quarta-feira, 6 de junho de 2012
terça-feira, 5 de junho de 2012
Noites De Sono Ganhas
Perdi várias noites de sono
A ver meu filho se consumir em febre,
Em tosse,
Em respiração obstruída;
A medicá-lo,
A ajustar despertadores,
A monitorar sua temperatura,
A assistir à orgia de bactérias
Em seu pequeno e vulnerável corpo,
Que nada sabe de se defender,
Só de rir, de ser pequeno e vulnerável.
Vou passar, hoje, outra noite em claro.
Para ver meu filho
- já curado -
Dormir com a fronte fresca,
A garganta sem trovejares,
As narinas em leve ronronar;
A contemplá-lo,
A niná-lo com meus olhos,
A assistir à projeção de seus sonhos felizes
Em sua face que sorri, se contrai e balbucia,
Em seus bracinhos e pernas
Que continuam despertos, espertos, durante seu repouso.
Tantas noites perdidas com doenças...
Por que não reservar algumas delas também para observar a saúde?
Farei isto mais vezes !
Amanhã - que já é hoje -,
Estarei um caco, um bagaço,
Um molambo de olheiras profundas
A esmolar por uma xícara de café forte :
Um zumbi feliz,
Rindo à toa.
Pequeno Conto Noturno (27)
Rubens goza. Deixa-se ainda por um ou dois minutos, esperando os ritmos cardíaco e respiratório normalizarem, e tira o pau do cu de Domenica. Que sai semiereto, com seus relevos e reentrâncias cobertos e preenchidos por merda. Nada em exagero, a quantidade mínima padrão, aquela inevitável e sutil camada que se percebe mais pelo cheiro que pelas vistas.
Rubens dobra-se sobre Domenica, diz-lhe algumas besteiras ao ouvido, mordisca o lóbulo de sua orelha e sai, vai ao banheiro se lavar.
Domenica, lasseada e exaurida (gozara cinco ou seis vezes antes de Rubens encher seu rabo de porra), permanece na exata posição em que estava, posição que tanto agrada a Rubens, de bruços, babando no travesseiro, braços esticados ao alto, mãos agarrando as laterais da cabeceira, e as pernas bem afastadas, o mais que lhe é possível, quase em spacatto.
Domenica se rende ao langor, fica lá, imóvel, sentindo o esfíncter anal retornar a seu estado normal (quase escuta os rangidos), as pregas se reacomodando e expulsando os últimos restos da porra de Rubens, que escorre e se une à secreção de sua buceta numa bela mancha rorschach bege no lençol.
No chuveiro, Rubens ensaboa abundantemente o pau, as bolas e os pelos nunca depilados ou aparados - o cara, pensa Rubens, primeiro depila o saco, depois depila o cu, e o próximo estágio já se sabe.
O vapor do chuveiro ligado na posição de inverno e as janelas fechadas fazem emanar o cheiro da merda, potencializam a atmosfera de fossa; Rubens gosta, aspira-a. É cheiro muito diverso do da merda posta fora naturalmente, simplesmente cagada, evacuada. É cheiro de merda conquistada, tomada, subjugada. Do cu feito em poço dos desejos.
Rubens sai do banho, pega no congelador a garrafa de grappa trazida por Domenica, dois copos e volta ao quarto. Rubens não gosta de grappa, é bebida amarga, feita dos restos das uvas utilizadas para o vinho, cascas, sementes e até caules, uma espécie de pinga de uva; nunca a tomaria por próprio gosto.
Rubens, porém, é homem cortês, de bons modos e protocolos, sabe que seria enorme deselegância recusar qualquer coisa a quem lhe oferta o cu tão generosa e desapegadamente como faz Domenica, de um jeito que é só dela; Rubens tomaria sulfocrômica com água régia por um cu daqueles, que dirá, então, grappa.
Ao ver Rubens chegar com a garrafa e os copos, Domenica sai de sua prazerosa letargia e se senta na cama, pernas encolhidas ao peito e costas na cabeceira.
Rubens serve os dois copos e se junta a Domenica, que puxa o cobertor e os encasula, prorrogar a intimidade e lhes salvaguardar de uma rara noite fria, com os termômetros abaixo dos 10ºC.
Pernas enrodilhadas, as de um nas do outro, brindam e começam a conversar. Nada específico, nada de políticas, de esportes, de humor, de TV, de filmes, de livros, de passado ou de futuro.
Apenas falam, muito mais Domenica, que brinca com o pau e as bolas de Rubens por sob as cobertas. Domenica gosta de conversar com Rubens e, ao mesmo tempo, manusear suas bolas, como fosse um brinquedo de apertar, um amuleto, não significa que ela esteja querendo outra foda; não até de manhã, pelo menos.
Domenica não se lavou, um bafio de subterrâneo escapa das cobertas de vez em quando, um odor de terra úmida, acolhedor; Rubens e Domenica são duas minhocas recém-acasaladas em seu túnel de massapé, em sua caverna primordial.
Com o sexto copo de grappa quase esvaziado, Domenica adormece no ombro de Rubens, com a metade de uma frase qualquer em sua boca.
Cuidadosamente, Rubens retira o copo da mão esquerda de Domenica e, mais cuidadosamente ainda, a mão direita dela das bolas do seu saco. Deita-a em posição fetal, garante que o cobertor a esteja bem envolvendo e se levanta da cama.
Mune-se de um daqueles copos de requeijão, cheio até quase transbordar de rum - era hora de bebida de bucaneiro -, e sai para a sacada, sem camisa, só de cuecas samba-canção, usufruir do inusitado frio. Que lhe recebe com agulhadas, querendo ofender e aviltar sua pele.
Rubens ri com desdém e se senta à beira do parapeito de granito, a mirar a cidade medrosa, que só dorme com as luzes acesas.
Rubens dá uma boa talagada no rum, agora está pronto para ficar ali, duelar com Ymir. E pensar. Ou um pouco em Domenica, ou um pouco na vida, ou, de preferência, em nada, que é a isto que se presta o rum.
domingo, 3 de junho de 2012
Maconha Libre (Ou : A Verde E Nebulosa Matrix)
Vão liberar a maconha,
Que liberem, que descerrem,
Que arrombem com bombas de fumaça
As portas da percepção.
Que colham, sequem,
Triturem e dichavem
- Finalmente -
As páginas da Constituição :
Abram as alfândegas para a semente.
Que se liberem as queimadas
- Inútil e hipocritamente proibidas -,
Que sejam autorizados os desmatamentos,
Dos neurônios,
Das matas glias ciliares,
Das reservas de sinapses.
Institucionalizem, de vez,
A verde e nebulosa Matrix.
Declarem como real,
Legitimem em Diário Oficial,
O mundo do Soma.
O mundo do Soma.
Eu continuarei ao manche da Nabucodonosor.
Continuarei Capitão Kirk
- não das galáxias, sim das ruínas do pensamento humano -,
Indo não aonde nenhum homem jamais esteve,
Mas de volta ao lugar de onde ele veio,
De onde nunca deveria ter saído.
Eu, Selvagem a pregar Huxley,
O corpo sustido por uma corda no pescoço,
Girando,
Uma bússola com unhas encravadas nos dedões dos pés,
Apontando norte, nordeste, leste, sudeste, sul, sul-sudoeste...sul-sudoeste, sul, sudeste, leste. . .
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Convite Triste - Carlos Drummond de Andrade
Aos meus amigos (talvez existam ainda uns dois ou três por aí, talvez).
Convite Triste
Meu amigo, vamos sofrer,
vamos beber, vamos ler jornal,
vamos dizer que a vida é ruim,
meu amigo, vamos sofrer.
Vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira.
Fitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
ou qualquer outra besteira.
Vamos beber uísque, vamos
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber apenas.
Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma.
Meu amigo, vamos cantar,
vamos chorar de mansinho
e ouvir muita vitrola,
depois embriagados vamos
beber mais outros sequestros
(o olhar obsceno e a mão idiota)
depois vomitar e cair
e dormir.
vamos beber, vamos ler jornal,
vamos dizer que a vida é ruim,
meu amigo, vamos sofrer.
Vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira.
Fitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
ou qualquer outra besteira.
Vamos beber uísque, vamos
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber apenas.
Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma.
Meu amigo, vamos cantar,
vamos chorar de mansinho
e ouvir muita vitrola,
depois embriagados vamos
beber mais outros sequestros
(o olhar obsceno e a mão idiota)
depois vomitar e cair
e dormir.
terça-feira, 29 de maio de 2012
A 12ª Feira Nacional Do Livro De Ribeirão Preto (SP)
Ribeirão Preto é tida, desde os meus tempos de moleque, como a capital da cultura. E realmente. Da cultura do café (em seus primórdios), da cultura da cana-de-açúcar e das queimadas ilegais (atualmente), da cultura do chopp, das ruas sujas pelo lixo jogado por seus moradores, do sertanejo, dos bares nas calçadas a invadirem o espaço público e a incomodarem com seu barulho, de um dos trânsitos mais violentos do Estado, da falta de educação generalizada, da cultura da falta de cultura, do transformar a ignorância em tradição, em tipicidade, em ponto turístico.
E não se deixem enganar, os menos atentos, pela presença de meia dúzia de boas faculdades em seus limites, elas existem isoladamente, como se num outro plano. As únicas influências acadêmicas que escapam dos muros das faculdades são as festas, as badernas, os carros com música no último volume infernizando as madrugadas.
Tanto que não existem mais que quatro ou cinco livrarias na cidade a servir seus mais de 600 mil habitantes, sendo que esses raros espaços estão nos hediondos shopping centers, onde se prestam mais a ponto de encontro para tomar café e colocar a conversa em dia que propriamente à leitura. Em Ribeirão Preto, mesmo as livrarias adquirem ares de boteco.
Por isso, foi com muito bons olhos - e até uma ponta de esperança, na época em que eu me dava a esses delírios - que recebi a notícia da criação da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, no ano de 2000.
A Feira, alocada no centro velho da cidade, acomodada entre seus belos prédios antigos, seria um evento destinado aos apreciadores de livros, aos dados à prazerosa prática da leitura. Seria um espaço em que travaríamos contato com os lançamentos mais recentes das grandes editoras por um preço razoavelmente abaixo dos praticados pelas livrarias, para estimular o hábito.
Seria. E até foi. Durante um tempo. Fiz grandes aquisições nas primeiras edições da Feira.
De 2008 para cá, porém e desgraçadamente, o povão, a ralé, descobriu a Feira do Livro. Não a Feira em si, óbvio, mas sim o espaço físico destinado à Feira; espaço ao qual, sendo ele público, a escória tem livre acesso. De 2008 para cá, o recinto da Feira do Livro foi tornado em ponto de encontro da vagabundagem.
Uma vez lá, eles transformam o ambiente, outrora tranquilo e contemplativo, numa extensão das fossas de que emergiram, infestam a Feira com toda a sua miséria ( e aqui não me refiro à miséria monetária), ignorância e maus modos.
A Feira do Livro de Ribeirão Preto, outrora frequentada por gente de bem e ordeira, hoje é habitat e palco para a mais variada fauna da marginália humana. O que há de pior das gentes, principalmente da desregrada adolescência atual, desemboca na Feira do Livro.
Protegidos pela força e pelo anonimato do bando, do rebanho, eles roubam, fazem uso e comércio de drogas (legais e ilegais), provocam brigas e tumultos, assediam sexualmente, depredam patrimônio público, invadem lojas e supermercados adjacentes onde se servem de seus produtos sem, lógico, pagá-los ao caixa etc. Domingo próximo passado, houve tiroteio com a prisão de mais de dez pessoas, que já devem estar soltas por aí.
Como se não bastasse, o pior vem depois. Sempre ávidos por uma publicidade fácil, vêm os psicólogos, os sociólogos, os pedagogos e os educadores de plantão, todos em defesa da patuleia.
Ouvi uma idiota destas dizer, em um programa de uma emissora da TV local, que a culpa não é deles, que na verdade eles não estão preparados para usufruir daquele espaço. E eu com isto?
É sempre a mesma conversa pra boi dormir : o safado nunca tem culpa, o meio o tornou assim, não o educou, o meio sempre o excluiu, a agressão é a resposta dele a uma sociedade que nunca lhe deu iguais oportunidades (tadinho...) etc etc etc.
O bandido, o escroto, o filho da puta, é sempre inocente na boca dos defensores dos direitos humanos. Aliás, como eu ouvi num dia desses, e achei bem legal a sacada, no Brasil não há direitos humanos, há somente direitos para os "manos". Sendo "mano" uma gíria que designa o safado, o vagabundo, o malandro, o cara que vive de pequenos crimes, o delinquente; em suma, a fina flor da sociedade.
Se o "mano" não está preparado para frequentar determinados ambientes, ele que não os frequente. Digo mais : ele deveria ser impedido de frequentá-los, proibido, barrado, expulso se necessário. Quer dizer, então, que os "mano" não têm educação e quem a tem que se foda? Os "mano" nunca quiseram se educar, e os que se educaram e se instruíram à muita labuta que se danem?
Ora vá à merda, dona psicológa-pedagoga-educadora. Leve um desses coitadinhos para coabitar com a senhora em vossa casa, e não reclame se acordar com o cu ardendo.
A idiota seguiu dizendo que o "mano" (o desprivilegiado cultural, nas palavras dela) compõe a pluralidade cultural de uma sociedade, que o seu jeito de falar, vestir, expressar-se, tem que ser respeitado e, pasmem, valorizado.
A diversidade tem que ser respeitada, concordo. Desde que ela se adeque e responda a um único e, de preferência, inflexível conjunto de leis, a uma constituição severa. Diversidade fora da lei, como é a dos "mano", não tem que ser respeitada porra nenhuma, tem é que ir para a cadeia.
O lugar destes invasores da Feira do Livro não é rodando por entre seus stands, é circulando no pátio de uma cadeia, tomando o banho de sol semanal, sob a mira dos rifles e dos rottweilers.
Eles que se reúnam em bandos, eles que se juntem aos seus, eles que exerçam a sua cultura de "mano" à vontade, que se matem e que se comam. Trancafiados, porém. Como é de costume em qualquer país e/ou sociedade que se diga - ou se pretenda - civilizada.
Por aqui, eles estão soltos, a disseminar o seu mal, a sua epidemia, a sua peste. Com o beneplácito da lei.
sábado, 26 de maio de 2012
Sábados Sem Rock'n'Roll
Angústia,
Nostalgia das brabas,
Sucuri no peito,
Color sépia na memória.
E a velha e inextirpável anemia,
A velha e inexorcizável falta,
A falta triste e calada
Do bom e velho rock'n'roll.
Não É Carnaval, Mas É Madrugada (8)
Um Amor de Carnaval
(Menotti del Picchia)
Arlequim:
Diz, queres-me bem?
Pierrot:
Fala, gostas de mim?
Fala, gostas de mim?
Colombina, hesitante:
Eu amo-te , Pierrot...... Desejo-te, Arlequim...
Eu amo-te , Pierrot...... Desejo-te, Arlequim...
Arlequim, soturnamente:
A vida é singular! Bem ridícula, em suma... Uma só, ama dois... e dois amam só uma!..
A vida é singular! Bem ridícula, em suma... Uma só, ama dois... e dois amam só uma!..
Colombina , sorrindo e tomando ambos pela mão:
Não! Não me compreendeis... Ouvi, atentos, pois meu amor se compõe do amor dos dois... Hesitante, entre vós, o coração balança:
Não! Não me compreendeis... Ouvi, atentos, pois meu amor se compõe do amor dos dois... Hesitante, entre vós, o coração balança:
dizendo a Arlequim:
O teu beijo é tão quente...
O teu beijo é tão quente...
dizendo a Pierrot:
O teu sonho é tão manso...
O teu sonho é tão manso...
Pudesse eu repartir-me e encontrar a minha calma dando a Arlequim meu corpo e a Pierrot a minh’alma!
Quando tenho Arlequim, quero Pierrot tristonho, pois um dá-me o prazer, o outro dá-me o sonho!
Nessa duplicidade o amor todo se encerra: um me fala do céu... outro fala da terra!
Eu amo, porque amar é variar, e em verdade toda a razão do amor está na variedade... Penso que morreria o desejo da gente, se Arlequim e Pierrot fossem um ser somente, porque a história do amor pode escrever-se assim:Quando tenho Arlequim, quero Pierrot tristonho, pois um dá-me o prazer, o outro dá-me o sonho!
Nessa duplicidade o amor todo se encerra: um me fala do céu... outro fala da terra!
Um sonho de Pierrot...
E um beijo de Arlequim!
Pequeno Conto Noturno (26)
Bêbado (nem mais nem menos, o padrão), quatro e meia da madrugada (ou da manhã, depende se a acordar ou ainda acordado), Rubens separa e prepara os apetrechos para passar um café. E dispara para Lorena, sua amiga, na sala, no sofá, sonolenta :
- Sabia que não sai nenhum som da boca?
Rubens tanto podia ter tirado isto de um documentário da TV paga, como de uma aula da 7º série, há 30 anos, como muito bem inventado, nem ele sabia ao certo, e pouco se lhe dava; calado de natureza, quando bêbado, ele tinha que falar, qualquer coisa, hoje se saiu com esta.
- Hãããã...? - boceja Lorena à guisa de resposta.
- É verdade - segue Rubens -, não sai nenhuma palavra, música ou barulho da boca. Saem umas ondas, pequenas marolas, todas enfileiradas e organizadas com seus comprimentos, frequências e amplitudes, e ficam vagando pelo ar, sem nome e sem letras.
- O café tá pronto? - Lorena tenta encurtar a conversa.
O café ao fim da noite já é um clássico. Há anos que eles encerram suas noites pelos bares de rock com um forte cafezão. Eram-lhes prazerosos, no início, o café e o rock, hoje são apenas clássicos; o clássico garante a conclusão de algo em suas vidas inacabadas, garante um sofá e uma quentura confortáveis, até um cafuné, às vezes.
- É o ouvido que adota o som - insiste Rubens, acendendo o fogo e lavando o coador de pano -, dá-lhe registro e paternidade, nervos, músculos, esqueleto e coração, veste-o com sotaques e roupas típicas.
- Sei... - diz Lorena -, quer dizer que se eu gritar, de agonia e solidão, e não houver um ouvido por perto, eu não gritei?
- Gritou. Mas não houve o grito. Seu ectoplasma não tomou forma, não foi fecundado, dispersou-se pelo éter feito um holandês voador.
- Então - Lorena lutando contra o sono -, um grito natimorto, não ouvido, um não-grito, é muito mais agônico e solitário, representa muito melhor o grito?
- Nunca tinha me ocorrido, mas sim, claro que sim, não é à toa que gosto de você - Rubens a medir a água na caneca e pô-la a ferver.
- Feito aquele quadro do Munch?
- Acho que sim - pondera Rubens -, acho que o maior desconforto transmitido pelo quadro vem justamente da ausência de som que emana daquela boca banguela, retorcida e estertórica. Quem olha, o vê se esgoelar em socorro, mas não há o grito para legitimar a ajuda, o grito permanece engasgado nos limites da tela, torturando suas cores, suas linhas, seu pôr do sol.
Rubens abre novo pacote de café, mede duas colheres bem cheias e as deita no fundo do coador.
- Eu sou um quadro do Munch - declara Lorena -, as pessoas passam e veem meu coração em brados de S.O.S, a palpitar em taquicardia, a quase infartar, mas o grito não lhes chega aos ouvidos, o grito permanece engasgado em meus limites, dolorindo meu tórax, minha garganta, meus canais lacrimais.
Rubens, e ele acredita que Lorena não saiba, escuta perfeitamente os gritos do coração dela, como suspeita que ela igualmente escute os seus. A água borbulha e Rubens a verte sobre o pó do café. Perde-se, por momentos, a aspirar o vapor a subir do coador, a escutar o manso gotejar preenchendo a garrafa térmica. Nem se dá pelo silêncio prolongado de Lorena.
Com duas canecas, Rubens sai da cozinha, adentra a sala e encontra Lorena adormecida. Dormira sentada, o corpo pendido para o lado esquerdo, dobrada em "L", a cabeça a recostar no braço do sofá.
Rubens põe as canecas ao chão, tira os sapatos de Lorena, levanta suas pernas e a estende no sofá, cobre-a com um fino lençol, próprio para madrugadas menos calorentas.
Derrama o café de Lorena em sua caneca e se senta em sua sacada, resolvera ver o amanhecer.
O céu preto-café começa a ser corroído pela luz que se avizinha, azul-petróleo, midnight blue, azul marinho, safira, azul da prússia, azul cobalto, cerúleo, azul, azul claro, e um ofuscante e ofensivo céu de brigadeiro.
O dia será mais triste do que ele havia previsto.
Rubens acaba o café e se aconchega a Lorena, no sofá. Os gritos dela estão mais calmos agora, apenas pequenos lamentos, choro de filhote de gato; os de Rubens não, nunca dormem.
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Antônio Abujamra Lê Um Poema Do Azarão No "Provocações"
Em 2003, escrevi um poema intitulado O Criador de Gatos. Não sei por qual via o poema chegou até às mãos de Antônio Abujamra, do programa Provocações, da TV Cultura, que o leu no encerramento de um de seus programas há três meses.
Eu nem fazia ideia disso. Minha esposa foi quem chegou com a notícia; vasculhando o google, ela deu de cara com a sinopse do programa em que foi feita a leitura de meu poema.
Entrei agora no site da TV Cultura e realmente está lá, o Abujamra lendo O Criador de Gatos, com meu nome, inclusive, aparecendo no início, na forma de legendas. Sabendo da qualidade intelectual do apresentador e de seus entrevistados, fiquei lisonjeado, lógico. Assisti ao vídeo e, confesso, decepcionei-me.
Se Abujamra gosta de provocar, conseguiu seu intento comigo.
Ele pulou alguns versos do meu poema e, como se não bastasse, não leu o verso final, o fechamento do raciocínio. Pior que não ter lido o verso final : modificou-o.
Reproduzo abaixo o poema em sua íntegra e, ao final dele, o link para o vídeo do Abujamra lendo o Azarão. Puta que o pariu!!
Coloquei em negrito os trechos não lidos e/ou modificados pelo apresentador.
O Criador de Gatos
Envenenem-se, crianças,
Envenenem-se, crianças,
Crias desse tempo sem calmaria nem bonança.
Envenenem-se, crianças,
Ainda no sonhar, logo ao despertar,
Antes do café da manhã, envenenem-se.
No ponto de ônibus,
Antes do “bom dia” seco do professor, envenenem-se.
Vistam-se de lodo e degeneração :
Camuflem-se ao mundo em que lhes jogaram.
Mas, fundamentalmente, envenenem-se.
Amaluquem-se de peçonha,
De refrigerante com monóxido, de água de esquistossomose,
De cistos de desesperança.
Envenenem-se, crianças.
Envenenem-se de filhos remelentos e hidrocéfalos,
Reproduzam sua miséria, sua histeria.
Infectem-se com seus gametas de Hiroshima.
Envenenem-se, crianças,
De multinacionais, de multimídias, de mutilações.
Envenenem suas narinas, veias e alvéolos
Que o mundo não vale uma virtude sequer.
Envenenem-se de amores falsificados,
Firam-se usando o amor.
Já que o ódio é por demais inócuo
E tão pouco criativo.
Criaturas mal-nascidas, envenenem-se
De insônia, de tímpanos sangrando, de sedativos.
Inoculem-se de desconfiança e perfídia.
Envenenem-se, crianças,
Que o mundo não lhes concederá
Única suave contradança.
Eu, de minha parte, continuarei aqui :
A criar meus gatos.
Para assistir ao vídeo, é só clicar aqui, no meu cada vez mais poderoso MARRETÃO.
terça-feira, 22 de maio de 2012
O Que Só O Dr. House Comeu
Lisa Edelstein, a dra. Cuddy da telessérie House M.D., resolveu posar nua, fazer o que hoje em dia é chamado de ensaio sensual, ou seja, exibir a bunda tão exaltada em prosa e verso pelo dr. Gregory House.
Lisa Edelstein disse que posou nua por uma boa causa, chamar a atenção das pessoas à necessidade de que se convertam ao vegetarianismo, como forma de diminuir os maus-tratos aos animais e de "desintoxicar" o ecossistema.
Besteiras à parte, duvido que as fotos dela induzam alguém ao vegetarianismo. Antes pelo contrário, depois de vê-la, é imediata a vontade de comer uma boa chuleta, malpassada, sangrando.
Suas fotos são parte da nova campanha do PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), um grupo de direitos animais metidos a salvar o planeta, tão chato e hipócrita como tantas outras ONGs por aí.
Ela nem precisava do subterfúgio de uma boa causa para mostrar a bunda. Mostrar uma bunda desta, já é uma boa causa per si.
Mas admito que faz algum sentido a aliança da dra. Cuddy com a PETA. Belas costumam domar as feras, haja vista o mal-humorado, sarcástico, glacial e filho da puta dr. House.Ao tocar as nádegas da dr. Cuddy pela primeira vez, um enternecido House, repleto da sensibilidade e do lirismo que lhe são peculiares, declarou : "uma pequena apalpada para um homem, um grande traseiro para a humanidade".
Concordo! E dá-lhe bengala.
É A Podridão, Meu Velho (2)
Nunca tive o projeto de envelhecer. Morreria novo, um belo defunto a ser velado, uma figura de cera sobre a lousa fria, aquela coisa meio Álvares Azevedo, mal de século, tédio e spleen; não passaria, pelas minhas contas, dos trinta e poucos.
Como todas as previsões que já ousei fazer, essa também falhou, avancei pela quarta década, há um bom tempo.
Fiquei velho sem pretender, sem perceber, até.
Uma vez nessa condição, tento ver o lado bom da situação, que é o que a todo velho resta fazer, ver o lado bom da decripitude, o meno male, uma vez que ele não tem mais forças físicas para consertar, evitar ou contornar o lado ruim.
Meno male, mais velho, ficaria mais sábio. Previsão (ilusão) errada, de novo. Não tem nada de mais velho, mais sábio : só tem mesmo de mais velho, mais velho. Simples assim.
A maior tranquilidade do velho, a maior tolerância para com as vicissitudes da vida, para com os estorvos e entraves, para com as pessoas que lhe desagradam, não vêm da sabedoria adquirida pela contemplação e profunda reflexão ao longo de seus longos anos.
A aparente serenidade do velho, repito, vem da falta de força física para dar porrada no que lhe contraria. Não tem nada de sábio nisso.
Nem defunto jovem nem velho sábio.
Meno male, eu envelheceria com, digamos assim, certa dignidade física, fraco, porém digno. Sempre apresentei uma saúde acima da média dos de minha idade; meno male, não me tornaria uma fármacia ambulante, com um porrilhão de comprimidos multiformes e multicores, um-para-dormir-outro-para-acordar, um-para-abrir-o-apetite-outro-para-controlar-o-peso, um-para-a-hipertensão-outro-para-a-hipo, um-para-cagar-outro-a-estancar-a-diarreia.
Eu seria um velhinho que enfraqueceria saudavelmente.
Seria. Porque nem disso posso mais me assegurar. De uns tempos para cá, tenho tomado mais remédios do que tomei, talvez, durante minha vida toda. Se não mais que na minha vida toda, pelo menos que nas últimas três décadas.
E nem são doenças graves, nada de mais. Aquela pancada levada no dedão, no joelho, que inchava, ficava roxa, e sumia em dois ou três dias, agora recorre ao anti-inflamatório; aquela infecçãozinha na garganta, curada com gargarejos de água, sal e vinagre, agora faz conchavos com poderosos antibióticos.
Venho numa fase crônica de sintomas de velhice. Pode ser só uma fase, uma visualização rápida da senilidade, como aviso para que melhor eu me cuide. Os mais religiosos diriam que é deus a mostrar minha finitude, como forma de que eu me torne mais humilde e me ajoelhe a seus pés.
Duvido que seja um castigo divino pela minha suposta arrogância, nenhum deus perderia seu tempo comigo. Eles sabem que não acredito neles, que não creditaria nenhum revés com ares de ensinamento aos seus poderes celestiais. Nenhum maníaco psicopata realiza seus planos se não levar os créditos por eles, é o que o move, ser reconhecido; com os deuses também é assim, por isso, minha atual maré de azar não é conspiração dos deuses.
Bem que pode ser mau-olhado, olho gordo ou quebranto, sofro muito com o tal do quebranto.
Seja o que for, o problema nem é o joelho doendo, a garganta ou gengiva inflamadas, o problema é não poder tomar a boa e velha cerveja. Cinco dias de anti-inflamatório, mais sete de antibiótico, e nada da cervejinha nossa de cada dia.
Resta invocar um placebo, tomar cerveja sem álcool, ir ao mercado, comprar, pôr pra gelar, deitá-la à caneca, realizar todo o ritual, repetir todo o gestual, preencher todo o tempo e ocasião ocupados pela verdadeira.
Cerveja sem álcool é igual a namoro de eunuco com mulher frígida, mas é um namoro. Meno male, cerveja sem álcool não dá prazer algum, mas podemos tomá-la a qualquer hora, não satisfaz, mas é permitida, meno male.
Tentando, certo dia desses, incrementar minha cervejinha que passarinho bebe, lembrei, sabe-se lá o porquê, coisas desses delírios que a sobriedade causa, do dia de St. Patrick, santo padroeiro da Irlanda. Nesse dia, os descendentes dos leprechauns (o saci lá deles) transmutam em verde toda e qualquer cor ao seu redor. Tudo fica verde. Desde o vestuário até, lógico, a cerveja.
Então, também me lembrei que, guardado em algum armário da cozinha, jazia um frasco de anilina azul, desses corantes alimentícios. Pinguei três ou quatro gotas de intenso azul no fundo do meu canecão de vidro, despejei a cerveja, e presto! Um belo e vistoso canecão de cerveja azul.
São Patrício é o caralho. Na casa do Azarão, é o dia de São Smurf, que também são pequenos leprechauns. Daqui pra frente, só cerveja azul, a blue beer, a triste cerveja.
Talvez seja isso que a mim caiba, uma velhice sóbria e cerveja azul.
A propósito do azul, e aproveitando que falei de medicamentos, existe um tal comprimidinho azul que dizem fazer milagres. Ao contrário dos anti-inflamatórios, antibióticos, antiácidos, anti-histamínicos, antietc, não preciso me valer dele. Ainda.
Mas pelo trotar do coche...
Como todas as previsões que já ousei fazer, essa também falhou, avancei pela quarta década, há um bom tempo.
Fiquei velho sem pretender, sem perceber, até.
Uma vez nessa condição, tento ver o lado bom da situação, que é o que a todo velho resta fazer, ver o lado bom da decripitude, o meno male, uma vez que ele não tem mais forças físicas para consertar, evitar ou contornar o lado ruim.
Meno male, mais velho, ficaria mais sábio. Previsão (ilusão) errada, de novo. Não tem nada de mais velho, mais sábio : só tem mesmo de mais velho, mais velho. Simples assim.
A maior tranquilidade do velho, a maior tolerância para com as vicissitudes da vida, para com os estorvos e entraves, para com as pessoas que lhe desagradam, não vêm da sabedoria adquirida pela contemplação e profunda reflexão ao longo de seus longos anos.
A aparente serenidade do velho, repito, vem da falta de força física para dar porrada no que lhe contraria. Não tem nada de sábio nisso.
Nem defunto jovem nem velho sábio.
Meno male, eu envelheceria com, digamos assim, certa dignidade física, fraco, porém digno. Sempre apresentei uma saúde acima da média dos de minha idade; meno male, não me tornaria uma fármacia ambulante, com um porrilhão de comprimidos multiformes e multicores, um-para-dormir-outro-para-acordar, um-para-abrir-o-apetite-outro-para-controlar-o-peso, um-para-a-hipertensão-outro-para-a-hipo, um-para-cagar-outro-a-estancar-a-diarreia.
Eu seria um velhinho que enfraqueceria saudavelmente.
Seria. Porque nem disso posso mais me assegurar. De uns tempos para cá, tenho tomado mais remédios do que tomei, talvez, durante minha vida toda. Se não mais que na minha vida toda, pelo menos que nas últimas três décadas.
E nem são doenças graves, nada de mais. Aquela pancada levada no dedão, no joelho, que inchava, ficava roxa, e sumia em dois ou três dias, agora recorre ao anti-inflamatório; aquela infecçãozinha na garganta, curada com gargarejos de água, sal e vinagre, agora faz conchavos com poderosos antibióticos.
Venho numa fase crônica de sintomas de velhice. Pode ser só uma fase, uma visualização rápida da senilidade, como aviso para que melhor eu me cuide. Os mais religiosos diriam que é deus a mostrar minha finitude, como forma de que eu me torne mais humilde e me ajoelhe a seus pés.
Duvido que seja um castigo divino pela minha suposta arrogância, nenhum deus perderia seu tempo comigo. Eles sabem que não acredito neles, que não creditaria nenhum revés com ares de ensinamento aos seus poderes celestiais. Nenhum maníaco psicopata realiza seus planos se não levar os créditos por eles, é o que o move, ser reconhecido; com os deuses também é assim, por isso, minha atual maré de azar não é conspiração dos deuses.
Bem que pode ser mau-olhado, olho gordo ou quebranto, sofro muito com o tal do quebranto.
Seja o que for, o problema nem é o joelho doendo, a garganta ou gengiva inflamadas, o problema é não poder tomar a boa e velha cerveja. Cinco dias de anti-inflamatório, mais sete de antibiótico, e nada da cervejinha nossa de cada dia.
Resta invocar um placebo, tomar cerveja sem álcool, ir ao mercado, comprar, pôr pra gelar, deitá-la à caneca, realizar todo o ritual, repetir todo o gestual, preencher todo o tempo e ocasião ocupados pela verdadeira.
Cerveja sem álcool é igual a namoro de eunuco com mulher frígida, mas é um namoro. Meno male, cerveja sem álcool não dá prazer algum, mas podemos tomá-la a qualquer hora, não satisfaz, mas é permitida, meno male.
Tentando, certo dia desses, incrementar minha cervejinha que passarinho bebe, lembrei, sabe-se lá o porquê, coisas desses delírios que a sobriedade causa, do dia de St. Patrick, santo padroeiro da Irlanda. Nesse dia, os descendentes dos leprechauns (o saci lá deles) transmutam em verde toda e qualquer cor ao seu redor. Tudo fica verde. Desde o vestuário até, lógico, a cerveja.
Então, também me lembrei que, guardado em algum armário da cozinha, jazia um frasco de anilina azul, desses corantes alimentícios. Pinguei três ou quatro gotas de intenso azul no fundo do meu canecão de vidro, despejei a cerveja, e presto! Um belo e vistoso canecão de cerveja azul.
São Patrício é o caralho. Na casa do Azarão, é o dia de São Smurf, que também são pequenos leprechauns. Daqui pra frente, só cerveja azul, a blue beer, a triste cerveja.
Talvez seja isso que a mim caiba, uma velhice sóbria e cerveja azul.
A propósito do azul, e aproveitando que falei de medicamentos, existe um tal comprimidinho azul que dizem fazer milagres. Ao contrário dos anti-inflamatórios, antibióticos, antiácidos, anti-histamínicos, antietc, não preciso me valer dele. Ainda.
Mas pelo trotar do coche...
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Que Fossa, Hein, Meu Chapa, Que Fossa...(8)
Nunca
(Lupicínio Rodrigues)
Nunca!
Nem que o mundo caia sobre mim,
Nem se Deus mandar,
Nem mesmo assim,
As pazes contigo eu farei.
Nunca!
Quando a gente perde a ilusão
Deve sepultar o coração
Como eu sepultei.
Saudade,
Diga a esse moço, por favor,
Como foi sincero o meu amor,
Quanto eu te adorei
Tempos atrás.
Saudade,
Não se esqueça também de dizer
Que é você quem me faz adormecer
Pra que eu viva em paz.
Nem que o mundo caia sobre mim,
Nem se Deus mandar,
Nem mesmo assim,
As pazes contigo eu farei.
Nunca!
Quando a gente perde a ilusão
Deve sepultar o coração
Como eu sepultei.
Saudade,
Diga a esse moço, por favor,
Como foi sincero o meu amor,
Quanto eu te adorei
Tempos atrás.
Saudade,
Não se esqueça também de dizer
Que é você quem me faz adormecer
Pra que eu viva em paz.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Lágrimas De Crocodilma
Disseram-me que Dilma Rousseff chorou durante a solenidade de posse dos integrantes da Comissão da Verdade, que foi criada para investigar as violações aos direitos humanos no período de 1946 a 1988. O período inclui o governo militar (1964-1985), alvo principal de Dilma Roussef. A instauração da Comissão da Verdade diz ter o objetivo de resgatar a verdade e dar uma satisfação às famílias dos mortos e desaparecidos durante o governo militar.
É bom que se frise um detalhe a respeito dessa dita Comissão da Verdade : ela vai investigar apenas os crimes cometidos pelos militares durante o governo militar, só os crimes de suposta autoria dos militares.
Que tal investigar também os crimes cometidos por civis durante o governo militar? Pelos grupos de guerrilheiros, compostos de sequestradores e assaltantes de bancos, de um dos quais, inclusive, nossa presidente fazia parte? Que tal também começar a investigar a verdade sobre os mortos e desaparecidos por obra dessas guerrilhas? Que tal investigar também os crimes de subversão dessas quadrilhas de civis, crimes esses que desencadearam os crimes cometidos pelos militares em sua oposição? Que tal, só para variar, começar a investigar a causa e não os efeitos?
Sim, porque os abusos cometidos pelos militares durante seu período governista foram o efeito - a reação - às ações criminosas de civis, como Dilma e seus companheiros de luta armada.
Fica bem claro o cárater revanchista dessa Comissão da Verdade. E não só revanchista : a Comissão da Verdade quer, na verdade, solidificar em fato inconteste, de uma vez por todas, um falso registro histórico, ou, pelo menos, uma falsa e tendenciosa interpretação dele, a de que Dilma e seus companheiros foram obrigados a pegar em armas para combater uma ditadura desumana em prol da democracia.
Foi bem o oposto, a tomada militar do poder é que veio em reação à turma da Dilma, que nada queria com a democracia, mas sim instalar por aqui a chamada ditadura do proletariado, transformar o Brasil numa grande Cuba.
A Comissão da Verdade vai colocar Dilma, juntamente com seus cupinchas, na posição de heróis, de benfeitores da nação. Vai gerar também mais uma infinidade de indenizações às famílias dos "perseguidos" pelos militares, mais e mais Bolsas-Ditadura serão distribuídas.
Sim, existem as Bolsas-Ditaduras. Os cartunistas Ziraldo e Jaguar, o escritor Carlos Heitor Cony, o ex-presidente Lula, o atual presidente do PT Rui Falcão etc etc, recebem polpudos salários por terem "combatido a ditadura". O valor já gasto com essas bolsas-ditadura ultrapassa os 4 bilhões de reais, tudo na conta do trabalhador.
Só para citar um louvável contraexemplo, Millôr Fernandes, também do Pasquim, foi igualmente perseguido pelo governo militar, mas não entrou com pedido de indenização, ele fez o que fez porque acreditava, sabia das consequências, não ficou se fazendo de vítima, de coitadinho. Millôr Fernandes, diferentemente de seus contemporâneos, tinha vergonha na cara, muita vergonha na cara, disse que a luta pela ditadura não era uma poupança. Perfeito, o Millor.
E por que esses sujeitos têm de ser ressarcidos por terem sido perseguidos por um governo ao qual se opunham, o qual queriam desestabilizar?
Ora, vão à merda. Um bando de caras de pau é o que são. Vítimas é o caralho.
Quando o sujeito se dispõe a lutar contra um governo - seja essa luta justa ou não -, ele assume o risco de se dar mal, de tomar no cu. O opositor a um governo é sempre o lado mais fraco da guerra, e ele sabe disso; de livre vontade, ele entra na briga ciente disso.
Acontece o previsto, ele se dana, se ferra, toma lá uns merecidos catiripapos. Logo em seguida, ele vem querer passar por injustiçado, por vítima.
Esses sujeitos não têm a hombridade de assumir a surra que levaram, a honradez de aceitar a derrota e sumir com os respectivos rabinhos entre as pernas. É possível encontrar maior integridade e decência em bandos de babuínos.
Se a luta armada tivesse sido vitoriosa, ela teria produzido montanhas de cádaveres, como vários regimes comunistas fizeram em outros países; como perderam, foram bater à porta do Estado com pires e chapéu na mão. Grandissíssimos filhos da putas, isso sim.
Quem luta verdadeiramente por um ideal, luta tão-somente por esse ideal, não para ser recompensado financeiramente.
Por que esses mercenários ideológicos têm o desplante de achar que os contribuintes brasileiros lhes devem parte de seus impostos na forma de altos salários indenizatórios? Agradecê-los e recompensá-los pelo quê?
Pela restauração da democracia? Por ajudar na ascensão de um regime de governo em que imperam a permissividade, a falta de ordem, as leis favoráveis ao bandido e o assistencialismo ao vagabundo às custas do trabalhador? Eles querem agradecimento e paga por, supostamente, terem lutado por isso?
Disseram-me que Dilma Rousseff chorou durante seu pronunciamento acerca da Comissão da Verdade, chorou pela lembrança de seus companheiros mortos e desaparecidos, as vitimazinhas indefesas dos militares.
Acho que ela chorou foi de saudades daquele tempo, tempo em que planejava sequestros, assaltos a bancos, ações armadas em geral; saudades do tempo em que ela e seus companheiros tinham o sonho de se tornarem grandes ditadores, como Fidel e Mao; sonho interrompido pelo governo militar, felizmente. Por isso, a mágoa, a revanche, a Comissão da Verdade.
Disseram-me que Dilma Rousseff chorou pelas vítimas dos militares, lágrimas de crocodilma.
Resta saber (perguntar, ao menos) quem irá chorar pelas vítimas das quadrilhas de criminosos formadas por Dilma e seus companheiros à época do governo militar.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Alquimia Capenga
Suposto ouro,
Não houve alquimia, cabala,
Pajelança, brujeria,
Que fizessem as previsões precipitarem.
Só o chumbo,
Desde o nascimento,
A embaçar, a enfear,
A bordar todo o decorrer
Até o esquife de meu passamento.
Ficou-me a carranca das gárgulas,
Das proas dos barcos do rio São Francisco,
A carranca do bicho,
De que gosto,
Que me sustenta,
Que é o que me salva.
(Mas quando, de manhã, semibêbado, vejo o roxo das quaresmeiras e das ipomeas, minha carranca descansa e meu chumbo se acobreia, um pouco. Só um pouco.)
segunda-feira, 14 de maio de 2012
O Triste Talento Do Camaleão
Não quero que meu filho - hoje, sem saber da vida, apenas a sentindo, vivendo-a - faça uma universidade.
Corrijo e melhoro : não quero que meu filho TENHA que fazer uma universidade, que seja OBRIGADO a, que PRECISE, por falta de talentos outros, cursar uma universidade.
A universidade é o caminho digno e honesto a uma vida minimamente tranquila e confortável; para os que nascem sem talento criativo algum, porém. Nesse caso, não quero que meu filho saia ao pai.
A pessoa passa quatro, cinco, seis anos em uma universidade, imersa em quantidade gigantesca de conhecimento (digo das boas universidades), conhecimentos, porém, produzidos por outras pessoas, nenhuma linha partiu de sua pena.
Atolada nesse poço de piche acadêmico, a pessoa vai sendo impregnada da obra e pensamento de outrem, a ponto de acreditar que são seus, ou que para eles contribuiram.
A pessoa entra rota e malvestida numa universidade, e sai dela - se for uma boa universidade - trajada correta e elegantemente, mas a roupa era do defunto.
Aos sem talento, resta o triste talento do camaleão, o de adsorver as luzes e as cores de outros e sair a mimetizá-las por aí, para outros camaleõezinhos, cores cada vez mais diluídas e baças.
Não quero que meu filho seja apenas portador de um diploma universitário - seja em que área for - que ateste sua habilidade de copista, de mimético, de mera escriba.
Não obstante, muito me agradaria vê-lo se graduar numa boa universidade, desde que ela tenha sido uma opção entre várias, uma escolha muito bem ponderada e abalizada dentre outras alternativas. Não o único caminho possível e restante.
Não quero que ele herde de mim o triste talento do camaleão, não quero que ele perca as cores quando faltarem as tintas do ambiente que o circunda, não quero que ele fique sem palavras quando, por algum lapso ou distração, esquecer das palavras ditas por outros, quero que ele - ao contrário do pai - seja capaz de gerar suas próprias fosforescências, cunhar seu próprio léxico.
Quero que ele seja algo mais que um reles réptil ilusionista, mais que eu.
O diploma universitário não pode ser seu único gládio frente ao mundo, não pode ser o exclusivo depositário de seu vigor, sua Espada Jedi, seu solitário instrumento de guerra e fé; como foi, é e, provavelmente, sempre será para o pai : minha cansada e tremeluzente Espada Jedi, cada vez mais fosca, cada vez mais propensa ao lado negro da Força.
sábado, 12 de maio de 2012
Uma Elegia À Cláudia Ohana (4)
Uma história pra contar
De um mundo tão distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade
De ficar mais um instante"
De um mundo tão distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade
De ficar mais um instante"
A Arrogância Do Humilde
Sei que não contribuo para com o bem-estar geral do ambiente quando, no meio de alguma conversa, digo que sou ateu, e que não preciso de nenhum deus ou religião.
A prova de que realmente não preciso é que vivo tão bem ou tão mal quanto qualquer outro que diz precisar. Não que eu não precise também de coisas invisíveis e inexistentes, não sou tão diferente dos outros assim. Preciso de uma bilionária conta na Suiça, preciso de um poder de voo, superforça, invulnerabilidade e olhos de raios-X, preciso - muito - comer a Angelina Jolie. Só não preciso de deus.
Nessas ocasiões, invariavelmente, sou aconselhado a não brincar com essas coisas (não as digo brincando), a aceitar a existência de deus, a admitir que não sou perfeito e autossuficiente, e, principalmente, recomendam que eu seja mais humilde. Humildade é a palavra preferida dos crentes e tementes a deus.
Alertam que a minha arrogância pode trazer desagradáveis consequências, o bondoso deus pode se enfurecer e lançar sua extensa e requintada gama de castigos contra mim, até mesmo contra meus entes queridos.
De onde concluo, sem grandes raciocínios iniciais, que o humilde não é humilde, ele é burro e cagão : acredita em algo que não existe e se borra de medo dele.
Mas o humilde não é apenas parvo e covarde, ele também é safado e um puta dum arrogante. Sim, o humilde é que é o arrogante dessa estória toda.
Antes de tudo, declarar-se falho e imperfeito não é sinal de humildade, é simplesmente uma constatação dos fatos; depois, confundir a obviedade de ser imperfeito com humildade, e estabelecer que essa humildade é uma virtude, é arrumar uma boa desculpa para continuar a ser um inútil, uma bela duma muleta para não mover uma palha no sentido corrigir essas falhas, seja pelo estudo e/ou pelo trabalho; por fim, o declarado humilde espera, do fundo de seu coração cristão, que sua humildade, sua submissão a deus, renda-lhe dividendos, dizendo-se humilde e dobrando a porra de seus joelhos, ele espera granjear a simpatia do todo-poderoso, e conseguir uns favorezinhos.
A humildade, a subserviência, é uma das moedas de troca do religioso com o seu criador, ele presta vassalagem e conta com conseguir tudo de mão beijada de seu deus, sem grandes esforços, ao não ser o de se ajoelhar.
Então, o humilde é um grande dum safado, um tremendo de um 171. Ele quer é estabelecer um toma lá dá cá com deus. Pior : ele quer aplicar um conto do vigário em deus, aquele do bilhete premiado, sua obediência em troca de um milagre.
Sim, um golpe em deus. Afinal, de que merda serve, para deus, as humildade e servidão humanas, a ponto de valerem seus favores celestiais? De que uso seria, ao todo-poderoso, a submissão de seres infinitamente inferiores?
Se existisse um deus desse, ele seria tão superior a nós quanto nós somos a uma formiga, ou a uma bactéria, talvez até mais superior que isso. De que nos interessaria uma colônia de bactérias rezando em nossa intenção, ou um formigueiro cantando louvores em uníssono ao nosso nome? O que faríamos com isso? Porra nenhuma. Bombardeamos bactérias com antibióticos, crianças mijam em formigueiros.
Mais : aquele crente que vai sempre à sua igreja, com seu paletózinho de brechó, com sua bibliazinha em baixo de braço (o famoso desodorante de crente), todo educado, simplório, cumprimentando e chamando a todos de irmãos, não tem nada de humilde. Ele tem é de soberba e de presunção.
O sujeito é um entre os mais de 7 bilhões de humanos do planeta Terra, que por sua vez é um planetinha entre os sextilhões de planetinhas e planetões do universo (100 bilhões dos quais muito semelhantes à Terra), por que ele acha que o criador e gerenciador de tudo isso vai se importar com suas cantilenas lamuriosas, vai ter tempo, ou paciência, ou interesse, de ouvir suas rezas mal-intencionadas?
A resposta é fácil : esse cara se considera o mais especial dos seres da criação, o escolhido entre os escolhidos. Deus está lá, numa nebulosa, fazendo o parto de estrelas, ou girando o dedo a criar os redemoinhos gravitacionais dos buracos negros para dar um funeral decente a velhas galáxias, de repente, ele escuta o choramingar de um crente. Pronto, deus para tudo o que está fazendo e sai em assistência ao sujeito, deixa de trocar as fraldas de um solzinho recém-nascido para ir ouvir as lamúrias do humilde.
Puta que o pariu. O cara considera que merece a especial e exclusiva atenção de deus, e eu é que sou o arrogante?
Nós, ateus, somos os verdadeiros humildes. Sabemos que não há um deus a nos velar e valer; e se houvesse uma entidade que merecesse esse nome, deus, ela não ficaria à nossa disposição.
Não precisamos mesmo de religiões e deuses imaginários, somos suficientemente humildes para saber que somos nosso próprio deus.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
TIRÉSIAS
Continuarás a me ver passando,
Transitando por entre as gentes.
Continuarás a ver meus passos,
Meus gestos,
Minhas migalhas e meus trapos de sombra
Que deixo feito ração aos ácaros do caminho,
Às pessoas com as quais sou obrigado a conviver.
Continuarás a me ver de costas,
Litoral pedregoso e hostil ao seu desembarque,
E minhas costas sem sorriso
Já são oferta generosa demais para ti.
Continuarás a ver, de mim,
O que todo mundo vê
- apenas o que todo mundo vê -,
Saberás, de mim,
O que todo mundo acha saber
- apenas o que todo mundo supõe em lenda.
Meus olhos são o que nunca mais verás.
Nunca mais saberás dos meus olhos :
Atraiçoaste-os.
domingo, 6 de maio de 2012
De Bolinhos De Chuva E Estricnina (Ou : O Dia Em Que Dona Benta Encontra Lucrécia Bórgia)
Volta e meia, formigas desfilam em sinuosas filas indianas pela casa, pelos azulejos, pelo teto, pelo assoalho, daquelas bem miudinhas, quase invisíveis a olhos míopes ou acima dos 40 anos.
Sou péssimo em lidar com pequenos transtornos domésticos, torneiras pingando, resistência queimada de chuveiro, tomadas que não funcionam, cordas de varais que arrebentam, montar, desmontar, parafusar ou desparafusar qualquer coisa.
Mas de matar formigas, eu gosto. Tenho sempre um veneno granulado de reserva, o qual disponho em obstáculos cor-de-rosa ao longo da rota delas, cuidadosa e estrategicamente. Elas passam e vão erodindo as pequenas montanhas, vão levando os grãos para o formigueiro.
Não sei que porra de reação acontece lá dentro, só sei que no dia seguinte, dois dias depois no máximo, formigas mortas forram o chão à entrada do formigueiro, geralmente ao rodapé ou ao pé dos batentes.
Tenho posto o tal veneno há alguns dias, e nada de formigas mortas, elas continuam carregando o granulado para o formigueiro, prosseguem com suas procissões noturnas pelo assoalho entre a cozinha e a sala.
Concluí, pretenso darwiniano que sou, que essas superformigas são as descendentes das primeiras formigas resistentes expostas ao veneno, crias da seleção pelo uso do mesmo veneno durante gerações e mais gerações delas, e blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá.
Contudo, pretenso Houseano que também sou, depois de tomar umas e outras, deu-me um estalo, um lampejo, uma centelha de recusa ao acadêmico e a busca da resposta num patamar mais prosaico e mundano. Ocorreu-me olhar a data de validade do veneno : expirada há três meses.
Quando os alimentos - nossas fontes de matéria-prima, nutrientes e energia, em suma, da manutenção da vida - ultrapassam seus prazos de validade, eles estragam, passam a ser pasto de bactérias e fungos que os decompõem, que secretam toxinas sobre eles, algumas bem perigosas, até mesmo letais.
É curioso que o veneno se torne inofensivo uma vez vencido seu prazo de validade. Veneno "estragado" não deveria ser ainda mais mortal? Veneno "podre" deveria exterminar em dobro. Mas não, fica inócuo.
De onde se vê que cada coisa não tem apenas a sua serventia, também se vê que cada coisa só bem consegue desempenhar seu talento por um ínterim, só consegue ser boa no que é boa, no que nasceu talhada para, durante breve hiato de tempo. Devemos reconhecer esse intervalo funcional das coisas, e recorrer aos seus favores apenas nesse intermédio.
Findas as funcionalidades, Dona Benta põe estricnina na sopa, e Lucrécia Bórgia faz bolinhos de chuva para os netos e as visitas.
Ignorar a disponibilidade das coisas, julgá-las perenes e sempre acessíveis, desrespeitar seus tempos, é correr sérios riscos. Ou de se envenenar, ou de não envenenar o inimigo.
Deixemos que se aposentem, os alimentos e os venenos vencidos, que tenham o merecido descanso, que decomponham em paz.
As relações e os sentimentos humanos não são diferentes.
O superestimado amor - que os idiotas dos poetas chamam de a ambrosia da alma, a cornucópia da existência, a força que move cordilheiras - realmente nutre o sujeito durante um certo tempo, o faz se sentir poderoso, faz o pau bater no umbigo, duas, três, quatro vezes por dia, mas também tem seu prazo de validade.
Logo vai perder a cor, o aroma, o frescor, a consistência, a substancialidade, a graça; logo vira um jogo de concessões, de ajustes, de pequenas rivalidades, desaguando, muitas vezes, nos ressentimento e rancor mútuos. Continuar se servindo dele, é correr o risco de se envenenar.
O mesmo vale para as amizades mais estreitas e profundas; uma vez fragmentadas, guardarão em si, para todo o sempre, a salmonela e o botulismo. Não se sirvam de amores e amizades apodrecidas. Antes, tornem-se faquires emocionais.
O ódio - o veneno do espirito, pelas mesmas bocas idiotas e poéticas -, em contracorrente, costuma arrefecer com o tempo. É comum velhos inimigos, que não se mataram no auge de sua rixa, estabelecerem frias relações de civilidade com o passar do tempo, tornarem-se quase cordiais.
Sem força física para manterem as posturas hostis, ou com a memória fraca demais para se lembrarem do motivo de sua rivalidade, alguns chegam a se tornar companheiros de copo, parceiros de baralho nas praças, e a frequentar os mesmos grupos de ginástica para a terceira idade - neste último caso, a morte teria lhes sido mais piedosa e digna. Creditam a antiga querela à imaturidade, e seguem viúvos de juventude, inócuos, venenos que não matam.
Também têm o direito à aposentadoria por invalidez, o amor e o ódio; forçá-los além de seus tempos, é correr o risco de nos envenenar, ou de deixar vivo nosso inimigo.
Deixemos que se recolham em seus pijamas e chinelões, o amor e o ódio, que tenham o merecido descanso, que decomponham em paz.
E sigamos, sem eles, sem mais o quê, sem vistas ao nosso descanso, lutando contra as formigas; cada vez menores, as formigas, cada vez mais felizes seguindo a procissão, a fazer pouco caso dos últimos gigantes que ainda caminham sobre a Terra, a passos trôpegos, como os de quem foi envenenado.
E você, meu amigo, já pode chorar.
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