quarta-feira, 14 de maio de 2014

Esquizofrênico Funcional

Minha ocupação :
Ora creche, ora hospício, ora reformatório
Ora circo, ora matadouro.
E eu vou me revezando :
Ora esquentador de mamadeira, 
Ora alfaiate de camisas de força,
Ora carpinteiro do universo, 
Ora catador de merda de elefante
Ora magarefe.
E eu vou sendo multi
E vou sendo nulo
Fatiado por prismas de Newton
E moedores de carne :
Um esquizofrênico funcional.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Volta de Jesus Foi Promessa de Bêbado, diz Vaticano

O tão anunciado e aguardado retorno de Jesus Cristo sempre me pareceu conversa pra boi dormir, mais uma empulhação da Igreja Católica. E digo porquê. Não há evidências conclusivas da existência real de um homem chamado Cristo, de carne e osso; na verdade, não há nenhum tipo de evidência, conclusiva ou não. Só especulações em torno da vontade de que tenha existido um cara feito Jesus Cristo, uma divindade que acreditou, apiedou-se e se sacrificou pela podre humanidade. Só mais um delírio de grandeza coletivo tornado em "verdade".
Assim sendo, como alguém que não existiu de fato pode regressar? Fica parecendo aquele famoso filme de meus tempos de infância, A Volta Dos Que Não Foram. Ou, no caso, A Volta Do Que Não Veio, ou, ainda, A Volta Do Que Não Foi (não existiu).
Apregoar o retorno do Cristo é só mais uma das maneiras de manter os fiéis na linha, à espera do salvador que regressará trazendo a recompensa do reino dos céus aos que tiverem bem se portado, aos que forem merecedores. Uma forma de manter os fiéis na linha e, claro, pagando o dízimo. 
Agora - sabe-se lá por quais razões, a Igreja sempre as têm bem escondidas -, o Vaticano, em 25 de abril passado, anunciou oficialmente ao mundo que Jesus não voltará, pelo menos não por ora, não por enquanto. Mas que a notícia não deve ser motivo para o esmorecimento da fé católica, pede que todos continuem firmes em sua ignorância.
O porta-voz do Vaticano, Cardeal Giorgio Salvadore, disse que esse ano, o 1981º aniversário da Igreja Católica, é o último em que alguma esperança de uma breve volta do Cristo pode ser nutrida. Se não voltou até agora, aos do Vaticano, parece que ele não volta mais. Se não veio até então, não há prognósticos de rápido retorno.
Disse o cardeal :"acabamos de perceber que Jesus/Yeshua não voltará. Ele, provavelmente, está em outro lugar, fazendo outras coisas muito boas para as pessoas."
Acabaram de perceber? Pãããããta que o pariu!!!! Eu que nunca estudei teologia, filosofia e essas porras e tampouco tenho uma linha direta com o Céu, sempre percebi isso.
O cardeal tenta ainda limpar um pouco a barra do tratante Jesus, tenta fornecer, se não um álibi, ao menos um atenuante para o bon vivant da Galiléia, para o Nazareno folgazão. Segundo o cardeal, e não custa lembrar que ele é um porta-voz oficial do Vaticano e, logo, do Papa, há quase dois mil anos, no capítulo João 14:1-3 da Bíblia, Jesus prometeu aos seus discípulos que voltaria um dia : "Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede em mim também. Na casa de meu pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também".
Promessa é promessa, inda mais uma do Cristo, certo? Mais ou menos... Disse o cardeal que não há de se levar muito a ferro e a fogo a promessa de Jesus, pois o seu poder de transformar água em vinho trouxe-lhe muitos altos e baixos, muitos prós e contras, e que, muito provavelmente, Cristo estaria embriagado no momento da promessa aos seus apóstolos e, consequentemente, à sua querida humanidade. Quer dizer que, pelo visto, Cristo ficava transformando água e vinho o dia inteiro. Não é de se espantar que tenha angariado tantos seguidores e em tão pouco tempo. Até eu seguiria um cara com esse dom.
"Quando estamos bêbados, todos nós fazemos promessas que não podemos cumprir depois. Jesus não foi diferente", arremata o cardeal. 
Pãããããta que o pariu!!!!! Toda a fé e a esperança do mundo ocidental, nos últimos dois mil anos, está alicerçada na promessa de um bêbado. Toda devoção e submissão à espera de uma remissão milagrosa fundamentadas em papo de cachaceiro.
É igual ao cara que enche a cara e começa a cantar a mocreia. O cara diz que ela é maravilhosa, a mulher mais bonita que já viu, que quer namorar com ela, apresentar pra família, casar etc. Come a mocreia, jura amor eterno e diz que vai ligar no dia seguinte. E não liga nunca mais.
Cristo enchia a cara com seus apóstolos e dizia que a humanidade era linda e maravilhosa, que ele traria a salvação para os seus pecados, daria-lhes o reino dos céus, a ressurreição, a vida eterna, que iria e voltaria, que ligaria no dia seguinte. Fudeu com a humanidade, deu aquela "migué" de ascensão aos céus, picou a mula para a casa do Pai e nunca mais voltou. Jesus é o bêbado que não liga para a mocreia no dia seguinte. E a mocreia fica o resto da vida esperando por sua ligação.
Como é que eu não percebi isso antes? Que tudo o que o Cristo falava era papo de buteco, ou, melhor, de taverna? Que toda aquela conversa mole, aquele papo de dar a outra face, que todo aquele amor, aquela compreensão e tolerância para com a humanidade nada mais eram que 171 de pé de cana? Até eu, quando bebo umas a mais (várias a mais), acho a humanidade tolerável. Que dirá, então, o filho do Criador? Grande coisa, aliás. Transformando água em vinho, até eu.
Genial esse cardeal. Quis limpar a cara do Cristo e acabou embosteando mais. De quebra, chamou toda a cristãozada de burra. Convidá-lo-ei para colaborador honorário do Marreta!
Então, nem é mais a Volta dos Que Não Foram. É a Volta do Boêmio! Cristo é o Nélson Gonçalves do Céu. Ele voltou, o boêmio voltou novamente, partiu daqui tão contente, por que razão quer voltar?
O Nélson tinha as suas razões para voltar, com certeza. O Cristo, nenhuma. Ou você voltaria para um povo que livrou a cara do ladrão Barrabás e pôs o seu santo rabo na reta?
E enquanto Cristo não vem, deixemos de coisa e cuidemos da vida; o cardeal disse que a igreja se ocupará agora de reconstruir sua imagem pelo mundo.
E o Inri Cristo, como é que ele fica nessa história?

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Tourada dos Idiotas

Não há batalha mais perdida que aquela travada contra o idiota; nada o demove de sua estupidez. O idiota é invencível. E tem uma taxa de proliferação exponencial. 
Ai daquele que fez disso a sua profissão, guerrear contra o idiota.
Mil vezes ai daquele cuja profissão, ora nobre arte e ofício, foi transformada, vil e torpemente e à sua revelia, nisso, em tremular a já fosca e rota capa vermelha e a dançar na arena com os idiotas.

sábado, 10 de maio de 2014

Campanha de Aleitamento Literário

Desde 2011, mais ou menos por essa época do ano, aproveitando as temperaturas mais aprazíveis da primavera nova-iorquina, o que para eles lá significa aragens de 10ºC, 15ºC, um clube de leitura muito peculiar (e gostoso) se reúne nos gramados do Central Park, um grupo de amigas que cultiva o hábito da leitura ao ar livre. E com as tetas de fora.
É o Outdoor Co-Ed Topless Pulp Fiction Appreciation Society (sociedade do topless para a apreciação de Pulp Fiction ao ar livre). As moças encontram-se para debater sobre seu gênero literário favorito, o Pulp Fiction - histórias de fantasia, policial e ficção científica publicadas em papel de baixa qualidade - e, lógico, para fazer topless, balangar a peitaria.
Essas valorosas mecenas das letras mostram que ler não tem nada de chato; antes pelo contrário, que ler pode ser um tesão. E tem melões de todos os tipos e para todos os gostos.
Mas, claro, sempre tem que haver uma "justificativa cabeça" para ficar pelada, uma premissa de cunho social, filosófico e educativo, que se pretende, muito mais que simplesmente exibir as mamadeiras, à discussão e à conscientização da mulher para o real papel de sua figura na sociedade contemporânea, a fornecer subsídios intelectuais para que a mulher se torne efetivamente dona de seu próprio corpo, sinta-se à vontade com ele, exerça-o plenamente, para que ela própria, a mulher, se desvencilhe dos estereótipos da vil opressão machista.
Alethea Andrews, uma das fundadoras do grupo, conta que, em 2011, ela e uma amiga sua do peito discutiam o porquê das mulheres nova-iorquinas não exercerem o direito ao topless, apesar dele ser permitido na cidade de Nova Iorque. Chegaram à conclusão que o motivo das nova-iorquinas circularem pelas ruas da cidade com os peitos vestidos era a desinformação. Daí para a criação do Outdoor Co-Ed Topless Pulp Fiction Appreciation Society foi um pulo. O clube se formou mais rápido que o desabotoar de um sutiã. 
"Então montamos um grupo para podermos fazer topless juntas. Transformamos num clube de leitura porque amamos livros e amamos passar nosso tempo com outras pessoas que amam os livros", explica Andrews.
"Queremos abrir os olhos das pessoas ao fato de que é legal para as mulheres fazerem topless e de que o corpo da mulher não é mais vergonhoso ou mais sexual do que o do homem", continua a moça. "Escolhemos a 'pulp fiction' como nosso gênero porque é divertido e porque as mulheres das capas dos livros quase sempre estão escandalosamente despidas, como nós".
Discordo de Alethea. É claro que o corpo feminino é mais sexual do que o do homem. Tem mais reentrâncias, mais recônditos, mais mistérios. E vejam como Alethea quer provar que corpo é simplesmente corpo, independente do sexo a que pertence : escolhe como tema de suas leituras a apreciação de um gênero em que as mulheres aparecerem peladas e fortemente erotizadas.
E a moça, que tanta atenção queria chamar para o topless, reclama agora da notoriedade conseguida. Depois que o grupo teve suas fotos publicadas no site "Huffington Post", as moças se incomodaram com o assédio da imprensa e não permitiram mais a presença de jornalistas nos encontros : "Não queremos que nossos eventos tranquilos se tornem um circo midiático", diz Andrews. Perguntas, agora, só por e-mail.
Pããããta que o pariu!!! Exibem a peitaria em praça pública e não querem que o evento seja "transformado" em circo? Já é um circo, minha cara. E que graça tem fazer perguntas para uma peituda via e-mail? Será que ao menos elas deixam a webcam ligada?
Mas não estou reclamando, não. De forma alguma. Muito pelo contrário. Dou o maior apoio à iniciativa das moças. E faço sinceros votos de que inspirem outros grupos pelo mundo. Acho mesmo que elas deveriam receber verba pública do ministério estadunidense da educação, por tamanho incentivo à leitura.
No Brasil, porém, país de pouquíssima leitura e, por isso mesmo, de menor ainda educação, onde a ignorância vem de berço esplêndido, creio que o Ministério da Saúde é que deveria subvencionar iniciativas feito a das nova-iorquinas. Complementarmente à louvável e bem-sucedida (e, nesse caso, falo sério) Campanha de Aleitamento Materno,  caberia ao Ministério da Saúde implementar a Campanha de Aleitamento Literário. Ler também é saúde, mens sana..., também nutre, você tem fome de quê?
Publicidade governamental com peitudas a ler um grosso calhamaço deveria ser veiculada na TV, em horário nobre. Cartazes com peitudas a nos conscientizar dos benefícios da leitura deveriam estampar as paredes dos postos de saúde, das escolas, das bibliotecas e das repartições públicas, ser afixados em supermercados, bancas de jornais, nas paradas de ônibus. Só não digo que devessem virar aplicativos para celular porque quem vive grudado em celular não tem mais salvação, o cérebro cozinhou, jamais adquirirá o hábito de leitura. E, digo mais, talvez nem o gosto por uma bela peitaria. Vejo uns jovens por aí que, claramente, têm mais prazer em manipular e digitar em seu celular o dia inteiro do que dar umas apalpadelas nuns peitos, do que dar uma boa buzinada em fartas mamas.
Abaixo, duas amigas, de forma serena e idílica, dividem a mesma toalha durante a fraternal leitura.
Outras duas, mais dadas à discussão e à polêmica, debatem sobre seus livros de forma mais acalorada.
Ah!!! E ainda tem mais. Do principal, eu já ia me esquecendo. Alguns dos saraus literários das moças também podem acontecer em ambientes privados, em coberturas de prédios, geralmente. Nessas ocasiões, aos livros, são adicionadas algumas garrafas de um bom espumante e elas podem tirar toda a roupa. Topless - que são os peitos sem nada a cobri-los - e bottomless - que é o "butão" sem nada.
Aí, sim! Aí é que a coisa pega! Aí é que o verdadeiro objetivo do Clube do Livro se revela. É o rock das aranhas, meu velho!!!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Prepare o Seu Coração Pras Coisas Que Eu Vou Contar

Taí um cara que eu pensava que jamais fosse morrer. Existe gente que é assim, tem ares de imortal. Se uma lista de pessoas imperecíveis me fosse encomendada, Jair Rodrigues, na certa, estaria em seu topo.
Nem envelhecer o cara envelhecia. Sempre que estava em um programa de TV, fosse de auditório, de entrevistas, um debate etc, Jair Rodrigues não parava quieto, era elétrico, agitado, um desassogego só, mexia e brincava com todo mundo, desde o apresentador até os câmeras e contrarregras.
No palco de seus shows - nunca tive a oportunidade de vê-lo ao vivo -, até bananeira ele plantava. E, de súbito, vem o mal-humorado e rabugento do tal miocárdio e resolve infartar, pedir aposentadoria compulsória.
Jair Rodrigues deixou de cantar hoje, aos 75 anos. Calou-se de forma inesperada para a família e fãs, pois gozava de boa saúde e mantinha-se trabalhando normalmente, estava em meio à turnê de seu mais recente lançamento "Samba Mesmo".
Sua última apresentação se deu em São Lourenço (MG), palavras do organizador do show, Daniel Moura : "Jair cantou e dançou por mais de uma hora demontrando a típica alegria e vitalidade. Ele plantou bananeira no palco e fez uma homenagem para Elis Regina". Segundo Moura, antes de cantar "Romaria", Jair conversava com Elis como se ela estivesse no palco: "Olha Pimentinha, manda um abraço para São Pedro porque eu não estou com pressa".
Brinca com São Pedro, brinca...
Deixo aqui a letra de "Bloco da Solidão", de autoria de Evaldo Gouveia e Jair Amorim e uma das gravações de Jair Rodrigues de que mais gosto.
Bloco da Solidão 
Angústia, solidão,
Um triste adeus em cada mão,
Lá vai meu bloco, vai,
Só desse jeito é que ele sai,
Na frente sigo eu,
Levo o estandarte de um amor,
O amor que se perdeu no carnaval,
Lá vai meu bloco,
Lá vou eu também,
Mais uma vez sem ter ninguém,
No Sábado e Domingo,
segunda e terça-feira,
E quarta-feira vem,
O ano inteiro,
É todo assim,
Por isso quando eu passar,
Batam palmas pra mim.

Aplaudam quem sorrir,
Trazendo lágrimas no olhar,
Merece uma homenagem,
Quem tem forças pra cantar,
Tão grande é a minha dor,
Pede passagem quando sai,
Comigo só,
Lá vai meu bloco, vai...
 (1939 - 2014)

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Museu do Caralho

Pode parecer mentira (não é), pode parecer sacanagem (e até é, só pode ser) : na Islândia, há um museu de cujos corredores e galerias eu quero passar longe, é o Hið Íslenzka Reðasafn. Que traduzido para o português do Brasil significa "O Museu Falológico da Islândia", o museu da piroca, ou, na tradução para o português de Portugal, a famosa Casa do Caralho.
É a pintoteca! Pããããta que o pariu!!!!
Tudo começou em 1974, quando Sigurður Hjartarson, ex-professor de história e hoje proprietário e curador do museu da benga, ganhou um pinto de boi de um amigo, que quisera tirar uma de sua cara, sacaneá-lo. Pensam que Sigurður Hjartarson ficou puto da vida com o amigo? Que xingou, esbravejou, mandou o amigo tomar no cu, reações normais a qualquer macho de respeito, que fariam o amigo dar desbragadas risadas e renderia uma boa história para ser relembrada e contada nas reuniões fraternais? Acham que ele jogou fora o presente de mau gosto? Nada disso. Simplesmente guardou o presente do amigo. Talvez tenha se afeiçoado a ele.
Depois disso, a história se espalhou e Sigurður Hjartarson começou a ganhar de presente um monte de caralhos, dos mais variados animais da Islândia, o que despertou sua curiosidade "científica" e fez com que passasse a colecionar e a catalogar os tarugos. Em 1997, já de posse de 283 membros de 93 espécies diferentes de mamíferos, ele decidiu abrir um pequeno museu para expor a sua macabra coleção. O museu começou a atrair turistas, que, além de pagarem por um ingresso, também traziam mais exemplares para Sigurður Hjartarson.
Em 2004, as acomodações do pequeno museu se mostraram modestas para tanta rola e Sigurður Hjartarson o transferiu para o local onde funciona até hoje, estava fundado o Museu Falológico da Islândia. 
O museu do salame atrai, segundo Sigurður Hjartarson, cerca de 20 mil visitantes anuais, ao valor de 1250 coroas islandesas cada um, o equivalente a 20 e poucos reais.
E tem de tudo na casa do caralho, desde de pintos de hamster e porquinhos-da-índia até gigantescos falos de baleia, como o da cachalote, com 1,80m e 68 quilos e que, de acordo com Sigurður Hjartarson, não está exposto na íntegra, originalmente tinha 5 metros e pesava mais de 300 quilos, ou seja, Sigurður Hjartarson só pôs a cabecinha da benga da cachalote em exposição.
Em 2011, ele realizou um sonho : depois de muitos anos em busca de um exemplar de cacete de Homo Sapiens, conseguiu um doador de órgão (literalmente), um islandês morto aos 95 anos, que resolvera deixar seu pinto para a posteridade. Sabem o nome do cara? Pall Arason! Pall!!!! É verdade! E só podia ser.
Mas a generosidade de Pall Arason não aplacou a sede científica por pau de Sigurður Hjartarson, que se revelou até um pouco ingrato em uma declaração : “Eu ainda quero conseguir um exemplar humano melhor e mais atraente”.
Melhor e mais atraente? Huummmm.... Eu tava me segurando desde o início, não tava querendo pôr em dúvida a masculinidade do islandês, para não dizerem que o Azarão é maledicente,  preconceituoso e etc, mas, depois dessa, a mim não restam dúvidas : o Museu Falológico da Islândia é para consumo próprio de  Hjartarson.
E, agora, o sonho de um cacete humano melhor e mais atraente (sic) acaba de se concretizar para o insaciável islandês. 
John Falcon, americano de 45 anos, considerado o dono da maior mandioca do mundo (isso porque o Zé Bonitinho não é conhecido em âmbito mundial), resolveu doar a sua terceira perna para o museu. John Falcon, há coisa de uns dois ou três anos, ficou mundialmente conhecido no mundo das subcelebridades ao ser parado em um aerporto dos EUA depois que os agentes de segurança suspeitaram que ele estivesse carregando uma arma na calça. Não deixava de ser uma pistola, mas não era uma arma de fogo, embora Falcon garanta que nunca tenha negado fogo. O calibre do moço : 23 centímetros dormindo e 34 centímetros em estado de alerta. Convenhamos, é de fazer égua olhar para trás.
O convite para a imortalidade partiu, óbvio, de Sigurður Hjartarson. Ao qual, Falcon respondeu : "Fiquei lisonjeado com o convite. Aprecio a devoção do seu museu à ciência, e seria uma honra ter a minha masculinidade em exposição. Espero estar exposto entre os apêndices sexuais de uma baleia e de um urso polar". 
Huummm... ter minha masculinidade em exposição... Sei não, esse Falcon, também. Ele deve amar, idolatrar o seu pescoço de girafa. No mínimo, deve chupar o próprio pau, fazer um autoboquete. O que, nesse caso, nem requer dele grandes habilidades de contorcionismo. E ele próprio se mostrou, igualmente a Sigurður Hjartarson, um acadêmico do pinto, por conta própria realizou a taxonomia de sua benga : entre a cachalote e o urso polar. Quer dizer que o urso polar, o fofíssimo garoto-propaganda natalino da Coca-Cola também é bengudo? E naquele gelo e frio todo? É um animal a se respeitar.
O que me lembrou de uma piada : o sujeito, bem-nascido e agraciado pela natureza e pela evolução, daqueles "má-criados" mesmo, um dia foi à praia e, inadvertidamente, vestiu uma bermuda branca de nylon, daquelas que deixam tudo transparente quando molhadas. Sem se dar conta, entrou na água, curtiu umas ondas e foi se secar à areia. Assim que saiu da água, a benga ficou em relevo, uma protuberância que lhe descia pela perna esquerda e quase lhe alcançava o joelho. Todos começaram a olhar para ele, as crianças com medo, não sabiam o que era aquilo, os homens com inveja e ódio, as mulheres com lascívia e baba a lhes pingar dos cantos da boca. O cara percebeu que todos olhavam para ele e que o alvo dos olhares era o seu cacete. Não se fez de rogado : "Que que foi, seus porras? Vão dizer que o pau de vocês também não encolhe quando entra na água fria?".
Abaixo, uma visitante a apreciar o falo embalsamado de um elefante.
O que me lembrou de outra piada : bem ao lado de um convento, um carro bateu numa carroça, matando o jumento que a puxava. A carroça e o carro logo foram retirados do local, mas o jumento foi deixado ali, a aguardar por providências do Ibama, da sociedade protetora dos animais, do controle de zoonoses etc. Nesse meio tempo, passa um filho da puta pelo local e resolve fazer uma sacanagem. Corta o pau do jegue e o arremessa por cima do muro do convento. Daí a pouco, a irmã Anunciação, da ordem das Carmelitas, passa pelo bucólico jardim do convento, vê a benga e se horroriza : "Valha-me Deus!!! Mataram o padre José!!!!!"

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Pequeno Conto Noturno (40)

Vagalhão que se arrebenta, se acalma e se espraia em tapete de espuma efervescente, Marina sai de cima de Rubens, senta-se na cama, as costas contra a parede e puxa o lençol para o meio das pernas. Ofega. Suada e salgada. Marina não usa nenhum tipo de desodorante, antiperspirante, hidrantes e outros que tais. Toma dois, três, às vezes, quatro banhos diários, se necessário achar, mas nunca usa mascaradores de cheiro.
Marina cheira a sal, óleo e sargaço; a mangue e lodaçal, em certos lugares.
Rubens sai da cama, vai à cozinha e volta com duas licenciosas doses de rum, um copo em cada mão. Passa o com maior quantidade de gelo para Marina. Marina emborca o rum sem medo nem cerimônias. Retém o líquido âmbar e amadeirado por um tempo na boca, sente-o queimar suas mucosas, suas papilas gustativas, engole-o num único sorvo em seguida, sente-o a cauterizar seu esôfago, a se aninhar e a lhe pôr enxofre fumegante no estômago. Queria-o a encharcar cada uma de suas células : muito mais que uma bebida alcoólica, um antisséptico para a sua existência.
- Você lembra do tempo em que andávamos por aí, sem lenço nem bússola e sabíamos exatamente quem erámos, sabíamos onde queríamos chegar? - pergunta Marina.
- Hoje temos nossos diplomas, nossas profissões "estáveis", as escrituras de nossas casas, as nossas raízes de baobá, as nossas mortes como certas, os nossos sonhos realizados - fala Rubens.
- Pois é..., então, por que e de onde essa vontade de nos lançarmos em naus furadas e periclitantes, querer descrer de Galileu e despencar pela borda do mundo? - Marina secando o copo.
- Talvez pela vontade de não sentirmos o chão sob nossos pés, pela vontade de voar, que volta e meia nos retorna e aflige.
- Mas já sabemos, Rubens, descobrimos, que não podemos voar.
- Nunca descobrimos nada, sempre soubemos da impossibilidade de voar. Mesmo quando ainda tentávamos.
Rubens sai e volta com mais duas doses. Sem gelo, ambas.
- E por quê? - insiste Marina - Essa vontade já não deveria estar morta e enterrada frente aos fatos? Por que a exumamos de tempos em tempos? Por que nos frustrarmos repetidamente com seus ossos?
- Vontade não rui nem se alicerça frente a fatos. Vontade é desejo, é vaidade, é capricho. Cede sob sua própria insustentabilidade, e ressurge de sua própria leveza e leviandade. A vontade de voar nos eleva mais que o voo em si. A concretização do voo se tornaria em uma rotina, com o tempo, nos acomodaria em altitudes cada vez mais baixas, engessaria-nos; se voássemos, perderíamos o prazer do voo.
- A realidade do voo cortaria nossas asas? É isso que está dizendo? - e Marina dá mais um gole no rum, de fazer inveja a qualquer pirata.
- E não é o que toda realidade faz? Corta-nos as asas, engaiola-nos e, a exemplo do Assum Preto, nos fura e nos cega os olhos para que, não vendo mais as grades e imaginando ainda o azul infinito às nossas costas, cantemos melhor?
- Então, se tudo, o tempo inteiro, é só ilusão, o que nos resta, Rubens?
- Nos resta matar esse rum e cantar aquela do Oswaldo Montenegro, Estrelas : Pela marca que nos deixa a ausência de som que emana das estrelas, pela falta que nos faz a nossa própria luz a nos orientar. Doido corpo que se move, é a solidão nos bares que a gente frequenta, pela mágica do dia, que independeria da gente pensar.  Não me fale do seu medo, eu conheço inteira sua fantasia e é como se fosse pouca e a tua alegria não fosse bastar. Quando eu não estiver por perto, canta aquela música que a gente ria, é tudo que eu cantaria e quando eu for embora, você cantará.
- Até que você canta bem, Rubens - Marina já se encostando e se enroscando em Rubens, sal, óleo e algas.
- Canto o caralho que canto!!! Tá querendo dar de novo pra mim, né?

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Te Amo, Espanhola

Embora os defensores do E.C.A. digam que sim, que o Estatuto da Criança e do Adolescente impinge inúmeros deveres aos jovens sob os seus auspícios, a verdade é que não há, na prática, no entender da lei, nenhuma real obrigação do adolescente para com a sociedade.
O ECA é um conjunto de apenas direitos do adolescente; aliás, direitos, não : privilégios, regalias, mordomias. O ECA trata o adolescente como a um fidalgo, alça-o à categoria de aristocrata; pior, à de um faraó. Duvido, inclusive, que o jovem Tutankamon tenha desfrutado de tantas facilidades e gozado de tantas irresponsabilidades em seu tempo.
Um estatuto que só dá direitos e nenhum dever é um manual para criar bandidos. É isso o que o ECA é, uma cartilha para formar delinquentes, com distinção e louvor.
Criado, teoricamente, o ECA, para ser uma proteção à criança e ao adolescente, forjado para lhes servir de escudo, tornou-se uma metralhadora giratória na mãos dos menores de idade, uma arma de destruição em massa, que deveria ser expressamente proibida pela Convenção de Genebra.
A escola não lhes pode corrigir, sob o risco de, segundo os peidagogos de merda, interromper os seus processos de desenvolvimento cognitivo, de traumatizá-los. Desde quando alguém aprende sem ser corrigido? Desde quando ser orientado em como fazer o certo interrompe o processo de aprendizagem, traumatiza? Cheguei a trabalhar em uma escola em que as avaliações eram obrigatoriamente corrigidas com caneta verde; o vermelho era considerado, lá pela peidagoga deles, uma cor agressiva, ofensiva ao educando.
A outros exemplos, a escola não pode impedir a entrada do jovem que chega atrasado às aulas, ainda que isso lhe seja um comportamento recorrente. O ECA e a LDB (lei de diretrizes e bases) garantem ao jovem relapso que ele entre na escola na hora em que bem entender; também não pode barrar sua entrada se ele não estiver uniformizado (o uniforme ainda existe, mas, às vistas da lei, tornou-se apenas um acessório, um adereço) , nem se ele quiser entrar em sala de aula sem nenhum material escolar, de mãos abanando, sem um lápis ou caneta sequer.
A escola não pode reprová-lo por rendimento insatisfatório, por ele não estudar : segundo ECA e LDB, se o aluno não estuda, a culpa é da escola e do professor, logo, reprová-lo seria puni-lo por algo que não é de sua responsabilidade, aliás, hoje em dia nada é de responsabilidade do aluno, nem de sua família.
A escola  não pode mais expulsar o aluno indisciplinado, o sujeito pode aprontar o que quiser em ambiente escolar, pode cagar na cabeça de todo mundo, professores, inspetores, coordenadores, diretor, que nada de efetivo lhe acontece. Os cada vez mais raros e esporádicos casos de expulsão - aliás, expulsão, não : transferência compulsória, que dizer expulsão também traumatiza - ocorrem somente em situações em que há o envolvimento com drogas ilegais, porte ou comércio delas. Mas aí nem é um problema educacional, pedagógico, já é caso de polícia.
Ainda assim, a escola, antes de colocar o jovem para fora, tem que conseguir vaga para ele em outra unidade de ensino. Isso mesmo, se o diretor não conseguir vaga para o vagabundo em outra escola, não pode mandá-lo embora, ainda que o conselho de escola já tenha decidido por sua transferência. Ainda assim, se os responsáveis pelo menor não aceitarem a nova vaga conseguida pelo diretor, o aluno ali permanece; ainda assim, se os responsáveis forem ter com algum promotor da infância e da juventude, não tenham dúvidas, o vagabundo imediatamente será reintegrado ao ambiente escolar por uma ordem judicial, cumpra-se e fim de papo.
Em casa, igualmente à escola, a situação dos pais - dos bons pais, quero dizer - não é muito melhor. Repreender mais severamente um filho também é ato visto como delito contra o jovem pelo ECA. Se a criança ou o adolescente levarem a boa, velha e eficiente palmada pedagógica na bunda, o que é muito diferente de espancamento, esse sim inadmíssivel, eles podem denunciar os pais por maus-tratos, que responderão judicialmente por isso. A chinelada educativa, que pode valer mais do que mil palavras, também traumatiza e prejudica o desenvolvimento pleno do potencial do jovem safado. Um simples elevar de voz, um grito dado pelos pais, é considerado violência psicológica.
Dia desses, ouvi um psicopeidagogo dizer que os pais não devem traçar comparações entre seus filhos, ou entre seu filho e um amigo dele. Que falar para a criança que ela deve ser como o seu irmão, ou como seu amiguinho, que é mais educado, mais obediente, mais estudioso, é também um tipo de violência psicológica contra ela, também pode barrar o seu processo de crescimento emocional. Ora, vão à merda!
Fazer com que a criança participe das responsabilidades da casa também é proibido. Se uma mãe "obriga" seu filho a limpar e a arrumar o próprio quarto, a lavar o prato e o copo que ele próprio sujou, a auxiliá-la nas tarefas domésticas, ela também pode ser denunciada por seu querido rebento às autoridades competentes. Responderá por trabalho infantil.
O ECA é ou não é uma cartilha para criar delinquentes?
E o pior é que o ECA é visto pelos especialistas internacionais da área como um modelo de avanço e modernidade, como um dos códigos mais em acordo com os direitos humanos, com os parâmetros estabelecidos por órgãos internacionais ligados à educação, como a Unesco, por exemplo.
Verdade seja dita : os canalhas que governam nosso país são mesmo inteligentíssimos, sabem perfeitamente fazer leis que parecem maravilhosas e progressistas no papel e que, na prática, desestruturam cada vez mais os valores básicos da sociedade, a começar pela educação.
Se por um lado, não há a menor chance do Brasil se tornar um país verdadeiramente civilizado, educado por definição - sim, o processo é irreversível, e digo isso sem nenhuma alegria, apenas por força da constatação -, por outro lado, países muito melhores que nós - que sempre foram melhores e sempre serão - já detectaram o problema do adolescente vagabundo, já perceberam os efeitos nocivos que a vida mansa dada aos adolescentes acarreta para a sociedade.
Na Itália, em 2010, o Ministro da Administração Pública, Renato Brunetta, propôs que fosse criada uma nova lei para forçar filhos adultos a sair da casa dos pais. Segundo Brunetta, os filhos deveriam ser obrigados a deixar a casa dos pais aos 18 anos de idade, mesmo que por força de lei.
A proposta do ministro nasceu das inúmeras e crescentes reclamações de idosos cujos filhos, todos já passados da casa dos 30, 40 anos, ainda viviam de chupinhar as aposentadorias dos velhos pais. E mais especificamente como uma reação a uma decisão de um tribunal da cidade de Bergamo, que obrigou um pai - Giancarlo Casagrande, de 60 anos - a contribuir para as despesas da filha de 32 anos que ainda mora com a família, embora ela tenha concluído um curso universitário há oito anos.
Se a sugestão do ministro italiano foi ou não levada a cabo, se transformou-se ou não em uma lei, não li mais notícias. O que importa, no entanto, é que ela mostra uma constatação do problema, e uma reação a ele.
Agora, é a Espanha que dá mostras de querer abandonar a "modernidade educacional" e retomar os modelos tradicionais de educação, os verdadeiros, os únicos que funcionam.
Um projeto de lei que está sendo analisado pelo Parlamento da Espanha, caso seja aprovado, obrigará (em meio ao caos, gosto cada vez mais desse verbo, obrigar) crianças e adolescentes de até 18 anos a ajudar nas tarefas domésticas, determinadas de acordo com o gênero e com a idade.
De acordo com o projeto, crianças e adolescentes se tornam obrigados a "participar da vida familiar" e a "obedecer pais e irmãos". Além disso, a proposta legislativa afirma que os menores têm que "respeitar as regras escolares", estudar o tanto quanto for exigido pela escola e manter uma "atitude positiva".
Ou seja, a proposta espanhola tenta reestabelecer o óbvio, o básico, que todos devem ter obrigações, que todos devem ter contas a prestar à sociedade, de acordo, claro, com as capacidades e limitações de sua faixa etária.
É isso aí, espanholada! Te amo, espanhola! Olé!

terça-feira, 29 de abril de 2014

Crônica da Xênia

Minha mãe, quinzenalmente, se não me engano, compra a revista Ana Maria, da Editora Abril. Para quem não conhece a publicação, nunca a viu em uma banca de jornais e revistas nem - quase que impossível - exposta nas laterais dos caixas dos supermercados, Ana Maria é mais uma dessas revistas de TV e variedades, editada sobre dois grandes carros-chefes.
O primeiro, dietas milagrosas anunciadas em letras garrafais à direita da capa, a exemplos : "derreta 3 kg em uma semana com a dieta da gelatina", "ciência descobre o azeite que emagrece", "nossa leitora secou 14 kg sem dieta", "aprenda a fazer farinha que seca até 5kg", e a coisa segue nessa linha do absurdo. O segundo atrativo, anexo à revista, um pequeno livrinho de receitas, das mais calóricas possíveis.
De onde se vê que é uma revista de editorial e orientação cristãos, alicerça suas vendas na gula e na culpa, e na sua consequente penitência, a dieta, a privação. Por isso, vende pra caralho.
Minha mãe a compra pelo livrinho de receitas, as quais raramente fazem a transposição das páginas coloridas para o fogão, mas ainda assim as coleciona.
A capa da revista estampa comumente uma mulher em trajes sensuais e provocantes, que, supostamente, teria conquistado suas formas desejáveis através da dieta em destaque na edição. Ou seja, tem sempre uma gostosa inexpressiva na capa - inexpressão que pode ser advinda ou da cabeça vazia (algumas tão vazias que nem o diabo as quer para oficina), ou do botox a lhes envenenar a musculatura facial, ou do photoshop, ou, como se dá na maioria dos casos, da união desses três fatores.
Quando, geralmente aos sábados, vou almoçar na minha mãe, abro uma lata de cerveja para esperar pela boia e pego a revista Ana Maria para dar uma olhada na gostosa. Mas não pensem que a revista se limita apenas a isso, não. É uma revista que faz valer sua função de utilidade pública da primeira à última linha.
Tem ainda horoscópo - esses astros vagabundos e seus gigolôs, os astrólogos -, coluna social de bicho de estimação (é verdade, as pessoas enviam fotos dos aniversários de seus cachorros, gatos, calopsitas, iguanas, sogras... e a revista as publica), dicas de posições sexuais e artifícios eróticos para apimentar (sic) o casamento de 20 anos do barrigudo broxa e da gorda de tetas caídas e calcinha bege, técnicas para domar (sic, de novo) o cabelo alisado etc etc.
E em meio a tanta erudição, perdido entre tanto enciclopedismo, e agora falo sério, um respiradouro, uma nesga de pensamento autoral, de opinião : a Crônica da Xênia.
Há alguns jornalistas, cronistas, articulistas, ou como queiram chamá-los, que muito aprecio, João Pereira Coutinho, Ruy Castro, Contardo Calligaris, Luiz F. Pondé, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Eliane Brum etc. E outros com os quais simplesmente não gasto mais milissegundo do meu tempo, Gilberto Dimenstein, Marcelo Rubens Paiva, Rosely Saião.
Até sábado passado, Xênia Bier ocupava um nicho intermediário entre os meus preferidos e os meus preteridos, um limbo, uma espécie de geladeira em que mantenho os autores dos quais nunca li nada que me surpreendesse tanto nem nada que me desagradasse profundamente. Até sábado passado... quando li a crônica de Xênia a respeito da morte de José Wilker.
Percebo agora que muito da minha "resistência" à Xênia nunca foi em relação a ela propriamente dita, mas sim aos veículos em que seus textos são publicados, as revistas de TV e fofocas, destinadas a um público para o qual a leitura serve basicamente para identificar o itinerário do ônibus que o leva e traz do trabalho para casa, ou, num supremo esforço, para ler suas mensagens no celular e no twitter. O que impede, obviamente, que Xênia escreva textos maiores, mais elaborados, mais críticos, que se aprofunde mais em um determinado assunto ou tema. Xênia é obrigada a tirar leite de pedra, nem que seja leite desnatado, de soja.
Na crônica, que logo reproduzirei abaixo, Xênia começa dizendo que não chorou nem lamentou a morte de José Wilker, pois ele teve a morte dos abençoados, morreu dormindo. Até aí, nada de mais. Aposto que a maioria concorda com ela e também deseja para si igual destino. Mas, em seguida, tasca uma provocacão das boas, das brabas. Diz que tem pavor da velhice, da decrepitude, de ter que depender dos outros, diz que a velhice é uma merda. Melhor morrer antes da decrepitude.
Concordo. Mesmo que o infarto que vitimou José Wilker o tenha acordado por alguns instantes, por mais aguda e lancinante que possa ter sido a dor provocada por ele, ele foi breve, definitivo. Doeu menos tempo que uma topada de dedão no batente da porta, que um chute no saco, que uma dor de cotovelo. E muito melhor, mas muito melhor mesmo, que sofrer a podridão de um câncer que se espalha, ou a perda de identidade por um Alzheimer.
Xênia dispara : É preciso ser calhorda para chamar a velhice de “melhor idade”. 
Concordo com ela, em gênero, número e grau. Estou a beirar os 50 anos e é nítida e triste a diferença que sinto de quando eu tinha trinta e poucos, quarenta anos (melhor nem comparar com os 18 anos, sob risco de profunda depressão). O corpo reage pior e mais lentamente a tudo, uma gripe leva um mês para sarar, uma pancada no joelho ou uma pisada em falso, que forcem um pouco um tendão, um ligamento, são dores para o resto da vida, e as ressacas, então? Dão até vergonha!
Vou mais longe que a Xênia : e nem há, à guisa de compensação pelo corpo fraco, a tão alardeada aquisição de sabedoria, que viria com a experiência de vida e nos tornaria em anciãos sensatos e serenos, modelos de equilíbrio para os mais novos.
A sabedoria via velhice também é outra falácia : não ficamos mais sábios com a idade, só ficamos mais velhos. Não ficamos mais amáveis ou compreensíveis, só ficamos mais fracos, menos capazes de levar tudo a ferro e a fogo, sem forças para aguentar o tranco de um revés. É a debilidade que nos faz pensar mais antes de encararmos uma briga, é a desvantagem física que nos torna mais cautelosos e contemplativos. A velhice nos torna mais medrosos, não mais sábios.
Não sei se alguém realmente acredita nessa balela de "melhor idade", "feliz idade" e o escambau. O que é clara e nítida, para mim, é a existência de um grande segmento de mercado de olho na aposentadoria dos velhinhos. Um comércio de ilusões de eterna juventude. Vitaminas, poliminerais, suplementos alimentares, reposições hormonais, viagra, ginástica, bailes da velha guarda (os famosos "desmanches"), excursões para Caldas Novas. Daí essa puxação de saco para cima dos velhinhos, esse samba-exaltação de suas artroses, diabetes, hipertensões, cataratas, osteosporoses e safenas. A ideia é manter os velhinhos ativos, ao menos economicamente, engambelá-los para que consumam feito adolescentes, feito idiotas deslumbrados.
Abaixo, reproduzo a crônica de Xênia, deixando expressa aqui a minha vontade de lê-la em textos maiores, em publicações mais voltadas para quem gosta de ler.

Não chorei pela morte de José Wilker
Não chorei a morte de José Wilker, nem lastimei. Também não fiquei deprimida, mas sim serena, porque ele teve a morte dos abençoados: morreu dormindo. Que prêmio! Claro, por merecimento.
Agora minha cara leitora vai ficar chocada com o que vou escrever, mas hipocrisia não combina comigo. Detesto quem elogia velhice, tecendo mentiras em torno de uma tragédia.
A velhice é o maior castigo que cai sobre a humanidade. É a hora de pagar todos os nossos pecados. É preciso ser calhorda para chamar a velhice de “melhor idade”. Perdemos a fisionomia. Me olho no espelho e penso: “Quem é essa velha que me encara?”
São poucos os que escapam de diabetes, infarto, das terríveis dores reumáticas, da pressão alta, do Alzheimer. E quando a gente começa a sentir que precisa depender dos outros? Esse é meu maior pavor! O horror quando vou ao médico e a enfermeira começa a me chamar com voz mansinha de queridinha, bonitinha – tudo no diminutivo –, já vou dizendo: “Sou velha, mas não sou retardada”. E todos os olhares de impaciência quando você demora a abrir uma bolsa, por exemplo. Ser velho passou a ser motivo de xingamento.
Por tudo isso, não choro mais quando um companheiro vai embora, volta pra casa. Um homem brilhante como José Wilker, ator deslumbrante, culto e sensível, se alguém lhe perguntasse se queria viver mesmo que doente, tenho certeza de que ele escolheria a morte. Voltou para casa, numa viagem em que fechou os olhos e acordou na casa do Pai. Ele merecia!

domingo, 27 de abril de 2014

O Trem Bala da Dilma

Em junho de 2009, a então Ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, reafirmou que o governo não pretendia gastar recursos em estádios de futebol para a Copa de 2014, que o foco dos investimentos públicos contemplaria melhorias em mobilidade urbana nas cidades escolhidas para sediar o evento.
Entre os projetos de mobilidade prometidos, um trem bala ligando Campinas à cidade do Rio de Janeiro : “Nosso projeto é que esteja integralmente pronto em 2014 ou pelo menos o trecho entre Rio e São Paulo. (...) Pretendemos ter os trens em funcionamento em 2014, para a Copa até porque esta é uma região muito importante em termos de movimentacao na Copa.”, afirmou Dilma. 
O trem bala faria paradas nos aeroportos de Viracopos (Campinas), Guarulhos (SP) e Galeão (RJ), além das estações no Campo de Marte, em São Paulo, em São José dos Campos (SP) e em Volta Redonda (RJ). Haveria ainda estações alternativas em Jundiaí (SP) e Aparecida (SP). 
Pois bem, a construção dos estádios pode estar atrasada, teme-se o risco de manifestações durante a Copa que possam prejudicar o bom andamento do evento e manchar a imagem do Brasil no exterior (mais ainda?) etc etc.
Mas, pelo menos, a promessa de Dilma acerca do trem bala foi integralmente cumprida. Dilma conseguiu concretizar o sonho que Levi Fidelix (PRTB), eterno candidato à prefeitura de São Paulo, acalenta há décadas, a construção do aerotrem, eurotrem, o famoso trem bala, de tecnologia Maglev (Magnetic levitation transport).
Aliás, acho que Levi Fidelix deveria até pedir, junto ao governo federal, uma indenização por plágio, por apropriação indébita de sua ideia, uma espécie de seguro desemprego por Dilma, ao inaugurar o trem bala, tê-lo privado de sua plataforma de governo para as próximas eleições.
Abaixo, um flagrante da inauguração do trem bala da Dilma.
Pode não ser um Maglev japonês ou alemão, mas que é o eterno trem da alegria de nossos políticos corruptos, isso é!!!

sábado, 26 de abril de 2014

O Azarão - Markus Zusak

Dia desses, minha esposa precisou viajar a trabalho, ausentou-se por dois dias e, lembrança da viagem, presenteou-me com um livro : O Azarão, de Markus Zusak, autor do mundialmente famoso A Menina Que Roubava Livros.
Da orelha do livro : o livro surgiu como um "projeto paralelo" de Zusak, em um momento em que ele estava "encontrando dificuldades com outras histórias".
O cara devia tá empacado no meio de alguma história, prazos estourados com seu editor e resolveu escrever uma narrativa mais curta, um texto mais leve e despretensioso, fazer um extra, um "bico" para pagar as contas e nasceu "O Azarão", o primeiro trabalho juvenil do autor. Ou, o que se convencionou chamar, hoje em dia, de livros para o público juvenil.
Na minha época de jovem, líamos Julio Verne, Agatha Chrstie, Sir Conan Doyle, H.G. Wells. A atual literatura juvenil é, em grande parte, composta por relatos de autores de meia idade acerca das próprias adolescências, ou seja, das desventuras de garotos de 15, 16 anos, tímidos e ineptos em suas tentativas de conquistas amorosas, indecisos sobre seus futuros, cheios de espinhas na cara, punheteiros de mão cheia (todo punheteiro é de mão cheia).
Não sei se hoje eu fosse jovem, interessaria-me por esse tipo de história, por narrativas sobre adolescentes desajeitados e fracassados, como eu e os outros 90% da população quando nessa faixa etária. 
Eu até poderia, claro, me identificar com esse tipo de personagem e  coisa e tal, mas daí a ler o livro, não sei, não. Sempre vi e me servi da literatura como um modo de travar contato com novas informações, novos mundos, com realidades bem diferentes da minha. Se bem que entre relatos de punheteiros e sagas sobre vampiros "sensíveis" e viadinhos, não tenham dúvidas, eu ficaria com a primeira opção.
Contudo, o livro é bom. Narra, sim, os fracassos do jovem Cameron Wolfe, mas não é choroso nem lamurioso, tampouco piegas ou cheio de autocomiseração. E o principal, lógico, independente da qualidade do livro, foram a lembrança e o carinho de minha esposa em comprá-lo para mim, um livro cujo título é a mesma alcunha que me acompanha há 25 anos, o Azarão. Apelido do qual, acredito, ela nunca tenha gostado muito. Que esposa gostaria?
Com o passar do tempo, porém, parece-me que ela viu e compreendeu o tom de brincadeira e grande amizade que há por trás do apelido, dado por meu amigo Fernandão. Ter me presenteado com O Azarão, acho que foi uma maneira, não verbalizada, dela dizer que aceitou meu alter ego, que sabe que Clark Kent e Super-Homem são duas pessoas diferentes, mas perfeitamente possíveis de habitar o mesmo corpo. Se bem que eu acho que o Azarão não é o meu Super-Homem nem meu Clark Kent, é a minha kriptonita.
Para terminar esse blá-blá-blá, reproduzo um trecho do livro de que gostei muito, um sonho narrado pelo protagonista Cameron Wolfe.

"É uma multidão imensa, umas oito fileiras, por isso, é muito difícil abrir caminho.
Me ajoelho.
Rastejo.
Procuro brechas e, então, passo por elas, até finalmente estar lá. Estou diante da multidão, que forma um círculo gigante e espesso.
— Vai! — berra o cara perto de mim! — Vai pra cima! Parado, olho para a multidão. Não assisto à luta. Não ainda.
Tem todos os tipos de pessoas no meio da multidão. Magrelas. Gordas. Negras. Brancas. Amarelas. Todas acompanham e gritam para o centro do ringue.
O cara perto de mim está sempre gritando no meu ouvido, perfurando meu crânio, indo direto para o cérebro. Sinto a voz dele nos meus pulmões. Ele grita muito alto mesmo. Nada consegue detê-lo, nem os caras atrás dele, xingando para fazê-lo calar a boca. Não adianta.
Tento pará-lo, fazendo uma pergunta, um grito acima do restante da multidão.
— Pra quem você está torcendo? — pergunto.
Ele para de fazer barulho. Na mesma hora.
Olha.
Para a luta. Então, para mim.
Passam-se mais uns segundos, e ele diz: — Estou torcendo pelo azarão.
E é aí que dou uma olhada na luta, pela primeira vez.
— Ei! Tem alguma coisa esquisita.
— Ei! — chamo o cara de novo, porque só tem um lutador naquele círculo imenso, barulhento e agitado. Um garoto. Ele está socando com força e se movendo, bloqueando e agitando os braços para coisa nenhuma.
— Ei, por que só tem um garoto lutando ? -pergunto de novo para o cara perto de mim.
Dessa vez, ele não olha para mim, não. Continua concentrado no garoto dentro do círculo, que luta de modo tão intenso e ninguém consegue desviar os olhos dele.
O cara fala comigo.
Uma resposta.
Diz: — Ele está lutando contra o mundo.
E, agora, observo o azarão no meio do círculo lutar, pôr-se de pé, cair e voltar a se apoiar nos quadris e nos pés, e lutar de novo. Ele continua na luta, por mais que caia. Levanta. Algumas pessoas comemoram. Outras riem agora e xingam.
Não consigo me segurar. Observo.
Meus olhos ficam inchados e ardem.
— Ele pode vencer? Pergunto e, agora, também não consigo desviar os olhos do garoto no círculo."

Respondo ao angustiado jovem : Não, caro Cameron, ele não pode vencer. Nunca.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Mimetismos (8)

Natureza Humana

A cabeça não quer dormir.
Quer se fazer traduzir pelo corpo,
Quer se fazer parir pela mão,
Sabe que se dormir,
Ao acordar,
A ideia estará morta.
Terá migrado para outros ninhos :
Ideias são voláteis e promíscuas,
Não lhe dão uma segunda chance de pensá-las.

O corpo quer desmaiar,
Desligar
- Cinquenta anos de músculos lassos,
Articulações rangentes e ranzinzas,
Ossos de talco.
Sabe que se não ignorar a cabeça,
Se não prestar vassalagem 
Ao cansaço e a Morpheus,
Ao não dormir,
Acordará morto.

Mente que morre se dormir
Versus
Corpo que fali se monta vigília.

Vence o corpo,
O vetor,
O receptáculo,
O que dói e adoece,
O que sua,
O que caga,
A natureza humana.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Vou-me Embora Pro Uruguai (Ou : Pasárgada é Logo Ali)

Sempre tive uma simpatia geográfica pelo Uruguai. Explico : nas aulas de geografia física da América do Sul, eu ficava olhando o Uruguai lá embaixo, colado, suturado ao Rio Grande do Sul, parecia-me um outro estado do Brasil. Mas ainda que geminado ao Brasil, a sua identidade não poderia nos ser mais diferente. Sorte deles. Eu tinha, ainda, uma simpatia gramatical pelo Uruguai, uma das poucas palavras de nosso idioma em que ocorre um encontro vocálico triplo, o tritongo. Tritongo... bonito pra caralho, né?
Essa simpatia infantil pelo Uruguai, praticamente instintiva, vem cada vez mais se confirmando e se afirmando frente às recentes conquistas e melhorias ocorridas naquele país.
O Uruguai, hoje, é considerado o país mais democrático da América do Sul - e nós, aqui, nessa ditadura braba do PT, que está conseguindo instalar, por via da lei, a ditadura do proletariado, com a qual sonha desde a década de 1960.
Em termos de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o Uruguai ocupa a 51ª posição entre 187 países, é o terceiro da América do Sul (perde para Chile e Argentina);  o Brasil é o 85º do mundo e o 7º colocado na América do Sul.
Quando o assunto é educação, nível de escolaridade, aí é que a coisa desanda pra valer, aí é que qualquer paralelo entorta, enviesa de vez. No ranking da educação elaborado pelo PISA e pela Unesco, que analisou 127 países no ano de 2012, o Uruguai ocupa a 36ª posição geral, ou a primeira entre os países sul-americanos, seguido pela Argentina, na 38ª, e pelo Chile, na 49ª posição geral. No mesmo ranking, o Brasil ocupa a nada honrosa 88ª colocação, o penúltimo da América do Sul, só "ganhamos" do Suriname.
Esses dados sobre o Uruguai são de nos fazer inveja, ou melhor, são de nos fazer passar vergonha, mas não são novidade, eu já tinha ciência deles há algum tempo.
Agora, chega até a mim um novo dado sobre o Uruguai, para aumentar ainda mais a minha inveja, aquela inveja boa, a inveja que nos faz querer ser igual, não a má inveja, aquela que deseja a ruína do outro. 
O instituto chileno de pesquisas Latinobarómetro detectou que o Uruguai lidera o avanço da secularização na América Latina. Secularização é o processo de distanciamento de uma sociedade das suas religiões, as quais perdem, gradativamente, as suas influências sobre as variadas esferas da vida social. As igrejas perdem seu prestígio junto à sociedade, o que acarreta na diminuição de seus membros e de suas práticas, na diminuição da sua riqueza, e, por fim, na desvalorização das crenças e nos valores a elas associados. Ou seja, a secularização é quando uma sociedade atinge a sua maturidade e põe para escanteio deuses inexistentes, padres, pastores e outros que tais.
Entre 1995 e 2013, o secularismo acelerou o seu ritmo no Uruguai. O número de ateus, agnósticos e sem religião subiu de 18% da população, em 1996, para 38%, em 2013. No mesmo período, a população de católicos caiu de 60% para 41%.
Que beleza, esse Uruguai, 38% de não religiosos!!! No Brasil, mal chegamos aos modestos e tímidos 7 pontos percentuais.
Como eu disse, um dado novo para mim, a exponencial secularização do Uruguai. Novo, porém, não surpreendente. Consequência das mais previsíveis, das mais lógicas, inclusive, a secularização do Uruguai.
A fé e as religiões montam bons e sólidos acampamentos nas clareiras abertas pela ignorância, pela imaturidade de querer sempre um "pai" a lhe conduzir pela mão, pela inação frente ao mundo real, muitas vezes causada pela falta de elementos a partir dos quais pensar sobre e lidar com a realidade e, lógico, por uma boa parcela de preguiça - é mais fácil se ajoelhar e rezar por um milagre do que trabalhar e estudar duro.
Pois uma boa educação guarnece a pessoa dos elementos básicos - formativos e informativos - que a tornam capaz de ponderar sobre o mundo ao seu redor, interagir e reagir a ele. De posse dos rudimentos das principais áreas do conhecimento, o sujeito, aos poucos, desvencilha-se da concepção fantástica do universo e de sua própria existência, verifica a estupidez do pensamento mágico, segundo o qual tudo acontece, ou deixa de acontecer, por obra, vontade e permisssão de um ser supremo. E, ao constatar a estupidez de tal (falta de) visão, abandona-a, rejeita-a.
Não por coincidência, o Chile, terceiro lugar em IDH e segundo em educação da América do Sul, é o vice-campeão da secularização. Cultura e conhecimento aniquilam as religiões.
Não é à toa que, ao bom e fiel cristão, um único livro é recomendado, a nefasta Bíblia Sagrada. Pois qualquer outro que ele se pusesse a ler, com um pouco de atenção, faria com que visse a Bíblia como o que realmente ela é : um simples livro, uma obra literária conjunta, uma coletânea de contos e autores. Nada além.
Não é à toa que os religiosos vivem tentando se infiltrar, lobos em pele de cordeiros (de deus), nas escolas; vivem tentando inserir o ensino religioso no currículo das escolas públicas. O que tem de cristão mal-intencionado, sobretudo evangélicos que ocupam cargos legislativos, querendo aprovar leis que obriguem a entrada de deus nas escolas, não tá escrito em gibi nenhum. Não tá escrito nem na Bíblia.
Acreditem, se ainda pudessem, os cristãos continuariam a queimar livros em suas fogueiras santas e, de preferência, junto com quem os escreveu. Para muito padre e pastor evangélico por aí, deve ser difícil conter os ímpetos pirotécnicos ao passar defronte uma livraria, ou pior, provação das provações, em frente à  biblioteca de uma Universidade, aí é só por deus.
A relação é clara e direta : forneça a uma nação as condições mínimas e básicas de trabalho, segurança, saúde e educação e ela se fará crescer por si, porá as mãos à obra, não ficará mais à espera de um milagre. Mandará a religião às picas, ou seja, para o seu devido lugar.
Exagero meu? Pegação no pé das religiões?
Vejamos outros exemplos. Tomemos os campeões planetários da qualidade de vida, os hors concours do IDH, a Noruega e a Suécia. 
Noruega : 1º em IDH, 3º em educação, 72% de ateus e agnósticos; Suécia : 7º em IDH e 9º em educação, 85% de ateus e agnósticos. Pããããta que o pariu!!! 85% da população formados por seres pensantes... a Suécia é o éden, é o paraíso na Terra.
Por isso, em minha opinião, não apenas os índices positivos de desenvolvimento - renda per capita, nível de escolaridade, expectativa de vida - deveriam ser usados para a classificação das nações. Os índices positivos são o óbvio, são o que fazem o país funcionar. Deveriam ser estabelecidos e considerados também os índices negativos ao desenvolvimento, os que fazem emperrar a máquina. Entre esses, deveria constar, com toda certeza, a religiosidade de um povo : acima de uma certa porcentagem da população que se declarasse religiosa, pontos do IDH desse país deveriam ser subtraídos. Muitos pontos.
A religião não é resposta para nada. É a ausência das perguntas.
Se o ser humano, um dia, quiser realmente honrar e fazer valer a autoatribuída designação Homo Sapiens, extirpar o cancro das religiões de suas sociedades terá que figurar entre suas primeiras providências.
Alguns povos já se aperceberam disso. Outros... se aprazem, satisfazem-se, regozijam-se em sediar copas do mundo de futebol.