domingo, 12 de abril de 2015

O Chuveirinho de Bukowski

Uma e tanto da manhã, eu a caminho de me deitar, nem tanto por sono, mas mais por responsabilidade, por saber que o dia seguinte pouco se importa se você o chama de sábado ou de domingo, por saber que o dia pouco se importa com o que você faz à noite, por saber que o dia nascerá faminto de atenções e pleno de obrigações, e porque acabou a cerveja.
Mas antes de ir ter a contragosto com Morpheus, deixo aqui um agrado às minhas leitoras, àquelas que hoje saíram à caça, em busca de companhia e de uma boa pirocada - sim, porque pra ter para ter a companhia de homem de pau murcho, é melhor adotar um gato ou um cão - e nada conseguiram. Àquelas que terão que se resolver num banho quente e reconfortante, com os sábios dedos, com o sabonete, com o providencial chuveirinho.
Deixo aqui um pouco de Bukowski.

O Chuveiro
Gostamos de um banho depois da
função (gosto da água mais quente do que ela) e seu rosto está sempre suave e pacífico e ela me lavará primeiro espalhará sabonete sobre minhas bolas erguerá as bolas as esfregará
depois lavará meu pau:
"ei essa coisa ainda está dura!"
então pegará nos pelos lá embaixo - na barriga,nas costas,no
pescoço,nas pernas,
eu sorrio,sorrio,sorrio,
e então eu a lavarei...
primeiro a buceta
ficarei atrás dela,meu pau entre
sua bunda ensaboarei com gentileza seus
pentelhos, lavarei tudo ali com movimentos sutis, uma demora talvez mais longa que o necessário, então a parte de trás das suas coxas,seu rabo,
as costas,o pescoço,para depois
virá-la,beijá-la, ensaboar os seios,tomando-os e depois a barriga,o pescoço, a parte da frente das pernas,os tornozelos,os pés,
e então a buceta,mais uma
vez,para a boa sorte...
mais um beijo,e ela sairá primeiro, enxugando-se,algumas vezes cantando enquanto eu permaneço lá dentro
abrindo ainda mais a torneira
quente, sentindo a bonança do milagre do amor para só depois sair...isto ocorre normalmente no meio da tarde e tudo está tranquilo, e ao nos vestirmos falamos sobre o que ainda há
para ser feito]mas por estarmos
juntos quase tudo está resolvido,
de fato,tudo está resolvido, e pelo tempo em que essas coisas
estiverem resolvidas na história da mulher e do homem,será diferente para cada um -
para mim,é esplêndido o suficiente para lembrar
superando os exércitos que
marcham os cavalos que cruzam as ruas lá fora superando as memórias da dor e da derrota e da infelicidade:
Linda,você trouxe isso pra mim,
quando me for tirá-lo
faça-o bem devagar e de mansinho faça-o como se eu estivesse morrendo entre sonhos e não de olhos abertos, amém.

sábado, 11 de abril de 2015

Amansou o Lobo? Quero Ver Agora Convencer o Poodle a Lhe Comer

Cerca de dez, cinco minutos antes do encerramento do período letivo, geralmente autorizo que os alunos guardem seus materiais (os poucos que ainda os carregam e os menos ainda que efetivamente os usam), arrumem suas carteiras e ficamos à espera do libertador sinal. Alguns permanecem em seus lugares, outros vão se aglutinando junto à porta, onde também fico para evitar fugas e deserções antes da autorização sonora da sirene, cãezinhos de Pavlov, todos nós.
Então, ontem, um aluno, de seus dezesseis, dezessete anos, chegou a mim e me mostrou o que acontecera com sua perna : três pontos de pus, dois dos quais já bem evidenciados e definidos em furúnculos. Notei também que os pelos da perna dele estavam todos curtos, de mesmo tamanho, como uma barba de dois ou três dias. Esse moleque raspa as pernas, pensei eu, mas nada disse a respeito. E nem foi preciso. Quando lhe perguntei o que acontecera, ele, sem nenhum tipo de pudor, disse que era alergia à gilete, que depilara a perna e os pontos de inflamação surgiram.
Pensei em lhe dizer : - rapaz, que viadagem é essa, vira homem etc etc. Os mesmos conselhos que sempre dei, sem sucesso, ao meu saudoso amigo Margá. Mas o que acabei por falar foi : - e para que isso, que bobeira é essa, raspar a perna? Que em tempos do triste e perigoso politicamente correto tudo ofende, tudo constrange.
E o menino, gente boa de tudo, seguiu em sua explicação : - é que é feio, né, professor? Feio? Pelo na perna de homem é considerado feio hoje em dia? E sei que esse menino não é um caso isolado, vários adolescentes fazem isso, alguns depilam também peito e sovacos.
Na minha época de jovem varão, quando estávamos a adentrar a puberdade, havia até um competição entre nós para ver quem primeiro desenvolveria pelos nas pernas, nos sovacos e, principalmente, no saco. Era sinal de que tudo estava certo conosco, de que nossos hormônios estavam em dia, cumprindo com suas químicas funções, era sinal de masculinidade e virilidade. Era não, continua a ser. Biologicamente, continua a ser. Mas parece que, socialmente, não é considerado como tal. Socialmente, é feio; socialmente, hoje, ser homem, parecer com homem, é feio. Não é de espantar, portanto, a gazelice galopante.
Perguntei, então, àquele jovem recém-masculinizado e já a se impor uma feminilização, uma androginia : - de onde você tirou isso, a ideia de raspar a perna, de que pelos são feios etc? Respondeu-me : - as meninas, professor, as namoradas pedem...
Na hora, eu estava sinceramente disposto a dizer um monte de merdas e de verdades para aquele macho em eclosão e já a ser transformado em uma espécie de boneco, de manequim de loja, pelas namoradas. Soou, no entanto, o sinal para a saída e ele foi salvo pelo gongo. Ou eu.
As namoradas pedem... Não fora a primeira vez que eu escutara algo do gênero. Conheci um jovem professor cuja namorada lhe "corrigia" as sobrancelhas e lhe fazia limpeza de pele. Sobrancelha de homem tem que ser basta e densa, uma monocelha, de preferência, daquelas que se encontram e se enroscam ao cimo do nariz, feito às do Monteiro Lobato. 
Mas não só desavisados e incautos jovens que cedem aos caprichos emasculantes de suas amadas; às vezes, até machos das antigas são pegos em tal esparrela. Tenho um amigo, macho de respeito, ponta firme, mesma idade que eu, que me confidenciou, certa vez e há muito tempo, que raspara o saco e a virilha à pedido da esposa. - A digníssima tá afim de chupar pau e lamber bolas de macho ou do Ken, o noivo da Barbie?, perguntei-lhe. Ele riu e desconversou. E continua casado com a mesma esposa. Se continua a raspar as bolas, eu não sei, só sei que nunca mais tocou no assunto comigo.
Mulher é foda! Quer tornar o homem em uma espécie de mulher com pinto. Quer impor ao seu nobre consorte os mesmos gostos que os seus, o mesmo comportamento, a mesma estética corporal e de vestiário, o mesmo cheiro, a mesma pele, a mesma folclórica sensibilidade da qual todas se dizem donas.
As mulheres querem um homem refinado, cordial, gentil, respeitador, "limpinho" e perfumado, atento e zeloso para com os anseios e a alma femininos e, é claro, supersensível. Acontece que o cara ou nascido ou transformado pela mulher em um sujeito refinado, cordial, gentil, respeitador, "limpinho" e perfumado, atento e zeloso para com os anseios e a alma femininos e, é claro, supersensível, também quer e busca exatamente a mesma coisa : um outro cara refinado, cordial, gentil, respeitador, "limpinho" e perfumado, atento e zeloso para com os anseios e a alma femininos e, é claro, supersensível.
A mulher quer tirar do macho o que é do macho, o que lhe constrói como tal, o que é a essência dele, o seu mojo. Aí, quando ela consegue, quando o sujeito embicha e enviada de vez, ela sai a reclamar que tá faltando homem na praça.
A mulher quer domesticar o lobo. Quer lhe tirar o sangue das presas e dos olhos. Quer lhe tirar o cheiro da noite, da Lua, da caçada e da carniça em seus pelos. Quer, haja vista ao relatado, tirar-lhe, inclusive, os pelos. Quer tornar o lobo em um poodle em sua coleira, quer passear com ele no shopping, mostrar para as amigas o quão ela bem o adestrou. Quer lhe dar banhozinho, tosar-lhe, emperequetá-lo, botá-lo em roupinha de grife, passar-lhe xampuzinho e condicionador para seu tipo de cabelo, ensiná-lo a não mijar fora da privada e a sempre abaixar a tampa, quer tirar o cara do buteco e levá-lo ao bistrot.
Amansaram o lobo, minhas caras? Quero ver agora convencerem o poodle a lhes comer!

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Libertem o Pastor Gibran

Sempre que irrompe um escândalo sexual envolvendo figuras de certa (e discutível) relevância para a sociedade - políticos, religiosos, artistas de tv e cinema, atletas -, o populacho, a choldra ignóbil, a plebe ignara, excluída dos altos escalões da fortuna e do poder, reage da única maneira que pode, vira raposa que desdenha as uvas inalcançáveis que tanto desejam. E uma vez que não pode ter as uvas, que por despeitado daltonismo diz estarem verdes, passa a querer a jugular e o sangue dos bem-aventurados que se deleitam do sumo das rosados e adocicados cachos.
Sempre que alguém ganha na megassena acumulada do sexo, a ralé não perdoa. Em ato contínuo e recorrente de um arraigado civismo, hasteia-se a bandeira da pretensa moralidade ao som do hino de uma sempre mal-intencionada religiosidade.
E aí começa a malhação do Judas : os libertinos são vilipendiados, demonizados, julgados, condenados e expostos à humilhação e ao escárnio da opinião pública, tudo em nome da família, de deus, das tradições; os fesceninos são lembrados e chamados à responsabilidade, à obrigação, na verdade, de darem bons exemplos, uma vez que são pessoas públicas e influentes.
Revolta justa e genuína, a do povão? Indignação procedente e verdadeira, a da plebe rude? Porra nenhuma! Hipocrisia da braba, isso sim! E principalmente inveja, a capital Inveja! Quereriam também, os malhadores do Judas, ter participado e usufruído dos gozosos eventos. Inveja de quem não foi convidado para a festa, para o surubão.
Um exemplo disso foi um acontecido, no ano de 2000 ou 2001, aqui em minha cidade natal. Um laptop foi furtado do interior de um veículo e, em seus arquivos e memória, encontrada uma série de fotos de uma suruba. Casais das mais altas rodas da sociedade local, figurinhas carimbadas das fúteis colunas sociais, tudo gente fina, com destaque para os filhos de um grande empresário da educação local e de um famoso parlamentar.
Todos lá, no maior dolce far niente, acompanhados de suas respectivas esposas, uma mais gostosa que a outra, peladões, tomando vinhos de boas safras, em comovente comunhão fraternal, em que o que é de um também é do outro, inclusive o um do outro, todos embolados, enroscados, engatados, juntos e misturados. Uma devassidão só! Uma pouca vergonha sem tamanho! Uma delícia!!!
As fotos correram pela web e os bacantes provaram do repúdio dos puritanos da província. Alguns casais, os mais notórios, tiveram (ou preferiram) até que partir em autoexílio, dar um tempo em pátrias outras, ir fazer suruba onde ninguém os conheciam, esperar a poeira baixar. 
Defensores dos bons costumes, os algozes dos depravados? O cacete! Invejosos maledicentes. Queriam também estar na orgia, entre peitos, pintos e bundas.
Outro exemplo, esse de âmbito internacional, foi o do ex-fenômeno Ronaldo, pego no ato com três travestis em um motel, três mulheres-elefante. E o gordo também passou por sua via crucis; à época, Ronaldo era embaixador da Unicef do Fundo das Nações Unidas para a Infância : foi destituído do cargo. Um ídolo das crianças dar tal mau exemplo, ora, onde já se viu?
De novo, ninguém está preocupado com bons ou maus exemplos. De novo, a carrancuda inveja. Inveja do cara estar com travecões? Sei lá, até pode ser, afinal, o que é do gosto, regalo da vida. E a questão nem são os travecões, a questão é que Ronaldo tem lá seus desejos e é muito bem resolvido com eles, tem coragem de realizá-los. A inveja não vem do cara estar com uma puta, um travesti, com mais um ou dez na mesma cama, vem do cara ser bem resolvido sexualmente e ter acesso aos objetos de seu tesão. O encruado, o enrustido, não perdoa isso.
E foi essa mesma Inveja, travestida de puritanismo, esse mesmo pecado capital, camuflado de virtude, que vitimou um homem de deus do munícipio mineiro de João Monlevade. O pastor Gibran Henrique, 36 anos, da Igreja do Reavivamento Divino, foi caguetado pela "irmã" G. D. S., 26 anos, que o acusou de promover encontros sexuais coletivos entre os fiéis de sua igreja, os famosos surubões de Cristo!
Inveja, pura inveja das fiéis recalcadas que não eram convidadas a tais "retiros espirituais", inveja do poder purificador do cajado do pastor.
Segundo a moça, o pastor selecionava os rapazes e as moças de melhor aparência para o que ele chamava de "encontros de aprofundamento". O que não deixa de ser, e bota aprofundamento nisso, todo mundo afundando em todo mundo. O objetivo dos encontros era libertar a alma através do orgasmo.
Segundo testemunhas ouvidas na 27ª Delegacia Regional João Monlevade, o pastor Gibran Henrique induzia os fiéis a deturpações das leituras bíblicas para que os mesmos se despissem de suas roupas e de sua moral e, os que ainda os tinham, de seus cabaços e pregas. 
E só prenderam o pastor? E os outros foliões? Vítimas inocentes da lábia do pastor? À puta que o pariu. Pelo que foi noticiado, o pastor não pegou ninguém a força, não forçou ninguém a nada, e essa balela de que, usando de sua figura de autoridade e a deturpação de trechos bíblicos, induziu as pessoas a participar de um bacanal também não cola. É desculpa de madalena arrependida.
Por exemplo, se o cara for um macho de respeito, dos convictos, se tiver firmeza nas pregas, ninguém é capaz de convencê-lo a dar o rabicó, pode citar trechos bíblicos à vontade, pode descer o próprio deus à Terra que ele não solta o bufante. Agora, se o cara já tiver aquela comichão na argola e só não der a ré no quibe por medo ou por achar que é pecado, aí fica fácil, aí é sopinha no mel pro pastor, aí o pastor tá até fazendo um favor pro cara, dá a justificativa que ele tanto precisava pra enfiar o brioco no espeto, se está na bíblia, se deus quer...
O mesmo vale para as crentes do cu quente com seus calores na bacurinha devidamente abafados sob os seus cabelões que lhes descem até a bunda e suas saias que lhes chegam aos tornozelos. Não tá no gibi o que deve ter de crentinha doidinha para sentar numa boa jeba, se refestelar numa boa piroca, ou em duas, em três. De novo, o pastor lhes dá a justificativa bíblica para satisfazerem seus desejos, liberta-as, na verdade.
Nos "encontros de aprofundamento", segundo relatos dos fiéis infiéis, dos alcaguetes, o pastor pregava que, para entrar em conexão direta com Deus, eles precisavam tirar as roupas e tomar o sangue de Cristo, que era representado por cálices de Cabernet Sauvignon. Depois de dezenas de cálices de vinho, o pastor Gibran promovia a chamada ‘comunhão com os irmãos’, que, segundo depoimento de L.D.C., radalista de 26 anos, seria uma espécie de abraço coletivo no qual todos deveriam sentir integralmente o corpo dos irmãos. Integralmente, até o talo, até as bolas.
O pastor disse que foi preso injustamente porque a Constituição garante a liberdade de religião. Ele pediu, além de orações, doações para pagar o advogado. Mais do que injustamente! O pastor Gibran é um libertador da alma humana rumo ao esplendor dos Céus. Prender um libertador? Bota injustiça nisso.
Pastor Gibran, és um verdadeiro homem de deus. Mostraste-me a Luz, pastor Gibran. Quero me tornar um de seus missionários, um dos disseminadores (ou inseminador seria mais adequado?) de sua Palavra.
Libertem o Pastor Gibran

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Retorno Imaginário a Uma Mogi Tão Quanto (Ou : A Minha Pasárgada)

                                                                                                                                                         E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando a noite me der
Vontade de me matar
- lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada. 
(MANUEL BANDEIRA)
               
É que hoje acordei com saudades! 
Acordar com reumatismo seria o de bom senso 
E o natural, vista minha idade. 
Mas não! 
Nenhuma junta queima-me e arde. 
Acordei deveras foi com saudades. 
Saudades não de alguém, 
Não de específica cama, 
Não de um meio de pernas. 
Saudades de um itinerário de trem. 
De um trem que não mais corre 
E quando corria, atrasava 
Apitando, fumegando, por nós, o seu desdém . 
Desdém que não me apoquentava 
Pois sabia que o amigo 
Ao fim da linha 
E ao fim de que hora fosse 
Me aguardava. 
Sem queixas, até encabulado 
Dizendo ser de uso o demorado, 
Como fosse o dono da férrea companhia. 
Seu olhar de alegria 
Abraçado ao meu, saturado 
Saturado de espera, paisagem, 
Lagoas brancas e garças. 
É que hoje acordei com saudades! 
Acordar com lumbago seria o de bom tom 
E o responsável, vista minha idade. 
Mas não! 
Nenhum nervo entreva-me covarde. 
Acordei com 42o C foi de saudades. 
Saudades da saudade que matávamos em poucos minutos, 
Com mínimas palavras, 
Em metade do trajeto da estação à casa: 
Não tínhamos, à época, tempo a perder com a saudade. 
Saudades dos nossos comboios pela madrugada, 
Das saias, dos saltos, das pernas pelas calçadas, 
Dos lábios mascarados por óxido de chumbo. 
Saudades das nossas paisagens noturnas 
- desfocadas, descalibradas – 
Nossos olhos embotados (não de cimento e lágrima) 
De vodka barata – com nome de mulheres baratas – 
Misturada a guaraná, fanta laranja, soda limonada, água tônica, 
Mas principalmente à nossa vontade de romper à vida, 
Avidamente. 
Saudades de nosso planos de ataque sem exércitos a combater, 
De nossas expectativas frustradas, eternamente expectativas. 
Saudades das manhãs ocres, azedas 
Tratadas com aspirinas e macerados de boldo. 
Saudades dos risos – ríamos ainda assim – 
Que nos ribombavam a cabeça. 
Saudades de nossas despedidas na gare, 
Nossas despedidas sem pesar, 
Ainda que incertos fossem novos reencontros. 
Pois éramos jovens. 
E jovens, acreditávamos que morreríamos. 
É que hoje acordei com saudades. 
Acordei urinado, 
Incontinente de saudades. 
Saudades 
(hoje, eu, velho, entocado pela saudade) 
De quando queríamos – esperávamos realmente – 
Morrer imberbes, jovens e tenros: 
Intocados pela saudade.

Em tempo : pois é, Margá, bichona velha, finalmente você meteu a mão no bolso e pôs internet na sua casa. Ficava com aquela desculpa de que morava em um bairro novo, que o sinal não chegava por lá... não chegava é o caralho, era a sua eterna pão-durice - eu disse pão-durice, porque pau durice, você nunca teve. E sabendo que um de seus passatempos prediletos é ler o Marreta, posto aqui esse singelo poema, que escrevi em 2005 ou 2006 em lembrança das nossas velhas noites da Mogi da década de 90, quando eu pegava o trenzão da Fepasa aqui - bom e muito barato -, aportava por aí e era muito bem tratado e hospedado pela Dona Rosita, bem diferente de você, que só me dava whiskão do Paraguai, o White Pangaré.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Cafezinho da Porra

Inúmeras são as simpatias para atrair o pretendido à arapuca do casamento, sortidas e ritualísticas são as mandingas de amarração do bem-amado. Acessórios úteis para conseguir marido no passado, essas folclóricas feitiçarias são, hoje, haja vista à viadagem galopante, armas imprescíndiveis para agarrar um homem para chamar de seu.
E as tentativas para o desencalhe não medem atos tampouco consequências. Vão do sagrado ao profano. Tudo por uma boa piroca.
A mais tradicional tem origem religiosa, e consiste em aporrinhar Santo Antônio até que ele arrume para a solteirona o que ela não foi capaz de fisgar com a própria buça. Mas Santo Antônio já gozou de vida mansa, nem sempre foi o mais ocupado dos santos, nem sempre teve que fazer as vezes de um cupido da mitologia católica. Reza a lenda que Santo Antônio só foi metido nessa fria de santo casamenteiro por volta do século XIII, por um acidente, pelo mais puro e genuíno azar. 
Conta-se que havia lá uma solteirona encruada, que, cansada de fazer promessas ao santo e não agarrar o tão ansiado marido, tomou da imagem de Santo Antônio e, raivosa, arremessou-a pela janela. A imagem atingiu a cabeça de um jovem mancebo - bonito, educado e rico - que estava de passagem. Se fosse comigo, eu teria mandado à puta que o pariu, pisado na bosta da imagem e seguido caminho. Mas o refinado rapaz bateu à porta da moça para devolver-lhe o santo. E foi aí que ele se fodeu! Apaixonou-se e se casou com ela. E se fudeu também o Santo Antônio : desse infausto em diante, Santo Antônio ganhou a fama de casamenteiro, de alcoviteiro dos céus, e nunca mais teve paz.
E não são poucas as agruras às quais as encalhadas submetem Santo Antônio, o santo passa por muitas e boas. Em uma das simpatias, o inofensivo santo, que nunca fez nem desejou o mal a ninguém, é mergulhado de cabeça para baixo em um copo com água e só é retirado da desconfortável posição após, é claro, arrumar marido para a donzela casadoira. Noutra, roubam o Menino Jesus do colo de Santo Antônio e só o devolvem depois do casamento no civil e no religioso. 
Tentativa de afogamento, homicídio doloso; sequestro de menor com pedido de resgate, crime hediondo. Folgo em ver o quão educativas são as tradições católico-cristãs.
Do cristianismo, vão também à magia pagã, as desesperadas. Algumas dessas simpatias pagãs são leves e do bem, inócuas conjurações de elementos e forças da natureza, envolvendo misturas e infusões de combinados florais e frugais, mel, canela e sal grosso, usadas como beberagem ou como água para banhar-se. Tem a simpatia do cravo, das rosas brancas, das rosas vermelhas, a de botar o nome do amado dentro da maçã, mergulhado em mel por tantos dias etc etc. Magias do bem, enfim.
Outras, e é nelas que eu queria chegar depois de tanto blá-blá-blá, recorrem a magias mais poderosas, maléficas, lidam com forças mais obscuras da Natureza, tangenciam a chamada magia negra. É o caso do temível e - dizem - infalível e irreversível feitiço do café coado em calcinha usada. Basta que a mulher pegue uma calcinha, usada durante o dia inteiro, suada, azeda e encharcada pelos pensamentos elevados ao amado, e a use, em lugar do coador de pano ou do filtro de papel, para passar aquele café bem fresquinho e servi-lo ao seu benquerer. Dizem que é tiro e queda. Sabe-se lá em que áreas do coração (ou da cabeça do pau) do amado aquelas emanações bucetais, aqueles vapores ricos em feromônios, aqueles miasmas do amor atuam. O que se sabe é que o cara cai de quatro pela mulher. Uma vez atraído pelo café coado na calcinha, a amarração é complementada, reforçada e tornada definitiva com um bom chá de buceta. Se junto ao chá de buceta, a mulher servir umas "rosquinhas" (se é que vocês me entendem), aí é que o cara gama de vez. O difícil vai ser se livrar dele.
Mas e o homem que quiser se valer de tais sortilégios para conquistar a amada? Tais simpatias funcionam igualmente para os do sexo masculino? Um café coado numa cueca usada por uns dois ou três dias também porá o objeto da paixão masculina aos seus pés? Será que a mulher, tão mais esperta que o homem nas artes e artimanhas do amor e da sedução, é igualmente vulnerável a eflúvios de testosterona, a emanações etéreas de virilidade e paudurescência?
Não querendo arriscar a sorte, Robert John Lind, de Minnesota (EUA), apaixonado há tempos por uma colega de trabalho, optou por não confiar no etéreo dos feromônios, no imaterial dos odores fugidios aos sentidos. Que coar café na cueca, que nada! Resolveu depositar diretamente no café da colega de trabalho o seu elixir do amor, o seu caldo Knorr da paixão. Durante algum tempo, Robert Lind ejaculou no café antes de servi-lo à sua colega, até o dia em que foi flagrado com as mãos nos genitais, em pleno ato de paixão. 
Não tendo como negar, Robert Lind confessou ter ejaculado pelo menos quatro vezes na mesa e no copo de café da colega. O cara não só esporrava no café, mas também na mesa, para deixar seu cheiro, marcar território. Na queixa que fez à polícia, a mulher disse que "já tinha notado um sabor e cheiro estranhos no café" e que sentiu "o mesmo cheiro em sua mesa". 
Em seu depoimento às autoridades, ele justificou o comportamento por "estar apaixonado", pensou que esta fosse uma boa maneira de fazer com que ela o notasse.
Por isso, fica aqui o alerta para você, mulher que lê o Marreta : se aquele seu colega de trabalho, aquele cara apagado, que mal se nota, sem sal nem açúcar, em nome do coleguismo profissional, começar a lhe servir cafezinhos e, de uma  hora para outra, você começar a vê-lo com outros olhos, esteja certa, você tomou um cafezinho da porra!!!
Robert John Lind e o seu café com creme especial.

domingo, 5 de abril de 2015

Páscoa, Todo Cuidado é Pouco!

Há uns três ou quatro anos que repito essa mesma charge no dia da Páscoa. E vou continuar a repeti-la até que apareça outra melhor. Não sei quem é o autor, mas é genial. Insuperável.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Desconstruindo Angelina

Sim, Angelina Jolie é uma mutante. Não, sua beleza quase que alienígena não é o resultado dessa mutação, não é seu superpoder cromossômico.
Não estamos no Universo Marvel, no mundo das maravilhas. Aqui, as leis biológicas são draconianas e inclementes. Aqui, uma mutação não lhe dará habilidades sobre-humanas, não lhe conferirá asas, esqueletos de metal nem capacidades telepáticas e telecinéticas. Aqui, via de regra, uma mutação lhe impingirá um belo de um  câncer, ou ao menos uma probabilidade altíssima de desenvolvê-lo.
A mutação de certos genes só não eclodirá em câncer se : a) a pessoa tiver muita sorte de que fatores externos coibam ou retardem o x-gene; a mesma sorte que ela não teve ao nascer com o gene defeituoso; b) a pessoa morrer jovem, antes da manifestação do tumor.
A primeira hipótese, a da sorte que o ambiente compense a falta da mesma no momento de sua concepção e recombinação gênica, descarta-se logo de cara. Não existe a variável sorte na equação da Mamãe Natureza.
A segunda, morrer jovem, um suicídio profilático? Um suicídio completo, provavelmente não. Mas e um suicídio parcial? Apenas das partes do corpo com maior chance de serem afetadas? Amputar os prováveis focos de podridão para que deles o mal não se espalhe, se infiltre e comprometa todo o organismo?
A amputação preventiva - ou proativa, como ela prefere dizer - foi o método de tratamento escolhido por Angelina Jolie para minimizar os 87% de chance de desenvolver câncer de mama e os 50% de chance, desse mesmo câncer, nos ovários; probabilidades funestas dadas pela mutação do gene BRCA1, herdado de sua mãe, que Angelina viu morrer em agonia.
Resolvida em não expor seus filhos à terrível experiência, em 2013, Angelina Jolie amputou as mamas, realizou uma mastectomia dupla e agora, há umas duas semanas (só vi a notícia hoje), submeteu-se a uma "salpingo-ooforectomia bilateral laparoscópica", uma operação preventiva na qual são retirados os ovários e as trompas de Falópio.
E não é simplesmente tirar ovários e trompas, reduzir a chance de câncer e voltar a ter uma vida normal. A tal cirurgia fará a bela Jolie entrar em menopausa precoce e lhe trará todos os transtornos relacionados : ondas de calor, insônia, perda de massa óssea, ressecamento da vagina, depressão, dor nas relações sexuais e queda na libido, sintomas depressivos, entre outros. 
Expor-se a tais contrariedades reais ante apenas a possibilidade de um futuro câncer? Só isso já seria suficiente para alçar Jolie a um patamar de coragem sobre-humana. Mas Jolie não fez isso só por ela, aliás, acredito que ela própria tenha sido o fator menos decisivo em sua radical resolução.
Jolie fez pelos filhos, abdicou de sua condição biológica de fêmea para exercer plenamente, e durante o maior tempo que puder, o seu papel de mãe. Pãããããta que o pariu se isso não vai muito além de qualquer escala de bravura.
Autorizar que o médico passe o serrote em um membro podre, necrosado, gangrenado, já deve ser decisão das mais difíceis e dolorosas. O que dizer, então, de pedir pela amputação de órgãos totalmente saudáveis, só pela possibilidade de que eles adoeçam um dia? 
Imagine você, homem que me lê, se o médico chegasse e lhe dissesse que você tem 80 e tantos por cento de chance de desenvolver um câncer letal nos testículos, nas bolas, nos colhões. E você com filhos pequenos para criar. Mandaria arrancar suas preciosas bolas, ainda saudáveis e que tanto você adora coçar, para aumentar a chance de passar alguns anos a mais ao lado de seus filhos? Teria colhões para mandar extirpar seus colhões? 
Angelina os teve.
Na época da dupla mastectomia da bela, escrevi um texto aqui no Marreta, um dos textos que mais gostei de escrever, e que, agora, de novo, em honra à coragem de Jolie, republico.

Angelina de Milo
A bela, um belo dia, recebeu a notícia de uma rachadura em seu mármore renascentista; eufemismos à parte, uma fenda, uma cratera.
A bela (que, verdade seja dita, não vive mais da beleza, mas que via ela se fez e lhe é inegável e evidente atributo, que ainda a carrega feito uma cicatriz agradável de se olhar, que é isso o que a beleza em demasia é, uma anomalia, uma deformidade agradável de se olhar) foi informada de uma falha em seu gene BRCA1, um fantasma a lhe assombrar com a chance de 87% de desenvolver câncer de mama, de um tipo dos mais selvagens, indomável.
A mesma falha gênica que matou prematuramente a também bela mãe da bela. A bela tem filhos. Pequenos. Quer vê-los crescer sob seus auspícios, não quer gravar-lhes o trauma de uma mãe a definhar e a apodrecer, de não ser mais capaz de ser mãe.
Contar com os 13% de probabilidade do câncer jamais eclodir? Com a sorte? A bela também é inteligentíssima, sabe que não existem essas crendices de sorte; existissem - ou, no mínimo, uma mínima justiça -, e ela não teria nascido com o gene troncho.
A bela não teve dúvidas - ou se as teve, não foi detida por elas, como a maioria dos mortais se deixa deter : submeteu-se a uma mastectomia dupla, à retirada de seus dois seios, como forma de reduzir as probabilidades de uma futura manifestação do câncer.
Decidiu, a bem dos  seis filhos, "ser proativa e reduzir o risco o máximo que eu podia".
Já não deve ser fácil se decidir pela e autorizar a amputação de um órgão condenado, por gangrena, trombose, necrose, metástase, ou o que for. O que dizer, então, da decisão de se alijar de órgãos ainda saudáveis? Órgãos que, apesar de carregarem grandes chances, ainda não manisfestaram a moléstia, nem indícios dela? O que dizer, então, se esses órgãos forem precisamente os seios, o diferencial supremo da beleza feminina?
A bela em questão é a mais bela das belas, é Angelina Jolie. A atriz de 37 anos explicou que sua mãe lutou por uma década contra o câncer, em vão, e que ela, Angelina, procurou dessa forma, através da mastectomia, garantir aos seus filhos que a mesma doença não a tire deles. A cirurgia, diz a atriz, reduziu a chance de câncer para menos de 5%.
Surgida como filha do grande ator Jon Voight, Angelina foi uma das maiores porras loucas de Hollywood, rebelde, doidivanas, drogada, ninfomaníaca bissexual, uma delícia, em suma. Desde a primeira vez que a vi, não me lembro em que filme, e isso é o de menos, percebi logo de cara que não se tratava de  uma mulher, era uma força da natureza que assumia as formas de uma - e que formas! -, um elemental, um desses agentes zombeteiros da natureza que, vez por outra, resolvem passar umas férias em corpos humanos.
De uma hora para outra, transfigurou-se. Chocada pela realidade com a qual se deparou no Cambodja, onde gravou o filme Amor sem Fronteiras, e atordoada por um grau de miséria que jamais supôs existir, miséria humana imposta por humanos, a bela e inconsequente Angelina parece ter sido exorcizada de seu elemental.
De pronto, adotou uma criança cambodjana orfã, e passou a se dedicar, junto à Unicef, órgão da ONU do qual se tornou embaixadora, a causas humanitárias por todo o planeta, sobretudo questões que envolvem crianças expostas a condições sub-humanas. De elemental, promoveu-se a mãe adotiva dos desvalidos.
Agora, do meu ponto de vista, a amputação dos seios saudáveis em prol de sua prole, o sacríficio da carne por sua carne, coloca Angelina Jolie em um patamar infinitamente superior ao da elemental gostosa, tanto que nem sei dizer que patamar seria esse. Só não a digo uma deusa-mãe porque deuses são idiotas inventados por idiotas. 
Oh, pedaço de mim, Oh, metade arrancada de mim, diz a música do Chico, canta a mulher cuja metade foi levada pelo amor que partiu canalhamente, que a abandonou, que arrancou-se, enfim. A metade arrancada pelo amor que se foi, e sem a qual a personagem declara-se à míngua, era o pedaço mais importante da mulher.
Oh, pedaço de mim, Oh, metade amputada de mim. O pedaço de mim de Jolie não foi extirpado por um amor fujão, sonso e ladrão, não foi a metade que se perdeu por amor; antes pelo contrário, foi a metade que ficou por amor, a metade que se quis deixar ficar por amor, que não foge nem abandona os seus. A metade exilada de Jolie, a que se foi, os seus seios, não era sua parte mais importante, sua metade melhor é a que ficou, a mãe. Não há lamento, feito a desiludida de Chico, pela metade que se perdeu, há o acolhimento e o festejo à metade que permaneceu, viva e providente.
De elemental ninfomaníaca, Jolie se elevou a muito mais que uma deusa-mãe. Alçou-se a canção do Chico Buarque, uma canção melhorada do Chico.
E chega. Que elogio maior, desconheço.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Que Fossa, Hein, Meu Chapa, Que Fossa...(29) / Todo Castigo Pra Corno é Pouco (14)

Ronda é um clássico. E como tal, acredito que dispense apresentações. Mas há uma particularidade sobre Ronda que, talvez, a maioria desconheça : seu autor, Paulo Vanzolini, detestava-a, tomou-lhe ojeriza.
Em vida, Paulo Vanzolini foi diretor do Museu de Zoologia da USP, uma das maiores autoridades mundiais em herptologia (o estudo de cobras e lagartos), dono de uma das maiores bibliotecas da América Latina sobre o assunto e um dos fundadores da FAPESP. E nas horas vagas - onde é que o cara achava horas vagas? -, foi também um letrista de samba de primeira grandeza, o doutor do samba, como era chamado.
E odiava Ronda, seu filho mais notório. Vanzolini considerava a canção "piegas", dizia que as pessoas não deviam gostar de Ronda, mas que gostavam, pois muitas pensavam que a música era uma homenagem à cidade de São Paulo e sua boemia. E nunca foi nada disso. 
Ronda foi composta depois que ele, aos 21 anos, servindo ao Exército, e frequentador contumaz da ZBM (a zona do baixo meretrício), viu uma puta a procurar por seu macho, de bar em bar. Ele pensou que era pra fazer as pazes com o amante, mas depois ficou sabendo que era para passar fogo nele. Então, nasceu Ronda. Ronda é música de puta, as pessoas nem deveriam achá-la tão bonita, sempre disse Vanzolini. 
Mas creio que a causa da aversão do criador à sua criatura nem seja essa, a má interpretação de sua letra pelo público. Ronda, ao mesmo tempo que alçou Vanzolini ao firmamento dos grandes sambistas, rotulou-o para todo o sempre como um compositor de um só sucesso. O sucesso da puta que prometia cenas de sangue num bar da avenida São João ofuscou todo o conjunto da obra de Vanzolini.
Ronda foi sua benção e sua maldição, seu Gênesis e sua Nêmesis; depois dela, nada mais que ele fizesse caía no gosto dos ouvintes, todos ficavam a aguardar uma Ronda 2, 3 etc. Uma música de puta, feita aos 21 anos, acabou por nublar toda a produção de Vanzolini, que morreu aos 89 anos. E sua obra é vasta e primeiríssima qualidade poética e musical. Ser reduzido à Ronda, deixava o cara puto da vida. E com toda razão. Vanzolini tinha toda razão em ter pego repulsa à canção.
Em 2o03, foi lançada uma belíssima coleção da obra de Vanzolini, uma caixa com 4 CDs intitulada Acerto de Contas. São 13 músicas por CD, interpretadas pelos grandes nomes da MPB. Baixei a coleção à época, gravei-a em um CD e a ouvi à exaustão. São mais de 50 músicas belíssimas, letras e mais letras de grande inspiração e esmero, todo o conhecimento acadêmico da língua portuguesa transferido à canção.
Mas querem saber? Que me desculpe o finado doutor do samba, que seu fantasma não me assombre pelo que vou dizer, mas Ronda é mesmo a melhor!!! Pããããããta que o pariu se é!!! Ronda toca fundo na sofrida e corna alma nacional.
Ronda é música de puta, e daí? Ronda é um clássico! É música de fossa e de corno, ao mesmo tempo! Por isso, tanto caiu no gosto, no imaginário e no coração do brasileiro.
Ronda
(Paulo Vanzolini)
De noite eu rondo a cidade
A te procurar 
Sem encontrar.
No meio de olhares espio,
Em todos os bares
Você não está...
Volto pra casa abatida,
Desencantada da vida.
O sonho alegria me dá:
Nele você está.
Ah, se eu tivesse
Quem bem me quisesse,
Esse alguém me diria:
"Desiste, esta busca é inútil".
Eu não desistia,
Porém, com perfeita paciência
Volto a te buscar.
Hei de encontrar
Bebendo com outras mulheres,
Rolando um dadinho,
Jogando bilhar
E neste dia, então,
Vai dar na primeira edição:
Cena de sangue num bar
Da Avenida São João.

"J" Através do Espelho e o Que Ela Encontrou Por Lá

"J", como ela própria se identifica, para assim permanecer anônima, conta que caiu aqui no Marreta, entre tantos alçapões e arapucas espalhados pela net, através da postagem Sommelier de Buceta e, inacreditavelmente, não fugiu horrorizada e indignada, aninhou-se por aqui.
Meus textos, sei disso, não são palatáveis à maioria semiletrada, de certezas e opiniões compradas em supermercados, que campeia pelo mundo real e mais ainda pelo virtual; minha ironia azeda e meu senso de humor tridestilado em retorta de cobre azinhavrado, para os quais o soro antiofídico e o antirrábico são os únicos antídotos, podem mesmo soar como machistas, sexistas, preconceituosos, enfim, para o populacho em geral, para a choldra ignóbil, para a classe C, que não consegue dar conta de nada maior que twitters e mensagens de whatsapp, que não consegue ler nem o prefácio de um livro, quanto mais o pré-difícil.
Mas "J" veio, viu e venceu. Entedeu a grande farsa, a grande brincadeira que é o Marreta do Azarão, o que, logo de cara, já a revela de uma percepção e sagacidade acima da média.
Desde então, há quase um mês, "J" faz comentários quase que diários em minhas postagens. Bem-humorados, espirituosos, sarcásticos e, alguns, até maliciosos, porém sem o menor resvalo na vulgaridade. De um mês para cá, "J" trouxe um toque feminino aos bastidores do Marreta; houve até caso de leitores do blog a quem "J" fez reavivar velhas lembranças, assoprou velhas brasas.
Plenamente convencido de sua inteligência, fiz uma proposta a "J" em um de seus comentários, perguntei-lhe se não gostaria de, eventualmente, escrever alguns textos e publicá-los no Marreta, ser uma colaboradora honorária, uma Azaronete.
"J", como toda mulher que se preza, que se valoriza e se dá ao respeito, deu uma de difícil, fez cu doce e disse-me não, recusou meu convite, impiedosamente. Mas, pelo visto, a lábia do Azarão, apesar de oxidada e corroída pelo tempo, continua afiada : alguns dias depois, "J" disse ter escrito um texto e perguntou se eu queria publicá-lo; o texto, segundo ela, não estava grande coisa e coisa tal.
Claro que eu queria publicá-lo, sugestões e colaboradores são sempre bem-vindos. E confesso que ainda que o texto não fosse mesmo grande coisa, eu o publicaria com elogios moderados. Sei ser gentil com quem tem a mesma postura para comigo. Mostrar um texto a alguém, ainda mais a alguém que não se conhece, é um ato de extrema coragem (ou de loucura), é desnudar a alma ao demônio para ver se ele se interessa ou não em comprá-la. Respeito isso. Publicaria-o de qualquer forma, ainda que o achasse uma perda de tempo.
Não precisei, no entanto, gastar minha limitada reserva de polidez nem pôr a rebolar meu inelástico jogo de cintura, não precisei exercitar, com grandes riscos de cãibras, minha destonificada musculatura social : "J" enviou-me o texto e ele é bom pra caralho! 
Alguma coisa em seu texto, lembrou-me de dois poemas : Eu, de Florbela Spanca,(Eu sou a que no mundo anda perdida/Eu sou a que na vida não tem norte/Sou a irmã do Sonhoe desta sorte/Sou a crucificada ... a dolorida ...) e Retrato, de Cecília Meireles (Eu não dei por esta mudança/tão simples, tão certa, tão fácil:/- Em que espelho ficou perdida/a minha face?)
Abaixo, finalmente, o texto de "J", ao qual intitulei de"J" Através do Espelho e o Que Ela Encontrou Por Lá, em um plágio descarado (ou em uma referência, como preferem os intelectuais, os citadores) do título de um livro de Lewis Carroll.

ESPELHO
Eu sou aquela velha dor fina que te perturba faz tempo, aquele ligeiro incômodo que se passou por passageiro e da noite para o dia se tornou fiel companheiro. Eu sou a tua sina, o teu castigo, teu destino, o teu carma.
Eu sou aquela angústia crescente, aquela ânsia infinita prestes a escarpa-lhe entre os dentes. Aquela sensação esquisita que te toma de assalto. Eu sou aquele estalo inaudível, aquela explosão orgástica que te reparte em mil pedaços – o Big Bang, do seu eu.
Eu sou tua paranoia noturna, a sarna da tua alma, abstinência profunda, aquele repugnante vício incurável.
Eu sou teus pecados furtivos, tua psique clandestina, o reflexo no teu olhar sovina e avarento. Eu sou a inveja ferina, a gula na tua saliva, a ira dos teus abraços, a tua arrogância repulsiva.
Eu sou a preguiça excruciante do cotidiano, que te mantém impassível diante de um milhão de sorrisos iguais e sem graça. Eu sou a impiedosa luxúria que te consome a conta-gotas, dia após dia, Prometeu.

OHLEPSE
Eu sou aquela vontade esquecida, aquela parte que tu ruminas, sou teu pesadelo das segundas-feiras, tua alforria nas madrugadas. Sou teu mais colérico segredo. A sujeira debaixo do teu tapete.
Eu sou aquela onda que te adormece. Sou tua Capitu, Bentinho. Sou o perfume que te entorpece, a luz que te encadeias, serpente que te enamora. A brisa boa que te alicia. Eu sou a doçura insuportável dos teus beijos, a voracidade irreprimível dos teus desejos.
Eu sou as marcas que o tempo infligiu no teu rosto, as cicatrizes que te tatuam. Eu sou o medo incontrolável que te arrebata, a morte implacável que te rodeia. Sou a sombra nas tuas olheiras, o batom vermelho na tua camisa.
Eu sou aquela vibração no teu peito, a lágrima indesejada, a palavra suprimida. Eu sou a coletânea dos teus erros, o desdém dos teus fracassos. Sou a efervescência discreta que te percorre, o falso remorso que agora sentes. Eu sou aquele antigo combate que insistes em ignorar.

terça-feira, 31 de março de 2015

O Deus-Hambúrguer-de-Minhoca

"A Igreja é a casa de Deus, é a morada do Senhor." 
Tive mais contato com religiosos - padres e fiéis - do que gostaria de. Como aluno, estudei por 3 anos em colégio de padres e como professor, lecionei para muitos meninos seminaristas, que, antes de ingressarem no seminário maior, iniciarem seus estudos em teologia e filosofia, precisavam terminar seus colegiais em escolas comuns, o que me levava a ter contato, nas reuniões de pais e mestres, com os padres responsáveis pelos menores aos seus cuidados.
E na boca deles, a tal casa do Senhor era o clichê dos clichês, o chavão-mestre dos chavões. Algumas vezes, inclusive, fui convidado a fazer uma visita à casa do Senhor, como alguém que convida um vampiro para se sentar às suas mesas. Incautos, bem-intencionados e sortudos religiosos... parece mesmo que a sorte favorece os descuidados : nunca lhes aceitei os convites, não me interesso pelo sangue eclesiástico, muito menos pelo de Cristo.
Supondo a absurda existência de deus, a sua casa, a casa do criador, gerenciador e mantenedor do Universo, não poderia ser outra que não o imenso, embora finito, não obstante em constante expansão, Universo. Cada átomo de hidrogênio, cada grão de poeira cósmica, cada cauda de cometa, cada buraco negro, cada embrião de galáxia, cada estrela natimorta seriam a casa do Senhor, a toca, o abrigo, o ninho de deus.
Trancafiá-lo em um claustro de engenharia humana? Reduzir-lhe a pagador de IPTU? Fazê-lo cativo de quatro paredes de cal, argamassa e tijolos, decoradas por santos ensanguentados vestidos de púrpura e de culpa, e encimadas por um sino de bronze a anunciar que a hora de visitação a um deus feito em atração de circo chegou?
Imputar uma casa física a deus é a tentativa de torná-lo, literalmente, em uma dona de casa, de colocá-lo à disposição e à servidão de um marido truculento e machista - o ser humano - que só recorre à esposa para satisfazer as próprias necessidades; é botar deus numa garrafa de gênio e deixá-lo à mercê de seus três desejos. Contemplar deus no sorteio do Minha Casa, Minha Vida é reduzir demais a importância do Todo-Poderoso. Melhor não acreditar no dito cujo do que diminui-lo assim.
As Igrejas não são as casas do Senhor. São franquias de deus. McDonalds da fé. De mesma praticidade das referidas lanchonetes, as igrejas; feitas sob medida para quem não quer preparar a própria comida, definir o cardápio, pensar sobre os ingredientes, sair à compra deles, selecioná-los, limpá-los, condimentá-los, dosá-los à suas corretas proporções, pô-los a marinar, a pegar o tempero, proceder a lento e parcimonioso cozimento e, finalmente, degustar cada garfada, com calma e em silêncio, tentando reconhecer no produto acabado cada componente formador, ponderando se o resultado foi o esperado, no que ele poderia ser mudado, melhorado.
As Igrejas são os fast foods de deus. Os drive-thrus da fé. Pegam deus, acrescem-lhe mitologias difusas e vãs filosofias e põem tudo no moedor de carne. O resultado é uma maçaroca disforme, de má aparência e, no mais das vezes, fedorenta, sabendo a sebo e a decomposição. Acrescentam-lhe corantes, aromatizantes, conservantes, prensam-no em discos, acondicionam-no em embalagens coloridas e brilhantes e está pronto o hambúrguer de deus. Repito, de mesma praticidade que o do McDonalds, e tão insípido, insosso e sem substância quanto ele.
E, feito também o do McDonald, o hambúrguer de deus não é um hambúrguer de verdade, não corresponde ao anúncio que se faz dele. 
O verdadeiro hambúrguer de carne vem de verdejantes pastos, de portentosos animais, de nobres carnes bovinas; o do McDonalds, reza uma lenda urbana, vem em parte de lugares mais subterrâneos, tem boa proporção de carne de minhoca, de minhocuçu.
O verdadeiro hambúrguer de deus, supondo de novo a absurda existência Dele, seria encontrado na contemplação e admiração dos supostos feitos e obras divinos, na observação reverente da Natureza e de suas forças, de seu intrincado equilíbrio e funcionamento. E não na consumição em culpa e remorso, não na purgação pelo sofrimento e privação, não no temor, nos joelhos dobrados e na cabeça baixa frente ao hipoteticamente divino, ou seja : nunca dentro de uma Igreja, de um McDonalds. É o deus-hambúrguer-de-minhoca.
Por preguiça e mais ainda por burrice, que todos empurram para debaixo dos tapetes, que todos disfarçam sob a máscara da "falta de tempo", continuam comprando gato por lebre, minhoca por boi, igreja por deus, e deus por salvação.

domingo, 29 de março de 2015

Sábio Serguei

Certíssimo, o Serguei. Novela cozinha o cerébro mais do que LSD. Lúcido pra caralho, em seus delírios psicodélicos. E cantando os clássicos do rock'n'roll, aos 81 anos.

sábado, 28 de março de 2015

A Origem do Azarão, para "J"

O bom e velho rum é elemento recorrente em meus contos e poemas, como também é recorrente os leitores do blog que não me conhecem pessoalmente perguntarem qual a minha relação com a bebida âmbar, com o maná das antilhas, com o néctar que beija-flor não beija. Qual a relevância, a influência, a inspiração, a medida do rum na vida do Azarão?, querem saber.
Pois, finalmente, a verdade que só os iniciados conhecem será revelada ao grande público. A origem do mito do Azarão será agora descortinada. Sim, o Azarão, como todo alter ego, como toda identidade secreta que se preze, tem uma origem acidental, conturbada e traumática, uma dessas brincadeiras que o Destino apronta para matar o tédio. Eis a gênese do Azarão.

Kal-El, retirante espacial, parido sob o rubro e sanguíneo sol de Krypton, quando exposto ao nosso amarelo, icterícico e anêmico astro-rei, paradoxalmente, tornou-se o Super-Homem, o invulnerável Homem de Aço; Peter Parker, CDF quatro-olhos, bombardeado pelas quelíceras de uma aranha de hiroshima, transformou-se no incrível Homem Aranha, forte, acrobático, o amigo da vizinhança; Robert Bruce Banner, cientista cinzento de porão, no clorofilado e vicejante Hulk se transfigurou ao ter suas células adubadas por raios gama; Steve Rogers, voluntário raquítico a serviço do Tio Sam, inoculado pelo supersoro e posto a fermentar em cultura de levedos de raios vita, cresceu feito massa de pão, reconfigurou-se no embandeirado Capitão América, o primeiro super-herói anabolizado das HQ.
Eu, portador da síndrome da timidez congênita, eremita de mim mesmo, cabação até a medula, entrei de gaiato num navio, num navio pirata, e, clandestino, fui posto a caminhar pela prancha, jogado a um encapelado e revolto mar de rum, a um oceano furioso de cuba libre. Contudo, o que era pra ter sido meu funeral, foi minha fênix; o que era pra ter sido meu esquife, nova placenta. Emergi, ainda que não soubesse à ocasião, transmudado no Azarão : foi só questão de tempo até perceber minhas novas habilidades, aprender a lidar com meus recém-adquiridos poderes e, como com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, usá-los na cruzada mais justa e santa de todas, a conquista de bucetas, campanha de guerra impossível antes do rum. A cuba libre tornou-se a poção mágica do druida Panoramix, e eu, seu mais digno e dedicado Asterix.
Fui batizado e convertido ao rum em 1989, na cidade de Araraquara, durante uma semana de estadia na república de meu primo Leitinho, num evento interdimensional de proporções e desdobramentos cósmicos que ficou conhecido, pelos que dele participaram e sobreviveram, como As Guerras Secretas.
Era mês de junho, foi em uma semana de festividades e folguedos universitários - quando universitário tinha que fazer jus ao título, quando não havia facilitações para o incapaz ingressar nos quadros acadêmicos, Enem, Sisu, ProUni etc, quando se ouvia Ira!, Barão, Doors e Ramones nas festas e não o abjeto sertanejo -, e eu, de saco cheio do trabalho e do próprio curso superior que também cursava, chutei o balde e para lá me dirigi em temporário autoexílio, na boa e canalha companhia dos amigos Marcellão e César.
Então, a semana chegou ao seu ponto culminante - creio que era uma quinta-feira -, era o tão esperado dia da Festa na Bat-caverna, no D.A. da Farmácia. Antes de prosseguir, devo registrar que 1989 foi um ano atípico e memorável, foi o cinquentenário do Batman, o morcegão estava em evidência, Tim Burton lançou Batman, o filme que devolveu o personagem ao rol dos heróis sérios - feito que, nos quadrinhos, Frank Miller havia realizado dois anos antes -, várias foram as minisséries e graphic novels comemorativas lançadas pela editora Abril, 1989 foi o ano chinês do morcego; e foi sob os auspícios do signo do morcego que eu ganhei meu duplo, meu Mr. Hyde, meu totem, o Azarão.
Voltando : foi quando, no pré-aquecimento para a Festa na Bat-caverna - a canalhada toda reunida na república do Leitinho -, alguém apareceu com uma PET de dois litros de Coca-Cola e um litro de rum Montilla, com um sorridente pirata estampado no rótulo.
Até então, eu já com 22 anos de idade, nunca pusera solitária gota de álcool na boca, nem mesmo a rasa taça de Cidra Cereser permitida nas festas de fim de ano da família.
Não me lembro de quem me deu a primeira dose da alquímica e transmutadora mistura, mas gostei e fui entornando como se ali só refrigerante houvesse - desconhecia as vantagens e os reveses da cuba libre, sua benção e sua maldição. Depois de sei lá quantas doses, comecei a sentir o formigamento, o anestesiamento da face e dos membros, uma leveza inédita, uma força sem precedentes a me correr pelas veias. E fui entornando.
Sem anticorpos nem ao menos enzimas contra o álcool, despenquei sem aviso, de um momento para o outro, de uma asséptica estratosfera ao esgoto mais infecto. Em um infinitesimal átimo, do Olimpo ao Hades. Comecei a dar trabalho. A vomitar e vomitar. A golfar feito a menina do Exorcista, a não mais conseguir me manter de pé. E a hora da Festa na Bat-caverna chegando.
Meu amigo Marcellão, o único abstêmio do lugar, levou-me para o chuveiro, vomitei no chão do box, pela boca e nariz, um grão de feijão entalou em minha narina esquerda; ele, estoicamente, limpou tudo, pôs-me sob a supostamente revigorante água fria - não me revigorou em nada.
Decretaram, então, que eu estava imprestável, totalmente incapacitado para a Festa na Bat-caverna (e eu estava mesmo, apesar de me sentir o dono do mundo), decidiram que eu só ia dar trabalho, causar transtornos e, portanto, que eu iria ficar em casa.
Após o banho, jogaram-me em uma das camas da república; eu, desfalecido, só de cueca e a perceber nitidamente o movimento de rotação do planeta, e como girava o filho da puta. Resolveram me deixar para trás, amigo caído em campo de batalha, trancado na república. Lembro deles saindo pela porta da sala, trancando-a e eu incapaz de segui-los, tentando decidir o que era chão e o que era teto.
E só me lembro dos acontecimentos até esse ponto da história. Tudo o que vem a seguir é baseado em relatos de outros, do que me contaram no dia seguinte.
Ocorreu que, não obstante mente e memória estarem tombadas ao poder do rum, o meu corpo, jovem e viril, catapultou-se em arco reflexo da cama, não jogou a toalha no ringue da embriaguez, um pugilista nocauteado em pé que continua a procurar pelo queixo ou pelo fígado do adversário.
Conta meu amigo Marcellão, para quem quiser ouvir, e também para quem não quiser, aliás, conta para todos que tiver oportunidade, que assim que percebi que fora abandonado ao leito, talvez o de minha morte, levantei-me e tentei alcançar meus carcereiros, mas era tarde, a porta já estava trancada e eles todos, fora da casa, à calçada. Conta que eu, então, escancarei a grande janela da sala, que dava para a rua, agarrei-me e subi em suas grades e, só de cueca, comecei a tentar arrancá-las, a chacoalhá-las. E a gritar e esbravejar : - eu quero comer um cu! eu quero comer um cu! eu quero comer um cu!
E continuo querendo até hoje.
O Azarão havia se instalado. Definitivamente.
O resto, é história. São histórias.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Morre Zé Bonitinho, o Perigote das Mulheres

Ele entrava altaneiro, com suas roupas que já eram cafonas no tempo em que se usava o termo cafona, de coloridos berrantes e tecidos laminados, a envergar a indefectível gravata-mariposa, um manequim de brechó, topetão e costeletas brilhantinados, bigodes finos de finório, magro de fazer pena, feio de dar dó, andar de um gingado desengonçado, de ganso manco e bêbado.
Não obstante, caminhava como se a Praça e tudo e todos nela lhe pertencessem, seguro e confiante de seu poder de sedução, feito um besouro que só voa porque não sabe de sua impossibilidade aerodinâmica de voar. E não se fazia de rogado nem de modesto, já abordava e se atracava à mais gostosa do lugar, à mais peituda, e, sem delongas nem prolegômenos, apresentava-se : "Zé Bonitinho, o perigote das mulheres, aquele que não é caminhão de gás, mas a mulherada tá correndo sempre atrás, voz quente e olhar extremamente caliente, bésame, bésame mucho, como si fuera esta noche  la última vez".
A gostosa, claro, repelia, rejeitava e desprezava aquela figura franzina, encurvada e caquética. Ferido em seu brio de garanhão resfolegador, o que Zé Bonitinho não conseguia por bem, obtia por mal. Usava sua suprema arma secreta. Puxava de novo a gostosa para si, abria seu paletó, sacava um enorme mandiocão de seu interior e o exibia para aquela que o desdenhara : "garota, pegue a mandioca do Zé Bonitinho".
E a mágica donjuanesca se fazia. Diante de tão grosso e taludo tubérculo, a gostosa capitulava, afogueada de tesão : "mas que mandiocão, Zé Bonitinho"!!! E começava a agarrar freneticamente seu conquistador. Mais uma vítima havia sido feita pelo perigote das mulheres. Mas para Zé Bonitinho não bastava apenas conquistar sua presa, ele tinha que deixá-la totalmente subjugada e submissa, jogada a seus pés, a implorar por seus beijos. E vinha o arremate, Zé Bonitinho olhava para a câmera e ordenava : "câmeras, close; microfone, please. Agora, garotas do meu Brasil varonil, vou lhes dar um tostão de minha voz, if I had a thousand women, au, au, au, au..."
A voz maviosa de Zé Bonitinho era o golpe de misericórdia, a gostosa pulava em seu pescoço, afogava-o entre os seus peitões e pedia : "me beija, Zé Bonitinho, me beija". Zé Bonitinho, a la Clark Gable, tomava a donzela em seu braços e aproximava seus lábios dos dela, até quase beijá-los, aí, afastava-se bruscamente e largava a gostosa : "negativo, garota, hoje já beijei 999 mulheres, estou de boca mole"
A gostosa insistia : "me fala, Zé Bonitinho, me fala, o que é que eu faço para lhe ter"? "Para ME TER, garota? - dizia Zé Bonitinho - para ME TER, me espere ali na esquina, ao lado da farmácia". A gostosa ia e o eterno dono do banco da Praça, Carlos Alberto de Nóbrega, perguntava : por que ao lado da farmácia, Zé Bonitinho? "É que hoje ela vai ver o que é bom para tosse!!!" E saía vitorioso em seu passo desengonçado.
A cena acima, com pouquissimas variações, repetiu-se milhares de vezes desde a estreia de Zé Bonitinho, personagem criado por Jorge Loredo, no programa Noites Cariocas, transmitido pela extinta TV Tupi, em 1960.
Foram mais de 50 anos de Zé Bonitinho. E a sua atuação imutável, sem novidades, nunca o tornou cansativo, tampouco menos engraçado. Pelo contrário, quanto mais se repetia, mais hilário ficava, o que é próprio dos grandes personagens, dos clássicos. E à medida que a idade avançava sobre Jorge Loredo, mais ela se adequava a Zé Bonitinho, quanto mais velho, mais encurvado, mais feio, mais coerente e sedutor o absurdo Zé Bonitinho se tornava.
As garotas do meu Brasil varonil estão de luto. Jorge Loredo morreu hoje, aos 89 anos, por falência múltipla dos órgãos. Falência de quase todos os órgãos. Menos do seu mandiocão. Que o mandiocão do Zé Bonitinho é imperecível!
E deixou um último desejo : "enterrem meu mandiocão embaixo do banco da Praça".