quarta-feira, 13 de maio de 2015

O Cara dos Olhos de Raios-X (parte 1)

O cara entornou, no gargalo, os últimos três ou quatro goles da garrafa verde-barro de vinho. Balançou-a ao ar , vazia, lenço que se acena do navio partidouro, para o balconista, que a substituiu por outra, cheia, já sem a rolha. Pôs também um copo adjunto. O cara recusou o copo. Deu mais duas ou três talagadas das decentes, e só então achegou-se a mim. Se o cara aguentasse mais 40 minutos sem vomitar, ele teria meu respeito. 
“Lugarzinho desanimado esse, hein?”, numa voz de tristeza tão pastosa que me fez virar para encará-lo. Tristeza tão lamacenta que me fez abandonar o reduto da visão periférica em que me abrigo quando estou nesse bar, quando esses tipos vêm falar comigo. 
Bares daquele tipo atraem esquisitos dos mais sortidos – inclusive a mim – e nunca se deve fazer contato visual direto com um louco, prudente mantê-los sempre em soslaio. Mas a impressão de alguma coisa perdida na voz do cara me comoveu. 
“Éééé....”, eu respondi. Estava num dia de bom humor. 
Um cara bonito, bem-ajambrado, vestido direitinho, como se a mãe o tivesse feito por ele. E acho que era essa boa aparência o discrepante da tristeza em sua voz. O que me fez olhar pro cara. 
“É sempre assim, paradão?” 
“Algumas noites são melhores, outras são piores. O problema é que nunca se sabe de que tipo elas vão ser; até que se acabem.”, eu, tentando não estender muito a conversa. 
Mas sabia que a conversa iria se estender. Fiz contato visual com o cara. Agora era tarde. Agora era problema meu. 
Agora, eu já havia descoberto de que tipo seria aquela noite! 
“Eu nunca tinha vindo num lugar assim, antes.”, e deu mais uma golada capaz de tontear Baco. O cara só tinha aguentado ainda 6 minutos dos quarenta, crédito dado por mim para dar-lhe meu respeito. 
Alguma coisa não estava certa naquele cara. Com uma aparência daquelas, o cara parecia mesmo ter estirpe, o cara deveria era estar onde as coisas acontecem, fazendo o favor de levar alguma mal-amada, balzaquiana ou mais, para a cama, deveria era estar lhe passando seu cacete duro ao fim da noite. 
Porra!!! Era uma noite de sábado, afinal de contas. 
Noite dos caras bonitos praticarem suas boas ações com uma feinha sortuda; noite das mulheres bonitas nunca praticarem suas boas ações com os caras feios sem sorte. 
Mas o cara teimava em estar naquele bar, puxando conversa comigo, entornando vinho, destoando de tudo, da iluminação, da atmosfera, da sonoridade, dos menos agraciados fisicamente. O cara era uma mosca branca naquele depósito de uma ou quase duas dúzias de almas penadas – ou penando – que ali se amontoavam. 
“Parece um lugar de gente meio perdida, né? De gente que, meio assim, sabe?, não tem pra onde ir.”, o cara continuou, um pouco que dando seqüência ao que eu estava pensando. 
“Ninguém tem pra onde ir, amigo.”, e tomei um longo gole da cerveja recém-chegada, geladíssima, para lubrificar a garganta. Tinha resolvido encarar o papo. E segui: 
“Ninguém tem para onde ir. Só que a maioria é tão sortuda que nem se apercebe disso.” 
“É uma teoria interessante.”, disse o cara. 
“Não é uma teoria.”, disse eu. 
Naquele exato momento, eu tinha fodido tudo. Eu e minha boca, eu e minhas teorias. 
Minhas teorias são danadas para atrair esses doidos. Ainda se, vez por outra, seduzissem uma loira peituda... 
“Acho que você tá certo. De qualquer forma, a freqüência normal daqui deve ser bem baixa, mesmo. Foi o que o dono alegou para recusar o emprego que vim pedir.” 
O cara teve coragem de pedir emprego pro Durval. Mesmo que o cara vomitasse naquele instante, 14 minutos dos quarenta de crédito que lhe dei, ainda teria infinito respeito por ele. Por sua loucura. Não houve coragem em seu ato. Não há coragem quando não se sabe o perigo a que está sujeito. Não. Definitivamente, não. A coragem nunca passou por esse bar. Aqui só há a loucura. Bendita seja! 
“Ele me disse”, continuou o cara bonito e triste, “que o movimento não comporta um empregado na função à qual me ofereci.”, e mais uma bela entornada na garrafa. Uns 18 minutos, dos quarenta para que o cara adentrasse meu hall da fama. 
“O Durval disse isso? “não comporta um empregado na sua função”? “ 
“Na verdade, ele disse que não precisava de mais um porra para explorar o que ele ganha aqui.” 
O cara parou e deu mais uma boa duma fungada, reduziu a garrafa a um quarto. 
Fiquei olhando e tentando descobrir que tipo de trabalho o cara poderia exercer ali. Nada me ocorreu. Resolvi nada perguntar. 
Não adiantou, o cara triste e bonito queria – precisava mesmo – falar. 
“Vim me oferecer para a função de segurança. O melhor que qualquer estabelecimento pode ter ou querer.”!
(continua...)

terça-feira, 12 de maio de 2015

O Poeta Sórdido

O poeta é sórdido, tem que ser. Se não incutir o desespero em quem o lê, nem é poeta. A teoria do poeta sórdido, pelo grande Manuel Bandeira.

Nova Poética
Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Saí um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida

O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.

Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.

A Palavra do Artista

"Não me peça que eu lhe faça
Uma canção como se deve
Correta, branca, suave
Muito limpa, muito leve
Sons, palavras, são navalhas
E eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém.."
(Belchior)

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Sopa de Tomate do Azarão

Dezoito graus Celsius agora, na sucursal do inferno que é essa cidade. E a previsão para a madrugada é de 13 graus na mesma referida escala. Um inverno quase que siberiano para os nascidos na capital da cultura, quero dizer, da monocultura, primeiro a do café e agora a da cana.
O negócio, então, é aproveitar esse friozinho de araque para fingir que estamos em melhores plagas, em ares mais europeus. Nada melhor, portanto, que um bom caldo denso e fumegante, uma boa sopa dentro de um pão italiano. Como de costume, já preparei a minha indefectível e lendária Sopa de Tomates do Azarão, cuja receita, que data dos tempos em que não havia brumas em Avalon e que Morgana das Fadas ainda era aprendiz de cozinheira, publiquei aqui há exatos dois anos.
Pois, agora, dado o sucesso da primeira publicação, republico-a, mas antes de tudo, é melhor que eu deixe bem claro o título da postagem : Sopa de Tomates do Azarão significa uma sopa de tomates feita pelo Azarão, e não uma sopa feita com os tomates do Azarão. Ei-la, mais uma poção mágica que uma sopa, controversa e herege : 

"É uma receita de fácil execução, mas difícil, muitas vezes, de ser levada a cabo pela especificidade de seus ingredientes. Não cabem improvisos aqui, na STA (sopa de tomates do Azarão). Não há permissão para a substituição de nenhum de seus constituintes. Ou é a STA, ou não é! Não há meio-termo nem condescendências.
Os tomates não podem ser, em hipótese alguma, o que se convencionou chamar, hoje, de tomate, os tais longa vida, caqui etc - são aguados, anêmicos, amarelos, anabolizados. É obrigatório que seja daquele rasteiro, bem pequeno e vermelhíssimo, mais vermelho que batom de puta, maduríssimo, quase beirando o apodrecimento; ainda é possível achá-los sem grandes dificuldades em hortifrutis honestos.
O manjericão não pode, sob pena de excomunhão, ser desidratado, tem que ser fresco, in natura. Mas não pode ser o manjericão comum, há de ser o manjericão canela. Poucos o conhecem, e nunca vi dele para vender em supermercados e varejões. Ele brota "espontaneamente" ao pé das árvores plantadas nas ruas, nas calçadas das casas, ou é cultivado em jardins de senhoras de vetusta idade, aquelas velhas bem rabugentas; e esse é o melhor.
Um dia antes de fazer a STA, roube o manjericão canela do jardim de umas dessas velhas, e o mantenha com o caule na água para assegurar seu frescor até o dia seguinte. Só serão usadas umas poucas folhas, mas roube um galho de tamanho razoável, justamente para que a velha dê pela falta e passe o resto do dia xingando e rogando pragas no ladrão. As maldições proferidas pela velha intensificarão o odor e o poder de condimentação do manjericão canela.
Um ingrediente essencial - secreto e exclusivo - da STA é o Biotônico Fontoura, famoso elixir dado às crianças para lhes abrir o apetite. Um cálice de Biotônico Fontoura não só aumentará o valor nutritivo da sopa, dará também um caráter mais ferroso, mais sanguíneo.
Porém, não pode ser o biotônico com a formulação atual, da qual retiraram o álcool, tem que ser dos antigos, que talvez você consiga nos estoques empoeirados de velhas boticas, ou, quem sabe, no armário de remédios da mesma velha de quem você surrupiou o manjericão canela.
O parmesão é o queijo a ser salpicado à hora do consumo da STA. Mas tem que ser aquele parmesão de gaveta, bem velho, duro e desidratado. Nem é o parmesão curado; é o morto e mumificado, fossilizado. Aquele que nem fungo prolifera em cima, aquele que quebra pivô de ratazana.
E, agora, o ingrediente supremo : sangue menstrual, exatos 28 ml por litro da STA. Repleto de fragmentos de células rejeitadas e borbulhando de hormônios maternais frustrados, é esse líquido que elevará uma reles sopa de tomate ao extremo expoente da gastronomia, ele realizará a perfeita fusão entre o vegetal e o animal, entre a polpa e a carne.
De resto, é fácil : refogar os tomates em azeite extravirgem (sem ter sido tocado nem pelo espírito santo), batê-los no liquidificador, voltá-los liquefeitos à panela, e, acrescentados o cálice de biotônico e as folhas do manjericão canela, cozinhar mais um pouco, até engrossar a mistura; desligar o fogo e, só então, adicionar o sangue menstrual.
Servir quente (não fumegante), à temperatura da cópula, acompanhado de uma vermelha e terrosa cerveja bock.
As emanações dos hormônios impregnarão a casa, tornará-lhe-ão um ambiente primevo, extremamente reconfortante, acolhedor e prazeroso. Tomar uma lauta pratada da STA é ser reenviado ao  útero, à caverna da qual emergiu nossa espécie".

A Proibição do Poeta

O poeta está no palco, no tablado de madeira sem brilho, rachado e empenado do velho Bar Solfieri. Não tem mais que um palmo de altura, o tablado; não mais que vinte e poucos centímetros elevam o poeta dos reles mortais.
Salvo as mortiças lâmpadas amarelas de 25 W dispostas em cada mesa, nenhuma outra luz ousa se infiltrar no covil e na fala do poeta. Muito menos as cibernéticas, frias, metalizadas, cancerígenas, pestilentas e filhas das putas emanações fotoelétricas dos aparelhos celulares. Nas noites em que o poeta lê no Solfieri, toda e qualquer parafernália eletrônica é recolhida à entrada, deixada em guarda-volumes e só restituída ao dono quando de sua saída. Antes do dono do bar, Solfieri, adotar tal conduta, acontecia amiúde, ao primeiro espocar luminoso ou sonoro de um celular, do poeta levantar-se  e ir embora, com o pagamento adiantado já no bolso de suas puídas calças.
O poeta dá uma boa emborcada na garrafa de vinho sempre posta ao seu dispor, gira a chave na ignição, sente o motor pegar no tranco, bota tudo no piloto automático e começa :

E já que a vida nos limita
E o corpo nos atraiçoa,
Fiquemos ébrios de água mineral
(mas não abramos mão de que seja com gás),
Nos masturbemos em lembrança do vinho
Feito a pelada da revista que nunca comeremos.

Evoquemos,
Em sessão espírita mediúnica,
O espírito de porco do álcool
Feito alma penada de finado ente querido,
Nos contentemos com o seu espectro
A substituir sua impossível presença.

E já que o fígado
Nos é velho ranzinza e preguiçoso
Que só se presta a jogar damas e truco na praça,
Nos sedemos de chazinho de camomila
Convoquemos Morpheus
Para algumas rodadas de Maracugina.

E já que o talento,
Definitivamente,
Nos foi dado em doses muito aquém de nossa pretensão,
Finjamos que somos imprescindíveis e brilhantes
Em nossos fastiosos ganha-pães,
Nos distraiamos e nos contentemos com nossos afazeres domésticos
Com os filmes vencedores do Oscar.

Nos embriaguemos de realidade,
Sejamos felizes com a mesmice
E com a eterna sobriedade...
Oh! Que tristeza!

O poeta encerrra. Dá uma outra boa emborcada. A plateia irrompe em aplausos e ovações. O poeta sabe que as palmas são mais da plateia para si própria do que destinadas a ele. Todos gostam de pensar que aquilo que acabaram de escutar é poesia, e que eles são pessoas diferenciadas, que sabem apreciar tal forma de arte, comoverem-se com ela. Não se apercebem de seu próprio janotismo. O poeta, sim. E tal clareza só aumenta o nojo do poeta por essa farsa toda.
O poeta julga que já escreveu bem um dia, relevantemente; porém, o tempo das relevâncias passa para todos e o poeta sabe que o dele há tempos expirou. O que ele escreve hoje, o poeta sabe, é merda, pura merda, como a que acabou de declamar.
E quanto mais raso, mais oco, mais rés do chão, mais a plateia celebra o poeta. Quanto mais do mesmo ele diz, quanto mais senso comum, quanto mais fala comum, quanto mais vala comum, mais lotam seus saraus, mais vendem seus livros. Pudera, pensa o poeta, as pessoas gostam e compram produtos nos quais se reconhecem. E ter uma manada de paquidermes a julgar que se reconhece nele é inferno para o qual o poeta não tem equivalentes pecados.
Hoje, pela primeira vez, o filho do poeta ajuda a compor a plateia. O filho do poeta sabe do emprego diário do pai, diurno, de sua ocupação formal e burocrática, sabe do trabalho normal do pai, mas nunca entendeu ao certo as atividades extradias, extrapais do pai.
O filho do poeta pouco entendeu o que o pai declamou. Assim como o pai, também não compreendeu o motivo de tantos aplausos e euforias, mas, diferente do pai, ficou fascinado com aquela adoração toda.
O poeta desce do palco e vai até a mesa do filho. Mal se senta e o filho pergunta :
- Pai, o que é isso que você faz?
- O que eles acham que eu faço, filho.
- Tá, e o que é?
- Alguns dizem que seu pai é escritor, outros, mais incultos e idiotas, até que sou poeta.
- Pai, eu também quero ser poeta!
A resposta do poeta veio em arco reflexo :
- Eu te proíbo, filho! Te proíbo de ser poeta!
E, então, o poeta entendeu tudo. Acabara de escrever o tão buscado último e ideal poema : te proíbo de ser poeta! Acabara de lavrar seu definitivo e irretocável verso : te proíbo de ser poeta!
O poeta olha para o filho e sorri. Estica as pernas, coloca os dois pés cruzados na cadeira à sua frente, relaxa, enfim, suas costas de Atlas no espaldar da cadeira.
Te proíbo de ser poeta! - o poeta repete mentalmente, aliviado.
Sua obra acabara de ser concluída.

domingo, 10 de maio de 2015

Pequeno Conto Noturno (51)

- Tava tudo igualzinho, né, Rubens? - pergunta/afirma Janaína.
- Muito parecido - começa Rubens -, e o que faltava ou estava a mais, a memória completou ou suprimiu.
- Lá vem você... tava tudo igualzinho, sim. As velhas mesas de fórmica vermelha quebradas nos cantos, o mesmo balcão de granito embaciado, a mesma fumaça e o cheiro de cigarro, embora há mais de década seja proibido fumar em locais fechados, a banda com os mesmos integrantes e até o velho Péricles no balcão, grosseirão como sempre, e parecem que nem envelheceram, o Péricles deve tá com o quê, uns 60 anos ou mais, né?
- Envelheceram, sim. Assim como nós. Não envelheceram foram as lembranças que temos deles, e de nós mesmos. De novo, Janaína, é a nossa memória a se entorpecer do passado, sua droga predileta, a memória nos cutuca para que busquemos o passado como o cérebro de um viciado o põe em síndrome de abstinência para que ele busque o álcool, a cafeína, a maconha etc.
- Tá dizendo que nossa memória é que molda o mundo ao nosso redor, é isso?
- A partir de uma certa idade, creio que sim. A memória se edifica em nossa confortável e particular caverna de Platão, em nossa esverdeada e asséptica Matrix, onde somos nossos próprios escolhidos.
- Se vai querer continuar com essa bobagem, vai seguir sozinho com ela... parecia mesmo, sabe, Rubens, um daqueles episódios daquele seriado antigo, da década de 60, eu acho, em preto e branco, em que o cara tava, sei lá, dirigindo por uma estrada escura e erma, à noite, e o carro dava defeito, aí ele saía para procurar ajuda, se enveredava por uma passagem no meio do mato e dava numa cidadezinha escondida, mas o que ele descobria logo em seguida é que tinha atravessado uma barreira dimensional ou coisa assim e estava de volta ao passado, ao local de sua infância, sei lá, lembra desse seriado, Rubens, como era mesmo o nome?
- The Twilight Zone, traduzido por aqui como Além da Imaginação.
- Isso mesmo! Além da Imaginação! Não tem nada dessas suas baboseiras de que não temos memória, de quem é a memória que nos têm, não tem merda nenhuma disso, o que aconteceu foi que atravessamos uma dessas barreiras dimensionais hoje, fomos personagens de um episódio do Além da Imaginação.
- Hum, também gosto dessa sua interpretação, mais poética que a minha, sobre a memória, acho que você até merece uma trepadinha extra por causa disso.
- Promete?
- Vamos ver o que esse café consegue fazer por mim...
- Exatamente. O café. E isso aqui agora, Rubens? A mesma padaria aberta às quatro da manhã, o mesmo café ao fim da madrugada. A mesma mesa, no mesmo canto, a mesma visão da rua, da esquina com o velho e barulhento semáforo e sua quase invisível faixa de pedestres. A mesma estufa de vidro com os pães de queijo, a mesma máquina de café expresso, tudo no mesmo lugar, com o mesmo cheiro, o mesmo gosto.
Rubens tira as lentes do pragmatismo dos olhos, olha ao redor e se vê obrigado a concordar com Janaína.
- Parecem os velhos tempos, né, Rubens?
- Sim, parecem...
E como nos velhos tempos, seus dedos se entrelaçam, dançam um improvisado tango sobre a toalha quadriculada da mesa.
- Mas só parecem - conclui/estraga tudo Rubens.
- Sei o que está dizendo... que logo esse episódio de Além da Imaginação vai acabar, não é? Lembro que eles eram curtinhos, coisa de vinte minutos, meia hora. Logo começarão a subir os letreiros com os créditos finais, é isso, não é?
- E a Zona do Crepúsculo se fechará mais uma vez - Rubens terminando o café.
Ele pega as duas xícaras vazias e se levanta
- Mais café?
- E por que não?

Estrela Cadente, por Jota

Jota tem uma maneira de selecionar e relacionar as palavras que utiliza, de concatená-las, de entremeá-las, de cosê-las, muito parecida com a minha. De forma que muito do que Jota escreve, eu gostaria e até poderia ter escrito, e o contrário também se faz verdadeiro, Jota poderia muito bem ter escrito um monte das coisas que eu ponho por aqui. É só uma questão de quem teve a ideia primeiro, de quem primeiro a escreveu, é só uma questão de quem acordou mais cedo e entrou primeiro na fila dos indigentes do sopão de letrinhas de Calíope.
Jota aparece agora com sua terceira contribuição para o Marreta, o poema Estrela Cadente. Estrela caída, queimada, carbonizada, feita em cinza fria. Será que ela se inspirou em mim?

Estrela Cadente

Aqui na Terra 
Eu sou apenas aquela estrela decadente 
Alma vestigial do cometa Sonho morto 
Que se desintegra Galáxia adentro 
Nebulosa distante 
A cintilante anã branca 
Buraco negro insistente 
O enérgico pulsar cósmico 
A fustigada poeira lunar 
Sujeito intergaláctico perdido 
Astronauta perpétuo estrangeiro 
A observar 
O pulverizado de estrelas 
No contexto sideral 
A convenção de constelações 
A teimar forças com a enervante gravidade 
Satélite não correspondido 
No encalço do seu planeta-razão 
A elipse etérea que nunca termina.

sábado, 9 de maio de 2015

Mimetismos (17)

Pãããta que o pariu!!! Esse sim é um verdadeiro galanteador, um Don Juan da natureza, o rei não só do mimetismo como também o da cantada, o do xaveco. O cara tá de olho no cu da Joaninha, e, para consegui-lo, até veste um biquini de bolinhas tão pequenininho.

Rapte-me, Camaleoa

Todo mundo sabe como é, têm vezes, têm dias em que uma música, do nada, sem quê nem porquê, se instala em nossa cabeça e só sai na base do exorcismo. O duro é quando é uma música de merda, dessas que ouvimos, sem perceber, na TV, nos carros de som que empesteiam as ruas, quando passamos pelas portas de lojas de eletrodomésticos etc. A merda vai se instalando sem que a gente perceba e a única maneira que nosso subconsciente arruma de se livrar do lixo é fazer a música rodar exaustivamente no toca-discos de nossa cabeça.
Mas hoje não foi o caso, felizmente. Hoje, do nada, a música Rapte-me, Camaleoa, do Caetano, tomou de assalto minhas circunvoluções. Teve época em que eu ouvi muito o Caetano; hoje, faz um puta tempo que não ponho um disco dele na vitrola, talvez seja o bom baiano a cobrar um pouco de atenção. Vade retro, Caetano!!! E rapte-me, camaleoa, adapte-me a uma cama boa.
Rapte-me, Camaleoa
(Caetano Veloso)
Rapte-me, camaleoa
Adapte-me a uma cama boa
Capte-me uma mensagem à toa
De um quasar pulsando lôa
Interestelar canoa...


Leitos perfeitos
Seus peitos direitos
Me olham assim
Fino menino me inclino
Pro lado do sim...


Rapte-me
Adapte-me
Capte-me
It's up to me
Coração
Ser querer ser
Merecer ser
Um camaleão...


Rapte-me, camaleoa
Adapte-me ao seu
Ne me quitte pas...

sexta-feira, 8 de maio de 2015

RECESSO

Bem-vinda de volta ao meu sangue,
Você que,
Durante tanto tempo,
Circulava apenas em meu pensamento.
Não há ex-fumantes
Ex-bebuns
Ex-amantes.
O que há são ausências
- voluntárias ou não -,
O que há são desistências
- covardes ou prenhes de bravura -,
O que há são reticências
- rastilhos de pólvora que podem se estender por um dia ou pelo resto da vida -,
O que há são abstinências
- do azar e da sorte.
É tal como a Vida
Que não passa de uma abstinência da Morte
Quando esta, farta de penar,
Entra em recesso,
Perde a paciência.

Amigos

"Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais..."
(Oswaldo Montenegro) 

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Classe C

Somos crias malparidas,
Indesejadas.
Natimortos do Hidrogênio,
Fecundos da camisinha furada do Big Bang,
Neto mimados dos buracos negros,
Bisnetos bastardos do carbono e do amoníaco
(e presto aqui as minhas servis e vassalas escusas a ti, augusto Augusto, peregrino dos infernos, ainda que, e talvez por isso, nascido dos Anjos).
Somos tabelas de Mendeleiev
Que ganharam movimento e tridimensionalidade,
Somos laboratórios,
Girinos moleculares que ganharam pernas,
Amontoados de átomos esnobes
Que se convenceram de uma pretensa inteligência.
Somos favelas de átomos pernósticos e afetados
Que se declararam os novos ricos,
Os emergentes da Evolução :
Somos a hedionda Classe C da natureza.
Sintetizamos e propagamos nosso DNA,
Grande bosta.
Trocaria cada minha base nitrogenada
Por um processo de autotorrefação,
Cada espermatozoide por um grão de café,
Por um shot de endógena cafeína.
Trocaria cada pensamento
- resultado de uma cópula físico-química -
Pela erupção cutânea de uma pétala púrpura de papoula,
Cada respiro por uma glândula de morfina,
Por uma incontinência opiácea.
Trocaria cada ideia,
Cada texto,
Cada poema
(Amargos que sempre fermentei),
Por uma touceira
Por um bouquet de flores de lúpulo,
Por um incenso de malte.
Trocaria o tão superestimado polegar oponível
Por belas asas de albatroz.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Paula Toller. Porque Sim.

Feriadão. O Azarão está mais leve hoje. Pudera. Acordei sem ressaca e dei quilogrâmica cagada. Querem dois melhores auspícios para começar o dia? Então, hoje não tem dor de cotovelo nem dor de corno. Hoje, vou de Kid Abelha, de Paulinha Toller. Sempre gostosa de se ouvir. Até daqui a pouco, até nunca mais...
Te Amo Pra Sempre
(Kid Abelha)
Nararararara
Narararara nau
Nararararara
Narararara nau...


Prá conservar o amor
Há que se inventar
Uma forma inédita
De amar...


Se ele não vingar
Há que se tentar
Uma transformação
Uma revolução...


Te amo prá sempre
Te amo demais
Até daqui a pouco
Até nunca mais...(2x)


Nararararara nunca mais
Nararara nau
Nararararara nunca mais
Nararara nau...


Fique bem quietinha então
Que eu já volto já
Não faça nada que eu
Não vá gostar...


Enquanto você pensa
Em me beijar
Eu penso no jantar
Eu olho para o céu
Eu olho para o mar...


Te amo prá sempre
Te amo demais
Até daqui a pouco
Até nunca mais...(2x)


Nararararara nunca mais
Nararara nau
Nararararara nunca mais
Nararara nau...(2x)


Te amo prá sempre
Te amo demais
Até daqui a pouco
Até nunca mais...(2x)


Nararararara nunca mais
Nararara nau
Nararararara nunca mais
Nararara nau...

 Quando ela cai no sofá, so far away. Vinho à beça na cabeça, eu que sei. Por que não eu?

Instantâneos da Alma

I) MINHA INDIRIGÍVEL ALMA ZEPELLIN 
Sei exatamente o que não devo fazer... 
Mas fazê-lo, 
Irreprimível e sem zelo, 
Gaseifica, acopla flutuadores de hélio: 
Faz um bem danado para a minha alma. 

II) ENTENDA-SE 
Você me adora. 
Você não confia em mim. 
Você não tem motivos para nenhuma das duas coisas.  

III) UM CARA CHATO E CINZA 
Primeiro foi-se a vodka, o rum 
(“esses destilados arruínam a gente”, impõe a mulher). 
Nunca mais sangue pirata ebulindo nas veias 
Nem o hálito adstringente de Natasha
Depois foram-se as madrugadas 
(“pouco sono até baixa a resistência”, recomenda a mulher). 
Nunca mais a contemplação do escuro calmo 
Nem os pensamentos extraídos pela força dos buracos negros.
Foram-se, por fim, as raras reuniões com os amigos 
(“blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá”) 
Nunca mais passar da conta, 
Nunca mais passar da hora, 
Nunca mais faxinar a alma. 
E chega lá um belo dia 
- Instintos domados e quereres ausentes – 
Ainda se tem que ouvir da mulher: 
“Que cara chato e cinza você é !” 

IV) QUEM SABE APRENDENDO RUSSO OU MANDARIM 
Como explicar 
(Quem sabe aprendendo russo ou mandarim) 
Que minha alma, sim, é minha, 
Mas que às vezes expectora-se, salta de mim? 
Como explicar 
(Quem sabe búlgaro ou língua sarracena) 
Que minha alma, sim, é terrena, 
Arrasta-se por buracos, tropeça em pedras, 
Mas que às vezes limpa a lama das solas 
E voa-se de mim, voa plena? 
Mais difícil ainda explicar e fazer crer 
(Fazer crer é o pior) 
Que quando voa, minha alma voa só, 
Só por voar. 
Voa sem o propósito de ofender ninguém. 
Mas ofende : 
Pela sua capacidade de voar.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

DÓI

Eu penso, dói
Eu prisão, dói.

Eu piso, dói
Eu paro, dói.

Eu parto, dói
Eu permaneço, dói.

Eu porto, dói
Eu perto, dói.

Eu prometo, dói
Eu perjuro, dói.

Eu penedo, dói
Eu Prometeu, dói.

Eu pranteio, dói
Eu prazenteiro, dói.

Eu petrifico, dói
Eu permeio, dói.

Eu pouco, dói
Eu punhado, dói.

Eu projeto, dói
Eu perambulo, dói.

Eu projétil, dói
Eu preguiça, dói.

Eu pirata, dói
Eu paterno, dói.

Eu prefácio, dói
Eu post mortem, dói.

Desde o parto
Desde que fui posto
Tudo dói.

terça-feira, 28 de abril de 2015

O Último dos Provocadores

Antônio Abajamra era formado em jornalismo e filosofia. 
Foi diretor e ator de teatro e cinema.
Era mal-humorado. 
Pessimista. 
Não tinha nenhuma esperança na humanidade. Nem em si mesmo.
Era crítico e ensaísta.
Entrevistador que não gostava de ser entrevistado.
Um provocador, um dos únicos que a TV brasileira teve em toda a sua história. Abu, como era conhecido no meio, levava as mais inusitadas, bizarras e controversas figuras ao seu programa "Provocações", transmitido pela TV Cultura. E não tinha predileção por nenhum de seus entrevistados, tampouco lhes aliviava a barra ou lhes fazia concessões. Punha a todos em sinucas de bico, acuados, encalacracados por suas perguntas e observações contundentes e demolidoras. Abu tinha estofo e cultura para deixar qualquer um numa puta de uma saia justa. Sim, porque um provocador tem que ter estofo, senão não é um provocador, é apenas um encrenqueiro.
Um gênio, segundo os do meio.
Mas Antônio Abujamra foi muito mais que tudo isso. O ranzinza Abu foi nada mais nada menos que o meu declamador maior. Sim, Abujamra foi o declamador-mor dos poemas do Azarão.
Ao fim de cada "Provocações", depois de encerrar a entrevista e se despedir do convidado da semana, Abujamra fechava o programa com a leitura de um poema. E só tinha autores "ruins". Abujamra lia Manuel Bandeira, Álvaro de Campos, Bertolt Brecht e outros que tais. E não é que em um belo dia, minha esposa chegou para mim e perguntou se eu sabia que o Abujamra tinha lido um poema meu no encerramento de seu programa?
Claro que eu não sabia. Fui lá no site da TV Cultura e dei de cara com Abujamra interpretando o meu "Criador de Gatos", com meu nome aparecendo na forma de legendas ao canto do vídeo e tudo.
Fiquei, é claro, envaidecido, lisonjeado pra caralho. Se eu ainda tivesse algum resquício de ego, ele teria se inflado mais que peito de atriz pornô americana. Fiquei envaidecido, porém, não totalmente satisfeito com o velho Abu. Abujamra não declamou meu poema na íntegra. Cortou-lhe versos e ainda mudou seu final, justamente o final que justificava o título do poema. Não sei se ele fez isso propositalmente, por pura provocação, ou se ele recebeu o poema mal redigido por quem o enviou ao site da TV Cultura; aliás, até hoje não sei como o poema foi parar por lá.
De qualquer forma, fui lido por Abujamra. E isso não é para qualquer um. Pãããããta que o pariu, se não é !!!
Para assistirem ao vídeo do Abu a declamar Azarão, entrem no site da TV Cultura : 
https://www.youtube.com/watch?v=8LpPNjdJh58 
Para lerem o poema na íntegra, entrem aqui mesmo, no Marreta :
Antônio Abujamra faleceu na madrugada de hoje, aos 82 anos, de infarto do miocárdio. Morreu dormindo. 
Dá cá um abraço, velho Abu, que é a única coisa falsa nessa postagem.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Pequeno Conto Noturno (50)

Rubens não gosta da cidade. Menos ainda do campo. Rubens não gosta do apartamento em que mora. Menos ainda de sair dele. Rubens não gosta de onde está. Menos ainda de viajar.
Rubens ouvira, certa vez, que o amor não dura mais que 70 dias, ou 32 cópulas, o que vier primeiro. Antes, a cota de cópulas se cumpria primeiro; hoje, Rubens prefere dar tempo ao sábio tempo.
Com Lola, nenhuma das duas situações limítrofes ainda se deu. Talvez por isso, e só por isso, Rubens tenha concordado com o convite dela para um fim de semana no campo. Um sítio, uma casa de um amigo de um primo de outro amigo etc. Ao pé de uma serra, disse Lola, com muita neblina, agora que é inverno, um bom lugar para tomarmos vinho, até cairmos. Você tem cara de quem gosta de ambientes frios e nebulosos, argumentou Lola.
Rubens tem semblante e humor frios e nebulosos, mas gostar de tais lugares? De se ver rodeado de si mesmo mais que o de costume? Rubens foi convencido mais pela oferta de vinho ilimitado que pela neblina e as belezas orográficas da região. E, claro, pelos pentelhos ruivos e grossos de Lola, que lhe tomam a vulva, a virilha, alastram-se feito grama rasteira pelo períneo - a região da "costura", o famoso campinho, onde se dá o bate-bola - e chegam-lhe ao cu, ao ainda inexplorado, por Rubens, cu.
Rubens e Lola chegaram ao tal sítio em hora próxima ao almoço. Mas não almoçaram. Você tem fome de quê? Nem desfizeram as malas. Lola quis trepar logo de cara. Tirar os possíveis maus eflúvios da casa, fechada há tempos, incensá-la com o cheiro dos dois, disse Lola. E treparam.
E foram para a varanda. E entraram no vinho - um ménage à trois com Baco, mas sem viadagens. E em uns queijos que por lá havia, a curar e a mofar. E música. Chico. Oswaldo Montenegro. Rô Rô. Legião. Cartola. Ney. Engenheiros. Raul. Sérgio Sampaio. Belchior. Adoniran. Dolores Duran. Bethânia.
Rubens recitou, de cor, um poema de Bukowski, o Pássaro Azul, mais para si mesmo que para Lola e para a paisagem, mais para verificar se o seu próprio pássaro azul ainda continuava em si. E ele continuava.
Assistiram ao pôr do sol. Roxo, pelo resíduos em suspensão e pela tão prometida neblina, já incipiente. Roxo, com tons de amarelo, feito hematoma a se descorar, a ser reabsorvido pelo corpo. A noite a reabsorver a alma que cedeu ao dia. A vida, que de tudo se nutre, a reabsorver sangue podre, vampira saprófita.
Treparam de novo. Ali mesmo, na varanda. Às vistas das primeiras estrelas (a estrela d'alva no céu desponta, e a lua anda tonta de tanto esplendor) e dos vaga-lumes mais afoitos. E, para Rubens, já era conta de bom tamanho, já poderia muito bem voltar para casa. Lola, porém, estrategicamente, prometera liberar o cuzinho nessa viagem, mas só no último dia, quando estivessem de partida, o que significava mais um ou dois dias no meio do mato.
Entraram. E mais vinho. A adega do amigo do primo do outro amigo era mesmo boa e farta. E mais queijos. Lola, ainda pelada, ainda com a porra de Rubens a lhe secar nos pentelhos, levantou-se e disse que ia se enrolar em um cobertor e preparar na cozinha um caldo tonificante para os dois, uma receita de sua terra, um tacacá. Rubens não queria caldo restaurador nenhum, queria simplesmente ceder ao cansaço, ao ligeiro ardor no pau esfolado e dormir, hibernar.
Mas, pelo percebido, Lola tinha ainda planos para Rubens, e ela é quem estava no comando. E veio Lola, de peitos de fora, trazendo o tacacá em uma cuia decorada. Um sopão de aroma forte e bom, cheiro de alho, coentro, uns camarõezinhos de água doce, folhas que Lola disse serem de jambu, uma planta com propriedades anestésicas, e uma gosma a tudo recobrir e sobrenadar, uma goma extraída da mandioca. Ficaram um tempo aconchegados no sofá, corpos aquecidos pelos cobertores e pelo tacacá.
Um filme, anunciou Lola uma outra surpresa para a noite. Ninfomaníaca, de Lars von Trier. Uma dessas desculpas intelectuais para quando a mulher quer ver pornografia, um desses subterfúgios "cabeças", de arte, para a mulher não admitir que adora uma boa putaria. Rubens mais bebeu que respondeu aos comentários e às observações lascivas de Lola sobre o filme, mais cochilou que se animou à manipulação de Lola de suas bolas do saco. Era óbvio que Lola queria uma terceira trepada, ali no sofá.
Três no mesmo dia?!?!? Lola estava pensando o quê? - pensou Rubens. Que o pau dele tinha uma prótese? Que a sua próstata era uma dessas fontes luminosas de praças, a jorrar indefinidamente luz e alegria? Rubens enrolou, protelou, encheu mais vezes a taça de Lola que a sua, até que ela adormeceu. Rubens, finalmente, teria sua hora, seu tempo sozinho, a tão necessária hora de esvaziar a lixeira.
Rubens deixa Lola a ressonar no sofá, joga um pesado cobertor às costas, desarrolha uma nova garrafa de vinho e vai se sentar com ela nos degraus da varanda - sem taça, a tomará no gargalo -, de frente para a noite, para a neblina baixa a colocar a montanha em nubentes trajes, para o céu negro, sem Lua, com uma profusão de estrelas impossível de ser vislumbrada, sequer imaginada, em ambientes urbanos.
Parece a Rubens que há mesmo mais estrelas que céu e ele fica a procurar adjetivos que bem qualifiquem tal prodigalidade celeste. Repleto de estrelas? Fraquíssimo. Pleno? Piorou. Abarrotado? Ficou na mesma. Profícuo? Pedante e sem fazer jus ao que vê. Coalhado de estrelas? Já temos algo ligeiramente melhor - pensa Rubens, entornando no gargalo. Coagulado? Não. Talhado de estrelas? Ainda não é o que Rubens procura, mas se decide por ele. Talhado estava de bom tamanho. Toda a imensidão do Universo à sua frente - uma ínfima fração dela, na verdade; mas ainda assim atordoante - e ele a vasculhar as páginas de seu léxico mental à cata de palavras. Talhado estava ótimo, perder mais tempo nisso seria um desperdício.
O escuro no mato é escuro de fato, é denso, é piche e breu, não o escurinho do cinema que é a noite urbana. Rubens leva um tempo para se acostumar a ele, um tempo até se sentir confortável com a imersão abissal, com olhar à sua frente e só ver o escuro, um tempo para domar os ouvidos e acalmar os nervos, para que o menor som sem forma do ambiente - e para quem é do asfalto há milhares de ruídos desconhecidos na noite no campo - não lhe cause sobressaltos, cagaços.
E Rubens passa a se concentrar nas estrelas, tenta olhar para o mais fundo e longe que consegue. Há poucas estrelas mais próximas, se comparadas às mais longínquas. Quanto mais longe olha, mais e menores estrelas enxerga, a ponto de se tornarem nuvens de sóis e Rubens entende a exatidão inequívoca do termo nebulosa. Rubens desfoca sua visão, ou procura diferente foco para ela, como se o céu fosse uma daquelas imagens estereoscópicas para as quais se olha fixamente, com certo foco e determinada distância, e figuras tridimensionais saltam delas. E outra boa talagada no vinho.
Um porrilhão de estrelas - pensa Rubens -, cada uma com um tanto de planetas a orbitá-la. E a porra do ser humano e seu deusinho chinfrim  dizendo que não existe vida em outros planetas. Nunca olham para os céus, esses merdas? O difícil não é crer na existência de vida extraterrestre, o impossível de se crer é que não exista vida em outras esferas.
O escuro primordial, o berçário cósmico à sua frente, uma garrafa de um bom vinho ao seu lado. Às vezes, ele dá sorte, admite Rubens com seus botões. Mais um talagada e fim da garrafa. Mas o escuro ainda está lá, as estrelas ainda estão lá e Rubens ainda está ali. Levanta-se, busca outra garrafa e reassume sua posição nos degraus da varanda.
Rubens escuta, então, uns dez minutos depois de aberta a outra garrafa, ou muito bem poderia ter transcorrido toda uma era geológica, um barulho às suas costas, um trinco de porta sendo destravado. Lola. Possivelmente despertada por algum barulho feito por Rubens durante a incursão e captura da outra garrafa.
- Rubens - diz Lola -, ainda tomando vinho? Não vem deitar, não?
Rubens responde que já está terminando a garrafa e logo se juntará a ela na cama. Sem mais, Lola entra.
Puta que o pariu! - pensa Rubens. Dois universos expostos às vistas de Lola - o Cósmico e o íntimo e pessoal de Rubens - e só o que ela soube dizer foi se ele não ia se deitar? As entranhas de dois universos evisceradas à apreciação dela e a única preocupação de Lola foi se Rubens ainda estava a se embriagar?
Se Lola, pensa Rubens iniciando a nova garrafa, ao invés da quase bronca que lhe dera, tivesse se sentado ao seu lado nos degraus da escada, tomado junto com ele aquela e mais outra garrafa de vinho, ajudado-o em sua procura por adjetivos e em seus devaneios cosmoexistenciais, talvez o tivesse ganho e conquistado por completo - Rubens anda mesmo com pensamentos de aposentadoria.
Se Lola tivesse embarcado com ele em sua Jornada nas Estrelas, audaciosamente indo onde nenhuma outra amante de Rubens jamais esteve, provavelmente o teria ganho em definitivo. Mas Lola nem viu as estrelas, só soube perguntar se ele ainda estava entornando e se não ia se deitar.
Rubens contempla as estrelas por mais um tanto, acaba devagar com a garrafa e se decide por ir dormir. Dois universos se desvinculam. O universo particular de Rubens se despede do das estrelas. Rubens entra e se deita ao lado de Lola, encaixa-se a ela. O universo das estrelas fica lá fora, acordado e imutável, como se Rubens nunca houvesse pensado sobre ele; o universo de Rubens, idem, como se Lola nunca houvesse pisado por seus planetas desabitados.