domingo, 14 de julho de 2013

Bukowski, Insuportavelmente Lúcido

já vi mendigos demais com os olhos vidrados bebendo vinho barato debaixo da ponte 
você se senta comigo
no sofá
nesta noite
nova mulher.

você já viu os
documentários
sobre animais carnívoros?

eles mostram a morte.

e agora me pergunto
que animal entre
nós dois
devorará
primeiro o outro
física e
por fim
espiritualmente?

nós consumimos animais
e então um de nós
consome o outro,
meu amor.

enquanto isso
prefiro que você vá
primeiro e do primeiro jeito

se os gráficos de performance passadas
significarem alguma coisa
eu certamente irei
primeiro e do último
jeito.


para Al... 
não se preocupe com rejeições, parceiro,
eu já fui rejeitado
antes.

algumas vezes você comete um erro, pegando
o poema errado
o mais comum para mim é cometer o erro de
escrevê-lo.

mas eu gosto de uma montaria em cada corrida
mesmo que o homem
que organiza a largada da manhã

a coloque pagando 30 por um.

tenho que pensar na morte mais e mais

senilidade

muletas

poltronas

escrevendo poesia púrpura com a
caneta pingando

quando mocinhas com bocas
de piranha
corpos como limoeiros
corpos como nuvens
corpos como flashes de luz
pararem de bater à minha porta.

não se preocupe com rejeições, parceiro.

fumei 25 cigarros esta noite
e você sabe sobre a cerveja.

o telefone tocou apenas uma vez:
era engano.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

UFC das Aranhas (Ou : Têm Octópodes no Octógono)

Em meio ao quiproquó causado pela luta entre entre Anderson Silva x Chris Weidman - suspeitas de farsa, resultados manipulados, quero revanche, não quero revanche e, principalmente, milhões e milhões de dólares -, surge um belo exemplo de esportividade. Exemplo que só poderia mesmo ter partido de uma mulher, uma lutadora feito Anderson Silva.
Antes de todas as lutas, os atletas passam pela etapa da pesagem, o momento em que os lutadores verificam se estão de acordo com os pesos de suas categorias. Também é a hora em que os futuros adversários se encaram, confrontam-se com os olhos nos olhos, é o momento dos machos tentarem intimidar o inimigo com olhares duros e caras feias.
A lutadora sueca Mikaela Lauren, porém, surpreendeu sua adversária, a alemã Christina Hammer. Na hora de encará-la, a sueca tascou-lhe um beijo na boca! Loucura, loucura, loucura!!!
Maravilha! Vai ter briga de aranha no UFC! Aranhas têm oito patas, o ringue do UFC, oito lados, vai ter roça-roça de octópodes no octógono. Tudo se encaixa perfeitamente! Aranha encaixa com aranha, sim. Pode parecer que não, mas encaixa, é só ir com jeitinho que encaixa, que cola, velcro com velcro.
Não posso nem pensar!!!
Profeta é profeta, Raul é Raul : "E ninguém vai acreditar/Eu vi duas mulher/Botando aranha prá brigar..."
A sueca é a desafiante da luta que valerá o cinturão dos pesos médios. Médios? Médios o caralho! Excelentes, pesos excelentes.
A alemã até pode ter sido surpreendida pelo beijo da sueca, mas que gostou, gostou, como bem se pode ver pelo risinho sacana e sensual da atual campeã. E quem é que não teria gostado?

Paraguai Rejeita Médicos Made In Cuba

O Paraguai tem a sua imagem atrelada ao contrabando, às falsificações ordinárias, à pirataria de bebidas, perfumes, cigarros, roupas, calçados, brinquedos e eletroeletrônicos em geral.
É o  país da "la garantia soy yo".
Embora a China esteja ostensivamente invadindo esse nicho mercadológico, até hoje, quando um produto possui qualidade e origem duvidosa, dizem : é do Paraguai.
Quem nunca tomou aquele whiskão do Paraguai e, depois, no dia seguinte, vomitou até a alma enrolada nas tripas? Uma vez, na época de minhas andanças por Mogi Mirim, em casa de meu amigo queimador de rosca, o Margá, tomei um tal de White Horse - que tava mais para pangaré desbotado -, que ele havia trazido de suas viagens à tríplice fronteira. Pããããããta que o pariu!!! Tá certo que eu entornei praticamente sozinho a garrafa, mas...pããããããta que o pariu!!! Aquilo era iodo puro. Pelo menos, desinfetou tudo por dentro.
Inúmeras são as histórias de quem comprou algum aparelho no Paraguai, em caixa fechada, e, quando abriu a embalagem, descobriu que levara um tijolo ou coisa parecida. Nos áureos tempos do videocassete, levar tijolo por VHS era usual e costumeiro, era um clássico.
Há até quem já tenha levado sarrafo de madeira por calculadora. Um grande amigo de meu grande amigo Fernandão esteve, em certa feita, em terras paraguaias e se encantou por umas calculadoras a preço de pechincha, dessas de teclas coloridas, que fazem barulhinho etc, não muito comuns há mais de duas décadas, quando se deu a história.
Ele mandou logo o balconista embrulhar uma caixa fechada com, sei lá, umas cinquenta calculadoras, já a antever um polpudo lucro. Chegou de viagem e nem desfez as malas, foi logo abrindo sua pequena minha de ouro. Não havia uma única calculadora sequer. Em lugar, paralelepípedos, blocos de madeira cortados em iguais tamanho e forma aos das calculadoras. E o filho da puta do paraguaio ainda teve a pachorra de pintar os números e as operações matemáticas na madeira.
A língua do povo, que é o único músculo que ninguém tem preguiça de exercitar, não teve piedade : ficaram conhecidas como as calculadoras RIPA.
Pois justamente o Paraguai, terra de gente tão proba e ilibada, justamente o Paraguai, uma das mecas mundiais do fac-símile, da falsificação, rejeitou, por considerá-lo de baixíssima qualidade, um produto made in Cuba, um dos artigos mais exportados pelo titio Fidel : os famosos médicos cubanos.
Isso mesmo. Os mesmos médicos que Dilma Rousseff pensava em trazer para cá. Nem o Paraguai os quis. Falsificação tem limites, disseram os paraguaios, de falsificação, nós entendemos, querem ensinar o padre-nosso ao vigário? Quem melhor que os paraguaios, os mestres do simulacro, para atestarem a ilegitimidade de um produto?
A comparação entre os currículos dos cursos de medicina dos dois países, Cuba e Paraguai, mostrou claramente que o currículo da Escola de Medicina de Cuba (ELAM) é medíocre.
Aníbal Filartiga, o reitor da Faculdade de Medicina da Universidade Nacional do Paraguai, afirma que os médicos cubanos não possuem qualificações para exercer a medicina no Paraguai : “médicos cubanos têm habilidades e conhecimentos de uma licenciatura em Enfermagem”.
Licenciados em enfermagem! E isso se comparados a um currículo made in Paraguay. Que dizer, então, se comparados a uma USP, a uma Unesp, à Santa Casa, a uma Federal, a uma Unicamp? Seriam o quê, os médicos cubanos que o PT queria nos enfiar goela abaixo? Técnicos em enfermagem, curandeiros, benzedores, pajés, macumbeiros, pais de santo, sacerdotes de vodu?
Não é à toa que, aqui no Brasil, os cubanos não seriam submetidos a nenhuma prova que aferisse suas perícias, eles chegariam e começariam a clinicar, automaticamente. O motivo é óbvio : jamais seriam aprovados! A farsa cairia rapidinho, a vergonha cobriria as barbas de Fidel. Não são médicos de fato, são, parafraseando Lula, picaretas com anel de doutor.
Tomemos, pois, como exemplos para atestar a qualidade da medicina cubana, três filhotes de Fidel : Hugo Chávez, Lula e Dilma Rousseff, os três com quadros de câncer. 
Hugo Chávez foi fiel a seus princípios, confiou plenamente no regime de Fidel, tratou-se em Cuba, com os míticos médicos cubanos : morreu! Chávez confiou na medicina cubana até a morte, literalmente. 
Nesse aspecto, Chávez levou à prática o que apregoava nos palanques, foi muito mais honesto que Lula e Dilma, que, vejamos, trataram-se de seus tumores onde? Ambos no Hospital Sírio-Libanês. Mais burguês e de direita é impossível, hein, companheiros proletários? E estão vivos.
Os entusiastas de Cuba contra-atacarão, dirão que três exemplos não têm nenhuma validade estatística. Não têm mesmo. E por isso são confiáveis, são reais. Nada é mais irreal, não confiável e sórdido do que um universo estatístico. 
A Estatística é o agente secreto das Humanas infiltrado nas Exatas. É o lobo em pele de cordeiro. A Estatística é canalha, é tendenciosa, falseia dados, induz, faz aproximações, acochambra, distorce, é sofismática. A Estatística, pããããta que o pariu, é a filosofia das Exatas.
E era com esses falsos esculápios cubanos que o PT queria entulhar ainda mais os hospitais públicos. Dilma e Lula jamais colocariam as suas vidas e as de seus familiares nas mãos desses impostores cubanos. Nem as hemorroidas presidenciais, eles confiariam aos agentes de Fidel. 
Sim, agentes, paus-mandados de Fidel Castro, o ditador mais querido dos democratas brasileiros. Ou alguém duvida que o principal objetivo desses "médicos" seja disseminar as ideias comunistas nos estratos mais pobres da população e ir aplainando o terreno para a tão sonhada (por eles, Dilma etc), e nunca esquecida, e nunca engavetada, instalação da ditadura do proletariado, ou seja, transformar o Brasil num país vermelhoide?
De Cuba, prestam os charutos e o rum. Só que eu não fumo, e o figadão velho não aguenta mais uma disputa de 12 rounds pelo título contra uma garrafa de um bom rum.
Lança, Cuba, Cuba lança, Quero ver Cuba lançar.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Não É Carnaval, Mas É Madrugada (12)

Uma das melhores letras de Erasmo Carlos, só dele, o Roberto nem passou perto.
Foi pisado pela escola, morreu de samba, de cachaça e de folia... Bonito pra cacete!
Cachaça Mecânica
(Erasmo Carlos)
Vendeu seu terno
Seu relógio e sua alma
E até o santo
Ele vendeu com muita fé
Comprou fiado
Prá fazer sua mortalha
Tomou um gole de cachaça
E deu no pé...


Mariazinha
Ainda viu João no mato
Matando um gato
Prá vestir seu tamborim
E aquela tarde
Já bem tarde, comentava
Lá vai um homem
Se acabar até o fim...


João bebeu
Toda cachaça da cidade
Bateu com força
Em todo bumbo que ele via
Gastou seu bolso
Mas sambou desesperado
Comeu confete
Serpentina
E a fantasia...


Levou um tombo
Bem no meio da avenida
Desconfiado
Que outro gole não bebia
Dormiu no tombo
E foi pisado pela escola
Morreu de samba
De cachaça e de folia...


Tanto ele investiu
Na brincadeira
Prá tudo, tudo
Se acabar na terça-feira...


Vendeu seu terno
E até o santo
Comprou fiado
Tomou um gole
João no mato
Matando um gato
Naquela tarde
Lá vai o homem...


João bebeu
Toda cachaça da cidade
Bateu com força
Em todo bumbo que ele via
Gastou seu bolso
Mas sambou desesperado
Comeu confete
Serpentina
E a fantasia...


Levou um tombo
Bem no meio da avenida
Desconfiado
Que outro gole não bebia
Dormiu no tombo
E foi pisado pela escola
Morreu de samba
De cachaça e de folia...


Tanto ele investiu
Na brincadeira
Prá tudo, tudo
Se acabar na terça-feira...

terça-feira, 9 de julho de 2013

Rei Na Barriga

O brasileiro odeia a democracia. Dá-se ares de aristocrata, quer e exige tratamento de fidalgo. Quer ser tratado com distinção e privilégios. Haja vista os inúmeros Estatutos em nossa Constituição a conceder regalias a certos segmentos da população, certos segmentos que se dizem perseguidos. No Brasil, ser tratado como um igual, como qualquer um, que é o que somos, quaisquer uns, é perseguição. Para o brasileiro, democracia é preconceito, é discriminação. O brasileiro quer honrarias de nobreza.
Exagero?
Vejamos alguns prosaicos exemplos.
A sede do governo dos EUA é a Casa Branca; casa, moradia, residência.
A sede do governo federal do Brasil é o Palácio do Planalto; palácio, uma vasta e suntosa morada de um monarca. E só no Distrito Federal são vários os palácios, tem mais que na Grã-Bretanha : Palácios da Alvorada, do Buriti, do Itamaraty, do Jaburu (que deve ser onde a Dilma mora), do Congresso Nacional, da Justiça (não confundir com a Sala de Justiça, dos Superamigos), do Supremo Tribunal Federal.
Os governos estaduais também os possuem : Palácio dos Bandeirantes (SP), do Catete (RJ), das Magabeiras (MG), do Ministério Público (RS) etc.
Até qualquer merdinha de prefeitura têm suas residências de Buckingham, toda sede de prefeitura é Paço Municipal.
E a alma monárquica do brasileiro não se restringe aos poderes públicos, ela se estende aos estabelecimentos comercias : O Rei do Pão de Queijo, O Palácio dos Enfeites, O Império das Tintas, e por aí coisa segue, sem fim, indefinidamente.
Que que eu sou? Que que eu sou? Que que eu sou? Sois rei! Sois rei! Sois rei! 
Somos todos absolutistas.

The Spider Está Morto, Viva Anderson Silva

Vi e revi, por umas quatro ou cinco vezes, a última luta de Anderson Silva, ocorrida no sábado passado (06/07) e em cujos 78 segundos do segundo round, o campeão caiu, foi nocauteado. 
Caiu pelas mãos de Chis Weidman, um lutador pouco cotado para derrotar um campeão invicto há 7 anos e que já havia defendido com êxito o cinturão dos pesos-médios em 10 ocasiões, um azarão dos ringues - os azarões são os seres mais perigosos do planeta, por imprevisíveis, por não serem confiáveis, por subestimados.
Uma derrota (ou uma vitória, depende do prisma) atípica.
Muito mais atípico, porém, que a inesperada derrota, foi o comportamento de Anderson Silva durante o combate, desde o início da contenda.
Ele nem parecia um lutador, de técnica e disciplina tão elogiadas, prestes a defender novamente o cinturão de sua categoria. Nada de cenho franzido, nada de caretas para o adversário, nada de maxilares constritos, nada de músculos retesados e peito estufado feito um baiacu, que se infla para parecer maior e mais ameaçador ao seu oponente.
Pelo contrário. Anderson estava sorridente, relaxado, bailou pelo ringue com a alegria de um dançarino de frevo ou de maracatu, ou impávido como Muhammad Ali, como diria Caetano, ou como quiseram alguns comentaristas, que relacionaram a ginga de Anderson à do nascido Cassius Marcellus Clay Jr. 
Discordo. Cassius Clay provocava, espezinhava, queria humilhar seus rivais, diziam que ele voava como uma borboleta e ferroava como uma abelha. 
Anderson não quis ferroar ninguém, não provocou, não desrespeitou, não fez pouco de seu adversário, só brincou com ele, até beijou o sujeito. Uma alegria que só os que são muito seguros de si e do que estão fazendo são capazes de demonstrar. Anderson só queria voar.
Uma alegria de quem jamais poderia antever o desfecho da luta, a derrota? Uma alegria de quem, ciente de sua explícita superioridade, tinha a certeza de mais uma vitória? Não e não! De novo, o oposto.
Anderson estava alegre, não como quem estivesse a defender um título, uma aparência; mas alegre como quem estivesse a se desvencilhar dele.
Uma alegria que poucos experimentam em suas vidas, uma alegria a que poucos se dão a coragem de experimentar : a da queda.
Ele estava alegre, dançava de contentamento, um verdadeiro moleque, justamente porque já antevia a derrota, planejou-a, flertou propositalmente com ela. Não cabia em si de contentamento porque, mesmo não tendo dúvidas de sua superioridade, sabia que ia perder, dispôs-se a isso.
Há algum tempo que Anderson Silva manifesta o desejo de se aposentar dos ringues - acho que ele tem vistas ao cinema, ou coisa assim. Mas um campeão não se aposenta fácil, não lhe basta querer. Obrigações contratuais têm de ser cumpridas, o público tem de ser saciado. Os empresários e os fãs têm sede do sangue do campeão, não o deixam ir tão fácil, querem vê-lo lutar. Lutar, lutar e lutar. Todos os fracos e covardes incapazes de lutar querem o sangue, o suor e alma do campeão. Enquanto ele for campeão.
Como se livrar de tudo isso? Do vampirismo/canibalismo dos fracos? Óbvio : deixar de ser campeão, tornar-se desinteressante à antropofagia. Em outras palavras : perder, deixar-se derrotar, simular fraqueza.
A alegria de Anderson era a de quem planeja a própria derrota, o próprio descanso, de quem escolhe as flores para o próprio funeral.
A insustentável leveza do bailarino de luvas era a de quem sabe que está prestes a se livrar de grande peso, uma leveza antecipada.
A alegria esfuziante de Anderson era a de um funcionário público à véspera da aposentadoria, em seu último dia de expediente, o último dia de anos e mais anos de enfadonho e burocrático trabalho - sim, não se enganem, todo trabalho, não importa de que natureza, com o tempo, acaba por se tornar enfadonho e burocrático, até mesmo amassar narizes, romper supercílios e esmigalhar maxilares.
Anderson estava alegre porque, através de sua derrota, estava prestes a obter sua maior vitória : sua liberdade.
Para um campeão, para um número um, nada liberta mais que a derrota.
A derrota planejada do campeão é uma vitória sobre si mesmo, sobre a sua vaidade. Para o campeão, vencer é um ciclo vicioso, uma espécie de transtorno obsessivo compulsivo. Ele vence, vence, vence... e tem que estar sempre a vencer. É enlouquecedor.
Romper com esse ciclo, dar um basta à obsessão, não é trabalho de Hércules dos mais simples : é coisa mesmo de campeões. Dos verdadeiros. Dos que percebem que devem deixar de ser campeões enquanto é tempo, para não serem consumidos por seus mitos até que não lhes reste mais que pele e ossos.
Dar as costas ao pódio, ao panteão, é mesmo coisa dos verdadeiros campeões. 
Dos poucos que alcançam a serenidade de olhar quem os derrotou e saber que poderiam tê-los massacrado, mas não quiseram, não lhes era importante. A serenidade de quem não precisa massacrar ninguém para se afirmar, a serenidade de quem é o seu próprio alicerce, de quem se constrói fundado em suas qualidades, e não sobre os defeitos e os ossos de outros.
Dos raros que alcançam, principalmente, a serenidade de conviver com os olhares acusadores - muitas vezes, jocosos - da opinião alheia.
A máxima vitória do campeão que se deixa abater é essa : não se importar com a opinião dos outros, dos que lhe são estranhos, não precisar dos holofotes para construir sua autoimagem e manter brilhante o seu lume, é conservar a própria luz sem precisar que outros fiquem lhe pondo pilha.
Para Chris Weidman, e para todos os que assistiram ao combate, foi mais uma luta, mais uma demonstração de som e fúria.
Para Anderson, foi um casulo. Do qual ele saiu metamorfoseado em algo muito superior. O mito entrou no casulo, emergiu dele o homem. Entrou The Spider, eclodiu Anderson Silva.
Não foi Weidman quem derrotou o imbatível Spider, Weidman foi só o avatar, o vetor. Anderson Silva derrotou The Spider! Anderson migrou de corpo, incorporou em Weidman e nocauteou The Spider. Ou nem se deu ao trabalho, apenas saiu de Spider e ficou assistindo a ele beijar a lona. O mito não aguenta mais que alguns instantes sem o homem. É um idiota quem acha que o mito sustenta o homem.
O verdadeiro homem é aquele que desconstrói seu próprio mito, aquele que o esquarteja, e o oferta como última refeição aos urubus de plantão.
Não é o super-homem quem suplanta o homem. O verdadeiro homem é quem suplanta o super-homem, o Übermensch, o além-do-homem, é quem desfaz a própria farsa e, além do além-do-homem, reencontra e redescobre o homem.
Anderson Silva, ao se deixar nocautear por um inferior, superou-se, foi além do além-do-homem em que havia se tornado. Reencontrou, feliz, o homem. Tanto que nem pensa em revanche, muito menos em revanchismo.
Morreu Spider, Viva Anderson Silva!!!
Morreu o mito - mais um, igual a todos os outros -, viva o homem, único, singular e intransferível!
Parabéns pela gloriosa carreira de vitórias, Spider!
Parabéns pela fragorosa derrota, Anderson Silva!

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Dos Gatos (II) - (Ou : Eclipse Lunar)

Não te vejo mais pelos telhados
Às beiras dos quais nos sentávamos
E descansávamos nossas máscaras,
Nem nas adegas onde nos ensolarávamos,
Nem nas pontes suspensas por sobre os rios poluídos
Onde arremessávamos nossos pecados
E que nos cantavam dolentes canções de ninar.
Não te vejo mais, não te encontro,
Não nos coincidimos.
Éramos os filhos diletos da probabilidade
Hoje, meros dados estatísticos.

Não te vejo mais pelas ruas em que movimento.
Mudaram as vias, as rotas, as mãos, as preferenciais,
Fizeram - e não nos deram -
Um novo mapa-múndi desse labirinto.

Não te voo mais nos ares pelos quais me vento, 
Os fôlegos e as transpirações
Não te têm mais em seus cansaços,
Em seus vapores.
Os escapamentos dos carros, as queimadas
E os cigarros que se jogam fora sem apagar
Não te exalam mais, cremada e carbonizada.
As flores e as lojas de perfumes 
Não ofertam mais amostras grátis de ti.

Não te vejo mais andar 
Pela corda bamba do crepúsculo
Nem saltar de olhos vendados
Do trapézio de cores e de sangue
Que faz o traslado do dia para o breu.
Não te vejo mais castanha pela noite,
Que dizem ser a cor que os gatos aparentam a tais horas.

Estilhacei todos os relógios das paredes,
Atrasei todos os espelhos 
De minha biblioteca de livros não publicados.

sábado, 6 de julho de 2013

Acharam o Dedo do Lula

Não sei se já escrevi alguma vez, ou se só pensei em escrever e depois me escapou, como acontece com 90% do que penso em registrar aqui, mas considero de fato o ex-presidente Lula o representante maior da esquerda brasileira, a sua imagem mais fidedigna. Ele e a sua mão esquerda a faltar o dedo mindinho são emblemáticos, simbolizam a esquerda aleijada, canhestra e inconsistente do país. Aliás, ainda existe alguma esquerda consistente em algum lugar do planeta? Existiu algum dia?
A mão de quatro dedos de Lula - igual às dos personagens da Disney e dos Simpsons - é originária de um acidente sofrido em 1963, quando ele trabalhava - sim, parece que Lula já trabalhou um dia - como torneiro mecânico na Metalúrgica Independência, de São Bernardo do Campo.
Dizem, inclusive, não sei se procede ou não, que o tal acidente teria sido proposital, como forma de obter uma aposentadoria precoce, por invalidez, para mamar nas tetas do INSS desde cedo. Verdade ou não, o caso é que antigamente - já ouvi muitas histórias dos idosos em minha época de criança - essa era uma prática muito comum entre os operários de certas áreas : um dedo perdido em troca dos anos e anos que ainda teriam que trabalhar pesado, em ambientes e condições precárias e exaustivas de trabalho. Trinta anos suando feito um porco e cheirando a graxa, trinta anos submetido aos barulhos literalmente ensurdecedores das máquinas, trinta anos batendo cartão de ponto, pegando ônibus lotado e comendo de marmita. Trinta anos abreviados para uma fração de segundo, o tempo que leva para se perder um dedo no torno. Pensando bem, não é escambos dos piores, ainda mais o dedo mínimo da mão esquerda, o mindinho só serve, quando serve, para coçar o ouvido e limpar o nariz, não faz grandes faltas.
Ano do Senhor de Um Mil Novecentos e Sessenta e Três : esse que vos fala, e que hoje já sente o peso da idade, nem era nascido, eu estava ainda na fila da reencarnação, tentando ir para o fim dela, e o companheiro Lula já era aposentado, já estava com tempo livre para fazer suas greves.
De qualquer forma, o mítico dedo do companheiro metalúrgico foi encontrado, ou, pelo menos, teve seu destino descoberto. O arqueólogo, digamos assim, que desvelou tal mistério histórico foi, e nem podia deixar de ser, um médico, uma médica, na verdade.
Ela revelou sua descoberta em uma das manifestações da classe médica contra a "importação" de médicos cubanos para trabalhar no sistema público de saúde brasileiro. Eu também sou contra mais essa palhaçada dos vermelhoides do Planalto. Médicos cubanos para quê? 
Que tal investir mais na formação de nossos médicos e na melhoria dos hospitais? Que tal pagar um salário decente para os médicos, vencimentos que os livrem de ter que, muitas vezes, trabalhar em vários hospitais, de dobrar, triplicar turnos e, assim, serem forçados a oferecer um atendimento de baixa qualidade? Nem sempre a competência encontra ambiente adequado para se manifestar, e aí culpa-se o profissional, quando deveria ser responsabilizado o Estado que não lhe proporciona as condições mínimas de trabalho.
Ainda mais que esses médicos cubanos simplesmente chegariam aqui e começariam de pronto a exercer seu ofício, sem passarem por nenhuma prova que ateste suas competências, sem nenhum crivo seletivo, a não ser o fato de serem cubanos. Será algum tipo convênio entre o tio Fidel Castro e os mal-acabados ditadores sul-americanos, Lula, Dilma, Morales etc? Dívidas da época em que os da esquerda brasileira iam para Cuba receber treinamento paramilitar e, com ele, assaltar bancos, sequestrar embaixadores, tramar assassinatos e tentar instalar a ditadura do proletariado em nossas terras varonis?
Mas voltando, a médica manifestante em questão ergueu seu cartaz e revelou o destino do dedo perdido do companheiro ex-presidente.
 Há, há, há, há!!! Genial! E óbvio! O dedo do Lula está enfiado no cu do povo brasileiro, atolado no fiofó da nação. Por que ninguém nunca pensou em antes procurá-lo em tão íntimo e cívico orifício? Não é de hoje que todos sentimos um incômodo na região das pregas, um desconforto de origem indefinida. Indefinida até agora : é o dedo do Lula, enfiado até o talo no cu dos verdadeiros trabalhadores, dos que têm suas mãos com cinco dedos.
Pronto. A manifestação da bonita médica foi o que bastou para revoltar a frustrada, anacrônica e reacionária esquerda brasileira. No começo, perguntei se ainda existe esquerda em algum lugar do mundo. Pois ela existe, não no mundo real, mas sim no virtual, na blogosfera.
Eu nem fazia ideia da quantidade de sites e blogs esquerdistas que há. Numa fuçada rápida de alguns minutos, o quanto meu estômago aguentou sem dar mostras de querer expelir em jatos de vômito a minha suada cerveja de cada dia, achei uma infinidade deles. Todos revoltadíssimos com a moça acima e com outras belas médicas a protestarem contra os cubanos.
Falar mal de cubanos é a morte para os esquerdistas, digam mal de suas mães, mas não dos cubanos.
O blog "Justiceira de Esquerda" colocou os seguintes dizeres sob a foto da moça : "O povo brasileiro quer saber quem é esta profissional que desconhece a ética média e zomba do infortúnio alheio. Esta figura não pode praticar a medicina. Qual o nome dela? Onde trabalha?"
Olha, eu fiquei até com medo pela moça depois que li a legenda sob a foto. Qual o nome dela? Onde trabalha? Isso é que é gana de esganar alguém. Patrulhamento ideológico digno do 1984, de George Orwell.
Se descobrem, vão levantar suas bandeiras vermelhas em frente ao local de trabalho da moça, quem sabe até de sua residência. Não pode praticar a medicina? Quem determina isso? Um bando de marxistas de botequim? E a que infortúnio alheio se referem, ao dedo perdido em prol da aposentadoria?
E o nome do blog, então? Justiceira da Esquerda. Querem coisa mais de direita? Querem coisa mais xerife do velho oeste, mais juventude hitlerista? Querem demonstração maior de recalque contra pessoas bonitas e bem sucedidas, que estudam e se formam ao invés de ficarem esperando  tudo de mão beijada de um Estado pai e patrão, como se lhes fosse um direito de nascença?
Em outro blog, a beleza e a aparência bem cuidada das médicas foi feita em argumento de quem não tem argumento (necessário dizer, de novo, típico da esquerda invejosa?). Por serem moças bonitas e que bem se apresentam, foram rotuladas de patricinhas, adjetivo ao qual fica subentendido um grave juízo de valor, o de que também são incompetentes. De novo, bem próprio da esquerda, fazer juízo de valores de quem não reza o seu pragmatismo idiota, seu discurso fossilizado, de palanque de século XIX, seu panfletismo de grandes massas acéfalas.
Algum desses blogueiros chegou a dizer que os protestos são porque o preço da bolsa Gucci branca subiu muito. Também não nutro grandes simpatias pelas tais patricinhas, talvez menos simpatia ainda do que quem escreveu isso, uma vez que nem imagino o que seja uma bolsa Gucci, e ele, sim. Suponho que seja um produto considerado dos mais fúteis e supérfluos. E daí? Se a pessoa quer comprar a tal bolsa Gucci com o dinheiro de seu trabalho, qual o problema, o que os bastardos da esquerda têm a ver com isso?
E por que ser vaidoso, querer se mostrar minimamente limpo e bem asseado, classifica automaticamente alguém como patricinha? E incompetente? Quer dizer que médico, ou qualquer outro profissional, confiável e competente é o que se apresenta vestido de jeans desbotado, tênis all star (o preferido dos comunistas), camiseta Hering e barba desgrenhada? Só é "do bem" quem encarna o típico visual esquerdista, tão artificial, de boutique e tão fashion quanto o das patricinhas de Beverly Hills, ou das dos Jardins?
Queriam que as médicas vestissem o quê? Camisetas brancas com a foto do Che Guevara?
A propósito do Che, e já que a ética médica da moça do cartaz foi questionada, ele também foi médico, um que bem professou toda a ética dos vermelhos : matou milhares e ajudou a pôr no poder Fidel Castro, um dos ditadores mais longevos da história da humanidade.
Uma outra blogueira disse que jamais se consultaria ou confiaria em uma médica com tal aparência, que prefere mil vezes os médicos cubanos. Ótimo. Que se mude para Cuba, então. Em definitivo, que fique lá vivendo sob a chibata do tio Fidel, que pegue fila para conseguir sua ração mensal de comida - sim, em Cuba a comida é ração, uma vez que racionada, acabaram seus tantos quilos de arroz, de feijão, farinha etc, acabaram. Não tem mais. Não há dinheiro que os compre. Primeiro porque ninguém lá (salvo a cúpula do poder) tem dinheiro; segundo, porque não os há, os alimentos. Aliás, dizem que, em Cuba, a educação deu certo, o esporte deu certo, a saúde deu certo, só três coisas não deram certo por lá : café, almoço e janta todos os dias.
Que se mude em definitivo para lá, que entre no mercado e não encontre sua marca favorita de sabonete, xampuzinho, papel higiênico, absorventes, bolacha ou o que for, que trabalhe feito escrava e nunca tenha sequer a chance de constituir um patrimônio, que more em uma casa cujo título de propriedade nunca será dela, que viva em um regime de real igualdade entre as pessoas, em um regime no qual um tem o que todos têm, quase nada, que viva em um regime que dividiu igualmente não as riquezas, mas sim a miséria, em terras de Fidel, verdade seja dita, todos são igualmente miseráveis, ou seja, que aproveite a consulta com o médico em Cuba e passe a viver em definitivo sob os auspícios de uma verdadeira ditadura.
A mesma blogueira disse que moças com tal aparência (deve ser um tribufu desgraçado, essa blogueira) jamais seriam capazes de se doarem a causas humanitárias. Para um esquerdista, causa humanitária é o trabalho que outros realizam de graça, de preferência para ele, esquerdista.
Ser médico é uma profissão, não uma missão, não um sacerdócio, eles têm que ser tratados, valorizados e remunerados como profissionais, não como abnegados. Os patrulheiros da esquerda nem conhecem as moças e ficam fazendo de juízo de valor negativo delas. Só porque são bonitinhas e bem tratadas. Qual o problema? Elas são médicas, ou estudantes de medicina, não são freiras nem guerrilheiras masculinizadas de suvaco cabeludo. São profissionais que querem receber justa e dignamente pelo que trabalham.
Que existam os bons samiratanos, eu não tenho nada contra. Nem a favor. E não é a profissão que faz o bom samaritano, ele já nasce assim. Pode ser médico, advogado, professor, eletricista, bancário, feirante, lixeiro, jornalista, e até político, se nasceu bom samaritano, vai dar o seu jeito de se doar voluntarimante a alguma causa. Agora, o voluntariado não pode ser considerado pré-requisito para nenhuma profissão
Patricinhas? O que me dizem, então, porta-bandeiras da foice e do martelo, de sua deusa maior, Dilma Rousseff, que gasta mais de 3 mil reais só para se maquiar a cada pronunciamento em rede nacional, e ainda fica aquela desgraça?
Esquerda de araque, é o que vocês são. Esquerda festiva, é o que vocês são, que ficam arrotando teorias para salvar o mundo com seus copos de whisky na mão. Médico cubano tem que ficar por lá, chega de estrangeiros incapazes por aqui.
E quem garante que sejam realmente médicos, o tio Fidel? E ainda que sejam, quem garante que o objetivo não seja infiltrá-los entre as camadas mais pobres da população e doutriná-las para o comunismo? Preparar lentamente o terreno para a instalação da tão desejada ditadura do proletariado, sonho antigo de Dilma e seus companheiros guerrilheiros?
Fora com os cubanos!!!
Quanto ao nome da moça do cartaz, se alguém souber, me diga, para que o devido destaque lhe seja dado e ela seja eleita a musa do Marreta.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Mimetismos (6)

O amor e o petróleo são combustíveis de espantosas similitudes :
Movem o mundo, são caros,
Atros, betuminosos e movediços,
Queimam-se e consomem-se fugazmente.
E a melhor das parecenças:
Podem perfeitamente ser substituídos pelo álcool.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Decepção, Decepção, Danço Eu, Dança Você...

A foto acima mostra parte de uma comitiva de músicos que foi ter com Dilma Rousseff nessa quarta-feira, 03/07. O assunto : mudanças na maneira do Ecad em gerir os direitos autorais no país. 
O Ecad - Escritório Central de Arrecadação e Distribuição - é uma organização privada que, teoricamente, é responsável pela a arrecadação e distribuição dos direitos autorais das músicas aos seus autores. Arrecadar, com certeza, arrecada; distribuir aos artistas, já é outra história.
Há décadas que ouço reclamações sobre o Ecad, como se ser sócio do órgão fosse algo obrigatório para o músico, como se fosse o imposto de renda, o IPTU, o ICMS etc. Não é. Os artistas se filiam espontaneamente ao Ecad, ou suas gravadoras os filiam, deixam a responsabilidade pela fiscalização de suas obras a terceiros.
Não seria muito mais fácil todos se desfiliarem do Ecad ao invés de ficarem reclamando? Artista é muito do acomodado. Lobão já deu a dica há muito tempo : o negócio é mandar as gravadoras e o Ecad às putas que os pariram, o negócio é produção independente, é vender CD em bancas de jornais, o negócio é autografar CD pirata que moleque compra do chinês, o mesmo moleque é que vai no show do cara, que é onde o artista ganha dinheiro, nos shows.
Voltando à foto, a maioria ali presente não me surpreendeu : Roberto Carlos, Fafá de Belém, Caetano Veloso, Carlinhos Brown com o Emicida ao lado ( um rapper de terno e gravata e indo prestar salamaleques à "presidenta", dá pra levar a sério?), o cara do Jota Quest, mais uns três ou quatro que devem ser pagodeiros, tem até, me parece, uma índia com cocar (ou alguém com cocar querendo parecer índia) no canto direito da foto, ao lado de Fernanda Abreu, que, indiscutivelmente, teve seu auge há três décadas como a vocalista gostosa da Blitz. O resto, desconheço, e estou bem assim.
Até aí, tudo certo,  nenhuma surpresa, tudo gente cooptada, burocratas da canção. Tudo gente acostumada a receber benesses estatais, todos parasitas da Lei Rouanet.
Sobre essa turma, sempre a alisar as tetas do governo, já disse Fagner : "artistas costumam agir em bando, só seguindo a manada. Querem sempre ser "bonzinhos", "de esquerda", "do bem" – e, muitas vezes, nem refletem sobre o que estão dizendo."
Mas duas figuras me causaram estranheza, e profunda decepção : Erasmo Carlos, o tremendão, e Roberto Frejat, sempre ao manche do Barão Vermelho.
Porra, Erasmo, acho que sou uma criança e não entendo nada, mas está querendo perder a sua fama de mau? Porra, Frejat, quem é que paga pra você ficar assim? Declare guerra, meu velho, a quem finge lhe amar.
Vocês são dois dos caras mais respeitáveis do rock'n'roll. O rock não pode ficar tomando a benção nem beijando a mão de ninguém, muito menos de uma presidenta de araque, fabricada por ex-presidente analfabeto (o ex se refere apenas a presidente).
No início, falei em comitiva de músicos, mudo minha impressão agora : parece-me mais uma procissão, uma romaria de músicos, todos indo se confessar e tomar a comunhão das mãos de Dilma.  E viram quem está de "coroinha" da Dilma? Marta Suplicy! Fazendo o quê, nem ela sabe.
Chamem, me chamem o Lobão!!!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Jogos de Xadrez

Sentamos mesmo a qualquer mesa 
(Todas são iguais, tão amigas quanto rivais). 
Ouvimos, sem escutar, a música 
Saída de trás do balcão 
(Música que jamais colocaríamos para ouvir em casa, 
Entretanto aqui não nos incomoda). 
Bebemos bebida gelada 
Embora mais propício esteja o tempo 
A estanho fundido. 

Pessoas, máquinas voadoras, e velhas lembranças 
Passam por nós 
Nos vendo passar por elas 
Ainda que estáticos estejamos. 
(Há muito pesam correntes com bolas de inércia presas aos nossos tornozelos). 
Nossa cerveja tem gosto de metal 
Percolado na passagem pelo gargalo com ferrugem 
Deixada pela tampa recém-arrancada. 
(Ouvi dizer ser bom para o sangue, o tal do ferro). 

Embaralhamos nossas vistas 
Promovendo imaginários jogos de xadrez 
No quadriculado azul da toalha da mesa. 
(Nosso jogo sempre fica inacabado). 
Flertamos com mulheres gordas : 
Elas ficam felizes. 
Mas nem assim nos levam para dormir 
Nas suas carnes e camas quentes. 
(Será mais uma noite de intenso frio). 

Voltamos para nossas casas, 
Tão tristes quanto temíamos ficar 
Caso nelas tivéssemos permanecido. 
As ruas, o movimento, a bebida 
São incapazes de cancelar nosso compromisso, 
Nosso encontro marcado com a tristeza. 
E nem a porta com três fechaduras e travas de segurança, 
Coibir sua entrada. 
E que tristeza...! 
Que tristeza danada de doída !

terça-feira, 2 de julho de 2013

Sobre Deusas e Putas

A suprema cúpula da mitologia grega se compunha de 12 deuses maiores - Zeus, Hera, Atena, Apolo, Afrodite, Ares, Dionísio, Hefesto, Deméter, Poseidon, Artêmis, e um outro que não me lembro nem a pau agora - e de uma infinidade de deuses menores, divindades do baixo escalão.
O que faz com que, dentro de uma mesma mitologia, alguns deuses sejam maiores que outros? Deuses representam os valores morais apregoados, defendidos e, principalmente, praticados por um povo. Quanto maior a importância dada a um valor moral, mais alta a posição ocupada no panteão pelo deus que o representa.
Zeus representava o poder supremo, a justiça inquestionável; Hera, o matrimônio, o parto e a família (Hera não tinha a menor vaidade, Hera é que era a mulher de verdade); Atena, a sabedoria; Afrodite, a beleza e o sexo; Apolo, a luz, as artes e a medicina; Dionísio, o vinho, as festas, a putaria (que ninguém é de ferro); e a coisa por aí vai.
Cada deus maior simboliza um item de um contrato social, um pilar da sustentação e da organização da civilização que os venera. Quando uma civilização entra em derrocada, desmoronam igualmente os seus deuses. E, ao contrário do que se possa supor, os maiores e mais poderosos tombam primeiro, seus templos são os primeiros a serem convertidos em tumbas.
É natural que assim seja : se uma civilização rui, é porque seus valores fundamentais foram desprezados, relegados a planos menores, implodidos. À queda dos valores maiores, dos deuses grandões, sobrevivem os valores menores, os deuses pequenos, covardes e oportunistas.
Deuses grandes só sobrevivem em épocas de grandes homens; em épocas de homens diminutos e mesquinhos, as subcelebridades divinas é que se espraiam, que fazem a festa; em tempos de homens diminutos, qualquer um pode ser deus.
Ocupar o topo do panteão só é vantajoso no auge da civilização que o criou. Em tempos de vacas magras, melhor ser pequeno. Em tempos de vacas magras, os grandes deuses sucumbem, deixam-se sucumbir, por tédio, por fastio, por indiferença mesmo. O verdadeiramente grande não se apraz em ser adorado por formigas, prefere morrer, sumir de cena.
Assim, Zeus, Hera, Hermes (lembrei-me dele agora, é o 12º deus que faltava) etc não existem mais hoje em dia, porém, alguns dos pequenos deuses gregos, devidamente atualizados, traduzidos e sincretizados, sobrevivem até hoje, os menores mesmo. Pudera, já que vivemos tempos de homens e valores mínimos.
Havia, para os gregos, a deusa Fama, a mesma que deu origem ao atual vocábulo fama, a medida da notoriedade de alguém. Segundo os compêndios, Fama tinha cara de louca e voava à frente dos cortejos, disseminando verdades e mentiras por suas cem bocas. "Monstro horrível, voa de noite entre o céu e a terra e nunca dorme, de dia espreita do cimo dos palácios, no alto das torres, amedrontando as grandes cidades, semeando mentiras e verdades", disse o poeta Virgílio sobre ela. Ser famoso significa cair nas graças da deusa Fama, ter seu nome disseminado aos quatro ventos.
Estamos, contudo, cronológica, cultural e socialmente, muito mais próximos aos romanos que dos gregos, e, assim, é com sua cara romana que Fama nos chega aos dias de hoje. 
Com a antropofagia da cultura grega pelo Império Romano, os deuses continuaram basicamente os mesmos - uma vez que os romanos tentavam mimetizar os valores gregos, os romanos foram uma espécie de novos ricos aculturados de seu tempo -, apenas seus nomes de batismo foram latinamente alterados. Zeus virou Júpiter; Hera, Juno; Poseidon, Netuno; Afrodite, Vênus.
E Fama virou...Puta! Isso mesmo. A deusa grega Fama virou a Puta romana. Daí a origem da palavra rePUTAção. E também do termo puta, prostituta, aquela que se dá ao público.
Querem melhor subdeusa para os dias de hoje? Dias de subvalores, de subheróis, de subgentes? Puta faz a festa, é a deusa da cocada preta! Quase todo mundo, hoje, é devoto de Puta. Todos adoram se expor, tendo ou não o que expor, adoram se expor. Adoram fazer sombra a um holofote. Saem falando de si sem que ninguém nada sobre eles pergunte. Adoram pensar que os outros querem deles saber, o que pensam, o que fazem, pra quem dão a bunda. Adoram se julgar uma celebridade.
Os sumos sacerdotes de Puta são o twitter e o facebook - não, não tenho twitter, não, não tenho facebook. Neles, os fiéis de Puta brindam o mundo com suas vidas rídiculas e seus feitos nada feitos. Tiram uma foto no local de trabalho e pronto : aquela foto, na cabeça torta deles, é digna da primeira página da Folha de São Paulo. Outra foto em uma lanchonete e pronto : o registro desfocado de suas bocas cheias de fastmerda é merecedor da capa da Times. Mais uma foto, agora nas abjetas "baladas", todas bêbadas e atrás de macho e pronto : merece ser exposta no mural da ONU, ao lado de Guernica.
Exagero? A velha amargura do Azarão?
Olhem atentamente em derredor. Conhecem ou não conhecem aquelas que se consideram as maiorais, os luminares de sua geração, mas que não têm um pingo de luz própria, são apenas vultos disformes nos holofotes? Conhecem ou não conhecem as que se dizem os expoentes dos costumes e da ética, mas que são somente caricaturas patéticas? Conhecem ou não conhecem as que se julgam deusas, mas que são somente putas?
Ô se conhecem! Pããããta que o pariu se conhecem! Melhor : fãããããma que o pariu se conhecem!

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Dilma a 30% de Popularidade - Um Corpo Que Cai

Nessas horas - também nessas horas - é que me lembro do meu grande e ausente amigo Odair, químico, piadista, ufólogo, livre-pensador, contador de "causos", extraterrestre e, sobretudo, cientista da conspiração.
Para ele, quando o assunto são os meandros do poder, não há coincidências, tudo é a propósito, e orquestrado dos bastidores pelos verdadeiros donos do poder, grupos secretos e herméticos, os Illuminati e que tais. Esses grupos seriam, por assim dizer, os verdadeiros programadores da Matrix nossa de cada dia.
Dilma Rousseff, a mais bem cotada pré-candidata às eleições presidenciais de 2014, com previsões a goleada no primeiro turno e tudo mais, sofreu uma queda vertiginosa, digna de Hitchcock, a labirintite atacou a "presidenta".
Em março, Dilma tinha 65% de apoio popular, 57% há três semanas, e 30% agora, segundo pesquisa Datafolha divulgada no sábado passado. É a menor popularidade já atingida por um presidente da República desde Fernando Collor, em 1990. E olha que Collor roubou o dinheiro do povo, sequestrou a poupança. Ainda assim, a popularidade do mauricinho de Alagoas caiu de 71% para 36%.
Valha-me São Odair se isso não tem cara de conspiração. Da braba!
A queda de Dilma foi provocada pelas três semanas de manifestações pelo país (e que ainda continuam), cujo estopim foi aceso pelo chamado Movimento Passe Livre (MPL), que, fiquei sabendo há poucos dias, teve sua origem dentro do PT, há treze anos, quando aparentemente se desvinculou do partido e tornou-se um grupo apartidário, posição que, hoje, já não parece sustentar com tanta veemência.
Já adianto que tenho uma visão política limitadíssima, mas, quando um grupo rompe com um partido, só consigo imaginar três motivos : para se tornar mesmo apartidário - o que acho difícil, uma vez sujo, nunca mais limpo -, para compor um outro partido - até agora não vejo essa intenção no MPL, apesar de que a sigla é das boas -, ou, e aí vem a boa e velha conspiração, para continuar atuando pelo partido como um braço mais livre, em missões especiais e escusas. Uma vez desligados oficialmente do partido poderiam continuar a defender os  interesses subreptícios do mesmo sem as restrições e limitações impostas pela lei eleitoral às legendas - e acho que esse pode bem ser o caso do MPL.
Na sequência : quem seria, hoje, o maior beneficiado pela queda de Dilma nas pesquisas? Aécio Neves e o PSDB? Marina Silva e o seu...sei lá em que porra de partido ela está agora, ou tentando fundar? Roberto Requião do PMDB? Eduardo Campos do PSB? Não, não, não e não.
A queda de Dilma favorece imensamente o PT, muito mais que os outros partidos. O PT de Lula! Há tempos que certas alas do partido já deixaram clara a sua preferência pela volta de Lula a uma reeleição de Dilma. Mas como negar-lhe o direito da reeleição sem parecer uma usurpação interna de poder, um golpe? Como negar o direito de Dilma à reeleição sem parecer trairagem, a cobra que morde o próprio rabo, o cara que mata o pai para comer a mãe?
E não é que agora, às vésperas das eleições presidenciais, às portas de um ano de Copa no Brasil, de ufanismo puro e burro, um ano que tinha tudo para bem transcorrer à ocupante da cadeira do Planalto, o povo se revolta? E se revolta contra o futebol? 
Coincidência? Sorte do sapo barbudo, como dizia Leonel Brizola, outro safado de marca maior? Sorte demais. Esmola demais, até o capeta desconfia. Muita coincidência para não ser conspiração.
A facção lulista do PT pode muito bem estar por trás disso tudo, uma vez que o barbudo seria o maior beneficiado e, lógico, quer voltar à presidência - simulações do DataFolha, hoje, dão 46% de preferência a Lula, percentual suficiente para uma vitória petista no primeiro turno.
Lula e seus asseclas podem muito bem ter acionado um de seus braços extraoficiais, o MPL, seus guerreiros das sombras, seus ninjas, para tacar fogo no país e desmoralizar a dona da casa, Dilma Rousseff.
Daí, talvez, a rejeição do movimento a qualquer bandeira partidária : não é um movimento para a valorização de nenhum partido, é um movimento para a desmoralização de um partido, o PT de Dilma.
Até posso ver : Lula abraça e consola a companheira Dilma, agradece-lhe por ter feito o seu melhor, por ter tomado conta da casa enquanto ele esteve fora, mas que o homem da casa voltou.
Autodesmoralização para eleger outro de seus, para a volta de um de seus? Loucura? No Brasil, parece funcionar. 
Um tiro no pé? Risco da imagem do PT ficar tão suja a ponto de afetar o próprio Lula? Nenhum. Lula é Lula. O povão não o relaciona a nenhum partido. Não me parece um tiro no pé, mais parece a amputação de um membro incômodo com vistas ganhos maiores. E de amputar membros, a gente sabe perfeitamente quem é o grande especialista. Para quem já cortou o próprio dedo para se aposentar, o que é cortar, politicamente falando, a cabeça de uma companheira para voltar a ser Presidente da República?
Se o MPL estiver a serviço do PT de Lula, quer dizer que, mais uma vez, a massa foi manipulada para ir às ruas? Sim, talvez sim. E qual o problema? Todos nós somos manipulados, o tempo todo. Todos somos marionetes, mesmo que alguns enxerguem as cordas, somos todos marionetes.
Ainda que os movimentos estejam sendo manipulados, continuo a apoiá-los. Mesmo que sirvam à volta do sapo barbudo, serviram ( e continuarão a servir, quero crer) para aumentar a autoestima cívica do brasileiro, serviram para mostrar que o caminho do diálogo (apenas) só é confortável para quem detém o poder, não para quem a ele é submetido. 
Com MPL ou não, com o PT por trás ou não, o movimento deve continuar. A quebradeira deve continuar. Em meus delírios mais loucos, vejo os estádios da Copa sitiados por uma multidão enfurecida a bloquear e impedir os jogos, a Fifa transferindo o evento para outro país, o Neymar quebrando a perna em três lugares etc.