domingo, 9 de agosto de 2015

À Luz de Velório

Risque o meu nome do teu caderno.
Disque o meu número
E aguarde na linha umbilical ocupada e congestionada
Que cai no PABX do inferno.

Whisky, baby, whisky.
E como estão meu sapato, minha gravata
E meu terno?

Triste, baby, triste
São para o teu enterro.
Para um jantar romântico com teu féretro
À luz de velório.

Meu guarda-chuva.
Deem-me meu grande e hidrofóbico guarda-chuva
Que quero teu funeral de céu choroso de Hollywood.

Deem-me meu covarde e misantrópico para-raios
Que não quero que me vejam chegar
Nem sair
Que não quero watts nem volts 
Nem holofotes de atenção 
Voltados para mim.

Deem-me meu mofado, desbotado,
Confeccionado com penas de corvo,
Paraquedas
Que eu quero saltar das tuas beiras
Dos teu umbrais.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Tequila, Chicas, Tequila!

O Marreta do Azarão, sempre atento e cioso para com seu vasto, cativo e insaciável público femino, e procurando satisfazê-lo da melhor maneira dentro do possível, afinal, ei, mãe, não sou mais menino, traz agora um novo e revolucionário tratamento facial, que promete hidratar e rejuvenescer a delicada tez do sexo frágil : tequila, chicas, tequila! Ay, ay, ay!
Quem garante é Leah Crump, nutricionista, esteticista e diretora do Ocean Pearl Spa, na California (EUA). Segundo ela, uma máscara feita à base de tequila limpa, esfolia, hidrata e promove a redução dos aspectos dos poros, seja lá o que signifique isso.
E não é só o conhecimento a serviço da futilidade que exalta as propriedades da tequila, tampouco seus efeitos terapêuticos restringem-se à pele, ela deixa por fora bela a viola e também trata por dentro do pão bolorento.
Estudos realizados pelo Centro de Investigación y de Estudos Avançados, Biotecnologia e Bioquímica Irapuato, em Guanajuato, México, e apresentados à American Chemistry Society, mostram que os agavins, açúcares extraídos da planta agave, da qual é feita a tequila, têm potencial para se tornarem os melhores substitutos do açúcar comum e grandes aliados dos diabéticos. "Ao contrário da sacarose, da glicose e da frutose, os agavins não são absorvidos pelo organismo, então eles não podem elevar glicose no sangue", conclui Mercedes G. López, pesquisadora à frente do trabalho. Além de não aumentarem a taxa glicêmica per si, os agavins ainda desencadeiam a produção de insulina pelo corpo, auxiliando no controle da glicose ingerida via outros alimentos. Ricos em fibras, causam também a sensação de saciedade, reduzindo o apetite e, consequentemente, o peso. Reduzem ainda o estresse e a ansiedade. Realmente, meia garrafa de tequila e não há estresse que resista.
Confesso que não me surpreendi com as constatações científicas dos benefícios da tequila. Quem lê o blog bem sabe que várias foram as vezes em que eu me antecipei à ciência, que pela simples observação do mundo, minha mente arguta já concluiu muita coisa que o cansativo e enfadonho empirismo científico só veio a confirmar muito depois. Só para citar alguns casos :  
Eu também já sabia dos benefícios da tequila antes de ter lido essa reportagem hoje, mas devo que confessar que, nesse caso, o visionarismo não foi meu, foi de minha amiga Jota; mentes argutas são amigas de mentes argutas. Não é de hoje que Jota louva as miraculosas propriedades da tequila, que prefere consumir na forma de um estranho drink chamado submarino. E Jota não fica apenas no terreno das ideias feito eu, Jota põe as mãos à massa, é uma empírica visceral, tem fôlego de lenhador quando o assunto é ciência, ou, ao menos, quando é tequila.
Podem se fiar na Jota, meninas; e, se quiserem, também nos cientistas mexicanos. Tequila, chicas, tequila. Para ficarem hermosas, com pele viçosa e hidratada, molhadíssimas. Tequila, chicas, tequila! A tequila ainda, embora os estudos não apontem para tais resultados, aumenta também o vigor físico-muscular, melhora as articulações, proporciona sobre-humanas elasticidade e flexibilidade à mulher que entorna umas boas doses : as pernas se abrem fácil, fácil, em angulações nunca dantes imaginadas, os músculos ficam plenamente alongados e aquecidos para a hora da ginástica localizada, e bota localizada nisso.
Tequila, chicas, tequila! E viva Zapata! E as sapatas, também! E viva la revolucion! Arriba, arriba! Ai, mamacita!

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Desomenagem do Google a Adoniran Barbosa

O mundo tá cheio de elogio errado. Têm homenagens que mais prestigiariam o homenageado se não tivessem sido feitas. É o caso da prestada pelo Google aos 105 anos do nascimento de Adoniran Barbosa, nascido João Rubinato, o pai do Trem das Onze, da Saudosa Maloca, do Tiro ao Álvaro, do Samba do Arnesto, da Iracema, da Vila Esperança etc etc etc.
Vejam que merda de doodle o Google confeccionou em seu tributo.
Onde é que essa porra parece com o Adoniran? Nem aqui nem em Jaçanã!
Só o chapéu e ainda com muita boa vontade. Acho que confundiram com o Lamartine Babo.
Pããããããããta que o pariu!!!!!

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Que Fossa, Hein, Meu Chapa, Que Fossa... (31)

Todo mundo conhece a canção Grito de Alerta, um dos clássicos da fossa, aquela do "primeiro você me azucrina, me entorta a cabeça..." Muitos, acredito, até sabem que seu autor é Gonzaguinha, filho do Gonzagão.
Mas duvido que alguém saiba, e aposto uma de minhas bolas do saco nisso, em intenção de quem Gonzaguinha a compôs.
Você, meu amigo, que já embalou a dor de um pé na bunda dado por aquela ingrata ao som de Grito de Alerta, que mesmo a cantarolou baixinho à guisa de canção de ninar e anestésico para seus cotovelo e testa escalavrados, com certeza imagina que Gonzaguinha a tenha composto em situação similar à sua, em lamento a mais uma buceta que se foi.
Pois saiba que a canção que você tanto já ouviu, cantou e com cuja letra tanto se emocionou e se identificou, como se para si ela tivesse sido escrita, não foi inspirada por nenhuma buceta desertora.
Muito pelo contrário. Uma rola, meu amigo, um cacetão foi o que serviu de mote à Grito de Alerta. Gonzaguinha, filho do cabra macho e da peste Gonzagão, um boiola? Nada disso.
A ideia para a música surgiu de uma desilusão amorosa de outrem, confidenciada ao compositor por um amigo, um dos maiores intérpretes da nossa MPB, Agnaldo Timóteo - sim, você pode até torcer o nariz pro repertório do cara, para o seu temperamento explosivo e polêmico, ou para os seus posicionamentos políticos, mas que o cara canta pra caralho, canta.
O personagem que serviu de inspiração para Grito de Alerta foi Paulo César Souza, o Paulinho, frequentador assíduo e badalado da boemia gay carioca das décadas de 70 e 80, habitué da Galeria Alaska e do Posto Três, com quem Timóteo teve intenso e duradouro affair. Gonzaguinha apropriou-se de chifre alheio e compôs sozinho Grito de Alerta, cujo título foi sugerido pelo próprio Timóteo. 
Não sei quais são os aspectos técnicos e legais que configuram uma parceria musical, mas, moralmente falando, na minha opinião, Gonzaguinha deveria ter dado parceria a Timóteo em Grito de Alerta. Não deu.
E pior : não deu a Timóteo nem mesmo exclusividade de gravação de sua própria história, de sua própria dor; gravou-a ele próprio, Gonzaguinha, e também Maria Bethânia, na voz de quem a canção explodiu nas rádios da época.
Foi o que bastou para que Timóteo rodasse a baiana, soltasse seus cachorros para cima do amigo : “Eu fiquei pau da vida com o Gonzaguinha, porque aquela história era minha, eu deveria ter sido até parceiro dele na música. Eu falei: 'Puta que pariu, Gonzaguinha, então eu te conto uma história da minha cama e você dá a música para Bethania gravar!?"
Portanto, meu amigo, em cada uma das vezes que você cantou e se confortou na letra e nos acordes de Grito de Alerta, você estava era a louvar e a se aninhar na rola do Paulinho!
Isso é que é fossa, hein, meu chapa, isso é que é fossa...
Grito de Alerta
(Gonzaguinha)
Primeiro você me azucrina
Me entorta a cabeça
Me bota na boca
Um gosto amargo de fel...

Depois
Vem chorando desculpas
Assim meio pedindo
Querendo ganhar
Um bocado de mel...

Não vê que então eu me rasgo
Engasgo, engulo
Reflito e estendo a mão
E assim nossa vida
É um rio secando
As pedras cortando
E eu vou perguntando:
Até quando?...

São tantas coisinhas miúdas
Roendo, comendo
Arrasando aos poucos
Com o nosso ideal
São frases perdidas num mundo
De gritos e gestos
Num jogo de culpa
Que faz tanto mal...

Não quero a razão
Pois eu sei
O quanto estou errado
E o quanto já fiz destruir
Só sinto no ar o momento
Em que o copo está cheio
E que já não dá mais
Pra engolir...

Veja bem!
Nosso caso
É uma porta entreaberta
E eu busquei
A palavra mais certa
Vê se entende
O meu grito de alerta

Veja bem!
É o amor agitando o meu coração
Há um lado carente
Dizendo que sim
E essa vida dá gente
Gritando que não...(2x)

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Atentado a Bomba ao Instituto Lula : O Riocentro do PT?

Os comunas do nosso Brasil varonil, a malta vermelha que hoje é majoritariamente representada pelos do PT, nunca foram inimigos verdadeiros dos militares, nunca opositores de fato do regime militar.
Vermelhoides e verdes-oliva divergiam, sim, quanto à ideologia que professavam, em seu blá-blá-blá-blá, em sua conversa para boi dormir, mas nunca existiu divergência alguma quanto ao objetivo pretendido por ambos, a tomada antidemocrática do poder, nem divergência quanto à forma de mantê-lo, repressão e truculência.
Vermelhoides e verdes-oliva nunca foram rivais por pretenderem dar diferentes rumos e destinos à nação, eram simplesmente cachorros raivosos brigando desesperadamente pelo mesmo osso, e com igual intenção de o que fazer com ele.
Engana-se quem ainda se deixa levar pela conversa mole dos comunistas de que eles, lá na década de 1960, opunham-se ao regime militar por um país livre e democrático. Porra nenhuma. Os comunas morriam era de inveja do militares, queriam ter exatamente o poder que eles possuíam e que deles emanava. Nunca foi intenção dos comunas depor os militares para aqui instalar uma democracia, uma Suíça tupiniquim; queriam simplesmente substituí-los na tirania, queriam acabar com a ditadura militar para instalar uma ditadura comunista, a chamada ditadura do proletariado, aos moldes de Cuba e China. Nesse aspecto, ter evitado a cubanização do Brasil, agradeço à intervenção militar.
Por isso, repito : os comunistas nunca foram inimigos de fato dos militares, sim inimigos de ocasião. A rivalidade nunca se deu por diferenças de princípios ou de escrúpulos, mas justamente pela coincidência deles.
Inevitável : inimigos que se odeiam, mas que têm objetivos comuns, acabam por, secretamente, desenvolver certa simpatia e admiração pelo outro, acabam por se espelhar no sucesso do outro, por aprender com ele, por absorver suas táticas e estratégias.
Na sexta-feira passada (31/07), um atentado a bomba foi perpetrado contra o Instituto Lula, na cidade de São Paulo. Uma bomba caseira foi jogada de dentro de um carro e deu uma chamuscada na porta da garagem do prédio, sem baixas nem maiores danos estruturais. Como se quem jogou a bomba não quisesse realmente causar reais avarias ao prédio, como se nutrisse até certo apreço e consideração pelo que bombardeou, uma espécie de risco calculado, de um pequeno mal que se torne em um grande bem, como se confiasse que o maior poder de seu traque, de seu estalinho de salão, fosse o sentido político a ele posteriormente atribuído e não o seu real poder de concussão.
 
Avarias causadas pela bomba; à esquerda, vista externa, à direita, vista interna.

A direita, os coxinhas, a elite branca - acusarão aos gritos, às raias de um orgasmo bolchevique, os militantes da esquerda. Aí, eu me pergunto, por que a direita atentaria de forma terrorista contra o PT e sua figura maior, o sapo barbudo Lula?
O ato terrorista, o autêntico, sem querer de forma alguma justificá-lo, é um pouco que o último recurso do fraco frente ao onipotente, muitas vezes sua única forma de resistência - agir nas sombras, à covardia -, e não ação do poderoso.
Politicamente falando, ninguém se mostra atualmente mais fraco e vacilante que o governo petista; e ninguém, mais fortalecidas que as lideranças da direita, PMDB e PSDB. A direita atentar de forma terrorista contra a esquerda? O forte agir pelas costas do fraco? Chutar cachorro (quase) morto?
Impossível não traçar instantâneo e estreito paralelo com o Atentado ao Riocentro.
Em 1981, o regime militar estava mais pra lá do que pra cá, mal das pernas que só ele, em seus estertores finais. Uma ala mais moderada dos militares dera início a um lento, porém, gradual processo de abertura política e redemocratização - acho até que nem eram militares mais moderados, eram mais inteligentes e estavam cansados, apesar de ser uma de suas funções, segurar essa bucha de canhão que é o Brasil; moderados é o cacete, eles estavam é querendo se livrar dessa encrenca, mas enfim...
Então, em 30 de abril de 1981, uma ala mais radical dos militares planejou o atentado a bomba ao Pavilhão do Riocentro, local onde aconteceu um show comemorativo ao Dia do Trabalho. A ideia era jogar duas bombas nos geradores de energia, promover um apagão, acabar com a alegria do proletariado, instalar o pânico, imputar a autoria a grupos terroristas de esquerda e, assim, justificar uma nova onda de repressão aos comunas, barrar o processo de abertura política e revigorar o regime militar.
Uma das bombas até chegou a ser jogada, mas não causou o efeito esperado, deu xabu. A segunda bomba explodiu eficiente e magnificamente, porém, antes da hora, antes de ser lançada. Explodiu dentro do carro em que era transportada pelo sargento Guliherme do Rosário e pelo capitão Wilson Dias Machado. Explodiu no colo do sargento, em cima de suas bolas. O carro, um Puma GT, um dos ícones automobilísticos da década de 70 e 80, foi pro saco, deu perda total; o sargento morreu e o capitão, hoje coronel e educador no Colégio Militar de Brasília, passa muito bem e obrigado.
Os militares tentaram ainda colocar a culpa nos comunas, mas a história não colou e o atentado, ao contrário de fortalecer o regime, só serviu para intensificar sua queda.
Hoje, quem está mais pra lá do que pra cá, mal das pernas pra caralho, em seus esgares finais, é o governo do PT. Será essa bomba chinfrim um simulacro do atentado ao Riocentro para que à direita seja atribuída a culpa e o comuna possa encarnar o papel que melhor representa, o de vítima? Terá um militante de esquerda - a mando de partidos ou em ação solitária e quixotesca - lançado a bomba para mostrar que a direita não dorme nem descansa, que a elite branca está prestes a cravar de novo (isso lá na visão deles) seus dentes na jugular do pobre povo brasileiro, e conclamar a população à necessidade de um novo mandato de Lula? Ou terá sido tão somente um cidadão descontente com o preço da cebola e do álcool combustível? Pode ainda ter sido mesmo a direita a lançar a tal bomba com a intenção de que pensem que foi alguém da esquerda com o objetivo de botar a culpa na direita, mas aí já é conspiração demais para o meu gosto.
Claro que não posso e nem estou a afirmar nada, nem que tenha sido a direita nem que tenha sido a esquerda. Mas que posso desconfiar, fazer conjecturas, isso eu posso.

Oxota : Para Abrir e Cair de Boca

Reza a lenda que os holandeses e os alemães são os maiores especialistas em cerveja do planeta, que suas formulações de água, lúpulo e malte são receitas secretas que remontam o tempo dos alquimistas, imbatíveis, verdadeiros elixires da longa vida.
Mentira! Como toda lenda. Ou, ao menos, um puta dum exagero.
Os russos são quem mais entendem de cerveja no mundo. Vodka? Fazem só para passar o tempo. Vodka? Apenas um produto de exportação para turistas otários. É em cerveja que os russos são os fodões, pelo menos em cerveja de macho.
Eis a Oxota russa, de tons avermelhados, como eu sempre pensei que realmente fosse. Imagine, caro amigo apreciador do produto, uma Oxota toda suadinha, praticamente escorregando por nossas mãos. E a Oxota não é mesmo para viadinhos degustadores de cervejas artesanais : ela tem 8% de graduação alcoólica, praticamente o dobro das aguadas pilsens brasileiras, que ficam em torno de 4%, 4,5%. É para tomar um porre de oxota. Levantar com ressaca de oxota. Acordar com o gosto de oxota na boca. Oxota é para abrir e cair de boca. Deixar correr pelos cantos da boca. Tomar direto no gargalo.

Tá tudo dominado: universidades federais oferecem cursos gratuitos para invasores do MST

Da coluna de Rodrigo Constantino
Não é fácil acordar domingo com uma notícia dessas. Às vezes fico na dúvida se meus leitores gostam mesmo de mim ou se são sádicos. Uma leitora me mandou a seguinte notícia: UFPE vai oferecer cursos de graduação a jovens do campo. Aí você pensa que são cursos para agricultores, para os filhos dos pequenos produtores rurais que dão duro para tocar honestamente seus negócios. Mas não é nada disso! É molezinha com dinheiro público para invasores do MST mesmo:
A UFPE está construindo com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) o projeto pedagógico de cursos de graduação a serem oferecidos pela Universidade a jovens do campo ligados ao MST, com recursos do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), nas áreas de Medicina e Pedagogia, no Centro Acadêmico do Agreste (CAA).
No último dia 23, o reitor Anísio Brasileiro esteve reunido com Jaime Amorim e outras lideranças do MST, na Fazenda Normandia, na Rodovia BR-104, em Caruaru, que hoje é considerada o símbolo da luta pela terra em Pernambuco. Na fazenda, funciona um núcleo de formação de professores para o campo. “Fizemos a visita para dar continuidade à construção do projeto pedagógico de turmas de graduação a serem oferecidas pela UFPE a jovens do campo e também fortalecer nossas relações com os movimentos sociais”, destacou o reitor, acrescentando que há interesse do MST também em turmas do curso do Direito.
Reitor da UFPE e líderes do MST: claro que a toalha tinha que ser vermelha!
“Nosso interesse é ajudar a fortalecer a identidade dos jovens que moram no campo”, disse Anísio Brasileiro, que participou também, no dia 23, em Caruaru, na sede da Fafica, do Seminário de Conclusão do Curso de Aperfeiçoamento em Educação do Campo para Professores (as) de escolas Multisseriadas do Campo, promovido pelo Núcleo de Pesquisa, Extensão e Formação em Educação do Campo (Nupefec), do Centro Acadêmico do Agreste da UFPE. O seminário foi coordenado pela professora Iranete Lima.
O reitor destacou ainda que a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proexc) vai realizar evento, que acontecerá até o final do ano, sobre a cultura e a juventude do campo, bem como projetos na área de agricultura familiar. Há interesse de que a Universidade e o Hospital das Clínicas possam adquirir produtos oriundos destes grupos sociais.
Identidade? Cultura? Repararam nos termos usados? Falar em conhecimento objetivo, em formar médicos de verdade, isso é coisa para quem ainda não viu a luz que foi acendida por Paulo Freire. E a pedagogia? Nada mais adequado: esses jovens invasores serão os professores de amanhã, para produzir invasores em massa, defensores da “reforma agrária” nos moldes do Zimbábue. Tudo pago com o nosso dinheiro!
Não basta a UFRJ, por exemplo, ter um reitor comunista que veste, literalmente, o boné do MST. Não basta o próprio MST ter um programa de “ensino” para os “sem-terrinha” que os deforma na mentalidade marxista desde cedo. É preciso fechar parcerias entre as universidades federais e os criminosos do MST, que levam o terror para o setor agrícola, que defendem um modelo ultrapassado de reforma agrária, que se julgam acima das leis para invadir e pilhar.
Essas pessoas vão ter privilégios em nossas universidades federais. Você nem sabia. Só tem que pagar a conta. E depois louvar Paulo Freire, o “patrono” da “educação” brasileira…
Rodrigo Constantino

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Cada Povo Tem o Visionário que Merece

Do Blog do Beto:
E a porra do povinho acredita. É como diz um grande amigo meu, o Odair : o problema não é o discurso, é o aplauso da plateia.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Casa e Jardim

Em meu caminho a pé para o trabalho, passo por casas cujas fachadas - seus alpendres, varandas, portas e janelas - parecem saídas das capas da revista Casa e Jardim, ou, ao menos, dignas de figurarem nelas.
Coisa bonita mesmo de se ver. Flores de várias espécies, tons e cores, uma paleta de pigmentos vegetais - xantofilas, carotenos, antocianinas etc -, a justa, bem dosada e de bom gosto combinação entre eles, a feliz e arquitetada mescla do amarelo de uma flor com o vermelho da outra, o violeta a dançar um tango com o laranja, e o branco correndo por fora, a fazer fundo e moldura : flores feitas em organizada caixa de lápis de cor.
O apuro e o planejamento dedicados às plantas cabem também aos vasos; igual valor é dado ao conteúdo e ao continente. Vasos de todas as dimensões, formatos e confeccionados nos mais sortidos materiais - barro, cerâmica, porcelana, lata, ferro fundido, xaxim - e até utensílios outros, alienígenas, não projetados originalmente para abrigarem a beleza cativa, para serem gaiolas de flores.
Em uma das casas, a pessoa transformou velhos regadores, velhos bules e chaleiras esmaltados em vasos, e também um esmaltado penico daqueles antigos, adubo é o que não faltará para a felizarda plantinha nele cultivada. Tudo muito bem pintado, restaurado e bem disposto.
Outra, aproveitou - ou reutilizou, como preferem os afrescalhados politicamente corretos - latas de conservas, dessas que vêm com ervilhas, milho, salsicha, pêssegos em calda etc e que são abertas com o bom e velho abridor de latas. As latas foram pintadas em diferentes cores, tiveram suas tampas denteadas mantidas - um toque especial - e violetas passaram a habitá-las. As latas foram amarradas com arame, lado a lado, à grade da grande janela da sala, que dá para a rua, enfileiradas num dégradé do roxo mais intenso ao branco, transitando pelos lilases e pelos rosas, oito latinhas no total.
Outra, ainda, utilizou um estrado de madeira de uma cama de solteiro. Deu-lhe um trato, lixou, envernizou. Colocou-o inclinado, apoiado entre o chão e uma parede de seu alpendre. Construiu um varal de flores - begônias amarelas, gerânios, azaleias e mais uns dois tipos de flores cujos nomes me são desconhecidos.
Na sacada de um apartamento no 2º andar, alguém pegou quatro grossos tubos de PVC, cortou-os longitudinalmente ao meio, passou rústicos barbantes por furos em suas extremidades e os foi dispondo um abaixo do outro, como fossem degraus de uma escada de corda e pendurou o conjunto ao teto. Construiu seu pequeno jardim suspenso - cactos, suculentas e pimenteiras ornamentais.
Passando de manhã em frente a esses íntimos e pessoalíssimos cartões-postais, fico pensando em seus jardineiros, em seu zeladores. Se são tão ciosos de si mesmos quanto o são de seus jardins. Fico pensando se dispensam mesmos esmero e tempo, sei lá, aos seus dentes, às suas unhas encravadas e com micose, às suas caspas e seborreias, aos seus maus hálitos, aos seus corrimentos e a outras enfermidades filhas do desleixo.
Passando pela manhã mal germinada da madrugada, ainda e geralmente de ressaca, em frente a esses paraísos artificiais, a esses édens metódicos e obsessivos, fico pensando nas pessoas por detrás deles : que tipo de loucura as aflige?

Travessuras de Menina Má

terça-feira, 28 de julho de 2015

Dilma Explica o Pronatec

Quando todos pensavam que Dilma Rousseff já havia atingido o seu apogeu de estadista e grande comunicadora, o seu pináculo de oradora e porta-voz dos desejos da nação em seu inesquecível, inspiradíssimo, "coerente" e "muito bem articulado" discurso em louvor à mandioca e a uma bola feita de folhas de bananeira por nativos da Nova Zelândia, ela reaparece em brilho de superior quilate e fulgor.
Desmentindo e dando um tapa com luva de pelica na cara lavada de seus opositores e dos pessimistas de plantão, que julgaram que a seu zênite só poderia sobrevir o seu nadir, ela reaparece em um discurso ainda mais lógico, lúcido, luzente, preciso, coeso e bem formulado que o da mandioca.
Dilma Rousseff mostra que não está acabada, como querem seus detratores. Prova que está no pleno exercício de suas faculdades mentais e de seus poderes e atribuições de chefe de Estado. Mostrando exatamente a que veio, Dilma explica agora o sistema de vagas e metas do Pronatec, O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego, com a palavra, a Presidanta : 
"Não vamos colocar meta. Vamos deixar a meta aberta, mas quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta."
Alguém entendeu picas? O que esperar de um político desse no comando de uma nação, de um povo? Melhor (pior) : o que esperar de uma nação, de um povinho que põe, por duas vezes consecutivas, ou por quatro vezes se contarmos as duas anteriores do Lula, um político como esse no comando de suas vidas e de seus empregos?

Em tempo : independente da clara incompetência de Dilma e do PT como governantes, a ideia do Pronatec é boa, muito boa. Não sei se a sua efetivação é feita no mesmo nível de seu conceito, não sei se a prática coaduna com as sempre belas linhas postas no papel, ou se o programa acaba servindo mais a interesses políticos eleitoreiros, a mais um canal para desvios de verba e outras maracutaias, mas a ideia é boa, sim.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Tesão do Mijo

Ereção matinal (parece nome de corn flakes) é uma resposta fisiológica e involuntária do organismo do macho que produz uma inquebrantável e irremovível paudurescência, e é também conhecida como tesão do mijo.
E antes que pensem que tesão do mijo é aquela tara do cara que se excita quando mijam sobre ele, na prática conhecida por "chuva dourada", já adianto que não é o caso, que não é nada disso.
O tesão do mijo é causado concomitantemente por uma diminuição, durante o sono, da produção do neurotransmissor noraepinefrina - que causa a vasoconstrição dos vasos sanguíneos do pênis durante o dia, evitando que o pau fique em riste em momentos inapropriados - e pela pressão exercida pela bexiga cheia em uma região da medula espinal responsável pelo estímulo sexual. Ou seja, pau relaxado e um cutucão no lugar certo, não dá outra : paudurescência na certa.
O tesão do mijo nos livra amiúde do vexame de nos mijarmos durante o sono, é um mecanismo de defesa que impede que nós homens nos molhemos - e à cama e aos lençóis e à nossa companhia de leito - quando nosso merecido repouso se faz mais profundo, ou quando a preguiça de ir ao banheiro na madrugada se faz imperativa.
Não sei que eclusas, barragens, diques ou comportas o pau duro fecha, mas sei - e os homens que me leem, também - que é virtualmente impossível expelir única gota de urina frente a uma poderosa e latejante ereção. Ereção, esta, que nada tem a ver com a libido, com a testosterona e muito menos com a virilidade do sujeito.
Pelo contrário, o tesão do mijo é o nosso lado feminino, a nossa vertente mais poética, fingidora por natureza. O tesão do mijo proporciona, vez em quando, a chance de nos apossarmos da máxima prerrogativa da mulher na cama : a do fingimento, a de gozar da nossa cara e não na nossa cara, como seria de bons tom e alvitre. "Você diz a verdade e a verdade é o seu dom de iludir... como pode querer que a mulher vá viver sem mentir".
Quantas vezes, meu amigo, você já não acordou com o tesão do mijo e, suportando estoicamente o desconforto da bexiga cheia, aproveitou para fazer uma graça à pessoa ao seu lado? Para demonstrar o quão grande era o seu amor por ela? Quantas vezes a catalisadora flecha cupídica de seu matutino ato de afeto não foi o tesão do mijo?
Aí, pela falta do quê, pus-me a pensar no quanto de nossas outras atividades cotidianas não são também impelidas a tesão do mijo, a simulacro.
Acordo cedo e fácil, às 5 da matina, sem o menor vestígio de sono. Mas não pelo prazer de um novo dia de realizações ou pela sensação do dever cumprido ao seu fim - que balela genial, essa inventada pelos patrões e pelos donos do poder, a do dever cumprido -, tampouco pelo bater no peito de matar meu leão diário - até porque gosto muito do bichinho. Acordo fácil porque meu sono - leve, falho e interrompido -, igualmente à vigília, não me é prazeroso. Se à maioria pareço atento e bem disposto é porque o sono também não me apetece. Puro tesão do mijo.
E o exercício de meu ofício, então? Como se manter comprometido, competente e interessado por um trabalho que não é mais do interesse de ninguém? Todo ímpeto, dedicação e competência que eu possa ainda, nos momentos de descuido, demonstrar são puros atos reflexos, é a perna que bem chuta sob a pancada certeira do martelo do médico no joelho. Tesão do mijo.
Já gostei muito de cozinhar; hoje... como. Tento manter mais ou menos a combinação básica de uma refeição, um carboidrato, uma proteína, fibras, vitaminas e minerais. É isso o que como hoje em dia : a classe nutricional de cada alimento, suas funções bioquímicas, suas moléculas. Como, a exemplos, o amido, não saboreio o arroz, a batata ou a mandioca; como a proteína, tanto faz se vestida de suculento bife, cozido ovo, espinhento peixe ou grelhado peito de frango; ingiro íons e vitaminas, nem me lembro, instantes depois, se foram na forma de folhas, caules, raízes ou sucos. Tesão do mijo.
Livros : ainda, vez ou outra, os tomo de empréstimo na biblioteca municipal; vez ou outra, chego mesmo a lê-los até o final, porém, pergunte-me sobre algum deles na semana seguinte...
Filmes : até curtas-metragens têm me parecido longos e exaustivos.
Música : coloco música durante o tempo todo em que estou sozinho em casa, ou quando tenho que desempenhar enfadonha função doméstica, faxina etc; nas noites em que termino meu dia a beber uma cerveja na sacada, tenho sempre o meu pequeno toca-CD ao lado; às vezes, levo o radinho até para o banho. Mas nem o Raul me anima e inspira mais; nem o Chico mais me arrepia. Tesão do mijo.
Escrever meus rabiscos no meu inseparável caderninho : tesão do mijo; digitá-los e postá-los no blog : cada vez mais tesão do mijo.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Bukowski, Outra Coisa Boa Perdida Para Sempre

"Quando eu estava a uns dois quarteirões da minha casa, vislumbrei uma mulher dentro de um carro tentando fazer com que ele pegasse, tentando tirá-lo da calçada. ela estava tendo os seus problemas. ele dava uns solavancos para a frente, então afogava. ela virava o arranque imediatamente no que eu imaginava ser uma maneira bastante equivocada e cheia de pânico.
era um modelo antigo, fiquei na esquina observando. logo o carro afogou bem perto de mim, bem ali na calçada onde eu me encontrava parado. olhei para dentro. ali estava sentada essa mulher. estava com sapatos de salto alto, meias longas e escuras, blusa, brincos, anel de  casamento e calcinha. sem saia, apenas essa calcinha cor-de-rosa clara. inalei o ar da manhã.
ela tinha essa cara de mulher velha e essas coxas grandes e lisas de menina. o carro deu um pulo para a frente de novo e afogou de novo. caminhei na sua direção e enfiei minha cabeça pela janela:
“madame, é melhor a senhora estacionar essa coisa. a polícia está bastante ativa nessa hora da manhã. a senhora pode se dar mal.”
“tá legal.”
ela o manobrou na calçada, depois desceu. sob a blusa também havia seios jovens de menina. ali ficou ela com sua calcinha cor-de-rosa e longas meias escuras e salto alto às 6:25 da manhã em Los Angeles. uma cara de 55 anos de idade com um corpo de 18.
“você tem certeza que tá tudo bem?”, disse.
“é claro que tá tudo bem”, disse ela.
“você tem realmente certeza?”, perguntei.
“é claro que eu tenho certeza”, disse ela. então ela se virou e saiu caminhando para longe de mim. eu fiquei ali olhando aquelas nádegas sob aquela luminosidade rosa e justa. estava caminhando para longe de mim, pela rua abaixo entre séries de casas, e ninguém por perto, nem polícia, nem humanos, nem mesmo um pássaro. apenas aquelas jovens nádegas cor-de-rosa balouçantes caminhando para longe de mim. eu estava alto demais para gemer; apenas senti a tristeza devoradora e selvagem de uma outra coisa boa perdida para sempre. não havia pronunciado as palavras certas. não havia pronunciado a combinação correta das palavras, não havia nem mesmo tentado. eu merecia uma tábua de passar roupa, portanto, que diabo, apenas alguma louca andando por aí de calcinha cor-de-rosa às 6 horas da manhã."

terça-feira, 21 de julho de 2015

O Captain! My Captain! (2)

Meia Bomba

São os velhos vícios
Feitos em estilo de vida,
Em queridos bichos de estimação
Que ponho a ronronar
E a lhes fazer cafuné
No meu colo
Ao fim da noite.
É o sono protelado
Porque espero da noite
Algo que o dia nunca me dá.
É a última lata de cerveja
Porque a palavra
Hoje ainda não me veio,
Não me desceu em ovulação,
Nem que fosse para  não ser fecundada
Ou expelida natimorta.
É a pressa
Porque sou transitório
E tenho tanto a fazer
E nada a legar.
É a vida
Porque sou mortal
E não quero desperdiçá-la
Simplesmente vivendo.
É a punheta,
Não por vontade
Ou desejo irrefreável
Ou ereção miccional
Mas porque em certos dias
O pau é a única coisa
Que funciona mais ou menos.

domingo, 19 de julho de 2015

Pipas de Pré-Agosto

Pré-agosto,
Pré-cachorro louco,
Mas os ventos secos e prenhes de poeira e fuligem
Já chegaram,
Já picam, aferroam,
Racham e fazem sangrar
Olhos, lábios e narizes.
Que na terra devastada
Só as adversidades se cumprem
Só a desgraça se adianta.

Férias escolares,
Pipas brilhantes e multicolores
Escrevem alfabetos ininteligíveis no quadro-azul dos céus.
Do outro lado da linha 10 de 500 jardas,
A pequena mão do menino descalço,
A pobreza monocromática e em tons pastéis.
Que aspira em alçar voo,
Em se aproximar  mais do azul,
Mas que sabota a si mesma,
Que ceifa os próprios sonhos,
Que corta os próprios pulsos
Com suas linhas de cerol.

Que ao ser humano
Exaspera o belo, o plácido,
O altaneiro, o contemplativo.
Que ao bicho homem
Só satisfaz e aconchega
O bélico, 
Os escombros,
O raso chão.

sábado, 18 de julho de 2015

Viajante dos Dias

Quantas vidas 
Deixamos de viver
Para seguir em frente 
Com o que chamamos de Vida?

Quantas vezes
Morremos a trilhar o caminho
- curto ou longo -
Que nos leva à Morte? 

Quantos cartões de aniversário
Comporão nossos obituários?

Quantos obituários,
Os diários de nossas renascenças,
Sejam por vitórias
Ou desistências?

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Carla Perez, Xandy e o É o Tchan do Caetano (Ou : Cada País Tem o John e a Yoko Que Merece)

Se tenho mesmo real e relativa destreza com as palavras, ou se o que tive ao longo da vida foram tão somente pontuais e felizes momentos ao burilá-las, ou seja, se dei sorte com elas de vez em quando, eu não sei.
Sei - lembro-me - que sempre me saí com notas muito boas em composição, lá no curso primário. Sim, sou velho, meninas e meninos. No meu tempo de calças curtas, era composição, e não redação, que, aliás, hoje, chama-se produção de texto - um nome mais pomposo para uma geração de analfabetos. Sim, sou do tempo que aluno tinha que decorar tabuada, tempos verbais, datas cívicas e seus significados, capitais dos estados, os famigerados afluentes da margem esquerda do Amazonas e fazer composição.
Geralmente, um desenho, uma foto ou gravura eram dados a nós e nos cabia versar sobre. Lembro-me sobretudo de minhas terceira e quarta séries primárias, com a Dona Rute e a Dona Aparecida, respectivamente, muito elogiando minhas composições, meus quase inexistentes erros ortográficos. Inclusive, muitos textos do Marreta nascem assim, a partir de uma imagem, de uma composição.
Uma vez, na quarta série, uma composição minha feita a partir de uma ilustração do livro Reinações de Narizinho, do Monteiro Lobato, causou furor. Dona Aparecida fez cópias dela e passou para as professoras das outras classes, para que elas usassem como exemplo para os alunos mais novos. E eu ainda ganhei um estojo com 12 canetinhas hidrográficas Silvapen da Dona Aparecida, à guisa de troféu. Era uma preciosidade inestimável, o estojo de 12 canetinhas Silvapen; o de 6 canetinhas, até havia quem o tivesse, mas o de 12... Acho que a Dona Aparecida nunca soube que, coincidentemente, eu lera o livro coisa de uma semana antes dela ter nos dado tal encargo, e que isso pode ter influenciado na qualidade da minha redação. Eu, pelo menos, nunca contei pra ninguém.
Vem-me também à memória o seo Valdir, meu professor de português da oitava série do ginasial; hoje, chamado de ensino fundamental. Ele, sério, sisudo e muito comprometido com seu trabalho, foi quem nos iniciou nas redações voltadas para os concursos vestibulares, quem começou a nos treinar em suas principais modalidades, a descrição, a narração e a dissertação. Não tínhamos mais figuras para nos inspirar, o tema vinha na forma de uma frase, um lema, uma manchete de jornal. Mas minha mente, treinada no campo minado do fantasioso, não tava nem aí, misturava alhos com bugalhos, raramente se atinha ao tipo de redação pedido. Em sua mesa, em baixo tom de voz, seo Valdir dizia que gostava muito de algumas de minhas redações, mas que ainda assim era forçado a lhes dar notas baixas, ou eu nunca aprenderia a diferenciar um estilo do outro. Lembro-me de uma redação, feita a partir de uma notícia de jornal, na qual o Seo Valdir me deu duas notas; veio assim escrito no verso da folha : nota do Valdir : "A"; nota do professor Valdir : "E". Racionalizei : ("A"+"E")/2 = "C", eu tava na média, tava bom pra mim, e eu ainda havia escrito a estória que queria - estranha época em que se faziam médias aritméticas de letras.
Vestibular para o curso de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia, tema da redação, Felicidade, minha nota : 9,0. O que me fez começar a pensar que eu tinha um certo jeito para a ficção. Passei no vestibular, frequentei um semestre e abandonei, até hoje nem sei por quê. Meio ano de cursinho pré-vestibular, professor Degrande, um ás do métier, deu-me nota 8,0 em uma redação sobre revoluções e revolucionários; a um canto da sala me falou que poderia ter me dado 10,0, que só não o fizera para que eu não ficasse muito cheio de mim e achasse que não precisava treinar mais o meu texto.
Pois minha memória os evoca, caros, diletos e dedicados mestres. Para um pronunciamento, uma anunciação, e também uma tentativa de escusas : enganei-vos, caros mestres! Sem intenção, inadvertidamente, mas enganei-vos! Sou um embuste. Uma fraude, uma burla. E assumo toda a culpa pelo logro. De alguma forma, obnubilei suas apuradas percepções avaliativas, passei um conto do vigário em suas sólidas bagagens e formações acadêmicas. Mea culpa, caros mestres, mea maxima culpa.
Dona Rute : devolvo-lhe todo o rubro e nutritivo sangue de sua caneta vermelha docente e magistérica, com o qual grafou por tantas vezes a nota 100 sobre minhas ardilosas linhas; Dona Aparecida : se eu ainda as possuísse, as 12 canetinhas Silvapen, as tornaria no santo principal do altar à minha própria vergonha; Seo Valdir : eu não deveria ter me contentado com o "A" do Valdir, e, Valdir, sem desprezar a camaradagem, eu deveria ter ido em busca também do "A" do Seo Valdir; Degrande : vim, vi e não revolucionei porra nenhuma!
O motivo, caros mestres, dessa minha confissão, dessa minha retratação, é uma foto.
Ontem, uma foto publicada nas principais mídias impressas e virtuais do pais me estarreceu! Imediatamente, quis escrever sobre ela, fazer, portanto, uma composição. Até como forma de me livrar de seu fantasma. Transformar o pictórico absurdo e surreal da foto em palavras e linhas mais familiares a mim. Verter pixels em letras. Torná-la em demônio conhecido e exorcizá-la.
Na hora, nada me veio à cabeça. Creditei o "branco" ao impacto, ao atordoo causado pela foto. Fui, então, cuidar um pouco da vida, esperar a poeira baixar, a tempestade amainar um pouco. Comecei a tomar minha cerveja, brinquei um pouco com o filho e a esposa, assisti a alguns enlatados americanos na tv a cabo, diverti-me com A Praça é Nossa. Mas a foto não me abandonava, diferente das ideias para escrever sobre ela.
Filho dormiu, esposa dormiu, as duas gatas dormiram. Era a minha hora. Era agora ou nunca. A hora de mostrar do que verdadeiramente eu era feito. E todas as condições estavam a meu favor. A sacada escura, o tanque bem abastecido de cerveja, o meu inseparável caderninho de anotações e minha caneta bic verde, o céu estrelado da madrugada. Acendi um incenso de baunilha. Sentei-me, respirei fundo, compenetrei-me. E nada! Relaxei, acabei mais uma latinha e abri outra. E nada. E nada. E nada. E nada. Pelas duas horas seguintes. Era impossível!
Eis a foto, caros mestres. Eis o atestado de óbito de meu pretenso talento. Eis a minha Nêmesis.
Carla Perez, Xandy e o é o tchan do Caetano. Isso sem falar no elegante toque da meia preta até quase o joelho.
Mas não me dei por vencido assim tão fácil, caros mestres. Devia essa resistência, essa última batalha a mim mesmo e a vocês. Entornei a última lata e deixei o assunto para o outro dia, hoje. Iludi-me a pensar que os três dias encarrilhados de pouco sono, que meu trem descarrilado rumo à estação de Morpheus, eram os responsáveis pela minha falta de palavras ante o visto.
Cuidei do filho, fomos à feira comer pastel, fiz a feira, o almoço, limpei a casa. E a foto a me assombrar. E as palavras a desertar. E diáspora verbal a se confirmar.
As ideias sempre me surgem na forma de palavras, nunca de imagens. Aliás, pode até ser um pouco de preconceito, eu um pouco que desprezo as imagens - menos as de mulher pelada -, o pictórico. Para mim, a imagem é a linguagem do neanderthal, do homem antes da escrita, do pré-homem, e também a linguagem dos ícones dos computadores, tablets e celulares, a linguagem do analfabeto moderno. Pois - vingança de algum deus grego, talvez da musa Calíope, a quem eu tanto tenho preterido e prevaricado - a única ideia que me surgiu para dizer, comentar sobre e expurgar o é o tchan do Caetano foi uma outra imagem. E perdoem-me por apresentá-la aqui, caros mestres, por tornar essa postagem em um remake daquele seriado antigo, A Galeria do Terror.
Até então, o beatle e a buceta que destruiu os Beatles protagonizavam a foto mais bizarra e de mau gosto do pop mundial. Pois foram ultrapassados, tornados em obsoletos. Destronados por Carla Perez, Xandy e, principalmente, pelo o é o tchan rendido do Caetano. Cada país tem o John e a Yoko que merece!

Em tempo e sem nenhuma sacanagem : artisticamente falando, Caetano Veloso é imensamente superior a John Lennon ou a qualquer outro beatle, ô conjuntinho superestimado. Até hoje não entendo o culto aos tais de Liverpool.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Grandes Feitos, Grandes Inutilidades (Ou : Quando as Estrelas Começarem a Cair, Me Diz, Me Diz, Pra Onde é Que a Gente Vai Fugir?)

Ah, a Ciência! Tão pretensamente sábia e tão patentemente tola. Faz grandes descobertas e, por isso, toma-se também por grande. Ah, a Ciência! E sua ignorância enciclopédica, ilustrada e terminológica. Faz grandes descobertas que mostram o quão diminuta é, e nem se apercebe disso.
Ontem, dois grandes feitos foram anunciados na área da astronomia. Ao meu ver, ao menos do ponto de visto prático, um feito anula o outro, um é o anticlímax do outro. O primeiro é uma loira peitudíssima que nos concede uma boa espanhola e nos deixa em riste; o segundo é aquele filho da puta que nos chega por trás, sem avisar, e nos atola o dedo no cu. Pronto. Já era.
O primeiro. Astrônomos brasileiros, em parceria com o Observatório Europeu Sul, o ESO, instalado no Chile, descobriram um exoplaneta - um planeta fora de nosso sistema solar - com massa semelhante à de Júpiter e que orbita uma estrela que tem características similares às do nosso Sol. Vai daí que pode ser um forte  indício de um sistema solar muito parecido ao nosso, e, logo, com relativas chances de abrigar também um planeta sósia da Terra, a tão buscada e almejada Terra 2, talvez a futura morada da espécie humana, ou de uma parte de nós. A busca pela Terra 2 é o santo graal da astronomia. E não é à toa.
A Expansão Marítima, acontecida durante os séculos XV, XVI e XVII, época em que, inclusive, fomos descobertos, levou o ser humano aos últimos confins do planeta, aos seus limites territoriais, e ele os vêm esgotando e exaurando desde então. Em breve, se não já urgente, uma nova expansão será necessária, sob o risco de, se não havê-la, a espécie humana ser extinta. E quem diz isso nem sou eu. É, entre outros bam bam bans da área, Sthepens Hawking. Querem mais?
Porém, não marítima, a nova expansão, o novo alastramento da praga; que não há mais mares nunca dantes navegados. Espacial, intergaláctica, cósmica, deverão ser as novas franquias da espécie humana. Naves e cruzadores espaciais deverão ser as novas caravelas. Capitães Kirks, os novos Colombos e Cabrais.
Claro que aqui, racionalizando para além do instinto de sobrevivência, cabe a questão : habitar novos planetas para quê? Para saqueá-los e extirpá-los de suas entranhas como já fizemos com o nosso? Viraremos o quê? Nuvens de gafanhotos interplanetários a assolar lavouras alheias? Fiéis discípulos feitos à imagem e semelhança de Galactus?
Voltando meramente à questão da sobrevivência, a melhor notícia sobre o novo planeta : ele fica apenas a 57 anos-luz do nosso. Distância ridiculamente pequena em termos astronômicos, praticamente um bairro contíguo, separado por uma avenida, por um rio ou linha férrea. Segurem por ora essas informações e vamos ao segundo grande feito.
Segundo. A sonda New Horizons, da Nasa, óbvio, chegou muito perto da superfície de Plutão e colheu informações nunca sequer suspeitadas a respeito do ex-planeta, agora planeta-anão. A viagem durou nove anos e meio e percorreu a distância de 5 bilhões de quilômetros, a maior já coberta por um construto humano. Decretar feriado mundial da Humanidade? Explodir salvas de tiros? Shows pirotécnicos em homenagem ao próprio umbigo? Porra nenhuma.
Percebem o anticlímax? Percebem a ciência descobrindo fatos cada vez maiores e se mostrando cada vez mais ínfima e insignificante frente a eles?
Façamos - eu já as fiz - algumas simples operações aritméticas, uma série simples de regras de três.
Um ano-luz  é a distância que a luz percorre no período de um ano terrestre, de 365 dias. A luz, a Speedy González do universo, desloca-se a 300.000 km/s, o que faz com que, ao longo de um de nossos anos, ela percorra aproximadamente 9,5 trilhões de quilômetros - isso é um ano-luz.
Dividindo a distância percorrida pela New Horizon até Plutão, 5 bilhões de quilômetros, pelo valor de um ano-luz, chegaremos ao resultado de que a nova queridinha da Nasa, em nove anos e meio, andou tão somente 0,00053 anos-luz. Efetuando outra regra de três, podemos constatar que essa mesma sonda, a manter a velocidade atual, levaria aproximadamente 18 mil anos para percorrer um único ano-luz.
A possível, porém, pouco provável, Terra 2, inferida a partir da descoberta dos astrônomos brasileiros, está a 57 anos-luz de nós. Percebem agora?
Mesmo que fosse confirmada a existência cabal de uma Terra 2 - exatamente igual à nossa, com água, gás oxigênio, novos e virgens territórios a ser colonizados, novos índios amistosos fascinados por nossos espelhinhos, novos portos seguros -, ela de nada nos valeria. Mais de um milhão de anos seriam gastos entre a partida e a chegada de nossas novas caravelas; isso, se não pegássemos alguma calmaria pelo caminho, ou alguma tormenta de asteroides.
Ah, a Ciência! Fascinante, sim; assim como a espécie humana, em certos aspectos. Ah, a Ciência! Inútil e frustrante, também; assim como a espécie humana, em todos os seus aspectos.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Ladyhawke

Olhos de Farol
(Ney Matogrosso)
Por que só vens de madrugada
E nunca estás por onde eu vou?
Somente em sonhos vi a luz
Da lua cheia
O canto da sereia
No breu da noite eu sei que
Reinas a me refletir
Olhos de farol
Porque tu és a lua e eu sou o sol
Porque só brilhas quando eu durmo
Sou condenado a te perder
Eu só queria ver andar na ventania
Luar do meio-dia
Na minha fantasia, ainda sou teu pierrô
E disfarço mal
A lágrima de amor no carnaval
Eu te vi em sonhos
A boiar no meu jardim
Lua de cetim entre os lençóis
E no céu sem nuvens
Podem as miragens
Se tornar reais e são dois sóis
Eu te vi rainha
Dona de nós
Imitar a voz dos rouxinóis
E no céu em chamas
Podem as miragens
Se tornar reais e são dois sóis.

Ney, por que a gente é assim?

terça-feira, 14 de julho de 2015

Pequeno Conto Noturno (54)

- Sou bem mais velha que você - diz Cinthia a Rubens, dando-lhe, talvez, uma última chance de fuga e desistência, ou, talvez, a querer um pouco de confete de seus velhos carnavais, uma confirmação, sincera ou não, tanto lhe faz, do desejo de Rubens por ela, e não apenas por uma foda qualquer num fim de noite pouco proveitoso.
- Bem mais velha é melhor que mal mais velha - devolve Rubens, laconicamente, deixando Cinthia livre para pensar o que melhor lhe aprazer.
Cinthia sorri. Rubens se sente incomodado com sorrisos. Todos e de qualquer espécie ou natureza : cândidos, ingênuos, irônicos, mal-intencionados, nervosos ou lascivos. Rubens obstrui, eclipsa, cancela o sorriso de Cinthia com sua boca. Cola os lábios ao dela; sem aviso, ainda que aguardado, ansiado. Feito uma sonda de endoscopia, a língua de Rubens vasculha, brinca, faz travessuras, devassa e viola a boca de Cinthia. Sente a protuberância e o túrgido volume sem vida e seco dos lábios dela, injetados de gordura e botox. Tateia e mapeia o relevo liso, porcelânico e de uma uniformidade inexistente na natureza dos dentes de Cinthia, sua terceira dentição.
Todo o viço em Cinthia é falso, todo brilho é cirúrgico, implantado, opaco e emaciado; toda tentativa de juventude é uma caricatura. Mas o desejo de se manter jovem é legítimo, é jovem, inconsequente. E Rubens respeita as boas intenções. O inferno que as puna, depois.
Rubens levanta a blusa de Cinthia e mama as tetas achatadas e espalhadas dela. Com forte sucção, consegue sugá-las, ora uma ora outra, acomodá-las e lhes dar forma, volume e consistência dentro de sua boca. Desce, escorrega a língua feito lesma a deixar mucoso rastro pelo ventre amarrotado e amarfanhado dela e mete a boca em Cinthia.
Cheiro e gosto de casa há muito fechada, de quarto de doente, de abandono. Rubens gosta. Combina com ele. A buceta de Cinthia relaxa, molha-se, não um caudaloso lençol freático, mais uma parede com musgo e infiltração, mas se molha, engole a boca, o queixo e o nariz de Rubens. Tranquilidade de gavetas que conservam em naftalina velhos diários, amores não correspondidos, cartas e cartões-postais. Aconchego, esconderijo e proteção de sótão escuro, úmido : uterino. Banho de imersão em águas tépidas de esquecidos álbuns de fotografias em color sépia e de rústica granulação : acalantos, cantigas de ninar, mingaus de maizena para olhos saturados de pixels, photoshops e altas definições.
Rubens consegue uma ereção daquelas. Das antigas.