sábado, 13 de dezembro de 2014

As Verdades da Comissão da Verdade

Nesta semana, deu-se a conclusão dos trabalhos da denominada Comissão Nacional da Verdade e o relatório final da patifaria foi entregue à "presidenta" Dilma Rousseff, que chorou lágrimas de crocodilma, de saudades de seus tempos de guerrilheira, de sequestradora, de assaltante de banco etc, aquele cinismo todo, aquela hipocrisia filha da puta, mais uma demonstração em rede nacional da maior habilidade dos do PT : fazer-se de vítima, de coitadinho.
Alguns números divulgados me chamaram a atenção. Porém, antes de dizer o que tenho a, quero deixar bem claro que em nenhum momento estarei a fazer pouco caso, a menoscabar da dor e do sofrimento das famílias que perderam algum ente querido durante o período do governo militar, tenha sido ele morto e/ou torturado pelos militares, tenha sido ele morto e/ou torturado pelos comunistas subversivos de merda - sim, os grandes "defensores da liberdade e da democracia", as "indefesas vítimas" dos militares também muito mataram e torturam. E o fizeram muito antes dos militares tomarem o poder - que fique bem estabelecido que a atividade desses grupos de guerrilha é anterior a 1964, encetadas no início da década de 60, no governo civil de João Goulart.
Tenho plena consciência de que, na esfera pessoal e familiar, cada filho, filha, pai ou mãe de famílias mortos ou desaparecidos é um drama irreparável, uma chaga incicatrizável, que latejará em sangue vivo para o resto da vida. Repito : jamais desprezaria esses dramas individuais.
Mas e no âmbito nacional, e na escala de nação, mesmo? Será que a ferida deixada pelo governo militar é assim úlcera tão escalavrada? Pois eu digo que não. Digo que, em âmbito nacional, as duas décadas de governo militar foram - se foram - uma ralada no joelho, dessas de um tombo de bicicleta, cuja casca caiu há tempos e não deixou cicatriz ou qualquer outra indelével lembrança epidérmica.
Sempre tive essa impressão, a de que os chamados movimentos de resistência à ditadura foram eventos localizados, restritíssimos, nunca algo de abrangência nacional. Até porque se houve alguma resistência àquela época, ela foi feita pelos militares, os militares foram os heróis da resistência, contra a canalha que sonhava (sonha até hoje) em instalar uma franquia de Cuba por aqui.
Explico tal impressão : infância e adolescência vividas sob o regime militar - a chamada Nova República me encontrou já à entrada de minha maioridade -, nunca tive nenhum tipo de problema com o governo dos generais; pelo contrário, podia andar pelas ruas com muito mais tranquilidade, formei-me em uma escola mil vezes melhor que a escola em que hoje leciono etc etc. Nunca nem conheci ninguém que tivesse tido algum problema com os militares, fosse pai, tio, vizinho; aliás, nunca conheci ninguém que tivesse conhecido alguém que ouvira outro alguém contar que alguém tivesse tido lá suas desavenças com os militares.
Claro que eu escutava o tempo todo que os militares eram o câncer da nação, a fonte de todos os nossos males, através dos meios de comunicação e, principalmente, de professores de história, esquerdistas, marxistas, leninistas, trotskistas e outras merdas mais.
Eu ouvia aquilo tudo e, sinceramente, não sentia nada daquilo se processando ao meu redor. Mas eram professores bem formados e graduados a proferirem tal discurso antimilitar, bons professores, excelentes, alguns. E eu, um jovem apedeuta, durante um tempo, acabei também por engolir a conversa vermelhoide, a balela de que o país inteiro estava em grave litígio contra os militares, ávido por se livrar do jugo verde-oliva.
Já mais adulto, e livre da doutrinação quase que messiânica dos professores de história, voltei a ter a impressão de que a maioria da população ou fora indiferente aos militares - pouco se lhe dava se era governada por fulano ou beltrano -, ou mesmo favorável ao regime, estivera satisfeita com o governo.
Voltei a ter a nítida percepção de que os insurgentes eram uma ínfima parcela da população, um desprezível e numericamente insignificante bando de baderneiros, de criminosos querendo tomar o poder pelas armas e perpetrar sua própria ditadura, a tal do proletariado.
Pois os números agora revelados pela Comissão Nacional da Verdade vieram a corroborar essa minha percepção : foram 434 baixas civis, entre mortos e desaparecidos; as baixas militares pelas mãos da malta comunista, a comissão da meia verdade não investigou. 
Quatrocentas e trinta e quatro pessoas em duas décadas de confronto. O regime do titio Fidel, o líder espiritual dos petistas, mandou quase 20 mil ao paredão. Não é à toa que o historiador Marco Antonio Villa chama a nossa ditadura - e eu concordo com ele - de ditabranda.
Qual significância estatística, ou mesmo histórica, de 434 baixas dentro de uma população que contava, à época, com 90 milhões de habitantes, 0,00048% da população?
Basta olhar para esses números e constatar que nunca houve um movimento popular contra o governo militar e muito menos um clamor nacional a pedir pelo comunismo, e sim uma isolada amotinação de criminosos contra a soberania da nação.
E desses 434, quantos de fato sabiam exatamente o que estavam fazendo, pelo que estavam lutando? Se 10%, já era muito. Justamente os líderes do movimento, os cabeças da conspiração. A grossa maioria dessa pequena massa era formada pelo inocente útil, cooptados pelos filhotes bastardos de Fidel, principalmente estudantes universitários, fisgados em suas ingenuidades, em seus idealismos acadêmicos e em suas quase nulas percepções da realidade que os circundava pela canalha vermelha. E na hora do pega pra capar, esses jovens feitos em bucha de canhão foram os que se fuderam de verde e amarelo. Os cabeças fugiram quando o pau quebrou, exilaram-se em outros países, deixando seus seguidores na mão. 
Os verdadeiros pústulas, os líderes da insurreição, foram os que menos sofreram na guerra provocada por eles próprios. Tanto que estão até hoje por aí, instalaram seu assentamento no Planalto Central do país e atendem genericamente pelo nome de PT.
Abaixo um infográfico, publicado no jornal O Globo, com mais alguns números do relatório, dos quais não entendi bem o que diz respeito ao número de militares perseguidos pela ditadura militar. Os militares perseguriam também aos seus durante o seu governo? Não consegui achar dados a respeito, se alguém souber algo do assunto, esclareça-me, que eu adiciono aqui.
Por isso, você que teve, por exemplo, um filho morto por um militar, culpe, sim, os militares pela morte de seu estimado rebento, pois foi um militar quem pôs o cano de uma arma na cabeça do sangue de seu sangue e puxou o gatilho. Mas culpe primeira e principalmente os comunistas, a turma da Dilma, pois foram eles quem puseram a cabeça do seu filho na mira do cano da arma de um militar.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Perereca Assobiadora

Confesso : não chego a ser um especialista no assunto. Longe disso, aliás. Devido a uma timidez congênita, demorei em iniciar os meus estudos acerca da taxonomia dos anfíbios anuros, as pererecas em especial. Mas também, por outro lado, não sou um total desconhecedor de tal ordem zoológica, não sou um completo apedeuta.
Já observei, experimentei, dissequei, descrevi e classifiquei diversas espécies e subespécies de pererecas ao longo de minha vida acadêmica, por assim dizer.
Hoje, porém, tomei notícia de uma espécie nunca dantes vista por mim, sequer imaginada, a perereca-assobiadora (Eletheurodactylus johnstonei). Pãããta que o pariu!!! Uma perereca que assobia. Será que ela junta os lábios e faz biquinho? Com uma dessa, realmente, nunca topei de frente, nem de costas, ou de lado.
Em minhas árduas pesquisas de campo, em minhas andanças científicas por lagoas, brejos, pântanos e outros terrenos viscosos e escorregadios, a espécie mais comumente encontrada sempre foi a perereca-bate-palminha-bate (Xavasccus aplaudydoran).
E, acreditem, meninos, fui muito aplaudido em meus bons tempos. Não vou dizer que eu tenha sido assim ovacionado, aquela coisa do teatro inteiro me aclamar de pé e pedir bis, mas que já fui bem aplaudido, fui. Mas perereca-assobiadora? Nunca vi, tampouco ouvi dizer dela por pesquisadores mais experientes.
Mesmo sem um elemento empírico em que me apoiar, acredito que travar contato com uma perereca-assobiadora deva ser uma experiência interessante, gratificante e engrandecedora. E muito boa para dar uma inflada no ego.
Explico : não vou dizer dormir a noite inteira com uma perereca-assobiadora, o que deve ser terrível, insuportável. Mas que seria o máximo se a perereca-assobiadora, quando tirássemos a roupa e exibíssemos nossas armas em riste, prontas para o embate,  nos olhasse e assobiasse, nos fizesse um fiu-fiu, isso lá seria. Uma perereca que assobia coió para a cobra. Seria a glória!!!
A perereca-assobiadora, originária das Antilhas, está a se tornar, a exemplo do caramujo africano, em uma praga, uma bioinvasora de praças, parques e jardins de alguns bairros da capital paulista, perturbando o sono dos moradores e competindo por alimento e espaço com a fauna nativa; provavelmente foram trazidas para cá por algum bicho grilo criador de animais exóticos, algum desses ecologistas de merda, que, desatento, não notou a fuga das pererecas que estavam presas na gaiola, ou, cansado da novidade, resolveu soltá-las por conta própria no ambiente.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Ribeirão Preto, a Capital Nacional do Sapatão

Vizinha a Ribeirão Preto (SP), Franca é conhecida como a capital nacional do sapato, em clara alusão à sua pujante indústria calçadista. Não sei se Franca ainda é detentora legítima desse título, ou se foi sobrepujada por Jau, socorra-me, aqui, Leitinho.
De qualquer forma, ser munícipio vizinho a Ribeirão Preto não costuma ser bom negócio. O povo ribeirão-pretano, além de mal-educado pra cacete, é invejoso pra caralho. Quer tudo o que o outro tem, quer solapar as glórias e conquistas de outrem.
E Ribeirão Preto tanto fez, tanto fez, que está em vias de desbancar a irmã Franca, está prestes a se tornar a capital nacional do sapatão.
É bem como vaticinou Chacrinha, garoto levado da breca : "o sapatão está na moda, o mundo aplaudiu, é um barato, é um sucesso, dentro e fora do Brasil..."
E em Ribeirão, o quarenta e quatro bico largo é o que há de mais em voga, de mais in (que coisa viada, isso de in) : "as mulheres lideram o ranking dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo em Ribeirão Preto. No ano passado, das 35 uniões homossexuais registradas nos cartórios da cidade, 25 foram entre mulheres. O número é mais do que o dobro dos dez casamentos registrados entre homens". (Jornal A Cidade)
Os especialistas - já reparam que tem especialista pra tudo quanto é porra? - afirmam que tal superioridade numérica de casamentos de aranha com aranha, em detrimento aos de jiboia com jiboia, deve-se ao sonho feminino do matrimônio. Além disso, após oficializarem em cartório a colação de velcro, elas passam a ser mais respeitadas pela sociedade, pois o casamento transmite uma imagem de seriedade, compromisso e respeito.
O Azarão - e não me deixam mentir as inúmeras postagens elogiosas e laudatórias aqui no blog - sempre foi um grande apoiador e simpatizante da união homoafetiva entre caranguejeiras, entre alegres e desenlutadas viúvas-negras, entre tarântulas a dançar sua louca e frenética tarantela. Sou um verdadeiro mecenas das aranhas!!!
Parabéns, meninas, parabéns!!!
E Ribeirão Preto, já chamada de a capital do café, a capital da cultura, a califórnia brasileira, capital sucroalcooleira, finalmente, recebe um epíteto meritório : a capital nacional do sapatão.
Valha-me São Raul, o que é que essas aranhas estão fazendo aí no chão? Uma em cima, outra embaixo, e a cobra perguntando, onde é que eu me encaixo?

Lágrimas de Crocodilma (Ou : a Comissão da Meia Verdade)

Dilma Rousseff chorou durante a cerimônia de entrega do relatório final da Comissão Nacional da Verdade, que foi criada para investigar as violações aos direitos humanos durante o período de 1946 a 1988. O período inclui o governo militar (1964-1985), alvo principal de Dilma Roussef. A instauração da  Comissão da Verdade diz ter o objetivo de resgatar a verdade e dar uma satisfação às famílias dos mortos e desaparecidos durante o governo militar.
Porém, é uma comissão da meia verdade : é bom que se frise, ela investigou apenas os crimes cometidos pelos militares durante o governo militar, só os crimes de suposta autoria dos militares.
Que tal investigar também os crimes cometidos por civis durante o governo militar? Pelos grupos de guerrilheiros, compostos de sequestradores e assaltantes de bancos, de um dos quais, inclusive, nossa presidente fazia parte? Que tal também começar a investigar a verdade sobre os mortos e desaparecidos por obra dessas guerrilhas? Que tal investigar também os crimes de subversão dessas quadrilhas de civis, crimes esses que desencadearam os crimes cometidos pelos militares em sua oposição? Que tal, só para variar, começar a investigar a causa e não os efeitos?
Sim, porque os abusos cometidos pelos militares durante seu período governista foram o efeito - a reação - às ações criminosas de civis, como Dilma e seus companheiros de luta armada.
Ficou bem claro o cárater revanchista dessa Comissão da Verdade. E não só revanchista : a Comissão da Verdade quer, na verdade, solidificar em fato inconteste, de uma vez por todas, um falso registro histórico, ou, pelo menos, uma falsa e tendenciosa interpretação dele, a de que Dilma e seus companheiros foram obrigados a pegar em armas para combater uma ditadura desumana em prol da democracia.
Foi bem o oposto, a tomada militar do poder é que veio em reação à turma da Dilma, que nada queria com a democracia, mas sim instalar por aqui a chamada ditadura do proletariado, transformar o Brasil numa grande Cuba.
O relatório final da chamada Comissão da Verdade vai colocar Dilma, juntamente com seus cupinchas, na posição de heróis, de benfeitores da nação. Vai gerar também mais uma infinidade de indenizações às famílias dos "perseguidos" pelos militares, mais e mais Bolsas-Ditadura serão distribuídas.
Sim, existem as Bolsas-Ditaduras. Os cartunistas Ziraldo e Jaguar, o escritor Carlos Heitor Cony, o ex-presidente Lula, o atual presidente do PT Rui Falcão etc etc, recebem polpudos salários por terem "combatido a ditadura". O valor já gasto com essas bolsas-ditadura ultrapassa os 4 bilhões de reais, tudo na conta do trabalhador.
Só para citar um louvável contraexemplo, Millôr Fernandes, também do Pasquim, foi igualmente perseguido pelo governo militar, mas não entrou com pedido de indenização, ele fez o que fez porque acreditava, sabia das consequências, não ficou se fazendo de vítima, de coitadinho. Millôr Fernandes, diferentemente de seus contemporâneos, tinha vergonha na cara, muita vergonha na cara, disse que a luta pela ditadura não era uma poupança. Perfeito, o Millor.
E por que esses sujeitos têm de ser ressarcidos por terem sido perseguidos por um governo ao qual se opunham, o qual queriam desestabilizar?
Ora, vão à merda. Um bando de caras de pau é o que são. Vítimas é o caralho.
Quando o sujeito se dispõe a lutar contra um governo - seja essa luta justa ou não -, ele assume o risco de se dar mal, de tomar no cu. O opositor a um governo é sempre o lado mais fraco da guerra, e ele sabe disso; de livre vontade, ele entra na briga ciente disso.
Acontece o previsto, ele se dana, se ferra, toma lá uns merecidos catiripapos. Logo em seguida, ele vem querer passar por injustiçado, por vítima.
Esses sujeitos não têm a hombridade de assumir a surra que levaram, a honradez de aceitar a derrota e sumir com os respectivos rabinhos entre as pernas. É possível encontrar maior integridade e decência em bandos de babuínos.
Se a luta armada tivesse sido vitoriosa, ela teria produzido montanhas de cádaveres, como vários regimes comunistas fizeram em outros países; como perderam, foram bater à porta do Estado com pires e chapéu na mão. Grandissíssimos filhos da putas, isso sim.
Quem luta verdadeiramente por um ideal, luta tão-somente por esse ideal, não para ser recompensado financeiramente.
Por que esses mercenários ideológicos têm o desplante de achar que os contribuintes brasileiros lhes devem parte de seus impostos na forma de altos salários indenizatórios? Agradecê-los e recompensá-los pelo quê?
Pela restauração da democracia? Por ajudar na ascensão de um regime de governo em que imperam a permissividade, a falta de ordem, as leis favoráveis ao bandido e o assistencialismo ao vagabundo às custas do trabalhador? Eles querem agradecimento e paga por, supostamente, terem lutado por isso?
Dilma Rousseff chorou durante seu pronunciamento acerca do relatório final da Comissão da Verdade, chorou pela lembrança de seus companheiros mortos e desaparecidos, as vitimazinhas indefesas dos militares. 
Acho que ela chorou foi de saudades daquele tempo, tempo em que planejava sequestros, assaltos a bancos, ações armadas em geral; saudades do tempo em que ela e seus companheiros tinham o sonho de se tornarem grandes ditadores, como Fidel e Mao; sonho interrompido pelo governo militar, felizmente. Por isso, a mágoa, a revanche, a Comissão da Verdade.
Dilma Rousseff, disseram, chorou pelas vítimas dos militares, lágrimas de crocodilma.
Resta saber (perguntar, ao menos) quem irá chorar pelas vítimas das quadrilhas de criminosos formadas por Dilma e seus companheiros à época do governo militar.
Ôôô, coitada!!! Tão com dozinha dela, tão?
Não digo dos ingênuos bem intencionados, sobretudo estudantes universitários, que foram usados como massa de manobra, como bucha de canhão, como inocentes úteis pelos grupos terroristas, pois esses realmente foram vítimas (mais até dos comunistas que dos militares), mas os líderes dessas quadrilhas, como foi Dilma Rousseff, apanharam merecidamente. E apanharam pouco. Sequestro, assassinato, assalto a banco, roubo de armas são crimes em qualquer país do mundo, seja qual for o seu regime de governo.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

É a Podridão, Meu Velho (6)

Nada mais de planar de asa-delta
Pelas bordas do cu de um buraco negro.
Nem de saltar de bunguee jump
Do pináculo do Monte Olimpo,
Embriagado de néctar, Afrodite e ambrosia.

Nada mais de atravessar
- de madrugada (sempre e nunca mais a madrugada) -,
Bêbado e equilibrista,
O vão do rio por sobre tubulações enferrujadas
E transpiradas de limo, metano e enxofre.
Nem de correr,
Querendo voar,
Sob o fogo cerrado da tempestade
A brincar de roleta-russa com relâmpagos
E fogos de Santelmo.

Nada mais de calçar minhas sandálias de Hermes,
Nem de envergar meu sobretudo da pele do Leão da Nemeia.

Nada mais, nada mais...
Apenas pequenos contos noturnos
E poemas despetalados.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Que Fossa, Hein, Meu Chapa, Que Fossa... (27)

Gosto do Leoni. 
Surgido no cenário musical da década de 80, ao lado do Kid Abelha e seus Abóboras Selvagens, hoje apenas Kid Abelha, sempre foi uma figura mais de bastidores que de frente de cena. Nunca experimentou um sucesso estrondoso e meteórico feito alguns de sua geração, Cazuza, Paralamas, Titãs, RPM etc. Mas, por outro lado, também não entrou em decadência. Seus trabalhos mantém uma constância de qualidade, seus trabalhos mais recentes, muitas vezes, são melhores que os antigos, o que não se pode dizer dos citados Paralamas, Titãs e, muito menos, RPM.
Não bastasse ter comido a Paula Toller, Leoni é bom músico, bom letrista e tem voz agrádavel e adequada ao estilo de música que faz.
As composições de Leoni são mais do tipo alto astral, músicas mais para cima, de bem com a vida. Mas tem sempre o dia em que a casa cai... e aí a fossa vem braba.
É o caso da bela e melancólica Silêncio, do tempo em que Leoni liderava os Heróis da Resistência, se não me falha a sempre falha memória. É a história do cara machão, orgulhoso, que não quer dar o braço a torcer. O cara que, bem à moda Erasmo Carlos, tem que manter a sua fama de mau. 
Porém, quando sozinho, sem ninguém a quem fazer pose, desaba e passa a noite "bebendo orgulho e solidão, chorando em frente à televisão, mantendo o silêncio, pra ninguém ouvir, pra ninguém ouvir". Que fossa, hein meu chapa? Você tem tanto medo, você é tão igual a mim...
Silêncio
(Leoni)
Eu costumo sorrir demais
E fingir que eu posso tudo
Ninguém sabe o que eu sou capaz
Pra conquistar o mundo
Eu não posso perder meu tempo
com alguém que eu não preciso
E se a gente se amar um dia
Pensa bem, o que é que eu ganho com isso
?
Mas quando a noite chega
e eu não tenho mais pra quem fingir
só eu sei o que isso dói
...
 
Eu te vejo sorrir demais
e esse olhar que pode tudo
E eu nem sei se acho graça ou não
porque eu sei, eu sei que lá no fundo

Sempre que a noite chega
e você não tem pra quem fingir
Sempre que a noite chega
você queria tanto
alguém igual a mim


E a gente acaba a noite sempre assim
bebendo orgulho e solidão
chorando em frente a televisão
mantendo silêncio
pra ninguém ouvir 

pra ninguém ouvir... Shh...

Esse mundo é cruel demais
mas você é mais que o mundo
Seu dinheiro, poder e fama
você acha que te protegem de tudo


Mas quando a noite chega
e ninguém tem mais pra quem fingir
Mas quando a noite chega
você tem tanto medo
você é tão igual a mim


E a gente acaba a noite sempre assim
bebendo orgulho e solidão
chorando em frente a televisão
mantendo silêncio, oh... 


E a gente acaba a noite sempre assim
bebendo orgulho e solidão
chorando em frente a televisão
mantendo silêncio, oh...
pra ninguém ouvir
pra ninguém ouvir... (pra ninguém ouvir)
(Sofrendo em silêncio pra ninguém ouvir...) 

O Azarão é Unplugged. Ontem, Hoje e Sempre.

No ramo fonográfico, unplugged é o selo que caracteriza a obra gravada sem o acompanhamento de nenhum instrumento elétrico. Daí, unplugged, desligado, desconectado e até mesmo desplugado, uma vez que, desgraçadamente, os dicionários atuais já aceitam o verbo plugar, mais um anglicismo deplorável e nojento, mas enfim...
No Brasil, o tal do disco unplugged é conhecido como Acústico. Basicamente, o tal disco acústico é aquele que o cantor, ou banda, grava quando fica velho, quando chega à meia idade e não consegue mais ficar correndo, berrando e rebolando pelo palco durante duas horas. Aí, o cara se sai com esse ardil, com essa patifaria, põe um terninho, mune-se de um violão e um banquinho, diz que está numa fase mais intimista e contemplativa e grava o acústico com os maiores sucessos de sua juventude. Intimista é o caralho. O cara tá é um caco, tá dobrando o cabo da Boa Esperança, por isso se senta e aprende até a dedilhar um violão. Se o cara ainda aguentasse, mandaria o acústico à merda. Alguém já viu algum Mick Jagger acústico, por exemplo?
Subterfúgios à parte, que o mundo do showbizz só deles é feito, sempre me agradou muito mais o som "acústico" que o elétrico. E isso desde sempre, desde de a minha adolescência, quando comecei a me interessar por música. Sempre fui um unplugged, um desplugado. E minha desconectividade nunca se limitou ao universo musical, sempre se estendeu para todos os setores de minha vida. Nunca fui "ligado" em modismos, sempre estive - como hoje ainda estou - por fora das novidades do mundo.
Sou um unplugged!!! Nunca me senti mal com isso, nunca me senti excluído, discriminado ou constrangido pelo bloco dos contentes. E se fui, nunca percebi. Meu desprezo pela maioria - pelos seus gostos pré-fabricados e suas preferências de estação - sempre foi muito maior que o dela por mim, simplesmente não vejo a manada, não a percebo.
Sempre fui um unplugged!!! E, depois do que li ontem, meu orgulho em ser um desconectado cresceu ainda mais. E explico.
Li, no blog Page not found, que a obra do artista Paul McCarthy (não confundir com o Beatle) a representar uma árvore de Natal conceitual (puta viadagem, isso de conceitual), exposta nas ruas de Paris, causou revolta na população e, por conseguinte, foi depredada, destruída. Estourada, uma vez que era uma "escultura inflável".
O motivo : a árvore conceitual lembrou algo muito mais concreto à população parisiense. Seu formato e aspecto bateu fundo no inconsciente coletivo e hipócrita. Confundiram-na com um plug anal. Sim, um plug anal. Pããããããta que o pariu!!!!
Nesse ponto da reportagem, eu tive que parar e pesquisar o que era o dito plug anal. Será que hoje se recarrega até o cu? As pregas? Aparece lá um aviso pro viado : a bateria do seu cu está com 28% do total. Recarregue-a ou considere a troca da bateria.
Não era nada disso. Era quase pior. Plug anal é um brinquedo erótico indicado, segundo informações dos sites em que entrei, para uma "confortável e prazerosa" iniciação ao sexo anal. A grosso modo, é um consolo pequeno, com tamanho padrão entre 5 e 7 cm. A resumir e a esclarecer, o plug anal é a solução pro viadinho que morre de vontade de dar pro Kid Bengala, mas tem medo de não aguentar a bronca; aí, ele começa aos poucos, vai enfiando um plug de 5 cm, depois um de 7 cm e assim por diante.
Ou seja, o plug anal é uma espécie de tira-gosto, um petisquinho para a rosca faminta da bichinha temerosa.
Os plugs anais tem o formato de chama de vela e se apóiam em uma base redonda, um tipo de tampão, para impedir que o plug seja tragado para as profundezas do buraco negro da boiolagem. Exatamente igual à arvore de Natal conceitual. Não é à toa que dizem que os artistas são almas sensíveis, sempre conectados ao seu tempo.
Apesar da rejeição à obra, a ideia do plug anal, o "conceito embutido" (bem embutido) na instalação, ficou no inconsciente dos parisienses, feito música ruim que não desgruda da cabeça : as vendas de plugs anais aumentaram vertiginosamente.
"Nós vendíamos cerca de 50 por mês", disse Richard Fhal, vendedor de artigos eróticos em Paris, ao site "The Local". "Desde a polêmica, passamos a vender mil", acrescentou. 
Segundo Richard, o perfil dos clientes também mudou. Antes de McCarthy, os compradores do plug eram basicamente gays. Agora, o público se expandiu e o produto está agradando a heterossexuais masculinos e femininos.
É todo mundo querendo ficar plugado a seu tempo!!! E que se fodam as pregas.
Mas pra cima de mim, não, violão. Que o Azarão não curte essas vanguardas, essas "artes conceituais". O Azarão é jurássico. Sou do tempo do lampião a gás, a querosene. Sou pré-Benjamim Franklin. Aqui, ninguém conecta nenhum cabo. Muito menos fio terra. Já me basta o dedo do urologista. Pããããta que o pariu!!!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O Cabaré de Leonardo e Eduardo Costa : Pra Corno Nenhum Botar Defeito.

Especial de fim de ano do Roberto Carlos é o caralho!!! Dar o novo CD do Rei de presente para o seu amigo secreto é a pãããta que o pariu!!!
Neste ano, o melhor presente fonográfico de Natal para aquele seu amigo corno é o CD Cabaré, gravado pelo cantor e bebum Leonardo e por Eduardo Costa, figura de quem nunca antes tinha ouvido falar.
São 16 faixas da mais pura, autêntica e destilada em alambique cornagem, a quintessência do chifre aprisionada em uma mídia de plástico, feito um gênio cativo de sua garrafa. E só tem musicão antigo, só tem modão, a mais nova tem uns 30 anos.
Porque dor de corno é mesmo a das antigas, a do macho rústico e bruto, que dor de corno é diretamente proporcional à afeição que se tem pela buceta traidora. Donde, essa molecada nova até tenta, mas não sai música que preste, o chifre não lhes dói de acordo, falta, à essa molecada metrossexual, um maior apego à buceta.
Cada faixa do CD traz um tipo de corno, uma subespécie do ramo evolutivo mais diversificado da filogenia humana, o chifrudo.
Tem o corno blasfemador (daquele maldito momento até hoje, só você), o corno lamurioso (ainda ontem, chorei de saudade), o corno missivista (Amigo, por favor, leve essa carta e entregue àquela ingrata e diga como estou), o clássico corno cachaceiro (Traga mais uma garrafa, hoje vou embriagar-me, quero dormir para não ver outro homem lhe abraçar), o corno vingativo (quero ver você chorar como eu chorei), o corno quem-com-chifre-fere-com-chifre-será-ferido (de igual pra igual, quem sabe a gente pode ser feliz) e, na mesma faixa, o corno enigmático (e perguntou, por quê?, mas eu não respondi) e, ao mesmo tempo, orgulhoso (saí da sua vida de cabeça erguida, coisa que você não fez). 
O CD desce ainda mais redondo se acompanhado de um velho amigo, os dois entornando um traçado, um rabo de galo ou um bom whisky paraguaio.
Fernandão, caro amigo corno, fica definida assim, e desde então, a trilha sonora de nossa próxima carraspana. E o seu CD Cabaré, entregar-lhe-ei em mãos. Pirata, é claro.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Pequeno Conto Noturno (46)

Martina chega ao apartamento de Rubens ao crepúsculo. Para o que se planejara uma noite de vinhos, queijos (mais vinho, o queijo é mero pretexto, acompanhamento) e sexo (mais sexo, o vinho e o queijo são meros pretextos, acompanhamentos).
À primeira golada da segunda garrafa desarrolhada, as regras de Martina, que, por regra, viriam em dois dias, fazem-se exceção. 
Rubens não esmorece, não dá a noite como perdida; anima-se, pelo contrário. Rubens gosta de emporcalhar-se em sangue infecundo, do cheiro, cor, densidade, de se sentir grudento e viscoso. De celebrar a vida ronca-e-fuçando numa poça de sangue renegado, estéril, do qual nenhuma vida pode surgir.
Porém, Martina, em seus dias de impedimento, sente-se e se queda mesmo impedida. Desconforto verdadeiro ou bloqueios morais e sociais, Martina não se dispõe a participar da dança da chuva rubra de Rubens.
Bebem um pouco mais. Ao fim da segunda garrafa, Martina se despede de Rubens, ligará para combinarem nova oportunidade.
Sozinho, Rubens tira a roupa, veste um cuecão frouxo, abre outra garrafa, senta-se à sacada e fica a vislumbrar o céu, até onde sua limitada visão o permite divisar o Universo; tomando direto no gargalo e mexendo em suas bolas.
Inadvertidamente, uma ereção das boas se pronuncia em Rubens. Dessas sem motivos, sem mais o quê, que vêm quando se está distraído, relaxado, absorto. Na idade de Rubens, ereção é coisa preciosa, que não pode ser ignorada, muito menos desperdiçada.
Toma outra boa talagada, tira o pau pelo lado esquerdo da cueca e toca um punhetão em intenção de Virna (Pequeno Conto Noturno 9). Goza, põe o pau pra dentro, limpa parte da porra na cueca, parte na perna e parte fica a secar e a craquelar na mão.
Mais relaxado, entorna o resto da garrafa, volta com outra da cozinha, senta-se e, de novo, põe-se a contemplar o céu, a perscrutar o espaço negro e estrelado.
Toda essa merda - pensa Rubens - nasceu de uma colossal esporrada de um deus pervertido. É isso mesmo - Rubens num lampejo de pensamento -, o Big Bang foi uma puta de uma esporrada de deus. Deus estava lá, filho da puta como sempre, sem dar uma trepada há milhões, bilhões de anos, ou de eras, ou de eons, ou seja lá a unidade de tempo em que é medida a rotina de deus. Pudera, com quem uma singularidade poderia trepar?
Então, com porra a sair pelo ladrão, com o saco doendo, latejando pra caralho (literalmente), deus tocou uma punheta terapêutica pensando nele mesmo e a porra toda se espalhou, sêmen de átomos de hidrogênio para tudo quanto é lado, para tudo quanto é confim do Universo; aliás, criando os lados, os confins, o Universo.
É o que somos - conclui Rubens, sorriso sardônico no canto esquerdo da boca -, somos porra de deus jogada ao não-tempo, ao acaso, à sorte. À falta da buceta de Martina, Rubens se satisfaz com o insight sobre a porra de deus. 
À luz dessa revelação, só resta uma coisa a ser feita, decide Rubens. Levanta-se, equilibra-se na amurada da sacada, três andares acima da rua, tira o pau e mija feito um cavalo sobre o pequeno jardim à entrada do prédio. Abre os braços, inclina a cabeça o mais que pode para o alto e berra aos céus : - Deus, vá tomar no cu!!!

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Cerveja, o Elixir da Longa Vida

Quer parecer mais bonito(a)? Ter unhas mais fortes, cabelos mais brilhantes e pele mais suave? Tome uma cerveja gelada, rica em vitaminas B1 e B3, selênio, ferro, magnésio, fósforo, zinco e cobre. Aliás, a cerveja não faz apenas você parecer mais bonito; principalmente, faz os outros lhe parecerem mais bonitos.
Quer reduzir em até 40% o risco de cálculos renais? Tome uma cerveja gelada, excelente diurético.
Vive enfezado (no sentido literal da palavra)? Constipado, com o cu entupido, caga uma vez por semana? Tome uma cerveja gelada, rica em cevada e, portanto, em fibras, facilita o trânsito intestinal, faz você arriar bonito.
Quer ter ossos mais resistentes, diminuir os riscos de osteosporose? Tome um cerveja gelada, que contém alto teor de silício, mineral que sabidamente intensifica o funcionamento das células dos tecidos ósseos.
É praticante assíduo de um bom churrasquinho aos fins de semana? É aí que você pode se foder. Acontece que a queima do carvão produz resíduos cancerígenos, que ficam impregnados na carne e também são respirados juntamente com a fumaça. Mas a cerveja também pode socorrê-lo. Se a carne for deixada a marinar previamente na cerveja, pode reduzir em até 70% a formação desses agentes nocivos.
Está estressado, mal-humorado, angustiado, com ataque de ansiedade, não consegue pegar no sono? Terapia e tarja preta é o caralho!!! Tome uma cerveja gelada, rica em flor de lúpulo, de propriedades comprovadamente calmantes. Já na Idade Média se usava o lúpulo para melhorar o humor e recomendava-se colocá-lo nas orelhas para facilitar o sono.
Não consegue se lembrar de onde deixou as chaves do carro, da casa etc? Não consegue decorar a mais simples lista de compras nem os telefones dos amigos? Medo de demência e/ou Alzheimer? Tome uma cerveja gelada. Estudos de universidades alemãs apontam redução de 42% da incidência de Alzheimer e de 29%  da de demência entre os consumidores moderados de cerveja.
Preocupado com a forma física? Com o barrigão, com a celulite e os com os pneuzinhos? Corte o pão com manteiga de sua dieta, ora porra. O arroz, o macarrão, a batata... E tome uma cerveja gelada, a bebida alcoólica menos calórica de todas. Não é a cerveja que o engorda, mané. É o que você come com ela. É o torresmo, o provolone, a linguiça acebolada, o pão de alho etc.
E não acabou, cientistas da Universidade de Barcelona, médicos do Hospital Clínico de Barcelona e pesquisadores do Instituto Carlos III de Madri, comprovaram que tomar cerveja diariamente combate a diabetes, evita ganho de peso e previne contra a hipertensão. A bebida, segundo Rosa Lamuela, médica do hospital clínico, ainda é muito rica em ácido fólico, vitaminas, ferro e cálcio, que são nutrientes que protegem o coração.
Ou seja, todos os fatores somados, a cerveja melhora a qualidade de vida e aumenta a longevidade do bebum, impulsiona a expectativa de vida.
Até aí, tudo bem, tudo são flores, flores de lúpulo. Mas - sempre tem um mas - o que ferra, o que acaba com a alegria do bebum é a posologia prescrita pelos médicos. A dosagem diária recomendada de cerveja, acima da qual os benefícios mencionados trocam de cara e se tornam riscos à saúde, é de meio copo.
Meio copo de breja por dia? Pããããta que o pariu!!!! Meio copo de cerveja nem é cerveja. Meio copo é volume que se toma de conta-gotas. Meio copo é homeopatia! É floral de Bach! É viadagem!
Cerveja se toma de caneca, de jarra, de barril. A medicina ainda tem muito o que avançar.
"Eu bebo sim 
Eu tô vivendo
Tem gente que não bebe
E tá morrendo"

domingo, 30 de novembro de 2014

Sigam-no os Bons

Gosto do Chaves - e quem não gosta? Mas não adoro o Chaves - nunca fui um de seus aficionados.
Meio que por tabela, por osmose - irmão, esposa e, agora, filho -, assisti a muitas de suas trapalhadas, sendo o meu preferido, o episódio do cinema, "teria sido melhor ir ver o filme do Pelé".
De forma que não sei o suficiente sobre nem me apeguei o bastante ao personagem para prestar-lhe aqui uma homenagem póstuma sincera.
Há uns poucos minutos, no entanto, minha esposa me mostrou a homenagem feita pela DC Comics - a casa do Super-Homem, do Batman, do Flash etc - e eu resolvi colocá-la aqui. 
A cena é do funeral do Super-Homem e o "S", eterno ícone kryptoniano, foi substituído pelo coração amarelo inscrito com as letras "CH" em vermelho, eterno ícone chapoliniano. A substituição foi feita em dois locais da cena : no féretro que contém os despojos do herói e nos restos rasgados da capa levados pungentemente ao peito por Martha e Jonhatan Kent.
Para mim, faz todo o sentido. A mim, conhecedor apenas superficial da cosmogonia Bolañiana, Chaves e Chapolin Colorado nunca pareceram personagens isolados, sem nenhuma correlação entre si a não ser o fato de serem criações do mesmo autor, Roberto Gomez Bolaño.
Sempre tive a nítida impressão de que Chapolin fosse o alterego de Chaves. Ao brado desesperado, "quem poderá nos ajudar", saía Chaves e entrava o Chapolin, com sua poderosa e implácavel marreta vermelha e sanfonada.
Um de seus bordões era : "Sigam-me os bons". E, em seu cortejo fúnebre, os bons o seguiram. Os melhores.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Boa Viagem, Meninos, Boa Viagem...

Todo professor (digo aqui da espécie em extinção dos tradicionais e apegos a formalidades e não dessa nova leva sem postura nem conteúdo, "formada" em faculdades a distância, semianalfabeta) é assemelhado, tem um quê do Carimbador Maluco, personagem de Raul Seixas em Plunct Plact Zum, clássico especial infanto-juvenil da década de 1980, quando a Rede Globo ainda produzia alguma programação infantil de qualidade.
O especial, com duração aproximada de uma hora, narra as peripécias de um grupo de crianças e de adolescentes em uma viagem pelo espaço. Eles vão percorrendo diversos planetas e, em cada um deles, são recepcionados por um habitante nativo, encarnado por grandes nomes da MPB da época, além de Raul Seixas, Maria Bethânia, Eduardo Dusek, Fafá de Belém (grande Fafá), Gang 90 & as Absurdetes e até Jô Soares, que defende com muita competência um rock animado na canção Planeta Doce.
Porém, logo no início de sua jornada sideral, antes de propriamente se lançarem ao éter espacial, indo onde nenhuma criança jamais esteve, eles dão de cara com o Carimbador Maluco, um tipo de guarda rodoviário galáctico, ou um fiscal de aduana interestelar, Raul Seixas bem a caráter, numa roupa das mais estrambóticas. Que vai logo lhes dizendo : - Parem! Esperem aí./Onde é que vocês pensam que vão?/Plunct Plact Zum/Não vai a lugar nenhum!!/Plunct Plact Zum/Não vai a lugar nenhum!!/Tem que ser selado, registrado, carimbado, avaliado, rotulado se quiser voar! E segue a lhes cobrar taxas de viagem para a Lua, que mostrem a identidade caso queiram ir ao Sol e a decretar que, para o foguete deles voar pelo universo, é preciso de seu carimbo dando o sim.
O Carimbador Maluco não é, como pode parecer, ainda mais num país de povo desaculturado e irresponsável, um chato de galochas, um estraga-prazer, um amargurado a querer gorar a diversão alheia. Nada disso. Antes pelo contrário. A aparente - e mal interpretada - chatice do Carimbador Maluco é a mais pura e genuína manifestação de preocupação para com os jovens e inexperientes astronautas, sua burocracia é puro zelo. Quer saber se está tudo nos conformes com a nave, se tem cinto de segurança, extintor de incêndio, se tem estepe, se foi feita a revisão do motor, se o óleo foi trocado, se o comandante renovou a carteira de habilitação etc. Tudo para assegurar o êxito da viagem da molecada, bem como suas integridades físicas.
Tanto que, no decorrer da letra da canção, o Carimbador Maluco se declara afeiçoado à gurizada, diz que, se pudesse, até gostaria de ir com eles. Mas não pode. Então, deseja-lhes boa viagem e até outra vez : Mas ora, vejam só, já estou gostando de vocês/Aventura como essa eu nunca experimentei!/O que eu queria mesmo era ir com vocês/Mas já que eu não posso/Boa viagem, até outra vez.
O professor - o bom professor, repito - é o Carimbador Maluco. Diariamente, ele faz o papel de chato para com os aprendizes postos sob sua responsabilidade. Os avalia, os carimba, os rotula, exige que se mostrem hábeis e competentes, antes de deixar que alcem voo do seguro chão da escola fundamental e média para o espaço desconhecido da vida adulta, de suas vidas profissionais; torcendo para que seu crivo e sua vistoria  não tenham deixado passar nem um detalhe de fundamental importância.
Ele também, para a maioria, para a choldra ignóbil, assume ares e feições de chato, ranzinza, intolerante. Mas sempre há - ainda há, felizmente, só não sei até quando - aquela e aqueloutra salas, compostas por alunos  mais conscientes, dispostos e cumpridores de seus papéis de estudantes, que reconhecem os cuidados do Carimbador Maluco.
Tanto que, volta e meia, apesar de eu não ser um estandarte da simpatia, sou convidado a ser paraninfo. E bati meu recorde esse ano. Fui escolhido como paraninfo de um terceiro ano e como professor homenageado de outro.
Infelizmente, e aproveito para aqui reforçar as minhas doídas desculpas, compromissos previamente estabelecidos e de datas conflitantes impedirão que eu retribua a honraria a mim outorgada e compareça à colação de grau dos meninos e meninas.
Assim, a sala que me adotou como homenageado, o 3º D, deu-me, hoje, um presente, uma lembrança, que comumente é entregue ao homenageado durante a colação de grau. Uma sacola contendo um CD com uma coletânea do Raul Seixas (inclusa o Carimbador Maluco, lógico), um bonito canecão de vidro e dois latões de 710 ml de uma excelente cerveja, DadoBier.
Raul Seixas e cerveja... que melhores presente e homenagem poderiam me ter sido dado e prestada? Só mesmo o bilhete que acompanhou o agrado, cujo conteúdo reproduzo aqui, sem nenhum tipo de pudor ou medo de ser considerado arrogante e presunçoso, uma vez que modéstia - seja da falsa ou da verdadeira - nunca foi dos traços mais marcantes de minha personalidade.
O bilhete : "Não somos tão bons com as palavras. Mas queremos que saiba que mesmo que não houvesse um professor homenageado dentro do contexto da formatura escolar, daríamos um jeito de homenageá-lo. Para um grande homem e mestre, de seus alunos e admiradores".
No verso, a assinatura de todos eles.
Pãããta que o pariu, molecada!!! Estão achando que o Carimbador Maluco é feito de ferro, que tem nervos de aço e sangue de barata?
Buscaram-me, em dois, na sala em que eu estava a dar aula e me levaram ao pátio, onde a sacanagem estava armada : o restante da sala reunida para me entregar o presente, aprontaram lá uma animada gritaria, estouraram bexigas. Sabem bem como deixar tímido e envergonhado esse Carimbador Maluco que vos fala.
Entregaram-me o presente. Quiseram discurso. Discurso não houve. Carimbadores Malucos não são bons de discurso. Quiseram uma foto comigo. A foto foi a única coisa que pude lhes dar. Um e outro ainda me agradeceram, apertamo-nos as mãos e eles foram saindo, dispersando-se, partindo em sua viagem, ligando a ignição de suas naves propelidas a algazarra e alegria.
Na cabeça do Carimbador Maluco, um único pensamento : Mas ora, vejam só, já estou gostando de vocês/Aventura como essa eu nunca experimentei!/O que eu queria mesmo era ir com vocês/Mas já que eu não posso/Boa viagem, até outra vez.
O Carimbador Maluco não pode segui-los, tem que voltar à sua burocrática, porém, imprescindível faina.
É nesse momento que o Carimbador Maluco encerra sua participação na vida dos jovens aventureiros, é nesse momento que a câmera abandona o Carimbador Maluco e focaliza a traseira da nave da meninada, a se distanciar, a se tornar menor, até que a luz de seus foguetes tenha sido totalmente tragada e extinta pelo negro do espaço. É nesse momento, sem ninguém a olhá-lo, que o Carimbador Maluco verte uma discreta lágrima, que marca com cicatriz de sal a sua erodida face. E volta ao seu trabalho, à espera dos próximos viajantes.
  Boa viagem, meninos, boa viagem...
Sem demagogia nem falsas adulações, é o que, de verdade, lhes deseja esse Carimbador Maluco Beleza.

Em tempo : ainda hoje, aliás, daqui a pouco, estrearei a caneca. Garanto-lhes que ela me será fiel companheira, até o dia em que, desgraçadamente, eu, exímio quebrador de copos, canecas e xícaras, a deixarei se esfacelar, fragmentar-se em cacos, contra o chão, contra a pia da cozinha. Prometo-lhes, no entanto, que recolherei os seus cacos mortais, reduzirei-os a pó de vidro e acondicionarei tudo em uma urna mortuária, sempre a ocupar um lugar de destaque em minha casa. Tudo na vida se quebra, meninos.
Já a cerveja, igualmente lhes garanto, não viverá para ver o dia de amanhã. Mas guardarei um lata (vazia) de recordação. Obrigado, de novo.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Até Tu, Ultraman?

Quem assistiu àquelas séries japonesas das décadas de 1960 e 1970 certamente se lembra - e com muita saudade - da mais clássica delas, o Ultraman.
Pelo que me lembro - alguém me corrija se eu estiver errado ou um tanto quanto esquecido -, um alienígena, o Ultraman, vindo sei lá de qual galáxia choca-se com a nave do oficial Shin Hayata da Patrulha Científica, que, não suportando os ferimentos, falece. Para reparar a cagada, o alienígena une sua energia vital à de Hayata, ressuscitando-o. Assim, japonês e alienígena passam a habitar o mesmo corpo, sendo a de Hayata a personalidade dominante.
Quando a presença do Ultraman se faz necessária para combater os mais diversos e toscos monstros do Universo, que, de uma hora para outra, escolheram a Terra como estação de veraneio, Hayata troca de lugar com Ultraman através de um dispositivo chamado cápsula Beta e o pau quebra bonito.
Porém, Ultraman não dispõe de muito tempo para dar cabo dos monstros. Sua presença física em nossa realidade consome uma enorme quantidade de energia e para não perder a noção de quanto tempo tem, há um timer no peito de Ultraman, um luz que começa a piscar quando sua bateria está perto de arriar e ele trocar de lugar de novo com Hayata.
E é sempre a mesma coisa. Ultraman e monstro começam a pancadaria com golpes de coreografados de artes marciais, com vantagem inicial sempre para o monstro. Quando Ultraman começa a sobrepujar o inimigo e esse percebe que vai levar a pior, o monstro cresce, agiganta-se, decuplica o seu tamanho. Acham que Ultraman se aperta? Porra nenhuma. Japonês garantido, né? Ultraman também pode se agigantar, mas isso faz com que gaste uma enorme e estratégica quantidade de energia, e bastam mais umas duas ou três titânicas porradas para que o timer comece a piscar. Aí, Ultraman apela, coloca os braços à frente, cruza-os e lança o seu infalível Raio Espacial, um raio desintegrador, e a batalha termina.
A gente ficava se perguntando por que o Ultraman já não usava de uma vez a porra do raio e encerrava a questão, ao invés de primeiro apanhar feito vaca na horta? E quanto mais crescia, menos tempo Ultraman tinha.
Pelo visto, foi algo parecido o que aconteceu na cena abaixo, uma ilustração de Derek Chatwood. O oficial Hayata, pouco agraciado pela natureza em seus dotes fálicos, e provavelmente querendo impressionar uma nova conquista, trocou de lugar com Ultraman, para que esse agigantasse uma específica parte de sua anatomia. Acontece que Ultraman teve que fazer crescer tanto a pistolinha de Hayata, para que aquilo pudesse ser chamado de pinto, que lhe sobrou pouquíssimo tempo, dois ou três minutos. E aí, já era. Deu uma broxada federal.
"Isso nunca me aconteceu antes... nessa galáxia..."

Noites Asgardianas

Nas noites quentes,
Secas, de ar constipado
Eu até que bem me seguro
Me anulo
Me aquieto sob o peso da âncora
E do lastro
Me tolho
Me recolho 
Me castro.
Mas e nas de ventania travessa
De nuvens roxas a cavalgar pelo firmamento
De uivos de asas quebradas a rufar pelo ar?
E nessas noites, meu amigo?
O que é que eu faço?
Como é que eu me ajeito?

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Salão do Automóvel, Ir Para Quê?

As duas coisas que você encontrará no Salão do Automóvel :
 Carros que nunca irá comprar...

Mulheres que nunca irá comer.

Portanto, visitar essa porra para quê?
Fica parecendo televisão de cachorro. Para os mais novos, esclareço que televisão de cachorro são aquelas máquinas com espetos rotativos para assar frango, que ficam à entrada de mercados e padarias. O cachorrinho vira-lata, esfomeado, passa por uma delas, senta-se à sua frente e fica a olhar, vidrado, a babar frente àquele mundo de fantasia, inalcançável. 
O Salão do Automóvel é isso, a televisão de cachorro do macho adulto e acéfalo.
Muito já se disse a respeito do tesão que a maior parte dos homens tem por carros (declaro-me broxa em relação a esse fetiche) : que seria uma compensação fálica - quanto maior o carro, menor o pinto do sujeito, pelo menos é o que dizem os pobres de pau grande -, ou um substituo do cabeçudo - carros potentes supririam a falta de virilidade do dono -, ou mesmo uma extensão do cacete - não à toa, os homens tanto lavam, enceram e dão polimento às suas carangas, tratamento só dispensado ao próprio pau, muitos homens alisam mais os seus carros que as suas mulheres.
Ou vai ver, então, que o Salão do Automóvel, mais do que uma televisão de cachorro para adultos, é uma espécie de cinema pornô. O cara vai, passa horas a se excitar, volta para o seu carro popular, para o seu milzinho, e toca um punhetão a se lembrar da Ferrari, da Lamborghini.
Além disso, no carro dos seus sonhos, o cara pode passar a mão, acomodar-se em seu interior, sentir a maciez de seus estofamentos, saber-lhe o cheiro e até dar uma voltinha sem compromisso. E sem correr o risco de ser capado pela esposa. O carrão é a traição admitida, sem culpa nem punição.
Despeço-me agora e vos deixo com uma pergunta para pensarem a respeito, que é até mais um enigma do que uma pergunta, uma charada, uma adivinhação. E também uma autopublicidade. Se quanto maior o carro, menor o pau do dono, e sendo lógico e verdadeiro o raciocínio inverso, imaginem só a extensão da minha Marreta, eu que ando a pé, que nem carro tenho, nem mesmo CNH.

domingo, 23 de novembro de 2014

Meu Sorriso, o Oitavo Passageiro

Não tenho telefone celular
(nunca tive),
Conexões, rede sociais, humanos wi-fi,
Desprezo-os.
De fios no cu e chips na cabeça,
Sou livre.

Salvo os de parque de diversões,
Salvo os de trombada,
Nunca dirigi um carro
(nem tenho CNH),
Na hora H
São minhas raquíticas e varicosas 
Não obstante confiáveis pernas que me valem.

Não acredito em deus
(nunca cri)
Não dou bom-dia ritualístico
Para colegas de trabalho nem para inimigos,
Por meras convenções sociais,
Nunca ri.
Também não dou bom-dia ao amigo :
Não sou de redundâncias.

Tenho bons dentes
(cuido deles),
Mas não necessariamente um belo sorriso
(dele não cuido, não o treino).
Meus dentes, os tenho
 - Cartões de não-visita
(de não me visitem) -,
Como qualquer animal que quer sossego os têm
E os arreganha em rosnado.
"Meu sorriso", porém,
É só força de expressão,
É só modo de dizer :
Não é meu,
É um ser à parte,
Parasita alienígena,
Meu oitavo passageiro.
Apenas me habita,
Incubado,
Vírus da herpes :
Só surge pleno
Contagiante e contagioso
Quando minhas defesas se distraem ou são iludidas,
Quando me cai a resistência.