
A queixa da moça me fez lembrar de uma antiga piada. Uma moça se casou com o genro que toda sogra queria ter, rapaz bonito, educado, loiro, rico etc etc. Preocupada com a boa consumação do casamento e com o sucesso da lua-de-mel do casal, a mãe combinou com um código com a filha : para cada pistolada que o marido lhe desse no dia, ela mandaria um whatsapp dizendo, o fulano comeu um bife, o fulano comeu dois bifes e assim por diante. Ao fim do primeiro dia, a mensagem da filha : o fulano não comeu nenhum bife. A mãe procurou entender, o estresse do casamento, o cansaço da viagem. No segundo dia, nenhum bife. No terceiro, nenhum bife. Aí, a mãe não aguentou e respondeu : assim não dá  minha filha, esse rapaz tem algum problema, o seu pai tá com mais de 50 anos e ainda ontem comeu dois bifes, uma rabada e ainda lambeu a frigideira.
Pããããããta que o pariu!!!!
Preguiça e nojinho na cama, meninos? Não me decepcionem.

domingo, 24 de julho de 2016

As Boas e Baratas do Chile (3)

A gripe continua, companheiro. Deve ser alguma cepa milenar, das brabas, há muito soterrada nos Andes e que agora, com o aquecimento global e o degelo, aflorou novamente.
Eis a medalha de bronze no pódio do Azarão das cervejas boas e baratas, a Becker Grado 7. Que, como o próprio nome indica, tem um teor alcoólico de 7%,  um pouco maior que os usuais 4% ou 5% da maioria das cervejas.

sábado, 23 de julho de 2016

Mimetismos (23)

Zoofilia é perversão já ultrapassada e cafona. Démodé. O moleque que passa a vara na galinha, na cadela ou na cabritinha e a madame que vive com o seu doberman, dogue alemão ou rottweiler sempre a reboque, engatado na xereca, ou que se lambuza na porra de um cavalo, não impressionam nem escandalizam mais ninguém.
A tendência entre os depravados agora é a fitofilia, o tesão em vegetais, especificamente no fruto, mais especificamente ainda na masturbação do fruto. E não é usar um fruto pra se masturbar, não. É masturbar o fruto. Tocar uma siririca para um figo, um morango, um melão, um limão siciliano, um pêssego etc.
A guru espiritual desse novo fetiche é a "artista" Stephanie Sarley. Ela diz que seu trabalho - que foi temporariamente censurado pelo instagram, plataforma onde ela o exibe - tem como objetivo discutir o tabu em torno da masturbação feminina e guiar a mulher na trilha do próprio prazer, ou seja, ensinar a mulherada a siriricar.
Porra nenhuma! Desculpa de tarado! Puro pretexto para dar vazão à sua pulsão sexual esdrúxula e ainda passar por intelectual, por "cabeça", por artista de vanguarda e engajada nas questões femininas.
Ninguém precisa ensinar ninguém a se masturbar. É instintivo. Na hora em que os hormônios borbulham e em que a coisa - tanto faz se o pau ou a xereca - começa a coçar, a pessoa leva a mão até lá. Aí, se o que ela encontrar for o suficiente para encher a mão, é um pinto, e o moleque toca uma bronha; se o que ela encontrar puder ser acomodado entre o polegar e o indicador, é um grelo (ou um japonês), e a moça dedilha uma siririca, toca uma campainha.
Se bem que a tara de Stephanie Sarley tem lá seus fundamentos. O fruto nada mais é que o ovário da planta, que se desenvolve, se espessa, ganha sumo e substância depois que seus óvulos são fecundados pelos grãos de pólen, para bem acolher e acomodar os embriõenzinhos contidos nas sementes, da mesma maneira que o endométrio uterino ganha tecidos e se torna mais espesso e vascularizado para abrigar o embrião humano.
Stephanie Sarley está é a fazer cosquinha, um cafuné, no útero das plantas. Pããããta que o pariu!!!
Mas se Stephanie Sarley pensa que está na dianteira dessa putaria toda, está redondamente enganada, pois, quando o assunto é putaria, quando a lição é de esculacho, olha aí, sai de baixo, o brasileiro é professor, ninguém nos supera.
O falecido ator Cláudio Cavalcanti, no filme Contos Eróticos, de 1977, há quarenta anos, portanto, no auge da pornochanchada brasileira, ficou nacionalmente célebre por uma cena de fitofilia explícita. Cláudio Cavalcanti enterrou a rola numa melancia. Que brasileiro gosta é de fartura, de sustança, não se contenta com uns moranguinhos.
O próximo desdobramento dessa nova libertinagem será as Sociedades Protetoras dos Animais criarem um braço, uma ramificação para proteger os direitos que cada vegetal deve ter sobre o seu próprio corpo, defender as frutinhas dessa exploração sexual; em pouco tempo, exportar frutos será declarado tráfico de escravos sexuais e os horticultores, acusados de aliciamento de indefesos.
As feministas - acharam que elas ficariam fora dessa? - declararão que cada vegetariano ou apreciador de frutas é um estuprador em potencial. Pããããta que o pariu!!!! E logo, logo, organizarão a Marcha das Frutas Vadias, ao longo da qual as drupas, as bagas, as infrutescências e os pseudofrutos (uma espécie de LGBTs do reino vegetal, parece mas não são) clamarão pelo direito de se expor nos hortifrutis e nos varejões do jeito que vieram ao mundo, sem nenhuma embalagem, brilhantes, sedosos, reluzentes e suculentos, sem que sejam taxados de putas ou de promíscuas.
O pináculo da Marcha das Frutas Vadias será o discurso de fechamento de sua organizadora, a Banana, claramente uma sapatão. Aliás, a banana é a personificação (ou a frutificação?) da feminista de sovacos e pernas cabeludos, peitos caídos e grelo de 15 cm; a banana não precisa ser polinizada para produzir seus frutos, não precisa ser fecundada, os produz por um processo chamado partenocarpia, a banana é uma espécie de Virgem Maria do reino vegetal. Não é esse o ideal de vida de toda feminista? Gerar seus filhos - filhas, de preferência, pois não querem se arriscar a ter um estuprador em potencial dentro de suas próprias casas, a mamar em seus peitos - sem levar uma carga de porra, seja direto da rola ou de uma micropipeta, seja na buça ou numa placa de Petri?
Voltando : em seu discurso, a Banana sairá em defesa e em resgate da honra da Maçã, a fruta mais perseguida e injustiçada historicamente, irá cobrar em altos berros a dívida histórica que o cristianismo e toda a sociedade machista opressora tem para com a Maçã, desde o Gênesis vista como o fruto do pecado, por ter seduzido Adão e o levado a desobedecer o Todo-Poderoso. Um caso clássico de imputar à vítima a culpa pela violência sofrida, concluirá e encerrará o seu discurso, sob aplausos e ovações da plateia, a Banana.
Pãããããta que o pariu!!!

em tempo : mas a verdade é que, de hoje em diante, eu nunca mais olharei para um figo da mesma maneira; não é que ele, longitudinalmente cortado, parece mesmo uma fedegosa peludinha? Do jeito que eu gosto.

As Boas e Baratas do Chile (2)

Viajar é bem mais que se expor ao contágio de novos conhecimentos e de diferentes culturas. Muito mais, infinitamente mais. Viajar é, antes de tudo, expor-se ao contágio de diferentes cepas de vírus, contra as quais nosso organismo não tem seus exércitos de prontidão.
Se eu adquiri novos conhecimentos em minha viagem ao Chile? Muito provavelmente não. Mas que peguei uma boa duma gripe, isso eu peguei. Estou um caco há dois dias. Peguei uma boa duma cepa de influenza por lá.
Ainda se tivesse pego uma boa duma bucepa... mas, enfim, aí está a medalha de prata no pódio do Azarão das cervejas boas e baratas do Chile, a Cristal. É de coloração bem mais clara e de paladar bem mais leve que a campeã Escudo, parecida com a nossa Subzero.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Artistas Petistas Picam a Mula Após Comprovação de que Dilma se Elegeu com Dinheiro Roubado da Petrobrás

Taí a canalhada artística brasileira, a "intelectualidade" tupiniquim de esquerda, preocupadíssimos em defender as questões e as mazelas sociais do país, mas só, é claro, se pintar um dinheirinho do governo, dos impostos do contribuinte de direita, pois esquerdista não trabalha, não contribui, é tudo encostado filho da puta, só mamam nas tetas do erário público, só vivem de bolsas, cotas e lei Rouanet. 
Taí a nata vermelha da inteligência brasileira, sempre dispostos a levantar as bandeiras das causas sociais, mas só, é lógico, se pintar um "incentivo" cultural ou sobrar um cargo público - de preferência, um ministério -, um cabidão de emprego, uma sinecura, para eles próprios, ou para algum parente ou apadrinhado.
Mas agora a fonte secou pros vermelhoides filhos das putas. A casa caiu para o PT. E quando o barco afunda, a gente já sabe, os ratos são os primeiros a abandoná-lo. 
Sumiram os "artistas" que tanto defendiam a Dilma e o PT. Não só sumiram como também não vieram a público dar a cara para bater, para assumir que erraram em ajudar a quadrilha do PT se eleger e dilapidar o país durante 13 anos. Nenhum deles teve - e jamais terá - a hombridade para admitir a cagada e pedir desculpas à população por ter promovido bandidos. A não ser que não achem que erraram, a não ser que sejam simpatizantes e coniventes com a roubalheira do PT, o que me parece mais provável
O texto que publico a seguir é do ótimo site Manchette, recomendo.


Artistas Petistas Somem Após Comprovação de que Dilma se Elegeu com Dinheiro Roubado da Petrobrás
"Já faz um bom tempo que um conhecido grupo de artistas que defendia o governo Dilma na TV, nas redes sociais e nos palanques petistas não dá as caras. Os artistas simpáticos ao PT recebiam dinheiro do contribuinte para ajudar a influenciar a opinião pública não apenas em épocas de eleições, mas também nos momentos de crise, como durante as revelações da Operação Lava Jato e nos dias que antecederam a votação do impeachment de Dilma na Câmara.
Os artistas usavam a projeção nacional para  induzir que incontáveis seguidores formassem opinião positiva sobre o governo mais corrupto que já existiu na história do país. É claro que nenhuma dessas figuras agiu por questões ideológicas, mas sim em troca de contratos com o governo federal. Todos eles fizeram parte de campanhas publicitárias do governo, receberam apoios culturais, incentivos fiscais e até fizeram parte da administração federal, como foi o caso da irmã de Chico Buarque e do marido de Marieta Severo. Embora nada do que fizeram possa ser ilegal, abusam ao subestimar a inteligência da população. Na maior cara de pau.
O problema é que, na medida em que as denúncias de corrupção envolvendo o ex-presidente Lula e a presidente afastada, Dilma Rousseff, muitos destes artistas começaram a evitar falar sobre política. Praticamente todos aqueles que apoiavam o governo corrupto do PT sumiram.
Nenhum deles veio à público explicar o fato de Dilma ter sido eleita com dinheiro roubado da Petrobras, conforme foi relatado por João Santana e Mônica Moura, o casal de marqueteiros do PT, durante depoimento ao juiz Sérgio Moro na última quinta-feira."

quinta-feira, 21 de julho de 2016

As Boas e Baratas do Chile

Ciências, esportes, artes plásticas, literatura, música, cinema, teatro, arquitetura, gastronomia, artesanato, história dos povos, religiões e mitologias, folclore... Todas, sem exceção, atividades humanas supervalorizadas, superestimadas. Superfaturadas, eu diria, até.
Exemplos pernósticos, todas elas, da vaca que lambe e admira a própria cria. O ser humano é a única espécie capaz - e que perde tempo com - de se gabar de suas realizações. A única espécie à qual a Evolução legou o gene do pedantismo. A única espécie capaz de se dobrar e de se contorcer e chupar o próprio pau. E como o ser humano gosta de fazê-lo.
Quando um atleta recebe o ouro olímpico, ou um escritor é laureado com o Prêmio Nobel, ou é atribuída uma cifra de milhões de dólares a uma tela, o que o ser humano está a fazer é isso : chupando o próprio pau. Cada láurea, medalha ou condecoração, uma chupada no próprio pau, uma autofelação.
Quem estabelece que tais manifestações do intelecto humano têm assim tanto valor ou expressividade, a ponto de alguns receberem o rótulo de mestres da pintura ou da literatura universal? Os próprios humanos! É o próprio ser humano quem atribui valores aos seus feitos. Portanto, desconfie. Somos uma espécie autochupadora de rola.
E de todas as atividades humanas, uma das mais superfaturadas : viajar a passeio; pois subentende-se que essa coloque o turista em contato com todas as outras atividades supracitadas - cultura, folclore etc - do local em que ele aportará. 
Viajar seria o vetor que carregaria o vírus de novas informações e aprendizados, que nos inocularia com inéditos e surpreendentes conhecimentos, que nos contaminaria com diferentes culturas, que nos infectaria da enorme diversidade humana, expandindo, inclusive, nossas míopes visões e nossos tacanhos horizontes, nos tornando mais sensíveis e tolerantes às diferenças. Viajar seria o Aedes aegypti de novos conhecimentos. O chupança de uma maior ilustração.
Viajar, na cartilha decorada pelos inteligentinhos sensíveis e corretos, seria um modo lúdico de tomar contato e assimilar os hábitos e costumes de outros povos. Ninguém, dizem tais inteligentinhos, volta o mesmo de uma viagem.
O caralho! Lúdico é o caralho! Balela pura. Falácia da mais bem montadas pela enorme indústria mundial do turismo, viajar é uma arapuca para escalpelar turistas. Turista, teu nome é otário. Ninguém aprende porra nenhuma viajando.
Ninguém que passe uma semana nessa ou naquela cidade, naquele ou naqueloutro país, aprende sobre a maneira de viver dos nativos dali. A não ser que se considere como um grande aprendizado passar intermináveis e fastidiosas horas fazendo check-in e check-out em aeroportos, verificando reservas em saguões de hotel, passando outras tantas e tão insuportáveis horas dentro de vans entulhadas de turistas barulhentos para visitar pontos turísticos predeterminados e maquiados para a apreciação boquiaberta e para a selfie dos visitantes, e, para finalizar, e para ajudar na preservação da cultura local, sim, todo turista é politicamente correto, comprando souvenirs do artesanato local para dar de presente para a parentada.
O sujeito compra uma estatueta de barro tosca para enfeitar a sua estante e um tapete rústico para pendurar na parede e já se considera um especialista na cultura inca, maia ou asteca.
Não importa a cidade ou o país, não importa se litoral ou montanha, se metrópole ou rincão, todo destino turístico se resume a hotéis, restaurantes típicos, cafés, cartões-postais e lojas de artesanato local. Não tem nada de aprendizado nisso.
Quer aprender realmente sobre os usos e costumes de um povo? Deixe isso a cargo dos viajantes profissionais, dos documentaristas. Quer aprender sobre as diferenças e particularidades de outra nação ou cultura humana? Assista a um bom documentário do Discovery, da BBC, ou mesmo do Globo Repórter. Faça isso da comodidade do sofá de sua casa, confortavelmente, bebendo uma cerveja. E o melhor : evitando todo e qualquer, e sempre desagradável, contato humano. Isso, sim, é uma forma lúdica de aprender, sem o povão por perto.
Não sou fã de viagens. Não gosto de sair de casa nem para ir ao mercado. Vinte ou trinta quilômetros de distância, para mim, já é praticamente uma aventura de Júlio Verne a bordo de um balão, ou do Nautilus.
Por mim, não viajava; ou raramente o faria - somente nas passagens do cometa Halley pela Terra. Porém... acabo por viajar amiúde. Então, como diz o outro, uma vez no inferno, o negócio é abraçar o capeta; eu tento relaxar e gozar. 
Também me lanço à pesquisa e ao aprendizado de elementos da cultura local. Óbvio que eu quero que o folclore de um povo se foda, sua dança, sua música, sua culinária, idem e ibidem
Quando viajo, faço um trabalho de arqueólogo  para descobrir e desenterrar as cervejas locais. Mas nada das afrescalhadas cervejas artesanais, que viadagem é igual em qualquer lugar do planeta, que a rosca frouxa é globalizada. Me interesso pelas cervejas de macho, me aprofundo no estudo das boas e baratas - essas representam os verdadeiros e cotidianos hábitos de um povo, não são cenografia nem macumba pra turista.
Em minha estada no Chile, depois de muita dedicação e muito afinco, elegi o meu pódio das boas e baratas, cujas estampas aqui apresentarei a partir de agora. São cervejas de preços equivalentes às nossas Bavarias, Schin, Subzero, Crystal etc.
E começo com a medalha de ouro do meu pódio das boas e baratas chilenas, a cerveja Escudo, do tipo lager. É cerveja forte e incorpada, de pedreiro, como se costumava dizer antigamente, daquelas que dão uma caganeira desgraçada no dia seguinte, o que, na verdade, até que é bom, pois limpa os intestinos da indigesta e entupitiva culinária local.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

O Dia do Amigo

Hoje é o Dia do Amigo. Esta postagem vai, portanto, para meus amigos de décadas, o Leitinho, o Marcellão, o Fernandão e o Margá, que apesar de petista - e chupetista -, também é meu amigo.
Mas aqui não tem sentimentalismo barato nem pieguice de "amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração", nem de "você meu amigo de fé, meu irmão camarada, amigo de tantos caminhos, de tantas jornadas".
Aqui a amizade é coisa de macho. Aqui o poeta é o abestado Tiririca!
Ele é Corno, Mas é Meu Amigo
(Tiririca)
Amizade é a melhor coisa do mundo
Num amigo de verdade não se vê defeito
Como disse o poeta
O amigo é pra se guardar no lado esquerdo do peito

Amizade é a melhor coisa do mundo
Num amigo de verdade não se vê defeito
Como disse o poeta
O amigo é pra se guardar no lado esquerdo do peito

Ele é corno, mas é meu amigo
Ele é viado, mas é meu amigo
Ele é baitola, mas é meu amigo
Ele pode ter defeitos, mas é meu amigo

Ele é corno, mas é meu amigo
Ele é viado, mas é meu amigo
Queima a arruela, mas é meu amigo
Ele pode ter defeitos, mas é meu amigo

Um amigo é pra acudir o outro
Eu tô aqui pra acudir você
Um amigo com defeitos é pouco
Se o amigo é de verdade defeitos nele não vê

Um amigo é pra acudir o outro
Eu tô aqui pra acudir você
Um amigo com defeitos é pouco
Se o amigo é de verdade defeitos nele não vê

Ele é corno, mas é meu amigo
Ele é viado, mas é meu amigo
Ele é briguento, mas é meu amigo
Pode ser fofoqueiro, mas é meu amigo

Ele é corno, mas é meu amigo
Ele é viado, mas é meu amigo
Queima a arruela, mas é meu amigo
Ele pode ser briguento, mas é meu amigo

Eu acho o seguinte
Eu acho que tirando todos os defeitos
Ele é uma pessoa excelente!

Um amigo é pra acudir o outro
Eu tô aqui pra acudir você
Um amigo com defeitos é pouco
Se o amigo é de verdade defeitos nele não vê

Um amigo é pra acudir o outro
Eu tô aqui pra acudir você
Um amigo com defeitos é pouco
Se o amigo é de verdade defeitos nele não vê

Ele é corno, mas é meu amigo
Ele é viado, mas é meu amigo
Ele é ladrão, mas é meu amigo
Ele pode ter defeitos, mas é meu amigo

Ele é corno, mas é meu amigo
Ele é viado, mas é meu amigo
Queima a arruela, mas é meu amigo
Ele pode ser briguento, mas é meu amigo

Olha, não importa o que ele seja
Ele pode ser tudo que não presta
O importante é que ele é meu amigo
Eu não tô nem aí pro que falam

Ele é corno, mas é meu amigo
Ele é viado, mas é meu amigo
Queima a arruela, mas é meu amigo
Ele pode ser briguento, mas é meu amigo

Ele é corno, mas é meu amigo
É fofoqueiro, mas é meu amigo
Ele é viado, mas é meu amigo
Ele pode ser briguento, mas é meu amigo

Não importa o que ele seja
O importante é que ele é meu amigo
E eu tenho ele no meu coraçãozinho
E é dele, também, o aforisma máximo : "Se tem uma coisa que acaba com o meu dia, é a noite"

Em tempo : logo, logo, talvez ainda hoje, no máximo, amanhã, volto com textos inéditos; é que viajei, e viajar acaba com minha paciência, sempre preciso de um tempo para descansar das férias... pãããããta que o pariu!!!!

O Dia da Amiga

Velhos Amigos
(Oswaldo Montenegro)
Velhos amigos vão sempre se encontrar
Seja onde for, seja em qualquer lugar
O mundo é pequeno, o tempo é invenção
Que o amor desfaz na tua mão

Nada passou, nada ficará
Nada se perde, nada vai se achar
Põe nosso nome na planta do jardim
Vivo em você e você dorme em mim

E quando eu olho pro imenso azul do mar
Ouço teu riso e penso: onde é que está?
A nossa planta o vento não desfez
É nunca mais, mas é mais uma vez

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Eu Voltei, Agora pra Ficar

Voltei. Podem voltar com os comentários, com os elogios, com as críticas, com as pragas e as maldições, com as ameaças de morte, com as juras de amor e com as oferendas de buceta.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Dia Internacional do Orgulho Heterossexual

Aqui não tem nada de orgulho de ter a rosca frouxa, de ter tesão na argola. Aqui o orgulho é de ter o pau ereto e em riste e farejando uma buceta, uma cobra naja a tocaiar sua caça. Aqui o orgulho é de cair de boca num bom xavascão peludo e ir dormir com o bigode cheiroso.
Aqui não tem nada de orgulho de fazer as unhas e as cutículas (aliás, o que é isso, cutícula?), de passar creminhos hidratantes e antirrugas na cara, de tingir os cabelos brancos, de depilar pernas, tórax e saco e cu, de ter barriga tanquinho desenhada em academia em frente ao espelho junto com outros baitolas.
Aqui o orgulho é de ter a cara rústica e marcada, o nariz cheio de cravos, a barba malfeita, ou nem feita, toda desgrenhada, que isso de ir a barbeiro para aparar a barbinha também não é coisa de homem que é homem, orgulho de lavar o cabelo só com sabonete, com sabão em pedra de preferência, de cortar as unhas com trim, ou, melhor ainda, com o canivete de picar fumo, e limpar os cantos com palito de dentes, de ter suvacos, pernas, saco e cu peludos, de ter uma barriga que sirva para apoiador de copo.
Aqui não é a terra do Bambi. É o pântano do Shrek.
Aqui, o orgulho é de ser macho que gosta de fêmea. Pode até parecer um pouco de viadagem, isso de Dia do Orgulho Hetero, mas não. É uma data mais que necessária. Urgente. Hoje, em determinados meios, o cara fica até com vergonha de dizer que gosta de buceta. Ele diz que é hetero, mas pede desculpas, diz que nasceu assim, que o psicanalista lhe disse que a culpa foi do mau exemplo dado por seus pais, que eram um homem e uma mulher; diz que é hetero, mas que está repensando seus conceitos, que um dia, talvez, experimente etc etc.
Pois aqui, o Marreta, é território seguro para os machos das antigas. Aqui, o macho pode bater no peito e gritar : eu gosto de buceta!!!!! Gosto de cerveja barata e churrasco gorduroso!!!! Que é só dessas três coisas que o macho precisa para ser feliz.
E hoje, 15 de julho, é o Dia Internacional do Orgulho Heterossexual! Comemorem, macharada leitora do Marreta.
E a loira já tá no jeito, não precisa nem mudar de posição, tá até com um travesseirinho embaixo da barriga, que é pra dar aquela empinadinha no tobete. É só chegar e acoplar.

No Dia Internacional do Homem, Dê um Vale Boquete ao seu Macho

Você, mulher de sorte, que têm ao seu lado um macho das antigas, um ogro que bem lhe come, hoje é o dia dele, o Dia Internacional do Orgulho do Macho. Surpreenda-o. Presentei-o com um vale boquete. Que um boquete e um copo d'água não se nega a ninguém.
"Na hora do futebol na TV, na hora do videogame, mulheres não estão fazendo nada de útil, o que custa fazer um boquetinho?" (Edu, dono do blog Testosterona e idealizador da Marcha do Boquete)

domingo, 10 de julho de 2016

Férias do Marreta

O Marreta vai sair em merecidas férias. Estarei ausente por uma semana, volto lá pelo dia 20, um pouco mais, um pouco menos.
Para onde vou, não conto. Mas, óbvio, que não tem a ver com areia entrando no cu, farofa no meio dos dentes, espetinhos vendidos por ambulantes nem mar cheio de coliformes fecais, que isso tudo é coisa de eleitor do PT.
De qualquer forma, no dia 15 de julho, uma data internacional de grande relevância é comemorada e o Marreta não poderia deixá-la passar sem chumbo. Programei duas postagens em homenagem a tal dia, só espero que a programação funcione.
Sem mais para o momento, até a volta.

sábado, 9 de julho de 2016

Pequeno Conto Noturno (64)

Num arroubo muito mais de tédio que de rebeldia, ou que de som, ou que de fúria, ou que de claustrofobia existencial, Rubens resolve ganhar as ruas e retomar prática antiga, dos áureos e plúmbeos tempos - foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos.. -, quando ia até a rodoviária, parava aleatoriamente em frente ao guichê de uma empresa de ônibus e, quase tão aleatoriamente quanto, havia apenas o critério da distância não ultrapassar os 200 km, escolhia uma cidade e comprava a passagem; Rubens andava durante a noite pelo desconhecido território - seus potenciais riscos, seu reconfortante anonimato -, sentava-se e bebia em seus bares pela madrugada, ignorava os bêbados e as putas e, no primeiro horário que houvesse pela manhã, embarcava de volta, ou de sua deserção.
Hoje, embora a essência da fuga, ou do voo, seja a mesma, o destino nada tem de randômico. Rubens se decidiu por uma cidade a 90 km da sua, cidade de porte médio, onde residira por três anos, por conta da posse de um cargo público; e quinze anos já se vão de sua volta.
Rubens põe a surrada mochila nas costas e os pés no asfalto. Pelo que lembrava, o último ônibus saía às 23 h, o que lhe dava quarenta minutos de prazo, mais que suficientes para ele cobrir a pé a distância de quatro quilômetros até a rodoviária.
Rubens passa pela loja de conveniência de um posto de combustíveis para comprar cinco latões de cerveja - um pra tomar no caminho até a rodoviária e os outros quatro para beber no ônibus, uma hora e meia de viagem, mais ou menos.
- Me vê cinco latões da mais barata - pede Rubens ao atendente - tá gelada? - pergunta.
- E se não estiver, você vai levar da mais cara por acaso? - devolve o balconista, sabendo dos hábitos de Rubens.
Esse é o mal de ser habitual de um estabelecimento qualquer, o cara que trabalha ali acaba por se achar íntimo, embora nem mesmo saiba nosso nome, pensa Rubens, e abre um latão ali mesmo e guarda os outros quatro na mochila.
Na rodoviária, procura pelo guichê e pede uma passagem.
- O ônibus tá no horário? -, quer saber Rubens, lembrando-se do rotineiro atraso da linha.
- Eu só vendo passagens, amigo - o costumeiro humor das pessoas que trabalham à noite; Rubens compreende e respeita isso.
Rubens se senta em sua poltrona, abre outro latão e começa a beber assim que o ônibus ganha movimento. Beber em viagens o ajuda a conter o desconforto que sente em ambientes fechados e coletivos, ajuda-o com o desconforto de ter que conversar com alguém que eventualmente ocupe poltrona contígua à sua. Beber, aliás, ajuda Rubens em praticamente todo o contato humano que precise ter. Não que o álcool o torne mais expansivo e gentil e agradável, não que o álcool torne as pessoas mais suportáveis para ele. O álcool abafa o mundo, cria um campo de força em torno de Rubens, uma espécie de camada de ozônio a bloquear parte dos raios UV. As vozes, os rostos, os cheiros das pessoas o atingem com menos intensidade. Só isso.
Rubens dá sorte. No ônibus, o motorista, ele e mais seis passageiros, todos cometendo a delicadeza de se sentarem distantes um dos outros. A cerveja nem teria sido tão necessária, pensa Rubens, mas a tomará assim mesmo; se há algo que Rubens abomina é o desperdício.
Fim do penúltimo latão e Rubens vai ao banheiro de novo - tinha ido há meia hora -, aliviar a velha bexiga, cada vez mais incontinente. Rubens detesta banheiro de ônibus, é uma merda ter que mijar com o veículo chacoalhando e trepidando pelos buracos da estrada, difícil compensar as acelerações e desacelerações, equilibrar-se nas curvas. É foda mijar segurando na maçaneta da porta com uma mão e ter de controlar o pau com a outra.
Rubens deixa mais do que mijo nessa segunda vez. Uma sacudida maior do ônibus e ele vomita tudo na pia; o vômito rescende a cerveja fresca, recém-tomada, ainda não metabolizada, mas Rubens não é de chorar sobre a cerveja vomitada. Limpa a boca com as costas da mão, volta ao seu lugar, abre o último latão, enche a boca com cerveja nova, enxagua com um bom bochecho e se acomoda para beber o resto, e esperar o fim da viagem.
Rubens desembarca. Meia-noite e trinta e quatro minutos, marca o relógio suspenso no teto da triste, suja rodoviária. Rubens corre ao bar, que já está com sua porta corrugada de ferro baixada até a metade e compra mais duas latas, para tomar no caminho enquanto dá uma flanada pela cidade até o Cadafalso Rock Bar, um bar de rock e de blues, motivo de sua excursão noturna, comandado pelo velho Tomás, um mineiro turrão, mal-humorado e das antigas, descendente, segundo o próprio, do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes; o nome do bar, uma homenagem ao antepassado ilustre.
Rubens não espera reencontrar ninguém de sua época no Cadafalso; aliás, torce para que não. Rubens só precisa de um lugar familiar para sentar e beber, um território conhecido onde se sinta seguro por um tempo. O Cadafalso sempre acolhera Rubens quando ele precisou se esconder; sobretudo de si próprio.
Rubens anda e nota que a cidade está mais morta que o de costume. É apenas meia-noite e pouco de uma noite de sexta para sábado. Tudo fechado pelo velho centro. O Bar do Tobias , o Toca da Pantera, o Cabeça de Porco. Acabaram-se os bêbados dessa cidade?, pensa Rubens.
Mais quatro quarteirões e Rubens está de frente ao Cadafalso. Não há Cadafalso. Só um terreno cheio de escombros de demolição cercado por tapumes de madeira vermelha e uma grande placa anunciando a abertura de uma nova agência bancária para breve, mais conforto aos seus clientes.
Rubens se senta ao meio-fio da esquina de frente para as ruínas do Cadafalso. Bebe e pensa no que poderia ter acontecido. Quando? Por quê? Termina a lata e abre a última, já pensando em onde irá conseguir a próxima.
Um carro preto passa por Rubens, subindo devagar a rua. O carro para, dá uma ré, encosta ao lado de Rubens e uma mulher aparece quando o vidro é abaixado. Quarenta e poucos, quarenta e alguns anos. Restos de uma maquiagem cansada na cara. Bonita, dadas a hora da noite e a altura da vida.
- Onde você conseguiu essa cerveja? - pergunta a dona.
- Na rodoviária, antes de descer para cá, mas o bar tava fechando.
- Não é daqui, né?
- Já fui.
- O Cadafalso fechou há uns meses, o Tomás morreu, enfisema pulmonar, morreu sem ar, asfixiado - informa a dona.
- Espero que não o tenham esquartejado, também.
A dona ri. Revela uns belos dentes.
- Irônico, né?
- Sempre é. E o resto da cidade? Não pode ser luto pelo Tomás.
A dona ri, de novo.
- O velho tinha mais amigos do que ele próprio pensava, o velório lotou.
- Para terem certeza de que o velho realmente morrera, pra garantir.
- Até que pode ter sido - diz a dona -; os outros bares foram fechando meio que naturalmente, o movimento começou a cair no centro e a violência a aumentar, hoje tudo fecha às dez, dez e pouco da noite. E essa última cerveja, não quer dividir, não?, tô varada de vontade, saí pra ver se encontrava uma e parece que dei sorte.
- Ninguém dá sorte a essa hora da noite, e não sou um cara solidário.
- Que tal um beijo bem molhado e cheio de língua por um gole dessa lata?
- Um beijo?
-  Dando uma de durão, né? Te faço uma chupeta por metade da lata. E você nem imagina o quanto irá se divertir se me der a lata inteira.
As mulheres vivem acusando a sociedade de machista. Dois terços ou mais das mulheres de Rubens já o acusaram do mesmo. Que as mulheres são objetificadas pelo chauvinismo imperante, coisificadas. Têm até feministas, daquelas de pernas e suvacos cabeludos, de peitos caídos e grelos duros de 15 cm, que alardeiam sobre uma tal cultura do estupro. Absurdo. Mal comidas, isso sim, pensa Rubens. Mal amansadas, nunca levaram uma surra de chicote de rola que as bem domesticasse.
Mas são elas, as próprias mulheres, ao menos de madrugada, ao menos quando não há nenhuma patrulha ideológica esquerdista filha da puta a vigiá-las e à qual tenham de prestar contas, e quando algo lhes interessa e convêm, que oferecem seu corpo e seus préstimos sexuais como moeda de troca.
E como elas os têm em alta conta. Botam o câmbio de suas bucetas lá no alto. A um beijo, dão a cotação do dólar;  a um boquete; do euro; à buceta, do marco alemão; e ao cuzinho, então?, o cuzinho, pensam valer um lingote de ouro 24 k do Forte Knox.
Supervalorizam seus dotes. Quando beijarem, não serão também beijadas, retribuídas? Quando fizerem um boquete, também não terão prazer em ter um falo duro entre os lábios e na garganta? Quando atolarem a xavasca encharcada numa boa verga, também não gozarão? Quando derem o cuzinho, não as estaremos ajudando com suas constipações intestinais e prisões de ventre? Pois, então. Por que tem que ainda  valer algo além do que naturalmente terão em retribuição, em reciprocidade, no caso, a cerveja de Rubens?
Não tem. Buceta como moeda de troca pode até funcionar com machos novos, na casa dos vinte e poucos, mas não surte resultado com um macho das antigas, na casa dos cinquenta, feito Rubens; há dias, e esse é um deles, em que um cara precisa mais de uma cerveja que de uma buceta.
- Preciso pensar um pouco na sua oferta - diz, finalmente, Rubens à dona.
- Pensar?!?!?!? -, a dona em tom de indignação.
- Ver se eu, nesse momento, tô precisando mais de uma cerveja ou de um boquete.
A dona fecha o vidro do carro, gira a chave na ignição, acelera em retaliação ao desprezo de Rubens e sai cantando pneus. Porém, nem cinquenta metros acima, Rubens vê as luzes traseiras dos freios se acenderem. A dona repensa em suas possibilidades para esse fim de noite. Observa a si mesma e pondera sobre sua própria decadência física, sua ruína moral. 
Engata a marcha a ré de novo.  Abre o vidro e concede a Rubens o tempo que ele pedira para pensar.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Azarão de Pernas Pro Ar

Um canecão de cerveja, uma palavra cruzada do nível (que eles dizem ser na capa) difícil, escutando um som do Raul... e o mundo que se foda!

quinta-feira, 7 de julho de 2016

É a Podridão, Meu Velho (10)

As avenidas: 
Cada vez mais largas; 
Os carros: 
Cada vez mais rápidos; 
E eu: 
Cada vez mais velho.  

As avenidas: 
De correntezas cada vez mais turbulentas 
E margens distantes; 
Os carros: 
De motores cada vez mais anabolizados 
E velocímetros vorazes; 
E eu: 
De reflexos cada vez menos valorosos 
E chumbo nos passos.  

Isso tudo, 
Junto, 
Algum dia, 
Ainda vai dar uma coisa muito errada.

Ela Disse Adeus

"Você vem quase todos os dias ao mesmo lugar. Vem confirmar algo que já sabe. Não estarei mais por aqui. Nossos relógios se desencontram, nossos calendários divergem em crenças e datas. A dia esperado já foi, o que passou, ainda virá... E nossas folhinhas nunca se encontrarão... E nós?"

terça-feira, 5 de julho de 2016

Travessuras de Menina Má (4)

E Se o Tigre For Broxa?

Depois de mil anos sob o mais tirânico dos jugos, no qual todas as liberdades individuais, sobretudo a do pensamento, foram suprimidas em nome de Deus, em nome da santa Igreja Católica, depois de 10 séculos de Idade Média durante os quais ou o sujeito fingia que era burro ou virava churrasquinho, espetinho de herege a ser vendido na quermesse da Santa Sé (não sem antes passar estripamentos, evisceramentos e suplícios de ordem sexual que iam desde a amputação de seios a empalamento), o ser humano precisou renascer. Precisou promover a própria Renascença, precisou se re-parir, fazer uma autocesariana, arrancar-se a fórceps de si mesmo. 
Precisou, principalmente, reaprender a pensar, retomar o raciocínio lógico, que não é como andar de bicicleta, não; parou de pensar, de pôr à faina a massa cinzenta e ela emperra, empaca. Não pense que a cabeça aguenta se você parar,  já disse Raul.
Houve muito mais instinto que razão pura nessa retomada do pensamento, que o instinto é a forma primeira de aprendizado sobre o mundo. O Renasciscento, por mais belo e produtivo que tenha sido, e ele o foi, foi um período muito mais de observação, comparação, identificação e, mormente, de imitação que de criação, que de surgimento de novas ideias e conceitos. Que é só assim, desgraçadamente, que o ser humano, a não ser que você tenha nascido um gênio, aprende : observando, comparando e imitando à exaustão o seu derredor. É a infinita repetição que promove o aprendizado. É o Kumon da vida. 
Não à toa, o Renascimento foi o resgate dos valores clássicos gregos e romanos : primeiro, observar e imitar algo no qual se reconheça e, uma vez hábil nisso, uma vez adquirida certa proficiência, tentar alçar voo próprio. 
É dessa forma que a criança ou qualquer outro filhote aprende. É por isso que os primeiros sons inteligíveis que saem da boca de uma criança assemelham-se ao que chamamos de palavras e não ao urro de um leão, ou ao trinado de um rouxinol. É por isso que a criança cambaleia e claudica sobre suas fracas pernas buscando a postura bípede e não fica a agitar os braços tentando levantar voo. A criança observa o mundo, compara-se com ele, identifica-se com os pais - e não com o gato, com o cachorro, com o periquito da casa, ou com os peixinhos do aquário - e passa, então, a copiá-los.
Basicamente, isso foi o Renascimento, um período de copiar os pais, aprender com eles, para emancipar-se depois. Para a nossa sorte, a Renascença contou com exímios observados e inigualáveis imitadores, copistas geniais como nunca dantes vistos, que nos legaram inestimável patrimônio artístico, mas não foi um período de criação por excelência, foi um período de domínio da técnica, de reaprender a manejar o pensamento e suas ferramentas, de readquirir o traquejo para o próximo estágio, o Iluminismo, a Idade da Razão, na qual o pensamento, já emancipado de seus pais greco-romanos, começou a gerar novos conceitos e ideais; se melhores ou não, se mais ou menos brilhantes que os de seus antecessores, já é uma outra questão.
Do Renascimento vem uma das formas de pensamento - instintiva - ainda muito comum hoje em dia, ainda pensamos sob o seus ditames em grande parte das situações que vivemos, uma vez que a maioria de nós nunca foi apresentada ao pensamento sistematizado de um Descartes, por exemplo : a Doutrina das Assinaturas, do médico e alquimista alemão Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim (1493-1541), o Paracelso, para os íntimos e os iniciados.
A grosso modo, a Doutrina das Assinaturas, ou ainda As Assinaturas do Criador, verifica e constata semelhanças estruturais entre seres humanos e as outras espécies e infere a elas a mesma funcionalidade. A mais grosso modo ainda, quase a chulo modo, o que Paracelso postulava era : se é parecido, serve para a mesma coisa.
Para Paracelso, as similaridades de certos alimentos com estruturas do corpo humano eram assinaturas de Deus para que nós as reconhecêssemos e tirássemos proveito delas. Dizia que Deus formulava a cura de uma doença indicando um sinal comparativo em sua fonte. A exemplos : uma orquídea cuja flor se assemelha a testículos humanos pode ser usada no tratamento de doenças venéreas; a cenoura, se cortada em rodelas, exibe uma assinatura de Deus que lembra muito a íris humana, logo, é boa para doenças da visão, e a prova é que ninguém nunca viu um coelho usando óculos. Instinto. Picaretagem. Pura picaretagem.
Quer dizer que Deus põe a cura em vegetais e os faz semelhantes aos nossos órgãos para que deles nos valhamos? Porra. Não era mais fácil não criar a doença? E o Velho Safado ainda fica brincando de esconde-esconde com o desgraçado do doente. Se o cara tá cegueta, como ele vai notar a semelhança entre suas íris e o raiado de uma rodela de cenoura?  
A seguirmos Paracelso, será que o consumo regular de uns melões bem grandes e suculentos livra a mulher do temível câncer de mama, e, de quebra, ainda os torna maiores, mais rijos e doces? Será que incluir a pimenta dedo-de-moça na dieta diária livra o macho de respeito do famigerado dedo do urologista, do exame de toque?
Picaretagem. Pura picaretagem. Charlatanismo dos brabos. Puro instinto, tal forma de pensar. Nada de sistemático, só observar, comparar e inferir um monte de bobagens. Nenhuma lógica nesse tipo de ideia. Por isso mesmo um perigo muito grande nela reside. Ela é aceita e assimilada de forma instantânea - uma vez que instintiva -, não tem a necessidade de fornecer maiores provas para que seja abraçada pelo senso comum : abre o caminho para todo o tipo de charlatanismo. O mais célebre desses charlatanismos, que até ganhou ares de ciência, é a Homeopatia, com seu dogma máximo, Similia similibus curantur, semelhante cura semelhante. Paracelso puro. Má-fé pura.
É desse tipo de ideia que partem, também, as mais diversas atrocidades contra animais, especialmente os considerados selvagens, viris e fodelões. Sempre preocupado com sua paudurescência, o bicho homem busca nos ensinamentos de Paracelso a cura para os seus males. No Brasil, por exemplo, o boto amazônico, que quando assume a forma humana para emprenhar desavisadas ribeirinhas, atende pelo nome de Carlos Alberto Riccelli, tem o seu pênis, o seu cacete, usado em sopas, garrafadas, ou, ainda, desidratado, feito em pó e adicionado às refeições. Na China, é o tigre quem paga o pato da paumolescência humana. Sua benga também é consumida na forma de ensopados e seus testículos viram pó que é adicionado à comida, uma espécie de Sustagen pra broxa, ou bebido em infusões.
Mas eis a pergunta que não quer calar : ainda que Paracelso esteja certo, ainda que formas semelhantes tenham funcionalidades semelhantes e possam transmitir suas propriedades curativas, e se o tigre for broxa, meu amigo, e se o tigre for broxa? E se o felino abatido e sacrificado for mais afeito a um outro tigre-de-grande-bengala ao invés de uma xaninha listrada? Aí, quem fica duro é o cu? E se o tigre for broxa, meu amigo?
Isso tudo, por uma dessas associações, admito, a la Paracelso, me fez lembrar do grande e inigualável filósofo iluminista Genival Lacerda, que sabe tudo da Doutrina das Assinaturas, que põe Paracelso no chinelo, como bem demonstra na sua música Transplante de Coração, cuja letra narra o infortúnio dum cabra macho que recebe o coração de um "doador desmunhecado". Genival Lacerda é o Paracelso brasileiro.
Transplante de Coração
(Genival Lacerda)
Corre seu doutor
Pode operar
Que o coração vai pifar


Acuda seu doutor
Arranje um doador
Que ele tem a sua mãe pra sustentar


Mas tudo correu bem
Foi tudo normal
Na mesa de operação
O doutor falou pra ele
Moço você é felizardo
Está curado, pois não houve rejeição

O cabra ficou bom
Mais ficou desconfiado
Recebeu o coração
De um doador desmunhecado

Foi o maior sucesso
Ele ficou curado
Pois a sua salvação
Mais o novo coração era muito delicado
O doutor contou pra ele
Com muita manha pra não haver zanga
Pois aquele coração precisava da atenção
Pra não soltar a franga


Para ouvir, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO

domingo, 3 de julho de 2016

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (24)

Morreu o Zé Rico, sobrou o Milionário; morreu o João Mineiro, ficou o Marciano. Que, agora, se juntam e lançam o CD Lendas, com o repertório clássico das duas duplas. É material de qualidade pra corno nenhum botar defeito. É CD pra corno ouvir dando um lustro no chifre! Das 15 músicas, destaco aqui Solidão, do José Rico. É o corno que descrente, todo mundo fala pra ele que a mulher tá dando pra outro e ele não acredita. É o corno ateu!
Solidão
(José Rico e Cristovam Rei)
Alguém me falou que você me enganou
Eu não posso acreditar
Eu preciso saber se foi mesmo você
Que mandou me avisar

Eu preciso partir sei que não vou resistir
Essa solidão do amor para o meu coração (2x)

"Amor, eu gostaria saber se foi mesmo você
que mandou me avisar,
porque se for verdade..."

sábado, 2 de julho de 2016

Agora Era Fatal Que o Faz de Conta Terminasse Assim

Eu faço de conta
Que hoje tem rock
Que tem café
Que tem cafuné.

Eu faço de conta
Que hoje é o Dia do Curinga
Que tem revolução.
Faço de conta
Que hoje tem Raul
Que hoje tem Grillo
O rei da brincadeira
O rei da confusão.

Faço de conta
Que hoje
Ainda é madrugada no meu coração.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Schin No Grau

Sabendo-me um intrépido desbravador de marcas desconhecidas - e por que não dizer, clandestinas? - de cerveja, um destemido explorador de combinações - muitas das vezes quase letais - de malte e cevada nunca dantes testadas em seres humanos, um arqueólogo do lúpulo perdido, um verdadeiro Indiana Jones do gargalo, uma amiga me presenteou com uma raridade que encontrou nas prateleiras da rede Carrefour : No Grau, da Schincariol.
Chamou-lhe a atenção o fato de que a cerveja No Grau estava em uma superoferta - R$ 0,99 a lata de 350 ml -, uma verdadeira pechincha, e, ainda assim, as prateleiras estavam repletas do produto, abarrotadas de cima a baixo. A No Grau estava quase de graça e ninguém comprava. Isso deve ser uma merda, pensou minha "amiga", vou levar uma pro Azarão.
Ela veio até a mim, logo ao início do expediente, e, numa embalagem muito discreta, me entregou a lata. Junto com ela, um desafio : duvido que você tome essa, será um trabalho de Hércules. Encarei, é lógico, a provocação, o chamamento para a briga. Como diz o filósofo Zeca Pagodinho, a cerveja e a cachaça são os piores inimigos do homem, mas o homem que foge de seus inimigos é um covarde.
Levei a No Grau para casa, pu-la a gelar e, em seguida, submeti-a ao crivo e ao rigor das análises do Instituto Azarão de Pesquisas Etílicas. O laudo, relato a seguir.
Embora o principal seja a qualidade do conteúdo, a apresentação do continente também tem certa relevância, a aparência da embalagem também conta pontos. Acredito que um visual bem cuidado predisponha favoravelmente o paladar do consumidor, exerça uma espécie de efeito placebo em suas papilas gustativas, faça o bebedor pressupor que o mesmo esmero dedicado à embalagem tenha sido igualmente dispensado ao líquido em seu interior. A No Grau não conta com essa vantagem inicial, não pode se fiar nesse expediente para agradar o pé de cana : suas cores são apagadas, pastéis, sua logomarca, em caracteres que pouco ou nada se realçam do fundo, letras sem nenhum volume ou perspectiva, nada que salte aos olhos, nada que sugira algum tipo de vibração.
Abri o lacre e deitei a cerveja em meu poderoso canecão de vidro para melhor observar seus atributos visuais, olfativos e gustativos. A No Grau, inicialmente, formou uma boa camada de espuma, de boa densidade, que, no entanto, não perdurou, logo se desfez, conferindo um aspecto de cerveja choca. A cor nada apresentou do brônzeo-dourado do malte, sim de palha pálida e anêmica do milho. Nada também do odor levemente amargo do lúpulo, só milho mesmo.
Finalmente, entornei. O aspecto de cerveja choca foi confirmado pelo gosto. Aguada. Sabor avinagrado, sutilmente metálico, dulçor inicial de sacarose e final salgado. Pra piorar, é do tipo Lager, igual a heineken, budweiser e outras merdas, modalidade de cerveja que costuma me dar uma puta dor de cabeça, o que, se por um lado, é um inconveniente, um estorvo, por outro, ainda é melhor que a famosa ardência no cu provocada por certas marcas - explico depois.
Veredicto : a No Grau foi aprovada pelo Azarão. Merece a Comenda da Boa e Barata.
No dia seguinte, comuniquei o cumprimento do hercúleo trabalho à minha amiga. O primeiro já foi, disse-lhe, pode mandar os outros onze. Que outros onze?, ela perguntou. As outras 11 latas do fardo, porra! Noventa e nove centavos a lata e vai me dizer que você só comprou uma? Vai ser miserável assim nos quintos!

Saudade de Estimação

Ponho minha Saudade
- Engaiolada,
Tosada,
De banho tomado -
Na vitrine do pet shop.
Ao lado 
De gatos
Cães
Calopsitas
Periquitos australianos
E tartarugas licenciadas pelo Ibama.

E aos que se dispuserem a adotá-la
- a minha Saudade -,
Numa tabuleta presa com arame na gaiola,
As instruções para os seus cuidados,
As suas credenciais,
O seu pedigree :
Vermifugada
E castrada,
E só mija e caga
Nos locais permitidos
E preestabelecidos.