quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Professor Sandrão : Por uma Vereança Sóbria

Aberta, de novo, a temporada de caça ao eleitor! As eleições municipais estão aí! Recomeça a corrida pelo ouro das urnas! Todo mundo querendo uma boquinha, uma sinecura, uma teta pra mamar sem ter que se preocupar com a chifrada do boi. Me ajeita que eu te ajeito, é a ideologia vigente entre os candidatos, independente de partido
Carros de som já estão nas ruas esburacadas da malcuidada Ribeirão Preto a vomitar os toscos jingles dos candidatos a vereador; "santinhos" começam a entulhar as ruas, as praças, os para-brisas dos carros e as caixas de correios das residências; semianalfabetos desdentados e desempregados estão nas esquinas das principais avenidas a envergar as bandeiras dos partidos e dos candidatos, porta-bandeiras desse nosso eterno e triste carnaval de horrores.
E dá de tudo nas Olimpíadas pelo pódium da Câmara Municipal : velhas raposas de sempre, vendedores de bilhete da loteria federal, aposentados do INSS, ex-jogadores de futebol, socialites decadentes, lipoaspiradas, botocadas e falidas, donos de padaria, carteiros, garis, motoristas de ônibus, motoboys, travestis, pedagogas, assistentes sociais, o chinês da loja de R$ 1,99, o garçon da chopperia famosa, cantor de sertanejo universitário, pastores evangélicos, radialistas e apresentadores de programas vespertinos de TV etc etc etc. Só a elite da sociedade. Só a nata da ricota.
Mas essa eleição promete ser diferente, acena-nos com uma novidade. Um luminoso, ainda que cambaleante, raio de esperança desponta no seco e enfumaçado pelas queimadas de cana-de-açúcar horizonte de Ribeirão Preto.
É o Professor Sandrão. Conhecido também como o Sandrão da Luta, o Sandrão da Força, o Sandrão da Causa, entre outros vários epítetos, alcunhas e codinomes, sendo o mais notório, o Sandrão da Breja. Conheço Professor Sandrão desde as priscas eras, desde o tempo do Sarney, e muitas já entornei em sua companhia sempre animada e ilustrativa.
Professor Sandrão é professor de História e esquerdista juramentado; não obstante, é gente boa pra caralho, é boa-praça que só. Professor Sandrão fala sobre política, mas não faz catequese, não faz partidarismo. Professor Sandrão é de boa, é da paz; não quer brigar nem doutrinar ninguém, só quer passar o seu recado e tomar sua cervejinha no sossego.
Professor Sandrão é multitarefa, acumula atividades à de professor. É boêmio das antigas, estilo Nélson Gonçalves. É músico da melhor qualidade, conhece tudo do bom samba, de Adoniran a Nei Lopes, de Germano Matias a Hermínio Bello de Carvalho, personalidades que, à exceção de Adoniran, Sandrão já acompanhou com seu grupo Os Etanóis. 
Professor Sandrão esmerilha na percursão, é um virtuose da timba, seja lá o que isso for; reza a lenda - uma das muitas que o cercam - que Professor Sandrão já tocou até com a lendária Vitória-Régia, banda do não menos mitológico Tim Maia. 
Professor Sandrão é folião de antigos carnavais, defende o estandarte do bloco Os Alegrões, no carnaval de rua meio triste de Ribeirão - as águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar, é o carro-chefe do bloco.
Professor Sandrão é bebe-quieto, é aquele cara que fica despercebido em seu cantinho, bebericando devagar e sempre a sua cervejinha num copo americano Nadir Figueiredo e, quando você se dá conta, acabou com o estoque do boteco.
Reza outra lenda que, em certa feita, Sandrão foi pescar com dois amigos em uma represa de Miguelópolis, cidade da região, mas não os acompanhou a bordo do barco alugado para que alcançassem águas mais profundas e piscosas. Professor Sandrão, modesto, preferiu ficar no barranco do rio, com sua varinha de bambu e a zelar pelo container de isopor com a provisão de cerveja estimada para os três dias de pescaria.
Os amigos passaram o dia no barco e, ao retornarem ao pôr-do-sol, contam que lá estava o Sandrão, no mesmo lugar, na mesma posição, sem ter fisgado um mero lambari - não devia ter saído dali nem pra mijar, não tinha trocado uma única minhoca do anzol. E o isopor, a cápsula de sobrevivência, é claro, vazio!
E, agora, Professor Sandrão promete fazer história na política da provinciana Ribeirão Preto, terra, até hoje, de disfarçados cabrestos e coronelismos, uma capitania hereditária legada pelos barões do café aos usineiros da cana-de-açúcar.
E, agora, Professor Sandrão é candidato a vereador. É o nº 50.000 do PSOL - 51.000 melhor se lhe adequaria.
A cereja do bolo de sua plataforma política é, claro, a Educação Pública, o seu pão de cada dia, o seu porto seguro. Professor Sandrão não é ingrato à sua ingrata profissão, não cospe no copo em que bebeu.
De chofre, Professor Sandrão propõe : "Salário de vereador igual ao de professor".
Cagou logo na entrada, Sandrão. Cagou. Que porra é essa, meu velho? Inverte isso, Sandrão, inverte isso! Salário do professor igual ao de vereador, isso sim! Para que tirar o doce da boca dos nobres edis e arrumar briga assim logo de cara? 
Estenda, simplesmente, as regalias dos vereadores também à classe professoral. Faça aprovar um projeto que estabeleça a isonomia salarial entre as classes políticas e a do magistério, afinal, produtividade por produtividade, produzimos, ambos, merda nenhuma. Zero. Também quero assessores! Assessoras, professoras assessoras gostosas e novinhas, cheias de vontade de aprender e servir ao velho, porém, não morto, mestre.
O Marreta apoia o Professor Sandrão! Em Ribeirão, vote no Professor Sandrão.
Ribeirão é 50.000! 
Professor Sandrão, por uma vereança sóbria!!!
Ajude o Sandrão a garantir o seu (o dele) litrão!!!

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Luas Ladras De Bagdá

Os cafés da Tia Nastácia,
As siestas em tapetes voadores
Por entre os minaretes de Bagdá
(espantando as garças que voam e me fazem chorar);
O vinho de algas azuis
Tomada à beira de uma Atlântida
Ainda não submersa;
Os pergaminhos roubados
E os mapas-múndi de nossos mundos
Esboçados à magna luz do olhar de Alexandre
Em sua fênix-biblioteca,
Nossas meias-noites em carruagens de abóboras.

Tão pequena a probabilidade de voltar a acontecer
Que começo a considerar a grande probabilidade
De nunca ter acontecido.
De ter sido mera travessura de Sandman
E seu embornal de areia,
Poeira colhida do teu Mar da Tranquilidade.
Traquinagem de João Pestana
Que invadiu nosso Sonhar
Sem escrúpulo, crápula
Sem pestanejar.

Se disseres que não,
Que nada aconteceu,
Que tudo é novidade para ti,
Ficarei tranquilo em vida,
Mas angustiadíssimo na hora da morte
(por não ter velejado no mercúrio líquido do teu ventre prateado, pulsante e maravilhosamente sem som).

Se disseres que sim,
Que igualmente tudo é boa memória para ti,
E certeza de impossibilidade futura,
Viverei atormentado
Mas estarei sereno na hora da morte
(feito astronauta que arranca voluntariamente o capacete e sucumbe feliz sem ar nas tuas invaginações, na tua cratera mais acolhedora).

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Pênis de Japonês o Elimina das Finais do Salto Com Vara. Fui Traído Pela Minha Própria Vara, desabafou.

Japonês praticar salto com vara é pedir pra ser zoado. Não dá pra resistir. É piada pronta. Japonês treinar salto com vara é implorar para virar alvo de chacotas e zombarias. É pregar por conta própria um papel na costas escrito Me chute, Me passe a mão. É masoquismo. É autobullying.
Japonês não tem vara, tem, no máximo, hashi, que são aqueles pauzinhos de comer sushi. A varinha do japonês mal chega pra comer o peixe cru da japonesa e o cara quer ganhar medalha em salto com vara.
Mas há os persistentes - marca, aliás, do oriental. Há os que não aceitam conformados a predestinação e o determinismo biológico, há os que não se rendem aos limites impostos pela natureza, e, em nobres e inspiradores exemplos de força de vontade e da superação nascida da perseverança, os rompem, os ultrapassam.
É o caso do atleta varudo japonês Ogita Hiroki, de 28 anos - uma espécie de Kid Bengala nipônico, com seus, talvez, sete ou oito centímetros de piroca. Ogita Hiroki desafiou todos os prognósticos em contrário, desmontou paradigmas e disputou nesta segunda-feira (15/08) uma vaga nas finais olímpicas do salto com vara. Um herói nacional, sem dúvida.
Só que na hora H, na hora da onça beber água, na hora do sapeca iá-iá, o japonês se fodeu. Foi traído e desclassificado pela própria vara.
Acontece que três varas estão em jogo no salto com vara masculino. Três varas sobre as quais o atleta deve exercer completo domínio e imprimir perfeita sincronia. Não à toa, é considerada a modalidade mais técnica do atletismo.
A primeira é a vara em si, aquele varão, composto por camadas de fibra de carbono e fibra de vidro, que o atleta usa à guisa de uma alavanca para se alçar às alturas do Olimpo e tentar passar por sobre uma segunda vara, o sarrafo, aquela barra vertical que estabelece a altura a ser superada, e que, em hipótese alguma, pode ser tocada, sequer triscada, qualquer contato, de qualquer parte do corpo do atleta, por mais tênue e leve, derruba o sarrafo, o salto é invalidado e o atleta, eliminado.
Pois o atleta japonês coordenou com maestria e passou célere e incólume pelas duas varas. Alavancou-se do chão com coreografados força e ângulo de subida, subiu reto, impecável, um falcão peregrino, transpôs o sarrafo e curvou o corpo em medido semicírculo para evitá-lo. Mas se esqueceu da supracitada e ainda não esclarecida terceira vara.
Ogita Hiroki esqueceu-se de coordenar a terceira vara do jogo, a sua própria vara, a benga. O corpo passou rente ao sarrafo, já caindo para a classificação, mas aí a piroca do japonês enroscou no sarrafo. Foi ela, a piroquinha do japonês, e não um braço, um joelho ou um pé, que tocou e derrubou o sarrafo. Desclassificado. Eliminado pela própria piroca.
Taí a benga do japonês enroscando no sarrafo. Piroquinha de anjinho barroco. Do Davi, de Michelângelo. É isso o que eu chamo de um azar do caralho! Pãããããããta que o pariu!!!

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

XV de Agosto (II)

Hoje
O dia veio com sintomas de extinção em massa.
O vento correu
Seco, afiado e castanho
Roubando a umidade
Dos olhos
Das narinas
Das vulvas.
Motosserrando o verde
E os ipês amarelos,
Soterrando os vivos
Do pó dos que dele vieram
E que a ele já retornaram
(engana-se quem pensa se tratar de queimada de cana-de-açúcar),
Abastardando o azul do céu.
As nuvens coraram-se de açafrão
De gás mostarda
Para sufocar o sol
Para asfixiar a luz
Para criar ocre mortalha
Sépia sepulcro.
Mas o cio resiste
O verde, fotossíntese
O sol ainda arrota dinamite.
A vida,
Capenga,
Maratonista aleijado
Que manca sobre próteses que lhe causam escaras nos cotocos dos membros amputados,
Insiste em nos cuspir à cara seu degradante espetáculo
E nos sorri,
Canalha, filha da puta,
Vencedora vencida, 
De seu pódio sem concorrentes,
Sem outras bandeiras
Nem hinos de outras nações. 
(e um pterodáctilo, aproveitando-se da minha distração, do meu porre, achega-se de mansinho e faz seu ninho no velho boldo de minha sacada)

XV de Agosto

Despertemo-nos! 
E aos outros, também!
Despertemo-nos!
E a todos os de nossa ninhada!
É instante de recontar a história,
De alavancar nossos mortos do túmulo, portanto.
Arranquemo-nos de nossas clausuras,
Coloquemo-nos em ruínas,
E também aos nossos telhados,
Para que a tempestade convença à consciência
Os ainda reticentes em seus sonos :
Nem um único ouvido surdo deve sobrar.
A história, é necessário, seja redita, reouvida
E os mortos, incomodados,
Espezinhados em seus repousos de órbitas despalpebradas.
A história,
A bem da sanidade,
Seja esquecida, depois;
E os mortos, vital, reocupem-se, ao término, de suas putrefações;
Só depois, porém.
De todos, assim, toda a atenção!
E, de cada qual, uns poucos cobres para a cerveja
- nosso veneno espumante -,
Para a cerveja, uns poucos cobres devem chegar,
Que é comum do homem os seus venenos custarem pouco,
Quem já viu, entretanto, uma cura a preço módico?
Sem lástimas : é do homem, é do homem!
Tomemos, pois, gelado, o nosso veneno
Que, atenuante, é de mais agrado ao paladar.
Às crianças, mantê-las de ouvidos despertos,
Qualquer beberagem de cafeína e noz de cola,
Aos mortos, nada
Que de nada precisam, os mortos.
Acomodemo-nos em nossas cadeiras
(e há assentos para todos, com o nome de cada um em seus espaldares, a exemplo das lápides)
Para mais uma coletânea de atrocidades,
De pecados a ser justificados.
Para impulsionar a roda de mais um ciclo de sofrimentos:
Purguemo-nos em mais um XV de Agosto.

sábado, 13 de agosto de 2016

Não Tem Cura Pra Puta

A cachaça não é apenas mais uma bebida alcoólica, uma mera aguardente de cana-de-açúcar. A cachaça é uma instituição nacional. Deveria figurar ao lado dos símbolos nacionais, a saber : a bandeira, as armas, o selo e o hino. É a alma tupiniquim tridestilada em alambiques de cobre e envelhecida em barris de pau-brasil.
A cachaça é bem inalienável do Patrimônio Cultural Imaterial do país. Faz parte do folclore. Abrilhanta as letras e as canções de nossa MPB. Desequilibra quem a toma, mas equilibra a balança comercial da nação - é um dos nossos principais produtos de exportação.
Não lhe bastassem todos esses atributos e relevâncias, algumas cachaças guardam em si também propriedades medicinais e curativas, sobretudo para os males da alma, do coração e do bom e velho chifre. É água que se passarinho bebesse, cantaria muito melhor e feliz. 
É uma verdadeira panaceia. Deveria constar dos compêndios da farmacopeia brasileira, ao lado do boldo, da carqueja, do capim santo, da babosa, do barbatimão, do guaco e do agrião, do quebra-pedra e da catuaba.
Cura desde a dor no velho chifre até rosca frouxa, passando por acalmar sogra e corno brabos.
Presta-se também, é claro, a levantar pau mole e encharcar buceta seca 
Também é eficiente beberagem contra a feiura e a baranguice. A cachaça opera milagres na supervalorizada área da estética e do embelezamento.
Mas sempre existem os oportunistas, os picaretas de plantão, os aproveitadores da boa-fé do povão. Charlatães que, valendo-se da credibilidade da cachaça junto à população, lançam produtos fraudulentos no mercado, falsos paregóricos, meros placebos que não se prestam nem a paliativos para a moléstia à qual dizem se destinar. Até porque, para certos males, não há cura. Encontrei, dia desses, dando uma flanada pela net, um desses falso elixires.
Se você tem namorada, esposa ou outras que tais com o famoso calor na bacurinha e, de repente, viu nessa cachaça uma esperança para os seus problemas, a perca - a esperança - de vez, meu amigo. Não existe ex-puta, não há cura para o furor uterino e bucetal. Até porque uma única vacina jamais seria capaz de abarcar todos os tipos de puta que existem. Puta tem mais tipos e mais cepas que o vírus da dengue e da influenza. Tem a puta psiquiatra (aquela que dá com hora marcada), a puta freira (aquela que dá aos pobres), a puta bavária (a preferida dos amigos), a puta Casas Bahia (te olha e diz : quer pagar quanto?), a puta 11 (vai um atrás do outro), a puta coração de mãe (sempre cabe mais um), a puta MST (não pode ver um pau que já quer armar a barraca e assentar), puta Skol (aquela que dá o redondo), a puta duvido (duvido que alguém pague para comer isso) etc etc. E a pior das putas : a puta filha da puta, aquela que dá pra todo mundo menos pra você. Pããããta que o pariu!!! Literalmente.

em tempo : as propriedades esculápicas da cachaça são cantadas em verso e prosa pelo cancioneiro nacional desde as priscas eras. Uma bem-humorada canção a respeito é Água Benta, composição e interpretação de ninguém mais ninguém menos que ele, o maior catedrático do assunto que o Brasil já teve : Mussum, o Mussunzis, com a luxuosa participação de Alcione, a Marrom, outra grande conhecedora do tema.
Água Benta
(Mussum)
Eu peguei, eu peguei para beber
a água benta que faz a gente esquecer
Eu peguei, eu peguei para beber
a água benta que faz a gente esquecer

Eu já vinha bem cansado, quando alguém me avisou
no final daquela estrada tem água que cura desamor
lavei minha alma, refresquei meu coração
e aprendi que tendo calma nunca vou sofrer desilusão

Eu peguei, eu peguei para beber
a água benta que faz a gente esquecer
Eu peguei, eu peguei para beber
a água benta que faz a gente esquecer

Agradeço a vós, que me deu a indicação
Hoje eu tenho meu corpo fechado e purificado de amor e paixão
Se não fosse a água, que curou a mágoa do meu coração
minha vida era tristeza e eu morreria de tanta paixão

Eu peguei, eu peguei para beber
a água benta que faz a gente esquecer
Eu peguei, eu peguei para beber
a água benta que faz a gente esquecer.

para ouvir Água Benta, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

É a Podridão, Meu Velho (11)

E olha que eu trapaceei,
Dormi a tarde inteira
Para que a madrugada pensasse
Que ainda sou viril.
E olha que rondei a cidade
A me procurar.
E olha que pus o arado de diamante na vitrola
Para reaerar e adubar
Os sulcos dos velhos vinis
(Pus Chico, pus Nélson, pus Ney, pus Adoniran, pus Raul, pus o Rei).
E olha que escavei as velhas gavetas
As velhas cartas
As velhas fotografias
Reli os velhos gibis.
E olha que tomei rum
Puta que o pariu se tomei rum!!!
O meu superamendoim,
O meu espinafre,
O meu soro do supersoldado,
A minha picada de aranha radiativa,
A minha explosão gama,
O meu mjolnir.
E nada dos ossos soldarem,
Das asas reinflarem.
E olha que eu esperei,
Parado,
Pregado na pedra do porto...
E nada do meu galeão-fantasma,
Do meu holandês voador
Atracar.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

RECL - AMAVA

Do blog http://p-o-e-s-i-a.blogspot.com.br/ - muito bom, Gianndre, muito bom.

RECL - AMAVA
Ela sempre reclamava
ou do amor que era demasiado
ou do amor que faltava,
engraçado é que me tinha ao lado
e sorria.
Aquela santidade nunca convenceu.

Eis que num belo dia,
de certo por falta de poesia
disse-lhe,
"o problema não é você, sou eu".

Ela já irritadiça com meus dilemas,
disse-me
"de agora em diante
ainda que o amor novamente se levante
é cada um com seus problemas".

Eu, que de besta tenho tudo
fui desbravar o mundo,
fui raso, fui fundo, fui leve.

Eis que num belo dia
em vários, para não mentir,
retorna a maldita poesia
como quem nada quer
fazendo-me correr
atrás daquela mulher.

Ela, sempre no seu orgulho
agora vem e me diz
"cada um com seus poemas".

Atente-se bela dama,
Leminski também dizia

"Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima".

digo eu nesse instante
quem não valoriza
a quem te ama
sente um dia a vida vazia.
 
Raiva ou rima
de agora em diante?

domingo, 7 de agosto de 2016

Escola Sem Partido, Já (2)

Estudantes de nosso Brasil dantes mais varonil, sobretudo os do ensino médio, atentem-se : estão querendo lavar suas cabeças, estão querendo aliciá-los para o exército vermelho de vagabundos que sangra os erários desse país, que nada produzem, que vivem às custas dos impostos do verdadeiro trabalhador, do pagador de impostos.
A canalhada vermelha vagabunda se disfarça de várias formas : de movimentos sociais, de ONGs, de sindicatos, de partidos políticos e, sim, de professores. 
Atente-se, jovem formando, querem seu cérebro moldável e ingênuo para formatá-lo, para chipá-lo.
Eu, na minha época de estudante de ensino médio, isso em inícios da década de 80, já senti esse tipo de assédio político e doutrinador. De um professor de História, um barbudo boa-pinta por quem as menininhas se molhavam, um cara metido a cool, frequentador do boêmio bairro paulistano da Vila Madalena, conhecia músicos e artistas e outras merdas. Esse cara queria porque queria converter todo mundo pro PT, pedia pra gente falar bem do Lula em casa, para que nossos pais votassem no canalha etc.
Isso em 1982, 1983. Imaginem, então, hoje. Hoje, os missionários do PT, as Testemunhas do Lula, estão exponencialmente mais abusados. Vejo isso todos os dias na escola em que leciono.
Leiam com atenção os seis itens a seguir, que são os deveres do professor imparcial, do professor que informa sobre todos os lados da moeda sem demonstrar pendor nem tampouco predileção por nenhum deles, que informa friamente sobre as principais versões, opiniões (não a dele) e perspectivas sobre o assunto e deixa que o aluno decida por si. 
Se algum professor violar algum desses itens, se tentar fazer com que você mude de opinião política, se disser que seu candidato não presta, denuncie, converse com seu diretor, seu coordenador, e, se não adiantar, recorra à Diretoria de Ensino de sua região, na figura do Supervisor de Ensino. Não se deixem enganar, não se deixem seduzir pela fala mansa desse povo, que posa de muito democrata e tudo, mas que são incapazes de aceitar qualquer opinião que divirja da deles. Cuidado com os formados nas tais "ciências humanas", nos cupinchas de Marx, sobretudo as sociólogas e as pedagogas.
Para mais informação sobre o projeto Escola Sem Partido:

"Em uma sala de aula, a palavra é do professor, e os estudantes estão condenados ao silêncio. Impõem as circunstâncias que os alunos sejam obrigados a seguir os cursos de um professor, tendo em vista a futura carreira; e que ninguém dos presentes a uma sala de aula possa criticar o mestre. É imperdoável a um professor valer-se dessa situação para buscar incutir em seus discípulos as suas próprias concepções políticas, em vez de lhes ser útil, como é de seu dever, através da transmissão de conhecimento e de experiência cientifica."
                                                                                                               Max Weber

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Buceta Go!

Nos últimos dias, semanas, sei lá, tenho visto de soslaio, ouvido de canto de orelha, em jornais, revistas, tv, internet, manchetes sobre o jogo Pokémon Go. Que ele já teve um porrilhão de milhões de downloads (mais um idiota cibernético que fica milionário), que está prestes a se tornar uma verdadeira pandemia, que já cativou uma legião imensa de seguidores zumbis eletrônicos, que absorve de tal forma o jogador, deixa-o tão alheio ao mundo real, que já foi responsável por atropelamentos e até por mortes em países como os EUA e o Japão, onde foi primeiramente lançado. Nas rápidas manchetes em que meus olhos bateram inadvertidamente, nada era dito do jogo - em que consistia, como funcionava, parecia que era algo tácito, ele foi lançado hoje e era como se o mundo todo, instintivamente, soubesse suas regras. Também não fui atrás de me informar de detalhes. Não me interesso. Quero que o Pikachu se foda!
Só que agora essa merda chegou ao Brasil, e como infecta, principalmente, o público adolescente, em cujo meio eu passo grande parte de meu dia, acabo não tendo escapatória, todas minhas rotas de fuga ficam bloqueadas e acabo por tomar ciência desses modismos.
Hoje, na aula antes do intervalo, naqueles cinco minutos finais em que os alunos já guardaram o material e ficamos esperando, todos, o soar do gongo da liberdade, dois deles se chegaram a mim e perguntaram se eu também ia caçar pokémons. Perguntaram de sacanagem, claro, pois é notória a minha aversão por celulares e congêneres. Eu ri e perguntei que porra é essa de caçar pokémons, pois ontem ainda, dentro do ônibus, vira três idiotas com seus celulares nas mãos a trocar informações sobre a localização desse e daquele pokémon.
O que entendi sobre o jogo foi o seguinte : uma vez feito o download e concluída a instalação, o programa do jogo utiliza o GPS do celular para localizar a cidade em que se encontra o jogador, e, a partir daí, utilizando os recursos do Google Maps, distribui as criaturinhas pelas ruas, avenidas, praças, parques e até cemitérios da cidade do jogador. E está pronto o cenário do jogo. Daí, é só o cara sair seguindo as instruções do GPS, andando pela rua feito um autômato, com olhos grudados na telinha, à cata dos pokémons. Quando o jogador é bem sucedido em seguir as coordenadas e chega corretamente ao local onde está um pokémon, uma pokébola aparece na tela e é com ela que o jogador irá tentar aprisionar o pokémon.
E qual o objetivo do jogo, perguntei eu, caçar pokémons para quê? Ué, respondeu o aluno, para virar um treinador de pokémons, é claro. Claro, porra! Que burrice a minha! Para que alguém caçaria pokémons? Para virar treinador de pokémons, ora! Os caras capturam os pokémons, os treinam e depois se reúnem em ginásios para realizar batalhas entre eles - no jogo, também há coordenadas de locais na cidade em que jogadores devem se encontrar para travar suas contendas. Ou seja, o cara vira uma espécie de cafetão de pokémon; melhor, é um tipo de briga de galo.
Caçar pokémons... pããããããata que o pariu!
Quase não me contive - a fala chegou-me à garganta e eu a engoli de volta, feito vômito que conseguimos conter -, quase falei : caçar pokémons? virem homem, porra, vão caçar buceta!!!
Sim. Na minha época, na idade em que esses meninos estão, 16, 17 anos, a gente saía pelas ruas era a caçar a famosa buceta! Não à toa, a meladinha é conhecida também pela alcunha de A Perseguida. Caçávamos era buceta. Quase sempre fracassávamos, é verdade. Na época, há trinta ou mais anos, a buceta era presa muito mais difícil, não andava tão exposta como hoje, era mais furtiva, se camuflava melhor ao meio, era mais esquiva, arisca e arredia, era muito mais difícil de ser localizada, encurralada e, finalmente, capturada. Tanto que muitos meninos que queriam ver uma buceta acabavam indo na zona, mas aí não tinha muita graça, pegar buceta em zona é a mesma coisa que pescar em pesque-pague, não me dá nem nunca me deu tesão nenhum.
Caçar pokémons... Hoje, o jovem tem a internet como uma arma poderosíssima de localização, captura e abate de bucetas. Há sites em que o cara se cadastra com um único objetivo, trepar. Não é pra namorar, não é pra casar. É só para trepar rapidinho e nunca mais ver. Sites como o Tinder, Badoo etc, também se utilizam de mecanismos de geolocalização para colocar pintos e bucetas em contato. O cara se cadastra e assim que faz o login já aparece um mapa com a localização dele e de todas as bucetas disponíveis num raio de tantos quilômetros, é só o cara escolher a que está mais perto e partir pro crime. É um GPS de buceta!
Se houvesse um GPS de buceta quando eu era adolescente, eu não faria mais nada da vida, eu ia era gastar a rola, nem sei se estaria vivo até hoje.
Hoje, o jovem tem um GPS de buceta em suas mãos e faz o quê? Vai caçar pokémons! Ora, vão à merda, meninos. Caçar pokémons é o caralho! Vamos parar de perobagem, molecada. De queimar a rosca, de morder a fronha, de beijar pra trás, de dar ré no quibe, de agasalhar o croquete e de empanar a salsicha.
Vá caçar buceta, molecada! Vão caçar buceta, meninos. Vão armar alçapão pra pegar xereca. Vão bater tarrafa para pescar xavasca!
Buceta Go, meninos! Buceta Go!
 Taí, a Pikachana.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Escola Sem Partido, Já

Fora com os doutrinadores comunistas disfarçados de professores, de educadores. Fora com a canalha comuna a arrebanhar e a aliciar os nossos filhos para a militância e para a vagabundagem. Tratar de educação cívica e política nas escolas, sim; catequese, lavagem cerebral partidária, não!
O Marreta apoia, incondicionalmente, o movimento Escola Sem Partido. Pau na moleira dos professores comunistas que bem gostam do salário que os pais e/ou o Estado capitalistas lhes pagam. Pau na lomba dos comunistas de facebook, dos comunistas que carregam seu iphones, ipods etc. Pau no cu desses Ches Guevaras de jaleco, giz e apagador.
Pais, exijam saber o que está sendo imposto, empurrado goela abaixo de seus filhos nas aulas de história, geografia, sociologia, filosofia e outras que tais.
A escola já é laica, sem religião. É urgente que também se torne apartidária, por força de lei se preciso for.
Escola sem Partido. Já.

Você Tem Fome de Quê?

Quem recebe e se utiliza de cartão de vale-alimentação para fazer suas compras no supermercado, sabe que algumas redes não aceitam tal forma de pagamento para bebidas alcoólicas. Na primeira vez em que me deparei com esse obstáculo, perguntei à moça do caixa sobre o porquê : cerveja não é considerada um gênero alimentício, ela me informou.
Eu, normalmente, por conta própria, já faço essa separação. Não costumo mesmo comprar cerveja nem no meu miserável e patético cartão de migalhas que recebo do Estado nem no mais bem fornido vale-alimentação (que passarei a representar daqui em diante por V.A.) de minha esposa. É coisa minha. Gosto de saber mais ou menos dos meus gastos mensais nos diversos setores que nos comem pela perna e nos arrancam o couro, para que, numa eventualidade, numa época de vacas menos gordas, eu saiba exatamente por onde posso e devo cortar alguns excessos, algumas gordurinhas do orçamento.
Mas, eventualmente, em meio a uma compra um pouco maior, até jogo umas três ou quatro latinhas lá no meio. Não vejo problemas. Tem quem vê.
A exemplos, a nacionalmente conhecida Carrefour e a paulistanamente conhecida rede de atacados Assaí não aceitam o V.A. como paga da sacrossanta cerveja. Preconceito puro. Sem nenhum fundamento lógico. Discriminação braba contra o bebum. E tenho provas irrefutáveis do que afirmo.
Dia desses, ontem para ser mais exato, eu passei pelo Assaí para comprar uns víveres e outros que tais, e acabei aproveitando uma oferta de cerveja, comprei um fardo da boa e barata Proibida Puro Malte (a do rótulo preto, que a do vermelho não é grande coisa) para tomar no fim de semana.
Ao colocar minhas compras na esteira do caixa, já fiz a separação, primeiro o fardo de cerveja e, logo atrás, guardado um certo espaço entre eles, os outros produtos - primeiro os gêneros de primeira necessidade, depois os supérfluos -; eu pagaria a cerveja com dinheiro e o restante com o V.A.
A operadora do caixa, quando viu o cartão alimentação na minha mão, foi logo recitando a programação lhe inculcada em seu treinamento :
- Senhor, não pode pagar bebida alcoólica com V.A.
Eu disse que já sabia e que iria pagar em duas contas separadas. Ela passou a cerveja e eu paguei em espécie. Então, ela foi passando os outros produtos, um frango congelado, um pedaço de muçarela, um pão de forma, um pote de maionese, duas caixas de suco de laranja, mais duas de leite integral e, só me caiu a ficha na hora, também alguns produtos de limpeza, um pacote de sabão em pedra, umas buchas de lavar louças - daquelas amarelas de um lado e verde do outro -, um litro de água sanitária e três tubos de detergente. A moça passou tudo aquilo e cobrou a conta toda no V.A., sem nenhum problema ou ressalva.
Pããããããããta que o pariu!!!! Quer dizer que cerveja não é considerada gênero alimentício e uma barra de sabão, sim?
Como todos sabem, nós temos duas consciências opostas, conflitantes e em eterno litígio a nos aconselhar e a nos dar ideias. São aqueles famosos anjinho e diabinho, cada qual em um de nossos ombros, que ficam disputando nossa alma. O primeiro só nos inspirando bons sentimentos e boas ações; o segundo a fomentar maus pensamentos, que são sempre os melhores. Pois bem. Se além do diabinho no ombro esquerdo, eu tiver também um anjo no direito, esse anjo é o caído, é o Lúcifer. Eu não penso nada que preste. Só penso em canalhices e sacanagens, embora quase nunca as ponha em prática.
Na mesma hora, veio-me a ideia de pedir à moça do caixa que me chamasse o gerente - sim, o gerente, pois a moça não tem culpa nenhuma, só segue ordens. Assim que o gerente - de gravatinha, sapato de verniz e gel no cabelo - chegasse até mim com seu passo altivo, orgulhoso de seu pequeno poder, eu lhe perguntaria por que não pude pagar a cerveja no V.A. 
Ele ajeitaria a gravata, empertigaria-se, colocaria-se levemente na pontas dos pés, para tentar se pôr num patamar superior ao meu, empostaria a voz e diria que cerveja não é alimento.
Aí, ele teria caído na minha armadilha, aí, ele teria me dado a deixa de que eu precisava. Cerveja não é alimento, e sabão em pedra, detergente e esponjas lava-louças, são? - eu lhe perguntaria. Ele gaguejaria, ensaiaria sons desconexos enquanto tentava organizar seus pensamentos. Eu, claro, não lhe daria tempo.
- Pegue esse sabão em pedra aqui - eu começaria a minha artilharia -, come um pedaço pra eu ver, vai, dá uma boa duma mordida. Ele começaria a suar e a ficar impaciente, rir aquele risinho amarelo, sem graça.
- Não? Não aprecia a marca, Minuano? Tudo bem. Posso trocar por uma de sua preferência, Ypê, Brilhante, qual prefere? Ah!!! Pelo jeito, você é um gourmet. Não há problemas, posso tentar providenciar um sabão artesanal, caseiro.
Ele, afobado, começaria a olhar para os lados, à procura de algum segurança.
- Ah, está de regime? Tudo bem. Então, só tome um gole desse suquinho de tensoativo, detergente para os menos letrados. Não lhe agrada o neutro? Tem aqui também um de laranja e outro de coco.
Pããããããta que o pariu!!!
O caralho que cerveja não é alimento. Diga isso para a minha incipiente e crescente  barriga. A cerveja é rica em minerais como o cálcio, o fósforo, o sódio e o potássio, o que a torna uma excelente repositora de eletrólitos, um gatorade de macho. É rica também em vitaminas, sobretudo as do complexo B; a B1, que auxilia no funcionamento dos nervos e músculos, a B2, que colabora para a manutenção dos tecidos, e a B5, que age no metabolismo de carboidratos e gorduras. Além, é claro, dos carboidratos do malte e da cevada.
Não é alimento? O caralho que não.
E isso dizendo só das necessidades do corpo. E para a alma, então? Aí é o próprio maná, a própria ambrosia. Um bom canecão de cerveja fortalece minha esquálida e triste alma tanto quanto uma lata de espinafre anaboliza os bíceps do Popeye. Dá-lhe não somente asas, que isso é slogan de outra bebida para viadinhos, acopla-lhe também turbinas, reatores atômicos, propulsores fotônicos, feito os da Enterprise.
Mas ainda existem territórios livres nos quais os machos das antigas podem exercer seu livre arbítrio. Há, aqui na região, a rede Savegnago de supermercados, que aceita na boa o V.A. na compra de cerveja. Não faz distinção, não discrimina nem faz perguntas sobre a origem do dinheiro; dinheiro bom é dinheiro em caixa. Um verdadeiro paraíso fiscal, o Savegnago.
Pau no cu do Carrefour e do Assaí. Vida longa ao Savegnago e a todos os outros mercados de boa vontade.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

E Não Mais Tornarei a Falar de Ti (Ou : Um Réquiem para Christopher Reeve)

Correu. 
Mais rápido que o mais rápido valha, 
Corisco, arisco : uma bala. 
Correu, mas nunca do risco, 
Nunca da batalha. 
E estamos, hoje, um pouco mais medrosos 
Sem você a lutar por aí.  

Saltou. 
Alto, alturas sem esforço nem sacrifícios. 
Saltou impunidades, injustiças, 
Himalaias e precipícios. 
Num único salto, as solas vermelhas de suas botas 
Passando por King Kongs em seus edifícios. 
E andamos, hoje, de cabeças bem mais baixas 
Para não constatarmos o seu não-mais-saltar por aí.  

Voou. 
Não como um pássaro; que pássaro que nada. 
Voou como só gente pode voar. 
De punhos cerrados, dentes trincados, 
Com urgência : 
Voou sem nunca o voo aproveitar. 
E estamos, hoje, de asas e sonhos podados 
Respiramos com mais cuidado sem você a voar por aí.  

Sangrou. 
Sangrou raramente, é fato. 
Mas agora que o fez 
O fez pra valer, o fez sem recato. 
E que hemoglobina que nada! 
Sangrou todas as lágrimas de um povo, 
Sangrou em definitivo, sangrou de verdade. 
Colhido em foice de lâmina verde, 
Sangrou no clarão manso de um luar de jade. 
(Seu túmulo : uma cicatriz na face agora menos risonha do planeta) 
E o mundo tornou-se, hoje, ainda menos seguro 
Sem você a sangrar por nós, por aí.

Cavalariço

Minha pele não transpira: sangra. 
De um sangue sem cheiro, sem cor, 
Sem céu nem pigmento. 
Que escorre e se empoça em angras, 
Residência de destroços, serpentes marinhas, 
Holandeses voadores em lamento. 

Minha pele não é quente: tem febre. 
De pouca caloria, branda, imberbe. 
Sem tiritar, calafrios, sem licença médica, 
Sem drama; 
Pouco além dos 37, dispensando vitamina C, 
Banho gelado e cama : febre diplomática. 

E é com igual parcimônia, 
Assim tão desprovido de viço, 
Tão servil, cavalariço, 
Sem vigor tampouco flama 
Que meu coração bate no peito 
E diz (acha) que ama.