quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A Hora Da Ferrugem

Ponho-me a andar
E meus tendões rangem
- Banjos em cacos, 
Lamentos tangem -,
Minhas articulações e parafusos
(outrora de ciborgue, do homem de seis milhões de dólares)
Ganem faíscas,
Sou isca do que fui.

Ponho-me a pensar
E o torpor impera
Reinicio, reinicio, reinicio a máquina
(cafeína, pornografia e álcool)
Mas o sistema emperra.

Meto-me a meter,
A trepar
E é aí que tudo se enterra.
É a decripitude, é a podridão, meu velho.

Não bastasse, vem o gaiato e canta :
"É a vida, é bonita, é bonita e é bonita".
Que idiota, esse Gonzaguinha. 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Que Fossa, Hein, Meu Chapa, Que Fossa...(14)

Esta canção, Depois, gravada por Marisa Monte em seu mais recente CD, engana à primeira vista, ou, no caso, à primeira audição, e mesmo em distraídas e descuidadas audições posteriores. Nem parece música de fossa, de dor de cotovelo, e se sim, aparenta uma fossa mais leve, uma dor de amor mais comportada, menos profunda, quase que simplesmente um relato musicado de um rompimento em comum acordo, um fim de caso consensual, mais à guisa de um registro que de um lamento, aquela dor civilizada e racional dos que, desgraçadamente, nunca enlouquecem. Aparentemente.
Aparentemente porque : primeiro, não existe rompimento amoroso de comum acordo, no famoso pé-na-bunda, sempre existe um pé e uma bunda; segundo, em toda canção de fim de caso - em toda boa canção de fim de caso -, independente de qualquer aceitação racional ou conformidade aparente, há um punhal escondido, encravado no peito, no peito resignado ou não.
Exemplifico com o que conheço de melhor : Trocando em Miúdos, do velho e inigualável Chico Buarque.
O cara vai se despedindo à medida do bom fim, fazendo a divisão pacífica dos espólios do casal (o disco do Pixinguinha é meu), garante à ex que não cobrará pelo peito dilacerado, e até rima uma ajuda do futuro amor no aluguel com o Neruda que ela lhe tomou e nunca leu, façanha que só pode ser do Chico. Mas aí, quando menos se espera, vem o punhal de amor ferido : eu bato o portão sem fazer alarde, eu levo a carteira de identidade, uma saideira, muita saudade, e a leve impressão de que já vou tarde.
Puta que o pariu!!! É "a leve impressão de que já vou tarde" que põe a casa abaixo, que arrebenta com a máscara civilizada do autocontrole, que arrepia até os pelos do cu. É a raiva/vergonha/constatação da inutilidade/da perda de tempo/identidade do sujeito, que ainda muito queria, mas que, há tempos, não era mais querido. Nem é um punhal, é uma cimitarra a trespassar o pobre e proletário miocárdio.
No caso de Depois, composição da própria Marisa mais Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes, o punhal sorrateiro já se anuncia no título da canção. Ela vai cantando como o fim será bom pros dois, de como voltarão a ser livres etc, e encerra com o punhal : Quero que você seja feliz, Hei de ser feliz também, Depois.
De novo o punhal na forma de um advérbio, depois. Depois quando, porra? Qual o prazo previsto para um depois? Por quanto tempo se aguenta esperar por um depois? Por quantos canalhas a pessoa passará na ânsia de ultrapassar a barreira desse depois, ou quantas vezes agirá, ela própria, com o mesmo intuito, também como um canalha?
O depois - vago, indefinido e, sobretudo, incerto - é o que mata, o que perfura, rasga e eviscera. Ainda mais se o (a) ex já se encontrar feliz em outro advérbio, no agora. Aí é que fodeu. Aí é que a fossa nada tem leve ou rasa, tem é de abissal, e nos imprime todo o peso do mundo.

Depois
(Marisa Monte/Carlinhos Brown/Arnaldo Antunes)
Depois de sonhar tantos anos,
De fazer tantos planos
De um futuro pra nós
Depois de tantos desenganos,
Nós nos abandonamos como tantos casais
Quero que você seja feliz
Hei de ser feliz também


Depois de varar madrugada
Esperando por nada
De arrastar-me no chão
Em vão
Tu viraste-me as costas
Não me deu as respostas
Que eu preciso escutar
Quero que você seja melhor
Hei de ser melhor também


Nós dois
Já tivemos momentos
Mas passou nosso tempo
Não podemos negar
Foi bom
Nós fizemos histórias
Pra ficar na memória
E nos acompanhar
Quero que você viva sem mim
Eu vou conseguir também


Depois de aceitarmos os fatos
Vou trocar seus retratos pelos de um outro alguém
Meu bem
Vamos ter liberdade
Para amar à vontade
Sem trair mais ninguém
Quero que você seja feliz
Hei de ser feliz também
Depois

domingo, 9 de dezembro de 2012

Oscar Niemeyer In The Sky With Diamonds

Oscar Niemeyer, ateu das antigas, morreu e foi pro Céu (o absurdo já começa aí, mas vai melhorar muito ainda). Chegou ao paraíso empunhando a bandeira comunista da foice e do martelo e nem quis saber de deus, foi logo perguntando de seu colega Luís Carlos Prestes, outro comunista e ateu.
Porém, Niemeyer nem imaginava o que lhe aguardava. Foi recepcionado por um coral de anjos que, convocados de emergência pela santíssima trindade e muito bem ensaiados e afinados, executaram a Internacional (célebre hino comunista) à sua chegada. Sopranos, tenores e baixos, com seus mil instrumentos, entoaram louvores ao arquiteto. Pintores, poetas, abraçando os escritores numa festa sem igual.
E deus, mui feliz, disse : entre aqui, Niemeyer, no céu você tem lugar.
O pequeno relato acima, digno de uma viagem de LSD, é a versão do pastor luterano Mozart Noronha sobre a chegada de Niemeyer ao céu.
Mozart Noronha foi um dos quatro sacerdotes que celebraram o culto ecumênico em homenagem ao arquiteto, no último 7 de dezembro, no cemitério São João Batista, Rio de Janeiro. Além dele, dois padres e um rabino compuham o desrespeitoso e canalha quarteto. Desrespeitoso, sim. O sujeito era ateu declarado. Morre e logo vem a urubuzada de plantão, os mercadores de alma, cada um querendo atribuir a seu deus um quinhão da genialidade genuinamente humana e racional de Niemeyer. Porque é disso que esses pulhas gostam, atribuir a genialidade alheia aos seus deuses; melhor,  que o próprio sujeito diga que sua inspiração vem do todo-poderoso, que seu talento é um dom divino, e que, principalmente, agradeça de joelhos e encha os cofres das igrejas. 
Ainda mais num país feito o Brasil, onde impera a cultura do coitadinho, onde a maioria só "progride" às custas de assistencialismo barato, onde receber esmolas e rezar tomou, há tempos, o lugar do trabalho, do esforço, do estudo, enfim, do aperfeiçoamento pessoal. Num país em que a palavra meritocracia é palavrão, incomoda muito a existência de um gênio ateu.
Ninguém aqui nesses tristes trópicos associa uma capacidade acima da média ao estudo, à perseverança, e ao DNA. Talento no Brasil? Só pode ser sorte, ou por deus. Já dizia Tom Jobim, no Brasil, sucesso é ofensa pessoal.
Oscar Niemeyer é o contraexemplo perfeito disso. Ele é uma das evidências mais concretas do nível de excelência que um ser humano pode atingir quando, justamente, se livra de deus e misticismos congêneres. Ele é uma das evidências mais gritantes do quanto o cérebro humano, livre de lendas e mitos castradores, pode se desenvolver.
O padre Jorge Luis Neve da Silva, o Jorjão, outro integrante do quarteto canalha, seguindo bem essa linha da preguiça nacional, declarou : "Niemeyer devia ter “alguma fé” por ser um “homem iluminado”. É uma filhadaputice só. E continua :  "Niemeyer não podia ser um homem sem fé, por ter construído tantas casas de deus", referindo-se talvez às igrejas e catedrais projetadas pelo arquiteto. Neimeyer não projetava igrejas, ele projetava prédios, a utilização dada a esses prédios não era problema dele, nem de seu interesse, ele projetava,  pouco lhe importava a merda que se ia fazer com aquilo.
Fosse deus a dar tantas luzes a Niemeyer, o senhor, padre Jorjão, puxa-saco e lambe-bolas do todo-poderoso, deveria ser um gênio ainda muito maior, o que, pelas declarações dadas, já vimos que não confere. E o que dizer, então, dos seus paroquianos, todos recitadores de ladainhas e tementes a deus? Fosse deus a dar tantas luzes a Neimeyer, o senhor não seria um padre a comandar uma igreja, o senhor seria o reitor de Harvard, Oxford etc.
Neimeyer era ateu, seus padres, pastores e rabinos canalhas! Ateu! É difícil entender isso? Queriam prestar uma homenagem a ele? Ficassem em suas igrejas, ficassem quietos, calassem as putas de suas bocas. 
E para encerrar com chave de ouro a sua participação no funeral, o pastor luterano (e muito louco) Mozart Noronha recitou um poema de sua autoria, o poema que narra a chegada de Neimeyer ao céu. Ei-lo, seguido da foto do pastor:
 Numa tarde de verão,
Dia cinco de dezembro
Do ano dois mil e doze,
Vi a Santíssima Trindade
Reunida de emergência,
Ordenando aos seus apóstolos
Receberem Niemeyer
O incansável guerreiro
Que do Rio de Janeiro
Partiu para a eternidade
Deus estava mui feliz
O espírito nem se fala!
E na comunhão do além
Recomendaram que os anjos
Organizassem um coral
Em homenagem ao arquiteto
Cantando a Internacional.

Logo os músicos reunidos,
Sopranos, baixos e tenores,
Com todos os seus instrumentos
Entoaram uns mil louvores
Externando os sentimentos.

Mil pintores e poetas,
Abraçando os escritores
Numa festa sem igual.
Niemeyer vestia azul,
Com a bandeira vermelha
Segurada à mão esquerda,
Bem como a foice-martelo.
Indagou por Carlos Prestes
E todos os seus companheiros.

Deus que sempre sentiu dores
De um povo pobre e oprimido
Disse: entre aqui, Niemeyer.
No céu você tem lugar.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Eu Não Dou Bom-Dia

As pessoas acordam
Desejando ainda a caverna do urso,
O casulo do bicho da seda,
A hibernação
(poucos são os corpos que se satisfazem com o que lhes é concedido pelo despertador).
Levantam-se
Ansiando ainda pelo reumatismo dos grandes rochedos,
Pela poliomielite dos fósseis,
Pelas prostração
(poucas são as almas que se dispõem a caminhadas, cansaços e suores já pela manhã).
Então, vão:
Às filas das padarias,
Aos cafés fracos e amargos
(repelente ineficaz do sono, da ressaca, do efeito residual do Rivotril),
À vida, por falta do que mais fazer.
Então, vãos :
Ganham as ruas
Em direção a mais um dia perdido 
E ainda sorriem, e ainda dão bom-dia.
De onde vem a força para darem bom-dia?
Eu não dou bom-dia!,
Não só por falta de educação,
Cortesia ou civilidade.
Faltam-me essa estranha força
E um mínimo de nexo e porquê para fazê-lo. 

Não Me Fale Do Seu Medo, Eu Conheço Inteira A Sua Fantasia

Estrelas
(Oswaldo Montenegro)
Pela marca que nos deixa
A ausência de som que emana das estrelas
Pela falta que nos faz
A nossa própria luz a nos orientar
Doido corpo que se move
É a solidão nos bares que a gente frequenta
Pela mágica do dia
Que independeria da gente pensar
Não me fale do seu medo
Eu conheço inteira sua fantasia
E é como se fosse pouca
E a tua alegria não fosse bastar
Quando eu não estiver por perto
Canta aquela música que a gente ria
É tudo que eu cantaria
E quando eu for embora, você cantará

Bacalhau Defumado

Como bem diz um amigo meu, o que seriam dos espertos se não fossem os crentes? É verdade. Para cada espertalhão nascido há multidões de idiotas prontinhas a serem enganadas, aguardando ansiosamente para serem engrupidas. E a vantagem probabilística para o pilantra, de uns tempos para cá, tem aumentado a olhos vistos e arregalados; devem existir, no mínimo, um milhão de manés à disposição de cada malandro.
A religiosidade, a espiritualidade, a preocupação com o transcendente, sempre foram um nicho de mercado dos mais lucrativos para o safardana, para o171. Tal segmento se manifesta sob as mais variadas vertentes, e a picaretagem travestida de filosofia indiana talvez seja um de seus ramos mais rentáveis, essas porras de ioga, mantra, gnose, tantrismo e o caralho a quatro.
É um filão tão vantajoso que seus líderes andam a se especializar, a investir em inovações, o mercado está superaquecido, e os consumidores, ávidos e exigentes. Fazem-se necessários requintes progressivamente maiores de impostura e caradurismo.
Um exemplo disso é o que acontece na pequena e pacata Joanópolis, município paulista localizado nos contrafortes da Serra da Mantiqueira.
Em um aprazível e bucólico sítio, Dúnia La Luna, 36 anos, dançarina e terapeuta corporal, promove um evento que ela chama de um workshop "Íntimo e Pessoal", cuja proposta é "aprofundar o prazer e a sexualidade cultivando a feminilidade sagrada".
A ideia é ensinar a mulherada a conhecer e ter controle pleno da vagina, o que, segundo a terapeuta, transformaria qualquer mulher em uma deusa sensual e poderosa : "toda mulher pode se tornar uma sacerdotisa do amor se valorizar o seu corpo e a si mesma e redescobrir o poder de sua vagina", garante La Luna.
É o workshop da vagina! Que, vertido para o bom português, bem poderia ser chamado de A Oficina da Buceta.
O curso inclui vários tópicos; as preliminares, digamos assim, consistem de um teste para aferir a força do assoalho pélvico (?), um questionário sobre conhecimento que cada uma tem de seu corpo e uma aula teórica-expositiva das anatomias externa e interna da vagina.
Em seguida, uma bandeja é colocada frente às aspirantes a deusas da perseguida, uma bandeja onde estão as "pérolas do prazer", acondicionadas em conchas fechadas. As alunas vão abrindo as conchas e as surpresas vão se sucedendo. Da primeira concha, sai um cone para fortalecimento do períneo; das segunda e terceira, respectivamente, bolinhas de pompoar e um vibrador, destinados aos exercícios de pompoarismo. La Luna orienta : contrair, sustentar, pulsar, sugar, expulsar, contrair, sustentar, pulsar, sugar, expulsar, contrair, sustentar, pulsar, sugar, expulsar, contrair, sustentar, pulsar, sugar, expulsar. E a mulherada toda lá, com o vibrador na buça e as bolinhas no toba.
Não vou negar que a vagina, assim como todo e qualquer outro órgão, precisa ser exercitada para que dela se extraia um bom desempenho. Só que exercício para a xavasca se faz é com um bom pinto, uma rola, um vergalhão daqueles. Exercício para a xavasca é dar, dar muito, pôr pra jambrar, botar a beiçuda para bater palmas.
Mas o melhor ainda está por vir. Para o grand finale, folhas de alecrim, guaçatonga, pétalas de rosa e lavanda são postas em uma bacia de cerâmica e, em seguida, queimadas. Aí, as mulheres, sem calcinhas, posicionam-se sobre a bandeja, cobrem-na com suas saias longas e largas e se agacham para receber a sagrada fumaça  das ervas em suas vaginas.
É o incensamento da vagina. Além de purificar e perfumar, afirma La Luna, o incenso teria propriedades fungicidas. Ou seja, limpa, aromatiza e ainda dá um tapa na candidíase. É a defumação do bacalhau.
O proveitoso dia é encerrado com banho na cachoeira e introdução aos movimentos e massagens inspirados na dançaterapia(?). E tudo isso pela bagatela de R$ 330,00. Puta que o pariu!!!  Sacerdotisas do amor é o cacete! Essa mulherada está precisando é de uma boa pirocada, de uma bela de uma surra de pinto, isso sim.
Acham que estou inventando? Segue, abaixo, foto do ritual da defumação do bacalhau.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Brainstorm, A Tempestade De Merda

Mais uma da série "Eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz", ou, "o que a ciência constata hoje, o Azarão sempre soube".
Eu, por várias vezes e em repetidas postagens, sempre desci a marreta no tal do coletivo. Eu desprezo, tenho verdadeira aversão a qualquer atividade coletiva, à manada, ao rebanho, ao bando.
Nada de bom emerge do bando, o bando nada produz, só prolifera sua ignorância, só reproduz sua miséria, e como se reproduzem, os do bando.
Ninguém que faça algo que preste, o faz em bando. A criação é ocupação solitária, a genialidade é atividade ímpar e de isolamento. Alguém pode imaginar Camões a escrever os Lusíadas a quatro ou mais mãos? Ou o Saramago, ou Augusto dos Anjos, ou Ariano Suassuna? Van Gogh preparando um quadro e deixando o acabamento e arte-final a cargo de outro pintor? Ou Rubens, ou Caravaggio? Beethoven compondo em parceria suas sinfonias? Newton pondo a cabeça de outro para levar a maçãzada em lugar da sua?
A excelência é um bem pessoal e intransferível, incompartilhável com a turba. O bando só sabe se refestelar na própria merda, e só assim se sente feliz.
E não é que um artigo, publicado na revista Superinteressante desse mês, revela exatamente o que eu acabei de dizer, e que sempre soube? A matéria "Reuniões, Como Elas Matam as Boas Ideias" mostra os resultados de pesquisas realizadas em vários locais do mundo, por fundações e universidades, sobre a eficiência das reuniões empresariais na busca de soluções e de novas ideias - ou, no caso, da ineficiência dessas reuniões, desses encontros do bando. 
Os estudos desmascaram o estilo considerado como o mais moderno de se fazer uma reunião : o famoso e cultuado brainstorm, em que todos os presentes podem opiniar sobre todos os assuntos, com ou sem conhecimento de causa. O brainstorm, segundo seu idealizador, é a maneira mais democrática de se realizar uma reunião. E é aí que o cara já começa cagando, quem disse que um ambiente democrático é forja de boas ideias? Não é. Muito pelo contrário. Basta ver a qualidade da produção musical durante o governo militar (1964-1985) e a de agora. 
O objetivo de seu criador, Alex Osborn, era criar um ambiente descontraído que gerasse muitas ideias, que em meio a uma tempestade de ideias idiotas surgissem, vez em quando, ideias geniais. O problema é que uma idiotice dita com propriedade pode se acatada como genial, e o que mais há por aí são idiotas eloquentes.
Reproduzo, a seguir, alguns trechos da matéria:
"A mesma pesquisa, realizada pela Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado, constatou que 70% das reuniões não chegam a lugar nenhum, e uma empresa média, de 100 funcionários, desperdiça R$ 500 mil anuais com o tempo perdido nelas"
"É que um estudo publicado neste ano aponta que as pessoas são mais inteligentes, e tomam melhores decisões, quando estão sozinhas. Psicólogos da Universidade de Haifa, Israel, apresentaram uma bateria de perguntas e problemas para que voluntários resolvessem. Metade dos voluntários trabalhava sozinha. A outra metade se reunia em grupo. Resultado? Os solitários sempre foram melhor que os grupos. Acertaram mais respostas e propuseram soluções mais pertinentes."
"Não há dúvida de que o pensamento solitário é mais produtivo", afirma Ashier Koriat, autor da pesquisa"
Outro problema, segundo a pesquisa, é que, nos brainstorms, os tímidos são colocados para escanteio pelos mais extrovertidos, que, via de regra, pensam menos para falar, isso quando pensam. A pesquisa constatou ainda outra obviedade, que os tímidos são mais inteligentes e criativos.
Há um consenso equivocado sobre o que é ser tímido, comumente visto como aquele cara que gostaria muito de se relacionar com as pessoas, mas não consegue, tem algum bloqueio, alguma dificuldade de. Nada mais falso que esse senso comum. O tímido não é incapaz de se relacionar com o bando : ele não quer, ele não suporta a nociva interação. Só tal aversão ao rebanho já denota uma inteligência superior, que é mais ainda desenvolvida pelo isolamento de que ele tanto gosta, preza e necessita.
O artigo nada fala sobre, mas o que dizer, então, das abjetas dinâmicas de grupo? É um circo sem sentido, um palco para a humilhação pública do indivíduo, o cara é aplaudido pelo bando por fazer papel de idiota. Orgulho-me em dizer que nunca participei de uma dessas dinâmicas, sem nenhum pudor, sempre saí do recinto à simples menção de suas realizações.
O que me entristece é que foram gastos anos e anos de pesquisa, e uns tantos milhões de dólares, para verificar o evidente. 
Tamanho trabalho poderia ter sido grandemente abreviado caso os pesquisadores tivessem : a) perguntado ao Azarão, ou, melhor, b) assistido a uma única, a uma uniquinha reunião pedagógica, dessas tão comuns nas escolas de ensinos fundamental e médio.

Às Moscas

O cara,
Com cara blasé
Com semblante spleen,
Fisionomia de desdém bem ensaiada
- com cara de cu, enfim -,
Ocupa o palco presente.
Sobem ao púlpito do sarau,
Suas roupas de dândi bem talhadas,
Seu cabelo sem fio fora de lugar
Seu tablet de última geração
- o novo poeta é um sujeito antenado ao seu tempo -,
E verbaliza sua poesia em pixels
Para o público ouvinte.
As palmas irrompem!,
Que é da natureza das moscas
Esfregarem as mãos de satisfação
Frente a um belo monte de merda.

Mas aí
Outro cara, o velho poeta,
Com cara de jornal de ontem amassado,
Com semblante azedo de balcão sujo de bar,
Fisionomia calejada pela sarjeta,
Toma sua vez ao palco.
Sobem à tribuna do sarau,
Sua camisa de gola e punhos puídos,
Sua juba em grisalha desordem,
Sua barba sem geometria,
Sua folha de caderno amarelada,
Ou de papel pardo de pão,
E vocifera sua poesia em garranchos azuis de caneta Bic
Para o público ouvinte.
De novo, as palmas irrompem!,
Em igual intensidade
E pelo mesmo motivo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Ateus De Boutique

A Associação Polaca de Racionalistas encabeça a primeira campanha publicitária ateísta da Polônia, país natal de João Paulo II e com população de 90% de católicos autodeclarados. Um dos outdoors da campanha, espalhados por diversos logradouros públicos da cidade, diz : "Não matar", "Não roubar", Não Acreditar".
 Achou bem bolado, caro ateu? Uma sacada de mestre? Uma merda, pois sim.
Que forças ou motivações levam alguém, ou, no caso, uma associação, a alugar um espaço publicitário e tentar impor a sua descrença à paisagem e ao passeio público, a tentar talhar na pedra um antimandamento, "Não Acreditar"?
A resposta é simples, e patética, e triste. São as mesmas forças e motivações que impulsionaram os inquisidores da Idade Média a queimarem os supostos hereges, os jesuítas a ajudarem no extermínio de nativos na América do Sul, os padres e pastores a adquirirem concessões de canais televisivos, as testemunhas de Jeová a baterem à sua porta, sempre aos domingos e na hora do almoço, para tentar vender seu deus em forma de revistinha, ou seja, as mesmas forças e motivações de sempre : intransigência, intolerância e a presunção de considerar a si e a seus pares como os detentores da verdade, como se a verdade, ainda que existisse e fosse única, pudesse ter um guardião, um depositário.
Eu, ateu das antigas, estou pegando cada vez mais nojo dessa corja de neoateus, crias involuídas de Richard Dawkins. Mais que ateus, intitulam-se racionalistas, mas se utilizam das mesmas táticas e agem com a mesma pequenez de pensamento daqueles a quem acusam de tacanhos, os crentes em algum deus.
Se alguma igreja alugasse os outdoors e colocasse, sei lá, passagens da bíblia, versículos, salmos etc, seria acusada pelos neoateus de violar a laicidade do Estado, encaminhariam, com certeza, um pedido judicial para a retirada da propaganda. Partindo da mesma lógica, que os racionalistas dizem ter, eles também estão violando a isenção do Estado em relação a temas religiosos, visto que Estado laico não é Estado ateu.
Porém, não se deixem enganar por esses meninos. São falsos ateus, ateus de boutique, ateus midiáticos, ateus que querem aparecer a todo custo (nada é mais antiateu que a notoriedade), ateus que adoram se banhar na luz dos holofotes. E evitem, corram com todas pernas, fujam das pessoas, sejam ateias ou não, que se enamoram dos holofotes, elas perdem toda a racionalidade e senso do ridículo, são insetos cretinos a bater suas ocas cabeças contra um ilusório sol, ícaros sem nenhuma poesia.
São falsos ateus, repito. São religiosos sem deus, e essas associações ditas ateias são igrejas sem ícones. Os neoateus são até piores que os fanáticos religiosos. Estes últimos, por mais chatos que sejam (e eles o são), lá na cabeça torta deles, acreditam mesmo que, ao tentar converter alguém, estariam levando um conforto a essa pessoa. Acreditar em deus, em uma entidade a lhe velar e valer, é basicamente isso, presentear-se com um autoconforto.
Já esses militantes neoateus querem levar a descrença, o desconforto às pessoas. E isso é inadimissível. Ser descrente de uma força externa que lhe acuda não é nada confortável, saber que está por sua conta nesse universo praticamente infinito não é sensação das melhores, é uma sensação de liberdade, é verdade, mas quem disse que a liberdade plena não assusta, não causa pânico? Tentar impor um conforto, ainda que ilusório, é passável; tentar impor uma descrença, ainda que provavelmente real, é inaceitável.
Jacek Tabisz, presidente da Associação Polaca de Racionalistas, justifica a campanha dizendo que é muito difícil ser ateu em um país católico. Por quê? Que tipo de perseguição um ateu pode sofrer, hoje em dia, em um país europeu, por mais católico que ele seja?
O Brasil é um país de maioria católica até hoje; e era ainda mais católico quando de meu nascimento e de minha infância. Já estudei em colégio de padres, que me sabiam ateu, e nunca sofri nenhum tipo de coerção por isso, não que eu tenha percebido, pelo menos; porque o verdadeiro ateu é assim, se não liga nem pra deus, vai dar pelota para o que pensa um suposto representante dele? É bem verdade que o padre diretor, volta e meia, dava-me umas alfinetadas, mas e daí?
Em minha condição de ateu, senti-me muito menos reprimido pelos padres que, em minha condição de canhoto, pelas minhas professoras primárias. Fui obrigado, até a terceira série do antigo grupo, a preencher cadernos e mais cadernos de caligrafia usando a mão direita. Tivesse eu essa mania de perseguição dos neoateus, teria feito o quê? Pleiteado um estatuto especial para os canhotos? Promovido passeatas para protestar contra a ausência de produtos direcionados aos canhotos, desde abridores de lata, passando pelas tesouras e chegando às carteiras escolares?
Se você é uma exceção, se você tem um comportamento que não é o padrão, você tem que se virar, você tem que dar seus pulos, o mundo não tem culpa de você ser uma exceção, e nem é obrigado a gostar de você. É isso que esses ateuzinhos de merda parecem não entender : assuma que você foge à regra e arque com as consequências, ou se esconda. Só não me venha com choramingos.
Fosse em uma nação islâmica, eu calaria a boca, que nesses países a coisa pro lado dos ateus é pesada de fato. Fosse em uma nação islâmica, esses neoateus teriam coragem de se agregar em associações e espalhar outdoors pelas ruas? Duvido. Fazem isso em lugares onde essa liberdade lhes é assegurada por lei, e justamente para dizerem que não essa liberdade, que são perseguidos. É ou não é vontade de aparecer?
Jacek Tabisz segue em sua chorosa ladainha e diz que as mensagens dos outdoors têm o objetivo de diminuir a sensação de isolamento dos ateus e - pasmem - informar à sociedade que uma parcela dela é descrente. Sensação de isolamento? O neoateu quer se sentir parte do quê? Dos planos do cosmos? Dos planos de deus? E por que a sociedade tem que saber que há descrentes em seu cerne? Não tem. Não há importância alguma nisso.
Vá trabalhar, Jacek Tabisk, vá fundar uma nova religião,vá dar a bunda, mas não fique se dizendo um ateu.
São bebês mimados e chorões, são muito viadinhos, esses neoateus.
Para quem quiser ler artigos sérios de verdadeiros ateus, fica aqui a dica do Marreta, acessem o site Ateus.net

sábado, 1 de dezembro de 2012

Uma Elegia À Cláudia Ohana (10)

"Vem, por favor não evites
Meu amor, meus convites
Minha dor, meus apelos
Vou te envolver nos cabelos
Vem perder-te em meus braços
Pelo amor de Deus"

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Fuleco, A Mascote Da Copa De 2014

Sala dos professores e a sua mais aguardada hora, a hora do lanche. À mesa, pão francês com presunto e muçarela, banana, melancia, mamão - são dias de SARESP, dias de visitantes, a merenda fica mais caprichada - e a indefectível Coca Zero, a mitigar a culpa e o remorso dessa classe de tão grandes apetites e formas corporais.
No rótulo preto do refrigerante, a figura de Fuleco, o tatu-bola que simbolizará a Copa do Mundo de Futebol de 2014, a ser realizada no Brasil. O mascote da Copa é nosso, dizia o rótulo. E aí, o assunto começou a girar em torno do bicho, uns a dizer que gostaram da escolha do tatu-bola como mascote, mas que não aprovavam o nome; outros a dizer que acharam o nome bonitinho, porém, gostariam de outro animal em lugar do tatu, o mico-leão, a ararinha-azul etc.
O mascote Fuleco pra cá, o mascote Fuleco pra lá, até que uma colega, professora de português, deu o alarme : não existe "o" mascote porra nenhuma. Mascote é um substantivo unicamente feminino, sobrecomum, não admite contrastes de gêneros. É feito a criança, a pessoa, o cônjuge, a testemunha. É "a" mascote.
Fiquei curioso de como a imprensa em geral estaria se referindo ao já célebre desdentado, dei uma rápida passeada pela net e encontrei :
"Fuleco" é escolhido como nome do mascote da Copa 2014 (esportes.terra.com.br);
Amijubi, Fuleco ou Zuzeco? Escolha o nome do mascote da Copa de 2014 (globoesporte.com.br)
"Fuleco" é eleito o nome do mascote oficial da Copa do Mundo de 2014 (esporteig.com.br); 
Fuleco é o nome oficial escolhido para o mascote da Copa do Mundo da FIFA 2014 (brasil.gov.br); 
O mascote da Copa do Mundo de 2014 já tem nome. (jornal do brasil); entre outros tantos veículos de renome. 
Dos que eu, rapidamente, pesquisei, apenas a Folha de São Paulo, o Estadão e a revista Veja acertaram no uso do sobrecomum. O cara que se mete a ser jornalista não tem que conhecer minimamente a língua? E os revisores desses jornais?
Mas o usual desrespeito às regras gramaticais pelos veículos de comunicação não foi a única coisa que eu constatei em minha pesquisa. O pior ainda está por vir.
O nome "Fuleco", segundo seus idealizadores, é a fusão das palavras "futebol" e "ecologia". Fuleco foi escolhido, via uma eleição que durou três meses, por 1,7 milhões de brasileiros, número que correspondeu a 48% dos votos. Em segundo lugar, com 31% dos votos, ficou o nome "Zuzeco" (combinação entre "azul" e "ecologia"), e na lanterna, contabilizando os 21% dos votos restantes, "Amijubi" (combinação entre "amizade" e "júbilo").
Puta que o pariu!!! Brasileiro tem essa mania, misturar nomes para registrar e batizar as suas crias. Pais combinam seus nomes e registram seus filhos com a mistura maldita; à guisa de homenagem, nomes dos avós também são vasta matéria-prima para a fértil imaginação do brasileiro. Eu, por exemplo, quando cursava a sétima série do ginasial, estudei com um Crisônio, a avó materna era Cristina e o avô paterno, Antônio.
Essas junções, geralmente, só dão merda. Imaginem, então, fundir duas merdas, futebol e ecologia? Deu "Fuleco", deu mais que merda. Deu cu.
Sim, deu cu. Outra coisa que descobri é que o vocábulo "fuleco", independente de ser produto da abominável fusão citada, existe de verdade na rica e poética linguagem coloquial do brasileiro, e é sinônimo de ânus, o famoso cu, botão, fiofó, furico, roscofe, arruela, rosca, redondo, toba, bufante, brioco, jiló etc. O nome da mascote da Copa do Mundo no Brasil é cu! É só aqui. É mesmo o país da piada pronta.
Nem precisava ter feito votação. É pública e notória a predileção do brasileiro por um bom fulequinho. 
O mais grave de tudo, entretanto, não é o desconhecimento do sobrecomum nem o fato de Fuleco ser cu, isso tudo é besteira, e só vem a incrementar o anedotário popular, o imperdoável são os incontáveis milhões de reais gastos - e mais ainda desviados - em um evento inútil e perfeitamente dispensável; obrigatoriamente dispensável, eu até diria, vistas as necessidades muito mais preementes do país. Milhões e milhões de reais verdadeiramente enfiados no fuleco.
Por essas e por muitas outras, vou torcer para que a seleção brasileira de futebol se foda na próxima Copa, vou torcer para que tome no fuleco, literalmente.

Não É Carnaval, Mas É Madrugada (10)

Bandeira Branca, composta em 1970, é talvez o último dos clássicos dos velhos carnavais das marchinhas; depois de 1970, desgraçadamente, predominaram (e predominam até hoje) os nefandos sambas-enredos.
Bandeira Branca é de autoria de Laércio Alves e Max Nunes. Max Nunes, hoje com 90 anos de idade - nasceu junto com a Semana de Arte Moderna -, é o redator, diretor, produtor, e sei lá mais o quê, do Programa do Jô. E isso desde a época do Viva o Gordo, na década de 80, ou seja, desde quase sempre.
Max Nunes é o Jô Soares; melhor, Jô Soares é uma fração de Max Nunes, é um Max Nunes mais gordo, o Jô é um dos heterônimos de Max Nunes, uma de suas subpersonalidades, o Jô é o que o Max Nunes faz nas horas vagas.
Na letra, um Pierrot rende-se à força da dor da saudade; trêmulo, tremula a bandeira branca e pede paz, pede a volta da amada. É carnaval, porra. Não é hora para melindres e orgulhos feridos. Vergonhoso, no carnaval, é o cara passar as quatro noites na seca, no jejum. Bacalhau se come é no carnaval, e não depois da quaresma, na merda da sexta-feira santa. 
Aí, o sujeito perdoa tudo, sacanagens, cornagens, crocodilagens, tudo, o cara quer é rosetar, quer é despetalar a camélia que caiu do galho.
O que muita camélia incauta não sabe, nem sequer desconfia, é que, a hastear cada, aparentemente, submissa bandeira branca, há um mastro rijo, uma benga em riste prestes a lhe comer o rabo; a bandeira branca é a minhoca na ponta do anzol, ou, no caso, a minhoca na ponta do minhocuçu.
No carnaval, a tudo se perdoa e tudo é perdoável. Abandone as reservas, agite sua bandeira branca, sem vergonha e sem culpa. Ainda não é carnaval? Mas já é madrugada : valem as mesmas regras, bandeira branca, amor.
Bandeira Branca
(Max Nunes/Laércio Alves)
Bandeira branca, amor
Não posso mais
Pela saudade
Que me invade
Eu peço paz 


Bandeira branca, amor
Não posso mais
Pela saudade
Que me invade
Eu peço paz
 

Saudade mal de amor, de amor
Saudade dor que dói demais
Vem meu amor
Bandeira branca
Eu peço paz

Bandeira branca, amor

Não posso mais
Pela saudade
Que me invade
Eu peço paz

Bandeira branca, amor

Não posso mais
Pela saudade
Que me invade
Eu peço paz
 

Saudade mal de amor, de amor
Saudade dor que dói demais
Vem meu amor
Bandeira branca
Eu peço paz

Pela saudade

Que me invade
Eu peço paz

Saudade mal de amor, de amor

Saudade dor que dói demais
Vem meu amor
Bandeira branca
Eu peço paz

Bandeira branca, amor

Não posso mais
Pela saudade
Que me invade
Eu peço paz

Bandeira branca, amor

Não posso mais
Pela saudade
Que me invade
Eu peço paz

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

No Espaço, A Solidão É Tão Normal

Viu os asteroides vindo em sua direção
E os cometas
E os feixes de fótons
E os de raios cósmicos
E os de raios gama.
Sabia que não conseguiria atravessar a nado
- e nem a tempo -
O vasto éter sideral.

Fechou os olhos
(Não elevou seu pensamento a coisa nenhuma
Nem a ninguém
A nenhum deus, a nenhum grande amor
A nenhuma saudade, a nada.
Apenas ao nada)
E fez o que tinha de fazer:
Nadou.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O Ilustrador (parte final)

Fui direto da casa da Bernadete pra boate onde trabalho das dez da noite às seis da manhã, ainda tinha um tempinho, mas resolvi ir direto, fiquei lá no meu balcão olhando pro granito dele, gosto dessa pedra, ela é feita de um monte de pedaços que vão se juntando em desenhos bem legais, queria saber desenhar um granito, nunca nem tentei, sei que não daria. 
Aí chegou a Bárbara do outro lado do meu balcão, a Bárbara é cliente de todos os dias que essa bodega abre, deliciosa, debruçou com os braços apoiados no balcão e eles escorregaram no granito, trazendo os peitos da Bárbara pra mais perto da minha cara, os braços escorregaram no suor de tanta dança que ela tinha dançado, molhou o balcão com seu suor e encharcou o ar com seus feromônios, feromônio é uma puta duma palavra difícil, dessas que sempre me dão dor de cabeça, só que eu aprendi o que era num documentário e agora uso sempre que dá, os peitos gigantes da Bárbara gritavam de dentro da sua pouca roupa, urravam através do decote, os peitos da Bárbara estão sempre gritando, mas parece que só eu é que ouço. 
A Bárbara pediu seu coquetel de sempre e perguntou se eu andava desenhando muito, a Bárbara gosta de conversar comigo, sempre conversa quando vem pegar bebida, acho que nem é pela minha conversa, pela minha beleza é que não, ela só deve achar divertido conversar comigo, poder dizer pros outros que conhece o barman, essas coisas. 
O único desenho que tinha era um que fiz da Bárbara nua, imaginando como a Bárbara seria nua, caras como eu nunca comem mulheres como a Bárbara, e achei que ficou bem legal, bem parecido com ela, pensei em não mostrar por causa da vergonha que eu iria sentir quando a Bárbara se reconhecesse, só que a Bárbara iria achar que eu não sou ilustrador porra nenhuma se dissesse que não tinha nenhum desenho, e isso eu sou, sou um ilustrador, e dos bons, puxei a folha dobrada debaixo do balcão e dei pra Bárbara, a Bárbara olhou e foi pior do que eu pensava, a Bárbara perguntou quem era essa coitada do desenho, toda feiosa e desconjuntada, respondi que não era ninguém, era só um desenho de treino de imaginação, a Bárbara riu com todos os seus 32 dentes e disse que eu tinha que praticar muito a minha imaginação, mas muito mesmo, me jogou um beijo no ar e saiu de volta pra pista de dança, fui atender a um outro cliente e reparei que eu tava de pau duro, agora o desgraçado fica duro, pensei de ir pra casa da Bernadete quando terminasse o serviço, só que é melhor que não, o mais certo é que eu encontrasse a Bernadete já sentada no pau de outro garotão e que ela dissesse que era um pau muito mais duro do que o meu quando me visse chegando. 
Senti uma coisa ruim, teria sido capaz de pular o balcão e mutilar a Bárbara, de pegar uma faca daquelas de desossar lá atrás na cozinha e cortar os peitos da Bárbara fora, os dois, de fazer que parassem de gritar, de levar eles comigo, de empalhar e exibir eles numa placa de madeira, que nem aquelas cabeças de bicho que a gente vê em casa de caçador nos filmes, mas não havia o que eu pudesse fazer, só que fiz foi atender o outro cliente e mais outro, mais outro e terminar a minha noite, e fui embora. 
Agora tô aqui nesse meu quarto, nessa minha vaga alugada de pensão e desenhando, desenhando os peitos da Bárbara, só os peitos, sem a Bárbara, e ficaram bem bons no desenho, bons mesmo, pra mim parecem tão apetitosos quanto os da Bárbara, toco uma punheta olhando pros peitos da Bárbara que eu desenhei e vou me deitar pra ver se pego no sono. Sinto uma coisa ruim, mas não há nada que eu possa fazer.

sábado, 24 de novembro de 2012

O Ilustrador (parte 3)

Devia ter percebido que minha carreira de ilustrador não fosse talvez tão promissora quando tava fazendo um curso de desenho da anatomia humana e, sem conseguir grandes resultados, ouvi do professor que aquele curso era que nem a escola normal, a escola normal ensina pra gente as letras, alfabetiza a gente, mas daí a ser um escritor é só com a gente, eu gostava desse professor até esse dia, e que o curso de desenho também é assim, ensina as técnicas pra gente, mas ser um bom ilustrador é nosso encargo, outra palavra que nunca tinha ouvido, achei o professor um filho da puta nessa hora, mas achei que ele tinha razão. 
Senti uma coisa ruim, teria sido capaz de invadir a casa desse professor, de amarrar esse professor numa cadeira pelos pulsos e tornozelos, sem amordaçar pra poder ouvir seus gritos e, bem na frente dele, comer a sua esposa, comer de todos os jeitos, esbofetear a cara dela com meu pau e esporrar tudo na boca dela, depois iria embora e deixaria a esposa ir soltar o professor, ir curar as feridas de seus pulso e tornozelos com beijos cheios da minha porra, mas não havia o que eu pudesse fazer, só o que fiz foi passar na secretária da escola e dar baixa na minha matrícula, o professor disse que eu já tô alfabetizado, eu disse pra moça do guichê e fui embora.
Não estava ainda com vontade de encarar a Bernadete, fui passear no Mercado Municipal, no mercadão, gastar mais um tempo, sempre gostei desse lugar, o problema é que vive apinhado de gente, não gosto muito do cheiro de gente, só que lá tem aquele monte de mercadorias que eu gosto de ficar vendo, sacos de pano com grãos, ervas, pimentas, fumo de rolo, queijos, presuntos e peixes defumados, e aí o cheiro disso tudo esconde o cheiro das gentes, fica bom. 
Sentei no tamborete duma lanchonete, pedi uma ampola de cerveja da mais barata e comecei a rabiscar outra folha, uma loja em uma das esquinas do mercado com a frente quase fechada de mercadorias, vidros com pimentas, queijos amarelos de todos os tons, queijos brancos, uns empilhados, outros dentro de uma redinha de barbante pendurados no teto, uns tantos salames juntos, fiquei olhando praquilo e tentando passar pro papel, não consegui, só que consegui foi tomar três ampolas. 
Senti uma coisa ruim, teria sido capaz de quebrar toda a loja, pegado a dona e feito ela mastigar cada uma daquelas pimentas das prateleiras, feito ela comer, comer, até sua boca e sua língua incharem e ela ter oferecido a vida em troca dum copo d’água, mas não havia o que eu pudesse fazer, só o que fiz foi pagar as três ampolas, e fui embora.
Cheguei na casa da Bernadete e a Bernadete me recebeu com aquela cara calma de quem já tinha estado muito brava e perguntou se eu queria jantar, eu fui respondendo as perguntas da Bernadete apenas com movimentos da cabeça enquanto engolia sua comida. Bernadete me levou pro quarto dela, pra relaxar, ela disse, pra esquecer as agruras do seu dia, pensei em perguntar que raio de agrura era essa. Nem o corpo nem os beijos nem as palavras de sacanagem ou o cheiro da Bernadete conseguiram provocar alguma reação no meu pau, ficou lá, murcho, a Bernadete percebeu, desceu até o meio das minhas pernas e abocanhou tudo, caprichou, e era uma coisa triste de ver, a Bernadete lá com aquela carne emborrachada na boca, parecia que tava mascando um chiclete, não teve jeito. 
Bernadete perguntou que merda era aquela, já não era a primeira vez, gritou comigo querendo saber se eu tava comendo outra, eu disse que sim, e nem tava nada, só que assim a conversa acabava mais rápido, eu não tinha como explicar pra Bernadete as minhas preocupações, a Bernadete nunca teve que se preocupar com nada, nasceu rica, casou com marido rico, nunca soube o que fosse isso. 
A Bernadete levantou da cama com os olhos vermelhos e a boca tremendo e correu pro banheiro, deve ter ido lavar o rosto e a boca pra tirar o gosto de pau mole, não deve existir gosto pior do que gosto de pau mole, deve ter um gosto de derrota, deve ser gosto parecido com aquele que fica na minha boca quando meus desenhos são recusados, a Bernadete demorou bastante, não chamei nem fui lá, deve ser difícil mesmo tirar esse gosto da boca. 
A Bernadete voltou com os olhos claros e a boca firme com cheiro de pasta de dentes, tava enrolada numa toalha e disse que se eu quisesse comer outras por aí, ela não ligava, mas quando estivesse com ela, eu tinha que dar no couro, era isso ou eu podia ir embora. Não senti uma coisa ruim nem uma coisa boa nem tive vontade de nada, não havia o que eu pudesse fazer, só o que fiz foi guardar meu pau mole na cueca, e fui embora.
A Bernadete só ficou me olhando sair, sabendo que dessa vez eu não voltava mais, nem eu sabia disso direito naquela hora, a Bernadete sabia, as mulheres sempre sabem dessas coisas mais do que a gente.

Bukowski, A Ressaca É Uma Atividade Solitária

"Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar.”
"Não, eu não odeio as pessoas. Só prefiro quando elas não estão por perto."
"Me sinto bem em não participar de nada. Me alegra não estar apaixonado e não estar de bem com o mundo. Gosto de me sentir estranho a tudo..."
"Posso viver sem a grande maioria das pessoas. Elas não me completam, me esvaziam."
"De alguma forma, nunca consegui me ajustar na sociedade. Não gosto da humanidade. Não tenho o menor desejo de me ajustar, nenhum senso de lealdade, nenhum objetivo de fato."
"Às vezes, me sinto como se estivéssemos todos presos num filme. Sabemos nossas falas, onde caminhar, como atuar, só que não há uma câmera. No entanto, não conseguimos sair do filme. E é um filme ruim."
"Enquanto um homem tivesse vinhos e cigarros à sua disposição, ele poderia resistir."
"Você sabe, algumas vezes, se um homem não acredita no que está fazendo, ele pode fazer um trabalho muito mais interessante, porque ele não está emocionalmente envolvido em sua causa."
"Observava as pessoas à distância, como numa peça de teatro. Apenas eles estavam no palco e eu era platéia de um homem só."
"Ache o que você ama e deixe isso te matar."
"Não são as grandes coisas que mandam um homem para o hospício."
"Costumo levar coisas para ler, para que eu não tenha de olhar para as pessoas."
"Não era meu dia. Não era minha semana. Não era meu mês. Não era meu ano. Não era a porra da minha vida."

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Será Que Eu Me Pareço Com A Angelina Jolie?

É comum ouvirmos dizer - e mesmo constatarmos visualmente - que, ao envelhecerem juntos, os cônjuges se tornam mais e mais assemelhados fisicamente.
Sempre pensei que, em parte, essa semelhança adquirida, digamos assim, fosse devida à longa convivência, em que um assimila do outro a maneira de falar, o linguajar, o gestual, os maneirismos, as manias etc. Feito os imitadores que em nada se parecem fisicamente com as pessoas que imitam, mas nos fazem lembrar imediatamente delas ao realçarem um timbre de voz, um gesto, uma expressão fisionômica, um tique nervoso.
E que também, por outra parte, devesse-se a drástica redução hormonal na mulher : com a redução quase que a zero da produção dos hormônios sexuais, a mulher mais idosa passa a perder as características femininas dadas por esses hormônios e vai se "masculinizando", algumas ficam mais com cara de velhos que de velhas.
Mas parece que a coisa não é bem assim. Evidências recentes indicam que, talvez, essa semelhança não venha com o passar do tempo, que, talvez, ela sempre tenha existido; e que essa parecença tenha sido justamente a responsável pela união do casal.
O que faz uma mulher parecer bonita a um homem e não a outro? Os cientistas sempre tentaram vincular a beleza física às taxas de hormônios e às características ligadas à fertilidade, quadris largos e tamanho dos seios. Mas como explicar a preferência por características que em nada são relacionadas à fecundidade, como a cor dos cabelos ou dos olhos?
Agora, uma nova pesquisa, publicada pela revista PLOS ONE, mostrou que os homens também são atraídos por mulheres que se parecem com eles, consideram bonito um padrão físico em que eles próprios se reconhecem. É óbvio. É o velho adágio popular, quem ama o feio, bonito lhe parece.
Puta que o pariu!!! Será que eu me pareço com a Angelina Jolie?
Os resultados do estudo levaram os cientistas a avaliar duas hipóteses evolutivas. A primeira é a homogamia - que não tem nada de viadagem, não -, um fenômeno observado em várias espécies de animais que faz com que alguns indivíduos tenham a tendência em buscar parceiros que lhes sejam geneticamente próximos, ou, em outras palavras, que se pareçam com eles.
Puta que o pariu!!! Será que eu pareço com a Scarlett Johansson?
A segunda é o velho medo do macho de ser corno, a ricardãofobia, cientificamente chamada de "a incerteza da paternidade". Os homens teriam uma tendência a preferir (inconscientemente, claro) traços recessivos nas mulheres, uma vez que isso facilitaria o reconhecimento de seus traços genéticos nos filhos do casal. Assim, um homem preferiria os olhos azuis ou os lábios finos, que são características recessivas em relação aos olhos marrons e aos lábios grossos.
Os dados obtidos dão um clara prevalência à primeira hipótese, a homogamia, ficando a "incerteza da paternidade" na categoria de inconclusiva. Os pesquisadores, agora, darão sequência ao estudo para tentar elucidar a importância da homogamia na escolha dos parceiros, desvendar se há alguma vantagem evolutiva nos filhos gerados por pais geneticamente semelhantes.
Sei lá. Pesquisa científica é aquilo que a gente bem sabe. O pesquisador tem uma ideia, uma impressão inicial sobre um fenômeno e, via experimentação e observação, tentará prová-la a todo custo; inclusive, e muitas vezes, induzindo os resultados em direção a essa comprovação, escolhendo - ainda que inconscientemente - objetos de estudo que condigam com sua hipótese.
Tratando-se de seres  humanos, cada um é uma lei científica, cada um é uma regra em si, o que vale também dizer que cada um é uma exceção. O pesquisador é aquele cara que possui a habilidade inata de reconhecer um grupo significativo de pessoas com um comportamento muito particular - e de interesse à sua pesquisa -, um grupo numericamente significativo de exceções, portanto; e usa esse grupo particular em seus estudos para "confirmar" e estabelecer tal comportamento como uma regra que ele julga geral. É o famoso "acochambrar".
Ou você acham mesmo, por exemplo, que toda criança adora comer merda e sente tesão pela mãe? Nesse caso, acho eu, Freud usou um número reduzidíssimo dessas exceções para vertê-las em regra geral; na verdade, acho que ele usou apenas a si próprio.
Fazendo uma breve retrospectiva do meu não tão variado histórico amoroso, não noto semelhanças significativas entre mim e qualquer uma de minhas ex-namoradas, ou entre mim e minha esposa, ou, mesmo, semelhanças consideráveis entre elas.
De qualquer maneira, escolhendo alguém semelhante a nós ou não, ainda acho muito mais atraente um belo par de peitos do que minha barba escassa, falha e desgrenhada.
Fonte : Revista Veja

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Um Comentário Inusitado

Mês passado, comentei aqui o caso de uma candidata evangélica que tinha como plataforma de campanha a total erradicação dos católicos da cidade de Ibirité (MG), a 25 km de Belo Horizonte. Ela prometia, em quatro anos, livrar sua cidade das igrejas católicas e dos padres. A postagem é intitulada Trocando Merda Por Bosta.
Agora, nesse exato momento, entro no blog e me deparo com um comentário dos mais inabituais, inédito. Uma pessoa que assina o comentário como Prof. Pe. Paulo faz considerações muito ponderadas sobre minha postagem, cita outros exemplos tão absurdos quanto o dessa evangélica, e, pasmem (eu, pelo menos, pasmei), até fez um belo elogio ao Marreta no final.
Um padre me elogiando?!?! Puta que o pariu!!! E olha que eu não livrei a cara dos padres em minha postagem, não. Disse que os pastores evangélicos são piores, mas não morri de amores pelos clérigos, não.
O Pe. Paulo diz até que eu estou fazendo um bem à nossa esquálida cidadania. Sei não, Pe. Paulo, mesmo porque o atual conceito de cidadania não é algo que eu pretenda defender, direitos excessivos e escassos deveres, o que é um prato cheio para o mau-caratismo. De qualquer forma, obrigado. E parabéns pela isenção com a qual leu e interpretou minha postagem.
Reproduzo, abaixo, ipsis litteris, o comentário do Prof. Pe. Paulo.
"A degradação da vida pública e política nos rincões (mesmo a 25 Km de BH!!) preocupa. O crescimento "quantitativo" da nação crente ainda vai render muitos dissabores a nossa pobre e esquálida república, com novos oligarcas fanáticos substituindo os pachorrentos coronéis de antanho. 
A Igreja católica, apesar de suas mazelas matêm um controle limitador das ambições desmedidas de algum de seus membros, o que não acontece nas igrejolas que vicejam pululantes, sem eira nem beira. 
Na esfera local, municípios pequenos e médios, alguns grandes como Manaus, Natal, João Pessoa etc, o concluio de favorecimento entre prefeitos e lideranças "crentes", sob o cochilo covarde do Ministério Público, já dilapidaram extensas áreas de patrimônio público. 
São praças, escolas, creches e equipamentos ambientais negados, substituidos por barulhentas igrejolas. Em Mossoró-RN, os moradores de um conjunto, o Ulrich Graff impediram na Justiça a doação de uma praça inteira a Assembleia de Deus, irresponsavel e ilegalmente feita pela Prefeita Fafá Rosado.
Trata-se pessoal esclarecido, de classe média, igual sorte não tiveram comunidades pobres que foram despojadas de suas áreas verdes sem que autoridades competentes tivesses feito algo para impedir. Continua com essa linha, vc está fazendo bem a nossa esquálida mas aind viva cidadania."

Que Fossa, Hein, Meu Chapa, Que Fossa...(13)

Down Em Mim
(Frejat/Cazuza)
Eu não sei o que o meu corpo abriga
Nestas noites quentes de verão
E nem me importa que mil raios partam
Qualquer sentido vago de razão
Eu ando tão down
Eu ando tão down

Outra vez vou te cantar, vou te gritar
Te rebocar do bar
E as paredes do meu quarto vão assistir comigo
A versão nova de uma velha história
E quando o sol vier socar minha cara
Com certeza você já foi embora
Eu ando tão down
Eu ando tão down

Outra vez vou me esquecer
Pois nestas horas pega mal sofrer
Na privada eu vou dar com a minha cara
De panaca pintada no espelho
E me lembrar, sorrindo, que o banheiro
É a igreja de todos os bêbados
Eu ando tão down
Eu ando tão down
Eu ando tão down
Down... down