terça-feira, 9 de setembro de 2014

Bukowski, de Arrepiar

ignis fatuus
a única solidão é
sono ou morte
nós éramos inteligentes o bastante
gentil com os outros e cruel para si mesmo
quando eu pedi por misericórdia
e isso foi negado

a mais sagrada privacidade permanece
nos esperando
e tudo que foi
incompreendido ou abandonado
se reunirá

deixe meu fracasso ser sua sorte
isso que foi um quebrado
e descuidado
erro

que seja conhecido
que saber sua própria morte
é morrer duas vezes
uma vez realmente
e então, quase nada

que seja conhecido
que não há nada tão feio
em tudo que é tangente
como a besta humana
um truque definido contra o sangue de sua alma

que seja conhecido
que a solidão é a única
misericórdia
e a única
amante

que seja conhecido
que um homem não precisa ser Cristo
para ser crucificado

que seja conhecido
que um homem pode ser
crucificado
a cada dia
a cada momento
a cada respiração
de sono e vigília
e então ser atormentado novamente

que seja conhecido
que um homem pode morrer
e morrer
e morrer
e morrer
e ainda sentir a dor
e saber que está morto
e ainda sentir a dor
e saber que não há nada que ele possa fazer
e ainda  sentir
a dor
que seja conhecido

que seja conhecido
que os templos não são nada
e os sinos não são nada
e a fama não é nada
e a vitória não é nada
e o sexo não é nada
e que a solidão traz loucura
e a multidão traz loucura
e bebem  e comem o corpo
como um tigre
que não há nenhuma voz para falar com
nenhum ouvido para ouvir

que seja conhecido
que haverá outros homens como eu
levantados  para a boca dos leões
queimados  por falsos amores
enganados por gentileza
alvejado pelo intelecto
tontos por ramalhete
sacrificado para o lucro
utilizados como mão de obra barata
e estes serão os mais gentis dos acontecimentos
em comparação com o que vai entrar no olho
e na orelha
e no cérebro
e escoar para as entranhas para começar seu
trabalho de morte
eu tenho pena que todos esses meus irmãos
que vão me seguir nos séculos
Incapaz de amar, porque não há nada para amar
Incapaz de matar, porque não há nada vivo
Para sempre pendurado e
sangrando e tonto
Pela besta
humana
as paredes
os jardins
o sol
as flores
os beijos
as bandeiras
os mares
os animais
a comida
os licores
as pinturas
as sinfonias
tudo inutilidade

que seja conhecido
que a maioria dos homens
adoram quando podem ver
e eles vêem uns aos outros
e eles adoram isso
porque eles vêem muito pouco

que seja conhecido
que eu sou amargo
e condenado
e cansado
e inútil

que seja conhecido
que quando esperança final se vai
lá permanece, mas olhando para a dança
e observando a relação fraca
dos idiotas
com muito pouco anotações

que seja conhecido
que eu estou morto
mas não existe raiva

que seja conhecido
que a maioria dos homens estão mortos
muitos anos antes do enterro

que seja conhecido
que muitos homens morrem na infância
que muitos homens nascem mortos
embora as suas partes se movam
e fazem som
e crescem
e avançam
no comportamento adulto
e fazem  as coisas da
civilização

Que seja conhecido
que estes homens nunca existiram
e que seus funerais
foram  enormes farsas
e também as lágrimas mortas
para o já morto

que seja conhecido
que os próprios vermes
estavam mais perto da verdade
na medida em que
não
choram

que seja  conhecido
que o nascimento não é santo
que a morte não é santa
que a vida não é santa

que seja conhecido
que eu tenho sangrado sem coroas
que  eu vou sangrar em um momento
que eu vou sangrar para sempre
vermelho
vermelho
vermelho
e os falcões vão dançar
dentro dos meus ossos
e regozijar

que seja conhecido
que eu não morra pelos pecados do homem
mas que eu morra pelo o quê o homem é
e para o que eu quase fui
eles- muito pouco de qualquer coisa
em mim mesmo levantou o suficiente
para ver o horror
o adoecer
e enlouquecer
e murchar

não tome como pessoal
o que eu digo sobre a vida
completamente
ou o homem
completamente
a não ser que
em outro plano
você se considera
um defensor da vida e do homem
o que é apenas uma outra fraqueza natural das espécies
como um rato guardando seu ninho
e para o qual
eu não posso te culpar totalmente

a única solidão é a morte
mas não esta morte
não esta morte
não
esta
morte.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Carta ao Amigo Leitinho

Meu amigo, eu vou te contar, estou tão triste, me perdoa se eu chorar...
Pois é, velho camarada Leitinho, o que impulsiona minha pena, desta vez, não é, a exemplo do Tim na canção supracitada, o abandono da amada, não é a dor de corno, embora minha dor seja tão legítima quanto. Talvez até mais, e maior.
É que ontem, exatamente à meia-noite, talvez dois ou três minutos apenas passados das doze badaladas "notúrnicas", nada mais é exato nesse mundo, acessei minha caixa de e-mails e estava lá uma rara missiva virtual de nosso outro velho camarada, o Marcellão, o homem que é metade homem e metade pau.
Abri-a. E o texto, econômico nas palavras que sempre foi nosso amigo, dizia tão somente : É o Ragnarok.
O tom do e-mail era de brincadeira, claro, mas sabe como são os velhos camaradas, não é, Leitinho? Machos das antigas que somos, não ficamos por aí externando nossas sentimentalidades, valemo-nos da pândega e da galhofa como forma de exprimir nossa genuína preocupação. A zombaria é nossa maneira de expressar nosso afeto. Coisas de macho.
É o Ragnarok, dizia o Marcellão. O Ragnarok, se bem te lembras, Leitinho, velho amigo, é o apocalipse nórdico. Iniciar-se-á quando a viril Espada de Odin, desiludida e desconsolada da vida eterna, e sem um viagra que a alente, amolecer e escorrer de sua bainha. E aí fode tudo, velho camarada, daí para frente é uma reação em cadeia. Secam os ramos da árvore Yggdrasil, em cada qual viceja um dos nove mundos, entre eles, Asgard e Midgard (a nosso boa e velha Terra), a serpente Jothuein emerge das profundezas, enlaça todo o planeta e, em combate feroz contra ela, o poderoso Thor e sua marreta Mjolnir também vão pras picas. Não sobra pedra sobre pedra, mundo sobre mundo, dimensão sobre dimensão.
Em anexo à lacônica e enigmática mensagem - é o Ragnarok -, duas fotos. Baixei-as, as fotos. Asseguro-te, velho camarada, que preferiria o nórdico cataclismo ao que vi.
Estavas lá, nas fotos, no que me pareceu ser o hoje tão profanado ambiente de uma sala de aula. Travestido de ratinha Minnie em uma; de bruxa Malévola em outra. O que hoje é chamado de cosplay. Cosplay depois de velho, velho camarada? E ainda cosplay da Minnie e da Malévola? Que embichamento é esse, velho Leitinho?
Eu até poderia entender, velho camarada, afinal, cosplay não havia em nossa época de jovem, e talvez estivesses apenas aproveitando a oportunidade para preencher essa lacuna da adolescência. Mas de Minnie e Malévola?
Apoiar-te-ia, e até juntaria-me a ti, caso tivesses aparecido cosplayzado de Homem Aranha, de Batman, ou, ainda, de um dos teus preferidos (e só por ti conhecidos) : Nova, Cometa e Paladino. Mas de Minnie e Malévola, velho companheiro?
E no caso da Minnie é que a porca torce mesmo o rabicó. O problema central, visceral, nem é o laçarote rosa com bolinhas brancas a ornar teu tão descapilarizado cocoruto. O sintoma maior, quase que terminal, é o biquinho que fazes para o registro digital da ocasião. Biquinho que talvez remeta a uma ascendência francesa, quem sabe gaulesa, e com o qual, em certa feita, tentaste, sem êxito, impressionar àquela vendedora parisiense da Mr. Cocker.
Pus-me, então, e já eram trinta e poucos minutos de um novo dia, a relembrar nosso glorioso passado, ao qual, parece-me, renegaste, pus-me a garimpar indícios que pudessem fornecer pistas que justificassem esta tua atitude, de forma a não macular a boa imagem que tenho de ti.
Lembrei-me, com sincera e pungente nostalgia, dos Anos-Novos passados na casa do vô Pebim (imaginaste o velho Pebim vendo-te assim, de Minnie?), das dezenas de cartas - de papel, envelope e selo - trocadas entre nós, dos gibizões que líamos, dos vinis e fitas Basf que compartilhávamos, das incontáveis tardes passadas na padaria do Joaquim, junto ao Marcellão e regadas a Coca e salgadinhos Elma Chips (já pensaste no Joaquim, no Rodrigo e no César, vendo-te assim, de lacinhos e biquinhos?), dos pornozões nos cines São Paulo e Comodoro - o finado Quinzinho era o lanterninha, sempre a iluminar e denunciar os punheteiros -, dos porres de cuba libre, das noites na extinta boate boca de porco Califórnia Disco Laser.
E, acima de tudo, velho camarada, da batalha intergaláctica que travamos, eu, você, o Marcellão e o César, a ultrassecreta Guerras Secretas, em 1989. Exatos 25 anos se passaram das Guerras Secretas. Exatos 25 anos que sobrevivemos aos ardis e maquinações do Beyonder, do Tritão e do pior deles, do mais impiedoso predador do multiverso, o Papa-cu (beep-beep!!!), com altivez e galhardia.
E é assim que honras o Jubileu de Prata do nosso histórico de guerreiros interdimensionais? Travestindo-te de Minnie e de Malévola?
Lembrei-me a seguir, e quase uma da matina já se fazia, a tentar ainda justificar o teu desbunde, da tua predileção, em tenra infância, pelo universo Disney. Lembrei-me de que colecionavas e completavas álbuns de figurinhas - 256 cromos ou mais -, possuías todos os volumes de Disney Especial. Mesmo assim, não obtive em minhas reminiscências lenitivo para a minha estupefacta alma.
Ainda que, perto do teu cinquentenário, tenha preterido os universos Marvel e DC ao Disney, opções mais machas de cosplay terias : Superpateta, Vespa Vermelha, Superpato, Morcego Vermelho e, o que parece a mim que mais lhe caberia, o Professor Pardal, visto que em emérito doutor em Química te graduaste com louvor.
De onde, esgotadas todas as mencionadas possibilidades, sobrou-me, desgraçadamente, duas hipóteses.
Primeira, a tua recente viagem à Amazônia. De alguma forma, a tepidez, a umidade e a malemolência equatoriais devem ter derretido-te os miolos, causando profunda alteração dos teus normais sentidos e, consequentemente, da tua até então sempre reta visão de mundo.
É que estiveste uns dias numa onda diferente, e provaste tantas frutas que me deixariam tonto. Sei que manuseaste enorme e grossa sucuri, que tomaste contato com o temível candiru, e que, embora negues, provaste da alucinógena e afrodisíaca cachaça amazônica, a Pau do Índio, mais transformadora que o próprio Santo Daime.
Segunda, de origem muito menos poética e mística, é que estás a fazer demasiadas visitas ao teu urologista, pelo bem de tua próstata, estás a pedir uma segunda opinião médica, uma terceira etc.
Aguente-te firme, velho camarada. Segure essas pregas.
Hoje mesmo liguei para o Marcellão e uma reunião extraordinária da Liga da Justiça, apenas entre mim e ele, foi marcada para esta quinta-feira. O conciliábulo se dará na famosa Sala 100, sede de poder do Marcellão, e nele discutiremos estratégias para o teu resgate, supondo-o possível. Aguarde notícias, velho camarada.
Enquanto isso, tome tento! Vira homem, Leitinho! Que tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta, e a rosca tranquila.
 "Na parede da memória, esta lembrança é o quadro que dói mais."

domingo, 7 de setembro de 2014

Pequeno Conto Noturno (44)

Se Rubens já não estivesse precisando de uma bebida, estaria convulsionando por uma agora, depois de voltar do mercado, onde foi comprá-la.
Supermercados são muito práticos, porém, sempre cheios de gente. E Rubens tem milhares de ressalvas e reservas contra pessoas. A todos os defeitos das gentes, Rubens poderia relevar, passar por cima, fazer vistas grossas, simplesmente fechar os olhos e tapar o nariz ao passar por elas, mas um se faz  imperdoável, faz com que a boa vontade de Rubens para com os outros se esvaneça : pessoas fazem Rubens perder tempo, pessoas fazem-no gastar seu tempo com elas, por causa delas, tempo que ele quer/precisa urgentemente para si. Pessoas estão sempre atravessando e atravancando seu caminho, separando-o do momento de que mais gosta e pelo qual mais anseia em seu dia, estar unicamente consigo.
Feito a gorda à sua frente na fila do caixa do mercado. Gorda, vestida como se fosse uma gostosa, parda, cabelo alisado tingido de ruivo, o salmo 23 tatuado nas costas à altura das omoplatas, a digitar rapidamente na tela de seu celular como quem tocava uma siririca e a rir de forma escandalosa a cada resposta das mensagens que enviava, e ao rir, de perfil que estava para Rubens, revelava falhas nas arcadas dentárias superior e inferior, vãos negros onde há não muito tempo, calcula Rubens, a moça não teria sequer 30 anos, existiram dois ou três dentes molares.
A compra dela nem foi o problema, passou rápido pelo caixa, pouco itens, umas barras de cereal light, uma bandejinha de legumes "orgânicos" e uns potes de iogurte grego. Categorias de produtos, raciocinou Rubens, compradas por dois tipos de gente, pelas magras, que não precisam daquilo, e pelas gordas, nas quais aquilo não surtirá o menor efeito, não fará a menor diferença. Essas são as sólidas bases da economia mundial, concluiu Rubens, vender produtos que são desnecessários a uma parcela da população e ineficientes à outra. De alguma forma, todos pensam que precisam deles, que suas vidas terão ganhos absurdos de qualidade.
Mas mal Rubens colocara sua compra na esteira rolante do caixa, a crer que logo estaria em casa, livre daquilo, e a gorda anunciou que iria querer recarga para o seu celular. O celular da gorda tinha três chips, um de cada operadora. A gorda, claro, botou recarga nos três. Rubens, então, descobriu o porquê do nome "operadoras" de celular. São literalmente operadoras, cirurgiãs, neurocirurgiãs, e sua especialidade : lobotomia.
Eis aí, pensou Rubens, o retrato photoshopado da atual classe média emergente brasileira, a chamada classe C : obesa, pardacenta, vaidades de gosto duvidoso acima de qualquer esboço de personalidade, evangélica-ostentação e com mais chips no celular que dentes na boca. Rubens sentiu ganas só de pensar no tempo que a gorda o fez perder. Rubens rogou intimamente a si mesmo para que a bebedeira e o desespero próprio das más madrugadas nunca o levassem a meter a rola em algo parecido com ela.
E antes da gorda, o rapazinho loiro, a trajar camiseta verde com o nome da universidade que frequentava e da carreira que cursava, o típico calouro universitário. Óculos de aros acrílicos roxos, a fazer caras de sensível afetado, aquele arzinho superior de quem está sempre a farejar um peido, cabelo com luzes, lentes de contato verdes e nenhum, absolutamente, nenhum livro nas mãos.
Fez a moça do caixa dividir o débito de vinte e poucos reais entre dois cartões de crédito universitário e um tanto em dinheiro. Nem a moça do caixa - provavelmente possuidora, malemal, do ensino fundamental - nem o rapazinho sensível - orgulhoso e altivo ingressante da Academia - sabiam fazer as contas direito. Demoraram mais que a recarga dos três chips do celular da gorda.
Eis aí, pensou Rubens, a nova elite intelectual a despontar no país, universitários que nunca estudaram na vida, filhos não do esforço e da disciplina, sim de facilitações governamentais, cotas para escola pública, Enems, Prounis e Sisus da vida. Semiletrados com diploma superior são a nova meta governamental para a educação do século XXI. Rubens amaldiçoou o rapazola pelo tempo que o fez perder. E o rapazinho finalmente saiu, todo lépido e faceiro, com seu passinho de quem não quer peidar. Rubens rogou intimamente a si mesmo para que a bebedeira e o desespero próprio das más madrugadas nunca o levassem a meter a rola em algo parecido com aquilo. Nem no rapazinho nem na moça do caixa. Se bem que a moça do caixa... até que dava para comer sem beijar.
Chegada a sua vez, Rubens não deu trabalho algum à caixa, não perdeu seu tempo, não a fez perder o dela e nem ao das pessoas que o sucediam na fila : um fardo de cerveja - doze latões -, e pagou em espécie, que dinheiro vivo, ao contrário do que "pensa" o populacho, é bem mais prático, não precisa de senha.
Rubens, finalmente, entra em seu apartamento. No chão, um bilhete que alguém fez escorregar por debaixo da porta : "Rubens, liga pra mim, não vai o usar o celular que te dei? Ofélia."
Ofélia era boa buceta. Boa de verdade. Das que encharcam fácil, não dão nenhum trabalho. E é assim que tem que ser, pensa Rubens. Ele bota o seu pau em riste, a mulher, a xana em mingau, cada um cumpre a parte que lhe cabe e tudo sai e acaba bem. Ofélia mantém também a mata nativa, prima por virilha e vulva sustentáveis.
Mas bucetas, por melhor que sejam, e elas o são, também gastam muito do tempo de Rubens, mais do que o tempo útil de 20, 30 ou 40 minutos que ele passa dentro delas. E hoje Rubens quer o tempo só para si.
Sim, lembra-se Rubens, Ofélia dera-lhe um telefone celular, há uns 10 dias. Há coisa de pouco mais de um ano, Rubens esquecera de pagar a conta de seu telefone fixo e a linha, óbvio, fora-lhe cortada. Rubens só foi perceber que estava sem telefone em casa três meses depois. Viu que não precisava nem do telefone fixo. Manteve-o mudo desde então.
Daí o presente de grego de Ofélia.
- Já está habilitado, porque sei que você não tem paciência pra essas coisas e tá com um pouco de crédito. Só falta carregar na tomada e ligar - esclarecera Ofélia à ocasião, já com os peitos de fora.
Rubens lembra que agradecera o presente, mas não tocara nele, a caixa permanece fechada e no mesmo lugar em que Ofélia a deixara, uma fina camada de pó a reveste.
Rubens levanta do sofá para pegar o terceiro latão na geladeira e para colocar um disco do Adoniran na vitrola, o melhor acompanhamento para cerveja. Sente o joelho fisgar. Não é de hoje que Rubens pensa em procurar um médico. Mas médicos também gastam por demais o tempo de Rubens, nunca atendem à hora marcada; ir à farmácia, esperar ser atendido, comprar os remédios, gastam por demais o tempo de Rubens; se prescrita for uma fisioterapia, então, seria um desperdício do tempo de Rubens.
Foda-se o joelho, pensa Rubens, ajeitando-se de novo no sofá. E as crônicas dores de cabeça. E a queimação no estômago. E a fadiga constante.
Na primeira golada do sétimo latão, um barulho eletrônico interfere nos acordes do Um Samba no Bexiga. O celular de Ofélia. Dentro da caixa. Desligado. Bateria descarregada. E a tocar. E só poderia ser Ofélia. Ninguém mais tem o número. Nem Rubens.
Rubens se lembra dos antigos filmes de ficção científica que tanto apreciava em sua juventude, nos quais os cérebros eletrônicos das máquinas adquiriam raciocínio e vontades próprias. Terá o chip, através de alguma quimiossíntese dos átomos de silício de seus circuitos obtido energia para ganhar vida e consciência?, teoriza Rubens, auxiliado pelo álcool que já corre em seu sangue. Será que o telefone também tem três chips, feito o da gorda?, pensa Rubens, e  um arrepio lhe percorre a espinha.
O barulho cessa. Talvez tenha sido o de algum vizinho, procura se acalmar Rubens. E amaldiçoa a perda do tempo a pensar nessas coisas.
Ao fim do décimo latão - Malvina, você não pode me abandonar... -, de novo o barulho, de novo o insistente grilo transistorizado. Rubens pega a caixa, é mesmo dali o barulho. Vai com ela até à sacada e a arremessa certeiramente na lixeira na calçada, à entrada do prédio. E fica a ouvi-la tocar e vibrar. Abre o lacre do décimo primeiro latão.
Nisso, um desses mendigos catadores de lixo passa, ouve o barulho, revolve a lixeira, abre a caixa e depara-se com o celular, reluzente e vivinho da silva, sabe-se lá por que sopro animador. O mendigo olha rapidamente para os lados, enfia o celular no bolso de sua calça a lhe cair pela bunda e sai correndo numa sonora gargalhada. Havia tirado a sorte grande.
Esse é o segredo do sucesso do mundo, ou de quem seja lá que o governe, pensa Rubens, manter todos na merda e os fazer achar que tiraram a sorte grande.