quinta-feira, 4 de abril de 2013

Antena, Meramente

Prata, oxipreto, apunhala
Encalha, navio-pirata, abalroa.
Por que
Quando olho nos seus olhos
Não são prismas a me decompor
E a me colorir?
Por que sou sempre fragata ferida?
(algumas poesias, eu as escrevo; outras, a Poesia).

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Eu Bebo Sim, Eu Tô Vivendo, Tem Gente Que Não Bebe E Tá Morrendo

A sabedoria popular contida em nosso cancioneiro mais uma vez se antecipa às descobertas e comprovações da ciência. Quem não conhece nem nunca cantarolou o antológico samba Eu Bebo Sim? Aquele que diz que quem bebe vai vivendo e quem não bebe está morrendo.
Composta em 1973, por João do Violão e Luis Antônio (também autor de Sassaricando e Lata d´água na Cabeça), a música se tornou um verdadeiro hino dos boêmios e continua até hoje a embalar blocos carnavalescos e rodas de samba.
E não é que há muito de verdade científica na letra? O músico, o poeta popular, é mesmo um visionário, um homem à frente de seu tempo.
Os resultados de um recente estudo publicado no American Journal of Cardiology revelaram fortes evidências de que beberrões e manguaceiros têm maior chance de sobrevida a um ataque cardíaco que os abstêmios, que os da turma do suquinho de abacaxi com hortelã, que os naturebas da geração saúde.
Os pesquisadores analisaram 1200 mulheres internadas por conta de ataques cardíacos, seus estilos de vida, questões de saúde, atividades físicas e consumo de bebidas alcoólicas.
Depois de um acompanhamento de 10 anos, a equipe de cientistas constatou que 44% das mulheres abstêmias não resistiram ao ataque cardíaco, entre as bebedoras leves, o índice de óbitos chegou a 25% das infartadas, e apenas 18% das bebedoras profissionais bateram as botas depois do piripaque.
Os resultados mostram que as cachaceiras tem 35% a mais de chance de sobreviveram a um ataque cardíaco, e isso independente de tomarem vinho, cerveja ou destilados. O tipo de bebida parece não influenciar no resultado final, apenas o álcool, a substância em si.
Um estudo anterior, realizado com homens e mulheres, conduzido pelo cardiologista James O'Keefe, da Universidade de Kansas City, Missouri, já havia apontado que as pessoas que continuaram a beber moderadamente depois de um ataque cardíaco tinham melhor saúde do os que se abstiveram.
Uma dose diária é uma média boa, diz O´Keefe. O problema é parar na primeira dose. Mais uma dose? É claro que eu tô a fim!
Pesquisa tendenciosa? Encomendada por conglomerados cervejeiros? Talvez, quem sabe?
No entanto, a mim parece que a moça abaixo, entornando um belo dum canecão, está muito da saudável, praticamente imortal, com um "coração" pra ninguém botar defeito. 
Fonte: Reuters

Ponte do Caralho

É foda! Depois dizem que é pegação no pé do gaúcho, que é estereótipo, que é preconceito etc. Mas vejam a imagem projetada pela luz ao atravessar os elementos vazados da amurada de uma ponte localizada na cidade de Pelotas, RS.
A foto é real, não tem nada de photoshop. A certa hora do dia, uma imensa fileira de caralhinhos é projetada no chão da ponte. 
Dizem as más línguas que a ponte já virou um dos points mais concorridos da cidade, um dos pontos de encontro preferido do pelotense. É à sombra dessa ponte que o gaúcho se senta para tomar seu chimarrão, para mamar gostoso na sua bomba de mate.
Pããããta que o pariu!!!!

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O Que as Mulheres Querem Dos Homens? X E o Que é Que a Gente Quer?

As mulheres chegaram ao poder e ao comando. Algumas mulheres chegaram. Ao comando de suas casas - o financeiro e não mais o do fogão, vassoura e outros utensílios -, ao comando de suas empresas e até ao comando do país. E já não era hora. Demoraram. Sempre fui a favor da mulher no comando das coisas. Quanto mais a mulher trabalhar, menos preciso eu.
E logo dirão algumas feministas suvacudas de plantão que eu sou a favor da mulher por motivos machistas. Sou a favor, já não está bom? Até meus motivos têm que ser os considerados corretos?
Detentoras do poder econômico, outrora concentrado em mãos masculinas, elas começam também a se acharem as tais, a se tornarem cada vezes mais exigentes, eu estou pagando, não estou? E caem nos mesmos enganos e esparrelas antes exclusivos aos homens.
O maior deles : idealizar o marido que irá comprar e comandar, feito os homens que, antigamente, procuravam as chamadas moças prendadas. Para a nova mulher, a chefona, a manda-chuva, não é qualquer macho que lhe sirva à companhia. Nada disso. Tem que ser um macho muito do prendado, muito do casadoiro.
Esta é a reportagem de capa Revista Época desta semana, O Que As Mulheres Querem Dos Homens.
O que essas "novas mulheres", que, em verdade, apenas mimetizam os vícios dos homens, uma espécie talvez de revanchismo sexista inconsciente, como quem diz, agora é minha vez, querem, afinal?
A mim, um pequeno trecho da reportagem, que reproduzirei abaixo, parece bem sintetizar seus desejos :
"A tentativa de conquistar o novo coração feminino pode ser frustrante – para eles e para elas. As mulheres, sob o efeito de certo deslumbramento com a autonomia e o poder conquistados, impuseram uma longa lista de pré-requisitos ao parceiro ideal. Mostram-se atraídas por homens que conservam algo de dominador, característica sugerida pelo sucesso na carreira e pela ambição. Ao mesmo tempo, querem um companheiro sensível, capaz de deixar transparecer suas emoções." A capa da revista ainda lista outras qualidades do homem que elas querem para zangão : bem-sucedido, sensível, prendado, equilibrado, bom pai, bom de cama.
A mulher alfa dominante quer um cara que dance ballet, recite poesia, entenda de design de interiores, lembre do aniversário da sogra, levante a tampa da privada para mijar, faça origami e arranjos florais, só se trate com homeopatia, florais de Bach etc. E ainda o quer sempre de pau duro. Para comê-la três vezes ao dia.
Meninas, isso não existe. Ou o cara é sensível, ou ele as come. Assim como os unicórnios, grifos, dragões e quimeras, não existe esse ser mitológico, o macho sensível. Não existe esse ente que as coma feito um tarado e as escute como uma amiga confidente. Vocês não estão querendo um homem, e sim um ser multifuncional, feito esses eletroeletrônicos de hoje. Vocês estão querendo é um hermafrodita. Vocês estão querendo um viadinho de estimação.
Aliás, o macho sensível até existe, sim. Mas sua duração é efêmera. O macho sensível existe apenas, digamos assim, durante a fase larval do relacionamento, aquela fase em que ele ainda está a conquistá-las. Para ser mais claro, o macho sensível existe até que ele consiga comê-las. Daí para frente, já era.
E deem graças que assim seja. Se depois da conquista, do território demarcado, o cara continuar muito sensível - continuar sentando com as perninhas cruzadas, limpando delicadamente os cantos da boca com a pontinha do guardanapo e outras sensibilidades -, fiquem atentas, vocês podem estar prestes a perder mais um macho. Para outro macho.
O discurso dessas mulheres independentes é muito bonito, cheio de segurança e coisa e tal, mas, na prática, o que vejo é bem diferente. 
Durante um tempo, quando ainda são mais novas, quando a solidão - e as rugas - não lhes pesam tanto, elas bem que tentam encontrar essa nova versão do Princípe Encantado - vejam que elas continuam presas ao Príncipe Encantado, um que elas escolherão, mas o mesmo mito masculino do tempo de nossas bisavós -, ficam trocando e destrocando de homens, como quem devolve um produto com defeito à loja em que o comprou.
Depois dos quarenta, ou por volta deles, porém, elas começam a ver que não estão com essa bola toda, que não são mais as rainhas da cocada preta, que, aliás, podem muito bem nunca ter sido, que os produtos não eram exatamente defeituosos, que parte do defeito também estava em quem os usava.
Quando lhes cai a ficha e elas veem suas amigas passeando satisfeitas com seus respectivos trogloditas, das duas uma, ou elas piram, surtam geral e vão fazer a alegria da conta bancária de psiquiatras e terapeutas, ou respiram fundo e encaram a realidade, reconhecem que o jeito é readequar as expectativas a homens reais, não ideais. Já que não tem tu, vai tu mesmo, reza o adágio popular.
Independente do poderio econômico de cada um, a atitude adequada aos dias de hoje, à realidade dos casais em que ambos trabalham, é a cooperação. Não tem essa de ninguém mandar em ninguém. Não tem essa de que serviço doméstico deva ser relegado somente a quem ganha menos, ou que pegar num rodo ou lavar a privada em que se caga desmereça alguma diploma superior.
Pelo jeito, ainda vai levar um bom tempo para a mulher deixar de ser "homem".
E nós, homens, o que queremos? Ora, nós somos muito mais simples, muito mais modestos. Deixo a resposta da pergunta a cargo da Banda das Velhas Virgens, da letra de sua canção E o que é que a gente quer?
E o que é que a gente quer?
(Velhas Virgens)
Elas falam demais
Mas têm o que a gente quer
E elas torram nossa grana
Mas têm o que a gente quer
Elas sabem ser chatas quando querem
Mas têm o que a gente quer


A gente faz papel de besta
Porque elas têm o que a gente quer
E a gente cai na lama e come grama
Porque elas têm o que a gente quer
Elas fazem com a gente o que elas querem
Porque elas têm o que a gente quer


E o que é que a gente quer?
A gente quer é fuder
E o que é que a gente quer?
A gente quer B.U.C.E.T.A
Buceta


A gente briga na rua
Porque elas têm o que a gente quer
E a gente larga a bebida (Não!!)
Porque elas têm o que a gente quer
Até mesmo a boêmia a gente deixa
Por que elas têm o que a gente quer


Pode até ser gordinha
Mas tem o que a gente quer
Banguela, fedida, fodida
Mas têm o que a gente quer
Apesar dos defeitos, todas elas,
Têm o que a gente quer


Elas põem chifres na nossa testa
Mas nós temos o que elas querem
Elas chutam nosso saco e fingem que não ligam
Mas nós temos o que elas querem
Por mais formais ou feministas que pareçam
Nós é que temos o que elas querem


E o que é que elas querem?
Elas querem "fuder"
E o que é que elas querem?
Elas querem C.A.C.E.T.E.
Cacete.

Uma Elegia À Cláudia Ohana (14)

"Que roupa você veste, que anéis?
Por quem você se troca?
Que bicho feroz são seus cabelos
Que à noite você solta?
De que é que você brinca?
Que horas você volta?"

domingo, 31 de março de 2013

Dos Gatos

A Lua não é dos lobos,
Nunca foi.
As lendas estão erradas, os folclores,
A taxonomia,
Lineu e todas as classificações biológicas,
Todos errados.

A Lua não se dá aos idiotas,
Ou aos broncos e fanfarrões.
O uivo do lobo é o choro do amante rejeitado,
O lamento do corno iludido.
Chora, lobo mau
Chora, Rin tin tin filho da puta,
Morram de tanta punheta pela Lua.

A Lua se entrega é aos andares leves sobre sua pele ,
Aos caminhares de almofadas, aos pisares de dançarinos.
A Lua se deixa enredar é por novelos de lã,
Por cobertores felpudos repletos de velhas fotos e crises alérgicas.
A Lua se enche
- se intumesce, se silicona, se pleniluna -
É pelos vinhos tomados nos telhados 
Com paisagens para o ontem.

Fitoterapia, Era Só o Que Me Faltava

Não tomarei unha-de-gato.
Deixe o tendão a incendiar,
Aqui, ali, Aquiles e acolá,
Deixe o tendão a tanger suas cordas,
Nos dedos, nos pulsos, no calcanhar,
Insistente, chato e barulhento
Feito música alta de vizinho.

Nem tomarei ginseng.
Deixe o cansaço a me gravitar,
A má circulação, o bom tráfego engarrafar,
Em foto sépia-amarelada, a memória se embalsamar.
Deixe a tonelada dos anos
Derrubar-me os cantos da boca,
Os cantos dos olhos,
Meu berro vazio,
Meu canto já sem nenhuma função,
Que só é insistente, chato e barulhento
Feito música alta de vizinho.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Homens Sem Dinheiro Preferem As Mulheres De Peitos Grandes

Em mais uma pesquisa científica imprescíndivel ao futuro da espécie humana no planeta, pesquisadores ingleses convidaram 226 homens da Malásia ( por que da Malásia, eu não sei), de diversas classes sociais, de ricaços a pobretões, para analisarem imagens de mulheres trajando biquínis e elegerem a mais bonita. A imagem era esta:
Todas têm o mesmo rosto, que mal foi notado pelos participantes da pesquisa, que homem que é homem não olha mesmo pro rosto, olha pros peitos, se a mulher estiver de frente para ele. A única diferença entre as mulheres da imagem é o tamanho dos peitões. 
Quanto mais pobre o sujeito, maior o gosto pelas de peitos fartos, e os ricos, geralmente, preferiram as figuras com peitos menores. O mesmo teste foi repetido na Inglaterra, com os súditos da Rainha. A imagem foi mostrada a 66 homens famintos e a 58 outros voluntários bem alimentados. O resultado foi o mesmo que o entre os malaios : homens com fome preferiram as peitudas, homens saciados, as magrelinhas.
A conclusão dos cientistas - muito mais psicológica (falsa) que biológica - foi que, em tempos de escassez, os homens sentem tesão pelas de peitos fartos, elas seriam uma garantia de sustento em épocas de vacas magras; já o rico não atentaria a uns belos peitões por não ter fome. Você tem fome de quê? Rico ou pobre, o cara que ignora uns peitões à Pamela Anderson só pode ter fome de uma coisa, de rola.
E desde quando um homem adulto vê os peitos de uma mulher como um saco de leite? Só faltou os pesquisadores falarem que isso remete à infância, ao peito materno etc etc. Conclusão freudiana e não darwiniana. Furadíssima.
A conclusão é muito mais simples. Todos gostam de peitões, indistintamente. Acontece que o rico tem grana para mandar colocar silicone na sua mulher, o pobre, não. Vai daí que o pobre tem que escolher uma que já venha com os air bags de fábrica, os acessórios já têm que vir incluídos no pacote. Simples assim.
Se a alguém interessar a leitura completa da pesquisa, com abstract, procedimentos experimentais, tratamento de dados, estatísticas etc, é só clicar aqui no meu poderoso MARRETÃO.

O Que É Mesmo A Páscoa?

Que porra, afinal, é a tal da Páscoa?
São os ovos do Cristo,
A crucificação do coelho
Ou a ressurreição do bacalhau?

O calvário do bacalhau,
A venda do coelho por 30 moedas
Ou a crucificação dos ovos de Cristo?

A ascensão do coelho ao céu
As ovas do bacalhau
Ou o Cristo ao forno, à moda portuguesa, 
Com muita batata, azeite e azeitonas pretas?

De minha parte :
Ovos, tô fora
Cristo, mais ainda
Mas encho a boca com um bom bacalhau,
Levemente salgado, encharcado em sumos e oleosidades,
Daqueles bem fibrosos e cheios de fiapos 
A engastalharem por entre os dentes.

terça-feira, 26 de março de 2013

Bolsa-Jesus (Ou : Louvada Seja Dilma)

Marcelo Crivella, pastor afastado sei lá de qual dessas igrejas evangélicas (nem gastei meu tempo no Google para saber), e atual Ministro da Pesca, também não sei com que capacitação para tal cargo (a multiplicação dos peixes feita por Jesus?), o que igualmente não tem relevância nenhuma num país onde acordos políticos prevalecem sobre a competência, disse a três mil pastores, na semana passsada, que eles devem aplaudir os governos de Lula e Dilma, por ambos terem implementado programas sociais - leia-se, esmolas - e melhorado a vida dos pobres, que, consequentemente, passaram a pagar maior dízimo.
Com o aumento do poder aquisitivo do pobre - leia-se : às custas de quem trabalha, enquanto ele, o pobre, continua na vadiagem -, ele passa a doar mais para as igrejas, pois, segundo Crivella, o pobre fiel a deus, o "povo evangélico", não gasta seus ganhos adicionais com compras em shopping centers e boutiques de marca, ele entrega a deus. Para a alegria e o gozo de pastores e padres.
Pããããta que o pariu!!! O PT instituiu o Bolsa-Jesus!
Bolsa-escola, bolsa-família, bolsa-presidiário, bolsa-ditadura etc : que meu suado dinheirinho sustenta muito vagabundo por aí, ao invés de me proporcionar um melhor sistema público de saúde - que me é devido e merecido -, uma melhor segurança - que me é devida e merecida - e uma melhor escola pública para o meu filho - que lhe é devida e merecida -, eu já sabia, há muito tempo.
Que meus impostos sustentam muitos currais e chocadeiras eleitorais pelos nortes e nordestes afora, eu também já sabia - chamo de chocadeiras eleitorais àquelas famílias mantidas pelo governo em estado de subsistência, sem precisarem trabalhar, no mais completo ócio, e só botando e chocando seus filhos, um por ano, ninhadas e mais ninhadas de futuros eleitores, e de futuros chocadores, ad infinitum.
Mas que o que roubam de mim ande a tornar os cofres das igrejas ainda mais robustos e polpudos, é novidade. Na verdade, eu já deveria desconfiado, inferido. É que, às vezes, apesar de toda minha mordacidade e acidez e contrariando minha pretensa visão ampla e crítica das coisas, eu me pego como o mais ingênuo dos seres frente aos donos do poder.
A relação é óbvia : mais dinheiro na mão do pobre, mais no cofre das igrejas, que vão cada vez mais domesticá-lo, cada vez mais torná-lo em manso rebanho, para que ele continue submisso - e sobretudo votando - à mão que lhe dá esmola, que volta à igreja, per secula seculorum, amem.
Esmola para o povo, esmola para deus. Talvez seja esse o real sentido do ditado : quem dá aos pobres, empresta a deus. E tudo fica guardado com os padres e os pastores.
Repito : pããããta que o pariu! É o Bolsa-Jesus! O Bolsa-dízimo.
Assim sendo, fui eu quem pagou a eleição do novo Papa, fui eu quem colocou Edir Macedo na lista dos bilionários da revista Forbes e quem está a financiar a construção de seu Templo de Salomão, sou eu quem compra o spray mata-capeta do Silas Malafaia, quem banca a chapinha do Marco Feliciano, quem compra as toalhinhas suadas e os tijolinhos da prosperidade do Waldemiro Santiago, o perfume com cheiro de Jesus da bispa Sônia, sou eu quem paga a hóstia de cada dia, e o michê do garotão de programa que come os sacrossantos cus dos padres.
Ateísmo à parte, acabo de decidir : já que é assim, também vou querer meu terreninho no Céu, também vou querer minha casinha popular do programa Minha Casa, Minha Além-Vida.
Nem que seja para sublocar, e ir viver no Inferno às expensas do aluguel do Paraíso.

domingo, 24 de março de 2013

Charles Bukowski, O Problema do Mundo

"O problema com o mundo é que as pessoas inteligentes são cheias de dúvidas, enquanto que as pessoas estúpidas são cheias de confiança."
(Gentilmente traduzido pelo Marreta do Azarão)

Superfaturamento

Minha dores não são a sério,
Não são nada graves,
Minhas dores não me levarão ao cemitério,
Quando muito, são gases.
São torcicolo, falto de colo,
Um calo, um joanete, um sangue pisado no dedão do pé.
Se delas falo, é para ganhar confetes e cafunés.

Não gastem com minhas dores,
Sangrias, emplastros nem enemas :
São dores de cinema, lágrimas de astro, de pura fantasia.
Minhas dores não são caso para morfina,
Coma induzido nem divã de psiquiatra :
Mitigam mesmo com aspirina, seios desvestidos
E a cerveja de 3 ou 4 latas.

São dores falsas, valsas sem par,
Mas são as de que disponho para penar,
Para pegar da pena e escrever,
Para bem compor o meu inferno.
E se não as amplio,
Se não as copio a um caderno,
Aí, sim, é que fica mais dorido viver.

sexta-feira, 22 de março de 2013

É A Podridão, Meu Velho (3)

Quero,
De volta,
Não mais sentir meu corpo :
Tê-lo, mas não sabê-lo.
Não mais saber que tenho tendões,
Nos calcanhares, nos joelhos, nos punhos.
Não mais saber das agudíssimas farpas de bambu a trafegarem nas minhas articulações.

De volta,
Não mais saber que tenho coluna
Nem músculos costais,
Quando me sento ao sofá,
Quando me agacho para recolher cisco ao chão,
Ou uma moeda perdida,
Ou brinquedo espalhado do filho.
Não mais saber das pontas de cigarro acesas a substituirem meus discos intervertebrais.

De volta,
O corpo-utilitário,
O corpo-ferramenta,
O corpo-veículo,
Não o corpo-porões-da-ditadura.

A Escala Cláudia Ohana de Pilosidade

O ser humano a tudo mede, mensura. A tudo quer aprisionar em suas escalas e parâmetros. Que é bem disso que bicho homem gosta, aprisionar o que lhe fascina e o que ele pouco entende.
Os átomos, a exemplo, há dias em que acordam de melhor humor, alegres, ouriçados, agitados, para ser mais correto. Há dias, porém, em que estão mais tristes e macambúzios, mais reservados, os elétrons recolhidos em seus orbitais. Aí vai o ser humano e cria uma grandeza física para medir o humor e o estado de espírito dos átomos, o calor, representado pelas várias escalas termométricas, Celsius, Kelvin etc.
Do micro para o macro, nem mesmo o planeta, a providente Mãe-Terra, escapa de nossas indiscretas aferições. Há aqueles dias em que a Terra acorda de ressaca, vendo tudo girar (literalmente), pisando em falso em sua órbita, constipada, com a lava-fel a lhe subir à boca; então, ela cerra o cenho, levanta e sacode a poeira, põe tudo a tremer. E lá vai o homem a lhe medir a pressão, a pulsação, o ritmo cardíaco. Metem-lhe seus sismógrafos e vão verificar o quanto a Terra está abalada naquele dia, via escala Richter de magnitude, que vai 1,0 a 9,5, até segunda ordem da natureza.
Tudo o ser humano mede!
Dessa forma, postularei aqui e agora, antes que os eflúvios de Baco por completo se dissipem e os de Morpheus me pesem tonelada tirana, uma nova escala, a Escala Cláudia Ohana de Pilosidade, expressa em graus C.O.
Tal escala vem a se mostrar muito útil em épocas atuais, de intensos desmatamentos, seja da cobertura vegetal do planeta, seja, principalmente, da vegetação bucetal. São tempos de graves crimes ambientais contra a fisiologicamente necessária Mata Atlântica Pubiana. Daí, a necessidade de uma escala que avalie a exata extensão do problema
O valor 10,0 absoluto da escala Cláudia Ohana de Pilosidade é a própria Cláudia Ohana, naquelas fotos que tirou para a revista Playboy, na década de oitenta. Só para melhores entendimentos, a xavasca do quadro A Origem do Mundo, do pintor Gustave Coubert, alcançaria uma graduação de 9,0 C.O. 
Vera Fischer, a eterna superfêmea, ao posar nua, também para a Playboy, no ano de 2000, chocou a delicada sensibilidade do país: nas páginas centrais da revista, Vera exibia seus bastos, alourados e nada comportados pentelhos, que se alastravam para fora dos limites permitidos, tomavam-lhe a região do baixo ventre e faces internas das coxas. Grau 7,0 C.O. para Vera Fischer, com louvor.
O zero relativo da Escala Cláudia Ohana de Pilosidade tem como referência aquelas ridículas depilações ao estilo bigodinho de Hitler. Já as totalmente depiladas - à lâmina, à cera, a raio laser -, as em que não vemos único matinho a despontar, como se por ali tivessem passado as hordas de Átila, o Huno, essas marcam o Zero Absoluto da Escala Cláudia Ohana de Pilosidade. Máxima entropia, mínimo tesão.
Isso posto, e até porque já se faz tarde, vos digo : meçam! Saiam a medir! Salvem o planeta, ou, ao menos, a buceta.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Helena Não Tem Culpa - Luiz Felipe Pondé

Publicado na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, 18/03/13

"Dias atrás, uma amiga, alta executiva paulista, radicada no Rio, me mandou um e-mail com a cópia de uma resenha sobre um livro (fruto de pesquisa de campo) de um antropólogo, Napoleon Chagnon, que estudou os índios ianomâmis no Brasil e na Venezuela por muitos anos.
Suas conclusões não são aquelas que a comunidade acadêmica, ideologicamente orientada na sua quase totalidade, costuma gostar.
Quem sabe, este "desgosto ideológico dos pares" (gente ávida por destruir oponentes teóricos) tenha sido responsável pelos desdobramentos negativos que o antropólogo teve em sua vida profissional por conta desta pesquisa.
O livro ("Noble Savages"), que logo comprei, deveria ser lido nas escolas. Um tratado contra a tradição marxista, não só em antropologia, mas em tudo mais. Mas o que especificamente tem esse livro contra esta tradição?
Engana-se quem pensa que a tradição marxista comece com Marx, ela começa com Rousseau e seu bom selvagem. O princípio é que o homem é bom e a sociedade é que o perverte. A perversão do bom selvagem pelo "Das Kapital" é apenas uma decorrência do principio do Rousseau, só que para Marx não partimos do bom selvagem, mas sim chegaremos a ele quando superarmos esta sociedade má.
Uma ideia assim (que somos bons e a sociedade nos corrompe, e aqui você pode colocar no lugar de "sociedade" a família, o patriarcado, a igreja, o capital, os EUA, o patrão, seu pai autoritário) faz almas fracas gozarem de prazer. Porque o que ela diz é que, ao final, não sou responsável por nada que faço. Não fosse pela "sociedade", eu seria um homem bom.
Ao contrário do que parece, essa tradição pegou porque alimenta algo de muito banal: que somos homens bons em nossa natureza essencial. Esta ideia alimenta nossa vaidade e não foi por outro motivo que Burke, filósofo britânico do século 18, chamava Rousseau de "filósofo da vaidade".
Nossa origem é o bom selvagem? É por isso que australianos que não têm o que fazer se pintam de aborígenes e gritam por aí? Quanta bobagem! Quanto lixo escrito com tinta cara!
Também concordo que devemos olhar para o "passado" para entendermos como somos hoje. A diferença é que minha ideia de "estado natural do homem" é diferente da de Rousseau, o filósofo da vaidade. Partilho da ideia que para nos entendermos devemos olhar para a pré-história de fato, e não a mítica, como a do Rousseau.
Este mito alimenta uma outra bobagem: a ideia de que toda diversidade cultural é linda. "Viva a diferença!", dizem os festivos por aí.
A "humanidade", na sua capacidade frágil de não ser bicho malvado, foi tirada das pedras, à custa de muito sangue. Sempre bebemos o sangue dos outros no café da manhã.
E aí voltamos ao livro. A conclusão de Chagnon é que os ianomâmis, parentes nossos que vivem muito perto do que seria o neolítico, tribos que permaneceram bastante "puras" enquanto outras já haviam sido "contaminadas pela maldade do homem branco" (risadas?), sempre se mataram por uma razão nada complexa: "mulher, mulher, mulher".
Inclusive, quem tinha mais mulher, tinha mais descendentes.
Qualquer evolucionista gargalharia diante de tamanha obviedade ocultada pelas interpretações ideológicas pueris da falsa história do bom selvagem.
Os ianomâmis também têm suas Helenas de Troia. Entre eles, quem matava mais tinha mais mulher. Entre nós, quem é mais "adaptado" tem mais mulher.
Não se trata de culpar as mulheres porque são filhas de Eva. Responsabilizar a mulher pelos males do mundo é coisa de homem brocha que, por não conseguir penetrá-la, recorre à falsa culpa feminina para aplacar sua desgraça.
Reconhecer que os ianomâmis se matam em troca de mulheres (ou se matavam enquanto eram "puros" ou "bons selvagens") não é uma prova contra as mulheres. É uma prova contra Rousseau e sua tradição do bom selvagem.
Eu, pessoalmente, acho até uma boa causa. Quero dizer, nos matarmos por mulheres. Neste caso, o troféu é bem concreto e todo mundo sabe de seu "valor de uso".
Isto é, não precisamos de provas metafísicas para reconhecer o valor de uma mulher."

domingo, 17 de março de 2013

O Dia de São Patrício

Hoje é o dia de São Patrício, certamente o santo mais comemorado da fraca e risível mitologia católica. São Patrício é o padroeiro da Irlanda, o santo do trevo de quatro de folhas, o santo da cerveja verde. Todo mundo que toma lá sua cervejinha, ainda que inconscientemente, eleva preces a São Patrício.
São Patrício é reverenciado até por quem não é católico, até por quem nem faz ideia que ele exista. Até mesmo eu, ateu dos brabos e das antigas, rezo quase que cotidianamente para São Patrício.
É bem verdade que o padre, na missa, bebe também seu vinhozinho, mas só o porra do padre é quem bebe, não oferece pra ninguém, aí qual é a graça? Ficar vendo o outro beber e nós de goela seca, é a mesma coisa que ver filme pornô com os braços engessados. Cadê os ensinamentos de Cristo? Cristo transformou água em vinho e distribuiu aos convivas, o padre toma sua talagada e nem oferece. Cadê o espírito cristão?
São Patrício é o mais democrático dos santos, todo mundo bebe na sua festa. Canecões de cerveja a rodo, às mancheias, e deixem que digam, que pensem, que falem. E o famoso golinho pro santo não falta, mas ninguém fica jogando o elixir dos deuses ao chão, o golinho pro santo sai na urina e no catártico e purgativo vômito.
São Patrício é o santo a quem mais igrejas são construídas. Todos os bares e banheiros do mundo são altares a São Patrício. Já bem disse Cazuza : na privada, eu vou dar com minha cara, de panaca pintada no espelho, e me lembrar, sorrindo, que o banheiro é a igreja de todos os bêbados.
São Patrício é o verdadeiro santo ecológico, o verdadeiro santo verde. No seu dia, tudo é colorido de verde, as roupas, as comidas, as bebidas, os bichinhos de estimação, as bichinhas de estimação, algumas comunidades chegam a tingir pequenos rios e córregos com a cor do santo, as mulheres pintam os pelos pubianos de verde e os homens, o cacete.
E haja fé! As comemorações chegam a se estender por cinco dias! Vai todo mundo pro céu! Sem nem escala no purgatório!
Não bastasse, São Patrício também tem as melhores devotas. As beatas, todo mundo sabe, são aquelas gordas recalcadas, encruadas, fofoqueiras e que vivem a rogar praga em quem é mais feliz que elas, ou seja, em todo o mundo, são aquelas barangas que só vão para o céu porque nem o capeta as quer. Já as devotas, as beatas de São Patrício, deem uma olhada:
Agora, eu vou lá, tomar minha cerveja verde, que nada mais é que a cerveja normal com umas duas gotas de corante alimentício, dessas anilinas usadas em bolos de aniversário, comprei um vidrinho da verde hoje, para orar a São Patrício, só R$ 1,00. Nunca foi tão barato ter fé. Nunca foi tão prazeroso ganhar os favores de um santo.

sexta-feira, 15 de março de 2013

O Argentino é Arrogante? Ou o Brasileiro é Que é Medíocre?

Com a eleição do novo Papa, só o que escuto da brasileirada é que agora será (ainda mais) impossível aguentar o argentino, suportar a arrogância portenha.
Vejamos : a Argentina recebeu 5 prêmios Nobel - dois da Paz, dois de Medicina e um de Química -, o Brasil, nenhum; a Argentina já ganhou dois Oscars, o Brasil, nenhum; a técnica de marca-passo (ou by-pass) foi desenvolvida pelo já falecido cardiologista argentino René Favaloro; o ônibus, a caneta esferográfica, o sistema de impressão digital são inventos argentinos.
E o principal : o argentino lê muito, lê muito mais que o brasileiro. Segundo o site Portal Aprendiz, há mais livrarias na cidade de Buenos Aires que no Brasil inteiro. O jornalista Galeno Amorim, porém, desmente essa informação, revela que o último censo contou 2680 livrarias de norte a sul do Brasil, o dobro do número da capital argentina. De qualquer forma, ainda que Galeno Amorim esteja certo, a população de Buenos Aires é de cerca de 4 milhões de habitantes, a do Brasil, quase de 200 milhões. Ainda que seja o dado de Galeno Amorim a prevalecer, o Brasil possui uma população 50 vezes maior que a capital argentina, e só o dobro de suas livrarias.
Estive em Buenos Aires. Não sei se o que vi pelo centro da cidade se repete de igual forma pelos outros bairros, o que vi foram livrarias, livrarias e mais livrarias. Raros eram os quarteirões em que não havia ao menos uma delas; em alguns quarteirões, cheguei a contar três ou quatro livrarias.
Todas livrarias de pequeno porte, é verdade, nada das monumentais megastores que vemos nos shopping centers daqui; modestas, muitas, inclusive, a tratar de um único tema, só livros de política, só de romance, só de literatura médica, só de religião etc.
E é assim que funciona. Grande bosta aquelas megastores da Saraiva, da Cultura, da Fnac etc. O sujeito que vai a uma dessas lojas faz de tudo, menos ler. A primeira coisa de que nosso intelectualzinho se ocupa é de passar a fazer parte da vitrine da loja, ele entra, posta-se quase que encostado à vitrine pelo lado de dentro e fica a abrir os mais recentes lançamentos, a fingir que os está submetendo a rigorosa análise. 
O cara fica fazendo pose um tempão perto da vitrine, para que as pessoas que passam pelos corredores do shopping pensem que ele é inteligentíssimo, que ele é o fodão. Olhem, grita ele com sua pose de janota, estou no shopping e não estou comprando roupas e sapatos, olhem, estou no shopping e não estou no McDonalds.
Feito isso, ele vai mais ao interior da loja, pega uma revista de arte de uma das prateleiras, se for em língua estrangeira, tanto melhor, e se senta a uma elegante mesinha para tomar seu café expresso. E fica lá, pernas cruzadas de modo afeminado, folheando as páginas da revista, bebericando lentamente seu expresso, como se os eflúvios do café e da publicação em suas mãos lhe fossem o oxigênio primordial. Fica a fingir que lê, quando, na verdade, está a olhar por sob seus óculos, para ver se as pessoas o observam. Não leem porra nenhuma, os ratos das megastores.
O comportamento do argentino em uma livraria, eu observei, é totalmente diferente, não tem nada de pompas e afetações, o argentino não ensaia para ir a uma livraria, ir a uma livraria não lhe é uma ocasião especial. Ele entra, escolhe o livro que lhe interessa, paga-o ao caixa e sai com o volume embaixo do braço, dentro da bolsa, entre suas coisas. Normalmente. Como quem entra em uma padaria e sai com um saco pardo de pães.
O argentino mantém com o livro uma relação de amizade informal, familiar e caseira, até. O livro é aquele antigo conhecido que ele leva à sua casa, para uma conversa, um almoço, um café.
Há tantas livrarias pelo centro de Buenos Aires quanto no Brasil há de salões de cabeleireiros, lojas de CDs piratas, de R$ 1,99  e de revendas de telefones celulares.
Aliás, falando em pirataria, o argentino também é um grande pirateador de produtos. Sabem que artigo ele se esmerou em piratear? Se respondeu livros, acertou. Há uma enorme rede de pirataria de livros na capital portenha, que chega a 15% do volume da grande indústria editorial argentina. 
E pensam que eles pirateiam o quê? Paulo Coelho? Porra nenhuma. Os mais falsificados são Gabriel Garcia Marquez, Julio Cotazar, Ernesto Sabato, Mario Vargas Llosa e Quino (Mafalda). É ou não é uma pirataria que podemos chamar de legal? Aqui, pirateamos CDs e DVDs de sertanejo universitário. Será que o argentino é mesmo arrogante? Ou ele é tão somente superior à nossa crassa mediocridade?
Aliás, falando em telefone celular, durante a semana toda em que fiquei em Buenos Aires, só vi duas pessoas usando esse aparelho maldito, um pedestre à espera de que o semáforo se avermelhasse para os carros e lhe permitisse a travessia, e uma mulher ao lado de uma banca de jornal, que pareceu-me ser a dona do estabelecimento. E só. Uma semana em uma metrópole e vi apenas duas pessoas portando essa estrovenga.
Acordávamos e tomávamos café no hotel, eu e minha esposa, durante o dia nem parávamos para almoçar, na tentativa de visitarmos o máximo de lugares possíveis, comíamos qualquer coisa para enganar o estômago. À noite, contudo, sempre jantávamos em algum restaurante. Em nenhum momento, em nenhuma das noites, em nehum dos restaurantes e bares em que nos sentamos, eu vi uma única pessoa falando ao celular, ou a mandar mensagens.
O argentino, pareceu-me, gosta de conversar com pessoas, não com telas de telefones. Muito provavelmente seja porque ele tem o que conversar, tem assunto, tem conteúdo, tem o que compartilhar e até o que discutir e brigar, se for o caso. Será que o argentino é mesmo arrogante? Ou ele é tão somente superior à nossa crassa mediocridade?
Aliás, ainda falando dos diferentes comportamentos e valores do portenho, eu também não vi nenhum desses carrões importados pelas largas avenidas de Buenos Aires, nenhuma dessas camionetonas que mais parecem um blindado de guerra, nenhum idiota a trafegar com os alto-falantes do carro a berros máximos.
Vi várias vezes a seguinte cena : o argentino, à noite, descia de seu carro comum, popular, muitas vezes com sua esposa e filhos, e entrava em uma galeria onde havia várias salas de teatro. Sim, da mesma forma que aqui existem dezenas de salas de cinema em um shopping, há galerias e mais galerias de salas de teatro pelas avenidas de Buenos Aires. Será que o argentino é mesmo arrogante? Ou ele é tão somente superior à nossa crassa mediocridade?
O argentino não é arrogante. Ele é superior culturalmente. O argentino médio é, de fato, imensamente superior ao brasileiro médio. Arrogante é aquele que esfrega sua superioridade nas fuças dos ignorantes, que a usa para constranger o idiota. 
O argentino não esfrega sua superioridade nas ventas de ninguém, ele apenas não a nega, não a esconde, não se faz de humilde nem de falso modesto. Que é do que o brasileiro mais gosta, que alguém que lhe é visivelmente superior diga que não, que não lhe é superior, que lhe é um igual. 
E o vinho, eu ia me esquecendo, o vinho argentino... Bem melhor que o nosso, e bem mais barato.
Por isso, não adianta ficar a reclamar de nossos queridos hermanos, dizer que são nojentos e insuportáveis. Querem confrontá-los de verdade? Estudem mais, eduquem-se, ilustrem-se e, claro, produzam melhores vinhos. Não será com piadinhas que os superarão, ou, mesmo, os igualarão.
Não adianta : o argentino é superior. Tão superior que até o Espírito Santo preferiu um deles para Papa. 
Morte rápida e vergonhosa à Igreja Católica, mas longa vida ao monopulmonado Francisco I, o Papa que come churrasco e anda de metrô.

Em tempo : saiu o ranking do IDH, elaborado pela ONU. Entre os 187 países analisados, a Argentina ocupa a 45ª posição, o Brasil, a 85ª. 

quarta-feira, 13 de março de 2013

O Papa é Argentino : Agora, Aguentem.

Pããããta que o pariu! O novo Papa é argentino. A fumaça que saiu da chaminé era de churrasco, o cálice com o vinho será trocado pela cuia com chimarrão e a hóstia, pela empanada.
O sábio colunista da Folha de São Paulo, José Simão, já previra as possíveis consequências da eleição de um Papa argentino : A Evita será canonizada, o Maradona virará coroinha e o Pelé será declarado o anticristo; aliás, Papa argentino não pode, o argentino já se considera deus, aí é acúmulo de função.
E é justamente dele, do impagável Don Diego Maradona, a melhor declaração sobre a eleição papal : "O Deus do futebol é argentino, e agora o Papa também."
Perfeito! Maradona sabe bem do que fala, ele é também conhecido como la mano de dios, alcunha ganha por um gol de mão marcado contra a Inglaterra na disputa pelas quartas de final da Copa do Mundo de 1986. A Argentina venceu a partida por 2 x 1, precisamente graças ao gol feito por la mano de dios, eliminando a Inglaterra da disputa.
Eu até que ia dar uma lida em duas ou três análises sobre a eleição do novo Papa, mas nem vou perder tempo, fico com a declaração de Dieguito, mais sucinta e, ao mesmo tempo, abrangente, impossível.
E Dom Odilo Scherer se fodeu! O cardeal brasileiro, um dos mais bem cotados na bolsa internacional de apostas (sim, havia uma bolsa de apostas sobre quem seria o novo Papa), perdeu pro argentino. 
Acho que Dom Odilo levou um gol de mão do Espírito Santo. Brasileiro é aquela água, tá sempre perdendo pra argentino. No futebol, quase sempre; na cultura, nem se fala, é até sacanagem, os argentinos são um dos povos que mais leem no nundo; e agora até na fé, até na religião, até na ignorância - marca registrada e orgulho da nação canarinho - o brasileiro está a perder pro argentino.
E o sinal da cruz sofrerá uma ligeira mudança. Deixará de ser "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo"; passará a ser "em nome do Pai, de los Hermanos e do Espírito Santo.

terça-feira, 12 de março de 2013

A Histórica Injustiça Às Duplas Personalidades

Seja na literatura, cinema ou quadrinhos, as duplas personalidades - os duplos - sempre sofreram inomináveis injustiças, foram concebidas invariavelmente como manifestações perniciosas de uma personalidade primária, essa, sim, reta, proba e produtiva socialmente. Nunca foi pensada situação inversa, um calhorda que tenha desenvolvido um duplo honesto.
O duplo é feio, ruim, deformado física, moral ou mentalmente, sujo, asqueroso, assustador, pervertido, punível.
O dr. Jekyll,
médico e dândi vitoriano, para começar com o exemplo mais clássico e representativo, toma um goró dos fortes e Mr. Hyde, uma instância mais primitiva de seu cérebro, é libertado : atarracado, simiesco, arruaceiro e beberrão, se esgueirando pelos muros, saindo e chegando pelos fundos da residência de Jekyll.
Construído de partes avulsas de vários cadáveres, costuradas a lhe dar forma vagamente humana, o Monstro de Frankenstein, abrutalhado, tosco, pinos no pescoço e - o pior - com a cara canastrona de Boris Karloff, é o duplo de seu criador, Victor Frankenstein, cientista e nobre.
Ainda na literatura inglesa, há Dorian Gray e seu duplo, o retrato, gêmeo escondido no porão e depositário de todos os vícios da alma do viadinho Gray.
Pulando para os quadrinhos, aparece o dr. Robert Bruce Banner - eminente físico nuclear, bonzinho, obediente, comportado, noivo de uma moça boazinha, obediente e comportada - e o casca grossa Hulk, seu duplo liberto pela radiação gama, burro como ele só, cinza, monossilábico, um bate-estaca humano, um Jekyll/Hyde da era atômica; inclusive e também, o Hulk, com a cara do Boris Karloff nos desenhos originais de Jack Kirby, um Frankenstein dado à luz pela radiação ao invés da eletricidade.
Harvey Dent, promotor público e loiro paladino da justiça, ao ter metade de seu rosto desfigurada por ácido, viu surgir Duas-Caras, seu eu-psicótico, homicida e arqui-inimigo de Batman, outro que também não é muito bom da "bola".
No cinema, Jerry Lewis também se arriscou na dicotomia Jekyll/Hyde em "O Professor Aloprado" e quase inverteu o estereótipo; no filme, o duplo do professor dentuço, de jaleco e quatro-olhos, é um cara bonito, bem-apessoado e bem-falante, brilhantina nos cabelos, voz de crooner de big band. Quase foi quebrado o paradigma, mas Jerry não resistiu: o bonitão era um cafajeste e mau-caráter a não ter mais tamanho.
Ah, desprezem, por favor, a refilmagem de "O Professor Aloprado" feita por Eddie Murphy, onde ele obteve a proeza de cagar na entrada e embostear na saída.
Ainda no cinema, a belíssima, de olhos faiscantes e sedenta de sangue, pantera negra que estufa, rompe a pele e aflora da belíssima, de olhos faiscantes e sedenta de sexo, Nastassja Kinsky em "A Marca da Pantera", e que acaba seus dias enjaulada em um zoológico londrino aos cuidados do veterinário, ex-amante de Nastassja.
Injustiças, camadas e mais camadas, eras geológicas de injustiças contra as duplas personalidades.
Eu também tenho meu duplo, meu alterego, o Azarão. Que é quem vos escreve nesse blog e hoje cedeu-me esse pequeno espaço, o qual teimo em alargar.
O meu duplo gosta de tomar rum sentado nos telhados de prédios, gosta de andar de madrugada por ruas pouco seguras, gosta de bandas de rock'n'roll em bares esfumaçados, gosta de mijar pela janela do apartamento em noites de tempestade, de travessias noturnas equilibrando-se por sobre tubulações de esgoto que vão de margem a margem do rio, de sentar-se em escadarias ásperas de praças mal-cuidadas e, tomando um bom vinho barato, tinto e seco, jogar conversa fora e assistir à madrugada se diluir.
Meu duplo não é mau-caráter, não tem dentes tortos ou pontudos, nem enormes unhas sujas ou hálito fétido, não é retardado, não é psicopata, não ataca, morde, assusta ou faz mal a ninguém. E escreve bem melhor que eu.
Por isso, estou pensando em fundar uma ONG em defesa dos alteregos, fazer homologar um estatuto de proteção aos direitos dos duplos, instituir um Dia Nacional da Consciência dos Duplos e adotar uma política de cotas para eles em Universidades e concursos públicos.
Afinal, por que as duplas personas não podem ser, ambas, igualmente belas, vivazes e inteligentes, como no meu caso?