quarta-feira, 20 de março de 2019

Uma Geração Perdida, por Luiz Felipe Pondé

Uma geração perdida, diz Pondé, sempre polido e cortês. Uma geração de merdas, asseguro-vos eu. De inúteis. De pesos mortos.

"O mercado de trabalho que se prepare porque as universidades estão gestando uma geração mimimi raivosa, que não vai prestar para muita coisa. Esse diagnóstico é feito por especialistas americanos sobre universidades americanas. Mas, como toda moda americana pega, ela já chegou aqui.
O fetiche com relação aos jovens serem “mais evoluídos” continua em ação. Um pouco pela vaidade dos pais, um pouco pelo marketing das escolas e universidades, um pouco porque pessoas mais velhas querem fazer sexo com esses jovens, e o blábláblá de que são legais funciona melhor quando você quer levar um deles ou uma delas para a cama.

Greg Lukianoff, psicólogo cognitivista, e Jonathan Haidt, psicólogo social, escreveram um livro em 2018 que está impactando não só o mundo acadêmico como o mundo corporativo. “The Coddling of the American Mind” (Mimando a mente americana, Penguin Press) é de urgente leitura para quem trabalha com jovens. Mas, se fôssemos medir o nível de leitura de quem trabalha em escolas e universidades, provavelmente não passariam de 10% aqueles que ainda têm tesão pelo estudo
“Coddling” significa mimar. A realidade desse processo já foi apontada, de formas diversas, por especialistas como Jean Twenge e Frank Furedi em livros recentes. Ela com o “iGen”(traduzido no Brasil) em 2017, ele com “What’s Happened to the University?” (sem tradução por aqui) em 2018.

A obra descreve casos recentes e escandalosos de universidades americanas que mergulharam no caos e na violência estudantil de esquerda a partir de emails nada especiais, enviados por seus professores, alunos ou por membros da administração.

A pesquisa também relata provocações de membros da direita agressiva off-campus e o comportamento canalha de colegas professores que, apesar de no particular se solidarizarem com os colegas levados à fogueira por esse alunos furiosos, no público juram pureza ideológica a favor dessas mesmas fogueiras (universidades são um dos espaços onde canalhas crescem aos montes). Os autores se referem a esse fenômeno como “caça às bruxas” —quem já viu ou viveu esse tipo de ataque por parte de alunos e redes sociais sabe o que é.
As universidades americanas estão se transformando em tribunais da inquisição, muitas vezes liderados por professores e justificados por uma teoria conhecida como “interseccionalidade”. Segundo esta teoria, existem dois grupos básicos no mundo, os opressores e os oprimidos. Mas o gradiente é móvel: ele vai do mais opressor ao mais oprimido. 

Na ponta do opressor, homens brancos, heterossexuais, bem-sucedidos. Na ponta do mais oprimido, encontramos um “mau infinito”: talvez uma mulher, negra, lésbica, pobre. Bruce Bawer, crítico literário americano, já havia apontado esse “mau infinito” na sua obra “Victims’ Revolution”, em 2012

Um traço dessa tese é que, mesmo que o “agressor” não tenha tido a intenção de cometer a “agressão” de que o acusam, se a “vítima” se sente agredida, ele deve ser demitido, execrado em praça pública, condenado ao ostracismo. A tendência a desconvidar pessoas para conferências em universidades nasce dessa tese.

Um dos riscos desse fenômeno é que os alunos são estimulados a recusar o contato com questões das quais eles podem discordar, mas que deveriam ser estimulados a refletir e debater. As universidades mimam esses alunos, criando pequenos Torquemadas ofendidos.

Na parte dedicada a investigar as causas que nos levaram a essa situação, os autores elencam: polarização política, pais paranoicos superprotetores, obsessão por um mundo mais justo, ansiedade, suicídio e depressão em crescimento, o declínio do brincar em espaços abertos, mídias sociais e a burocracia para construção de um mundo cada vez mais “seguro psiquicamente” nas escolas e universidades. Você reconhece algumas dessas causas perto de você? 

Segundo os autores, a única solução será as universidades que quiserem apoiar um viés político claro se tornarem instituições como as religiosas, que pregam ao invés de formar adultos livres, assim como faculdades de teologia que assumem sua denominação religiosa. E aquelas que quiserem formar jovens que pensem o mundo livremente devem abandonar o projeto de confundir filosofia e ciências humanas com uma igreja a favor dos oprimidos.

Pensando nas universidades que conheço aqui no Brasil, só nos restarão as que optam por ser igrejas que se acham salvadoras do mundo."

sexta-feira, 15 de março de 2019

Planeta (não tão) Macho

Anteontem, na postagem Planeta Macho, dei um mergulho no túnel do tempo e falei de uma antiga campanha publicitária da cerveja Kaiser, que consistia de fotos de gostosas de biquínis estampadas na parte interna das tampinhas das garrafas.
Tempos que, provável e infelizmente, não voltam mais. Tempos em que propaganda de cerveja era sinônimo de mulher pelada, pois também eram tempos em que cerveja era bebida de macho das antigas, de pedreiro, de estivador, de mecânico de trator, de caminhoneiro de fenemê, e não de somelliers e de degustadores afrescalhados. Tempos em que o cara bebia cerveja para ficar bêbado e não para apreciar o bouquet, sentir o amargor equilibrado do lúpulo, o frutado do retrogosto e analisar com que comida este ou aquele tipo de cerveja harmoniza. Cerveja harmoniza é com chifre, ora, porra! Com dor de cotovelo! E, como saco vazio não para em pé, também com torresmo, panceta, ovo colorido e salsichão em conserva de boteco.
Tempos em que não existiam as porras dessas cervejas artesanais, em que ninguém sabia se a cerveja era pilsen, era lager, ou qualquer outra coisa. Cerveja era cerveja. O máximo de sofisticação, de gourmetização que havia era se a cerveja era da loira ou da preta. E pronto.
Aí, vem o meu amigo virtual Jotabê, o Matusalém do Blogson Crusoe, e me joga um balde de água fria, interrompe o meu devaneio, traz-me para os tristes dias atuais.
Comentou Jotabê na postagem : "Rapaz, isso é muito legal! Nunca jogue fora, pois é o tipo de coisa que ninguém tem e que define uma época, uma cultura, etc. Não deixa de ser divertido pensar que se existiu o baixinho da Kaiser, hoje existe o Lulu da Itaipava. Que, como diria o Paulo Silvino, "é uma bichona".
Na hora, não entendi picas. Quem era o tal Lulu da Itaipava? Não conhecia, nunca tinha ouvido falar e até tentei imaginar, mas não consegui tecer a menor ideia de quem pudesse ser. Eu assisto à televisão cada vez mais raramente; canal aberto, então, só se o médico receitar e a doença for muito grave, se for uma pneumoniazinha qualquer, eu nem sigo a prescrição.
Fui pesquisar e descobri que o tal Lulu da Itaipava era ninguém mais ninguém menos que o Lulu Santos. Pããããããta que o pariu!!!! Lulu Santos, o último romântico! Lulu, o roqueiro LGBT da terceira idade! Gosto pra caralho de um punhado de músicas do Lulu, gosto mesmo, e, além do quê, ele me parece ser um sujeito dos mais gente boa. Mas propaganda de cerveja? Como diziam antigamente : não orna.
É bem verdade que Lulu não está sozinho, conta com o auxílio luxuoso de Aline Riscado, a Verão da Itaipava. Quase que irreconhecível, a Verão. Onde foram parar as formas bem torneadas e roliças, para onde foram todas aquelas suculências e carnosidades da Verão de que me lembrava? Secaram. A moça tá com um físico de maratonista. Tristes tempos, tristes tempos.
Abaixo uma foto do Planeta (não tão) Macho, tirada pelo telescópio Hubble, da Nasa.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Que Fossa, Hein, Meu Chapa, Que Fossa... (46)

Lágrimas por ninguém, só porque é triste o fim : outro amor se acabou. E quem iria acreditar?
Que fossa, hein, meu chapa, que fossa...
Ela Disse Adeus
(Os Paralamas do Sucesso)
Ela disse adeus
(Now the deed is done)
(As you blink, she is gone)
(Let her get on with life)
(Let her have some fun)

Ela disse adeus
(Now the deed is done)
(As you blink, she is gone)
(Let her get on with life)
(Let her have some fun)

Ela disse adeus e chorou
Já sem nenhum sinal de amor
Ela se vestiu e se olhou
Sem luxo, mas se perfumou

Lágrimas por ninguém
Só porque é triste o fim
Outro amor se acabou

Ele quis lhe pedir pra ficar
De nada ia adiantar
Quis lhe prometer melhorar
E quem iria acreditar?

Ela não precisa mais de você
Sempre o último a saber

Ela disse adeus
(Now the deed is done)
(As you blink, she is gone)
(Let her get on with life)
(Let her have some fun)

Ela disse adeus
(Now the deed is done)
(As you blink, she is gone)
(Let her get on with life)
(Let her have some fun)

Disse adeus e chorou
Já sem nenhum sinal de amor
Ela se vestiu e se olhou
Sem luxo, mas se perfumou

Lágrimas por ninguém
Só porque é triste o fim
Outro amor se acabou

Ele quis lhe pedir pra ficar
De nada ia adiantar
Quis lhe prometer melhorar
E quem iria acreditar?

Ela não precisa mais de você
Sempre o último a saber

Ela disse adeus
(Now the deed is done)
(As you blink, she is gone)
(Let her get on with life)
(Let her have some fun)

Ela disse adeus
(Now the deed is done)
(As you blink, she is gone)
(Let her get on with life)
(Let her have some fun)

Ela disse adeus
(Now the deed is done)
(As you blink, she is gone)
(Let her get on with life)
(Let her have some fun)

Ela disse adeus
(Now the deed is done)
(As you blink, she is gone)
(Let her get on with life)
(Let her have some fun)

Ela disse adeus
(Now the deed is done)
(As you blink, she is gone)
(Let her get on with life)
(Let her have some fun)

Para ouvir a canção, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO

quarta-feira, 13 de março de 2019

Planeta Macho

Durante milênios, o planeta Krypton viveu sua glória e seu esplendor sob a batuta da autocrática dinastia El, da qual, para nós, Kal-El é o filho mais célebre, e que, por aqui, em terras de Sol amarelo, atende por Clark Kent, o Super-homem.
Até que, um dia, uma desestabilização do núcleo do planeta (não me lembro do que a ocasionou) provocou a explosão de Krypton, que deixou de ocupar seu lugar na órbita do sol vermelho Rao, passando a vagar pelo Universo na forma de destroços espaciais. Destroços que, volta e meia, vêm dar aqui na Terra, fotografias verdes de um passado glorioso.
Analogamente, existiu, um dia, o Planeta Macho, que também viveu milênios de auge e de grandeza sob o comando do macho das antigas, do macho de respeito. Áureos tempos em que ser macho era virtude e que virilidade e pelos no saco e no sovaco eram motivos de orgulho, tempos em que ser homem não era considerado politicamente incorreto, em que exalar testosterona e exercer a sua legítima condição biológica não era visto como algo "tóxico".
Diferentemente, porém, de Krypton, o Planeta Macho não explodiu : foi sabotado e implodido de maneira canalha e sub-reptícia. Creio que a sua ruína e o seu desmoronamento tenham se dado, ou começado a se dar, entre fins da década de 1990 e auroras dos anos 2000. Foi desestabilizado lentamente e jogado fora de sua órbita pelo advento da ideologia esquerdista no Brasil, sobretudo por um de seus tentáculos mais podres e gosmentos, o feminismo/comunismo. O feminismo vermelho foi minando, solapando as bases do Planeta Macho até a sua total fragmentação. 
Seus destroços, feito os de Krypton, também continuam a vaguear pelo cemitério sideral dos planetas póstumos, sendo encontrados e recolhidos, vez ou outra, por velhos cosmonautas que escaparam com vida da implosão do Planeta Macho.
Topei com um desses fragmentos, com uma dessas kryptonitas, neste fim de semana. A dar uma geral numas gavetas há muito não abertas, para ver o que poderia ser descartado, dei de cara com um fragmento do Planeta Macho : uma série de tampinhas de garrafa da cerveja Kaiser, da década de 1990, da época do antológico "Baixinho da Kaiser".
Uma série promocional de tampinhas impensável de ser viabilizada nos dias de hoje, sob a pena de irem para o xilindró os publicitários que a criaram e o diretor da empresa que contratou a campanha. 
Na parte de fora da tampinha, o normal, o logotipo da Kaiser, e na parte de dentro, protegidas por aquele círculo de plásticos, fotos de gostosas de biquíni. Uma mais suculenta e peituda que a outra; acho que eram um total de treze delícias. Bem que tentei completar a coleção, mas o meu inseparável azar me fazia tirar mais tampinhas com a foto do Baixinho do que com as estampas das gostosas. Ainda assim, conseguia juntar algumas, sete gostosas, justamente as que eu encontrei no fundo da gaveta.
Verdadeiros e inestimáveis registros arqueológicos do Planeta Macho, as tais tampinhas.
Aí estão, tem a Babi, a Fran, a Majô, a Simone, a Gabi, a Marcele e a Paty.
Bons tempos de nossa publicidade, bons tempos...

domingo, 10 de março de 2019

Tolices

- É melhor pararmos
Com estas nossas tolices - ela disse.
Ele,
Que nunca se julgara
(e menos ainda a ela)
Um tolo,
Com medo de perguntar ou de cometer
Alguma tolice,
Apenas virou a dose,
Que já era mais água que whisky,
E disse :
- Tudo bem.
E as tolices entre eles
- fossem o que tivessem sido,
fossem o que fossem,
fossem o que poderiam vir a ser -,
Pararam.

sábado, 9 de março de 2019

Realizei Todos os Meus Não-Desejos

Eu nunca quis ser um alto executivo
De uma supermultinacional,
Miliardário,
A viajar o mundo com minha valise 007
A influenciar as bolsas de valores.
E consegui :
Sou pacato funcionário público.

Eu nunca quis ter um carrão envenenado
Motor V8
Uma Ferrari Testarossa carmim.
E consegui :
Nem carteira de habilitação, tenho.

Eu nunca quis ser um conquistador,
Um galã da novela das oito,
Um Don Juan, um Casanova.
E consegui :
As namoradas que tive,
Contam-se nos dedos de uma só mão.

Eu nunca quis ser o camisa 10 da seleção,
Vestir a plumagem canarinho,
Desfilar em aclamação popular do alto de um carro de bombeiros,
Passar no canal 100.
E consegui :
Nunca venci um campeonato de pebolim,
Nem de jogo de botão,
Nem de Atari.

Eu nunca quis ser um douto erudito,
Um literato,
Um descobridor de nada.
E consegui:
Vivo, há vinte anos,
De repetir a mesma ladainha,
De Mendel pra cá, de Darwin pra lá, de Lavoisier pra acolá,
De narrar glórias alheias.

Eu nunca quis ser célebre,
Notório,
Nem expoente de nada.
E consegui :
Mantive-me firme,
Realizei todos os meus não-desejos,
Sou um  homem realizado.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Todo Castigo Pra Biscate é Pouco (4)

Pandemias? A peste negra, a gripe espanhola, a AIDS? Coisa nenhuma! Surtozinhos endêmicos de nada.
Um único mal, até hoje na história da humanidade, merece o título de pandemia. Um flagelo que não se deixa deter nem intimidar por barreiras geográficas, sociais, religiosas, étnicas, ideológicas, econômicas, sanitárias, mesmo de eras geológicas : o chifre!
Apesar de ser um mal tão velho quanto o próprio ser humano, pouca certeza se tem de seus agentes etiológicos - se um vírus, um fungo, uma bactéria, um protozoário -, sabe-se apenas de seus meios de dispersão, de seus vetores; o principal, a buceta, a famosa xavasca.
O chifre, logo e portanto, é inevitável. O que muda, de caso pra caso, é a maneira com a qual o corno lida com ele. O cara pode ser o corno clássico : chorar, encher a cara e esfolar o cotovelo no balcão de um buteco, implorar e aceitar a biscate de volta; ou ser o anti-corno : chorar, encher a cara e esfolar o cotovelo no balcão de um buteco, mas jamais, em tempo algum, perdoar a vagaba. Antes pelo contrário : maldizê-la aos quatro ventos, arrastar o nome dela na lama, pôr o nome dela no SPC, o Serviço de Proteção ao Corno.
Foi o que fez Marcelo Nova na canção "Silvia". Sim, meus caros, o visceral e verborrágico Marcelo Nova, líder do Camisa de Vênus, até hoje o homem do rock no Brasil, também é corno. E qual a surpresa? Não são cornos apenas os cantores de boleros, fados, serestas, tangos e guarânias. Se o velho chifre não faz distinção geográfica etc, não seria um gênero musical a servir de imunização contra ele. Roqueiro também é corno.
Ou, no caso, anti-corno. Na canção, Marcelo Nova não nega o chifre, assume a galha com galhardia, mas é implacável com a tal da Silvia. Marceleza não tergiversa nem titubeia : "Ô, Silvia, piranha!!!", "Ô sua puta"!

Silvia
(Camisa de Vênus)
Você me diz que não tá mais saindo
Mas eu desconfio que cê tá me traindo

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Vive dizendo que me tem carinho
Mas eu vi você com a mão no pau do vizinho

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Todo homem que sabe o que quer
Pega o pau pra bater na mulher

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Vive dizendo que tá numa boa
Mas veio pra São Paulo dar massagem em coroa

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Você jura e repete que me tem amor
Mas eu lhe flagrei com um vibrador

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Todo homem que sabe o que quer
Pega o pau pra bater na mulher

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Quando eu chego em casa com essa cara de otário
Vejo o zelador, tá dentro do armário

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Eu acho mesmo que você não tem jeito
Pois até o leiteiro anda mamando em seu peito

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Todo homem que sabe o que quer
Pega o pau pra bater na mulher

Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!
Ô Silvia, piranha!!! Ô Silvia, piranha!!!

Ô sua puta!


Para ouvir "Silvia", é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO

(rascunhei esta postagem há cerca de 10 dias, mas como minhas inércia, preguiça e total anedonia só me permitiram digitá-la hoje, a coincidir com a mais representativa data feminista do mundo - e a com mais cabelos no sovaco, também -, além da intenção inicial de tê-la escrito, deixo-a aqui também como uma modesta homenagem ao Dia Internacional da Mulher)

quinta-feira, 7 de março de 2019

Eu Bebo Esta Noite; Bukowski

o melhor da raça
não há nada para
discutir
não há nada para
lembrar
não há nada para
esquecer
é triste
e
não é
triste
parece que a
coisa
mais sensata
que uma pessoa pode
fazer
é
sentar
com bebida na
mão
enquanto as paredes
acenam
seus sorrisos
de adeus
a gente sobrevive
a
tudo
com certa
dose de
eficiência e
bravura
e aí
se manda
alguns aceitam
a possibilidade de que
Deus
os ajude
a
superar
outros
encaram
de frente
e à saúde destes
eu bebo
esta noite.

terça-feira, 5 de março de 2019

Eu Queria ser o Dylan

O enredo em si da série Beverly Hills, 90210 (por aqui traduzida para Barrados no Baile) já nos era - a mim e aos meus contemporâneos de escola, faculdade e amizades afins - um tanto quanto pueril quando de sua estreia, em 1990; já era - usando um termo que, à época, não era aplicado - um tanto quanto teen para nós, todos na faixa dos 22, 23 anos, em fase, portanto, de definição profissional, de tomar um rumo na vida.
Ainda assim, todos nós assistíamos a Barrados no Baile. Não perdíamos um, sempre aos sábados à tarde. E se, por alguma razão, fôssemos perder, programávamos o vídeo-cassete para gravar e assistíamos depois.
É que, independente da faculdade que cada um cursava, ou dos rumos que cada um planejava dar à própria vida, havia uma unanimadade entre nós : todos nós queríamos ser Luke Perry, o Dylan, o fodão dos Barrados no Baile!
A séria era ingênua, bobinha etc, mas tinha o Dylan.
Dylan era o cara misterioso;
Dylan era filho de um perigoso gangster de Los Angeles,
Dylan era o outsider, o genro que nenhuma sogra quer ter;
Dylan tinha o desdém e o enfado pela vida de um Humphrey Bogart;
Dylan tinha a beleza torturada de um James Dean;
Dylan dirigia um Porsche;
Dylan comeu a Brenda;
Dylan comeu a Kelly;
Dylan comeu a Valerie.
Luke Perry, o Dylan, na quinta-feira passada, aos 52 anos, sofreu um AVC, vindo a falecer ontem (04/02).
O funeral será na casa dos Walsh.
 Luke Perry
1966 - 2019

E a Lua Anda Tonta...

Em qual das tuas fases
Manténs agora tua secreta base,
De localização e acesso criptografados de mim?

De que janela orbital,
Inatingível por meu binóculo indiscreto,
Agora te exibes túrgida e distraída
Para algum cosmonauta pervertido?

Em qual dos teus velhos carnavais,
Dos teus salões sem atmosfera e gravidade
Bailas e flutuas alheia a mim?

Com qual dos teus eclipses,
Das tuas máscaras negras,
Passas por mim
Disfarçada,
Foragida,
Magoada?

Com que Arlequim te iludes
Te divertes e te embriagas
A pensar que não pensas mais em mim?

Com que lança-perfume fantasias,
Com que fantasia te entorpeces
Quando finges que não é minha a tua luz
E que não controlas meus humores,
As minhas marés?

domingo, 3 de março de 2019

A Era Faleolítica (Ou, Cada Tempo tem o Champollion e o Indiana Jones que Merece)

O ser humano tem uterina e embrionária necessidade por totens, por símbolos que representem e que deixem registrados (ele achará que deixarão) os seus "grandes feitos", a sua triste e destrutiva passagem pelo planeta. Tem urgente e atávica necessidade por mitos, heróis, ídolos e grandes conquistas e descobertas.
Então, em tempos de vacas magras de grandes vultos e de grandes realizações, o que faz o rídiculo ser humaninho? Fabrica-os. Põe em funcionamento uma linha de montagem de ídolos e de grandes façanhas. É o fake mito.
Nesta semana, uma notícia fez vibrar o mundo paradão da arqueologia. Arqueólogos britânicos, que escavavam nas região de Hadrian's Wall (a Muralha de Adriano), Inglaterra, encontraram um pênis de 1.800 anos gravado em uma rocha. E não foi trabalho fácil, não. O achado só foi possível devido a uma parceira e a um esforço conjunto entre Newcastle University e a Historic England.
É a Era Faleolítica!
É, meus caros, antigamente, as classes dominantes e as elites inglesas se uniram para realizar as Grandes Navegações; hoje, para encontrar fóssil de rola.
O registro peniano foi feito no ano da graça de Jesus Cristo de 207, segundo os especialistas. Especialistas? Em desenho de rola? Os caralhólogos?
E tem mais. Garantem os caralhólogos que a rola foi entalhada na rocha por soldados romanos. Na época, desenhar uma rola era um pedido de boa sorte. Além disso, a rola em riste também servia como indicação para futuras tropas e centúrias romanas que por ali viessem a passar, a rola ficava ali para indicar um caminho seguro por território inimigo.
É, meus caros, a rola romana foi a precursora da sinalização de trânsito. Doravante, meus caros, a cada seta indicativa de tráfego, seja de mão única ou dupla, você verá nela um rola romana.
Pããããããta que o pariu!!!!
Os romanos eram mesmo umas bichonas! Sempre foram!
Haja vistas à crucificação de Jesus. Pegaram pra Cristo um cara todo bonitão, de longas e sedosas madeixas, de barba feita em barbearia vintage, todo sarado, de barriga tanquinho, e o botaram crucificado a trajar apenas uma sumária sunga, uma sunguinha que faria corar Fernando Gabeira (esta referência é das antigas, quem quiser que pesquise e se horrorize). E aí, volta e meia, vinha um romano e passava um paninho úmido pelo corpo suado do Nazareno, vinha outro e lhe dava uma espetada com a lança. Bichice pura.
E o traje dos soldados romanos, então? Se aquilo não é dar pinta, eu não sei o que mais pode ser. Os soldados romanos usavam saiotes, que deixavam suas robustas e torneadas pernas sempre à mostra. Saiotes feitos de tiras de couro farfalhantes, que em nada impediam a visão de um cuecão, também de couro, que usavam nas partes baixas. À pretexto de proteção, usavam peitorais e escudos de bronze cheios de altos-revelos e de brocados, que combinavam com o tom mediterrâneo de suas fustigadas cútis. E os elmos e o capacetes? Todos ornados com penachos, plumas e paetês. Vermelhos, roxos, liláses, fúcsias.
Imaginem o Cristo percorrendo o seu caminho ao Monte Calvário : um cara seminu sendo chicoteado por uma legião saída de um desfile carnavalesco do Joãozinho Trinta e a multidão vibrando nas calçadas em torno. Tenho cá para mim que a Via Crúcis foi a precursora das atuais Paradas do Orgulho Gay! Pãããããta que o pariu!!!
Os descobridores do falo romano já ganharam os seus louros acadêmicos - tiveram seu trabalho publicado em destaque no British Archeology Journal - e receberam verbas adicionais para aprofundarem suas pesquisas, aprofundarem-se nas rolas do império romano.
Não é incomum que locais de descobertas arqueológicas de tal significância para a humanidade se transformem em pontos turísticos, e que o comércio local se arvore na venda de souvenires temáticos. Não seria de espantar se, ao redor da Muralha de Adriano, ambulantes se instalassem a vender réplicas da rola romana, esculpidas em gesso ou pedra sabão, ou entalhadas em pequenas placas de ardósia ou arenito.
Eu, aliás, ficarei de olhos atentos. Caso este novo nicho mercadológico, o da rola fóssil, estabeleça bases sólidas, demonstre, de fato, um franca expansão, um pujante crescimento, também tentarei ganhar uns trocados com ele. 
Afinal, passo os meus dias (in)úteis dentro de um sítio arqueológico de rolas : a sala de aula. Desde os meus tempos de petiz, de escola primária, que a gente chamava de grupo, a sala de aula sempre foi terreno rico em registros arqueológicos de rola, cacetes, caralhos e pintos. A molecada - acho que desde os tempos em que a lousa eram as paredes da Gruta de Altamira - adora desenhar uma rola! Lembro-me de que a "tela" preferida da molecada era (e ainda é) o assento da carteira do colega. O filho da puta do espírito de porco desenhava uma rola na carteira e a sala toda ficava à espera de que o dono do lugar nela se sentasse, no que, então, a sala irrompia em gargalhadas. Na época, as rolas eram desenhadas à caneta, ou riscadas na madeira com algum objeto metálico pontudo - hoje, a maioria desenha com aquele corretivo líquido branco, o errorex. As havia - as rolas - também nos cantos dos quadros-negros e atrás das portas da sala. Lembro-me também de que não podíamos bobear com nosso material, que, do nada, aparecia uma rola desenhada no nosso caderno, no nosso estojo, ou na contracapa do nosso livro.
Não há sítio arqueológico de rolas mais profícuo que a sala de aula. A sala de aula é o Jurassic Park das rolas! Os ingleses ficarão maravilhados com minhas descobertas e registros!
Pãããããta que o pariu!!!!

sábado, 2 de março de 2019

Banho-Maria

E este cansaço,
Meu velho?
E este procrastinar a Vida
Na tentativa de,
Talvez,
Viver um tanto melhor?
E esta preguiça,
Meu velho?
De fazer a barba,
De cortar o cabelo,
De escovar os dentes, 
De amar,
De conferir o troco do mercado,
De olhar para os dois lados para atravessar a rua,
De pôr o lixo para fora,
De chacoalhar o pau depois do mijo?
E esta Morte,
Meu velho,
Que nos cozinha em banho-maria?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

A Ventura de Sísifo (Ou : uma Nênia ao Magistério)

Sísifo é que era feliz.

É bem verdade
Que a pedra
(sua dura rotina, sua inimiga e seu ganha-pão),
Sólida e satisfeita em sua ignorância,
Pétrea e confortável em sua burrice,
Estava lá de volta,
No dia seguinte,
No mesmo lugar,
Ao pé da montanha.
Como se ninguém houvesse,
Dia anterior,
Levado-a, a sofridos suores, ao topo.

E no dia seguinte,
E no dia seguinte,
E no dia seguinte...

Mas a pedra,
Ao menos,
Não se opunha a que a elevassem momentaneamente às alturas,
Não oferecia resistência ou combate
Não reclamava do empurrão:
Não complicava a vida de Sísifo.
E se lá de cima rolava,
E se de novo se punha ao rés do chão
Não era por impertinência,
Não era por provocação,
Não era por insolência.
Era tão-somente pela inércia do seu ser,
Pelo inescapável de sua natureza,
A de quem não nasceu mesmo
Para mirar largos horizontes.

(preferiria, muito mais, eu, uma sala cheia de bem-educadas pedras rolantes)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

É a Podridão, Meu Velho (19)

21:18 h.
O Sol ainda tenta pegar no sono
Nesses tempos de horário de verão
(tomou um rivotril, o Sol, e espera seus efeitos).
Já se abate
E faz ninho sobre mim
O cansaço e o desnorteio
De como se três ou quatro horas da madrugada fossem.

E pensar que eu,
Que hoje só atendo
Só respondo
Só me ponho em movimento
Mediante ao toque do clarim do rádio-relógio-despertador
(nunca sintonizei única estação nele),
Até há não muito tempo,
Até há bem dizer
Ontem,
Só era atraído à rua
Pela luz da lua portátil e de 1.000 watts do Comissário Gordon.

E pensar que eu,
Até há não muito tempo
Até há bem dizer
Ontem,
Só ia me deitar
Na hora em que hoje acordo.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Thor, o Vermelho

Não bastasse ser o Demiurgo Supremo do Universo Marvel, Stan Lee incorporou personagens de outras mitologias ao seu mundo das maravilhas. Thor é o mais famoso deles.
O Thor de Stan Lee, contudo, guarda poucas semelhanças com o Thor nórdico, o ruivo, o vermelho.
Walt Disney também importou para o seu mundo inúmeros personagens de outros autores, marcadamente de antigos contos de fadas. Contos que, nas suas versões originais, nada tinham de singelos e de confortadores; antes pelo contrário, eram terríveis, assustadores, feitos mesmo com o propósito não de agradar às crianças, sim de apavorá-las, de deixá-las petrificadas de medo, para que fossem dormir e dessem um pouco de sossego aos pais. 
Só a exemplos, Chapeuzinho Vermelho e Cinderela. No conto original da Chapeuzinho Vermelho, de Perrault, o Lobo mata a avó, mas não a devora. Quando Chapeuzinho chega em casa, o Lobo fantasiado oferece a carne da avó para a menina comer, que come toda a carne e ainda toma uma taça de vinho, na verdade, o sangue da avó. Na hora de fazer naninha, Chapeuzinho Vermelho se deita nua com o Lobo na cama, que, não sendo de ferro, devora a menina. Em Cinderela, dos Irmãos Grimm, doidas para desencalhar e tirar as teias de aranha, as irmãs más da Cinderela cortam uma os dedos do pé e outra o calcanhar, na tentativa de calçar o sapatinho de cristal e abiscoitar a rola do princípe encantado. O princípe é avisado do embuste e acaba por não desposar nenhuma delas. Ainda, as duas irmãs tem os olhos furados por aqueles alegres, cândidos e dóceis passarinhos que ajudam Cinderela no filme da Disney.
Walt Disney limpou os contos originais de seus elementos tétricos, de suas sombras, de seus macabros, os higienizou e os tornou palatáveis, mesmo que insossos, ao gosto do americano médio das décadas de 1950, 1960, adaptou-os ao "sonho americano", ao American Way of Life; talvez tenha iniciado, sem intenção, o politicamente correto.
O mesmo aconteceu com o Thor ao ser transposto para os quadrinhos. Stan Lee submeteu o deus do Trovão a um processo de disneyficação. Foi como se o Thor, ao atravessar o portal entre as dimensões da mitologia nórdica e do Universo Marvel, tivesse sido limpo e despojado de seus atributos mais rudes, rústicos e brutos, de suas qualidades mais másculas.
Stan Lee dysneyficou o Thor. O Thor é a Cinderela do Stan Lee.
O Thor de Stan Lee é alto, elegante e esguio, tem o físico de quem malha em academia, está sempre com a barba bem feitinha, tem olhos azuis, e ostenta longas, brilhantes e sedosas madeixas loiras de foto de caixa de tintura da Loreal. Ou seja, o Thor de Stan Lee é o irmão gêmeo do Rodrigo Hilbert. Pããããta que o pariu!!! O Thor nórdico tem modos e compleição física abrutalhados, não tem barriga tanquinho, tem é de tanque de guerra, é massudo, tem barba desgrenhada e mal cuidada, não tem físico de quem puxa ( e leva ) ferro se admirando num espelho, tem físico de remador, de gladiador romano.
Também educado, gentil e erudito, o Thor de Stan Lee; só trata as mulheres por milady e os homens por milorde, só fala em segunda pessoa, é tu para lá, é vós para cá. O Thor nórdico não tem nada de gentilezas, de finos tratos e de ilustrações, é cria de ambientes hostis e sangrentos, onde os fracos não tem vez, se pedir "por favor", leva uma machadada na testa, se disser "obrigado e com licença", lhe comem o cu; tem linguajar de marinheiro, de zonão de cais de porto.
O Thor de Stan Lee tem um martelo mágico com o qual invoca raios e tempestades para lançar contra seus oponentes, e que também lhe serve como propulsor para alçar voo. O Thor nórdico também tem um martelo com o qual é capaz de invocar raios e tempestades, e este é o único ponto em comum entre os dois, ou o ponto quase em comum. O martelo do Thor nórdico não se presta só à guerra. Com ele, o filho dileto de Odin pode celebrar casamentos e batizados, pode abençoar a terra e garantir boa colheita, pode acalmar as tormentas e garantir boa pesca e navegação. Só não sei se é capaz de curar viking broxa. Além disso, o martelo do Thor nórdico não lhe confere o poder de voo, para o que Thor se vale de uma biga puxada por dois bodes voadores, Tanngrisnir e Tanngnjóstr.
O Thor nórdico nos dá a impressão de que está sempre recém-saído de uma batalha viking, de uma pilhagem a terras bárbaras, de um confronto com borrascas, serpentes marinhas, trolls e gigantes de gelo. E de que vai, depois, descansar e relaxar numa taverna. Vai tomar canecões e mais canecões de mulso (a cerveja lá deles), canecões confeccionados em ossos de baleias. Vai comer, com as mãos, meia dúzia de gordurosos javalis que ele mesmo abateu. Vai arrotar e peidar alto. Vai dançar com as putas até o nascer do dia. O Thor de Stan Lee nos dá a impressão de que está sempre recém-saído de uma sessão de crossfit, ou de uma aula de zumba. E de que vai, depois, descansar e relaxar num restaurante japonês. Vai comer um sushi e um rolinho primavera e tomar uma saquerita de kiwi.
Como diria o personagem Severino, do imortal Paulo Silvino, "mas isso é uma bichona!!!!!!!!!!!".
Algumas representações artísticas do verdadeiro Thor, o Vermelho.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Todo Castigo Pra Biscate é Pouco (3)

Ei-lo de novo. Lupicínio Rodrigues, o maior anti-corno do Brasil. 
O anti-corno é o sujeito que, feito o corno tradicional, leva chifres, assume a galha e esfola à carne viva os cotovelos no balcão sujo e rançoso de um bar. Mas que, diferente do primeiro, não perdoa a biscate. Não a acolhe de volta, não lhe dá abrigo nem guarida, quando ela, na maior cara de pau, cansada de guerra, toda estropiada, bate de novo à porta do lar que desonrou.
Ou, como no caso da canção "Cadeira Vazia", até concede asilo, pousada e repasto à pérfida, mas não por frangalhos de uma esperança de que ela possa se emendar (a esperança do corno é a última que morre; a do anti-corno nem nidifica). Seria, então, por dó, por compaixão, por memória dos bons tempos que tiveram juntos, ou, deus me livre, por caritoso espírito cristão?
Não. Para torturar a biscate lentamente. Para lhe impor humilhação. Para vingar o chifre na testa. 
Na letra, Lupicínio, a vestir a pele do bom samaritano, diz : "Eu não te darei carinho nem afeto/Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto/Pra te alimentar, podes comer meu pão".
Bonzinho, o Lupicínio? Um corno clássico? Nada disso. Ele manterá a biscate sob seus cuidados, lhe dará um teto, lhe alimentará, mas apenas para que a biscate saiba que ele está a observar a ruína dela, a sua degradação, a sua vergonha; para vê-la definhar em culpa e agonizar em remordimento. Dará-lhe casa, comida e roupa lavada, mas negará, à biscate, carinho e afeto, ou seja, a privará do que lhe é mais caro e necessário : a rola, o famoso cacete. 
Biscate não liga de passar fome, de não tomar banho, de viver na rua, mas tem crise de pânico e de abstinência se lhe falta a rola. Lupicínio sabia disso. Lupicínio é pura tortura chinesa para com a biscataiada.
Cadeira Vazia
(Lupicínio Rodrigues)
Entra, meu amor, fica à vontade
E diz com sinceridade 
O que desejas de mim.
Entra, pode entrar, a casa é tua
Já que cansastes de viver na rua
E teus sonhos chegaram ao fim.

Eu sofri demais quando partistes
Passei tantas horas tristes
Que nem quero lembrar este dia
Mas de uma coisa podes ter certeza
Que em teu lugar aqui na minha mesa
Tua cadeira ainda está vazia.

Tu és a filha pródiga que volta
Procurando em minha porta
O que o mundo não te deu
E faz de conta que eu sou teu paizinho
Que tanto tempo aqui ficou sozinho
A esperar por um carinho teu.

Voltastes, estás bem, estou contente
Só me encontrastes muito diferente
Vou te falar de todo coração
Não te darei carinho nem afeto
Mas pra te abrigar pode ocupar meu teto
Pra te alimentar, pode comer meu pão.

Para ouvir "Cadeira Vazia" com o mestre Lupicínio, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.
Lupicínio Rodrigues, de chapéu, que não é para proteger a moleira do sol nem do relento, não; é para esconder os chifres.

Autorretratos em 3x4

Escrevo.
Meus registros
São as migalhas de pão de João e Maria.
Espalhadas para pavimentar e sinalizar o caminho de volta,
Caminho que não terei mesmo fôlego
Para retornar quando chegar ao seu fim.

Meus escritos
São o novelo ofertado por Ariadne
Para que o herói não se embarace
Em sua saída do labirinto.
Inútil, no meu caso.
Uma vez que derrotado pelo Minotauro.

Escrevo porque gosto de me lembrar de mim
E tenho memória fraca.
Escrevo porque detesto fotografias
Mas gosto de autorretratos em 3x4.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

A Cachaça da Ministra Damares

Não sei se a ministra Damares, titular da pasta do "importantíssimo" Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (quer dizer que a mulher é um ser celestial, que não faz parte, ou está além, da família e do gênero humano?) é chegada numa cachacinha, naquela que "matou o guarda".
Provavelmente, não; uma vez que evangélica. Se bem que isso de evangélico não tomar bebida alcoólica, para mim, é puro mis-en-scène, pura fachada. É bem verdade que em suas festas e celebrações, quando é o evangélico quem está bancando o aniversário, o casamento etc, realmente não há birita, eles economizam uma boa grana em nome de Jesus; e depois dão tudo pro pastor. Mas já vi muito "irmão" entornar bem, quando a festa é patrocinada por outrem.
Mas tenho a certeza de que a ministra Damares, mesmo que não seja adepta de uma "branquinha", recomendaria, veementemente, feito aquelas atrizes que fazem publicidade de produtos que, notadamente, não consomem, a cachaça abaixo, fabricada em Aracaju, Sergipe : a CURABICHA.
E farei aqui algo que os leitores do Marreta não estão acostumados a ver : elogiarei a inteligência do brasileiro. Alguns pensarão : ora, Azarão, por certo perdeste o senso. E eu vos direi, no entanto : meu elogio não é bem à inteligência em si do brasileiro, sim ao tipo da inteligência brazuca. Que, sabemos, não é das mais profundas, dedicadas e pujantes. Não é inteligência de cátedras acadêmicas, de, um dia, abiscoitar um Prêmio Nobel, a não ser, quem sabe?, a picaretagem do Nobel da Paz.
Porém, no quesito da irreverência, da galhofa e da gaiatice, não há quem nos bata. É a inteligência da sacada rápida, da tirada espirituosa, do chiste, feito a do gênio que batizou esta cachaça.
É inteligência de fôlego curto, de explosão, não de resistência : de curta distância. Numa Olimpíada de Inteligência, correríamos muito bem os 100 metros rasos e os 400 metros (sem barreiras); dos 800 metros em diante, só com revezamento. A maratona, jamais.
Não é inteligência de produzir novas tecnologias, de levar o homem a Marte, de curar o câncer e a paumolescência. É inteligência lenitiva e paliativa, de trazer uma fugaz alegria ao prosaico da vida. Feito o anão, a quem a única vingança possível é pisar na sombra do gigante.
Nossa inteligência é Phd em disciplinas e conteúdos não acadêmicos. Na modalidade apelidos, por exemplo. Como são os apelidos dos ingleses, dos estadunidenses? Thomas vira Tom; Franklin, Frank; Christopher, Chris; Robert, Bob; William, Bill; Antonhy, Tony; Nicholas, Nick... E a chatice prossegue infinitamente por essa linhas.
No Brasil, não. Por aqui, até tem destes apelidos diminutivos. Tem o Zé, o Tião, o Mané, mas a maioria das alcunhas tem inspiradíssima inspiração nos atributos físicos mal-acabados do sujeito. O narigudo vira "sequestrador de oxigênio"; o gordo, rolha de poça, pudim de banha, chupeta de elefante; o baixinho, gandula de pebolim, salva-vidas de aquário, jardineiro de bonsai, meia-foda, salário mínimo, piloto de hot wheels; o vesgo, um olho no peixe e outro no gato; o magro, tripa, vara de cutucar estrela, puro osso, chassi de grilo; o feio, espanta-bebê, manequim de funerária; o que usa óculos, quatro-olhos, Mr. Magoo, Steve Wonder.
Ou seja, o brasileiro inventou o bullying! O americano só o capitalizou - como sempre.
E na questão, então, da cachaça da Damares? Alguém suporia um escocês, ou um inglês, batizando um uísque de Virgin Pee (Xixi de Virgem)? Ou Cry on The Dick (Chora no Pau)? Um russo registrando uma vodka com o nome de за сумкой (Atrás do Saco)? Um italiano a nomear uma grappa de Domare o Cornuto (Amansa Corno)? Um alemão dar a uma cerveja o nome de  Thread Brennen (Queima Rosca)? Ou um japonês rotular um saquê de 暖かいセーター (Esquenta Xereca)? Só no Brasil!
Além do brilhantismo do nome, o rótulo traz informações de grande sutileza sobre o produto, praticamente uma bula. Como uma cachaça, alguém poderia perguntar, seria capaz de curar uma bicha? A resposta está no rótulo : aguardente de cana mole. Mas é lógico. Se toda cana fosse mole, o boiola desistia da profissão.
E o melhor : a cachaça da ministra Damares vem, é claro, com o rótulo impresso em azul.
Pãããããããta que o pariu!!!!!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Aniversário do Marreta do Azarão

Dez anos de Marreta do Azarão. Dez rounds pesos-pesado. Sem intervalo pra beber água nem pôr gelinho na nuca. Sem clinches. Sem gongo que me salve. Apenas mais dois para o derradeiro 12º round
Perderei, na certa. Por pontos. Em pé. Por decisão fraudulenta dos juízes.
Os braços estão a um triz da total prostração. Erguê-los para desferir um jab contra o inimigo, dói tanto quanto, ou mais, que receber um cruzado no queixo. O supercílio já sangra mais que o recomendável. As pernas não mais gingam e bailam pelo ringue como este fosse pista de patinação no gelo : atolam-se em lama movediça. As asas de borboleta em meus tornozelos foram trocadas por bolas de chumbo de condenados perpétuos.
Já sou mais Maguila que Cassius Clay.

Nunca Foi Tão Barato Ficar de Pau Duro!

Focando-me cada vez mais no meu público da velha guarda, do velho que pouco, ou há muito tempo não "guarda", deixarei aqui e agora uma preciosíssima dica para um gozoso fim de semana geriátrico.
Atravessando, pela hora do almoço, o hediondo "Calçadão" de Ribeirão Preto, com a temperatura a bater nos 40º C, um cartaz (que, hoje, o povão chama de banner) à porta de uma farmácia com as ofertas do dia me chamou a atenção. Lá estava : genérico do Viagra 50 mg do laboratório Sandoz, 1 caixa com dois comprimidos por R$ 15,49; levando 4, cada caixa sai por R$ 5,29.
Pããããããta que o pariu!!!! Uma caixa por quinze reais e quatro por vinte! Oito viagras por vinte reais! Uma noite inteira de pau duro por R$ 2,50. Nunca foi tão barato ficar de pau duro! E se o velhinho tomar metade do comprimido ao invés dele inteiro - o que dizem que já é o suficiente -, a folia no asilo sai ainda mais em conta : R$ 1,25 por uma foda bem dada.
Eu não fazia ideia de que esse tipo de medicamento tinha barateado tanto. Tá mais barato que aspirina. Remédio pra cabeça do pau tá mais barato que pra dor de cabeça!
O que vem a esclarecer muito da mudança de hábitos e de comportamento do pessoal da terceira idade que venho notando há algum tempo.
Pelo menos por aqui na cidade, de uns tempos pra cá, houve uma proliferação de casas noturnas destinadas ao público que já entrou no programa Minha Cova, Minha Pós-Vida, os chamados bailões da terceira idade, os famosos "desmanches". 
Estarão os velhos mais sociais e sociáveis? Porra nenhuma. O viagra barato é a explicação para esse "boom" da balada senil. A mulher idosa, a velha, até sai só para dançar, só para conversar com as amigas, mas o velho? O macho antigo das antigas? De jeito maneira! Se for pra sair só pra dançar, o velho fica em casa vendo filme de caubói (menos O Segredo de Brokeback Mountain) e do Charles Bronson e tomando cerveja Antarctica, que é cerveja de pedreiro. Velho só sai pra dançar se for pra ficar de pau duro durante o bate-coxa, só se for para melar a cueca a cada contradança. Velho de pau mole fica em casa; de pau duro, sai pra dançar.
Outra : a caminho do trabalho, logo pela manhã, passo por uma praça de onde, uma ou duas vezes por mês, saem ônibus de excursão para a terceira idade levando a velharada para Aparecida do Norte, Caldas Novas e outras localidades que tais. Até não muito tempo, noventa por cento ou mais das pessoas que eu via esperando ou embarcando eram mulheres, velhinhas; hoje, a proporção de velhos e velhas está bem equiparada, praticamente meio a meio. 
A explicação? De novo, o viagra barato! A velhinha até viaja para conhecer novos lugares, para tirar foto com as amigas, para comprar lembrancinhas para a parentada. O velhinho, não. O velho tá cagando e andando para conhecer novos lugares, para ver novas paisagens, tá cagando pra selfie, tá pouco se lixando pra esquentar a bunda em águas termais, ou para ver a imagem da padroeira. Se for só para isso, o velho fica em casa, vai tomar rabo de galo com amendoim no buteco, vai jogar truco e dominó com os amigos. Com o viagra barato, porém, o velhinho toma um antes de embarcar e já vai ganhando um boquete no caminho. Pãããããããta que o pariu!!!!!
Eu mesmo, que, longe de ser hoje - é bem verdade - aquela fortaleza de paudurescência do passado, ainda dou pro gasto, ainda dou conta do básico, ainda faço direitinho aquele feijão com arroz sem mistura, me senti tentado a adquirir, confrontado a preço tão módico, o Santo Graal Azul da picadurice.
Resisti, porém.
Mas não sei, não... Se na semana que vem, quando eu passar de novo pela porta da farmácia, a oferta ainda esiver de pé, creio que também eu passarei o fim de semana próximo de pé.