quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Tristeza e Isolda

Rolando Boldrin nos conta um "causo":
 "O sujeito, em viagem pelo interior, parou em uma pequena bodega, em uma pequena venda de secos e molhados à beira de uma estrada de terra batida, para espanar o pó dos ossos e fugir do sol a pino.
Pediu um prato feito para o dono da venda e foi para a mesa com uma cerveja gelada, refrescar a goela e a alma enquanto esperava pelo prato.
Ouviu, então, um trinado maravilhoso, um gorjeio como nenhum outro ouvira. Olhou em direção ao mavioso canto e viu que ele era executado por um canário-da-terra numa gaiola. Embevecido pelo canto, foi ter com o dono da venda no balcão na intenção de comprar a avezinha.
- Não vendo, não, dotô - disse o dono - é de estimação das crianças.
O viajante insistiu. Que o dono da venda estipulasse um preço.
- Então, tá, dotô, quero mir reais por ele.
Mil reais estava muito além do que o viajante podia pagar. Reparou que havia outra gaiola dentro da venda, na parede oposta, com outro canarinho nela, porém, esse calado, quietinho, só observando tudo. Supôs que, pela convivência com o canário cantor, o calado também soubesse cantar. 
- Mil reais tá muito caro pra mim - disse o viajante -, mas se o senhor me fizer um precinho bom, levo aquele outro ali, que não canta.
- Por aquele eu quero cinco mir reais.
O viajante estranhou : se pelo que canta uma maravilha, o senhor quer mil reais, por que quer cinco mil pelo que não canta nada? 
- É que aquele é o compositor. - arremata o caipira."
O "causo" é narrado à guisa de piada, e é deveras espirituoso, mostra a esperteza do caipira, do matuto, que de ingênuo e simplório, como podem mal julgar alguns "urbanoides", nada tem; antes pelo contrário, tem é a matreirice de uma raposa.
Mas o "causo" também resvala, na certa sem querer, inadvertidamente, na questão do desprezo que o Brasil tem pelos compositores de canções. Desprezo, talvez, nem seja o termo adequado. Desprezo,  podemos nutrir por algo que conhecemos e o compositor brasileiro é um ilustre desconhecido. Acredito que esteja mais para uma falta de reconhecimento, um descaso.
Poucos labores - entre eles, o do professor - são menos valorizados e incógnitos que o do compositor popular. Não há o costume - nem sei se há a obrigação legal - de programas de rádio e de tv informarem ao público sobre o nome do compositor da canção ao início ou ao fim de sua execução.
Quantas e quantas canções marcantes em nossas vidas, interpretadas e imortalizadas por canários-cantores não são de autoria dos mesmos, mas sim de anônimos e mudos canários-compositores?
Morreu na semana passada - só fiquei sabendo hoje - uma das maiores canárias-compositoras de nossa MPB : Isolda Bourdot. Seu nome, desconhecido da grande maioria; suas canções, velhas amigas de bar e de fossa dos cotovelos, dos chifres e dos corações de todos os brasileiros.
E não compunha para qualquer canário metido a cantor, não, a Isolda. Compôs para ninguém mais ninguém menos que o canário-rei, Roberto Carlos. É dela o clássico Outra Vez, que se tornou, ao longo do tempo, um dos carros-chefe do régio repertório - "você foi o maior dos meus casos, de todos os abraço o que eu nunca esqueci, você foi dos amores que tive, o mais complicado e o mais simples pra mim". É pouco ou querem mais?
Em parceria com o irmão Milton Carlos - uma das vozes mais melodiosas já surgidas na MPB, morto precocemente aos 22 anos em acidente automobilístico e autor das também clássicas Um samba Quadrado e Memórias do Café Nice -, compôs outras pérolas para o Rei : Jogo de Damas (Eu sei da sua vida e do seu passado/De um tempo perdido, irrecuperado/Eu sei da poeira/De todos os seus passos/Das suas trapaças, dos seus abraços) e Um Jeito Estúpido de te Amar (Eu sei que eu tenho um jeito/Meio estúpido de ser/E de dizer coisas que podem magoar e te ofender/Mas cada um tem o seu jeito/Todo próprio de amar e de se defender).
Segundo o perfil da musicista no feicibúqui, Isolda morreu vítima de um infarto do miocárdio, aos 61 anos.
No momento de sua morte, tenho certeza, houve não um minuto de silêncio por parte dos sempre loquazes canários-cantores; houve todo um LP de silêncio, de chiados e de choros engolidos. Da parte do Rei, talvez até mais.
Outra Vez
(Isolda)
Você foi o maior dos meus casos
De todos os abraços o que eu nunca esqueci
Você foi dos amores que eu tive
O mais complicado e o mais simples pra mim.

Você foi o melhor dos meus erros
A mais estranha história que alguém já escreveu
E é por essas e outras que a minha saudade
Faz lembrar de tudo outra vez.

Você foi a mentira sincera
Brincadeira mais séria que me aconteceu
Você foi o caso mais antigo
O amor mais amigo que me apareceu
Das lembranças que eu trago na vida
Você é a saudade que eu gosto de ter
Só assim sinto você bem perto de mim outra vez.

Esqueci de tentar te esquecer
Resolvi te querer por querer
Decidi te lembrar quantas vezes eu tenha vontade
Sem nada perder.

Você foi toda a felicidade
Você foi a maldade que só me fez bem
Você foi o melhor dos meus planos
E o pior dos enganos que eu pude fazer
Das lembranças que eu trago na vida
Você é a saudade que eu gosto de ter
Só assim sinto você bem perto de mim outra vez.
Isolda e o Rei

Para ouvir Outra Vez, é só clicar aqui, no meu enlutado MARRETÃO.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Pee Orgasm (Ou, Quem Não Tem Pau, Goza com Mijo)

Com o planejado, progressivo e irreversível embichamento do planeta, a mulherada tem se visto, cada vez mais, privada do seu instrumento máximo de prazer, do seu faz-me-rir, o cacete!
E nem é da falta de uma rola fixa, fiel e exclusiva que a mulheres andam a reclamar; que, do sonho da rola própria, de um cacete pra chamarem de seu, elas já desistiram há tempos. Dá-se que até mesmo o pau freelancer, aquele sem nenhum vínculo empregatício, até mesmo o pau diarista, aquele que a cada semana ou quinze dias aparece para espanar o pó e as teias de aranha, andam pouco dando as caras. Até o P.A., o famoso pau amigo, consolo das horas de solidão e desamparo (encosta sua cabecinha na minha cabecinha e chora...) -, é produto cada vez mais raro. 
Há uma crise de abastecimento de paus. "Estamos numa Venezuela de paus" - afirmam umas amigas minhas já a ultrapassarem a meia-idade - "tem muita oferta de cu e pouca de rola" - garantem. E vão além em suas afirmações. Se um cara sai pra noitada oferecendo o cu, ele não volta pra casa de mãos e rabo abanando; se a mulher sai a oferecer a outrora perseguida, não ganha nem bilu bilu tetéia.
Mas o tesão é força das mais incontroláveis, torrente irreprimível. Se não sai por um lado, sai por outro. Se não vai de um jeito, vai de outro.
Por isso, uma vez que a mulherada não está mais conseguindo o que entra para gozar, está aprendendo a gozar com o que sai. A nova tendência agora - e aposto que as feministas estão por detrás disso, pois dispensa em definitivo o pau - é gozar por meio de um belo jato de urina. 
É o Peeorgasm. O gozo via urina. A mulher segura a urina o máximo de tempo que conseguir, até a bexiga estar prestes a estourar, daí vai ao banheiro e elimina tudo num caudaloso jato, o que lhe provoca um prazer intenso, calafrios que se estendem por toda a espinha dorsal até à nuca, descrevem as adeptas do peeorgasm.
Pããããããta que o pariu!!! Já ouvi falar de orgasmo clitoriano, vaginal, uterino, anal, auricular, amigdaliano etc, mas, de orgasmo bexigal, ou uretral, é a primeira vez. Já ouvi dizer de urinoterapia, de urinoputaria, é a primeira vez.
A nova prática tem, é claro, embasamento "científico". A ginecologista espanhola Belén Martinez-Gijón Machuca, do Hospital Quirón Salud Infanta Luisa, diz que a bexiga cheia vai se expandindo e pressionando o ponto G; ao urinar, a pressão sobre o ponto G diminui, o estimula e provoca um gozo do caralho, mas sem o caralho. Palavras da médica : “devido à disposição anatômica feminina, a relação entre a bexiga e a vagina é muito estreita; as duas estão separadas apenas por um tecido que quase pode ser considerado virtual. Cientificamente, a distensão da bexiga é chamada de globo vesical. Portanto, exercer um mecanismo de pressão sobre a vagina estreita este espaço e favorece a estimulação do ponto G que se encontra no terço médio da face anterior da mesma. Isso se traduz em um aumento do prazer sexual”.
Quem sou e que direitos eu tenho de destruir os sonhos e ilusões alheios, mas vocês, meninas, estão a confundir as coisas, a trocar a bolas. Vontade de mijar não é tesão e nem saciar essa vontade, orgasmo.
Se for assim, nós, homens, também temos esse tesão do mijo. Não raro, na madrugada, bexiga cheia a pressionar a próstata, acordamos de pau duro. O pau fica duro, inchado, roxo, luzidio. Dá vontade de tirar uma foto e mandar pros amigos, fazer-lhes inveja. Tesão? Virilidade? Porra nenhuma! Não nos vem a vontade de comer uma buceta nessa hora, só de mijar, mesmo, e o mais logo possível. No banheiro, esperamos o pau dar uma arriada e mijamos : Aaaaaaaahhhhhhhh!!!! Já proferi "Aaahhhs" muito mais longos mijando do que metendo. Realmente, uma sensação muito boa nos percorre a espinha, chego a me arrepiar. Gozei? Porra nenhuma, de novo. Só mesmo o alívio de uma urgência.
O que vocês sentem não é gozo, meninas. É um alívio. Só.
Ainda que proporcionasse deveras um orgasmo, a prática é fortemente contraindicada por urologistas. Segundo eles, ela pode causar males ao organismo - males reais - que sobrepujam em muito os supostos benefícios. Segurar a urina por muito tempo pode causar o enfraquecimento dos músculos da bexiga, provocar incontinência urinária precoce, infecções no sistema urinário, pedras nos rins, cistite e pielonefrite.
Deixem de modismos e de modernismos, meninas. Se o pau lhes falta, recorram ao tradicional, ao remédio que lhes está sempre à mão, usado desde os tempos de nossas avós, bisávos etc, orgânico, autossustentável e sem nenhuma contraindicação : Siririca, babys, siririca.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Com Sorte, o Purgatório

Faz-te bem aos sentidos?
Pois prepara-te
Para o martírio
E a degeneração dos sistemas.

Enleva-te a alma?
Pois aguarda
- Que não há de tardar -
A falência
E o funeral dos membros.

Assalta-te a paixão?
Pois muna-te
Com todo o otimismo do mundo
E torças pela sorte do Purgatório.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Então, é Natal...

Pãããããta que o pariu!!! É a festa cristã! E eu com isto?
Mas, de duas coisas ao ano, nenhum homem de boa paz e de boa vontade escapa : exame no urologista, tendo ele tesão na argola ou não, o dedo grosso vai entrar; e Natal na casa da sogra, sendo ele cristão ou não, ele é pego pra Cristo!
E, sem mais delongas, é isso. Volto depois do Natal.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Dialética Milloriana

Por que sempre somos novos nas fotos velhas
E velhos nas fotos novas?

Renas do Papai Noel (6)

Dom Odair José de La Mancha

O que torna um artista em um clássico é o imperecível de sua obra, o caráter atemporal das questões humanas por ele abordadas. 
Um clássico, como poderiam pensar (tendo eu a benevolência de supor-lhes tal capacidade) os jovens da catatônica geração smartphone e os adultos e velhos sem um pingo de vergonha na cara que aderiram à estrovenga, não é algo apenas antigo, velho e empoeirado, cheirando a tumbas, mausoléus e bibliotecas, embora duvide que a maioria deles saiba o que seja, ou tenha adentrado em uma biblioteca.
Antes pelo contrário; um clássico, não importa o quando de sua concepção, sempre fulgura e recende a novo, a inédito. É uma foto que não amarela. Que, ao longo do tempo, segue a retratar fidedignamente a indigna, imutável e patética natureza humana.
Para se consolidar em um autêntico clássico, no entanto, não lhe basta o sempterno de seu objeto, há de se juntar a ele, também, a universalidade do mesmo. O clássico não é tão-somente uma obra não datada, é uma obra que também não tem nacionalidade, credo ou classe social, cujo entendimento não se altera com as coordenadas geográficas.
A origem da vida? A imortalidade da alma? A angústia, o nada e o sentido da vida? Porra nenhuma! Que tudo isto são choramingos de filósofos alemães e dinamarqueses mimados, com a vida ganha, meros esperneios de rebeldes sem causa.
Qual a grande e verdadeira angústia humana? A cornagem, meus caros. O chifre é o eterno e irremovível aperto e tormento da alma humana. Há tempos, em um muro pelo qual eu passava a caminho de casa, uma pichação de um anônimo filósofo urbano bem resumia a inevitabilidade dessa miséria humana; dizia a pichação : O Problema é a Buceta!
E acerca desse tema tão aflitivo ao ser humano, ninguém é mais clássico que Odair José. O Cervantes dos cabarés e casas de tolerância. Dom Odair José de La Mancha. O menestrel da triste figura da Praça Tiradentes.
A prova da universalidade do bardo, a mostrar que o que acontecia na década de 1970 num zonão brasileiro pode muito bem acontecer - e acontece - em qualquer tempo, longitude e latitude, é o que se deu com Brian Smith, adolescente americano do estado de Nova York.
Vencedor de uma promoção da empresa Good Girls Company, o adolescente ganhou o direito de participar de uma orgia em uma ilha particular conhecida por Sex Island, em águas caribenhas, Trinidad e Tobago. A orgia, regada a buceta, drogas e rock'n'roll, durou três ininterruptos dias e noites, e mudou a vida do americano.
Ao voltar da orgia para o seu lar, comunicou aos pais que se apaixonara por uma das putas com quem passou os dias (cada sorteado na promoção tinha direito a escolher duas putas) e que pretende se casar com ela : "Foi incrível, tão maravilhoso que quero chorar só de lembrar. Fiz sexo pela primeira vez, bebi álcool pela primeira vez, usei droga pela primeira vez. Uma das minhas era chamada Andrea, e eu me apaixonei por ela. Eu quero me casar com ela. Ela disse que quer vir morar comigo nos EUA. Tenho o contato dela. Espero vê-la em breve".
Pããããããta que o pariu!!!! O rapaz tomou um verdadeiro chá de buceta! Gamou na puta! Mais Eu Vou Tirar Você Desse Lugar, impossível. Abaixo, a foto do felizardo, vibrando de paixão; atrás dele, suponho, o orgulhoso pai, o futuro sogro da puta.

Eu Vou Tirar Você Desse Lugar
(Odair José)
Olha, a primeira vez que eu estive aqui
Foi só pra me distrair
Eu vim em busca do amor

Olha, foi então que eu lhe conheci
Naquela noite fria
Em seus braços, meus problemas esqueci

Olha, a segunda vez que eu estive aqui
Já não foi pra distrair
Eu senti saudades de você

Olha, eu precisei do seu carinho
Pois eu me sentia tão sozinho
E já não podia mais lhe esquecer

Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo
E não me interessa o que os outros vão pensar
Eu sei que você tem medo de não dar certo
Pensa que o passado vai estar sempre perto
E que um dia eu posso me arrepender

Eu quero que você não pense em nada triste
Pois quando o amor existe
Não existe tempo pra sofrer

Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo
E não me interessa o que os outros vão pensar.


Para ouvir, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Renas do Papai Noel (5)

Terras Raras e Outros Elementos Além-Mendeleiev

No início,
Vai ser :
Como ter perdido aquele amigo confidente,
Que se mudou de cidade e/ou de escola;
Como ter recebido alta inesperada do psicólogo
E ter apenas o sofá mudo de casa para se deitar e pensar na vida;
Como não ter mais um padre confessor
E ter de decidir sozinho se seus pecados são ou não perdoáveis
E mediante a que indulgências;
Como se o dique fosse se romper,
Como se não fôssemos capazes de nos conter em nós mesmos 
(bexiga de velho sempre com vontade de mijar).

Em seguida :
A simples lembrança do amigo em conversas e encontros imaginários passará a bastar;
O divã do psicólogo será tido como outra criancice e outra fraqueza a serem empurradas para debaixo do tapete de nossos arrependimentos e vergonhas - cada vez mais alto, o tapete;
E o espelho do banheiro, na madrugada,
Será capela, oratório e genuflexório mais confiável e revelador.

E depois...
O Depois.
Que o Depois não deixa nada para depois.
Que o Depois sempre dá o seu jeito,
Que o Depois sempre se impõe, impera,
Que o Depois sempre bate à nossa porta
Com um mandato de condução coercitiva.

Nosso consolo?
Nosso álibi?
Nosso reconforto?
O Antes!
Que só o Antes pode fazer frente ao Depois num tribunal.
Ainda que sempre perca.
Por prescrição das virtudes.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Eu Hoje Joguei Tanta Coisa Fora...

Não gosto do Herbert Vianna! Nunca gostei! Acredito que não goste dele até muito antes do Lobão ter lhe pego ódio e nojo! Considero-o um babaca, um metido a bom moço, um candidato a genro que toda sogra sonha em ter, um boçal, um cagador de regras, o gérmen, o esporo, o cisto do politicamente correto antes do politicamente aportar em terras cabralinas.
Não obstante, em mais uma dessas evidências cabais de que o talento não ocupa o mesmo locus gênico do caráter, Herbert Vianna é autor de algumas belíssimas letras e canções. Caleidoscópio, Lanterna dos Afogados, Por Quase um Segundo, La Bella Luna e mais uma meia dúzia, não mais. Entre essa meia dúzia, Tendo a Lua, aquela assim : "eu hoje joguei tanta coisa fora, eu vi o meu passado passar por mim..."
Por que me lembrei desta canção? Primeiro, porque, como já disse, acho-a inspiradíssima; depois, porque hoje eu joguei mesmo tanta coisa fora. Dos meus armários, das minhas gavetas, das minhas caixas de papelão? Não. Que o conteúdo destas já foi reduzido ao mínimo há anos.
Hoje joguei tanta coisa fora das minhas gavetas virtuais. Da nuvem, como se diz hoje. Algumas nuvens, ventei; outras, fiz chover em derradeira garoa nos olhos; outras, mandei irem goteirar em outras plagas. E-mails e fotografias, gente que foi embora.
Além do meu e-mail, digamos assim, oficial, no hotmail, mantinha ainda mais uns cinco ou seis. E-mails criados exclusivamente para receber recados do trabalho e usados duas ou três vezes; e-mails criados para eu poder comentar em sites que não aceitam comentários anônimos : meus heterônimos virtuais; e até um criado, em inícios dos anos 2000, para relacionamentos obscuros.
Gavetas vazias são porta-retratos sem fotos, lápides sem nome; mas também cartas de alforria. Luto e espaço novo para a vida. Atestado de Óbito e Certidão de Nascimento.
Oh! Suzana, não chores por mim...

Renas do Papai Noel (3)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

O Azarão de Loch Ness

Basicamente, o que torna míticas as criaturas míticas são a escassez de relatos orais e documentos escritos confiáveis e a quase ausência de registros foto e filmográficos fidedignos, que resistam ao escrutínio de uma perícia.
Criaturas míticas são formadas, essencialmente, de "o fulano disse que viu em tal lugar", "eu ouvi dizer pelo sicrano" e de vultos, sombras e borrões granulados e em preto e branco.
Vide os clássicos Monstro do Lago Ness e o Sasquatch, o pé grande.
O Azarão é uma criatura mítica! Pouquíssimos são os registros que dão pistas de minha real existência; menos ainda os que a confirmam.
Garanto-vos que há mais fotos do Ness e do Sasquatch circulando por aí do que minhas.
No Brasil, acredito que somente Rubem Fonseca e Dalton Trevisan possam ter sido menos fotografados do que eu. Ainda assim, vez ou outra, volta e meia, um fotógrafo mais sagaz, astuto e bom de tocaia pra caralho consegue me capturar com suas lentes. 
Noite sem lua, de puro breu, festa no capoeirão e no bambual, bailavam corujas e pirilampos entre os sacis e as fadas. Eu dançava e bebia cauim com os elementais da mata. De repente, fui atraído não pela luz de uma fogueira junto a um agrupamento humano, mas sim pelo reflexo da luz numa tina de metal, cheia de gelo e de cerveja.
Vesti-me com a carapuça da invisibilidade do saci-pererê e pus-me a trote rápido da mula sem cabeça. Peguei dois latões. Indetectável a olhos humanos. Mal sentiram o leve deslocamento de ar causado pela minha passagem, que fez bruxulear a chama do lampião de querosene.
Havia, porém, uma armadilha fotográfica, uma câmera remotamente ativada por um sensor de movimento ou de infravermelho, muito usada para fotografar animais esquivos, feito a onça-pintada, o lobo guará, o tamanduá-bandeira etc. Fui clicado.
O Boi Tatá, a Mãe da Lua e o Caipora esbaldavam-se de rir às minhas custas. Fiz-lhes um gesto obsceno e me afundei na mata. Sem dividir os latões com ninguém.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Pequeno Conto Noturno (74)

Cíntia sobe e monta em Rubens - deitado na cama de barriga para cima, em riste - e passa a cavalgá-lo, de frente para ele.
Rubens gosta de foder assim, por baixo, economiza-lhe muito esforço físico, que, passado os 50, não tem mais fôlego para ficar fazendo centenas de flexões de braço. Ademais, ficar por baixo, submetido a ritmo que não o seu, dá-lhe controle total de quando ou não gozar.
Cíntia alterna movimentos circulares e de bate-estaca no pau de Rubens. Sem pará-los nem mesmo diminuir suas intensidades, debruça-se sobre Rubens. Oferta-lhes os peitos. Médios para grandes. Rubens os apalpa, manipula, lambe, suga. Cíntia goza. Ergue-se, saca os peitos da boca de Rubens e, sem tirar o pau de dentro, vira-se de costas para ele. Continua a montá-lo. Com o cu à mostra, o espesso líquido branco de suas entranhas a se emplastrar nos pentelhos de Rubens, a envernizar o seu pau.
Rubens começa, então, a deslizar para trás, a se pôr sentado na cama. Crava os dedos na bunda de Cíntia, puxando-a para si, para que não se desacople do seu pau. Ao mesmo tempo, enquanto se põe cada vez mais sentado, vai empurrando para cima a bunda de Cíntia, elevando suas ancas, para colocá-la de quatro. Ao se dar conta da intenção de Rubens, Cíntia tira as mãos dele da sua bunda, gira o corpo, volta a montá-lo de frente e diz que não, diz que na condição dela, de uma mulher consciente de seu papel na sociedade, se recusa em trepar de quatro.
Danou-se - pensa Rubens. Uma porra duma feminista. Só podia ser praga do Calil.
Mas como Cíntia continuava a montá-lo, encharcada e quente, e como o pau já estava mesmo dentro, decide que não faria mal nenhum gozar. E gozou.
Cíntia chega à sala, saída do banho, e Rubens está sentado ao chão, pelado, acaba de abrir um latão de cerveja.
- Rubens - começa Cíntia -, quero falar que o que aconteceu lá no quarto, eu não ter ficado de quatro, não é nada contra você, nada pessoal.
Eu sei - pensa, mas não diz, Rubens - é contra todos os homens do mundo.
- Tudo bem, sem problema, não tem que explicar nada - diz Rubens, na esperança de encerrar o assunto. Não sabe o que é pior. Não ter comido o rabão de Cíntia ou ter de ouvir a explicação dela do por que não. Aliás, sabe : a explicação é pior. E mesmo desobrigada por Rubens de dá-la, a explicação vem. Puta que o pariu se vem. Rubens toma um longo gole e se prepara pro baque.
- O homem, Rubens, sempre fez questão de impor o seu jugo machista e opressor à mulher, a todo momento, em todas as situações. Sabe-a mais capaz que ele e sempre teve medo de que ela descobrisse isso. Principalmente no sexo, área em que a mulher é claramente superior, pois não pode o homem conceber e gerar e nem gozar múltiplas vezes.
- Eu gosto de ver a mulher gozando várias vezes antes de mim. Gosto de oprimir a mulher a gozar duas, três, quatro, cinco vezes...
- É sério, Rubens, não estou dizendo que você seja assim, ou que o faça conscientemente, mas faz. Quis me pôr de quatro, não quis?
- Impressão sua, eu só tava me ajeitando na cama, me levantando um pouco, dor nas costas, sabe?
- Pensa que tô brincando, né? Com medo da mulher, para controlá-la, para não deixar que ela descubra a própria força sexual, o homem a submete a posições humilhantes durante o sexo, posições que lhe dão o controle total das ações e movimentos. A mulher é posta na cama como uma cadela, como um fêmea irracional e sem vontade, como se às mercês, meramente, de seu cio biológico e de seu patrão, o homem.
Ai, meu saco - pensa Rubens -, não tem buceta que valha tanto. Toma outro gole e mata o latão. Vai até a cozinha e volta com outro. Só para si.
- Olha - diz Rubens -, se você tivesse ficado só um pouquinho de quatro, só um pouquinho, garanto que não a denunciaria ao Femen, ou ao Women's Liberation Front.
- Já falei que não é brincadeira, Rubens. Ir por cima, transar de frente, olhando o homem nos olhos, em condições de igualdade, foi uma lenta e difícil conquista feminina. Ter ficado de quatro pra você seria desrespeitar toda a luta das mulheres que me precederam, jogar ao lixo anos de luta feminista, seria, aos poucos, ir minando, solapando esse direito duramente conquistado.
- Sei - diz Rubens.
- Não, não sabe. A  mulher que se submete a fazer sexo na vexatória posição de quatro, de cadela, de vaca, se anula como indivíduo, se desapodera de sua condição de mulher, vira apenas um receptáculo de líquido seminal.
Porra! - pensa Rubens, mas se limita a dizer :
- Entendo - e dá outra talagada, drena o latão, pensa no quão caro essa buceta estava lhe custando. Vai até a cozinha e pega mais um. Só para si.
- Não, Rubens, na verdade, você não entende. Você foi educado para ser homem. Não tem como entender.
Rubens respira fundo. Decide que a remota possibilidade de um segundo round com Cíntia não vale o discurso dela. Nem de longe.
- Na verdade, Cíntia, eu não fui educado para ser homem. Fui programado biologicamente para ser homem. Lembra daquelas coisinhas, daqueles pequenos detalhes, dos cromossomos XX e XY? A natureza me deu um pau, não a sociedade machista. O meu cacete, Cíntia, no qual, ainda há pouco, você rebolou e se derreteu, não é uma construção social, porra. É carne, corpos cavernosos e sangue do bom bombando.
Toma outro gole. Dois.
- Me diz, caralho, onde foi que a coisa se perdeu, Cíntia. Quando foi que as pessoas passaram a levar posicionamentos políticos e ideológicos para a cama? Para a cama, Cíntia, deve-se ter a decência e o respeito de levar, simplesmente, uma buceta molhada e um pau duro. Não é à toa o número cada vez maior de balzaquianas, para cima, encalhadas, sem um homem para chamar de seu. O cara sai para meter numa mulher e acaba tendo que comer uma cartilha ideológica. O sujeito some, mesmo. Não liga nunca mais. E, depois, ele é dito o canalha. Que ereção resiste à militância e panfletagem, ora porra?
Entorna raivosamente o resto do latão. Em três goles sucessivos, sem respirar. Rubens bebe mais rápido quando fica puto da vida. Já viu que daquela buceta não sai mais coelho. Do cu, então... melhor nem tentar, sob pena de ter que ouvir sobre a sua potencial homossexualidade enrustida etc etc. Vai pra cozinha.
- Admito que haja um pouco de excesso da parte de certas alas mais radicais, Rubens - começa Cíntia, quando Rubens chega da cozinha com outra lata. De novo, só para si.
- Olha, acho que essa deve ser a terceira ou a quarta lata que você pega, não vai perguntar se eu também quero e trazer uma para mim?
- Normalmente, eu já teria trazido, mas vá que ir à geladeira e pegar a cerveja por conta e vontade próprias também seja uma importante conquista feminina? Quem sou eu para querer me opor, minar e solapar esse direito conseguido às duras penas?
Cíntia se levanta. Vai ao quarto, se veste e sai. Bate a porta. Desce as escadas pisando duro.
Rubens relaxa. Respira aliviado. Escarrapacha-se sentado no chão da sala. Saco raspando no tapete.
Praga do Calil, sem dúvida - conclui.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Renas do Papai Noel

Não há por onde. Não sou cristão. Sou ateu. Mas o espírito natalino nos pega a todos. Jingle bells, jingle bells.

Cacildis!!!

O ator Grande Otelo, por considerar o sambista Antônio Carlos Bernardes Gomes dotado de atributos assemelhados ao do mussum - peixe escorregadio, esquivo e liso, que se safa facilmente de situações embaraçosas -, apelidou o músico de Mussum. O apelido pegou fácil. E Antônio Carlos, em Mussum, tornou-se. Aliás, tornoussis!
Em 1973, a convite do amigo Manfried Santanna, o Dedé Santana, Mussum tornou-se Trapalhão. Tornou-se, não. Apenas assumiu publicamente a sua condição de. Mussum foi o Trapalhão por excelência. O mais original e autêntico deles. Dos quatro, Mussum era o único que não representava um personagem. Mussum era ele. Não lhe careciam scripts nem roteiris.
Mussum era o nosso embaixador da cachacis! O diplomata da biritis! O cônsul da caninha! O nosso adido cultural do mé! Mussum não bebericava, não degustava. Mussum dava uma beiçadis.
Mussum entrava no buteco - o balconista era sempre o ator Carlos Kurt -, mandava o Alemão medir um metro de pinguis no balcão e pedia pra embrulhar pra viagem. Ou chegava para o mesmo Carlos Kurt e pedia : me vê aí um leite de capivaris! Não temos, respondia o Alemão. Então, me vê aí um leite de jaguatiriquis! Não temos, respondia, de novo, o Alemão. Então, me vê aí um leite de elefantis. Também não temos, senhor, dizia o Alemão já às raias da paciência. Aí, Mussum tirava seu surrado chapéu da cabeça, levava-o ao peito, dirigia seu olhar ao Céu e dizia : o Senhor é testemunhis de que eu queria tomar leitis! Vira-se para o Alemão e dizia : então, me vê aí um mézis. Ou tentava, sempre escudado pelo "nojento" Tião Macalé, jogar um fiado para cima do Didi, armar uma pindureta no bar do cearense cabecinha de bater bife. Mussum dizia que eles eram da elite do morro da Mangueira, membros da diretoria, da família do Kunta Kinte, garantia Tião Macalé. Ou, ainda, na véspera de Natal, incumbido pelos amigos de dar pinga prum peru e amaciar-lhe a carne para a ceia, Mussum começa a beber junto com o peru. Segue monólogo de Mussum com o peru : "Seu piruzis, o senhor é do sindicatis? Da rapaziada que vai à lutis? O senhor mata o bicho? O senhor sabe beber socialmentis? Então tá convidadis pra dar uma beiçada... Vai, vai cumpade, dá uma pancadis..." Quando os amigos retornam, encontram Mussum e o peru bêbados e abraçados. Mussum os encara e diz : "se tocar um dedo no meu amigo, eu te mato... ele é do sindicatis..."
Para Mussum, era melhor melhor ser um bêbado conhecidis do que um alcoólatra anonimis.
Mussum morreu em 29 de julho de 1994, aos 53 anos. Não de cirrose hepática como muitos podem supor, sim de complicações por conta de um transplante de coração. Aliás, o Mussum não morreu, ele se pirulitou ("eu vou me pirulitazis", dizia quando a coisa ficava pretis).
Quase vinte anos após a sua morte, em 2013, Mussum recebeu a maior homenagem que pode ser prestada a um biriteiro de alma. Um de seus filhos, Sandro Gomes, se associou à cervejaria Brassaria Ampolis e, juntos, lançaram uma linha de cervejas com o nome do Trapalhão, a qual conta, hoje, com quatro títulos, a Biritis, a Cacildis, a Forévis e a Ditriguis.
Inicialmente as brejas do Mussum foram lançadas em ampolas, ops, em ampolis de 600 ml e produzidas artesanalmente em pequena escala; ou seja, com um preço, ao contrário de Mussum, nada engraçado. Nunca a tomara, portanto.
Até que, ontem, ao passar por um posto de combustíveis, um cartaz à entrada de sua loja de conveniência me chamou a atenção. Estava lá : Cerveja Cacildis (350 ml), R$ 3,19. A cerveja Cacildis transpôs os limites da garrafis e, agora, é produzida também em latis. 
Para os meus padrões, ainda num preço caro, porém praticável. Comprei duas. E é boa. Excelentis. Puro malte, coloração dourada, aroma que lembra um pouco um pão quentinho comprado à padaria, talvez pela fermentação do malte.
Continuarei a comprar a Cacildis? Muito provavelmente não. Hoje à noite estarei de volta às minhas boas e baratas. Só foi mesmo para experimentar, para prestar vassalagem ao mestre Mussum e para guardar a latinha.
Como de fatis!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Letras Insuficientes (ou, a Segunda Lei da Termodinâmica)

Curioso
Como tudo acaba,
Mesmo que nunca tenha existido;
Como tudo morre,
Ainda que nunca fecundado,
Que nunca parido
(que tudo se esgote pelo ralo da pia,
pelo ralo da entropia).

Curioso
Como não existem letras suficientes
Para tecer a mortalha do fim :
Nem nos alfabetos
Nem na tabela periódica.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Hoje

Hoje
O redivivo
O recidivo
O lázaro Grillo Verguero
Toca o Imortal Raul Seixas
No fênix-rock-bar Paulistânia.

E eu...
Me rendendo à Morte
Indo me deitar às nove e meia da noite.
(a benção Grillo, a benção velho Durval e Durvalzinho)

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Papa Francisco Diz : Agora é Moda Dar o Cu!

No livro  "La fuerza de la vocación" ("O poder da vocação"), lançado ontem (03/12) na Itália e já traduzido para mais dez idiomas, o autor Fernando Prado aborda a espinhosa questão da vocação religiosa nos tempos atuais, do clamor do chamado divino nos dias de hoje.
Tempos de vasta oferta de pecado. Tempos em que o demônio não necessita mais de elaborados e herméticos rituais, conhecidos apenas por iniciados no satanismo, para ser invocado e romper a barreira das dimensões Inferno/Terra, bastando para tal o sujeito ter uma conta no Tinder, ou no whatsapp. Tempos, enfim, em que a carne continua fraca e o quilo dela tá muito barato.
O livro é produto de horas de entrevista com ninguém mais ninguém menos que o Papa Francisco I.
Em certos trechos da obra, o Sumo Pontífice se declara deveras preocupado com a boiolagem galopante e saltitante que campeia desvairada não só no meio clerical como também na sociedade leiga. Disse o Papa : "Na nossa sociedade, até parece que a homossexualidade está na moda, e essa mentalidade influencia de certa forma também a Igreja".
Pãããããta que o pariu!!!! E o Papa tem o dom da infalibilidade! Se o Papa disse que está na moda dar o cu é porque está na moda dar o cu. Ainda bem que eu sempre fui um cara cafona, démodé.
Talvez cansado de ver, ao invés de circunspectos, constritos e penitentes seminaristas, esvoaçantes e fagueiras noviças rebeldes a borboletear pelos corredores dos seminários de formação de sacerdotes, o Papa desabafou : "a homossexualidade no clero é algo que me preocupa. Se trata "de um assunto muito sério. Pessoas com "essa tendência profundamente enraizada" não deveriam ser admitidas em seminários ou ordens religiosas".
"Tendência profundamente enraizada"? E bota enraizada nisso, Santo Padre!!! É cada mandiocão e cada nabo de fazer medo ao capeta!
E o Papa seguiu a dizer e a esclarecer - ou, ao menos, a tentar desfazer a confusão - que o amor incondicional e fraterno pregado por Cristo é uma coisa e que escorregar e rebolar numa piroca é outra. Muitíssimo diferente. Palavras do Papa : "é um erro acreditar que gays no mundo sacerdotal "não é assim tão grave" e que a homossexualidade seja apenas uma forma de afeição. Na vida consagrada e na vida sacerdotal, não há lugar para esse tipo de afeição."
Acredito, porém, que a questão dos gays no mundo sacerdotal seja outra, ou que, sendo a mesma, deva ser analisada por um outro prisma, que o Papa esteja errando o foco de sua abordagem. Ao invés de combater o ingresso maciço (firme, rijo e cheio de nervos) da viadada na vida religiosa, feito um Donald Trump de batina a tentar dedetizar cucarachas em suas estreladas fronteiras, ao invés de pensar em construir um muro guarnecido de bucetas farpadas e eletrificadas em torno do Vaticano, o Papa deveria se perguntar sobre o que tanto atrai a bicharada para o ambiente sacerdotal. Reunir-se com o pessoal do marketing da Santa Sé e detectar quais elementos e mensagens subliminares embutidos na propaganda da Igreja arrebatam tanto os gays, e traçar uma estratégia de mudança na imagem da Igreja que atraia o público-alvo desejado.
Humildemente, deixo umas dicas aqui para o Papa Francisco. Cristo é o garoto-propaganda da Igreja, e como ele é apresentado e vendido por ela? Em vida, Cristo foi um bon vivant, sempre metido em agitos e baladas pelas tabernas da época. E sempre, sempre acompanhado por homens. Nunca, em nenhuma situação, Cristo e seus amigos visitaram, por exemplo, um bordel, um zonão. Sempre cercado de homens, o Nazareno. Na sua morte, em seus estertores finais, Cristo é mostrado como um cara seminu, só de tanguinha, todo suado, e com barriga tanquinho. Porra!!!! Não tem viado que resista a este chamado. Comece, a Igreja, a apresentar Cristo como um homem casado, cuja esposa, ao longo do tempo, embarangou e se tornou uma megera, com três ou quatro filhos adolescentes para criar, cheio de dívidas, tendo que trabalhar oito horas por dia, pegando transporte público, forçado a almoçar na casa da sogra aos domingos etc e vamos ver se a viadada vai continuar com esse ânimo todo para entrar na vida monástica.
Mais. O Espírito Santo. É representado por uma pomba. Uma pomba-rola. Ora, porra, o Espírito Santo é macho das antigas, é pegador, é passador de rodo, traçou a Maria. O Espírito Santo é o Zé Mayer da Santíssima Trindade! Uma pomba-rola? No mínimo, por questão de respeito até, tinha que ser um gavião, uma águia com sangue nos olhos. Aí, garanto, só ia dar fuzileiro naval se ordenando padre.
O curioso é que quando o Papa, exímio orador, manipulador de multidões e sofista, fala que a homossexualidade no clero é algo que o preocupa atualmente, fica parecendo que a boiolagem é um comportamento recente na Igreja Católica, que é um sintoma dessa era de modernidade. Não é nada disso. A Igreja sempre foi uma gaiola das loucas. O Papa Francisco, possivelmente, é o primeiro Papa que se assume preocupado com a queimação de rosca dentro dos seminários, mosteiros etc, mas a prática vem de longe, é milenar.
Não duvido, contudo, que tenha havido, nos últimos anos, um incremento no já usual ingresso de boiolas na Igreja. O responsável? O próprio Papa Francisco. Quando do início de seu papado, talvez para mitigar a má imagem deixada por seu predecessor, o nazista Bento XVI, Francisco I assumiu posições mais liberais, pseudoliberais, na verdade. Disse que a Igreja devia acolher os homossexuais que a procurassem. Palavras do Papa, em 2013 : "se uma pessoa é gay e busca a Deus, quem sou eu para julgar?". Pronto. Foi o que bastou pra viadada achar que o Papa tinha liberado a queimação de rosca. Que dar a bunda não era mais pecado. 
Acontece que a bicharada não ouviu a fala do Papa até o fim. Não esperou o Papa molhar o bico. Havia - sempre há - um "mas", um "desde que". A Igreja deveria acolher o homossexual que a procurasse desde que este estivesse arrependido de sua vida pregressa, de sua vida de ré. Desde que estivesse disposto a trancar o cu, a fazer jejum perpétuo de rola. E, ainda assim, tal ressalva valia apenas para os fiéis. Nunca o Papa Francisco abriu exceção alguma aos candidatos a padre.
Em 2016, no documento Ratio Fundamentalis, Francisco I deixou bem claro que a viadagem não faz parte dos planos de Deus: "no que diz respeito às pessoas com tendências homossexuais que vêm para os seminários, ou a descobrem no curso desta formação, em coerência com o seu magistério, a igreja, embora respeitando profundamente as pessoas em questão, não pode admitir ao seminário e às ordens sagradas aqueles que praticam a homossexualidade, apresentam tendências homossexuais profundamente arraigadas ou apoiam a chamada cultura gay ”.
Até o nazistão Bento XVI, em 2005, mostrou-se mais tolerante que o jesuíta argentino, disse, à epoca, que "a igreja poderia admitir para o sacerdócio pessoas que haviam "superado" suas "tendências homossexuais" por pelo menos três anos", ou seja, candidatos que tivessem passado por uma espécie de estágio probatório de cu. Muito mais flexível, Bento XVI.
Neste ano, em 21 de maio de 2018, numa reunião a portas fechadas da Conferência dos Bispos Italianos, o Papa Francisco recomendou aos seu subordinados que não admitissem seminaristas gays, que não fosse dado a uma bichinha mais discreta e recatada nem mesmo o benefício da dúvida : "fiquem de olho nas admissões aos seminários, deixem os olhos abertos", disse Francisco. "Se tiverem dúvidas, é melhor que eles não entrem."
Bom, como eu não tenho nenhuma vontade de me tornar seminarista, muito menos de dar a bunda, muito menos ser católico, estou tranquilo. 
De qualquer forma, esta situação me lembrou de uma piada. Do Costinha. 

A bichinha foi se confessar com o padre. Ajoelhou em frente do confessionário e começou a desfiar seu rosário de pecados. Num dado momento, através da treliça do confessionário, a bichinha viu um belo anel com uma grande pedra vermelha no dedo do padre. Que anel maravilhoso, padre!, disse a bichinha. O padre não se conteve : ah, minha filha, você precisa ver só os brincos e o colar, mas o Papa não deixar usar...

Pãããããããta que o pariu!!!!

domingo, 2 de dezembro de 2018

Haicai do Pasquale

Não parece coisa cômica
Átono 
Ter sílaba tônica?

Todas as Barangas de Benetton

A reunião dos G20, os vinte países economicamente mais poderosos do mundo, ocorrida em Buenos Aires no dia 29 passado, teve como efeito colateral a reunião dos "G20" dos desocupados, dos vagabundos, dos mamadores de benesses estatais, ou seja, dos movimentos sociais e ativistas políticos.
A corja improdutiva e comunista (perdoem-me pela redundância, mas são ainda sete e 25 da manhã e dormi mal pra caralho essa noite), inimiga do capitalismo, mas todos munidos de seus celulares e calçados com seus tênis nike, marchou pelas ruas da capital portenha em protesto contra o G20, contra o FMI, contra os ingleses nas Ilhas Malvinas, contra Donald Trump e - sobrou até pra ele, vejam só - contra o intrépido Jair Bolsonaro.
Encabeçando a malta de arruaceiros sociais, estavam, é claro, as feministas. Uma delas, Juliana Díaz, mostrando que decorou muito bem O Capital, de Karl Marx, a cartilha Caminho Suave dos comunas, disse : "o G20 é onde se reúnem os poderosos do mundo para planejar o aprofundamento do capitalismo patriarcal, para buscar novas formas de dominação, como continuar com a divisão". E, logo em seguida, postou sua fala no seu feicibúqui, no seu tuíter e no seu instagram. Falou, falou e não falou porra nenhuma. Pronunciamento digno da Dilma Roussef. 
Continuar com a divisão? Mas quem é que se divide em movimento disso, movimento daquilo, movimento daquiloutro? Quem é que se segmenta para compor novas minorias e exigir suas pretensões de privilégios majoritários? Fragmentando-se como se fragmenta essa corja, em Ls, em Gs, em Bs e Ts, em MSTs, em CUTs, em UNEs e o caralho a quatro, miríades de minorias surgem a cada dia.
Mas, enfim, o que é uma feminista? Basicamente (1), é uma mulher, um ser que nasceu com grelo, mas morre de vontade de ter um pau. Daí em diante, toda a vida desse ser é dedicada a antagonizar os que foram dotados de uma benga pela natureza. Feminista não quer a convivência pacífica entre os gêneros, quer exterminar o macho da face da terra. Basicamente (2), feminista é um ser que nasceu com grelo e feia pra caralho. E se rebelando contra a lei universal que dita que mulher feia tem de ser, no mínimo, simpática e agradável, as feministas se esmeram e se especializam em serem umas chatas de galochas, empoderadas que não conversam nem dialogam, discursam. Feminista sempre fala em voz alta, como se estivesse num palanque a discursar para multidões, num comício de suvacudas de tetas murchas. Basicamente (3), somados o basicamente (1) com o basicamente (2), temos que, em suma, uma feminista é uma mulher sem marido, ou seja, uma desocupada que não tem uma pia cheia de louça suja nem um tanque cheio de roupa para lavar. Por isso, sobra-lhe tempo para ir pra rua, marchar e atrapalhar o sábado e o trânsito.
A foto que postarei logo abaixo, das feministas contra o G20, lembrou-me de uma campanha publicitária da década de 1980, da marca Benetton : United Color of Benetton, Todas as Cores de Benetton. 
Quem tem mais de 45 anos vai se lembrar. A campanha, muito bem produzida, estampava, em enormes outdoors, todas as cores e matizes humanas, étnicas, culturais, religiosas e políticas. Imagens de famílias, amigos, vizinhos etc das mais diversas etnias, caucasianos, negros, ameríndios e japoneses, sempre em festa, sempre abraçados, sorridentes e em total comunhão; fotomontagens de líderes políticos e religiosos antagônicos se beijando na boca contra o ódio entre os povos e as religiões etc. Como se o ser humano, independente de etnia, credo ou posição política, fosse mesmo capaz de conviver em harmonia com o resto do planeta. A antológica campanha da Benetton deveria ser processada por propaganda enganosa, isso sim.
Abaixo, e finalmente, Todas as Barangas de Benetton, ou, em inglês, United Barangas of Benetton, mostrando que mocreia engajada é um mal universal, prestes a ser incluído na lista das pandemias pela OMS.
Tem baranga de tudo quanto é nacionalidade. Da direita para a esquerda, baranga estadunidense, francesa, turca, alemã e, se não me falham as aulas de geografia do colégio, até uma baranga palestina.
Pãããããããta que o pariu!!!

sábado, 1 de dezembro de 2018

Minha Planta Carnívora de Estimação

Nesta minha última viagem, a Monte Verde (MG), por vontade da esposa, fui levado a um orquidário local. Gosto das orquídeas. Acho-as belas, é óbvio. E eis o entrave : o óbvio de suas belezas. O inegável e o indiscutível de suas paletas de cores, da precisa geometria escalena de suas pétalas e outros elementos florais, das notas afinadas de seus perfumes. Precisão e simetria demais para serem verdade. E não são, embora muito nos agrade os olhos.
Orquídeas parecem com aquelas modelos gostosas das capas das revistas, dão-me a impressão de que foram passadas por algum programa de edição digital de fotos, por algum tipo de photoshop.  E foram. Não por um programa de edição de imagens, claro, mas sim por um longo processo de, digamos assim, edição genética.
A grande e esmagadora maioria das orquídeas hoje à venda e/ou em exposição não são naturais, são linhagens manipuladas pelo bicho homem, plantas obtidas através de meticulosos cruzamentos entre variedades nativas e submetidas a pacienciosos e rigorosos processos de seleção dos híbridos com características desejáveis e descarte dos malfadados. Décadas, centenas e mesmo milhares de anos (supõem-se que o cultivo de orquídeas tenha se iniciado na China, há mais de 3000 anos) de eugenia e limpeza étnica para que tenhamos as orquídeas que hoje vemos nas floriculturas, supermercados e lojas de jardinagem. Como eu disse, precisão e simetria demais para serem de verdade.
A gente olha para os peitões perfeitos e simétricos da modelo da capa da revista e logo vemos que tudo aquilo não pode ser natural. Gostamos - muito - do resultado, mas sabemos que é puro Pitanguy e silicone. Olhamos para uma orquídea e nos encantamos com suas formas, seus roxos, vermelhos, amarelos e alaranjados - muitas são verdadeiros pôres-do-sol envazados -, mas sabemos que a natureza jamais produziria tais formas, desenhadas a esquadro e compasso, e tais matizes. Gostamos do resultado, mas sabemos que são produtos de manipulação humana.
As orquídeas são as moças de boas famílias que caíram nas mãos de más companhias - no caso, nós, humanos - e foram desvirtuadas dos bons caminhos ditados pela Mãe Evolução, que foram seduzidas pela vida vazia dos holofotes e das passarelas das floriculturas.
Nunca possuí uma orquídea. Nem uma modelo de capas de revistas. Ambas, caras demais para os meus desmilinguidos bolsos. Nem tenho ambiente adequado para acomodá-las, a sacada do apartamento recebe de chofre o inclemente sol da tarde. Orquídeas, assim como as modelos das capas das revistas, gostam de sombra e de água fresca.
Havia, porém, no orquidário, percebi-o pelo canto da vista esquerda, um outro recinto bem menos frequentado que o das orquídeas. E onde há menos gente, é para lá mesmo que vou. Um pequeno ambiente, também úmido e abafado, com plantas carnívoras.
Opa! Plantas carnívoras são outra estória. São de um outro naipe. Não trilharam o caminho da beleza fácil. Não nasceram no berço de ouro de uma verdejante, exuberante e fértil floresta tropical. Não tiveram quaresmeiras, embaúbas, bromélias, frondosos ipês amarelos, alegres macacos e multicoloridas araras como colegas de escola. Plantas carnívoras foram dadas à luz em manjedoura de lama e lodo podres. Batráquios gosmentos, crocodilos e mosquistos hematófagos foram seus amigos de infância e de reformatório.
As plantas carnívoras são, em sua quase totalidade, nativas de terrenos alagados - pântanos, brejos e charcos. Nascidas em berço de águas fétidas e estagnadas, e amamentadas por solos argilosos, pouco aerados e, sobretudo, paupérrimo em nutrientes minerais, em especial o nitrogênio, as plantas carnívoras, desde a mais tenra idade, perceberam que não adiantava pedir colinho à Mamãe Natureza. Não deram uma de coitadinhas, de excluídas da natureza. Não se vitimizaram, dizendo que não tiveram as mesmas chances na vida que as rosas, os gerânios e as margaridas. Não pleitearam cotas taxonômicas de inclusão. Antes pelo contrário. Foram à luta. Ralaram. Suaram. Adaptaram-se.
Para suprir a deficiência de nitrogênio mineral no solo, desenvolveram arapucas e enzimas digestivas para obtê-lo dos insetos (algumas plantas carnívoras de maior porte chegam a digerir pequenas rãs e filhotes de passarinhos ), da digestão da proteína animal.
(Pããããããta que o pariu. Se até entre os vegetais há uma ala de dissidentes da fotossíntese, que se lambuza de carne, imagina só se eu, um dia, vou virar vegetariano? Porra nenhuma que vou. Aliás, será que um vegetariano comeria uma salada de folhas de plantas carnívoras?)
E quem um dia irá dizer, das plantas carnívoras, que a beleza lhes é ausente? Plantas carnívoras têm uma beleza menos evidente, uma beleza mais rústica, áspera até, muitas vezes, por ser a beleza do sobrevivente, não a do privilegiado; por ser a conquistada na forja implacável da seleção natural, não a recebida de mãos beijadas no conforto de uma estufa climatizada, por ser, enfim, a beleza crua do predador, não a requentada e pasteurizada da mocinha presa na torre do castelo.
Nunca tinha me passado pela cabeça comprar uma planta carnívora, até então. Por sabê-las de ambientes pantanosos, sempre supu-las, por errônea associação, também plantas de sombra, de trevas. Informado pelo dono do local, um doutor em botânica, de que as plantas carnívoras, pelo contrário, necessitam de muitas  horas diárias de exposição direta ao sol e mais impulsionado pela animação e pelo deslumbramento do Raul, meu filho, ante a possibilidade de ter uma plantinha que come insetos, só antes vista por ele nos desenhos do Scooby-Doo, pensei : por que comprá-la, por que não comprá-la? Comprei-a-a.
Uma dioneia. Conhecida também por papa-mosca. A mim, sempre lembra da terrível lenda da vagina dentata.
Por ser um exemplar pequeno da planta (não é a da foto acima, que tem caráter meramente ilustrativo), uma muda transplantada de outra maior, paguei barato por ela, dez reais.
Há duas semanas instalada confortavelmente na minha sacada, a receber regas diárias e horas a fio de sol, e nada dela pegar sequer uma merda dum pernilongo da dengue. Será que a muda não chegou a "pegar"? Morta? Com defeito de fábrica? Mais um embuste, destes pregados a turistas otários?
Até que, há três dias, numa noite, pouco antes de ir me deitar, resolvi tirar a teima. Abati um pequeno mosquito que rodava ao redor da lâmpada da sala e com uma pinça o depositei dentro de suas folhas modificadas em armadilhas, dentro de sua boca. Ato reflexo, as folhas se cerraram de pronto. Trancafiaram o inseto em suas entranhas.
Animado, capturei ainda outro inseto e, de novo, a alimentei. Desde então, suas folhas permanecem fechadas, digerindo lentamente suas presas, ao fim do quê, se abrirão novamente, revelando as carcaças secas dos insetos.
Longe de se deixar contagiar pela minha animação, minha esposa, que tudo olhava de longe, falou : "você já alimenta as gatas e os peixes-de-briga, vai agora ficar caçando bicho pra alimentar planta carnívora?"
- Só até ela crescer e aprender a caçar sozinha, ela ainda é filhotona, respondi.

Travessuras de Menina Má (13)

NÓS

Dor,
Guardada nas rugas do vinil,
Incubada no pigarro
E na rouquidão das fitas Basf.

Dor,
Parida, muitas vezes,
Natimorta
Do ventre miomatoso de uma bic azul.
Arrancada, muitas vezes,
A fórceps
Do útero de teclas em menopausa
De uma Olivetti Lettera 82.