segunda-feira, 2 de julho de 2018

Viva a Buceta Rosa! Viva o Humor Brasileiro!

O brasileiro é cordial para com o turista estrangeiro - pudera, todo o mundo é cordial para com o dólar. O brasileiro é hospitaleiro, é acolhedor, mi casa sua casa. O brasileiro abraça o gringo, ensina-o a sambar, leva-o para visitar favela, dá-lhe caipirinha, amarra-lhe fitinha do Senhor do Bonfim no pulso, calça-o com um par de havaianas e, porque ninguém é de ferro, sacaneia o gringo, apronta poucas e boas com ele.
Brasileiro adora tirar um sarro de gringo, adora fazer com que o gringo faça papel de bobo. Nesse quesito, a brincadeira mais tradicional é ensinar certos termos e expressões de nossa língua, de preferência palavrões e frases de duplo sentido, para que o desavisado visitante as aplique de forma inadequada, as utilize fora de contexto, provocando, então, a piada.
Por exemplo, o gringo pergunta ao brasileiro, "como ser good morning em português?". E o brasileiro responde, "é vai tomar no cu". E o gringo sai felizinho da vida, esbanjando simpatia para com os nativos, sai distribuindo "vai tomar no cu" pra todo mundo, pro recepcionista do hotel, pro taxista, pro jornaleiro etc. Todo mundo ri. Ninguém se ofende. Até o gringo, depois de lhe esclarecido o embuste, ri. "Como ser thank you em português?", pergunta o gringo. "É obrigado, meu viado", ajuda o sempre solícito brasileiro. E a coisa por aí segue.
Havia, inclusive, na década de 80, ou de 70, um quadro do Jô Soares no qual esta modalidade do típico humor brasileiro, do nosso humor raiz, digamos assim, era explorada. Não lembro o nome do personagem e não consegui encontrá-lo na internet, mas o Jô interpretava um gringo, um ianque, que perguntava aos "amigos" sobre termos em português dos quais tinha dúvidas. Ele, querendo elogiar uma moça, dizer que ela tinha um belo sorriso, perguntava aos amigos e eles lhe instruíam, "ela tem um boa bunda". E todo mundo ria. Em rede nacional. E ninguém se ofendia. Não tinha mimimi de feminista nem de quaisquer outros tipos de vagabundos e desocupados.
O cantor inglês Ritchie, o comedor da Menina Veneno, conta que também foi "vítima" muitas vezes desta saudável sacanagem tupiniquim por parte do cantor Lobão. E são amicíssimos até hoje.
É um tipo de humor que é parte de nosso Patrimônio Cultural Imaterial. É uma espécie de batismo de fogo para o gringo, um ritual de passagem, um abraço de boas-vindas, uma demonstração de acolhimento e bem-querer, uma maneira macha de dizer, "agora, você é um dos nossos".
Porém, a Santíssima Trindade da Repressão Global - o Politicamente Correto, os Patrulheiros Ideológicos/Justiceiros Sociais e a Globalização -  está de olho nesta vertente gaiata do humor brasileiro. O Politicamente Correto - a cartilha do pensamento dos que não conseguem pensar, o fast food de opiniões para quem não é capaz de formar as próprias, os azedos, rançosos, invejosos e desprovidos de todo e qualquer talento -; os Patrulheiros Ideológicos e Justiceiros Sociais - a matilha de guarda do primeiro, raivosa, sifilítica e acéfala; a Globalização - a maior ditadura já instalada no planeta -, Orwell, se vivo, coraria de vergonha pela ingenuidade de seu 1984.
Desde semana passada (sim, a notícia é velha, mas meu ritmo de escrita, também), turistas brasileiros na Rússia, autênticos adidos culturais do Brasil a representar no estrangeiro este viés travesso de nosso humor, vêm sendo trucidados através das redes sociais; um deles, me parece, até perdeu o emprego. Diplomatas de nossa cultura mais popular - a piada -, embaixadores de nosso humor de raiz, ganharam a pecha de "criminosos". Sim, a eles assim se referiu um âncora de um jornal do canal Globonews - ações criminosas são praticadas por brasileiros na Rússia.
E tudo porque fizeram, na Rússia, a brincadeira de ensinar aos nativos do local uns palavrõezinhos, tudo porque quiseram compartilhar de nossa genuína cultura com os austeros russos.
Em um dos vídeos, os brasileiros abordam um jovem russo e dizem que querem gravar uma mensagem dele para o povo brasileiro. Como o russo não fala picas de português, os brasileiros lhe passam o script. Fala "eu sou um filho da puta", orienta o brasileiro, e o rapaz, muito feliz da vida, muito alegre, repete, "eu sou um filho da puta". Fala "eu sou viado", e o rapaz, "eu sou viado". Fala "eu dou pro Neymar", e o rapaz, "eu dou para o Neymar". E os dois, o brasileiro e o rapaz russo, saem satisfeitos da vida. Algum prejuízo foi causado à vida do rapaz? Algum trauma? Alguma violação de direitos? Alguma coação?
Em um outro vídeo, o que ficou mais famoso, o da buceta rosa, brasileiros pulam e cantam em volta de uma torcedora russa, uma maria chuteira lá deles, "essa é bem rosinha, essa é bem rosinha... buceta rosa, buceta rosa". E a moça entra no coro com eles. Assédio? Conduta criminosa? Não vi ninguém agarrando a moça, ninguém passando a mão nela.
Em um outro ainda, brasileiros abordam duas estrangeiras, alegrinhas e festivas, muito simpáticas com os rapazes, e também lhe passam o roteiro . Fala "buceta loura, loura!", "I love Brasil", "Eu vou dar para Thiago, vou dar a buceta loura". Ao fim do vídeo, eles se despedem e cada qual segue o seu caminho. Assédio? Em nenhum momento, os rapazes sequer tocam nas moças, nem mesmo os de praxe "três beijinhos". Conduta criminosa? A moça, de fato, ia dar pro Thiago? O Thiago, em algum momento, tentou convencê-la a tal ato? Acho que nem o Thiago tava afim, naquele momento, de comer a russa, tava mais querendo tomar sua cerveja e se divertir com os amigos.
Brincadeira e piada de mau gosto? Pode até ser. Mas ainda uma piada. Quem disse que uma piada tem que ser engraçada para todos que a escutam, que o humor ou é unanimidade, ou não é humor?
Por outro lado, basta sintonizar numa rádio para ouvirmos, a exemplo, o funk "novinha senta na pica". Ou o mais recente Open The Tcheka, de autoria de Mc Lan, cuja letra guarda raros momentos de poesia : "Vamos ensinar inglês/Pras buceta analfabeta/Vamos ensinar inglês/Pras pepeca analfabeta/Open the tcheka, vai!/Open the tcheka, vai!/Open the tcheka/Ain, ain, ain/I love you too cu/Então senta no piru/I love you too cu/Então senta no piru.
Buceta rosa é conduta criminosa, é assédio. E novinha senta na pica, ou vamos ensinar inglês pras buceta analfabeta, são o quê? Liberdade de expressão musical, diversidade cultural, cultura dos oprimidos, berrarão em uníssono os politicamente corretos. E arrisque-se, você, a dizer que não, a dizer que acha esse tipo de "música" um lixo. Taxar-lhe-ão, no mesmo instante, de preconceituoso, de elitista, de racista, de filho do Bolsonaro.
Eu só queria saber quem é que decide isso. Quem é o juiz dessa merda toda? Quem é que toma duas situações de incríveis e inegáveis verossimilhanças e diz : esta não pode, é assédio, é crime; esta está liberada, é liberdade de expressão? Por que "buceta rosa" causa constrangimento e "novinha senta na pica" não? Por que há liberdade de expressão para "novinha senta na pica" e não para a "buceta rosa"? Ou por que não há a condenação para os dois casos?
Quem é que está por trás de toda essa ditadura do pensamento?
Vivas para os brasileiros na Rússia! Viva o humor brasileiro! Viva o Zé Trindade! Viva o Costinha! Viva o Ari Toledo! Viva o Paulo Silvino! Viva o Agildo Ribeiro! Viva Manuel e Carlos Alberto de Nóbrega! Viva o Zé Bonitinho! Viva Paulinho Gogó e Mateus Ceará!
E, claro, viva a buceta rosa!

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Pontos de Vista e Outras Miopias e Misantropias

Por que a impressão
De que peixes multicores,
Em seus aquários climatizados,
De pHs e salinidades ótimos,
Miniaturas do Mar de Sargaços,
São mais felizes
Que pássaros canoros
Em sua gaiolas de poleiros
E de chãos cagados?
Ou que também o sejam
Humanos em seus carrões
Em seus cargos de chefia
Em seus casamentos
Em seus apartamentos com sacada gourmet?
(e os selvagens e os mortos brindam e riem; 
brindam por si próprios; 
riem de nós)

sábado, 23 de junho de 2018

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (30)

Gata vira-lata que passa todo o cio na rua, a vadia torna à porta da casa do corno - exaurida da farra, extenuada da boemia, fatigada da esbórnia. Arrebentada, arregaçada, aos cacos, em petição de miséria, roga, mais uma vez, guarida ao chifrudo.
E o corno faz o quê? Bota a vagabunda pra correr? Manda-a cantar em outra freguesia? Porra nenhuma, meus amigos, que corno é corno. O corno lhe dá asilo e refúgio. Cuida das feridas da puta, dá-lhe banho, fumiga a buceta dela  com Neocid para acabar os chatos, faz-lhe nutritiva canja, traz-lhe travesseiro e cobertor, leva-a ao dentista, arruma-lhe os dentes, manda botar pivô e ponte móvel,  dá-lhe penicilina para a sífilis e a gonorreia, casa-se com ela, dá-lhe o próprio nome, a única herança que seu pai lhe deixou.
E a puta? Reconhece a benemerência do corno? Tem-lhe gratidão eterna? Sossega a xavasca e passa a ser dedicada esposa e dona de casa? Porra nenhuma, meus amigos, que puta é puta. Uma vez recuperada, refeita e pronta de novo pra pôr pra jambrar, a biscate cai na orgia mais uma vez. Dá as costas para o corno e sai dando a bunda para outros.
O que resta ao corno? Beber e cantar. Cantar músicas de corno. Ou compô-las. Como é o caso da belíssima canção Coração em Desalinho; na minha opinião, uma das mais tocantes e pungentes músicas do cornuário de nossa MPB. De autoria do nascido português Alcino Correia Ferreira - o que só vem a confirmar que o chifre é multiétnico e multicultural -, mas criado desde os quatro anos de idade no meio da malandragem carioca e batizado por ela de Ratinho, foi celebrizada na voz de Zeca Pagodinho.

Coração em Desalinho
(Ratinho)
Numa estrada dessa vida
Eu te conheci
Oh Flor!
Vinhas tão desiludida
Mal sucedida
Por um falso amor...

Dei afeto e carinho
Como retribuição
Procuraste um outro ninho
Em desalinho
Ficou o meu coração
Meu peito agora é só paixão
Meu peito agora é só paixão...

Tamanha desilusão
Me deste
Oh Flor!
Me enganei redondamente
Pensando em te fazer o bem
Eu me apaixonei
Foi meu mal...

Agora!
Uma enorme paixão me devora
Alegria partiu, foi embora
Não sei viver sem teu amor
Sozinho curto a minha dor...

Numa estrada!
Numa estrada dessa vida
Eu te conheci
Oh Flor!
Vinhas tão desiludida
Mal sucedida
Por um falso amor...

Dei afeto!
Dei afeto e carinho
Como retribuição
Procuraste um outro ninho
Em desalinho
Ficou o meu coração
Meu peito agora é só paixão
Meu peito agora é só paixão...

Tamanha desilusão
Me deste
Oh Flor!
Me enganei redondamente
Pensando em te fazer o bem
Eu me apaixonei
Foi meu mal...

Agora!
Uma enorme paixão me devora
Alegria partiu, foi embora
Não sei viver sem teu amor
Sozinho curto a minha dor
Sozinho curto a minha dor
Sozinho curto a minha dor...

Para ouvir, relembrar da puta e chorar, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO .

O Que é Que a Rússia (e a Russa) Tem (V)

Os ícones religiosos são um dos expoentes da arte pictórica russa. Na visão da ortodoxia russa, porém, o ícone é muito mais que a simples pintura de uma divindade, ou de um santo, vai muito além de uma mera representação figurativa.
Para os russos, o ícone não só representa as formas, mas também incorpora a energia e os poderes da divindade feita em pintura; mais que uma tela é uma revelação do divino, uma teofania, uma janela que se abre para o reino dos céus, pela qual se pode contemplar relances do mundo espiritual. 
Trago-vos, pois, um dos ícones sagrados da peitaria russa, Jana Delfi. Vislumbrar - de joelhos, em oração, em ato de contrição - os peitos de Jana Delfi é uma verdadeira epifania, uma janela para o paraíso. Dá quase para acreditar em Deus. Quase.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Um Tango Argentino Me Vai Bem Melhor Que um Blues

Nunca escondi a minha simpatia pelo antipático povo argentino, pelos considerados arrogantes hermanos. Argentinos não são arrogantes. São mesmo melhores intelectualmente que nós, brasileiros; o que, convenhamos, nem chega a ser uma façanha tão épica assim, mas o são.
Não obstante a doença e o fanatismo comuns pelo futebol e por presidentes populistas e corruptos, a Argentina, por exemplos, já foi laureada com 5 prêmios Nobel - dois da Paz, dois de Medicina (simplesmente a técnica do marca-passo) e um de Química. O ônibus, a caneta esferográfica, o sistema de impressão digital são inventos argentinos. A Argentina já ganhou dois Oscars. Segundo o site Portal Aprendiz, há mais livrarias na cidade de Buenos Aires que no Brasil inteiro (note-se que a capital portenha conta com 4 milhões de habitantes; o Brasil, com mais de 200 milhões), há uma enorme indústria de pirataria de livros na Argentina, lá eles pirateiam livros, meus caros, Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez etc; no Brasil, pirateia-se sertanejo universitário.
Por isso, nas Copas do Mundo, sempre que posso, torço pela Argentina. Logo, confesso que fiquei chateado com a derrota de hoje dos hermanos frente aos croatas. E por um placar beirando a humilhação, 3 x 0. Só assisti ao primeiro tempo, cujo tempo regulamentar encerrou-se num morno zero a zero. Depois fui cuidar da vida e só liguei ao final. O melhor do mundo Messi, semideus direto da genealogia do deus Maradona, mais uma vez, não fez porra nenhuma pela Argentina numa Copa do Mundo. Assim como, até agora, e torço muito para que assim permaneça, o aspirante a santo milagreiro Neymar nunca fez porra nenhuma pela seleção brasileira.
Os hermanos já não vinham bem do jogo anterior, no qual conseguiram um empate suado contra a gélida Islândia. Campeã mundial de IDH e qualidade de vida, a Islândia é inexpressiva no futebol; para o islandês o futebol é mero passatempo, a educação, a saúde, a segurança, enfim, a civilidade, são mais importantes. Tanto que muitos jogadores islandeses nem são futebolistas em tempo integral : o técnico é dentista, o goleiro, cineasta, o lateral direito trabalha numa fábrica de sal, outro ainda, marceneiro.
O que me lembrou muito uma passagem da história dos 300 de Esparta. Conta-se que, ao saberem da invasão persa ao território grego pelas praias espartanas, gregos de diversas outras regiões e cidades-estado da Grécia se congregaram e afluíram em direção à batalha. Porém, fora Esparta, a grande maioria das cidades gregas não tinham tradição bélica, eram regiões agrárias, como a Arcádia, a Messênia, a Beócia etc. Mas a grega pátria amada viu que um filho seu não foge à luta. Os homens dessas regiões se armaram com que o tinham, foice, facões, machados, marretas. Quando se encontraram com o exército dos 300 espartanos,  um deles estranhou o pequeno contingente de guerreiros, bem inferior à soma dos homens das outras cidades gregas, e tentou dar uma zoada com Leônidas. Parece que nós trouxemos mais homens que o poderoso estado de Esparta... começou o sujeito. Leônidas se dirigiu aos "exércitos" das outras regiões gregas e começou a perguntar : você, o que faz? Ferreiro, dizia um. Moleiro, dizia um outro. Agricultor, um outro. Leônidas voltou-se para os seus e perguntou : e vocês, espartanos, o que sois? Os 300 ergueram os braços com suas lanças e bradaram em uníssono o grito de guerra espartano. Leônidas olhou pro cara e disse : parece que, no final, eu trouxe mais guerreiros que vocês todos juntos.
A Argentina levou muito mais jogadores de futebol a campo do que a Islândia. Ainda assim, quase sucumbiu. Se bem que há um atenuante para o sufoco argentino, deem só uma olhada no nome do goleiro : Hannes Thór Halldórsson. Pããããta que o pariu!!! O cara é descendente direto de Odin. Pode nem ser jogador, mas é o deus do trovão. Deus do Trovão fazendo bico de cineasta e de jogador de futebol pra poder viver. A vida não tá mole pra ninguém.
De qualquer forma, ainda que patente a inequívoca baixa qualidade dos conterrâneos de Maradona, chateei-me com a derrota dos argentinos frente aos croatas. Para embalar a tristeza dos hermanos e, principalmente, das hermanas, deixo aqui um clássico do tango, que é a música de corno lá deles, Lagrimas de Sangre, um dos meu preferidos.

Lagrimas de Sangre
(Roberto Giménez)
Te di todo lo mas que pude darte,
mi nombre, un hogar y un corazón,
tus ojos los veia en cualquier parte,
vivia solamente para vos.

Con lagrimas de sangre me pagaste,
no quiero recordar lo que pasó,
Dios quiera que no tenga que encontrarte
y darte la limosna de un perdón.

Si con lagrimas de sangre
devolviste todo el bien que te ofrecí,
poca cosa fué el hogar donde viviste,
poca cosa el corazón que yo te di.

A quien puede importarle mi verguenza
si es que a vos no te importo,
pero un día llorarás tu pena inmensa
con lagrimas de sangre
como he llorado yo.

Ya dirás por ahí que no fui un santo,
quien sabe en que barriales me hundrirás,
tendrás para adorarte! ... no se cuantos!
irás barranca abajo una vez más.

Ya se que no te llegan mis reproches,
total, no te interesa el que dirán,
dejame en el silencio de mi noche
más noble y más honrada que tu pan. 

Llora, Dieguito, llora...

Eu Quero Ver o Lula nas Urnas

quarta-feira, 20 de junho de 2018

O Que é Que a Rússia (e a Russa) Tem (IV)

Tudo na Rússia é farto e generoso. O território da Rússia tem uma extensão de longitude 171°21', ou seja, é cortado por 11 fusos horários. Quando no oeste está amanhecendo, no leste está a anoitecer.
Abaixo a russa Karin Spolnikova, com uma peitaria farta e de longitude sem fim. Peitões que dão pra gente ir chupando de Moscou a Vladivostok!!!

terça-feira, 19 de junho de 2018

O Segredo dos Meus Olhos

Sou um velho. Ou, no mínimo, um envelhescente. Não tenho nem nunca tive nenhuma ilusão contrária a este fato. Nem quando era jovem. Assumo-me, tranquila e orgulhosamente, um velho. Aliás, dá-me um certo alívio em saber que a maior parte da jornada já se cumpriu - sempre detestei viajar. Voltar a ter 20 anos? Só para loucos e dementes. Só para masoquistas. Estou melhor hoje que aos vinte? Claro que não. Outra ilusão que nunca nutri. Voltar aos vinte e caminhar de novo para os 50, 60, 70? Ver a decrepitude se instalar duas vezes?
No entanto, distraído e disperso que sou, não me acostumei direito, quando saio à rua, em carregar comigo meus apetrechos de velho, meu kit terceira idade, composto, entre outras muletas, de meus óculos para "ver de perto".
Há 5 anos, como comentado aqui na época na postagem Considerações Sobre as Diversas Visões, diagnosticaram-me uma presbiopia, uma dificuldade de enxergar a curtas distâncias causada pelo enfraquecimento da musculatura ocular, ou seja, pela velhice, pela podridão, meu velho; o que o povão chama de "vista cansada".
Receitaram-me óculos para "leitura", um grau e meio em cada lente. E talvez seja este um dos motivos que faça com que eu os esqueça quando saio : óculos de leitura. Para mim, leitura é pegar de um livro, de uma reportagem, de uma revista, e não ver as ofertas da semana no panfleto do supermercado, ou a placa dos itinerários dos ônibus.
Acredito, porém, que o motivo maior do esquecimento de meu viagra ocular seja outro : o cansaço das vistas nos poupa, às vezes, de um outro cansaço, o cansaço de ver, confundido muitas vezes com o primeiro, mas muito pior. O cansaço das vistas, às vezes, nos alivia o cabresto e a carga de ver.
Qual é o maior obstáculo à boa visão do velho? O cansaço das vistas, ou o cansaço de ver?
Pois estava eu, hoje, agorinha há pouco, no supermercado, a comprar uns víveres para o corpo e umas latinhas para a alma e precisei verificar o prazo de validade de um produto. Confesso que, no mais das vezes, não faço tal conferência. Há produtos que, simplesmente, não estragam. Arroz, feijão, sal, vinagre, azeite, macarrão, cerveja, vinho, salames, linguiças e outros embutidos defumados, farináceos etc. São, ou alimentos secos, inóspitos aos decompositores fungos e bactérias, ou que passaram por tal processo de industrialização - pré-cozimento, liofilização e outros -, ou que carregam tal concentração de conservantes que, simplesmente, não perecem, não nos dão motivo algum para preocupação. Outros, contudo, a exemplo os de origem láctea, requerem certa atenção. Ainda mais se para consumo infantil. Se for pra véio não tem problema, o véio toma o leite azedo, tem uma diarreia, caga até as tripas e fica tudo bem, é até bom para ajudar o véio na prisão de ventre. Mas para crianças...
Eis, então, que uma bandeja de iogurte da Batavo, sabor morango, se pôs a minha frente como adversário intransponível, com pancas e arrogâncias de uma pedra de Champollion. Não bastasse o reduzido porte das letras e algarismos a informar a vida útil do produto, a tinta de impressão estava apagada, só havia sobrado as marcas em baixo relevo na tampa de alumínio.
Não me dei por vencido nem pedi arrego ou penico, de início. Forcei as vistas, nada. Inclinei o iogurte de modo que a luz do balcão frigorífico refletisse nas ranhuras da data de validade e me revelasse o seu segredo, nada. Tentei passar os dedos por cima da data impressa, tentei Braile, nada. Vali-me de meu último recurso. Posso nunca levar meus óculos quando vou ao mercado, mas levo sempre o meu filho de 8 anos, meu filho, o segredo dos meus olhos. Chamei-o, ele nem tirou o iogurte de minhas mãos : - 18 de julho de 2018, pai. Sorri de sua facilidade. Dei uma beijoca na testa dele.
Uma senhora ao lado - aliás, senhora porra nenhuma, uma véia mesmo, destas que a Natureza já catalogou, tombou e pôs placa de patrimônio -, que estava com o mesmo problema que o meu, assistiu à cena e falou : - eu preciso arrumar um desse pra mim. E FALOU OLHANDO PRA MIM!!!!!
Só adotando, véia, só adotando, pensei. Sorri educadamente pra ela, desconversei e vazei.
Hoje, aos 50 anos, indo para os 51, meu filho já faz as vezes dos meus olhos. Logo, aos 60, 70, ou mais, fará, quiçá, as vezes de meus braços e pernas; depois as da memória; e, finalmente, espero, seja a voz corajosa a autorizar que se me desliguem os aparelhos, a mão firme a segurar a minha e os olhos a me lerem pela última vez : - Expirou a data de validade, pai.

O Filho Que Eu Quero Ter
(Toquinho e Vinícius)
É comum a gente sonhar, eu sei
Quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar
Um sonho lindo de morrer

Vejo um berço e nele eu me debruçar
Com o pranto a me correr
E assim, chorando, acalentar
O filho que eu quero ter

Dorme, meu pequenininho
Dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem

De repente o vejo se transformar
Num menino igual a mim
Que vem correndo me beijar
Quando eu chegar lá de onde vim

Um menino sempre a me perguntar
Um porquê que não tem fim
Um filho a quem só queira bem
E a quem só diga que sim

Dorme, menino levado
Dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado
De tanta dor que ele tem

Quando a vida enfim me quiser levar
Pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar
No derradeiro beijo seu

E ao sentir também sua mão vedar
Meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar
Num acalanto de adeus

Dorme, meu pai, sem cuidado
Dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado
Com o filho que ele quer ter.

Para ouvir, é só clicar aqui, no velho MARRETÃO. E deixem uma caixinha de lenços ao lado.

O Macaco Insone

Molde de silicone na arcada dentária superior
(contra o bruxismo e outras assombrações e terrores noturnos);
Venda de espesso e aveludado preto nos olhos
(contra a fotofobia, e na falta de hermético esquife de ébano de breu impenetrável das florestas da Transilvânia);
Protetores auriculares de espuma expansível,
Cérberos a guardar a entrada dos meus tímpanos
(contra o barulho dos alto-falantes dos carros dos idiotas, do choro do filho do vizinho, da cantoria dos bêbados, da orgia dos gatos).

Nada falo. Nada vejo. Nada escuto.

Ainda assim, não durmo.
Ainda assim,
O mundo insiste em passar sob a minha janela.
Em serenata,
Em procissão,
Em trio elétrico.

domingo, 17 de junho de 2018

O Que é Que a Rússia (e a Russa) Tem (III)

Tudo na Rússia é grande. Até as baixas temperaturas. A Rússia detém o recorde mundial da maior temperatura negativa registrada em um local permanentemente habitado : - 71,2ºC, marcados na cidade de Oymyakon, em 1924. Hoje em dia, com o efeito estufa, aquecimento global etc, a região está bem mais quente, registra temperaturas próximas a - 55ºC no inverno. Quando a temperatura cai abaixo de trinta graus negativos, as atividades escolares são suspensas. Até - 30ºC, tranquilo, a molecada vai de camiseta e bermuda pra escola.
Como se proteger de um frio tão extremo? O principal aquecedor russo é, obviamente, a vodka, que, em russo, significa "a água da vida". Outro aliado contra o frio é o samovar, utensílio da época dos czares utilizado para aquecer água e servir chá, parecido em forma nosso filtro de barro, com torneirinha e tudo, um bule mais afrescalhado.
Agora, se um sortudo puder, à vodka e ao samovar, somar as poderosas forças telúrica e geotermal de uns belos peitões russos, não terá frio que o aflija.
Com vocês, a russa Svanhild. Que belos samovares. Sem falar, é claro, da perestroika da moça.

sábado, 16 de junho de 2018

O Que é Que a Rússia (e a Russa) Tem (II)

A Rússia é o maior produtor de gás natural do mundo. E de peitões naturais, também!
Com vocês, Yulia Nova, uma lolita que compensa todo e qualquer Crime e Castigo.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

O Que é Que a Rússia (e a Russa) Tem

Embora tenha sido subtraída em quase 25% de seu território, de quando era a União Soviética, a Rússia ainda é o país que detém a maior extensão de terras do planeta. São mais de 17 milhões de quilômetros quadrados. A maior extensão de terras e de tetas.  
Sim, caro amigo, os maiores e mais suculentos úberes do mundo não estão, como muitos pensam, nos Estados Unidos, as sobrinhas do Tio Sam não são as grandes peitudas do planeta. São as russas, como já mostrei com mais detalhes na postagem Azarãotur, de maio de 2014.
Então, homenageando os anfitriões da Copa do Mundo, exibirei aqui no Marreta algumas das belezas naturais da terra das matrioskas. A começar pela magrinha Ester, a dona dos peitos naturais mais empinados que você já viu, porém, nunca mamou.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Jardins Suspensos do Azarão

Minhas plantas não são fidalgas tulipas. Nem brejeiras margaridas. Tampouco mimosas azaleias. Menos ainda pudicas violetas, ou luxuriosas gardênias, ou fesceninas damas-da-noite.
Minhas plantas não dão flor. Não dão bom-dia. Não prostituem seus sorrisos. Minhas plantas são ásperas e desesperançadas.
São nômades sobreviventes. Para as minhas plantas, o Saara é um resort, o Atacama, um spa. Minhas plantas passam a água e água. Que nem o pão nem o circo lhes apetecem.
Minhas plantas não foram paridas no berço esplêndido de uma estufa climatizada. Não foram compradas com pedigree à uma floricultura, a um horto, ou na seção de jardinagem do Carrefour, do Wal Mart ou do Leroy Merlin. Minhas plantas são vira-latas e baldias. Todas pegas por mim, ainda filhotes, ainda mudinhas não desmamadas, nas gretas das sarjetas, nas rachaduras do asfalto, nas manjedouras das paredes com infiltração, jogadas em aborto nas caçambas de entulhos.
Minhas plantas não aparecem - modelos, atrizes e putas - em fotos artísticas na capa da revista Casa & Jardim. Fotos 3x4, mal-encaradas e em preto-e-branco, minhas plantas estampam os prontuários policiais do Departamento de Combate e Repressão às Ervas Daninhas.
Minhas plantas não tomam adubos tarjas pretas, encaram a insônia feito gente grande.
Minhas plantas não têm preocupação social nem ambiental, estão cagando para o desmatamento e a destruição da Amazônia. Não querem tornar o mundo em um local mais verde e sustentável, mais respirável.
Minhas plantas apenas verdejam, apenas se autossustentam, apenas respiram. Desinteressadas e desintrometidas de tudo que as rodeiam.
Admiro-as profundamente, por isso.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Miss Mocreia América

O feminismo, o tentáculo mais pegajoso, sebento e rançoso do politicamente correto, sempre disposto e empenhado em dinamitar e demolir os alicerces morais e as tradições da sociedade ordeira e decente, fez mais uma das suas : auxiliado por Gretchen Carlson, uma agente suvacuda infiltrada na organização do concurso Miss América, conseguiu acabar com o momento mais esperado do tradicionalíssimo concurso de beleza,  a Prova do Biquíni, também conhecida como a Hora dos Peitões.
Pressões das feministas barangas de peitos caídos, suvacos cabeludos e bucetas encarquilhadas, que consideram que o atual modelo do concurso objetifica a mulher e a expõe como um mero pedaço de carne, fizeram com que os organizadores do evento, a partir da edição do Miss América 2019, mudassem o foco da disputa, que passará a colocar a beleza física em segundo plano, que valorizará mais o conteúdo e as opiniões das candidatas, ou seja, porá em destaque as ideias das misses.
Palavras de Gretchen Carlson, a infiltrada responsável pela extinção da prova do biquíni : "Nós não vamos te julgar por sua aparência exterior. Nós queremos que mais mulheres saibam que elas são bem-vindas nesta organização. Nós estamos indo adiante e nos envolvendo nessa revolução cultural, o concurso deve focar nas ideias, inteligência e talentos das candidatas".
O atual Miss América expõe a mulher? Claro que sim. Todo concurso, seja de que natureza for, é uma exposição, uma exibição, um exercício conjunto de narcisismo - da parte de quem possui os atributos em questão acima da média - e de voyeurismo - da parte de quem assiste, morre de inveja e se lamenta pela pouca sorte na loteria genética.
Como assim "um mero pedaço de carne"? Mero porra nenhuma! Um pedaço de carne de primeira, isso sim! Um corte especial! Um filé mignon de vitela que se derrete na boca, se é que vocês me entendem. E é aí que entra o grande recalque das feminazis, as quais a Natureza dotou apenas de acém, paleta e fraldinha.
Valorizará as ideias das candidatas? Ora porra! A bibliografia oficial e obrigatória para toda candidata a miss é O Pequeno Príncipe. As mais cultas, as mais ilustradas, as mais CDFs, leram adicionalmente, e se muito, o livro Pollyanna, e as ratas de biblioteca, raríssimas, têm em seus currículos algum Paulo Coelho. As ideias em lugar de peitões e biquinis? Vai ser a etapa mais rápida do concurso. Praticamente, passará em branco.
A mudança no perfil do concurso Miss América levará, por conseguinte e obrigatoriamente, a uma mudança também no perfil das candidatas. Ideias ao invés de fornidos e balouçantes peitões anglo-saxões? Quem substituirá, então, as atuais beldades nas passarelas do Miss América? Uma neurocientista? Uma física nuclear? Uma imortal da Academia de Letras? Uma - deus nos livre - filósofa?
É Miss Mocreia! É o Baranga's America!
Fico a imaginar a decepção das concorrentes, talvez desavisadas desta súbita e abrupta mudança de regras do certame, entrando lépidas e fagueiras com seus peitões pululantes sob o fino tecido do biquini, os mamilos acesíssimos, e tendo de versar, por exemplo, sobre o impacto do acelerador de partículas e da descoberta do bóson de Higgs - a partícula de deus - sobre as crenças das religiões neopentecostais.
Pãããããta que o pariu!!! As pobres e gostosas moças passaram a vida toda torneando e modelando suas suculentas carnes. Dietas draconianas, exercícios físicos espartanos, um sem-número de cirurgias plásticas nos seios e nos glúteos, lipoaspirações etc. Há até as que aplicam botox nas pregas do cu - para disfarçar as ruguinhas - e fazem reconstituição do cabaço.
Tanto esforço, tanta dedicação, e, então, no dia D e na hora H de mostrar tudo isso, vestem uma burca na miss e ela tem de falar sobre a política de imigração de Donald Trump, tema muito mais incompreensível que o próprio bóson de Higgs.
Sem contar, é claro, o ainda maior desapontamento de toda uma nação de punheteiros. O peitão é uma instituição nacional estadunidense. Um símbolo norte-americano! Juntamente à bandeira, ao Tio Sam, à águia-careca e à Coca-Cola.
Primeiro, a Playboy sem bucetinhas, e, agora, Miss América sem peitões. Será a extinção do concurso : peitões não pensam e cérebros nunca deram tesão em ninguém! Que o digam as feministas, que não possuem nem uma coisa nem outra.
Abaixo, Gretchen Carlson, a algoz da Prova do Biquíni, sendo coroada Miss América 1989, título que conquistou, óbvio, exibindo seus peitões.

domingo, 3 de junho de 2018

Desisto, a Civilização Não é Para o Brasil, por Clóvis Rossi

Que Michel Temer é despreparado para presidir a República não chega a ser propriamente uma novidade. Se não fosse um político medíocre, teria sido lembrado (pelo menos lembrado) para ser o candidato de algum partido ao governo do seu Estado (não foi lembrado nem para ser candidato a prefeito de sua cidade).
Ainda assim, choca o colossal fracasso dele e do conjunto do governo para lidar com o locaute das transportadoras, travestido de greve de caminhoneiros. Se você tem dúvida, leia a Folha deste domingo (27) que, já na primeira página, informa que transportadoras (e não autônomos) controlam 60% dos fretes do país (70% no caso de transporte de longa distância).
Nesse item específico, o despreparo não é do presidente. Guilherme Boulos, o pré-candidato presidencial do PSOL, achou que a greve/locaute era iniciativa de um suposto MCSC (Movimento dos Caminhoneiros sem Caminhão), filial do feudozinho que ele controla, o MTST.
Tampouco é surpreendente, se se levar em conta a idiotia que domina parte significativa da esquerda desde que caiu o Muro de Berlim.
Mas, sejamos justos, o fracasso é de toda a superestrutura institucional do país. Do governo federal, já falei, mas ainda vale lembrar a patética entrevista do ministro Moreira Franco à Folha. Como se sabe, entidades de caminhoneiros, desde o ano passado, estavam advertindo o governo dos problemas que enfrentavam e anunciando mobilização.
Moreira Franco, no entanto, alegou que não dá tempo para ler toda a correspondência que chega ao palácio. OK. Pena que dê tempo, sim, para receber, no escurinho do cinema, um empresário como Joesley Batista para uma conversa nada republicana.
Enfim, cada um dá o que tem no governo, certo?
Se o governo tivesse muito a dar, já na semana passada as autoridades teriam jogado todo o peso das instituições policiais e militares para desobstruir as estradas e, assim, para garantir o abastecimento. Em qualquer país um pouquinho organizado, há um limite para dialogar com movimentos grevistas. Encerrada a negociação —como o governo disse, uma e outra vez, que ocorrera—, parte-se para defender as necessidades do conjunto da população e para restabelecer o direito constitucional de ir e vir, que vale para todos e não pode ser condicionado por quem quer que seja.
Essa iniciativa tornou-se ainda mais gritante depois que se soube que caminhoneiros estavam sendo ameaçados (até com armas, em alguns casos) para que não voltassem ao trabalho (vide o blog do MAG). É crime. Criminosos não podem ser tratados como coitadinhos.
Já basta que haja pontos das cidades em que a polícia não entra porque estão sob domínio de bandos criminosos armados. Já basta que os presídios sejam território livre para facções criminosas. Permitir que também as estradas (e os postos de gasolina) sejam dominados por gangues é passar de todos os limites.
Claro que a culpa principal é do governo central, mas não dá para inocentar o resto do mundo político, que se escondeu da crise. Cadê o Congresso Nacional, como instituição? Cadê cada congressista, deputado federal, senador, deputado estadual, vereador, prefeitos, governadores?
Quem tomou alguma iniciativa para tentar ao menos interferir no processo? Ressalvo apenas o governador Márcio França, de São Paulo, que se mexeu —independentemente de ter sido ou não bem sucedido.
É possível que outros governadores tenham tomado alguma iniciativa, mas não devem ter sido tão relevantes porque não chegaram à mídia, ao contrário do que ocorreu com França.
O que fizeram sindicatos, patronais ou de trabalhadores? Ou as outras instituições da sociedade civil? Faltou combustível para todos e todas?
Vamos ser honestos, o fracasso é de um coletivo chamado Brasil. Fracasso tão formidável que há quem defenda intervenção militar. Já houve (mais de uma aliás), a mais recente durou 21 anos. Não resolveu nenhuma das falências do país, além de ter cometido crimes em série (quem não pode sair de casa por falta de combustível, aproveite para ler os livros de Elio Gaspari, o mais completo e brilhante raio-X da anarquia militar, essa que os anarquistas de araque de agora querem reintroduzir).
Desisto. Jamais chegaremos à civilização, pelo menos no que me resta de vida.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Carnavais na Lua (Ou : de máscaras e de buracos negros)

Nos reconheceríamos,
Bela e ausente Colombina,
Sem as nossas máscaras negras?
Fora dos salões de nossas folias particulares,
Dos nossos carnavais existenciais?
Nos reapaixonaríamos,
Sem estarmos a trajar nossos retalhos de cetim,
Sem nossos lança-perfumes?
Pergunta um sol em estado vegetativo,
Uma estrela em colapso,
À fulgurante e túrgida Lua,
Que insiste
- talvez por pirraça, talvez por vingança -
Em espelhar a sua luz de hélio antiga,
Em espalhar pelos céus surdos-mudos
Fotografias de seus álbuns de infância,
Que não autoriza a sua eutanásia,
Que não o deixa morrer
Que não lhe concede o conforto da cova de um buraco negro. 

(É meu velho, lavar banheiro em pleno feriadão, ouvindo antigas marchas e tomando cerveja quente, dá nisso)

Que Tudo Acabe em Pizza

terça-feira, 29 de maio de 2018

Religião Velha

Esta é do blog P-O-E-S-I-A, de autoria de Gianndre, um ex-aluno meu e exímio artesão de haicais, o herdeiro de Paulo Leminski.

Religião Velha
na lata de cerveja
o deus que não
se encontra na igreja.

No Frigir da Greve

Gostei da recém-suspensa greve dos caminhoneiros. Da Guerra dos Nove Dias travada pelos centuriões das autoestradas. Pela novena conduzida pelos cavaleiros templários do asfalto. Da insurreição dos valorosos bandeirantes das rodovias malconservadas e superpedagiadas deste país de merda e de merdas.
A greve dos caminhoneiros (ou camioneiros) não me trouxe quaisquer aborrecimentos, transtornos ou prejuízos; não causou única alteração em minha espartana e kantiana rotina. Antes pelo contrário, presenteou-me com inesperados surpresa e prazer.
Senão, vejamos :
1) Não fiquei sem combustível. Não tenho carro, moto nem patinete motorizado. Nem, ao menos, dirijo. Andei, como de uso, meus 5, 6 km para ir ao trabalho e meus 5, 6 km para voltar. A caminhada revelou-se, nesses dias, ainda mais relaxante e salutar, com as ruas menos poluídas e infectadas de carros, motos, ônibus, vans e gente; mirem-se no meu exemplo, bichos-preguiça obesos, disformes, safenados e dependentes dos automotores, e no do cantor Leoni : Já tive carro e grana/E um monte de convites pra qualquer lugar/Hoje eu só ando a pé/Mas eu continuo a andar.
2) Não fiquei sem gás de cozinha. No segundo dia da greve, deduzi a possível e provável falta dos simpáticos bujõezinhos e comprei um de reserva, ainda que o em corrente uso, pelas minhas sempre precisas e infalíveis contas, dure ainda mais três semanas;
3) Não fiquei sem alimentos. No supermercado mais próximo, chegaram a faltar alguns produtos frescos - frutas, verduras e legumes -, porém, na quitando do japonês Sudo nada faltou, os dias transcorreram inalteráveis, na mais profunda calma e serenidade oriental, como se nada estivesse a acontecer de anômalo no país. O sábio nipônico se abastece com pequenos fornecedores locais, que fazem suas entregas com kombis e caminhonetes, quiçá riquixás, se preciso se mostrar.
4) Não fiquei sem cerveja. O sacrossanto combustível não sumiu, tampouco rareou das prateleiras; nem mesmo das lojas de conveniência dos postos de combustível. No sábado, precisei ir ao centro da cidade pela manhã e, na volta, entrei na loja de um posto de combustível - na frente de cujas bombas serpenteava uma imensa e colérica hidra, uma interminável fila -, comprei um latão de Bavária e a fui tomando passando rente às janelas dos carros à espera, fazendo pirraça aos dependentes dos automotores, como a dizer : não conseguiram o seu álcool? Eu consegui o meu.
5) Uma única escassez se abateu sobre o meu dia a dia. A escassez de alunos nas minhas salas de aula. Desde a sexta-feira, o espaçamento dos horários dos coletivos urbanos, somado à preguiça genética e inata do brasileiro de se reprogramar, de acordar uma meia horinha antes que seja, levou a uma debandada geral dos alunos, uma diáspora discente. Quando muitos, três ou quatro por sala; hoje, nenhuma alma semianalfabeta na escola. Uma escassez de indisciplina, de desacato e desrespeito. Uma escassez de filhos malcriados, de incivilidade e de bárbarie. Acrescentados ao feriadão de quinta-feira agora, estes dias se transformaram numa inusitada, temporã e muito bem-vinda férias professorais. Um alívio para a alma docente.
Um viva aos caminhoneiros! Longa e próspera vida aos guerreiros da boleia e dos encerados! Que venham e se sucedam outras greves! Quero uma desta a cada fim de mês! Pããããta que o pariu se quero!!!
Oh, Arlindo Orlando, volte! De onde quer que você se encontre... Volte para o seio de sua amada! Ela espera ver aquele caminhão voltando... de faróis baixos... de para-choque duro...

sábado, 26 de maio de 2018

Vagabundas e Biscates Irlandesas Conquistam o Direito de Serem Assassinas

Com 66% dos votos, um referendo realizado na Irlanda aprovou a liberação do aborto indiscriminado, aquele praticado sem nenhum motivo ou justificativa razoáveis.
Vagabundas e feministas (desculpem-me pela redundância) dos quatro cantos do planeta estão a comemorar a "vitória".
Vão poder, as biscates irlandesas, a partir de agora, liberar o bucetão de qualquer jeito, sem nenhuma preocupação ou prevenção. Se ficarem grávidas, é simples, é só matar o feto e lançá-lo à privada.
Muitos veem também, na "vitória" das suvacudas irlandesas, uma derrota fragorosa para a Igreja Católica, tradicional opositora a esta modalidade de assassinato e a religião predominante do país.
Neste caso, estou do lado dos religiosos, ainda que por motivos diferentes dos deles. Sou ateu e não nutro a menor simpatia pela Igreja Católica, ou por qualquer outra. Porém, sou menos simpático ainda a assassinos.  Aborto indiscriminado - sem nenhum motivo justo, seja por estupro, seja por colocar a vida da mulher em risco, a exemplos - é pura e simplesmente assassinato premeditado. A biscate vai, dá de qualquer jeito, não se previne, fica grávida, diz que não quer a criança, arranca o feto de seu útero, mata uma vida inocente e, na mesma noite, sai para tomar cerveja com as amigas? 
Direito sobre o próprio corpo? Apóio os direitos sobre o próprio corpo. Mas e os deveres sobre o próprio corpo, como prevenir uma gestação indesejada, onde ficam os deveres para com o corpo? Concordo com que as mulheres possam decidir sobre o próprio corpo - e os homens também -, mas acontece que o embrião, o feto não é o corpo delas, não é o corpo das feministas assassinas, é outro corpo, é o corpo de outro ser vivo, que, por azar, está crescendo e permanecerá por poucos meses dentro de uma assassina.
Direito sobre o próprio corpo? OK. Quer matar alguém? Então, se mate. Dou todo o apoio nesse caso. Até dou umas dicas de como se suicidar. Mas abortar indiscriminadamente não é exercer o direito sobre o próprio corpo, é decretar a pena de morte de outro.
Acho curiosas - e hipócritas - certas "visões" feministas, sobretudo as de viés esquerdistas. São a favor do aborto, da pena de morte para um inocente, mas se declaram contra a execução de criminosos, contra a pena de morte para um bandido. Matar o feto que é produto de um estupro, pode; matar o estuprador, não, é contra os direitos humanos.
E nem me venham com aquela (outra) lenga-lenga de que não sei até quantos meses o feto não sente dor, não tem consciência etc. Biologicamente falando, a partir do momento da fecundação, da formação da primeira célula do novo ser vivo, o zigoto, ele já é vivo. Essa única célula já se nutre, realiza respiração celular, se duplica etc, ou seja, apresenta metabolismo, atributo que define o ser vivo e o distingue da matéria bruta, inanimada.
Não tem condição de criar a criança? Outra balela. Qualquer gata vira-latas ou cadela de rua dá conta de cuidar da cria. Uma ser humano não? Papo de vagabunda! E vá lá que seja, vamos acreditar que a vagaba seja tão inútil e desprezível a ponto de não ser mesmo capaz de criar o próprio rebento. Simples : dê para a adoção. Basta ir a qualquer hospital público e manifestar a vontade de dar a criança para a adoção a uma assistente social. O parto é realizado, a biscate não precisa nem ver o rosto do bebê que pretendia matar e a criança vai viver em uma casa em que muito vão lhe querer e bem tratar.
Aborto indiscriminado não é exercer o direito sobre o próprio corpo. Não pode ser considerado uma vitória de ninguém. É assassinato. Premeditado. Qualificado. 
Abaixo, as biscates e a vagabundas irlandesas a comemorar os seus status de agente 007, ou seja, as suas licenças para matar.
Vejam a festa que as putas fazem! Elas, sim, é que deveriam ter sido abortadas pelas mães. Quem é a favor do aborto indiscriminado é que deveria ter sido abortado.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

As Memórias da Cabeça de um Pau

A imortal Nélida Piñon, autora do indispensável e calhamaçal romance A República dos Sonhos, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, declarou, em certa feita, que não é a cabeça, mas, sim, a mão que escreve. É a mão que escreve. Se não a parafrasear, ao menos dando nova vestimenta, ou, no mínimo, anuência a uma outra declaração, esta atribuída a Einstein, que creditou o êxito de seu trabalho a 1% de inspiração e 99% de transpiração.
É a mão que escreve. Deveras. O trabalho intelectual, o matutar, o escrever, é, também e sobretudo, um trabalho físico, braçal, brutal. Escrever um bom livro, um bom ensaio, uma boa reportagem ou um bom artigo científico é tarefa para quem tem a resistência e a obstinação de um burro de carga. E de sobrecarga.
Em 2011, quando do lançamento do CD Chico, de Chico Buarque de Holanda, trabalho que interrompeu um jejum criativo de quase 13 anos do compositor - o último disco de inéditas havia sido As Cidades, de 1998 -, eu fui mais além e escrevi aqui no Marreta : É o Pau Que Escreve.
Disse-o porque o hiato criativo de Chico, não coincidentemente, encerrou-se quando o compositor arrumou um novo amor. E bota novo nisso. A moça, Thais Gullin, mal contava, à época, com 30 aninhos, uma pré-balzaquiana, praticamente uma ninfeta, uma lolita, se comparada ao septuagenário cantor dos olhos de ardósia. Os eflúvios da nova xavasca inspiraram ao menestrel, ao poeta, ao bardo e ao cantor. Não é a cabeça que escreve. Nem a mão. É a cabeça do pau, embebida no tinteiro da buceta, que escreve, devo ter dito eu na ocasião.
Disse-o e volto agora a reiterá-lo. O próprio Marreta do Azarão foi escrito à força da cabeça do pau. Sejam as postagens mais virulentas, maledicentes e sardônicas, as marretadas propriamente ditas, sejam os poemas, nos quais um ou outro desavisado pode enxergar algum lirismo, sejam os pequenos contos, tudo e todos escritos pelo pau, tudo movido pelos ventos e pelos remos da testosterona, que, há 10 anos, quando comecei com o blog, ainda corria, caudaloso e perene rio, pelas minhas veias; não o fio d´água esquálido e intermitente que é hoje; não à toa, a produção caiu a olhos vistos, em quantidade e qualidade.
Tudo escrito pelo vigor e, sobremaneira, pela memória da cabeça do pau. O Marreta do Azarão bem que poderia se chamar As Memórias da Cabeça de um Pau. A exemplo mais específico e palpável do que falo, a série Pequeno Conto Noturno, que já se vai para mais de setenta episódios. Deste total, tão somente uns oito ou dez são narrativas romanceadas de experiências reais. Todos os outros foram concebidos pela releitura, pela revisita, pelo repisar das memórias da cabeça do pau. O arsenal da memória, porém, não é infinito, tampouco imperecível. Tem de ser, vez ou outra, renovado, abastecido com novas vivências. Indo de casa para o trabalho, do trabalho para casa, dormindo às 20h e levantando às 5h? De que jeito?
A memória pode ser editada, remodelada, maquiada, mas não criada. Valha-me São Lavoisier!
O meu açude de memórias da cabeça do pau se esgotou. Há tempos que entrei no meu volume morto. Até tento - insisto em - evocar velhas memórias da cabeça do pau. E nada. Nem sinal de vida.
No mês passado, na postagem Tempore Mortis, comuniquei a todos os leitores da morte cerebral do Marreta. Pois agora venho vos inteirar de uma outra morte, a da memória da cabeça do pau, o Alzheimer do caralho. Morte irreversível. Definitiva. Absoluta. Agora, é só chamar o gato para jogar a terra em cima. É a podridão, meu velho.
Acredito, contudo, feito um velho sentado no banco da praça dando milho aos pombos e já olhando a vida de fora, como mero espectador, e se aprazendo da missão cumprida, que produzi um bom trabalho aqui no Marreta durante essa quase década.
Aos que por aqui ainda caírem, ou por acaso, ou por azar, ou por estranha vontade própria, leiam e usem o Marreta como bem lhes convier, da melhor maneira que lhes for possível, como quem visita ruínas de antigas civilizações.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Travessuras de Menina Má (10)

A Hora do Pesadelo

Eis a pior hora do dia.
Quando tenho que extrair :
A vontade, de onde a vontade não mais há,
A coragem, de onde a coragem jaz,
O riso, da atmosfera que não consigo respirar,
O sonho, do álcool que não é capaz mais de me embriagar,
O impulso, do café que já é placebo;
Enfim,
A vida, desse poço seco. Dessa cova rasa.

Eis a pior hora do dia.
A hora de acordar.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

O Selvagem da Motocicleta

Era um cara
Que se encantava
Que adorava a escuridão,
A tela brilhante de um cinema,
O aconchego de uma sala de projeção.
Ali se sentia protegido,
Tinha controle sobre todo aquele espaço,
Sabia de cada grão de poeira refletido.
Não se cansava
De ver aquelas vidas armazenadas na películas,
Mas não servia para protagonista.
E sendo isso tudo o que queria,
Agonizava,
Não vivia.

Era um cara 
Que lia e lia
Sem a menor pressa
Pra ninguém dava conversa
Se demorava por horas sobre cada linha impressa.
Se deleitava com aquele mundo portátil e silencioso
Que abria ou punha pra dormir quando fosse conveniente
E assim parecia contente.
Sorvia feito mel
As paisagens amareladas e empoeiradas
Do seu mundo de papel,
Mas não servia para escritor.
E sendo isso tudo o que queria,
Agonizava,
Não vivia.

Era um cara
Que escutava e escutava
Com as portas e os olhos fechados
Pra que ninguém pudesse lhe perturbar.
Ouvia repetidas vezes cada melodia
Como quisesse incorporar cada acorde
À sua própria pulsação.
E lhe fascinava esse mundo sem imagens
Esse mundo de puro som,
Mas não servia para canção.
E sendo isso tudo o que queria,
Agonizava,
Não vivia.

Era um cara
Que colecionava e colecionava
Gibis a rodo, quadrinhos de montão,
Lhe tomavam de escravo
Os perigos, as recompensas, a ação.
Cada personagem ali desenhado era um amigo
E de mais nada precisava.
Era perfeito pra ele aquele mundo agitado
Onde o bem sempre vence
Mas o mal nem sempre é castigado,
Mas não servia para herói.
E sendo isso tudo o que queria,
Agonizava,
Não vivia.

E era eu,
Que era como os outros,
Parecidos em fracasso
Iguais em tormento.
Sem nenhuma qualidade
Sem qualquer talento.
Também não sirvo pra vida.
E como isso é tudo o que poderia me provocar o riso,
Também não vivo,
Agonizo.

domingo, 6 de maio de 2018

Cordialidades Constipadas

As pessoas chegam com seus sorrisos ensaiados e plastificados pendurados nos lábios;
Suas fotos felizes em seus brilhantes crachás funcionais de suas carreiras nada brilhantes.
Dão bons-dias como quem batem o cartão e assinam o livro-ponto.
Cordialidades constipadas,
Evacuadas à força.

Nesse aspecto,
Respeito muito mais os meu cagalhões de cerveja.

Poema

É preciso muito desespero,
descontentamento e desilusão para escrever alguns bons poemas.
Não é para todos nem escrevê-los ou mesmo lê-los.
                                                   (Charles Bukowski)

O que eu vejo é o beco...

Poema do Beco
Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
— O que eu vejo é o beco.

                                                (Manuel Bandeira)