sábado, 30 de janeiro de 2010

O Infi(a)mamente Pequeno Poema de Nossas (In)Sanidades

Nossas loucuras são de mesma cepa,
Da mesma safra nossos fantasmas são.
Diferem apenas os hospícios onde nos asilamos,
Só divergimos em nossos rituais de exorcismo :
Tão-somente nossas rotas de fuga não são coincidentes.

Caio Fernando Abreu

Não choro mais.
Na verdade, nem sequer entendo porque digo mais,
Se não estou certo se alguma vez chorei.
Acho que sim, um dia.
Quando havia dor.
Agora só resta uma coisa seca.
Dentro, fora.

Amigos Imaginários

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Estudar Para Quê?

O MEC não reconhecerá mais cursos de especializações dados por "entidades não educacionais", como hospitais e fundações.
Não reconhecerá mais, a exemplos, uma especialização dada por um Hospital Albert Einstein, por uma Escola Paulista de Magistratura, por um Tribunal Regional Federal.
Entidades que, sendo "escolas" ou não em sua razão social, são de uma idoneidade e gabaritos inquestionáveis, têm profissionais reconhecidos internacionalmente em seus quadros funcionais.
Não reconhecer um curso ministrado por um hospital Sírio Libanês? Por quê?
Em contrapartida, por exemplo, existe em minha cidade uma tal Faculdades Filadélfia, um muquifo instalado ao lado de uma desativada linha de trem e que produz diplomas e mais diplomas de pedagogia, tudo à distância, tudo virtual. E uma merda dessas, o MEC reconhece.
E não é só essa, existem dezenas de outras, FABANs, UNIFRANs  etc etc que nem a presença do aluno exigem, passam uma aula gravada para a tropa de jumentos e emitem seus diplomas. E esses, o MEC aplaude e bate o seu carimbinho, ou será carimbaço, como num extinto quadro humorístico?
Uma Fipe ministrar uma especialização, não pode; uma Filadélfia, pode.
Estudar para quê?
A reportagem abaixo foi tirada da Folha de São Paulo:

28/01/2010 - 07h52
FÁBIO TAKAHASHI




da Folha de S.Paulo

O Conselho Nacional de Educação determinou na quarta-feira (27) que especializações dadas por entidades não educacionais, como hospitais e fundações, não poderão mais emitir diplomas com reconhecimento do Ministério da Educação.

A medida atinge cursos como os da FIA, da Fipecafi e da Fipe (cujos MBAs estão entre os mais caros do país); dos hospitais Albert Einstein e Sírio Libanês; do Tribunal Regional Federal (SP); e da Escola Paulista de Magistratura. No total, são 138 instituições afetadas.

A decisão precisa ser homologada pelo ministro Fernando Haddad (Educação). As entidades afirmam que irão recorrer.

Segundo o conselho de educação, as instituições podem continuar oferecendo os cursos. Os diplomas, porém, não serão mais reconhecidos pelo MEC --chancela que servia de chamariz para os cursos, que chegam a custar cerca de R$ 20 mil (caso do MBA da Fipe).

Passarão a funcionar como cursos livres, semelhantes aos de idioma, em que é emitido um certificado, mas não reconhecido pelo ministério. O órgão que normatiza a educação nacional considerou basicamente a legislação para tomar a medida, não a qualidade dos cursos dessas entidades.

"A Lei de Diretrizes e Bases é clara. Apenas entidades de ensino podem expedir diplomas acadêmicos. Formação profissional é outra coisa", disse Edson Nunes, membro do órgão e professor da Universidade Candido Mendes (RJ).

Recurso

A Funasp (entidade que representa fundações como FIA, Fipe e Fipecafi) diz que o parecer foi aprovado para beneficiar faculdades privadas. Como são entidades educacionais, os diplomas das particulares continuarão sendo reconhecidos pelo MEC, caso a norma seja confirmada pelo ministro.

Assim, reclama a entidade, o reconhecimento do diploma passará a ser um diferencial no mercado de cursos de especializações. Ela diz que recorrerá no próprio conselho, ao ministro e, se necessário, à Justiça.

O parecer foi aprovado inicialmente no ano passado. Ao chegar a Haddad, ele pediu que a questão fosse reexaminada pelo conselho, o que foi feito ontem --foram 11 votos a favor do parecer e uma abstenção.

Calendário

As autorizações para entidades não educacionais concederem diplomas reconhecidos pelo MEC vêm sendo concedidas há mais de 30 anos. O conselho afirma que a ideia inicial era liberar cursos para instituições de "excepcional excelência". Devido ao volume de pedidos, defende o órgão, a característica foi desvirtuada.

O fim do chamado credenciamento especial dependerá do período de autorização que cada entidade recebeu. Algumas, cujas licenças já estão expiradas, não poderão expedir diplomas para novos alunos.

Segundo Nunes, cerca de metade das autorizações vence neste ano; outras vão até 2013, ano em que nenhuma entidade não educacional poderá mais conceder o diploma.


http://www1. folha.uol. com.br/folha/ educacao/ ult305u685785. shtml

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Vinícius de Moraes

Dialética
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste..

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

ISTMO

Busco-me na música
Que (dizes) te faz lembrar de mim.

Vasculho melodia, ritmo,

Rimas, cada tristeza (tão diferentes das minhas) :

Não me encontro.

Engana-te

(Perdoe-me essa ilha, esse istmo, essa falta de estima)
.
Não estou ali.


Investigo-me em cada uma das cartas

Enviadas por ti

Com tua letra – em azul, verde, rosa, púrpura –

Afavelmente redonda como uma carícia.

E embora o carteiro, em sua entrega,

Haja sido certeiro,

Engana-te.

Não foram destinadas a mim.


Não me acho também

Nas dobras do lençol ou nos amarrotados da fronha

Onde habito latente, 500 mg de insônia na veia,

E onde tu sonhas.
Tampouco em alguma reentrância do teu corpo.

Chegou a hora!

(Perdoe-me essa ilha, esse istmo, essa falta de estima)
.
Hora de uma nova fuga,

Uma nova deserção.

Alucinógeno Ayahuasca É Legalizado

É sempre a porra da religião tornando justificáveis todos e quaisquer absurdos e atrocidades, a começar da católica que torna sacro o canibalismo (tomar o sangue e comer o corpo de Cristo).
Então, uma dica a quem possa interessar: basta organizar uma religião em torno da maconha, outra em torno da cocaína, do crack, do ecstasy, da heroína, etc etc.
E aí é só ficar doidão.
Com o aval de deus.
Notícia tirada do portal Yahoo:

Qua, 27 Jan, 09h10

O governo brasileiro oficializou ontem as regras para o uso religioso do ayahuasca, chá também conhecido como santo-daime, entre outras denominações, e utilizado principalmente em cerimônias religiosas no Norte do País. A resolução, publicada no Diário Oficial da União, veta o comércio e propagandas do composto, que só poderá ser cultivado e transportado para fins religiosos e não lucrativos.

Além disso, a norma coíbe o uso do chá com outras drogas e em eventos turísticos. Também oficializa um cadastramento facultativo das entidades que o utilizam.


O texto recomenda ainda que as entidades façam uma entrevista com aqueles que forem ingerir o chá pela primeira vez e evitem seu uso por pessoas com transtornos mentais e por usuários de outras drogas.


O texto referenda as conclusões de um grupo de trabalho multidisciplinar instituído em 2004 pelo governo para estudar o uso religioso do chá. Não havia impedimento para a aplicação do composto em cerimônias religiosas, mas faltavam orientações para evitar o uso indevido, o que o grupo publicou em 2006.
Em 1985, a bebida chegou a ser proibida no País, mas liberada dois anos depois, quando estudos demonstraram a importância de seu uso religioso. No início dos anos 90 houve nova tentativa de proibir o chá, também refutada. Em 2002, mais uma vez houve denúncias de mau uso do chá, o que gerou os estudos mais recentes. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Bolsa-Cadeia

Recebi isso por e-mail e achei que compensava postar aqui.
Tinha era que matar tudo, o bandido, o advogado que defende o canalha, as pastorais da igreja que saem em defesa dos filhos das putas, mas estamos em um país onde as leis são feitas por bandidos, logo...
Eles chamam essa pouca vergonha de auxílio-reclusão:

AUXÍLIO RECLUSÃO
Vocês sabiam que todo presidiário com filhos tem uma bolsa que, a partir de 1/1/2010 é de ate R$ 798,30, por filho para sustentar a família, já que o coitadinho não pode trabalhar para sustentar os filhos por estar preso, mas mesmo que ele opte por trabalhar na prisão o auxilio não é suspenso.

Mais que um salário mínimo que muita gente por aí rala pra conseguir e manter uma família inteira!!!!!!!!!!!! E muitos aposentados recebem para sustentar toda a família.

Bandido com 5 filhos além de comer e beber nas costas de quem trabalha, comandar o crime de dentro das prisões ainda recebe auxilio de R$ 3.991,50. Qual pai de família com 5 filhos recebe um salário suado igual??? Se for ex trabalhador rural, mesmo que nunca tenha contribuído, recebe salário mínimo. E se o "coitadinho" morrer, vira pensão vitalícia.

Ah, tá duvidando?!?!
Veja a Portaria n.º 350, de 30/12/2009, do INSS
(CONFIRA NO SITE:
http://www.previdenciasocial.gov.br/conteudoDinamico.php?id=22

Perguntas:
A família do trabalhador, morto pelo bandido, também recebe esse auxílio?
Alguém já viu algum defensor dos direitos humanos pleitear essa bolsa para os filhos das vítimas?

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

2012 - Gostei do Cartaz

Faz anos que não vou ao cinema, uns cinco ou seis no mínimo.
Não tenho mais a pachorra de ficar atolado por cerca de duas horas numa poltrona. Nem para a espécie de gente que frequenta cinemas hoje: gente que entra em bandos e vai, num primeiro momento, sentando e levantando várias vezes, testando lugares, até que resolvem se sentar, justamente, na sua frente; num segundo momento, começam a comilança, aquela barulheira toda de plásticos - de bala, de pacotes de salgadinhos, de pipoca -, de mastigação, parecem um bando misto de saúvas e mandruvás; quando as luzes começam a se apagar, indício dos trailers, luzes verde-azuladas das telas de celulares começam a espocar no ambiente, acompanhadas de campainhas e barulhos vibratórios... depois de tudo isso, não há filme, por melhor que seja, que valha a pena (na verdade, tenho pouca paciência para o tipo de gente que frequenta o planeta hoje, mas isso já é outra história).
Até porque só há um cinema na cidade de 600 mil habitantes em que moro. Sim, cinema, propriamente dito, só um. O único, inclusive, a sobreviver no centro da cidade, com a verdadeira telona e mais de 700 lugares.
O resto - e aí ultrapassam as quarenta - são salas de projeção ou melhor, celas de projeção embutidas em shoppings centers, outro ambiente que execro.
Às vezes, passo em frente a esse cinemão do centro quando a caminho de casa, o Cine Bristol, inadequadamente rebatizado de Cauim, hoje passei e vi um cartaz de "2012 - as profecias Maias".
Esse tipo de merda vem da esperança do bicho homem de que todos os seus problemas sejam solucionados magicamente, sem esforço, de preferência por um agente externo, de natureza milagrosa, sobrenatural, heroica, intergaláctica.
O homem faz suas cagadas e não tem a capacidade de repará-las ou não quer se submeter aos sacrifícios necessários para tal.
Por exemplo, o embuste do aquecimento global. O problema é a emissão do gás carbônico?
Ótimo. Fácil resolver.
Parem todas as indústrias, e automóveis, e aviões, voltem para a selva, caçar, pescar, plantar o próprio sustento, tudo sem ferramentas, abandonem seus televisores, computadores, celulares, água encanada, sabonete, papel higiênico, beijem suas mulheres sem o amparo de uma pasta de dentes, andem nus e tudo o mais.
A solução é essa, e é simples, mas não há disposição ao sacrifício. Então, fica mais fácil esperar por um fator exógeno, e, aí, esse fator pode assumir várias formas: deus, santos, anjos, profetas loucos, oráculos, discos voadores, etc e etc... cada um com a crença que mais caiba em seu comodismo.
Conheço superficialmente as profecias Maias, que nada têm de originais. Um cataclismo se abate sobre o planeta e a humanidade terá a chance de reiniciar sua jornada de um novo marco zero, purgada, purificada, a partir de meia dúzia de sobreviventes, os eleitos; aliás esse mito dos "eleitos" é recorrente em todas as religiões.
Sempre as religiões... essa espera pelo salvador ao invés de arregaçar as mangas, é, em grande parte, culpa, mais uma vez, do Cristo, esse barbudo filho de uma puta virgem.
Cristo foi a pior desgraça que aconteceu em toda a História Ocidental, ele prega (sem nenhuma intenção de trocadilho) o conformismo, a mansidão, a cordeirice, o dar a bunda a chute. E não me venham com a velha justificativa de que a culpa não foi do Cristo, mas, sim, do que fizeram dos ensinamentos dele, dos que vieram depois e se assenhoaram deles e os disvirtuaram para seus propósitos.
Merda. Pura Merda.
A culpa é do Cristo, sim.
Se eu me dispuser a passar informações a uma tropa de jumentos, tudo o que esses jumentos fizerem com essas informações, não importa se de um modo distorcido ou não, será, sim, responsabilidade minha.
Por isso, me chamou a atenção o cartaz do filme, que mostra uma imagem do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, ruindo nas bases e desmoronando rumo à boca banguela da baía de Guanabara. Sou contra hecatombes de qualquer espécie, mas uma que fizesse ruir não só a estátua do Cristo, mas também todo o seu legado, teria meu apoio e simpatia.
A mensagem do Cristo é de mau-gosto, a estátua do Cristo, sei lá pertencente a que movimento arquitetônico francês, é de maior mau-gosto ainda.
Só sei que nada irá acontecer em 2012 (nem o Cristo ruir, infelizmente), na melhor das hipóteses, o mundo continuará na mesma lama em que está.
Tudo isso para dizer que não vou assistir a 2012 - o filme, mas que gostei do cartaz.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Das Boas Intenções

Tenho um amigo que... esse tenho, depende. Depende de amigo não ser produto perecível, de não ter prazo de validade, não vir com recomendações de manter em ambiente refrigerado após primeiro uso. Se assim, não tenho nenhum. Sou infindamente negligente no trato aos meus amigos. Não telefono, não envio e-mails, mal retorno as ligações que me são feitas, declino de convites com as mais esgarçadas desculpas.
Remeto, vez em quando, imensas cartas, linhas e linhas plenas de minhas digressões e de meus garranchos; aí quem não se manifestam em retorno são eles. E eu entendo. Talvez nem as leiam. Quem, hoje, consegue atentar para mais de 10 ou 15 linhas de palavra escrita? Vamos lá que as leiam. Quem, hoje, sabe empunhar uma caneta por mais de 10 minutos sem que cãibras lhes travem os músculos e ossos? Ainda que improvavelmente as escrevam, quem, além de mim, ainda cria pombos-correio que as entreguem? Só eu. Só eu ainda crio pombos-correio, concessão feita devida à poluição causar interferências em meus sinais de fumaça. Só eu ainda crio pombos-correio. Por isso, eu os desculpo da ausência de seus envelopes sobre a minha mesa, a ocupar minhas gavetas. Por motivos contrários, e, justamente por isso iguais, eles não se ressentem de minha ausência.
Sorte minha, portanto, amigo não portar recomendações técnicas e ter garantia infinita.
Orgulho-me em dizer que nada devo a ninguém, algo incomum hoje em dia. Apenas monetariamente isso corresponde. Devo aos amigos uma lembrança – fazer com que fiquem sabendo de minha lembrança, pois lembrá-los sempre lembro - , um cartão pelo aniversário, pelo Natal, pelo dia em que conheci cada um.
É inevitável, forçoso até, que datas de início de namoro sejam recordadas. E datas de início de amizade? Pois é! Eu me recordo. Eu tenho dessas delicadezas que ninguém percebe, a que ninguém atribui valor. Devo visitas e convites para que me visitem. Devo fortunas aos meus amigos. Mas tenho sorte, meus grandes amigos são generosamente condescendentes com meus calotes.
E é a um desses amigos – sem prazo de validade e credor eterno – que faço referência no início desse relato.
Esse amigo tem outro amigo que, certo sábado, ônibus a caminho do shopping, cedeu bem-intencionadamente seu assento a uma velhinha recém-embarcada no coletivo. Aconteceu de ser sábado de carnaval, e, nessas épocas idas de que digo, era comum, uma espécie de tradição bárbara, alvejar veículos com jatos d’água e ovos, hoje já não se vê dessas práticas.
Pois bem. Nem reles quarteirão andado, um ovo passa pela janela e atinge precisamente a cabeça da velhinha. Sem olhar para a velhinha, esse amigo de meu amigo afunda-se sorrateiramente para a parte traseira do ônibus. Mais um bem-intencionado a garantir vaga no Inferno.
Aliás, se o Inferno está cheio de boas intenções (e ele realmente está) não é para castigo dessa hedionda raça dos bem-intencionados: é para suplício do capeta. É para castigo ao capeta que deus colocou-o a conviver com os bem-intencionados.
Lembrei da história da velhinha quando caminhava por um parque municipal, área arborizada, cachoeiras artificiais e ruas bem pavimentadas por entre a mata, ruas frequentadas matutinamente por aposentados, gordas donas de casa e alguns desocupados como eu.
Lembrei da história da velhinha porque flanando por esse parque me deparei com uma cigarra que se debatia no chão, no asfalto já a ficar quente, sem conseguir alçar seu vôo. Ecologicamente correto que estava naquela manhã, segurei-lhe pelas celofânicas asas e arremessei-lhe ao alto. E não é que o inseto firmou prumo e saiu a voar com o estardalhaço inerente às cigarras?
Já estava até a me vislumbrar recebendo um prêmio dessas ONGs inúteis de preservação da vida selvagem. Prêmio pela minha boa intenção. Pois bem. Nem reles 20 metros voados e a cigarra é colhida, trespassada pela agudeza do bico de um bem-te-vi, que monitorava o seu trajeto (o da cigarra) desde que eu a havia catapultado ao ar. Esse pássaro que ostenta uma máscara negra a lhe ornar os olhos, esse Zorro emplumado, jogou a minha boa intenção a uma cratera de enxofre fervente.
Por isso, quero distância dos bem-intencionados, daqueles que querem ajudar mesmo que ninguém lhes peça, daqueles que “ajudam” mesmo contra a nossa vontade. Grandes filhos-da-puta, os bem-intencionados.
Deste modo, torço para que as forças que regem esse caos todo em que estamos inseridos me proteja dos bem-intencionados.
Pois sei que as cigarras elas não protegem. Nem as velhinhas.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

ESTATUTO DO C.A. (Covil do Azarão)

Escrevi esse estatuto, que agora transcrevo na íntegra e sem modificações, em 2003, quando eu, ainda solteiro, morei por alguns meses com meu amigão e mentor etílico-buceto-espiritual, o Fernandão.
O Fernandão, boníssima gente, é um cara totalmente desregrado - a começar de seus intestinos -, por isso, achei prudente, a título da boa convivência e camaradagem, redigir um conjunto de normas e etiquetas para o nosso cafofo, um acordo de cavalheiros.
Esse estatuto foi concebido numa madrugada quente regada a vodka Natasha misturada com a falecida Fanta Citrus; escrevi-o sozinho, que meu amigo Fernandão nunca teve grandes intimidades com a caneta.
Ele ficava afixado atrás da porta de entrada do apartamento.
O Estatuto abrange, obviamente, treze artigos ou não seria o Azarão a tê-lo escrito.
Fiquei sabendo que ele já figura entre os grandes códigos ocidentais, fazendo par ao código Draconiano.
Ei-lo:

Artigo 1 - Fica expressamente proibido à biscate dormir no C.A. (covil do Azarão) após a trepada. Senão isso aqui vai acabar virando albergue de puta. Lema do C.A.: biscatis consumest, despachadus est, ou no bom português, biscate traçada, biscate despachada;

Artigo 2 - Chegando um dos moradores com uma biscate, e estando presente o outro, deixar a biscate de fora, entrar e avisar ao outro de que está acompanhado, este deverá ir para o outro aposento de modo a não ver a dita cuja e nem ser visto por ela, podendo retornar ao local de origem assim que a biscate tiver passado. Esse ítem visa evitar constrangimentos. Vai que, por exemplo, a biscate, por ventura (nossa) ou do desventura (do cornão), seja casada; esse procedimento evita constrangimento para ela. Ou vai que a biscate seja um bagulho, dessas que a gente pega depois de uns gorós a mais; esse procedimento evita constrangimento para a gente. E não vale olhar pelo buraco da fechadura na hora da trepada e nem pela janela na hora em que a biscate for embora, que eu te conheço, tá certo?;

Artigo 3 - Não estando o outro morador presente, todos os aposentos do C.A., com exceção do quarto do ausente, poderão ser usados para a prática da pistolada;

Artigo 4 - Estando o outro morador presente, a prática sexual deverá ficar restrita aos respectivos quartos;

Artigo 5 - Será vetado à biscate qualquer tipo de perturbação da ordem ou ao decoro do C.A., a exemplo: sair pelada pelas áreas comuns do prédio, sair a gritar na janela com a peitaria de fora, cantar aos berros os hinos do Corinthians, Flamengo ou congêneres na hora em que estiver gozando. Nem gemer muito alto; isso evitará que a vizinhança, preocupada, chame a Medicar;

Artigo 6 - Caberá à biscate, ou ao seu comedor, colocar no lugar tudo o que for tirado, limpar tudo o que tiver sujado. Questão de justiça: não tem cabimento um comer e o outro lavar a "louça";

Artigo 7 - Fica terminantemente proibido a qualquer um dos moradores oficiais do C.A. ficar contando vantagem ao outro quando esse estiver numa daquelas marés de azar. Ou como sabiamente dizia o Porpeta: "é sacanagem ficar contando dinheiro na frente de pobre";

Artigo 8 - Qualquer peça íntima esquecida no C.A, por descuido da biscate ou a propósito, não será devolvida em hipótese alguma. A peça passará a fazer parte da galeria do C.A., a Xanoteca. Terão lugar de destaque, com direito a spots de luz, as calcinhas tamanho P e os sutiãs GG, traduzindo: buceta apertada e peitaria farta;

Artigo 9 - Nada do que for feito, visto, ouvido, presenciado, deduzido ou pressentido no C.A. deverá ser divulgado para o mundo exterior. O C.A. deverá ser um antro inexpugnável, uma verdadeira "caixa preta" de sigilo. Se for feito muito alarde, a bucetaiada voa para longe;

Artigo 10 - Proibido - proibidíssimo - brochar no C.A, que é para que a casa não fique com má fama. Se sentir que a lua não está boa, não está propícia, deixa a biscate para outro dia. Não vamos sujar água;

Artigo 11 - Camisinhas usadas não deverão ser jogadas no privadão nem no cestinho de lixo; o responsável deverá envolvê-las em papel e, logo em seguida, depositá-las na lixeira defronte ao prédio. Tampouco poderão ser postas para secar no varal ou no box do chuveiro. Nem serem usadas para algum tipo de pândega, a exemplo: colocar dentro do sapato ou bolsos da roupa do amigo. Se, em uma emergência, precisar tomar uma emprestada do amigo, a mesma, quero dizer, uma nova deverá ser reposta o mais rápido possível;

Artigo 12 - O mesmo cuidado de higiene deverá ser observado em relação aos absorventes das biscates. Se bem que se a biscate estiver menstruada, vai trazer ela aqui para quê? Mas de qualquer forma já fica registrado. Nada de abrir o lixo da cozinha e dar de cara com o sachet do guarda-roupa do Drácula;

Artigo 13 - E agora, e finalmente, só falta arrumar a mulherada !!!!
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OBS : Alguém pode estar a se perguntar se o Estatuto funcionou, se foi obedecido.
Para dizer a verdade, ele foi posto à prova poucas vezes, sobretudo pela dificuldade em se cumprir o artigo 13; na época eu era bem mais hábil em escrever estatutos que em conseguir mulher.
Aliás, continuo sendo.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Que Tenhas Sorte

Reclamas do teu torcicolo,
Da tua lombalgia quando dormes de maljeito,
Da dor no osso malsoldado da tua mão
Quando chove ou faz frio,
Da goteira de dor em teu coração
E até da dor candente em tu'alma.

Um dia, meu amigo,
Tudo em ti cessará de doer.
E com sorte
- mas só com muita sorte, mesmo -,
Será o dia da tua Morte.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Os Arranca-Cabaços de Guam

Guam é uma ilhazinha localizada na Micronésia, na extremidade sul das Ilhas Marianas (ver mapa e bandeira ao lado).
Em Guam, mulher virgem é problema (aliás, elas o são em qualquer lugar do mundo), as virgens são proibidas de se casar em Guam.
O povo de Guam tem uma solução bem peculiar para o problema.
O governo de Guam designa oficiais para irem de casa em casa e descabaçarem as virgenzinhas, livrando-as, bem como às suas famílias, desse transtorno.
É um emprego público de tempo integral.
Imaginem o cara, logo cedo na repartição, com aquele ânimo típico do funcionário público, começando a verificar os afazeres do dia em sua agenda: tirar um cabacinho às 9:00 h, outro às 11:30h, parar para o almoço, um outro lacre lá pelas 16 horas e fazer uma hora extra pra aumentar a renda, um último selinho por volta das 19 horas, ainda dizem que vida de funcionário público é fácil, pensa com seus botões.
Com ar enfastiado, o cara se levanta, guarda a agenda em sua maletinha surrada de imitação de couro e sai a serviço.
Bate à porta da primeira virgem do dia e é recebido pelo pai, que pede que entre, oferece-lhe um cafezinho, diz que há muito esperavam por sua visita, aproveita pra reclamar um pouco do governo, dizendo que precisam contratar mais pessoal, onde já se viu esperar tanto tempo por um descabaçador oficial, sua filha havia perdido dois casamentos nesses entrementes, e, finalmente, o conduz ao quarto da filha.
O cara faz o serviço, passa de volta pela sala, tira de sua maleta e dá para que o pai assine um "Termo de Visitação", atestando a presença do descabaçador, em três vias, ao qual o pai assina agradecido.
Ou, então, o cara não finaliza o serviço e informa ao pai que o governo não se responsabiliza por himens complacentes, que a família terá que recorrer ao particular, um descabaçador privado com mais recursos e equipamentos.
Não achei alguns detalhes em minha pesquisa sobre Guam, por exemplo, o procedimento para pleitear tal cargo. Nem diria cargo, diria honraria, distinção, comenda.
Será concurso público? Cargo de confiança? Plebiscito? Concessão? Indicação, o famoso "pistolão"?
Mas consegui dois outros dados em minha pesquisa.
O primeiro, e boa notícia: as mulheres de Guam são até bem apetecíveis, parecem aquelas havaianas dos filmes do Elvis Presley ou do Jerry Lewis.
O segundo, notícia ruim per si e que inutiliza a boa em termos práticos: tal função só pode ser exercida por indivíduos nativos de Guam.
A nenhum estrangeiro será concedido tal privilégio.
Assim sendo, esqueçam de Guam nas suas próximas férias, podem continuar com seus pacotes turísticos para a Disney.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Dias De Fúria (contida) - 2

Ele detesta sair de casa, a desorganização humana alastrada pelas ruas, bancos, trânsito, cinemas, restaurantes, o desorienta, chega a lhe causar falta de ar, taquicardia, às vezes.
Resolveu, contudo, sair, sozinho, jantar fora, pizzaria, noite de rodízio, fartar-se por uns poucos trocados. E uma garrafa de água com gás, alcalina.
Ele não tolera a maioria dos tipos de gente, sobretudo os que circulam à noite e, dentre esses, odeia com todas as suas vísceras cheias de merda os chamados "guardadores de veículos", os malditos flanelinhas.
E Ele tem certeza da presença malcheirosa deles nos arredores da pizzaria para onde se dirige.
Achacadores que exigem dinheiro dos que estacionam nas vias públicas sob a ameaça velada do indivíduo encontrar seu carro danificado ao voltar de seu lazer, caso se recuse em pagar.
A dois, três quarteirões antes de chegar à pizzaria, Ele já os vê.
Sentiu o futum deles muito antes. E sua ira a fermentar.
Mais perto da pizzaria e mais deles: barulhentos, grosseiros, chulos, desdentados, analfabetos convictos, um povo pardacento, cor de bosta, parasitas urbanos capazes de tornar simpáticas as ratazanas do esgoto.
Se, ao menos, os flanelinhas tivessem a decência de se admitir os cancros que são, Ele os odiaria menos.
Mas nem isso.
Esses tumores acreditam mesmo ser uma profissão a extorsão que praticam, acreditam que prestam um serviço de grande utilidade pública, tem até sindicatos, algumas prefeituras chegam a reconhecer a ralé como trabalhadores, lhes dão coletes e crachás.
Ele atravessa o lodo de flanelinhas, sua fúria chega a lhe dar tonturas, em seu atual estado, seria capaz de matar um deles, tranquilamente, sem remorso.
Mas antes, pensa, quebraria os ossos faciais deles com uma marreta, como eles fazem com os retrovisores dos carros, vazaria os olhos como eles murcham os pneus e, finalmente, segue Ele pensando, abriria retalhos por toda a pele com uma boa faca de açougue, como eles fazem ao riscar a lataria dos veículos de quem trabalha honestamente.
Ele chega ao último degrau da escadaria de acesso e adentra a pizzaria.
Sem ter matado nenhum.
Essa corja teve muita sorte, hoje - Ele pensa.
Sorte d'Ele não ter carro.
Nem carteira de habilitação.

A Marreta Do Marceleza

Marcelo Nova ainda é o homem do rock no Brasil.
E também hábil manejador de uma boa marreta.
Algumas das suas:

"Um fato desagradável é que a mediocridade está definitivamente instaurada na sociedade contemporânea como um vírus, para o qual ainda não há cura. A mediocridade hoje é aceita, as vezes, aplaudida, outras vezes protegida, mas acima de tudo ela tem sido incentivada. Só ha dois fatos irreversíveis no mundo contemporâneo: A morte e a mediocridade. Com a clonagem só restará a mediocridade.";

"A idéia que me provoca essa expressão 'politicamente correto' é a de um cercado com várias ovelhinhas e carneirinhos. Quando a cancela é aberta todos saem fazendo "bééé" na mesma direção, seguindo o pastor. Isso há algum tempo era sinal de despersonalização. Hoje é sinônimo de adequação, de adaptação."

"Não tenho nada contra "viado", tenho contra a "viadagem." Oscar Wilde era um gênio que gostava de dar a bunda. Só que agora, estão pensando que todo indivíduo que dá a bunda é gênio."

"Muitos dizem que o rock brasileiro morreu, mas para mim ele foi para o salão de beleza"

"Esse negócio de adoração, de idolatria, não é a minha praia. Outro dia, chegou um fã e, sem mais nem menos, simplesmente se jogou aos meus pés. Depois do susto, eu disse: " Sai pra lá, meu filho. Eu sou baiano, mas não sou Caetano".

"O que eu ia fazer lá? Não curto samba, não bebo cerveja nem gosto de travesti. Sou um cara das antigas, respeito a tradição dos rockers". - Marcelo Nova, dizendo porque não foi ao desfile da escola de samba que fez homenagem a Raul Seixas.

"Eu tava em casa, o telefone tocou, era o Karl Hummel. Ele me disse: "Bicho, liguei a televisão e o apresentador disse que a maior sensação do rock é o Skank. A gente precisa voltar, cara." - Marcelo Nova, explicando a sua volta ao Camisa de Vênus

"O Camisa de Vênus é a única banda heterossexual do planeta".

"A Yoko Ono é o meu Beatle preferido".

E a que eu gosto mais:

"Não participo de Namoro na TV", em resposta ao convite da produção do programa televisivo "Chico e Caetano", transmitido pela rede Globo em 1987

sábado, 9 de janeiro de 2010

Ai que saudades da Amélia, porra nenhuma

"E quando me via contrariado, dizia, meu filho, o que se há de fazer?"
O que se há de fazer, ora porra? Dar a maior força pro cara ir à luta, pôr a boca no mundo, virar a mesa, chutar porta, atear fogo no cu do causador de tal contrariedade, ou seja, a Amélia devia era insuflar os brios do fulano, que o homem precisa, vez em quando, exercitar seus instintos, sentir-se o senhor da caverna.
Mas o que faz a boa Amélia? Receita conformismo ao sujeito.
A Amélia nunca foi a vítima resignada como pode a música sugerir.
A Amélia é uma tremenda canalha que vai transformando também em Amélias a todos em seu redor, com sua maligna condescendência e seus panos quentes.
Que história é essa de não ficar contrariado? Se o cara honestamente se esforçou para algo e deu em merda, ele tem todo o direito de esbravejar e blasfemar. É isso, aliás, que mantém o cara de pau duro, se ele não puder reclamar, já era.
A Amélia - tadinha - não proíbe nada, mas gradativamente os que com ela convivem perdem a vontade de fazer, a Amélia mina o ânimo de qualquer esforço, tira o sentido da luta, a gana do bicho, lentamente, sem sintomas, feito a hepatite C e quando se dá pela coisa, já não há - realmente - o que mais fazer.
A intitulada democracia brasileira usa com primazia o golpe da Amélia: o político é pego em rapina, o que se há de fazer? (todos roubam, não é?); não há postos de saúde o suficiente, o que se há de fazer?; a enchente levou tudo, o que se há de fazer? (rezam para que o bondoso deus mande menos chuva no ano seguinte); a escola pública está sucateada, o que se há de fazer? (hoje, tem bolsa-escola e cota em universidades); o policial é corrupto, o que se há de fazer? (também, pobrezinho, ganha tão mal); e a coisa por aí vai.
A democracia - e não a ditadura - transformou o Brasil num país de Amélias, não temos mais a menor vaidade.
E ai daquele que se arriscar a reclamar de algo, em exigir algum direito. Imediatamente, o indivíduo fica malvisto, é taxado de ser revoltado, de estressado, de ter algum transtorno, de ser bipolar, de estar amargando um jejum sexual brabo, e logo lhe indicam um psiquiatra, uns tarjas pretas.
Se acham que exagero, experimentem, um dia desses e apenas para dar um exemplo bem simples, entrar na fila do caixa rápido (máximo 10 volumes) de um mercado e reclamar do gordo filho da puta com o carrinho lotado que está nessa mesma fila.
As pessoas olharão para você como se você fosse o errado e não o gordo filho de puta, como se você fosse um arruaceiro.
Vivemos, hoje, a Hegemonia das Amélias.
Por isso, não nutro um grama (1 g) de dó quando uma Amélia recebe um pé na bunda ou quando um ditadorzinho de merda qualquer põe pra correr a democracia e reinstala a ditadura em alguma republiqueta sul-americana.
As Amélias merecem mesmo não ter o que comer.
Mário Lago, um dos maiores e legítimos intelectuais brasileiros, e Ataulfo Alves foram bondosos demais com elas.
Foram Amélias demais, nesse caso.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Dúvidas Imbecis (deixe estar)

Fiz alguma diferença pro mundo?
Para alguém?
Para mim?
Ora, vamos,
Deixe, companheiro,
Não é hora disso.
É hora de um bom casco de tartaruga,
De um buraco de avestruz.
E de licenciosas porções de rum
Que é pra deixar tudo isso passar.

Caminhos


"E você ainda me pergunta:
aonde é que eu quero chegar?,
se há tantos caminhos na vida
e pouquíssima esperança no ar!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Bukowski

PÁSSARO AZUL
Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?


segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Pequeno Conto Noturno (9)

Virna conclui o gole, repõe a rolha na garrafa de vinho, levanta-a pelo gargalo usando o polegar e o indicador e a olha contra a minguante luz da Lua, lamenta que seu conteúdo já esteja à metade e a coloca no degrau da escadaria imediatamente abaixo ao que está sentada com Rubens, entre os pés dos dois, escadaria de cimento áspero, de uma praça suja, de vegetação seca e malcuidada.
- Eu te amo - Virna diz.
- Ainda?
- Sempre.
- É porque nunca chegamos aos finalmentes, é porque não tem acesso completo a mim.
- Mas eu poderia ter acesso fácil a você, Rubens.
- Ah, é?
- É. Se eu destruísse a sua vida, só te restaria correr pra mim. E eu sei de você o suficiente para isso.
- Não é bem assim.
- Não?
- Não. Você sabe de mim coisas que a maioria das pessoas consideraria o suficiente para pôr uma vida abaixo, não é a mesma coisa.
- E não dá no mesmo?
- Dá. Mas você não faz.
- Porque eu te amo.
- Não acho.
- Não acha que eu te amo?
- Não acho que seja por isso que não destrói minha vida.
- E o que me impede, então?
- Porque sabe que nós até iríamos pra cama, inicialmente. Uma, duas, meia dúzia de vezes, pela vontade acumulada, pela curiosidade, até. Só que depois, sabe muito bem, eu sumiria de seu mapa, não continuaria a me dar com quem me demoliu.
- É mesmo o que pensa?, Virna pergunta.
- Não. Só é uma segunda hipótese. Uma terceira é que você não me detona por ser uma pessoa verdadeiramente boa, altruísta, paciente, abnegada.
- Não acredita em pessoas boas de verdade, acredita?
Rubens desarrolha a garrafa, emborca e a passa para Virna, que também se serve e mais uma vez olha o conteúdo decrescente do vinho.
As costas das mãos - a direita de Rubens e a esquerda de Virna - se tocam, seus dedos mínimos e anulares brincam, entremeiam-se, desenroscam-se, dançam um descoordenado e doce tango.
- Uma garrafa só? Geralmente traz duas.
- Prudência. Duas e começaria a se tornar arriscado - diz Rubens.
- Você falando em prudência? Escrúpulos depois de velho, Rubens?
- Ou isso ou a taxa mais baixa de testosterona.
- Não entendi.
- Não existe essa coisa de amadurecimento, de adquirir consciência para os homens, tudo o que há é a taxa de testosterona, não ficamos maduros com o seu declínio, e sim medrosos.
- Sei não. Conheço homens que amadureceram.
- Aos 20 anos, por exemplo?
- Não.
- Pois é. Acredite, não é a idade, é a baixa na testosterona que dá um mínimo de decência aos homens.
- E a sua testosterona, como anda? - cutuca Virna.
- O suficiente para sua função básica. E só.
Os dois riem. Virna pende a cabeça para a esquerda, até encontrar o amparo do ombro de Rubens, e ali se deixa.
Ela está imensamente feliz de poderem estar ali, levemente triste por saber que nunca passarão daquilo.
- A noite silenciou, Rubens, acho que acabou de vez aquele foguetório todo da virada do ano e as pessoas foram dormir, entupidas da ceia. Vai conseguir dormir, agora?
- Sabe que não é nada disso que impede meu sono, não sabe?
- Sei.
Virna emborca, acaba com a garrafa e volta a recostar a cabeça no ombro de Rubens.
- Já se vão três horas e quarenta e dois minutos do Ano Novo.
- Você acredita mesmo, Virna?
- No quê?
- Em Ano Novo.
- Você não, né?

sábado, 2 de janeiro de 2010

Deixa Eu Contar Que Era Farsa A Minha Voz Tranquila

Se Puder Sem Medo
(Oswaldo Montenegro)
Deixa em cima desta mesa a foto que eu gostava
Pr'eu pensar que o teu sorriso envelheceu comigo
Deixa eu ter a tua mão mais uma vez na minha
Pra que eu fotografe assim meu verdadeiro abrigo
Deixa a luz do quarto acesa a porta entreaberta
O lençol amarrotado mesmo que vazio
Deixa a toalha na mesa e a comida pronta
Só na minha voz não mexa eu mesmo silencio
Deixa o coração falar o que eu calei um dia
Deixa a casa sem barulho achando que ainda é cedo
Deixa o nosso amor morrer sem graça e sem poesia
Deixa tudo como está e se puder, sem medo
Deixa tudo que lembrar eu finjo que esqueço
Deixa e quando não voltar eu finjo que não importa
Deixa eu ver se me recordo uma frase de efeito
Pra dizer te vendo ir fechando atrás da porta
Deixa o que não for urgente que eu ainda preciso
Deixa o meu olhar doente pousado na mesa
Deixa ali teu endereço qualquer coisa aviso
Deixa o que fingiu levar mas deixou de surpresa
Deixa eu chorar como nunca fui capaz contigo
Deixa eu enfrentar a insônia como gente grande
Deixa ao menos uma vez eu fingir que consigo
Se o adeus demora a dor no coração se expande
Deixa o disco na vitrola pr'eu pensar que é festa
Deixa a gaveta trancada pr'eu não ver tua ausência
Deixa a minha insanidade é tudo que me resta
Deixa eu por à prova toda minha resistência
Deixa eu confessar meu medo do claro e do escuro
Deixa eu contar que era farsa minha voz tranqüila
Deixa pendurada a calça de brim desbotado
Que como esse nosso amor ao menor vento oscila
Deixa eu sonhar que você não tem nenhuma pressa
Deixa um último recado na casa vizinha
Deixa de sofisma e vamos ao que interessa
Deixa a dor que eu lhe causei agora é toda minha
Deixa tudo que eu não disse mas você sabia
Deixa o que você calou e eu tanto precisava
Deixa o que era inexistente e eu pensei que havia
Deixa tudo o que eu pedia mas pensei que dava.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

ANO NOVO

Uma boa entrada de Ano para todos os que passarem por aqui.

Mal Li, E Achei Uma Merda

Dia desses, caiu-me nas mãos a mais nova publicação dos estúdios Maurício de Sousa.
A turma da Mônica ficou jovem, pior: teen.
A Mônica não é mais dentuça, usou aparelho ortodôntico; o Cebolinha não troca mais o "r" pelo "l", foi ao fonaudiólogo; a Magali vive em dieta; e a coisa por aí segue.
Não existem mais a Mônica, o Cebolinha e etc, existem personagens crescidos - espichados no pior de todos os estilos de desenho, o mangá - e que mantiveram os nomes dos antigos.
As peculiaridades que davam a identidade a cada um da turma da Mônica foram extirpadas, agora todos são iguais a todos.
Cadê a tão propalada diversidade? A conscientização para a aceitação das diferenças? O combate ao preconceito, tão necessário hoje para uma juventude isenta de valores?
Maurício de Sousa prefere não enveredar por essas trilhas, torna a todos iguais e pronto, resolvido o problema.
Resolvido porra nenhuma.
A criança gordinha sempre vai ser o gordo-baleia, o rolha de poço, o pudim de banha, o supositório de elefante; a que usa óculos será sempre a quatro-olhos; o muito magro será o palito, o pau de virar tripa, vara de cutucar estrela, grilo, canela de sabiá; o muito baixo, o muito alto, o espinhento, o com orelha de abano, a peituda precoce, a sem-peitos tardia...
Não adianta. Todas as diferenças serão cruelmente realçadas na infância e adolescência.
Saber lidar com a adversidade, mais até que com a própria diversidade, e seguir em frente, é que forjará caráteres e personalidades, que acabará dando fibra e brio ao indivíduo: atributos também ausentes nessas novas gerações de iguais.
A solução não é fingir que todos são iguais, como na Turma da Mônica Jovem, não é homogeinizar, não é tornar tudo um só pastiche, não é pôr todos no mesmo liquidificador, bater e servir um suco cinzento; essas novas gerações são cinzentas.
Não é à toa que o gibi da Mônica Jovem é impresso em preto e branco, não há cores, não há distinção.
O interessante seria um quadrinho em que o cara que chama o gordo de rolha de poço percebesse que ele também é um cara legal (ou não) e ficasse amigo dele. Mas Maurício de Sousa, mais uma vez, foge disso.
Opta por entrar na onda da inclusão, onde todos são considerados iguais. Muito cômodo por sinal, afinal negar as diferenças é se abster de tratá-las, a cada uma, com um cuidado especial. É muito mais fácil, dá muito menos trabalho.
É a merda do politicamente correto!!!
Já imaginaram se essa onda teen se alastrar pelos outros títulos de Maurício de Sousa?
O Chico Bento, por exemplo, não roubaria mais as goiabas do nhô Lau, trabalharia varrendo o pomar ou capinando um terreno para recebê-las em paga, não mais pescaria com o Zé Lelé porque é época de piracema, não sairia mais à caça da onça-pintada porque o IBAMA decretou que é crime inafiançável.
Uma chatice só. Um porre. E sem álcool.
Só torço, nisso tudo, para que o Bidu não esteja mais vivo. Se estiver, logo, logo, passará por uma cirurgia de retirada das cordas vocais. Para seu latido não incomodar aos vizinhos.
A Turma da Mônica Jovem é a coisa mais velha que eu já vi. Velha no sentido de rançosa, preconceituosa.
No que depender de mim, meu filho não lerá a Mônica Jovem.
E acho que vetarei até a série clássica da Turma da Mônica.
Em protesto.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Divagações Sobre Faraós, Presidentes E Construtores

A última e mais importante obra de um faraó, aquela via qual seria imortalizado e sempre referido, era a sua pirâmide. Quanto maior e opulenta, melhor.
O filme "Lula, o filho do Brasil", talvez sua última obra como presidente (assim espero, pelo menos), é a pirâmide de Lula.
Grandiosa obra de propaganda que faria corar os Estados totalitários de Stalin e Adolfinho, versão oficial de sua trajetória ao Planalto, imagem pela qual Lula quer ser lembrado.
Ninguém podia saber dos segredos das pirâmides, de seus labirintos de túneis e corredores que davam acesso à câmara principal onde eram guardados a múmia do faraó, seus tesouros e segredos; finda a construção, todos os envolvidos, de escravos a engenheiros, eram enterrados juntos com o faraó.
Fábio Barreto foi o construtor da pirâmide de Lula, cineasta de "Lula, o filho do Brasil".
Um filme desse, por mais rastaquera, envolve grande volume de pesquisa, leitura de arquivos confidenciais, entrevistas, depoimentos e etc de pessoas que conheceram Lula antes dele ser O Lula, pessoas que sabem do homem e não do presidente. E o homem é sempre perigoso ao presidente.
Certamente, apenas uma pequena fração do material colhido foi maquiada e usada para os propósitos do filme, mas Fábio Barreto se tornou o homem que conhece os segredos da pirâmide.
Findo o filme, Fábio Barreto sofre um acidente automobilístico.
O construtor da pirâmide de Lula está à beira da morte.
Coincidência?
Ainda que seja, Fábio Barreto a mereceu.
Um cara, um cineasta de considerável talento, um fazedor de arte, prestar-se ao papel de propagandista do Estado, bem que merece levar um tranco brabo.
A pirâmide ficou pronta. E seu construtor, provavelmente, será o primeiro sepulto em suas câmaras ocultas.
Quantos já não estarão enterrados em seus alicerces?

domingo, 27 de dezembro de 2009

Ela É Quem É A Louca?

Susana Maiolo, 25 anos, franco-suiça, tentou empurrar o Papa.
Pena que não conseguiu.
Foi declarada internacionalmente desequilibrada pela imprensa.
Ser considerada assim, será até vantajoso para ela, há de ter pena mais branda, perdão mais fácil.
Mas a declaração imediata da loucura da moça serve (sempre) aos interesses da própria igreja.
Admitir que pessoas em pleno juízo sejam capazes de atacar ao Papa, ainda mais em pleno período natalino, começaria a levantar suspeitas sobre a igreja, sem dizer que abriria precedentes para que outros que se consideram em perfeito juízo (e todos se consideram, inclusos os loucos) começassem também a fazê-lo.
Um Papa condensa todos os ideais e história da igreja.
A igreja católica promoveu genocídios em suas cruzadas, onde mulheres eram varadas por espadas e crianças recém-nascidas eram giradas pelos pés e tinham suas cabeças esmigalhadas contra paredes; a santa igreja queimou, talvez, tanta gente em suas fogueiras quanto Hitler em seus fornos crematórios, quem sabe daí venha a simpatia da igreja pelo nazismo à época da segunda guerra, se não apoiando aos atos da suástica, ao menos fazendo-lhes vista grossa e tendo seu silêncio muito bem pago com ouro judeu, que até hoje abarrota os cofres do Vaticano, não à toa esse Bento XVI fez parte da juventude hitlerista.
Hoje, a igreja continua a orquestrar um genocídio, com ares, inclusive, de limpeza étnica, bem próprio do nazismo.
O continente africano é o atual agraciado das bençãos da igreja.
A igreja combate o uso de camisinhas no continente mais contaminado pelo HIV, não só combate como tenta dificultar o acesso ao produto e, em esse chegando a alguma aldeia, um pelotão de freiras negras-africanas-católicas é destacado para acorrer a tal localidade e promover a queima dos preservativos - sempre a fogueira santa -, condenando silenciosamente milhares à morte pela AIDS.
Pois bem, essa moça Susana, atacou a personificação de tudo isso, ela é franco-suiça, tem ótima educação, sabe das coisas.
Foi um ataque ingênuo, romântico, limitado pelo seu pequeno, ou quase nenhum, poder de fogo.
Mas quem é o louco?
Ela que ataca o ícone de toda essa lamentável história ou os milhões que ficam aclamando a passagem do Papa, agitando bandeirinhas, ansiosos por um olhar que lhes seja dirigido pelo filho da puta e ávidos pela sua benção feita de sangue e peste?
Pena ela não portar uma arma.
Até nisso o filho da puta do Papa tem sorte, sorte pelos opositores da igreja não serem tão sanguinários como é a organização cujo comando ele ocupa.
Feliz Natal, Susana Maiolo.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Pequeno Conto Noturno (8)

Ele checa os molares superiores, todos intactos e firmes, idem com os inferiores, nenhum quebrado ou vacilante.
O interior da bochecha, ao contrário, está em panderecos, a mucosa aberta em dois cortes desbeiçados, o sangue tinge os entredentes, mas Rubens gosta de seu gosto doce-ferruginoso, sempre gostou; não cospe o sangue, sorve, não quer desperdiçar tão vital substância.
Não há água oxigenada em seu armário de remédios para a assepsia, há vodka em sua geladeira, Rubens enche a boca e faz um bochecho.
Dor ardida e excruciante, parece cortar mais que o murro que quase o nocauteou, mas é dor bem-vinda.
Se arde é porque está matando os germens, se dói é porque está sarando, sempre ouviu dizer de sua mãe e avós, a cura via dor e sofrimento, purgação, catolicismo aplicado à medicina, Rubens não é católico, mas a dor católica a lhe tomar as bochechas o conforta.
Ele mantém a vodka na boca, até a dor ser trocada lentamente pela anestesia, pela dormência que o álcool impõe aos tecidos.
Não cospe a vodka. Engole-a. Cheia de sangue, o verdadeiro Blood Mary, pensa Rubens.
Há noites em que nada pode prestar, nas quais todos os indícios gritam para que fiquemos em casa.
São as noites às quais Rubens não consegue resistir.
Rubens sabia que era dessas noites quando resolveu pôr pé à rua, sabia que era dessas noites quando abordou a dona que se oferecia a ele à luz de um blues, sabia que era dessas noites quando entrou no apartamento da dona e começaram a meter, sabia que era dessas noites quando a dona, cavalgando seu pau, pediu para que lhe batesse na cara e ele bateu e a dona uivou, lanhando as próprias coxas com as unhas longas, sabia que era dessas noites quando a dona perguntou se também podia lhe bater e ele concedeu.
A dona calçou um soco inglês, estrategicamente oculto por debaixo dos lençóis, e lascou-lhe uma porrada, no capricho, agarrou-lhe pelas orelhas, colou sua boca a dele e tomou-lhe o sangue, a buceta da dona mascou o pau de Rubens, ela gozou e desmaiou, de gozo, sangue e excesso de álcool.
Rubens não podia ficar no prejuízo, pôs a dona desfalecida de bruços e varou-lhe pelo cu, igualando os estragos causados em sua boca. Em revanche, em justiça, em punição.
Mulher maluca, lembra Rubens.
Faz ainda dois ou três bochechos de vodka, volta a garrafa para a geladeira, se deita e adormece fácil.
Adormece o sono limpo que só têm os bebês, e os justiceiros.

sábado, 19 de dezembro de 2009

O Necessário (E Inalcançavel) Vazio

O mais belo e categórico texto jamais escrito seria uma folha em branco; ou uma tela em branco, vá lá, façamos essa concessão.
Tal texto exprimiria, com precisão nunca dantes atingida e de forma definitiva, a verdadeira natureza e espírito humanos, o vazio.
O átomo tem 99,9% de sua massa concentrada no núcleo, sua região central, e os outros 0,01%, espalhados pela sua eletrosfera; a magra eletrosfera, no entanto, é de 10 mil a 100 mil vezes maior que o núcleo, ou seja, o átomo é puro vazio, o átomo é pura página em branco.
Tudo no universo conhecido é composto pela combinação de átomos, logo todo o universo é muito mais um vazio que firme terreno. Nós mesmos somos muito mais vazio que pessoas.
O vazio é regra e equilibrante do universo.
O vazio não existe para ser preenchido, sim para continuar vazio.
Não deve ser preenchido por nada, muito menos, e desgraçadamente, por atividades humanas, sejam elas artísticas ou de qualquer outra índole.
É por medo do vazio que o ser humano tenta recheá-lo.
Porém não pelo medo natural, e justificável se esse fosse o caso, do desconhecido, como é de uso afirmar por aí.
É pelo medo de se descobrir - e de se reconhecer - também vazio.
Nunca daremos descanso ao vazio - e nem a nós mesmos, por conseguinte - pelo medo de nos sabermos e admitirmos vazios, como todo o universo circundante, comuns, sem nenhuma habilidade além.
O que mais nos apavora não é a imensidão imaterial: é a nossa total ausência de especialidade.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Os Eleitos Da Bala Soft

Hoje, cheguei à conclusão de que eu e toda minha geração, os recém-passados dos 40 anos, fomos uma linhagem do mais duro cerne, pétreos, verdadeiros vikings em comparação com essas gerações atuais de crianças moloides, frouxas e obesas.
Essa molecada não aguenta nada, já nascem doentes. Nós suportávamos a tudo, raramente adoecíamos.
Nossos brinquedos e brincadeiras detonariam, hoje, um infanticídio generalizado.
Todos nossos carrinhos, ou bonecas, no caso das meninas, eram coloridos com tintas à base de chumbo, cádmio e que tais, e eram avidamente mascados e roídos por nós, isso quando esses metais pesados também não se prestavam a corantes de nossas guloseimas. E estamos aqui.
Tive o "Forte Apache", toda a sétima cavalaria (incluindo o Rin-tin-tin) e a corja do Touro Sentado eram bonecos feitos de chumbo, o forte era de madeira que facilmente se desfazia em farpas, que viviam a entrar sob nossas unhas, os cantos do forte apache eram fixados por pregos, de metal, finíssimos, pontiagudos e sempre enferrujados. E estamos aqui.
Fui ainda possuidor de um laboratório de química dos brinquedos Guaporé, o tal continha 25 reagentes, entre o quais, três compostos de enxofre (hipossulfito de sódio, sulfocianeto de amônio e sulfeto de sódio) e dois plumbosos (iodeto e nitrato de chumbo), contava ainda com tubos de ensaio de vidro, fino e cortante, bem como uma lamparina a álcool destinada a aquecer misturas. E estamos aqui.
Andávamos sobre muros (e até caímos, as vezes), entravámos em córregos sem nem saber de suas profundidades, ateávamos lindos fogaréus em terrenos baldios (e nem nos mijávamos na cama, como reza o dito popular), jogávamos "bets" na rua, toureando os automóveis, engolíamos água das enxurradas, até leite com manga, tomávamos. E estamos aqui.
Alguns dos remédios clássicos de nossa infância tiveram sua formulação alterada, mantiveram praticamente só os nomes de fantasia, por serem extremamente danosos à saúde, a exemplos, merthiolate, hipoglós, mercurocromo, lactopurga. E estamos aqui.
Fomos, segundo os atuais "peidagogos" de plantão, massacrados pelo sistema educacional de nossa época, nossa escola se valia de práticas didáticas quase medievais, imaginem só ter que decorar conjugação de verbos e tabuada, onde já se viu tamanha judiação?
E sabem o mais curioso, peidagogos filhos de puta? Estamos aqui. Ninguém ficou traumatizado e até que fomos muito bem alfabetizados e sabemos fazer conta "de cabeça" até hoje.
Mas só tomei conhecimento do pior inimigo, do mais cruel algoz de minha infância, hoje.
Inimigo ardiloso, lobo em pele de cordeiro, insuspeito à época: as criminosas e mortais balas SOFT.
(Balas soft, quem as conhece não esquece jamais, quem não, dê uma olhada na foto ao ínicio dessa postagem.)
Numa dessas conversas de velhos desocupados, comentei que elas não mais eram fabricadas, fato estranho, pois eram largamente consumidas. Aí fiquei sabendo de toda a sua maldade, as balas soft foram responsáveis pelas mortes de várias crianças, que se engasgavam com elas.
Eu e meus amigos nos engasgamos várias vezes, nunca supomos o quão perto da morte já estivemos... fiquei a ponderar.
A luz do discernimento banhou-me de imediato, explicado estava o grande sucesso evolutivo de minha geração.
Fomos moldados, lapidados e postos à forja pelas balas soft.
Os que a elas sobreviviam, estavam aptos a passar incólumes por todas as outras agruras, podíamos até beber merthiolate, tranquilamente.
Nem Darwin teria pensado nisso.
As gerações seguintes não passaram pela triagem da bala soft, pelo seu crivo impassível. E deu no que deu, no que está dando: levas e mais levas de humanos de bosta.
Sou a favor - ocorreu-me agora - da reativação de todas as fábricas de bala soft, elas deveriam voltar a ser fabricadas e distribuídas na merenda escolar como poderoso e eficaz agente de seleção. Os "manés" seriam prontamente eliminados, e os que restassem, seriam alunos capazes de, ao menos, juntar lé com cré; poderiam também, as balas soft, serem incluídas nas cestas básicas dos professores, concursos teriam de ser urgentemente abertos.
Um brinde a mim e aos meus amigos, a nós, os eleitos da bala SOFT
.