terça-feira, 15 de abril de 2014

Como Raul Já Dizia

Da canção As Minas do Rei Salomão, de Raul Seixas:
"Do passado me esqueci
No presente me perdi
Se chamarem, diga que eu saí"
Quem chamarem? O sono interrrompido e ainda desejado, o café mal assoprado que nos desce de viés pela garganta, o abraço e o beijo apressados na esposa e no filho antes de sair, o trânsito constipado, o ônibus lotado, a manhã que raia e nem vemos, o expediente, a rotina, a sub-rotina, os quinze minutos para tomar um café, pitar um cigarro, dar uma mijada, contar ou ouvir uma piada velha, a hora de 40 minutos do almoço, o marmitex, a fila do banco, a fila do mercado, as senhas e o esperar pelo nada, a faxina de Sísifo, fazer a janta, lavar a louça num eterno e perdido combate contra copos, pratos e talheres que surgem por brotamento, por geração espontânea na pia, o encanamento do banheiro a vazar, a ração das gatas, o imposto de renda a declarar, o anoitecer no sofá, a cerveja como lenitivo, o desmaiar, não o dormir, o repouso entrecortado - carros, guardas-noturnos, bêbados e biscates em altos berros, gatos no cio a nos fazer inveja, a bexiga velha que já não aguenta mais que 2 horas sem se aliviar, de novo o sono interrompido, o dia que nunca chega diferente do seu jeito de sempre chegar..., enfim, a vida.
Se a vida me chamar, diga que saí, é o que quis dizer Raul.
A existência é boa e simples. A vida é que estraga e complica tudo.
À existência, bem disse Descartes, basta o pensamento. E eu concordo com ele. Um dos poucos filósofos com quem concordo, conquanto, e justamente por isso, um matemático antes de tudo.
Mas o que fazer com os que não pensam, isto é, com a grossa e disforme massa, 95% da população? Como dar a eles a sensação de que existem e, assim, mantê-los sob controle? Fácil. Basta lhes fornecer um simulacro de pensamento, um genérico da existência : a vida. Enchê-los de atribulações e aporrinhações, tomar todos os minutos de seus dias em tarefas repetitivas, ad infinitum, para fazer parecer que são capazes de resolver questões complexas, capazes de organizar algum pensamento, alguma ação coordenada. 
Acontece que "pensar" sobre a conta de luz atrasada, sobre o problema no trabalho, decidir o que comer no almoço, controlar o cheque especial e o cartão de crédito, fazer pesquisa de mercado para comprar um novo carro, TV ou celular, trocar a resistência do chuveiro etc, simplesmente não é pensar, não é existir. É só viver. 
Cartesianamente dizendo, existir implica diretamente em pensar. E mais : pensar, especificamente, em uma única coisa : na existência. Um é condição sine qua non do outro, pensamento e existência. 
Assim posto, quantos realmente existem, a não ser como números, como baterias recarregáveis, lenha para a Matrix? O cara parado no ponto de ônibus, hipnotizado pelo celular, existe? Porra nenhuma. O sujeito assistindo a um jogo futebol? A mulher a alisar o cabelo no salão de beleza? As pessoas comendo em bandos nos restaurantes self-service? O professor professando sua disciplina? O policial policiando? O médico diagnosticando? Um casal trepando? Porra nenhuma, também. E desafio qualquer um a me provar por  x + y que sim.
O que desgraça tudo, porém, é que a maioria sempre se impõe; dessa forma, a vida se impõe à existência. E aqueles aos quais a existência bastaria são também obrigados a viver. Passam seus dias afoitos, angustiados, não veem a hora da vida se distrair, para poderem existir : a existência só ocorre na ausência da vida, ou em algum de seus intervalos. Os que existem ficam como almas penadas, como espectros fantasmagóricos, alternando-se entre dois planos, duas dimensões : existência, vida, existência, vida...
Com certeza, devem conhecer aquele sujeito que faz seu serviço rapidinho, eficiente, sempre a aparentar nervosismo e afobação, de cara amarrada e azeda, como se odiasse sua labuta. Ele não aparenta, ele está mesmo nervoso e afobado, ele de fato detesta seu serviço. 
Se o faz rápido e de forma eficiente não é para ter tempo livre de ir ao shopping (ele odeia shoppings), não é para confraternizar em um bar ou em um restaurante (ele odeia confraternização, aglomeração, cacofonia de vozes humanas e pessoas falando alto e de boca cheia). Se o faz rápido e de forma eficiente é para ficar livre da vida, para poder existir um pouco. No fim da noite, no escuro, meia hora que seja.
Com meus parcos e porcos recursos, escrevi essas poucas - e acredito que confusas - linhas. Se tivesse uma formação e um estofo mais filosófico, digamos assim, se conhecesse os jargões do muito falar sem nada dizer, se soubesse citar um sem-número de autores, se dominasse a arte do embromation, escreveria um ensaio, talvez um livro.
Só que Raul Seixas foi um gênio, bastou-lhe uma única linha : "Se chamarem, diga que saí"
Perfeito. Irretocável. Raul saiu, para existir um pouco.

domingo, 13 de abril de 2014

Cigano Igor Desabafa : Queimei Meu Filme, Mas Não Minha Rosca

Ricardo Macchi, o eterno cigano Igor, depois de 20 anos de ostracismo televisivo, depois de ter se transformado no símbolo nacional máximo do ator fracassado, desabafou em seu facebook : Queimei meu filme, mas não minha rosca!
Parece-me que essa declaração bombástica de Macchi joga uma nova luz sobre uma antiga lenda obscura da TV : o teste do sofá. Segundo consta, sempre que um diretor de elenco se encanta por uma aspirante a atriz, o talento e os recursos dramáticos da moça são o que menos vão importar, a habilidade cênica da incauta será um pormenor de somenos. O que vai lhe valer ou não o papel será sua desenvoltura no sofá do diretor, o seu desempenho na horizontal, de lado, de quatro etc.
Há um aspecto ainda mais tenebroso da obscura lenda do teste do sofá, inconfessável! Dizem que certos diretores não fazem distinção quanto ao sexo daqueles que executam em seus sofás, mulheres, homens... pouco se lhes dá, gostaram, traçam. Diretores, frente ao quais, quem tem cu, tem que ter medo.
Será que é a isso que Machhi se refere?
Sempre achei estranho a carreira de Ricardo Machhi não ter decolado. Não que eu reconheça nele algum talento, nada disso, vou melhorar o que eu digo : sempre achei estranho SÓ a carreira de Ricardo Macchi não ter decolado.
Quando começou, era um cara novo, bonitão, interpretou um personagem bonzinho e carismático, feito para cair no gosto popular. E, ruim por ruim, já existiam à época atores tão sofríveis quanto Machhi. Se formos compará-lo, então, a essa atual safra de atores, Macchi é quase um Paulo Autran. Se o colocarmos lado a lado com os atores formados pela escola de atores da Globo, o programa Malhação, cuja forja produziu o Cabeção como expoente máximo, Macchi é um ator quase que shakespeariano.
Seu contemporâneo e igual em talento, Vitor Fasano, era tão ruim quanto Machhi, talvez até mais, mas, me lembro, não lhe faltavam críticas elogiosas por parte das revistas "especializadas"; críticos de TV e outros atores, no mínimo, diziam que viam grande potencial em Fasano.
Será que Machhi recusou-se ao teste do sofá e queimaram o seu filme?
O resto do desabafo de Macchi põe ainda mais pulgas atrás da minha orelha, joga mais lenha na minha desconfiança : "Estou certo que meu maior legado foi ter queimado meu filme na minha primeira experiência na TV, e ter mostrado ao Brasil como funciona a TV".
Para finalizar o assunto, arremata : “Uma excelente troca para minha consciência e também para eu poder sentar tranquilo sem dor física e sem ressaca moral, lógico!" 
Pãããta que o pariu! Acho que agora não restam dúvidas. Quiseram romper a prega-mestra de Machhi e ele pulou fora, não foi morder fronha no sofá. Resultado : queimaram o filme dele na TV. Posso estar errado, equivocado em minha interpretação, mas o que mais pode significar o cara dizer, "e também para eu poder sentar tranquilo, sem dor física" ?
Queimei meu filme, mas não minha rosca. Sensacional! Genial! Uma frase lapidar! Quase um aforisma! E engraçadíssimo! É isso aí, cigano Igor. Que belo exemplo de hombridade, tão em falta nos correntes e despregueados dias. 
Eu já tinha um certo respeito por Ricardo Machhi, não por seu trabalho como cigano Igor, lógico, mas por ele ser casado com uma das mais belas e gostosas mulheres que surgiram na TV, Ellen Roche. O cara pode até ser um canastrão e coisa tal, mas se pega uma gostosa feito a Ellen Roche, algum talento ele tem, um mínimo de respeito lhe é devido.
E agora, depois desse desabafo, o meu respeito por ele aumentou, dobrou, decuplicou. Ricardo Macchi ganhou um local de honra no hall dos machos da Marreta do Azarão, a seção Machos de Respeito,  na barra lateral do blog.
Termino parabenizando Macchi por sua integridade moral e, principalmente, pela integridade de suas pregas. Coloco abaixo uma foto, não de Macchi, sim de Ellen Roche. O cigano merece ou não merece todo nosso respeito?

sábado, 12 de abril de 2014

Cerveja Germânia 55, Essa Eu Não Conhecia

A caminho do trabalho, sempre a pé, passo pelo centro velho da cidade e cruzo por sua famosa Baixada. O velho, cansado e aprisionado rio, a horrenda rodoviária, o clássico e simpático Mercadão, os tristes e decadentes hotéis, as pensões baratas, e vários bares a servir de ponto de prostituição, inúmeros bares da luz vermelha. Neles, o contato é feito, o preço combinado e dali o programa segue para uns dos referidos hotéis ou pensões.
Ali, as musas do Odair José ficam o dia inteiro, passeando pelas calçadas, tomando cerveja, fisgando uns clientes (tem cara que aproveita a hora do almoço para dar uma fincada) e a exibir toda a sua classe e formosura. A mais bonita e bem cuidada ali faria Ivo Pitanguy desistir da profissão, sentir-se um inepto, rasgar o diploma. E os fregueses das moças, então? São ainda mais bem-apessoados : fariam não Pitanguy, mas a Evolução rasgar o seu diploma, declarar-se uma incompetente.
E foi em frente a um desses bares, fechados na hora em que passo por eles de manhã, mas já abertos e a pleno vapor quando por ali volto na hora do almoço, que uma lata me chamou atenção, vazia e abandonada à soleira do estabelecimento.
Primeiro pelo tamanho, ou melhor, pelo volume, 710 ml; depois pelas cores sóbrias - nada usuais em latas de cerveja, sempre brilhantes e espalhafatosas -, um fundo dourado de tons queimados, quase ocre, inscrições em marrom e em vermelho-terra, e por fim, o que mais me agradou, a presença de um texto em seu verso, explicando a origem histórica daquela cerveja. Quem é que fica lendo textos históricos nos versos de latas de cerveja? Eu fico.
Peguei a lata do chão e li. Ei-lo :
"Receita 55.
O Sabor que resistiu ao tempo.
Os alemães sempre levaram a sério suas cervejas. Em plena Idade Média, quando a ciência era confundida com bruxaria e punida com a morte, em Bremen, na Alemanha, um homem conhecido apenas como "Der Alchimist" dedicou sua vida à pesquisa de novos sabores. Enquanto outros alquimistas queriam transformar chumbo em ouro, ele buscava algo bem mais concreto : explorar as características do malte, do lúpulo e da cevada em combinações únicas.
Nas poucas anotações que restaram de seus trabalhos, a receita nº 55 é mencionada como a mais especial de todas - destinada a iniciar uma nova era na degustação de cervejas.
Agora, após tantos séculos, chegou a sua vez! Prepare-se para saborear e se encantar com a autêntica arte cervejeira, Germânia 55, inspirada nessa receita, criou um sabor único, para quem tem paladar mais exigente, com o poder de transformar cada gole em uma nova experiência."
Pããããta que o pariu!!! Um abnegado alquimista alemão quase foi parar na fogueira da Santa Igreja  para nos legar a receita 55. Em sua memória, digo mais, em memória de toda a ciência que o antecedeu e precedeu, temos a obrigação moral de experimentar essa maravilha.
Der Alchismist, ao invés de ficar com aquela viadagem de elixir da vida eterna, resolveu bem aproveitar a curta vida concedida a nós, humanos. Ao invés de ficar lá, enfurnado em sombrios porões de pedra, às voltas com cadinhos, retortas, fornos, mercúrio e enxofre, transmutou um grão dos mais sem graças em verdadeiro ouro líquido. Não será o dourado da cerveja o ouro que os alquimistas por tanto tempo buscaram, o segredo almejado desde a aurora dos tempos por gênios, sábios, alquimistas e conquistadores?
Ainda não experimentei a Germânia 55 nem sei seu preço de mercado. Não obstante, ela já foi para o hall da fama das cervejas do Azarão, para a galeria Boa e Barata.
Supu-la barata pelo local em que achei a lata vazia, na ZBM, a famosa zona do baixo meretrício (lata... 710 ml é um minibarril), e boa porque uma empresa que se dá ao trabalho e ao requinte de imprimir tal texto em sua embalagem, deve proceder com igual esmero na produção de sua mercadoria.
Procurei-a. Porém, nada dela pelos supermercados que costumo frequentar.
Se alguém, por acaso, ler o blog e souber onde se pode encontrar essa maravilha, deixe a valiosa informação nos comentários. Terá, embora de nada ela virá a lhe servir, a eterna gratidão do Azarão.

Cláudia Ohana, Sim e Sempre; Baby Consuelo, Tô Fora!

A mostra "Beleza Natural", do fotógrafo israelense Ben Hooper, exibe uma série de modelos jovens, lindas, sensuais e... peludíssimas. Muitas delas há meses sem se depilar. Nos lugares errados, porém.
Se você pensou em algo parecido com uma uma exposição de Cláudias Ohana, você se fudeu! Assim como eu. O trabalho de Ben Hooper é uma exposição de Babys Consuelo, ou seja, uma série de fotografias de mulheres com os suvacos cabeludíssimos. Uma coisa pavorosa!
Ben Hooper diz que sempre teve - há loucos para tudo - tesão por sovacos peludos e quis mostrar que as mulheres podem ser belas dessa maneira : "Se você perguntar a alguém 'quem você imagina com as axilas peludas'? Ninguém vai responder 'uma modelo ou alguma mulher muito bonita'. Mas tudo isso é puro esteriótipo".
Pois para mim, não mostrou porra nenhuma.
Ben Hooper diz que seu trabalho pretende fazer com que as pessoas reflitam sobre os padrões impostos pela sociedade. Tá bom... O trabalho se pretende, isso sim, a satisfazer a tara, o fetiche do fotógrafo, o que eu respeito pra caralho, afinal, quem é que pode usar de seu trabalho para satisfazer suas saudáveis perversões? Não só respeito como também nutro certa inveja. 
Agora, dizer que quer romper com os padrões, com os usos e costumes de uma sociedade, fazer que as pessoas melhor reflitam de como são joguetes de um sistema castrador etc etc, é pura falácia, é querer conferir a um bando de suvacudas atributos outros que não somente a pelaria nojenta embaixo do braço. É querer pseudointelecutalizar a obra. É, inclusive, não assumir a própria natureza de tarado. É dizer : olhem, eu gosto de cheirar e lamber um suvacão suado e cabeludo, mas faço isso de forma artística, estética, e com aspirações maiores do que simplesmente ficar de pau duro; minhas lambidas num suvacão não são meramente para saciar desejos físicos, não são apenas atos sensoriais, minhas lambidas num suvacão são um questionamento à uma sociedade massificadora.
Ora, vá a merda. Seria muito mais bonito e honesto dizer : eu sou tarado em suvaco cabeludo, satisfaço minha tara e ainda ganho uma boa grana com ela.
E se Ben Hooper acha que promover uma discussão sobre suvaco cabeludo, em pleno século XXI, foi uma sacada de gênio de sua parte, um ato de rebeldia e subversão, tenho o prazer (na verdade, o desprazer) de informar que ele está, no mínimo, umas três ou quatro décadas atrasado.
Já nas décadas de 1970 e 1980, a nova baiana Baby Consuelo - hoje, a pastora Baby do Brasil - nos assombrava com seus suvacos cabeludos. Nós, a molecada da época, a chamávamos de a mulher com três xanas.
Sei lá... pode ser mesmo questão de costume, pode até parecer preconceito de minha parte, afinal, nunca peguei uma suvacuda, mas por mais linda que fosse a mulher, levantou o braço e apareceu lá um tufo de cabelos, eu perderia o tesão na hora, seria broxada na certa.
Abaixo, duas das suvacudas de Ben Hooper :
Sejam sinceros, dá pra tocar uma bronha olhando para essa foto?
Ou para esta? Ainda se suvaco tivesse um buraquinho...
Cláudia Ohana, sim e sempre. Baby Consuelo, tô fora!!!

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Roger Moreira é Genial

Escrevi aqui no blog, em março de 2012, uma postagem intitulada Da Inteligência e de seus Usos (Ou : o Paradigma de Roger Moreira), na qual, contrariando o espírito do Marreta, eu elogio pra caralho o vocalista do Ultraje a Rigor, dono de um dos maiores QIs do país, talvez do mundo, 172.  Já ouvi muita gente questionar e duvidar dessa genialidade toda do Roger : o cara tem um puta QI, dizem, e fica sempre na mesma coisa, sempre fazendo aquelas musiquinhas leves e descompromissadas? Por que não faz algo mais sério, mais "útil"?
Útil para quem, cara-pálida?
Na postagem, resumidamente, digo que não é porque o cara é um gênio que ele é obrigado a realizar grandes feitos, a colocar seus neurônios para trabalhar em prol da humanidade, em favor dos burros. O cara pode muito bem ser um gênio e, se quiser, não fazer porra nenhuma com isso. Pode usar de seu potencial só para satisfazer suas necessidades pessoais. O gênio nada deve aos menos dotados intelectualmente.
A postagem trouxe-me a surpresa e a honra de um comentário do próprio Roger, que disse : "Cara, sensacional. Matou a pau. Nunca vi alguém me entender tão bem nesse respeito. Parabéns!" 
Roger colocou o link da postagem no blog do Ultraje, o que rendeu ao meu modesto blog um número gigante de acessos, um dos maiores que já tive.
Agora, numa entrevista ao jornalista Morris Kachani, Roger mostra mais uma vez que não é só um cara engraçadinho, mostra que pensa e pensa pra caralho. E sabe o que mais me deixa contente? Que ele pensa, sobre a maioria das questões que lhe foram feitas, exatamente igual a mim.
Entre outras coisas, Roger diz que nós não saímos da ditadura. E tá perfeito. Vivemos uma ditadura muito pior. Uma ditadura em que o inimigo se faz passar por bonzinho, por salvador da pátria. Diz também que muitos de seus valores são de direita, por exemplo, a honestidade; a esquerda admite a desonestidade, se for para um bem maior - e por bem maior, claro, entenda-se o bem da esquerda, ou seja, a desonestidade em causa própria.
Falou ainda que Rachel Sheherazade está sofrendo censura, que a moça foi intencionalmente mal intepretada, que ao dizer que achava compreensível a situação da porradaria no bandido preso ao poste, Sheherazade não estava incitando a violência porra nenhuma, só estava dizendo de pessoas que estão de saco cheio de ser roubadas, que se cansaram de sofrer pela omissão do Estado. Compreensível. Penso exatamente o mesmo, compreensível não significa justificável, recomendável, desejável, louvável.
O que Roger diz, então, do deputado BBB Jean Willys é de um brilhantismo que é próprio só dos gênios, só dos que realmente entendem a piada de mau gosto que é a humanidade, espécie safada e oportunista por natureza : "O deputado Jean Willys por exemplo, talvez tenha boas intenções mas acho ele uma besta, sinceramente. Isso que ele faz é incitação de classes, não sei se conscientemente ou não, de gay contra hétero, de homem contra mulher, de pobre contra rico." 
Perfeito. Pessoas como Jean Willys, sim, incitam o confronto, a violência, e não Rachel Sheherazade.
E continua afirmando : A gente não sabemos eleger presidente. A gente somos inútil.
Alguém é capaz de discordar dele?
Abaixo, reproduzo a entrevista.
E para ler a postagem que me valeu um comentário do Roger, é só clicar aqui,  no meu poderoso MARRETÃO.

Você ainda acha que “a gente somos inútil”?
Eu acho. Quando fiz essa música estava voltando dos Estados Unidos, onde fui morar em 79. Tomei um baque grande de ver o que era a democracia de verdade. A gente ainda estava no finzinho da ditadura, a maioria não fazia ideia e nem hoje faz do que seja realmente uma democracia. Tudo aqui é uma merda. Quando vamos mudar o padrão de uma tomada, ao invés de adotar o padrão internacional, inventamos um padrão esdrúxulo.
E o que é uma democracia?
Um governo orientado para satisfazer o povo, por exemplo. Não como aqui onde predomina o favor e o paternalismo. Lá, quando a população tem necessidade, ela exige que seja atendida. É o lance do capitalismo funcionando direito, todos têm chance. Cheguei como estrangeiro, só pegava empregos que ninguém queria como garçom, lavador de prato, diarista. Ganhava bem, levava uma vida boa. É o que acontece com qualquer brasileiro que vai para lá, ele aprende rapidamente porque é um passo pra cima. Lá ninguém joga lixo no chão. O problema é que quando o brasileiro volta pra cá, ele esquece disso.
Estamos numa democracia?
Estamos em uma democracia fingida como na Venezuela. Não é só porque tem votação que tem democracia. Não é porque a maioria quer que isso é democracia. A democracia prevê um embate das forças e alternância de poder. E aqui há diversos subterfúgios, inclusive de dar dinheiro pro povo, espécie de coronelismo que sempre existiu.
Então nos Estados Unidos a vida é melhor?
Morei lá com minha irmã, que tinha bronquite. Quantas vezes não fomos atendidos gratuitamente no hospital. Aqui não, se você vai ao hospital público vê todo mundo morrendo, deitado no chão. Eu não, claro, graças a Deus, porque tive estudos. Não por isso sou menos brasileiro, a esquerda está sempre tentando jogar uns contra os outros.
E por que você voltou, então?
Saí de lá sinceramente porque não queria essa vida pra sempre, não usava minha cabeça pro trabalho, era só o braçal. Também senti falta de minha cultura, mas na volta senti esse baque e comecei a notar que o Brasil não funciona por causa do brasileiro. Há um vício de colocar a culpa em alguém, de esperar que o governo resolva, de não assumir. Na letra de “Inútil” usamos o português errado, porque aqui não tem educação direito.
“A gente não sabemos escolher presidente”, ainda?
Ainda não. Praticamente todos os partidos estão do mesmo lado pra começo de conversa. Os políticos prometem de tudo e o povo brasileiro meio que aceita. A gente tem essa mania histórica de corrupção e preguiça, uma série de más qualidades que fingimos que não vemos. Em português claro, o brasileiro merece tomar uns pitos de correção e não tem quem vá fazer isso porque político só rouba e promete, e trata o povo como se fosse coitado. A segunda frase desta música é “a gente não sabemos tomar conta da gente”. A gente não sabe se administrar.
O que precisa ser feito?
A gente tem que tomar as rédeas do sistema. Mas está tão corrompido que a gente nem sabe qual é esse caminho.
O país melhorou?
Melhorou. A gente saiu de uma ditadura e passou a fazer eleição direta. Mas agora estamos regredindo rapidamente sem perceber, pro ponto que a gente estava.
Como assim?
Entrei na escola em 64, naquele tempo a aula de história era muito orientada, só os melhores momentos eram apresentados e ainda assim de forma deturpada. Hoje é assim só que ao contrário. Continua a deturpação, só que por outro lado.
Dê um exemplo.
O caso da Raquel Sheherazade, que foi afastada, em férias compulsórias durante um tempo por conta de uma ação movida pela deputada Jandira Feghali (PC do B). Então é censura, só que por outro lado. Parece que desde os anos 30 mudamos de uma ditadura para outra, sempre disfarçando de democracia.
Mas a Sheherazade pisou na bola?
Ela não falou nada de mais. Ela disse que era compreensível quando amarraram um ladrão no poste. Compreensível significa que eu entendo a revolta da população que não agüenta mais ser roubada. Não quer dizer que eu ache que todo ladrão deva ser amarrado, mas interpretaram dessa maneira.
Você acompanhou os protestos de junho?
Não tenho mais idade para isso. Mas apoiei, achei legal. Pena que esvaziaram de maneira brilhante colocando black blocs na rua e com os políticos convocando reuniões, como sempre fazem. Vamos mudar de assunto, nada aconteceu, agora tem Copa e carnaval, tem sido assim de ditadura em ditadura.
O governo Lula foi bom para o Brasil?
Sinceramente acho que foi ruim, o que ele fez foi manter a inflação estabilizada com um programa que vinha do governo anterior. O que ele mais fez foi demagogia o tempo inteiro. Dizem que elevou a classe c mas pra falar a verdade não sei se isso não aconteceria naturalmente com o dinheiro estabilizado.
A ascensão da classe c não é um avanço?
Sem dúvida. Mas o pessoal acha que isso aconteceu porque o governo foi bonzinho com a gente. E pensam assim, “agora não sou mais miserável, porque posso comprar TV”. Errado, o contrário da miséria é o conhecimento, não é só comer e tal. Lula botou na cabeça do brasileiro essa luta de classes que não era pra existir. Fez o povo acreditar que quem tem dinheiro é contra os pobres.
E Dilma?
Se o país estivesse progredindo ok, mas não está. Estamos parados. E o Bolsa Família, que era para ser um analgésico, vai continuar para sempre, para garantir os 40% de votos que ela necessita para ser reeleita.
Como você se define politicamente?
Voto normalmente pra coisa ficar equilibrada. Esse é o segredo da democracia, se o poder está pendendo muito pra direita, é bom calibrar um pouco pra esquerda, e vice-versa. De todo jeito, sou mais pelo indivíduo do que pelos grupos – na coletividade, sempre tem a desculpa de que “a culpa não é minha, é do grupo”.
O que você defende?
Como força política acredito no liberalismo capitalista. Vivi isso, sei que funciona e não é só nos Estados Unidos. Na China, que é comunista, investiram pesado e estão na liderança do mundo. Gosto da ideia de que quanto menos interferência do Estado, melhor. Ele tem que regular, fiscalizar, mas não gosto da burocracia.
Que reflexão faz sobre os 50 anos do golpe militar?
Após tantos anos de ditadura criou-se a ideia de que a esquerda é tudo de bom, de que é boazinha e tal. Não vejo assim. Qualquer esquerda, não só a brasileira, é uma merda falida, com uns exemplos como Fidel Castro que socializou a miséria. Todo mundo quer é igualdade na riqueza. Isso não é fútil, as pessoas querem conforto e serviços. Agora aqui todo mundo só quer o direito, não quer os deveres.
E o que dizer sobre a direita?
A direita aqui é inexistente. A esquerda gosta de associar a direita a torturadores militares ou a Hitler, como se eles fossem o único tipo. Mas veja não sou de direita, tenho valores da direita e da esquerda, por incrível que pareça.
Exemplos.
Por exemplo cultivo um valor de direita que é a honestidade. A esquerda acha que tudo bem você ser desonesto, pra fazer supostamente um bem maior. A meritocracia por exemplo também é uma coisa mais à direita e acho que está certo. Agora, quando você não tem as mesmas chances, aí estou mais pra esquerda. Outra posição de esquerda: hoje em dia acho que deveria liberar a maconha porque não vejo muita diferença entre ela e o álcool. Não uso mais, nenhum dos dois.
Como viveu o período da ditadura?
Olha eu cresci durante a ditadura, mas não via nada disso. Tive uma infância super tranquila. Já na adolescência comecei a saber sobre bombas e atentados, mas não tinha conhecimento político, pois não se falava a respeito na escola e meus pais não eram tão ligados. Eu ouvia falar em terrorismo, comunismo e subversivos, pra mim era tudo mais ou menos a mesma coisa. Mas quando comecei a prestar atenção, percebi que havia receita de bolo nos jornais ou um filme que demorava muito para chegar.
Agora, naquele tempo a gente falava a mesma coisa que hoje em dia: não há interesse em dar educação ao povo porque quanto mais burro, mais fácil de controlar. Então vou dizer que era muito mais seguro nas ruas naquele tempo. Meus pais não sofreram perseguição e nem seus amigos. A gente só sabia que estavam censurando. Só fui conhecer mesmo a realidade no colegial, e depois na faculdade. Não estou elogiando a ditadura. Já era ruim só que hoje é a mesma coisa.
A mesma coisa?
Hoje em dia me parece que piorou até, porque tem censura também, e antes não tinha o brasileiro contra o brasileiro como tem hoje em tudo que é lugar. O deputado Jean Willys por exemplo, talvez tenha boas intenções mas acho ele uma besta, sinceramente. Isso que ele faz é incitação de classes, não sei se conscientemente ou não, de gay contra hétero, de homem contra mulher, de pobre contra rico.
mais ‘selfies’…
Será? Você parece muito desiludido.
A gente achava por exemplo que não ia mais ter “Hora do Brasil”, e continuou. Por que? Assim como o horário gratuito eleitoral. A geração de 80 foi muito feliz porque todo mundo achava que ia sair da idade das trevas, que haveria um progresso, lutando pela democracia. Mas a gente não saiu da ditadura e agora estamos vivendo um período de ditadura do proletariado. Estão aparelhando tudo, roubando paca. Tanto tempo no poder é perigoso. Pra mim tanto faz porque estou com a vida ganha de certa forma, tenho uma vida de classe média alta porque graças a Deus trabalhei por 30 anos e soube economizar.
Você sofre preconceito na classe artística por conta de suas opiniões?
Não, pra minha surpresa a maioria está do meu lado. Tem um ou outro enganado que foi pro outro lado. Naturalmente estou mais próximo dos artistas de minha geração, como a turma do Casseta, o Lobão, Paralamas. Entre a velha guarda a convivência é pacífica.
Como era nos anos 80?
Naquele tempo estávamos todos do mesmo lado contra a ditadura. Hoje em dia ganhei consciência da ditadura quando comecei a dar minhas opiniões no twitter. De repente apareceu uma patrulha ideológica de esquerda, cheia de militante virtual, que eu não sabia que existia. Sempre falei mal do governo mas agora estão me xingando. É ridículo.
Você lê muito? Como se informa?
Já li muito. Andersen, Grimm, quando criança. Muito gibi. No colegial li coleções inteiras sobre filósofos, muita ficção científica e muitas crônicas. Hoje em dia quase não consigo ler pois tenho déficit de atenção. Começo vários livros mas não termino nenhum. Mas leio jornais e fico na internet vendo links e blogs.
Como você e Danilo Gentili se conheceram?
Quando o Danilo me convidou, em 2010, para seu programa na Band, a gente só se conhecia de twitter. E eu lhe disse, ‘estou quase que me aposentando, já estou brecando na vida, enquanto você está acelerando’.
Qual seu papel no programa?
É servir de contraponto pro Danilo, fazer umas piadas, e basicamente apresentar convidados com a parte musical. Estou adorando pois era fã do ‘The Late Show’ do David Letterman e já sabia o que tinha que fazer no ar. O Ultraje já vivia tirando sarro com um espírito de fundão de escola no ginásio. Encontramos o ambiente propício para fazer a mesma coisa na TV. É bem menos tedioso que fazer show.
Que acha do programa do Jô?
Assistia bastante. Ele aumentou a parte de entrevistas e tal, com relação ao formato do ‘Late Show’. Já o Danilo está chegando mais perto do formato original. Nossa função no programa é muito maior. Embora o programa seja do Danilo, ele funciona justamente porque tem uma turma de pessoas que se identifica com o ambiente. Temos afinidade nas ideias. E não é tudo centralizado no Danilo, nem é objetivo dele, eu por exemplo tenho liberdade de falar o que quiser a qualquer hora. Se a entrevista não está indo bem por exemplo, se o entrevistado é tímido ou só responde monossílabo, a gente interfere.

Entrelinhas

Tomo café
Tomo cerveja
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Tomo café
Tomo café
Tomo café
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Tomo chá
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Tomo cerveja
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Tomo café
Tomo café
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Tomo cerveja
Tomo cerveja
Tomo cerveja
Tomo cerveja
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Tomo café
Tomo cerveja
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E tudo o que é sólido
Só se presta a manter a estrutura de pé.
É só o lastro
O substrato
As entrellinhas.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Padre Anchieta, o Novo Santo do Brasil

Quem nunca viu, lá nos seus tempos de escola primária, mostrada pelas "tias", aquela clássica ilustração com o padre José de Anchieta? O bom jesuíta, de frente para o mar, a escrever poesias na areia com uma fina e longa vara.
É o retrato de um homem espiritualizado, em harmonia com o ambiente que o circunda, absorto e, ao mesmo tempo, contemplativo e reverente ao universo criado por seu deus. Até as gaivotas vêm aos seus pés, sem medo. Ao longe, dois índios o observam, atentos.
Um homem bom, esse padre Anchieta, um homem santo, diziam nossas tias do primário - senhoras respeitáveis, bonachonas, duplicatas exatas da Etty Fraser.
Um benfeitor dos índios, trouxe-lhes a palavra do senhor, a verdadeira fé, diziam emocionadas, lágrimas visivelmente contidas, algumas até faziam o pelo-sinal. E não estavam a nos enganar, as tias. Não deliberadamente. Acreditavam de fato na história do bom jesuíta que veio salvar a alma do índio. Pudera. Foram submetidas à mesma lavagem cerebral, em seus batismos, primeiras comunhões, crismas, casamentos, que o índio.
No entanto, parece que a história é bem outra. Parece que tem caroço nesse angu. Aliás, muito mais caroço que angu. Segundo a pesquisadora Ivânia dos Santos Neves, do Programa de Mestrado de Comunicação e Cultura da Universidade da Amazônia, José de Anchieta não só fazia vistas grossas à matança dos índios pelos portugueses como também chegou a justificar a mortandade em um de seus poemas. Anchieta chegou a admitir que Mem de Sá fez uma “guerra cruel de extermínio”, mas a justificou porque, entre outras coisas, os índios tinham o “hábito horrendo” de comer carne humana.
Escreveu o jesuíta :
“O Governador ouviu com bondade essas palavras
e respondeu: “Se vos fiz guerra cruel de extermínio,
devastando os campos e lançando em vossas moradas
o incêndio voraz, levou-me a isso vossa audácia somente.
Já agora, esquecidos os ódios, vos concedemos contentes
a aliança e a paz que quereis e sentimos vossa desgraça.
Porém, deveis vós observar as leis que vos dito.”
Manda então que refreiem suas rixas contínuas
que expulsem do peito a crueldade e o hábito horrendo
de saciarem o ventre, à maneira de feras raivosas,
com carnes humanas. Também lhes ordena que guardem
os mandamentos do Pai celeste e a lei natural
e ergam igrejas ao eterno Senhor das alturas
em seu torrão natal; aí serão instruídos
na lei divina e de vontade abraçarão com os filhos
a fé de Cristo, porta única do caminho do céu,
Além disso, tudo quanto roubaram dos Cristãos às ocultas
ou por assalto, em tantos anos, os próprios escravos
mortos ou devorados, tudo pagarão e mais os tributos.”

Para Anchieta, os índios que escaparam do extermínio e se converteram ao cristianismo se tornaram puros.
Escreveu:
"Assim se expulsou a paixão de comer carne humana,
a sede de sangue abandonou as fauces sedentas;
e a raiz primeira e causa de todos os males,
a obsessão de matar inimigos e tomar-lhes os nomes,
para glória e triunfo do vencedor, foi desterrada.
Aprendem agora a ser mansos e da mancha do crime
afastam as mãos os que há pouco no sangue inimigo
tripudiavam, esmagando nos dentes membros humanos.
Há pouco a febre do impuro lhes devora as entranhas:
imersos no lodaçal, aí rebolavam o fétido corpo,
reso à torpeza de muitas, à maneira dos porcos.
Agora escolhem uma, companheira fiel e eterna,
vinculada pelo laço do matrimônio sagrado
que lhe guarda sem mancha o pudor prometido"

Em outros versos, Anchieta afirmou que os índios causaram muitos danos aos portugueses, como se algum índio tivesse convidado os portugueses a invadi-los :
"Ó que faustoso sai, Mem de Sá, aquele em que o Brasil
te contemplou! quanto bem trarás a seus povos
abandonados! com que terror fugirá a teus golpes
o inimigo fero, que tantos horrores e tantas ruínas
lançou nos cristãos, arrastado de furiosa loucura!"

É este homem que agora, em 03/04, foi canonizado pela santa Igreja Católica, alçado à condição de santo. Contraditório? Hipócrita, pode até ser; contraditório, nunca.
Tal confusão facilmente se dá pelo equivocado uso coloquial da palavra santo, empregada como adjetivo, sinônimo para bom, benemérito, virtuoso, heróico, probo, honrado.
Santo não é um adjetivo! Santo é um título. É uma condecoração, uma comenda de guerra, é a Silver Star americana, é a Grã-Cruz de Ferro alemã. É uma divisa de honra concedida ao bom soldado, por distinção e bravura. Justamente o que os jesuítas eram : soldados a serviço da Igreja e, consequentemente, da Coroa Portuguesa, visto que Igreja e Estado eram unos à época. Soldados da catequese.
O que é catequizar, se não um eufemismo para amansar, adestrar, domar, subjugar? Na verdade, acho que catequizar é uma hipérbole disso tudo. O papel da Companhia de Jesus era tornar o índio mais receptivo e dócil à ocupação portuguesa. Se fosse por bem, pela aceitação da palavra de deus, tanto melhor; senão, o chicote velho cantava no lombo do índio, a implacável e inquebrável vara de deus lhes fustigava o couro.
Não é à toa que os dois índios do quadro olham Anchieta de longe, guardando uma distância segura. Sabem muito bem, nada bobos que são, que a vara que escreve poemas é a mesma que lhes lanha as costas.
Repito : santo não é adjetivo. É um título honorífico. Uma medalha dada aos melhores soldados em reconhecimento por serviços prestados; no caso : auxiliar na expansão do território, do poder e da riqueza da Igreja Católica e da Coroa Portuguesa. Em tal missão, Anchieta e sua Companhia de Jesus foram eficientíssimos.
Surpreende-me que somente agora a eclesiástica comenda lhe tenha sido outorgada, e não já no século XVI. A Igreja vai ter que pagar o retroativo pro santo.
E tem mais : Anchieta ganhou a canonização no tapetão. Para ser canonizado, o sujeito tem que ter, pelo menos, dois milagres confirmados : o primeiro destinado à beatificação e o segundo, ocorrido depois da beatificação, é contado para a santificação. Anchieta não teve nenhum milagre confirmado, embora dele se diga que tenha amansado feras e feito recuar tempestades. A canonização de Anchieta se deu por decreto, por uma canetada do Papa Francisco I, o que é chamado de canonização equipolente, ou seja, pelo conjunto da obra.
O que só vem a evidenciar ainda mais o que eu disse, que o santo serve mais à igreja que ao fiel propriamente dito. Fabricar mais um santo brasileiro é uma forma de agradar aos católicos daqui, agrado que se faz mais que necessário. O Brasil é o maior país católico do mundo; na Europa, em países como Alemanha, França e Inglaterra, igrejas católicas são fechadas dia a dia, numa preocupante progressão. De mais a mais, Papa Francisco I também está a puxar a brasa para sua sardinha, ele fez toda sua carreira na Igreja Católica na ordem jesuíta, a mesma de Anchieta.
Mas dos quadros que já vi representando José de Anchieta, o dos versos na areia não é o meu preferido. Gosto daquele da onça. Que onça?, vocês perguntarão. No que eu responderei : aquela pintada que eu te dei.
Vejam que empulhação pra cima do cristão! Que patifaria! Que má-fé! A onça-pintada treme ante a fé do jesuíta, abaixa-se quase que em subserviência à imagem da cruz, recua frente ao poder de deus imbuído em Anchieta.
Ora porra, só reconhece a autoridade e teme o poder da cruz quem é cristão, para quem não, ela só é um artefato inútil, de decoração, na melhor das hipóteses. Seria a onça-pintada do quadro uma prosélita do cristianismo? Uma renegada de sua família, os felídeos? A vergonha de seus primos leões, grandes apreciadores de carne cristã? Ou, então, a resposta é bem mais simples e, inclusive, verossímel : é uma onça-pintada vampira.

sábado, 5 de abril de 2014

Pequeno Conto Noturno (39)

Martinho da Vila já teve mulheres do tipo atrevida, do tipo acanhada, do tipo vivida, casada carente, solteira feliz, já teve donzela e até meretriz; mulheres cabeças, desequilibradas, mulheres confusas, de guerra e de paz.
Rubens considera tais classificações de Martinho, pouco importando se corretas ou equivocadas, e apesar da simpatia que tem pela obra do grande sambista, como irrelevantes.
Atrevidas ou cabeças, tanto faz, no começo da relação, todas nos proporcionam alegrias, prazeres, sensação de completude; acanhadas, casadas, solteiras ou desequilibradas, tanto faz também, do meio da coisa para frente, ou seja, da trigésima quarta foda em diante, todas nos proporcionam chateações, estorvos, sensação de castração.
Rubens classifica suas mulheres pelo que julga que elas têm de mais particular, de mais íntimo, pessoal e intransferível : a buceta. Não há duas iguais. Cada conjunto de atributos - cor, sabor, odor, viscosidade, dimensões, geometria, profundidade, tonicidade - é único. Irrepetível. Nem o DNA é tão exclusivo, os gêmeos univitelinos os têm em cópia carbono. Porém, nem as gêmeas univitelinas - de preferência, duas loironas suecas - têm bucetas exatamente iguais.
Rubens já teve das ácidas, das adocicadas, das almiscaradas, das mais triangulares, das rosadas, das elipsoides, das encarnadas, das azedas, das arroxeadas, das rasas, das insossas, das abissais, das em botão, das desbeiçadas, das áridas, das adstringentes, das salgadas, das alagadas, das abacalhoadas, das fiapentas...
Rubens se apraz em demoradamente analisar, qualitativa e quantitativamente, uma boa buceta. Adora meter-lhes a boca, a língua, o nariz, olhá-las de perto; cheirá-las, lambê-las, chupá-las, mordiscar-lhes os lábios, bebê-las. Rubens é um degustador, por excelência. Não de vinho ou de outras viadagens. De buceta. Rubens é um sommelier de buceta. Não obstante, muito lhe apetece também um cu.
Lícia tem do tipo caudaloso. A buceta de Lícia se liquefaz, derrete-se em morno magna, em abundante calda caramelada. Escorre pela virilha, pelas pernas, empoça no ventre, no umbigo, nos pentelhos, no colchão.
Mais que caudalosa, define Rubens de uma vez por todas, que caudalosas outras ele já pegou, a buceta de Lícia é torrencial. Nessa categoria, é a única representante que já passou por sua cama.
Rubens não entende como é que Lícia, depois de cada foda, não precisa ser levada às pressas para  um hospital, receber soro na veia; não entende como depois de cada trepada, Lícia não entre em grave quadro de desidratação.
Quando Lícia cavalga Rubens de frente, ele lhe passa a mão por trás, espalma-a por todo o rabo dela, encharca os dedos, espalha tudo nos peitos de Lícia, besunta-a de buceta e se põe a mamar, com dedicação e louvor quase que religiosos.
Peitos servidos ao molho de buceta... Não há iguaria, por mais fina e sofisticada, que lhes faça frente. Nenhum daqueles esnobes e afrescalhados chefs franceses entubadores de baguete é capaz de igualar, menos ainda de suplantar, a combinação de tão harmoniosos ingredientes.
- Você não vai passar uma água no corpo, dar uma enxaguada na boca? - pergunta Lícia, retornando do banho. Lícia sempre toma banho depois da foda, parece que tem vergonha de seu grande poder, ou medo dele.
- Vou é pegar uma cerveja na geladeira, isso sim. - responde Rubens e sai em direção à cozinha, nu, lambuzado, folheado a Lícia.
- Vai lá, vai - diz Lícia, brindando com Rubens e entornando mais de meio copo de uma vez - limpa pelo menos a boca, ainda  mais que está com essa barba por fazer, com esse bigode.
- Eu gosto do bigode cheiroso - Rubens, a tomar a cerveja direto da garrafa, no gargalo.
- Deixa de ser nojento, fica aí com tudo grudado.
- Eu sou um cara ecológico, cara Lícia, sou adepto da lavagem a seco, da economia de água.
- Dá essa garrafa aqui. - pede Lícia, já a tomando de Rubens.
- Cuidado, o gargalo tá com gosto de buceta.
- Vai se fuder. - Lícia ri e dá uma boa duma emborcada.
- Eu deixo tudo isso secar no corpo, endurecer, cristalizar - começa Rubens. - Depois é só chacoalhar o pau e o saco, dar uma batida nos pentelhos, que tudo esfarela, vira pó, cai tudo no chão, vira comida de ácaros.
- Vai lá pegar outra cerveja, sem gosto de buceta dessa vez.
Rubens volta com dois litrões abertos, sem copos, fica com um e passa o outro para Lícia. Os dois batem suas garrafas em brinde e entornam no gargalo.
- Às vezes, tenho a impressão de que você não toma banho nem no dia seguinte, antes de ir pro trabalho.
- E, geralmente, não tomo, mesmo. Só dou aquela lavada a seco e vou pro trabalho.
- Credo! E não fica tudo grudando, espetando, incomodando?
- A única coisa que incomoda um pouco é que a cachorrada fica me seguindo pelo caminho, me farejando, de resto...
- Filho da puta!

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Na Medida do Impossível

Eu gosto do Pato Fu. E se gosto do Pato Fu, que direi, então, da Fernanda Takai? Aí é que eu gosto mesmo!
Na Medida do Impossível é o seu quinto trabalho desvinculado da banda, precedido pelos muito bons Onde Brilhem os Olhos Seus, Luz Negra, No Jetlag (com a japonesa Maki Nomiya), e pelo estranho e inexpressivo Fundamental (com Andy Summers, ex-The Police).
É o seu álbum mais sortido. Os anteriores apresentavam repertórios bem definidos, segmentados, fechados em si - Onde Brilhem os Olhos Seus, por exemplo, traz somente canções gravadas originalmente por Nara Leão.
Na Medida do Impossível manda às favas qualquer unidade. É um balaio de gatos - adoro gatos. Fernanda Takai arrisca-se - e se dá muitíssimo bem - pelas mais, aparentemente, inconciliáveis vertentes da MPB. Gravou de tudo um pouco : o genial (e menosprezado) Benito de Paula, Marcelo Bonfá (ex-Legião Urbana), Leno (da dupla Leno e Lílian, da Jovem Guarda), a deliciosa Pitty, o impagável Reginaldo Rossi.
Fernanda Takai jogou os imiscíveis óleo e água num mesmo caldeirão. E não é que, obedientes ao comando de sua doce voz, sabotando toda a físico-química, eles imiscuiram-se perfeitamente?
Há apenas uma bola fora, apenas um cachorro nesse delicioso balaio de gatos : a música Amar Como Jesus Amou, de autoria do Pe. Zezinho, que, para "melhorar" ainda mais, Fernanda Takai gravou com  participação especial do Pe. Fábio de Melo, o padre-cantor-galã-bombadão da Canção Nova.
 A música - sim, eu a ouvi uma vez -, resumidamente, prega que a receita da felicidade é amar como Jesus amou. Tô fora. Que é bem sabida a felicidade alcançada por Jesus por amar como amou ao seu próximo : umas boas dumas chicotadas no lombo e uns pregos nas mãos. Na hora de decidir sobre quem seria crucificado, se o amoroso Jesus ou se o notório ladrão Barrabás, o povaréu não teve dúvidas, nem titubeou : mandou o nazareno para a cruz.
Mas também não é nada que deponha contra o disco, que é um verdadeiro primor, ou que nos desanime em sua audição; apenas um deslize. Aliás, bem fácil de contornar : baixe o CD e delete a faixa 9. Tudo resolvido.
A melhor do disco? Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme, de Reginaldo Rossi. Sem dúvida alguma.

Sintomas

O poema a seguir, Sintomas, é uma colaboração - espero que a primeira de muitas - de Larissa Dalavale, grande amiga e leitora do blog. Quando a conheci, era uma pessoa normal, mas aí deu pra se meter com poesia, aí deu de cara com Bukowski, aí deu nisso : infectada. Para todo o sempre.
Sintomas 
Tudo acaba , fica um vazio
O que faço agora ?
Enfim ... não sei ...
Me sinto doente ,
infectada pelo sistema
está tudo dominado ,
pelo vírus do equívoco
e da ignorância ...
O que é verdade ?
sou cercado de ilusões.
Sou como bêbado,
embriagado pela tolice da sociedade
com uma dose dupla de cegueira da humanidade.
Bêbado escravo dos desejos
Recorre a mais prazer
Busca pela felicidade eterna ...
Bebo agora a ultima dose
de felicidade instantânea
Encontro ao final apenas meu próprio eu , vazio.

Out Alcohol, o Santo Graal dos Bebuns

Assim como os alquimistas perseguem há tempos a pedra filosofal, que lhes transforme chumbo em ouro, e o elixir da longa vida, que lhes confira a vida eterna, os bebuns sonham, talvez há mais tempo que os alquimistas, com uma poção mágica que os protejam das consequências nocivas de uma boa bebedeira, que os livrem de retumbantes ressacas, do bafômetro da polícia e, sobretudo, dos faros aguçadíssimos de suas esposas.
Quanto à busca dos alquimistas, eu não sei a quantas anda, mas a dos bebuns acabou!
Pois esse verdadeiro Santo Graal dos cachaceiros acaba de ser lançado no mercado. Quem garante é a empresa uruguaia Embotelladora Serrana, que produz e comercializa o Out Alcohol, um xarope capaz de eliminar do sangue qualquer resquício de álcool em, no máximo, duas horas. 
O Out Alcohol acelera o metabolismo, afirma o presidente da empresa, Tabaré Burgueño, o que possibilita, no tempo supracitado, que o pé-de-cana elimine de seu sangue o álcool de três taças de vinho ou de duas doses de uísque.
De acordo com o site do fabricante, basta que o bebum tome o produto 30 minutos antes de consumir a bebida alcoólica.
Pããããta que o pariu!!! É o Engov do século XXI! É o Epocler high tech.
Um parentêses para os que têm menos de 30 anos : Engov é um tradicional fármaco, comercializado na forma de comprimidos, composto de hidróxido de alumínio (ação antiácida), AAS (analgésico) e maleato de mepiramina (ação antináusea e antivômito). Segundo os cânones do bebum, o sujeito deve ingerir um comprimido antes de começar a beber, um durante a bebedeira e um último ao encerrar da festa. Funciona? Para ressacas leves e moderadas, sim. E para as brabas, as homéricas, as azarônicas? Porra nenhuma que funciona. É só uma coisa a mais para se vomitar.
Voltando:
Tenho a certeza de que todo bebum que leu a reportagem, pensou o mesmo que eu : e se eu tomar dois flaconetes do Out Alcohol? Dentro das mesmas duas horas preconizadas, serei capaz de eliminar o álcool de seis taças de vinho ou de quatro doses de uísque? Três Out Alcohol, nove taças de vinho e seis doses de uísque? E assim por diante?
A reportagem não deixa nenhuma pista clara a esse respeito, a essa P.A. dos bebuns.
Porque se não for assim, se a sua eficiência não se der em progressão, se dentro das postuladas duas horas, independente de quantos flaconetes de Out Alcohol se tome, só for possível eliminar o álcool equivalente a três taças de vinho ou a duas doses de uísque, o produto não me serve. Não me interessa, em hipótese alguma. Considerarei-o apenas mais uma farsa, uma fraude. Só mais um item de perfumaria. Mais uma viadagem mercadológica. Apenas mais uma bebida da moda para ser consumida nas tais baladas, feito os energéticos, os isotônicos e outros que tais. Artigo para iniciantes. Para cabaços.
Que  bebedor de respeito, das antigas, bebedor de alma, toma só duas doses? Além disso, duas doses, até o meu velho fígado de Prometeu elimina em duas horas. Tranquilamente. Sem precisar de nenhum acelerador de metabolismo.
Quero ver é eliminar uma garrafa inteira! Ainda mais se for uma garrafa de um legítimo paraguaio, daqueles que meu amigo Fernandão sempre me oferta quando lhe dou o prazer de minha visita.