sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Dias de Chuva São Para se Ficar em Casa (parte 2)

Um vento mais forte, suando chuva, fez-me apressar o passo e quase tentei entrar, de novo, pela quarta vez, no hotel Meridional. Localizado a uns 3 quarteirões do posto, tem um anexo no térreo que serve de bar depois das 20 horas. Pena que é restrito a hóspedes ou a convidados desses. Não sou hóspede, muito menos convidado. Não sou convidado há muito, muito tempo, mas não reclamo, eu faço por onde. Já tentei forçar minha entrada lá, geralmente quando já passava bêbado e queria um lugar calmo e de classe para terminar a noite. Na última tentativa, ganhei cinco pontos no supercílio esquerdo e quatro no queixo. Eles latejam sempre que passo em frente ao hotel. Cortesia do Jaimão, um segurança negão que mais parece um bloco de basalto. Passei e acenei para ele, do outro lado da rua; ele me respondeu silenciosamente com um trincar de maxilares e um cerrar de punhos. Todo vistoso no seu uniforme vermelho com cordames trançados no peito e dragonas douradas. Apressei ainda mais o meu passo. E, dessa vez, a eminência da chuva não teve nada a ver com isso.  
Havia poucas pessoas transitando pelas ruas esburacadas do centro da cidade naquele horário, os shoppings roubaram a alma dos velhos centros, mas ainda existem bares com preços honestos para os que sabem onde procurá-los, para as almas ainda não cooptadas pelas praças de alimentação, para as almas sem franquia. Até desviei do meu caminho usual para não ter que passar em frente ao bar do Laércio, local que freqüento há uns 12 anos, e só ele. Não estava disposto a ver as fuças do Laércio naquele sábado. O bar do Guimba, depois da morte dele e de seu violão, ficou com o filho meio retardado dele, virou um reduto de adolescentes, havia uns trinta deles, um bando de maritacas num coqueiro, passei reto. O Sótão foi arejado, iluminou-se, tem apresentações de música ao vivo, agora. Sertaneja, clientela da mais alta estirpe. Passei batido, também. O Sociedade Alternativa era tão alternativo que fechou, virou uma sorveteria, podia ter sido pior e uma igreja evangélica ocupar agora suas fundações. O bar do Jóquei, numa desolação de deprimir eremita. Não teve jeito. Na verdade, eu tava procurando um bar do Laércio sem o Laércio. É foda.  
Resolvi, então, que ia tomar umas três ou quatro ampolas na pastelaria do Coreano e voltar pra casa. Mas tive que estacionar sob a marquise do Teatro Municipal, a uns cinqüenta metros do coreano. Um estrondo, mais sentido como tremor que ouvido, me fez olhar para cima. E ver o céu constipado, ventre roxo que não caga há uma semana.   
Foi, então, que depois de nem sei quantos anos, saído de nem sei de onde, veio meu pedido, que Thor segurasse aquela merda toda por uns 40 minutos, tempo pra eu estar em companhia do meu rum, em casa. Ou Thor não me ouviu ou o deus estava com diarréia naquele dia. O ar ganhou peso, meus tímpanos sentiram a compressão, os barômetros ficaram loucos e toda aquela merda veio abaixo. Uma tormenta inédita nos últimos 20 anos. A marquise não valeu de nada, ventava para todos os rumos, era possível ver os pingos se cruzando em todas as direções, pernilongos líquidos me picavam em todas as minhas latitudes, rosto, costas, pernas. Enxurradas de raios erodiam a atmosfera, lombrigas de alta-tensão naquele ventre que se aliviava de sua carga podre. 
Trovejou uma voz ao meu lado, sem me ter dado conta da chegada de seu emissor, ribombou uma voz: 
“Bela borrasca! Primorosa!” 
Porra!!! E lá estava o cara. Ele. Não o loiro dos quadrinhos, não aquele de anúncios de xampú. Sim o abrutalhado, o que arrota à mesa, o vermelho. Nem olhava para mim, sua mira era exclusiva para a tempestade, sua cria. Ele. A bordo de seus 2,10 metros e de seus 270 quilos (a carne dos deuses nórdicos é três vezes mais densa que a nossa), olhava embevecido para a sua criança mal-criada, um pai a sorrir com as traquinagens da filha. Cabelos e barba da cor da palha de aço oxidada, corpo maciço, nada daqueles corpos desenhados dos viadinhos de academia, uma única massa de braços, tronco e pernas. Trajado com botas, calças e uma manta que lhe caía por sobre os ombros, tudo de couro, couro de rena ou alguma coisa do gênero, couro não-curtido, cheirando mal, cheirando ainda ao seu dono original. E na cintura, pendurado à esquerda, o martelo. Mjolnir, o rompedor de tormentas. Um bloco, quase um monolito do mineral Uru. Mjolnir também parecia vivo, parecia regojizar-se. Pequenos coriscos acendiam-se em seu interior, riscavam seu corpo, alguns corriam pela sua superfície negra e saltavam ao ar, fagulhas percorrendo seus veios como sangue nas artérias. E repetiu: “Belíssima borrasca! Esplendorosa! 
Não falava comigo. Consigo mesmo. Um artista a admirar sua obra, uma vaca lambendo sua cria. Se me é permitido um trocadilho sincretista: um Thor narcisista. 
Inesperadamente, dirigiu-se a mim. 
“Não dava para segurar essa, amigo. Bonita demais para se adiar, não concorda?” 
“É. Quer dizer que me escutou?” 
“Claro que sim, mortal. Eu sempre escuto, fazia tempo que não me pedia ajuda. Deixou de crer em mim?” 
Devo ter vestido uma expressão do mais puro espanto, terror, surpresa, incredulidade, tudo misturado. 
“Não se exaspere, mortal, sei que me pedia sem verdadeiramente acreditar, mas há eras que não estou podendo escolher muito os pedidos dirigidos a mim, por isso atendia até aos descrentes, como os seus”. 
“E não os atende mais?” 
Caralho! Eu tava lá falando com um deus. E onde estavam todos aqueles “vós”, “miladys” e “milordes”? Deuses não falam sempre na segunda do plural? É claro que não, sempre foi óbvio. Os deuses são rebentos do povo, do que o povo quer acreditar e o povo é analfabeto. Segunda do plural... Só mesmo eu para acreditar nisso. 
“ Se eu os atendo, ainda? Por acaso você é cego?” 
Tudo bem, eu tinha merecido a martelada. 
“Sabe o que é, mortal? Depois que pregaram aquele rapaz barbudo, boa-praça, que sempre dava a outra face, numa cruz, comecei a perder meus crentes. Não só eu, outros deuses, também. Fomos reduzidos a lendas, superstições. E sabe como é, né? Sem crentes, sem poderes. Sou bem menos poderoso, hoje.” 
Olhando para aquele rochedo de Gibraltar feito em carne e ossos era difícil imaginá-lo mais poderoso. 
“Quer dizer que não teria sido capaz, ainda que quisesse, de atender-me hoje? Quer dizer que não é mais capaz de controlar as tempestades?” 
“Claro que ainda sou, mortal. Mas isso não me dá mais prazer, fazia para impressionar os mortais com minha força, amedrontá-los com meu poderio. Hoje, prefiro deixá-las livres, dá-me mais júbilo as ver assim, correndo pelo pasto etéreo com suas crinas desgrenhadas.”
“Pois é. Eu também gosto de apreciar uma boa tempestade, mas prefiro fazê-lo de minha casa, na companhia de uma boa bebida.”
“Haaaaa!!!!! Você chegou ao ponto, mortal!!!”, e deu-me um “tapinha” no ombro que deve ter deslocado minha omoplata.
“Deixemos de coisas e cuidemos da vida. Conduza-me a uma de suas tabernas. Beberemos do bom mulso.”, com uma alegria na face da qual só os deuses bêbados são capazes. 
O tal do mulso é uma mistura de água e mel que pode ser fermentada, tornando-se alcoólica. Chamada também de hidromel, era usual entre os nórdicos adoradores de Odin e companhia. 
Tentei explicar que não acharíamos mulso em local algum da cidade e lhe expus as qualidades da cerveja. Um deus esquecido não pode lá exigir muita coisa, ele me disse, resignado. Num gesto quase imperceptível de dedos, pôs a tempestade para ninar. Cessou tudo. Chuva, coriscos, trovões.   
Problema: onde levar Thor? Onde levar um ogro daqueles sem que ele chamasse muita atenção? Onde até um deus passaria despercebido? Resposta fatal e inevitável: o Bar do Laércio. No Laércio, um centauro servindo ao balcão seria normal, o ET de Varginha no banheiro, mijando ao seu lado, não causaria surpresa.
“Resolvido, então, mortal. À estalagem desse bom homem Laércio.” 
O Laércio, um bom homem... Esses deuses creem em cada coisa.
(continua...)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Dias de Chuva São Para Se Ficar em Casa (parte 1)

Quando eu contava com quinze, dezoito, vinte anos, sei lá, ia a pé para tudo que é lado, andava muito. Nada de carro, motocicleta; tampouco era habilitado a dirigir tais engenhocas. 
Também lia muito, muito de lendas, folclores, sobretudo dos grego e nórdico. Livros e adaptações para quadrinhos. Bem mais quadrinhos. 
Confissão: não tenho um cisco da cultura da qual me julga contendor a maioria das pessoas. Noventa por cento do meu conhecimento vêm dos quadrinhos. Ah! E das palavras cruzadas, nível difícil. Mas como as pessoas não lêem nada – nem quadrinhos - e quando preenchem palavras cruzadas é na revista Caras do cabelereiro, médico ou dentista, eu engano bem. 
Locomovia-me a pé, ficava exposto às adversidades do tempo, aos hormônios e humores do clima. Por vezes, eu a meio do meu caminho, com muito chão ainda pela frente – ou já com um tanto às costas que impossibilitava um retorno às pressas -, o céu se armava, grávido de temporal. Nem sei quando fiz isso pela primeira vez, mas nessas urgências costumava mentalizar um pedido a Thor, o deus nórdico do trovão, para que ele segurasse, contivesse a chuva por mais uns tantos minutos. Eu era sempre específico, pedia quinze, vinte, quarenta minutos, ou tantos quantos meus cálculos apurassem ser o suficiente. 
Não era bem eu quem pedia. Quem caminha sabe do que vou dizer. A gente que caminha não tem o que fazer entre o primeiro e o derradeiro passo, a não ser pensar. Apreciar a paisagem urbana? Tá certo! Praças sujas de merda de pombo, um povo que, apesar de não, também parece sujo de merda de pombo, lojas e mais lojas, barracas de ambulantes, todas a vender merda de pombo. 
O escape é pensar. Em minhas andanças, já ergui cordilheiras e fiz naufragar continentes, vivi e desvivi romances, esquiei por catástrofes, fui mártir, verdugo, povoei planetas, espalhei jardins de pteridófitas, fiz minar mares de urina radiativa, beijei cada boca peçonhenta do cabelo da Medusa, reescrevi a biblioteca de Alexandria. 
Dito isso, era um personagem, um alter ego meu, amigo de Thor, quem pedia. E pedia não porque acreditasse, antes pelo contrário : para desafiar a impossibilidade da existência de qualquer deus; muito menos pedia em tom de oração, sim de quem solicitava mesmo um favor a um amigo, como quem tomava um disco emprestado, um filme pornô, uma resposta esquecida (não estudada, mesmo) de uma prova, a república emprestada no fim de semana para economizar no motel. 
Coincidência ou não, costumava funcionar, umas oito em cada dez vezes. 
Beiro os cinqüenta anos, hoje. Continuo indo a pé para tudo que é lado. Nada de carro, motocicleta; tampouco sou habilitado a conduzir tais estrovengas. 
Leio menos, pouco, quase nada. Hoje, bebo. 
O céu já peidava chuva naquele sábado quando pisei o asfalto e a noite me recebeu com seu bafio azedo e sincero, acariciou-me com seu mau-hálito de amante recém-desperta. 
Preferia ter ficado em casa – sempre prefiro -, tenho um estoque de bebidas que me permitiria resistir calmamente a um inverno nuclear. No entanto, o bar, volta e meia, é necessário, é salutar. O bar impõe limites, preserva a saúde mental, no que lhe obriga a ouvir outras vozes que não o eco de sua própria a reverberar pela caixa craniana; impõe-lhe a beber todas menos uma, aquela que lhe derrubaria, você sabe que precisará das pernas para tornar à casa. O bar é a ante-sala da demência, a sala de espera da loucura. Beber sozinho em casa, não. É pior. É ter com a loucura sem hora marcada. 
As ruas estavam lavadas, mas fediam ainda mais pungentes. Uma tromba d´água vespertina havia engasgado os bueiros e eles regurgitaram toda a sujeira humana empurrada suas goelas abaixo. O cheiro da cidade fica pior quando ela toma banho. 
Seis quarteirões descidos retos, quebrei à esquerda e dei com o primeiro monturo de gente a uns trinta metros. Um bar encravado na confluência de cinco esquinas, três das quais entulhadas por suas mesas, cadeiras e vozes a obstruir o passeio público. Se eu fosse prefeito, colocaria, à rua, um esquadrão de fiscais para multar tais ocupações ilegais do espaço público, vetaria o funcionamento de bares em calçadas. Especialmente como é o caso desses bares freqüentados por um razoável poder aquisitivo. Nesses bares todas as mulheres são gostosas ou, no mínimo, bem-tratadas, cheirosas, com os 32 dentes, desejáveis, na pior das hipóteses. A cerveja é sempre gelada e daquela que a atriz famosa faz comercial, as garçonetes freqüentam faculdades, os suores são todos de quem trabalha em escritórios com ar condicionado. São uma afronta, esses bares. Um ultraje aos que passam e não podem por ali ancorar. Seja por falta de dinheiro, beleza ou de suores refrigerados. São vitrines dos prazeres dos bem-sucedidos e bem-nutridos. E toda exibição de prazer é obscena. 
Nessas conjeturas e eu já estava uns dois quarteirões além, prestes a transpor uma das pontes do rio que corta a cidade, margeado por uma de suas avenidas mais caudalosas. A cidade inundou o rio. Se é que ainda lhe concerne tal designação. Um leão com as garras arrancadas, dentes limados e posto a saltar por aros de fogo ao estalar do chicote, ainda é um leão? Um pau por onde o sangue não mais dá cabriolas é ainda um pau? É ainda um homem quem o carrega penduricalho? Se afirmativas as três respostas,então, sim, é um rio o choroso fio d´água a manquitolar pelo leito de cimento em que lhe aprisionaram. Têm uns 30 anos que atravesso quase que diariamente o dito rio. No início, mente e corpo quase imberbes, eu me impressionava da tanta vida a insistir por lá. Musgos e algas em seu tapete, samambaias parasitando seus canos de esgoto, tilápias, cascudos, um sem-número de cágados se aquecendo em suas pedras de meio-dia e até eventuais brancuras em forma de garças. Como a vida poderia resistir a tanto lixo? A maioria se impressiona até hoje, eu, não! A natureza gosta da confusão, da sujeira, prima pela desordem, pelo barro, pela imundície. Não surgiu a vida de um lodo primordial? A assepsia e a ordem são conceitos humanos, nada é puro na natureza, os elementos rodopiam em plena promiscuidade pelo planeta. O açúcar refinado é uma aberração humana.
Pensei em dar uma parada na loja de conveniência de um posto de combustíveis à saída da ponte, ficar por lá uns quarenta minutos, tomar umas duas latas. Porém uma caminhonete estacionada às portas da loja me fez desistir. Veículo fálico, com portas escancaradas, que mugiam a plenos pulmões um falso country num volume que devia dar pena capital e quatro imbecis rodopiando à sua volta, executando movimentos (executar é o termo exato) que julgavam ser dançar. Só não digo que são o pior tipo de imbecis que existe – com seus chapéus, botas, fivelas do tamanho de tampas de privada e calças a rachar-lhes o saco – porque imbecis das mais sortidas modalidades são o que não faltam nessa cidade, há imbecis para todos gostos. Contudo, os do tipo cowboy urbano conseguem congregar tudo o que eu desprezo no ser humano, e olha que muitas são as coisas que eu desprezo nos humanos. 
(continua...)

domingo, 20 de dezembro de 2020

Zé Gotinha Declara : Não Há Vacina Eficaz Contra o Bolsonaro

Pããããããããta que o pariu!!!! Até o Zé Gotinha - simpática mascote criada em 1986 para incentivar a vacinação contra a poliomielite, e que acabou por se tornar um símbolo de toda e qualquer campanha de vacinação - está vacinado contra o intrépido Bolsonaro.
Durante o evento de lançamento do Plano Nacional de Operacionalização da Vacina contra a Peste Chinesa, ocorrido nesta quarta-feira próxima passada (16/12), presentes Zé Gotinha e Bolsonaro, a lúdica mascote recusou o aperto de mão lhe oferecido pelo Mito, mesmo com as mãos protegidas pelas grossas luvas da fantasia, limitando-se a fazer um sinal de positivo, de joinha, para o Mito. Não dispensou também uma outra máscara sobre a máscara. Clara desobediência civil da insurgente mascote, que bem poderia também ser usada em campanhas de incentivo à doação de sêmen, bastando que se apresentasse como o Zé Porrinha. Só um joinha? Ainda se, pelo menos, tivesse feito o gesto da "arminha", vá lá, dava para desculpar.
Bolsonaro, no entanto, persistente e resiliente que só ele, não se deu por vencido. Quem não capitulou frente à facada de Adélio Bispo nem frente ao comunavírus (combateu-o tomando cloroquina com guaraná Jesus, aquele que tem poder), não seria frente a um personagem de trenzinho infantil que iria pedir penico.
Bastou uma distração do Zé Gotinha para que Bolsonaro o agarrasse pelo pulso e forçasse o contato. Um aperto de mão não consensual, como diriam os viadinhos politicamente corretos. Bolsonaro, praticamente, estuprou o Zé Gotinha. Relaxa e goza, teria dito Bolsonaro ao agarrar o pulso do Zé Gotinha, e, ao fim da foto, largando-o, teria perguntado : foi bom pra você? 
Mas o que teria levado à recusa do Zé Gotinha em retribuir a generosa oferta de um aperto de mão do Bolsonaro? Teria havido tão-somente motivações médicas-higiênicas-sanitárias por parte do Zé Gotinha?
Motivações médicas-higiênicas-sanitárias é o caralho!!! O ato de desacato do Zé Gotinha, digno de ser levado aos ferros de uma Corte Marcial, foi claramente premeditado e nasceu de intenções puramente políticas-partidárias. Intenção de expor o Presidente da República a uma situação pública vexatória. De deixá-lo sem graça. De tentar avacalhar com a gestão bolsonarista.
Quando li a notícia no dia em que o ato subversivo ocorreu, logo me veio a suspeita de que havia um comunista-petista por debaixo daquelas vestes, um agente infiltrado do PT ou do MST, pago a soldo de sanduíche de mortadela.
Acertei na essência; de fato era um petista em pele de Zé Gotinha, tentando constranger o Capitão, mas errei feio em relação à hierarquia ocupada por ele dentro da ORCRIM do PT e suas derivações. Não era um mero soldado raso, como eu pensara. Era o próprio general, o próprio capo da máfia vermelha.
Pããããããããta que o pariu!!!! 
Mas se não há vacina contra o Bolsonaro, contra o Lula não há nem soro antiofídico ou antirrábico!!!!
Ah! E a luva de quatro dedos do traje do Zé Gotinha caiu-lhe como uma... luva!!!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Cerveja-Feira (36)

Inúmeros são os casos e os relatos de pessoas que, negligenciando a própria segurança, lançam-se a enchentes, inundações e outras fúrias dos elementos para resgatar e salvar bens materiais, entes queridos, animais de estimação, sogra, cunhado etc. Legítimos heróis. Colocando o bem do outro acima de suas integridades físicas.
Mas nenhum ato de coragem ou de heroísmo se compara ao realizado por uma australiana no início desta semana, na segunda-feira (14/12). Jamais houve notícia de uma demonstração maior, nem mesmo igual, de despojamento da própria vida em prol do bem comum.
Na Austrália, ondas gigantes, rajadas de vento mais fortes que o habitual e elevação súbita das águas vêm se tornando recorrentes em algumas localidades, causadas por mudanças climáticas e pela erosão costeira provocada por empreendimentos imobiliários.
Como o ocorrido na praia de Byron, Queensland, no começo da semana. Os banhistas foram surpreendidos por fortes rajadas de vento de até 100 km/h, por ondas hidrofóbicas e por uma volumosa maré que tomou as areias e grande parte dos estabelecimentos comerciais. Trajes e pertences dos banhistas foram levados, viraram oferenda pra Iemanjá.
Em meio ao pânico e ao desespero, uma australiana, que já está a ser considerada uma heroína lá na terra do canguru, manteve a calma e a compostura e, ao invés de correr da tempestade, se lançou a ela e ao indócil mar.
Sua missão, a mais nobre. Digna de ser considerada um décimo-terceiro Trabalho de Hércules. Salvar dois barris de cerveja, que a sedenta maré estava a engolir e a levar para as suas negras profundezas.
A australiana mergulhou nas águas turbulentas e traiçoeiras, pegou Poseidon pelos colarinhos e disse : a cerveja é minha e ninguém tasca! Chamou Poseidon na chincha e emergiu vitoriosa das águas, a carregar e a exibir os seus troféus de guerra, os dois barris de cerveja.
Portanto, o cerveja-feira desta semana só poderia ser dela, cujo nome não foi mencionado em nenhuma das reportagens que li para me inteirar de maiores detalhes da épica batalha desta australiana contra o mar em defesa do Santo Graal. Nem o nome e nem uma foto dela de topless.
Pããããããta que o pariu!!!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Renas do Papai Noel

Elas são uma tradição do Marreta desde 2011, e aportam por aqui já com relativo atraso neste ano, as renas do Papai Noel. Por enquanto, são renas, mas desconfio de que, não demora muito, logo, logo, vai começar a ter cota para viadinhos. Aí, a seção termina. Aproveitemos, pois.
Pesquisei e, segundo o site Brasil Escola, elas são em número de nove : Rudolph, Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Donner e Blitzen. Em português, essas renas chamam-se: Rodolfo, Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão e Relâmpago.
A minha preferida, claro, é a Empinadora. Toda empinadinha, ou empinadinhas, feito a Ava Adams e a Phoenix Marie.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Esperanças Recalibradas

Ele esperava um beijo de cinema;
Rolou nem abraço.
 
Ele esperava garrafas de vinho;
Amargou um café requentado.
 
Ele esperava afinidade instantânea;
Instalou-se cuidadosa sondagem.
 
Ele esperava despojamento;
Foi comunicado da obrigatoriedade de traje a rigor.
 
Ele esperava gargalhadas orgásticas;
Risos amarelos impotentes decoraram o ambiente.
 
Ele esperava madrugada de garoa e meteoritos;
Ofertado-lhe o sol a pino e urubus passeando a tarde inteira entre os girassóis.
 
Ele gostou;
Mesmo assim.

domingo, 13 de dezembro de 2020

Abandono

- Ó, Poesia!
Clama
Uiva
E gane o poeta
(Cinquentenário,
Nunca publicado,
Poeta de gaveta,
De pastas de plástico corrugado
De disquetes) :
- Por que me abandonaste? 
 
A Poesia
Paciente e condescendente que só Ela,
E a não querer dever pra pobre
E grata, enfim,
Por um gozo aqui,
Por um deleite ali,
Por um arfar e um arquear acolá
Proporcionados pela língua semivernacular
Do extinto e brocha poeta
(o poeta tivera seus dias, seus momentos),
Por um buquê de miosótis
Por um desajeitado e brega
Jantar de salmão ao molho de maracujá,
Condói-se
E responde:
- E tu, poeta?
Por que antes de mim,
Muito antes de mim,
E não sem meus avisos,
Te abandonaste?

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Cerveja-Feira (35)

A viadagem aportou de vez na cerveja, dantes bebida mais varonil, de macho rústico, de pedreiro, de estivador, que combinava com torresmo, testosterona e copo americano Nadir Figueiredo, não com comidinhas de butecos gourmets.
A viadagem se assentou de vez na cerveja : a superestimada Skol lançou a Skol Beats Zodiac. A cerveja que harmoniza e se conecta com o seu signo.
Acabo de chegar do mercado. Ao me dirigir para a seção das cervejas, uma pilha cilíndrica de latas coloridas montada no meio do caminho chamou-me a atenção. Um totem de latinhas. Alías, totem, não, que totem é coisa de tribos e clãs machos das antigas; era mais um carro alegórico, daqueles bem "carnavalescos", se é que me entendem. 
E estava lá : Beats Zodiac, nas cores vermelha, azul, verde e roxa. Cada uma com o desenho estilizado de um signo, touro, escorpião etc. Já ia passar batido por aquela bizarrice e ir ao que me interessava, pegar a cerveja mais barata do dia, quando um rapaz que trabalha na seção de bebidas há tempos, um sommelier que dá dicas de vinho etc para quem recorre à sua ajuda, chegou e me disse :"vamos estar conhecendo essa novidade?".
Pããããããta que o pariu!!!! Eu atraio esse tipo de louco prestativo. Sempre atraí. Ele me falou que eram 12 novos sabores em 12 latas diferentes, inéditas e colecionáveis. Cada novo sabor levava diferentes proporções de malte, lúpulo e cevada em sua composição, pensadas especialmente de acordo com as características de cada signo, também diferentes notas de frutados, amadeirados, defumados etc. Informou-me ainda que cada uma das cores correspondia a um dos quatro elementos do Zodíaco, o ar (e me mostrou uma latinha de Aquário, que eu sempre pensei que fosse um signo da água, vai ver que é um aquário vazio), a terra (e me mostrou uma latinha de Touro), a água (uma latinha de Peixes) e o fogo (uma latinha de Leão).
Doze novos sabores? Que porra é essa agora? Cerveja virou Fanta? Fanta Uva, Fanta Laranja, Fanta Limão, Fanta Guaraná? Aliás, tenho certeza : essa cerveja é Fanta!
"De qual elemento é o seu signo?", ele me perguntou. De fogo, respondi; bebo até ficar de fogo. Ele não riu. Não sei se não entendeu, ou se só não achou graça mesmo. Menos graça eu achei do preço da viadice : quase cinco contos por uma latinha de 269 ml. 
Fui para as prateleiras das cervejas de macho e hoje vou bater de Schin; R$ 1,69 a lata de 350 ml.
Esqueci de perguntar pro sommelier se havia também os signos da gazela, da borboleta, da libélula, do boto-cor-de-rosa e do colibri.
Pããããããta que o pariu!!!!!!

Nós, Cobaias de Deus ou Robôs de Pavlov?

Eu sou o cara "certinho", careta e responsável que morre de vontade de ser o mais errado, o mais "zen", o mais largado do mundo.
Queria demais : chegar atrasado de vez em quando ao trabalho e a encontros marcados (chegar atrasado não de propósito, para provar que sou "descolado", por falta de organização, mesmo), deixar as contas vencerem, esquecer as luzes acesas e a TV ligada quando não estou na sala, não limpar o mijo que, eventualmente, respinga na borda da privada ou no chão, não catar os ciscos que vejo no chão, não olhar a data de validade dos produtos no mercado, ainda no mercado, entrar com o carrinho lotado de compras no caixa rápido destinado a 10 ou 20 volumes (e não ficar puto com quem faz isso, querendo ter superporderes nessa hora para trucidar o filho da puta), não vigiar nem cobrar o filho para que ele cumpra com suas tarefas básicas, não aguar e adubar as plantas, ir dormir sem lavar a louça suja na pia e também ser tomar banho, escovar os dentes, verificar portas e janelas e a válvula do gás de cozinha, caminhar bêbado e a esmo pela madrugada.
Tem dias em que me deito para dormir e digo : amanhã, eu vou acordar tarde, não vou varrer a casa, não irei à padaria nem ao mercado nem à quitanda, café?, quem o quiser que o coe, não vou me preocupar com a hora das refeições, não vou querer nem saber se tem comida pronta para o almoço do filho e da esposa, não vou trocar a água nem repor a ração nem limpar a caixa de areia das gatas, não vou pôr o lixo fora. Porém, acabo fazendo tudo isso e muito mais.
Queria muito, ainda que apenas às vezes, mandar tudo às favas. Ter um dia de ócio. Mas não consigo. Segundo uma grande amiga, de quem - mea culpa, mea maxima culpa - estou ausente há tempos, minha "socialização primária" foi muito bem feita. Seja lá o que isso for.
Sou o cara que se diverte demais com as diabruras que o capeta sussura no meu ouvido esquerdo, mas que, por alguma razão, acaba por seguir os conselhos do anjo, no meu ouvido direito. Sou o Mr. Hyde que não foge da prisão das placas de Petri e dos tubos de ensaio do laboratório do Dr. Jekyll, mesmo que não haja carcereiros, mesmo que as grades estejam destrancadas.
Qual não foi a minha surpresa em saber que o ex-estranho (ele que acha) e sorumbático GRF também padece dessa dicotomia entre o que a gente quer da vida versus o que a vida quer e exige da gente?
Cobaias de Deus, ou Robôs de Pavlov?
Pessoas como o GRF e eu acabamos muitas vezes por sobrepor as necessidades dos que nos são próximos aos nossos pequenos prazeres. Acabamos nos rendendo ao poetinha Vinicius : a vida tem sempre razão.
Rendemo-nos, mas não sem angústia, a contragosto. Angústia e contragosto expressos de forma irretocável no poema de GRF que replico abaixo:
 
Admirável Fase Poética, por GRF
 
Entrei numa nova fase poética
uma fase que a escrita me abandona
que a rima fica seca, desértica,

e que minha prosa vira uma zona
numa orgia de ervas e cafeína.
Entrei numa nova fase, menina,
sei nem o que quero pro agora
mas sei que quero sem demora
qualquer coisa que há.

Entrei numa nova fase poética
a frase que não segue a métrica
a régua que foi pro lixo
escrever o que bem desejo
eis agora o meu nicho.

Entrei numa nova fase poética
abdiquei da bela poesia
agora vou escrever tudo torto
desfigurado de sentido figurado
parem, parem, parem!

ESTOU MENTINDO!
 
Eu tento a desordem
eu tento!
Mas os hábitos devoram a selvageria e a possibilidade
de me entreter em novos horizontes.
Eu quero a louça lavada. Lavei.
Eu quero a casa limpa. Limpei.
Eu quero a cama arrumada. Arrumei.
Eu quero ser tudo. Serei.
Eu quero ser nada. Nadei
e sigo aqui boiando pelas ondas
que atravesso sem (quase) afogar.
Eu não consigo me permitir errar, acordar com as remelas nos olhos
e assim ficar. O bafo o dia todo, andando de samba-canção, o ralo entupido,
eu não consigo. Sem alarme? Sempre há dois, três alarmes.
 
Sou o rato.
Sou o experimentador.
Sou a caixa.
Sou a barra.
Sou o som aversivo.
Sou o reforço.
Sou o comportamento.
Valha-me São Pavlov!
Valha-me beato Skinner!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

(IN)COMPETÊNCIAS

Sou inábil e desajeitado.
Escorrego e arrebento o cóccix
Lavando o banheiro ou a cozinha,
Quebro o pé em batentes e pés de mesas,
Esmigalho o polegar
Se um prego tiver de pôr à parede.
Não sei consertar torneiras,
Tomadas nem válvulas de privada.

Mas me deem umas boas doses de rum,
Uma boa banda do velho rock'n'roll,
Uma madrugada de farta Lua,
Uns telhados inclinados para eu galgar
E arrisquem-se em ver do que sou capaz.
Ou se acaso são capazes de mesma primazia.

Topem comigo nas horas silentes
Eu, portando meu capuz, meu brasão e minha caneca.
E vejam se podem me segurar.

domingo, 6 de dezembro de 2020

Proibida Puro Malte, O Fim de Uma Boa e Barata

Dentre as cervejas puro malte mais comerciais, digamos, assim, mais acessíveis ao  meu bolso,  a Proibida Puro Malte, a do rótulo preto, ocupava, juntamente com a Brahma Extra Lager, o honroso segundo lugar de meu panteão da cevada. Perdiam para a Serramalte, a minha preferida da categoria.
Há tempos a latinha preta da Proibida Puro Malte sumiu das prateleiras dos mercados, ou das do mercado onde eu a comprava, pelo menos. Ontem, ela reapareceu. Em nova roupagem. Branca e dourada. Feito um hábito de monge.
A luz de alerta já acendeu na minha cabeça : embalagem nova, talvez nova formulação. Lembrei-me, no entanto, do notório adágio : o hábito não faz o monge. Fui me fiar nesse ditado popular e me estrepei!
Talvez o hábito, de fato, não faça o monge, mas monges diferentes, de diferentes ordens, vestem hábitos diferentes. Latas de cerveja diferentes vestem, sim, cervejas diferentes. E piores. Bem piores, nesse caso.
Cheguei a pensar em não comprá-la, o branco e dourado da nova roupa da PPM não me agradou nem um pouco, mas levado pelo preço em oferta (R$ 1,89 a lata de 350 ml) e, de novo, por outro ditado popular, o que diz que em time que está ganhando não se mexe (por que mudariam a PPM, se já era tão boa?), comprei três latinhas.
Assim que a verti no meu poderoso canecão, comecei a perceber o tamanho da encrenca. O amarelo forte, tendendo ao brônzeo, da PPM que eu conhecia sumira, dera lugar a um amarelo pálido, anêmico; a espuma, outrora densa e consistente, mostrou-se frágil e aerada, feito espuma de sabão em pó, e se desintegrou em menos de 30 segundos. O pior ainda estava por vir, o gosto. Desapareceram o amargor, o frutado, a forte carbonatação. Aguada pra caralho. Sem gosto de nada. 
Pus meus óculos de velho e fui ler as letras pequenas do rótulo. Do tipo Golden Lager que era, a PPM foi transformada em Pilsen. O antigo teor alcoólico de 5,2% caiu para 4,3%, cerveja para viadinhos. No rótulo, ainda: "cerveja puro malte com alto drinkability". Fui ver que porra era essa. Drinkability é "um conceito subjetivo que vai medir o quanto o líquido é bebível e agradável. Quanto maior o grau de drinkability maior é a satisfação provocada pela degustação da cerveja, o que faz com ela seja passível de ser consumida novamente".
Passível de ser consumida... foi o que eu disse, cerveja de passivinhos, que não podem ter o seus refinados paladares agredidos por sabores mais fortes, ou não comprarão de novo a cerveja. Jamais. Nem moooortas!!!
Nem o R$ 1,89 por latinha compensou a nova Proibida Puro Malte. Por esse preço, prefiro muito mais a Lokal e a Serrana.
Se derem de cara com a lata abaixo, não importa por quanto ela esteja sendo vendida, ignorem-na. Corram dela.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Meia-Noite na Minha Paris

Há certos livros, compositores, filmes, lugares, épocas, mulheres... que não poderíamos morrer sem visitá-los. A questão é que muitas vezes, no mais das vezes, não os sabemos quais. Até passamos por eles, às vezes; damos encontrões com eles por aí; até os cruzamos pela vida, mas a nossa pressa em não faltarmos nem nos atrasarmos para o nosso compromisso diário com a realidade nos impede de dispensarmo-lhes maiores atenções e cuidados.
Quantos livros não li (nem lerei) ou quantos autores não descobri porque tinha de preparar uma aula que, bem sabia, ninguém prestaria mesmo atenção? Quantos Bukowskis ou Fonsecas deixei de conhecer porque tinha que corrigir calhamaços de provas entregues em branco?
Quantas músicas e músicos abdiquei de me fazerem acompanhar em uma cerveja porque precisava repor o arroz e o feijão, o macarrão, as frutas e legumes, o café e o açúcar, o sal e o óleo, o papel-alumínio e o guardanapo na despensa? Quantos Jobins e Russos deixei de conhecer enquanto esperava na fila do açougue?
Por quantos lugares passei a trem-bala, como quem vê artigos em vitrines de lojas, ao invés de a pé conhecê-los sob a chuva, a madrugada, o café e o vinho só porque, ao fim das férias ou do feriado, eu tinha que voltar ao trabalho e juntar uma grana para poder, de novo, passar por novos lugares a trem-bala ao invés de conhecê-los a pé etc. 
Com quantas mulheres deixei de me encantar e de me aborrecer, e de encantá-las e de aborrecê-las, porque, enfim, somos monogâmicos e tal, certo?
Quantas meias-noites eu já perdi por ter que suportar os infindáveis meios-dias?
Mas volta e meia, um desses livros, compositores, filmes, lugares, épocas, mulheres... que não poderíamos morrer sem visitá-los, mas, no mais das vezes, não os sabemos quais, encontram uma brecha em nós, um hiato em nosso tempo, uma baixa em nossa guarda, uma nossa distração das coisas do dia a dia e se nos impõem que lhe demos a devida atenção.
Volta e meia, um desses livros, compositores, filmes, lugares, épocas, mulheres... que não poderíamos morrer sem visitá-los, mas, no mais das vezes, não os sabemos quais, decidem que também eles não podem morrer sem que nós os tenhamos visitado. E, já exauridos de paciência por tanto e em vão nos esperarem, entram sem tocar a campainha, sentam-se às nossas mesas sem serem convidados, tomam de nossa bebida sem que lhes seja oferecida.
E ainda bem que, volta e meia, um desses livros, compositores, filmes, lugares, épocas, mulheres... que não poderíamos morrer sem visitá-los, mas, no mais das vezes, não os sabemos quais, faz isso.
Hoje, por volta das três da manhã, uma forte chuva me tirou do meu sono sempre leve de nuvem. O dia me chamando mais cedo? Pensei que sim. E levantei-me com mal-humorado pé esquerdo. Corri à sacada, ver se a chuva não estava a encharcar a ração e a areia das gatas, ou a tentar afogar algum de meus cactos e suculentas, derrubá-los de suas prateleiras.
Tudo acudido e controlado, sabia que não mais pegaria no sono; e ainda faltavam três ou quatro horas para o meu dia efetivamente começar, acordar esposa e filho, fazer o café de um, preparar o leite e o lanche do outro etc. Preferi considerar as três ou quatro horas como um bônus de madrugada, ao invés de sono perdido. Considerá-las como um episódio de Além da Imaginação, ao invés de cenas do próximo capítulo de nossa diária novela mexicana. 
Sem mais o quê, fiz forte café em minha cafeteira italiana, salpiquei-lhe canela, deitei-lhe generosa dose de rum e me dispus a assistir a um filme. O primeiro que surgisse. Uma roleta-russa. Entrei numa dessas plataformas de streaming, selecionei a opção "ficção" e ele surgiu. A decisão foi dele; em nenhum momento, minha. Ele, o filme, decidiu que eu não poderia morrer sem vê-lo; decidiu que ele não poderia morrer sem que eu o tivesse assistido.
Não tinha sido o dia a me chamar mais cedo se valendo do subterfúgio de uma forte chuva; fora o filme.
Meia-noite em Paris.
O Além da Imaginação de Woody Allen.
O melhor Além da Imaginação.
O melhor Woody Allen.
Morro, agora, com um arrependimento a menos; dentre tantos.
Morro, agora, dando um motivo a menos que justifique a crueldade de algum deus querer me fazer reencarnar.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Anedonia (2)

Para o alcoólatra,
Membro da seita dos A.A.,
O "um dia de cada vez"
Diz respeito a ele
Paciente e inquebrantavelmente
Renunciar aos malefícios
Que a bebida lhe traz.
 
De nascer do sol
A nascer do sol;
Mais difícil : de cair da noite
A cair da noite.
 
A mim
O conformado e estóico lema
Bem pode ser
Também aplicado ao álcool
Mas
Mais ainda
À Vida.