domingo, 18 de outubro de 2015

Sinal Vermelho, por Márcio Accioly

"A população brasileira deve estar bem atenta: a corrupção no país não começou agora. Ela vem desde a chegada dos portugueses (1500), que implantaram sistema administrativo que permanece até o momento. O PT é que elevou os níveis de corrupção até os píncaros, consciente e determinado a aparelhar o Estado nacional (como bem se percebe no STF), reunindo somente aqueles que o defenderão nas falcatruas até o fim. Vivemos num Estado criminoso. Os ladrões assumiram o comando
O ex-presidente FHC (PSDB), o mais sábio de todos os sábios, o mais vaidoso, o mais culto (diz falar 145 mil, 768 línguas, uma a menos do que Jô Soares), o mais qualquer coisa, é um ladrão vagabundo que desmontou as estruturas brasileiras e entregou as estatais (que deveriam, sim, ser vendidas, mas não da forma como aconteceu), a preço de banana, enriquecendo a si e às suas quadrilhas.
O PT apenas deu prosseguimento ao roubo, a uma gatunagem sem fim.
FHC, conhecido como Boca de Tuba, comprou a emenda da reeleição, criou os cartões corporativos, instituiu o foro privilegiado (proposta apresentada pelo deputado Bonifácio Andrada, PSDB), praticando atos de roubalheira vergonhosa que hoje diz condenar. Ele colocou seu genro na presidência da Petrobras e tinha uma filha que era funcionária fantasma do Senado (saiu depois de denunciada pela imprensa).
O ex-presidente Lula da Silva, o Lularápio, é que resolveu levar todo o orçamento nacional para si, os seus e todas as suas amantes, além de membros escolhidos de sua família. Ele praticamente colocou na lona todas as nossas estatais que dispunham de recursos financeiros. Descobriu maneira singular de roubar: o dinheiro era desviado através de empreiteiras que passaram a lhe pagar por palestras milionárias ou, simplesmente, depositar sua parte em contas bancárias clandestinas no exterior.
Inexiste na língua portuguesa um adjetivo capaz de qualificar a canalhice de Lularápio, esta pústula moral! O que se sabe é que ele e sua quadrilha acabaram com os recursos financeiros e querem agora aumentar impostos. Nosso dinheiro foi pavimentar estradas em países africanos, abarrotar os bolsos dos mais execráveis ditadores, financiar metrô na Venezuela, porto em Cuba e, principalmente, enriquecer o Lularápio.
O Brasil está à beira de uma desgraça sem limite. Já se pensa em fazer nova eleição, mas não existe liderança que se sobressaia. Entregar o Brasil ao PSDB é o mesmo que entronizar FHC (o mais vaidoso de todos os vaidosos, o homem que nasceu sabendo de tudo e mais alguma coisa, príncipe dos príncipes, calhorda coroado).
A população tem de estar atenta porque vamos mergulhar numa guerra civil (a falta de alimentos e de água, motivada pela mudança climática, colocará o povo nas ruas matando-se por fome e sede). Tivemos a infelicidade de nascer num país rico, mas sem governo.
Um país que não educou seu povo, não se formou como nação e que é dominado pelas televisões. A Rede Globo transformou o Brasil num bordel desmoralizado de quinta ou sexta categoria. São tantos os desacertos que para enumerá-los seria preciso uma vida inteira. O jeito que tem é observar e aguardar o desenrolar dessa ópera de quinta categoria.
Os bandidos estão já há algum tempo tentando desmontar a Operação Lava Jato e retirar qualquer poder, força ou atribuição do juiz federal Sérgio Moro. Sarney, FHC, Nelson Jobim, Lularápio e outras figuras menores e semelhantes estão por trás de tudo. Quanto a Dilma, quem governa o país é Lularápio. Ela é despreparada, imbecil, arrogante e cretina. De uma mulher que vê “um animal oculto atrás de cada criança” e quer ensacar o vento, o que se pode esperar?"

Horário de...

...Verão.
Grande Verão... 

sábado, 17 de outubro de 2015

E o IPVA, Jesus? Valha-me Deus!

Durante os anos de 1998 e 1999, lecionei em uma escola cujo secretário-chefe atendia pelo nome de Jesus. Nome de registro, mesmo, de batismo, batismo que fora realizado, segundo o próprio Jesus, por um padre de nome João Batista. Fato ou factoide - o tal padre João Batista -, ninguém nunca ousou duvidar publicamente na frente de Jesus, pois Jesus, como alguns me alertaram, quando tive que começar a levar meus documentos para ele abrir minha Portaria de serviço, era tido como ranzinza e rabugento.
E Jesus realmente o era, como bem pude constatar em meus primeiros contatos com ele. Mas não lhe desgostei nem lhe tomei mágoa ou pirraça. Antes pelo contrário : identifiquei-me com o velho e sistemático burocrata que cuidava da parte administrativa da escola, que começara sua carreira na época em que secretário era chamado de guarda-livros.
E aproveito para sair em defesa da classe : o ranzinza, o rabugento, ao contrário do que supõem o populacho, a patuleia e a choldra ignóbil, não é um cara mal-humorado, amargo, pessimista e sempre de mal com a vida. Nada disso. O ranzinza é tão somente um sujeito seletivo, que não se dá com qualquer um, que testa se você é digno de sua amizade e confiança. A chatice e a implicância do ranzinza - e isso o ranzinza é, chato e implicante - são provas de resistência que ele lhe coloca, são obstáculos a serem galgados para que se chegue até ele. Se a pessoa não arregar nem amarelar ao longo do teste de sobrevivência, encarar e superar os árduos obstáculos, o ranzinza muda de figura, passa a ser uma pessoa afável e acessível, um amigão.
Fez-me assinar milhares de papéis, reconhecer dezenas de firmas, levar-lhe cópias autenticadas de calhamaços de documentos. E nunca pedidos de uma só tacada. A cada vez que eu entregava uma remessa em seu guichê, outra prova da gincana de Jesus me era passada, com grau crescente de dificuldade. Parecia mesmo que Jesus ficava me pedindo esse, aquele e aqueloutro documentos até que encontrasse um que eu não possuísse. Certidão de nascimento, Tá aqui, seo Jesus, RG, cic, certificado de reservista e título de eleitor, Estão aqui, seo Jesus, Histórico escolar e declaração de conclusão da quarta e oitava série e do terceiro colegial, Estão aqui, seo Jesus, Diploma superior reconhecido pelo MEC, Aqui, seo Jesus, Curso de datilografia, Aqui, seo Jesus, Carteira de vacinação, Aqui, seo Jesus, Carteira de vacinação do cachorro, Mas eu nem tenho cachorro, seo Jesus, Isso não é problema meu.
Foram bem uns 15 dias de escrutínio e de provação, os quais eu levei na boa, com rara paciência e inesperado bom humor. Nunca dirigi a Jesus única palavra atravessada ou de insolência. Por fim, Jesus sorriu-me. Sua Portaria está aberta, disse-me, e sai publicada em dois dias no Diário Oficial.
Eu fora aprovado. Daí em diante, Jesus virou meu camarada. Eu passara em seu teste. Submeti-me aos seus rituais. Respeitei o seu território. Pedi licença para adentrar em seu reino.
Como é de regra com os ranzinzas, Jesus nada tinha de azedume; pelo contrário, era bem-humorado pra caralho. Claro que não aquele humor idiota, engraçadinho e inócuo; o humor do ranzinza é irônico, sacana, sarcástico e sardônico, aquele humor que vai no feridão.
Jesus era espirituosíssimo. Tinha uma Belinona velha, uma Belina II que fora verde-metálica um dia, e no vidro traseiro do carro, Jesus colara um adesivo automotivo muito em moda na época : "Propriedade de Jesus".
Pãããããta que o pariu!!!! E era mesmo! Aquela Belina velha era, incontestavelmente, Propriedade de Jesus. Adquirida, paga e mantida com o trabalho, a faina, o suor, enfim, com a via crucis cotidiana daquele Jesus. Vi o colante por ocasião de uma carona que peguei com Jesus e não pude conter a gargalhada. Jesus gargalhou comigo. Já dentro do carro, confortavelmente instalado no banco do passageiro, não pude deixar de me lembrar de outro adesivo também em voga na época : "Dirigido por mim, guiado por Deus". Mentalmente, elaborei o meu próprio : "Não sei dirigir, mas Jesus pego carona com Jesus".
Talvez inspirado pelos calvários desses Jesuses anônimos, o deputado evangélico Eduardo Cunha (PMDB-RJ), um dos investigados no esquema de propina do Lava Jato, também aderiu aos adesivos "Propriedade de Jesus" em seus carros. Mas Cunha foi além : não só adesivou seus carros, pô-los legalmente em nome do Nazareno.
Cunha registrou seu carro mais caro, um Porsche Cayenne S, de 2013, avaliado em R$ 429.000, em nome de sua empresa, a Jesus.com, cujo objetivo, teoricamente, é fazer propagandas e programas de rádio. O deputado transformou Jesus em uma empresa? Sim, e até aí nenhuma novidade, muitos já fizeram o mesmo antes e continuam e continuarão a fazer depois, a Igreja Católica foi a primeira. E o Porsche (ou a Porsche?) é apenas uma parte da frota de Cunha. O deputado ungido por deus tem ainda um Ford Edge V6 e um Ford Fusion registrados em nome da mesma empresa. Há ainda cinco veículos vinculados a outra empresa e à mulher do deputado, a jornalista Cláudia Cruz. O patrimônio automotivo do deputado, ops, de Jesus, é de R$ 940.000.
Pãããããta que o pariu, Jesus!!!! E o IPVA, meu velho? Quem é que paga o IPVA dos carros de Jesus? Janeirão se aproxima, Jesus. Brabo e famélico por tributos. Só recorrendo ao Pai, Jesus. Eduardo Cunha terceirizou o IPVA. Deus lhe pague, ops, Jesus lhe pague.
E não é só com o IPVA que Jesus sofre por esse Brasilzão afora. Há uns dois ou três anos, viajei pelo chamado Circuito das Águas Paulista, Serra Negra, Lindóia, Águas de Lindóia, Amparo etc. E à entrada de uma dessas cidades, Lindóia se não me trai a memória, uma grande placa numa rotatória : "Essa cidade é do Senhor Jesus". Pããããta que o pariu!!! Com quanto Jesus não "morre" só de IPTU? E nem é só o IPTU, tem o habite-se, o recolhimento do INSS, o cartório de notas, o cartório de registros, os calotes do inquilinato etc. Tá fudido, Jesus!
Só Jesus salva, irmão. E quem é que salva Jesus? Da primeira vez, Jesus veio para redimir a humanidade de seus pecados. Da segunda, pelo visto, virá para saldar suas dívidas, seus tributos em atraso. Jesus voltará, irmão. Voltará? Eu não voltaria. Nem a pau!
Fonte : Paulopes

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Dia do Professor é o Caralho!

Hoje
Limpei o cu do mesmo jeito de sempre.
A merda fedeu como sempre.
Beijo matinal com mau hálito.
Fui ao mercado
E os preços dos produtos continuam a subir
E a qualidade a deteriorar
A cerveja, então,
Nem te conto, meu amigo.
As costas, o pescoço
Os tendões do carpo e do metacarpo
Doeram do mesmo jeito,
Látegos de meus movimentos.
Inda mais que passei o dia a brigar
- E perdi -
Contra os 40 graus de temperatura
E os 12% de umidade do ar.
Inda mais que passei o dia a guerrear e a erguer minhas pontes levadiças
- E fui invadido e saqueado -
Contra o enxame peçonhento vermelho de terra
Dessa terra devastada.
Dormi, é verdade
Mas mal
Escrevi, é verdade
Mas pior ainda.
A cada ano
Gerações de idiotas cada vez mais idiotas
E orgulhosos de serem idiotas
Passam por mim
E me consideram também um idiota.
Dia do Professor?
Enfiem vossas homenagens em vossos cus
Como fazem diariamente
Ao enfiar nos nossos
O desrespeito
O descaso
O desacato
A má remuneração
As péssimas condições de trabalho.
Dia do Professor?
Amanhã
Por acaso
Será diferente?
Dia do Professor?
Dia do Professor é o caralho!

O Viagra Laranja

As mulheres, merecidamente, sobretudo a partir das décadas de 1950-60, começaram a lenta conquista pela igualdade de seus direitos constitucionais, civis, trabalhistas etc. Hoje, estão em pé de equidade com o homem em todos os setores da vida moderna. Disputam, pau a pau com o homem, ocupações, funções e cargos que, há não muito tempo, eram exclusividade dos portadores do cromossomo Y.
Pau a pau, não; isso só se for uma daquelas feministas azedas, de sovacos cabeludos e com grelos de 15 cm de comprimento. Competem buceta a pau - não espanta que elas estejam começando a ganhar a briga - com o homem pelos mesmos direitos e privilégios que ele sempre possuiu, e dos quais usufruiu, estável e soberano, por muito tempo - é verdade também que elas se eximem de alguns dos mesmos deveres, como pagar a conta do bar ou do restaurante, por exemplo, mas que, por cavalheirismo, que é a parte do machismo que agrada e interessa às mulheres, nós relevamos, deixamos passar, fazemos vistas grossas, afinal, elas têm o que a gente quer, e o que é que a gente quer?, a gente quer buceta. Algumas, mais espertas e sagazes, não só disputam buceta a pau com o homem : disputam cu a pau. Aí, é covardia; aí, essa se torna imbatível, se torna a diretora-executiva da empresa, a acionista majoritária.
Houve, no entanto, e isso elas nem comentam, um direito que, por milênios, foi único e exclusivo das mulheres. Um direito que lhes foi inalienável e intransferível desde que o Homo sapiens (e também as mulheres sapiens, como disse Dilma Rousseff) se conhece por gente, há cerca de 70 mil anos, até o ano de 1998 d.C. Direito esse que não lhes foi outorgado pela lei dos homens, mas sim pela Magna e Pétrea Carta da Mãe Natureza. Sim, a Mãe Natureza, de quem a mulher tanto reclama, que é de seu ofício reclamar - reclama de menstruar, da TPM, das estrias e das celulites, da dor do parto, da menopausa -, concedeu um direito, um direito, não, uma dádiva, uma exclusiva dádiva orgânica e fisiológica à mulher, que a faz superior e objeto de inveja para qualquer machão.
A Natureza dotou a mulher : a) da capacidade de orgasmos múltiplos, sequenciais, sem que precise de um período de latência, também conhecido como paumolescência, para seguir em frente com a lida; b) e, principalmente, da capacidade suprema e divina de fingir excitação e prazer se for pega em um daqueles dias ruins, que tanto macho e fêmea podem ter, nos quais não consegue se excitar o suficiente para dar uma boa gozadona.
A Natureza dotou a mulher do elevado dom da dissimulação, da teatralidade sexual - como pode querer que a mulher vá viver sem mentir?, já perguntou há tempos o mano Caetano. Abriu as pernas, deu um cuspidinha, o pau entra fácil. Então, é só revirar os olhinhos, soltar uns palavrões, uns arfares e resfolegares mais profundos, fazer uns movimentos mais bruscos de coxas e de buça, deixar escapar, como quem quer esconder, uns oh, yes, oh, yes, dar-se uma descabelada, cravar as unhas nas costas e na bunda do cara, gritar, gozei, gozei e ir aos poucos parando os movimentos, relaxando a musculatura até a completa lassidão, que o homem, o mais idiota e ludibriável dos seres, acredita piamente. E ainda sai da cama posando de galo, de touro reprodutor, se achando o fodão.
E nós, homens, pobres coitados? Se formos chamados à nossa função de varões num daqueles dias ruins, em que a lua não tá favorável nem a maré, para peixe? Como fingir que estamos de pau duro? O nosso brinquedo é de armar, o de vocês, de abrir. Não tem jeito.
Melhor : não havia! Até 1998, não havia - não foi por acaso que grafei essa data acima. Nesse ano, a ciência dos homens promoveu a verdadeira igualdade entre os sexos. Nesse ano, que deveria figurar na História ao lado dos anos das descobertas do fogo, da roda, da América, da pólvora, da eletricidade, da máquina a vapor, da penicilina, da chegada do homem a Lua etc etc, foi criado o fármaco mais miraculoso de todos os tempos, o santo graal buscado pelos machos desde a antiga Suméria : o citrato de sildenafila, o Viagra, o "azulzinho" para os íntimos. O Viagra trouxe o componente que faltava para a completa igualdade homem/mulher, deu ao homem a capacidade de simular, de também fingir excitação.
Enganam-se redondamente, contudo, os que supõem que o Viagra trouxe de volta a virilidade perdida, que devolveu ao frouxo homem moderno a sua condição de macho primordial. Porra nenhuma. Que macho que é macho continua macho mesmo de pau mole. Enquanto eu tiver língua e dedo, mulher nenhuma me mete medo, disse o poetinha Vinicius de Moraes.
Muito pelo contrário. Da mesma forma que as leis de igualdade entre os gêneros deu o direito à mulher de exercer o seu lado competitivo, o seu lado masculino por assim dizer, o Viagra deu ao homem o direito de usufruir e de ficar em paz com sua fragilidade, de exercer o seu lado feminino por assim dizer, ou seja, fingir no sexo.
Por isso é que as mulheres têm tanto preconceito e reserva contra o pobre do Viagra. Porque, antes dele, era só delas a prerrogativa da dissimulação. Elas se sentiram tolhidas em um direito outrora só delas. Vocês não foram tolhidas em nada, meninas. Apenas fomos nós, os homens, que passamos a também poder lutar com as mesmas armas na eterna e estratégica guerra dos sexos, o WAR das relações conjugais, nós é que também passamos a poder nos valer dos mesmos ardis.
Trabalho em meio majoritariamente feminino, o da docência, e não foram nem uma nem duas : já escutei várias mulheres dizendo que se descobrissem que o marido, namorado, amante etc toma Viagra para bem lhes comer, a casa cairia pro lado do cara, que o sujeito teria que se explicar muito bem.
Que injustiça, adoráveis xavascudas, que injustiça! Aceitamos e apoiamos vocês em tantos embustes e artificialismos - maquiagem, tintura nos cabelos, botox, silicone nos peitos e na bunda, lipoaspiração -, e vocês não são capazes de aceitar um único comprimidinho? Que machismo, adoráveis xavascudas, que machismo!
O que a mulherada não aceita é provar, vez em quando, do seu próprio veneno e sortilégio. É ficar sem saber ao certo se o pau do cara tá duro por causa delas ou por efeito do Viagra. E daí, adoráveis xavascudas, e daí? Não tá duro? Pois então. Deixem de viadagem e aproveitem. Subam, rebolem, cavalguem, metam-no no cu, esfreguem-no por entre as tetas!
E a inveja da mulher pelo homem ter conseguido o que ela sempre teve é tão grande que, há tempos, a indústria farmacêutica, não sei se por pressão de grupos feministas, ou se simplesmente por mais um nicho mercadológico, tem buscado desenvolver o Viagra feminino, o chamado Viagra Rosa. Uma droga para fazer a mulher parecer receptiva e apta ao sexo quando ela não está? Ora, adoráveis xavascudas, vocês sempre foram capazes disso. Nesse sentido, qualquer droga é placebo. É só para, de novo, a mulher se sentir igual aos homens. Machismo, adoráveis xavascudas, machismo! 
Tanto que, até onde eu sei, o tal do Viagra rosa nunca saiu da prancheta para as prateleiras das farmácias. Alguns fármacos já foram testados, mas nenhum logrou êxito. Até agora. E por uma única razão : a procura na cor errada, o rosa. O Viagra feminino não é rosa. Isso também é machismo, adoráveis xavascudas, também é machismo. O Viagra feminino é laranja!
O Viagra feminino é laranja e tem, oh, que surpresa, o formato de um pau, de um vigoroso falo, de um caralho grosso e cabeçudo. O Viagra feminino é um cogumelo alaranjado com uma baita duma chapeleta!
O cogumelo foi oficialmente descoberto pela ciência em 2001, em uma das ilhas do Havaí, mas os relatos dos nativos acerca dos mágicos e orgásticos poderes do fungo basidiomiceto não haviam sido levados muito a sério pelos cientistas. Até agora.
Dois cientistas, John Halliday e Noah Soule, depois de ouvirem por várias vezes estórias que ligavam o cogumelo de cor alaranjada da espécie Dictyophora a orgasmos instantâneos e espontâneos em mulheres, resolveram investigar. Pediram a voluntários de ambos os sexos que cheirassem o cogumelo, com o objetivo de detectar os níveis de atesuamento desencadeado pelo laranjinha. Os homens nada sentiram e chegaram a relatar uma certa repulsa ao odor. Entre as mulheres, o resultado foi outro : metade delas conseguiu gozar loucamente durante a experiência. Só no cheiro, meu amigo, só no cheiro! Esse cogumelo tem poder!
Segundo conclusão dos cientistas, publicada no International Journal of Medicinal Mushrooms, o cogumelo do amor, do prazer e da felicidade feminina "possui substâncias similares a hormônios que têm propriedades de neurotransmissores liberados durante as relações sexuais", ou seja, o cogumelo libera odores similares ao do macho em cópula.
Não tem segredo, mulherada. O negócio é a boa e velha chapeleta em plena ação, os feromônios a mil. É o cheiro do macho, do bicho peludo e suado. É que as mulheres, hoje, estão escravas da merda dessa estética do "limpinho". Depilam tudo, passam perfume em todos os lugares etc. E querem que o homem também as siga nessa bobagem. E ele as segue, torna-se metrossexual, depila perna, peito, suvaco e saco, tira sobrancelhas, faz limpeza de pele, tira cutículas, higieniza até a unha do dedão do pé, ou seja, se livra de todo o seu odor de macho. Resultado : não molha a xavasca da parceira. Sem contar que a rosca também afrouxa.
Aí, não tem como. Aí, é apelar para o "laranjinha", para o cogumelo-ricardão.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Bukowski, Para Jane

To Jane Cooney Baker, died 1-22-62
e então você se foi
me deixando aqui
num quarto com uma cortina rasgada
e o Idílio de Siegfried tocando no radinho vermelho.
e então você se foi tão rápido
quanto quando você veio pra mim, 
e nós tínhamos dito adeus antes,
e quando eu estava limpando seu rosto e lábios
você abriu os maiores olhos que eu já tinha visto
e disse “Eu devia saber
que era você”
você conseguiu ver
mas não por muito tempo
e um homem velho com pernas brancas e finas
na cama ao lado
dizia, “Eu não quero morrer,”
e seu sangue veio de novo
e eu o aparei com as mãos em concha
tudo o que ficou
das noites e dos dias também,
e o homem velho ainda estava vivo
mas você não estava
nós não estamos.
e você foi como você veio,
você me deixou tão rápido
você já tinha me deixado várias vezes antes
quando eu pensava que isso me mataria
mas não
e você sempre voltava.
agora eu desliguei o rádio vermelho
e alguém no apartamento ao lado bate uma porta
a sentença final: eu não vou te encontrar na rua
o telefone não vai tocar, e nenhum movimento vai
me deixar em paz.
não basta que haja várias mortes
e que esta não seja a primeira;
não basta que eu viva mais muitos dias,
talvez até muitos anos.
não basta.
o telefone é como um bicho morto que
não vai falar. E quando falar de novo será
sempre a voz errada agora.
antes eu esperava e você sempre entrava 
porta adentro. agora você vai esperar por mim.

PARA JANE: COM TODO O AMOR QUE EU TINHA,
O QUE NÃO FOI SUFICIENTE:
eu cato a saia,
eu cato o colar preto
brilhante,
essa coisa que um dia se moveu
ao redor da carne,
e eu chamo Deus de mentiroso,
eu digo que qualquer coisa que se movesse
como aquilo
ou soubesse
meu nome
jamais poderia morrer
na verdade vulgar da morte,
e eu cato
o seu vestido
encantador,
todo o encanto dela se foi,
e eu digo
a todos os deuses,
deuses judeus, deuses cristãos,
lascas de coisas que brilham,
ídolos, pílulas, pão,
compreensões, riscos,
sábia renúncia,
ratos já no lucro desses dois que enlouqueceram totalmente
sem uma possibilidade,
sabedoria de beija-flor, possibilidade de beija-flor,
eu me apoio nisso,
eu me apoio em tudo isso
e eu sei:
seu vestido sobre o meu braço:
mas
eles não vão
trazê-la de volta pra mim.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

O Leão da Metro e o Leão Metrossexual (Ou : Esse Leão é Gazela)

O leão da Metro todo mundo conhece. Feroz. Macho pra caralho. Predador. Um comedor nato. O maior passador de rodo. O Zé Mayer das savanas. É aquele que ruge grosso a anunciar o início de mais uma película cinematográfica dos estúdios Metro Goldwyn Mayer.
O leão da Metro todo mundo conhece. E o leão metrossexual? Pããããããta que o pariu!!!! Sim, ele existe. Reside no Zoo Ústí nad Labem (República Tcheca) e responde pelo originalíssimo nome de Leon. Mas tá mais para Leona. Tá mais para gazela. Tão enviadando até o rei das selvas.
Não é pelo porte magnânimo e altivo que Leon chama a atenção dos visitantes, muito menos pelo viril rugido. Leon tornou-se a maior celebridade do zoo por causa de sua juba. Uma juba volumosa, revolta, desgrenhada, tempestuosa, encapelada e bravia, feito a barba do Azarão, certo? Porra nenhuma.
Leon tem madeixas sedosas e escovadas. Dignas das divas dos comerciais de xampu.
A direção do zoo garante que a juba de Leon é 100% natural, sem qualquer intervenção humana. Duvido. Essa juba politicamente correta deve ser obra de algum tratador Tcheco transtcheco. Para desmoralizar o leão, para levá-lo para a irmandade.
Perguntado sobre, Caetano Veloso disse que achou lindo, que gosta muito de ver o Leonzinho caminhando sob o sol, tua pele, tua luz, tua juba; mas desconfia que ele esteja mais para uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel. Ou não.
Esse leão é bichano, ops, bichana, xaninha! Ou, como possivelmente diria meu amigo Jotabê, esse Leon é o Drag King da Selva.

As Garrafas de Náufrago de Yrina

Yrina, em sua ilha, vivia do artesanato e do comércio barato de garrafas de náufrago. Confeccionava-as às mancheias. Embora sem pedidos formais de encomenda, Yrina as despachava pelo incerto e aleatório, porém, confiável, SEDEX do mar. Crédula na honestidade das pessoas que as recebessem, segura de que lhe retribuíssem, se não em espécie, ao menos em víveres, tão escassos e trabalhosos em sua ilha.
Nunca recebeu um centavo por suas garrafas de náufrago. Decepcionou-se. Enganara-se, desde o começo. Não quanto à desonestidade das pessoas - motivo ao qual atribuía o calote dos que recebiam parte de sua alma arrolhada -, que essa é patente e irrevogável no ser humano. Enganara-se quanto ao interesse, quanto à demanda por seu produto - poderíamos dizer até, por sua arte. Sim, as garrafas de Yrina eram feitas com os mesmos apuro e esmero - se não maiores - que aquelas garrafas que se preenchem com paisagens praianas em colorida areia monazítica.
Quem, livre, se interessa por gênios aprisionados em garrafas de rota incerta? Quem se interessa por garrafas de náufrago? Outros náufrago, talvez? Se muito. E com o que ele retribuiria a garrafa de Yrina? Com outra garrafa de náufrago? Alguma vez, Yrina recebera em sua praia uma delas?
Como todo artista incompreendido, Yrina resolveu deixar temporariamente de lado o seu ofício de artesã, tinha de cuidar da vida. Com artes de castor, represou um pequeno regato, modelou sua moringa de água potável e fresca; trançou, hábil aranha, sua morada de folhas de coqueiro; cultivou, Ceres caiçara, seu pomar de bananas, mamões, goiabas, laranjas, a sua fruta-pão de cada dia; sulcou, construtora romana de aquedutos, um canal lacrimal do mar até um pequeno poço que cavara, construiu seu viveiro de peixes e mariscos; Dr. Moreau de saias, tratou de povoar sua ilha, não com melões de nome Wilson, que seria idiota, retardado, escroto : hollywoodiano demais. Mas sim dando vida ao seu baralho de cartas, todos os naipes a lhe servir de criados e o Curinga, de companhia para o café.
Mas, esperançosa, guardara uma última garrafa de náufrago - a sua obra-prima, "A" garrafa; com pungente mensagem a envelhecer e a depurar -, para o dia propício de lançá-la ao mar, quando, por fim, descobrisse o endereço e o CEP do acaso.
Porém, ou alguma vaga vagabunda lambera a garrafa de seu esconderijo, ou alguma gaivota rapinante de sonhos a levara para dar de comer aos seus filhotes, ou o Curinga a tinha esvaziado, embriagado-se de seu conteúdo púrpura e a enterrado fundo, para manter Yrina só para si.
Há dias, Yrina procura pela garrafa. Realizou varredura de tomógrafo na ilha : quebrou sua moringa de água potável, implodiu sua cabana, erradicou seu pomar, esvaziou seu pesque-pague, torturou para obter confissão e matou cada um dos habitantes de seu baralho.
Nada. Nada de sua última garrafa de náufrago. Nem mesmo uma última garrafa de whisky. Ou de rum. 
Agora : reconstruir a ilha.
"Mesmo que eu mande em garrafas mensagens por todo o mar
Meu coração tropical partirá esse gelo e irá
Como as garrafas de náufrago e as rosas partindo o ar"

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Computador Educador é a Puta Que o Pariu!

Mais uma da série : o Azarão sempre soube e a Ciência só agora começa a desconfiar. Mais uma vez - inúmeros são os exemplos cabais aqui apresentados -, o Azarão se antecipou à Ciência dos homens, chegou anos-luz à frente de suas morosas e óbvias ululantes descobertas e conclusões.
Sempre marretei o uso dos computadores, tablets, celulares e outras traquitanas eletrônicas como ferramentas na educação, como se fossem artefatos mágicos de aprendizado - seja de crianças, jovens ou burros velhos -, como se fossem fomentadores milagrosos do conhecimento, como se pudessem, quase que por geração espontânea, produzir safras de melhores aprendizes e cérebros.
E sempre marretei o uso deles na educação por um simples e único motivo : não funciona!
Os computadores - leia-se internet - são muito úteis, sem dúvida. Para algumas coisas. Entre outras, são fontes inesgotáveis e inexauríveis de informação. Informação. O que é muito diferente de conhecimento. Informação. O que é muitíssimo distante do que é aprendizado.
A informação é volátil, de viés utilitarista, para uso imediato, descartável, não sedimenta, é bem como os dados da RAM do computador : desligou, deletou. Muito oportuno, aliás, que os dados da internet fiquem armazenados na "nuvem", algo etéreo, facilmente dissipável. Aprendizado e conhecimento são duradouros, entalhados a duras penas em monólitos graníticos.
Reitero : computadores em nada contribuem para o real aprendizado; antes pelo contrário, prejudica-o. Distraem e desviam o educando do autêntico conhecimento, dão-lhe uma falsa sensação de saber. Ajudam no aprendizado é o cacete! 
A simples exemplo, o que alguém pode fazer se estiver unicamente de posse de um livro de matemática? Estudar matemática, ora porra! E se estiver à frente de um computador? Milhares de coisas, inclusive, se sobrar um tempinho e sua memória RAM se lembrar, estudar matemática. O computador tira o foco, a disciplina. Aprendizado sem foco e disciplina? Perguntem aos chineses se isso é possível.
Além disso, ainda que o sujeito, espartanamente, consiga resistir a todas as tentações do mundo virtual e se concentrar exclusivamente no tema em questão, ainda assim, o seu rendimento ficará muito abaixo do que se tivesse estudado o mesmo assunto através do bom e velho livro de papel. 
Há muito tempo é notório e patente que as emissões saídas das telas de LCD de televisores e de monitores de computador, ainda que de menor intensidade que as dos velhos tubos catódicos, colocam o cérebro humano, depois de uns 20 a 30 minutos de exposição a elas, em um estado de semiletargia, em uma modorra, em um estado de pré-sono, o que, obviamente, reduz drasticamente a capacidade de entendimento e absorção do conteúdo estudado. Olhe para a cara de um idiota ao celular, a verificar o facebook; isso, é claro, se você conseguir desgrudar os olhos do seu e olhar para o sujeito. Ele não parece hipnotizado? Pois, de fato, está. Nunca se perguntou por que ver TV muitas vezes lhe dá sono? Nunca lhe ocorreu por que os canais educativos de TV nunca lograram êxito? Simples. A TV também é muito útil, sem dúvida. Para algumas coisas. Para outras, não. É tão somente um eletrodoméstico, com usos e funções definidos. Assim como o computador. E nenhum deles é propício à concentração e à disciplina, logo, não só inúteis, mas atravancadores do aprendizado.
E o principal nessa lenga-lenga toda : não há novas maneiras de aprender. Não há novidades no mundo da cognição humana.
Há 70 mil anos que o gênero Homo tornou-se sapiens sapiens, e, desde então, em nada mudaram nem a estrutura física de nossos cérebros nem os seus processos cognitivos. Temos exatamente a mesma malha viária para o aprendizado que o primeiro sapiens sapiens, com todas as suas mesmas rotas, sentidos, direções, conversões permitidas ou proibidas, obstáculos, atalhos, buracos na pista, acostamentos, pedágios, derrapagens, capotagens e colisões.
Mesma estrutura e mesmo funcionamento há 70 mil anos, ou seja, não há, como querem, por pura preguiça e displicência, os peidagogos e congêneres, novas maneiras de aprender. 
A tecnologia não produz conhecimento, menos ainda cérebros mais brilhantes : ela é o produto de cérebros brilhantes e de gerações e mais gerações de conhecimento acumulado. Ela é a criatura, não o criador. Feito Deus. Coincidência ambos serem idolatrados? Claro que não. Pais orgulhosos adoram lamber suas crias.
Só há uma maneira de aprender : bunda grudada no assento da cadeira, olhos pregados nas páginas dos livros e lápis ou caneta a empelotar as mãos de calos. Aprender é atividade monástica, quase escrava, bem ao regime dos antigos remadores das galés. Aprender com o lúdico? Balela. Pura balela. Se algum professor lhes disse, alguma vez ou várias vezes, que se aprende brincando foi porque, tenham certeza, ele é quem estava muito afim de brincar, ao invés de pegar firme no giz.
E não é que, há uns 15 ou 20 dias, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) publicou o resultado de um estudo que corrobora tudo o que o Azarão sempre apregoou?
O estudo da OCDE aponta que o investimento em tecnologia não melhora os resultados em sala de aula. Em muitos casos, estudantes que passam muito tempo usando computadores acabam tendo um pior desempenho.
A pesquisa analisou o impacto da tecnologia no aprendizado de alunos de colégios de vários países de todos os continentes e verificou que, apesar de 75% do alunado utilizar computadores em sala de aula, não houve ganho significativo na aprendizagem deles.
Pelo contrário, se comparados a alunos que pouco se utilizam dos computadores em sala de aula, os "conectados" perdem feio. 
Alunos de países ocidentais passam mais tempo utilizando tecnologia em sala de aula : 58 minutos por dia na Austrália, 42 na Grécia e 39 na Suécia. Já na Ásia, onde a tecnologia é uma parte integrante da vida fora das escolas, mas relativamente ausente durante o ensino, estão as instituições de ensino onde foi verificado o melhor desempenho. 
"Alunos que utilizam computadores com mais frequência na escola se saem muito pior na maior parte das avaliações de aprendizado", afirmou o diretor de educação da OECD, Andreas Schleicher, classificando o impacto da tecnologia nas salas de aula como "irregular, na melhor das hipóteses".
Mais : sistemas educacionais que investiram pesado em tecnologia de informática não registraram "nenhuma melhora perceptível" nas matérias de interpretação de texto, matemática e ciências, disse ainda Schleicher.
Ah! Só nessas matérias? Só em interpretação de texto, matemática e ciências? E o que mais há? Pãããta que o pariu!!!!
O relatório da OECD, talvez para ser politicamente correto, ou talvez com medo de represálias dos grandes conglomerados da área, de alguma Apple, IBM ou Microsoft da vida, conclui tucanamente : "As reais contribuições que as tecnologias de informação e comunicação podem ter no ensino e na aprendizagem ainda têm de ser compreendidas e exploradas". Compreendidas e exploradas é o cacete! Têm é que ser banidas das salas de aula. E as reais "contribuições" são as que vemos, nós que estamos em sala de aula, se agravando a cada ano, a cada dia, e que a pesquisa também revela : alunos incapazes de interpretar textos, de estabelecer correlações entre um assunto e outro, de traçar parâmetros, de fazer simples reconhecimentos e comparações.
Computador educador é puta que o pariu!!!
Estará, a moça, a desvendar a existência ou não dos buracos negros? Ou, quiçá, a escrever um novo Dom Quixote, ou um atual Os Lusíadas?

sábado, 3 de outubro de 2015

Hoje, Eu Vou de Germânia 55

Saboreara-a uma única vez, e gostei pra caralho. Depois, nunca mais a vira pelos corredores e prateleiras dos supermercados. Até hoje. Não vou dizer em qual mercado, que eu não estou aqui pra fazer propaganda de graça de ninguém. 
Ela : a receita número 55 da cerveja Germânia, obra-prima de um alquimista alemão conhecido apenas como "Der Alchimist". Enquanto os outros alquimistas se dedicavam à viadagem de transformar chumbo em ouro, a descobrir a pedra filosofal e o elixir da longa vida, que garantiria a imortalidade ao ser humano, Der Alchimist viu que a vida era mesmo curta e se dedicou a aprimorar os prazeres breves e fugazes, empenhou-se em transformar o malte, o lúpulo e a cevada em ouro puro, a refinar o elixir da boa vida, o veneno antimonotonia nosso de cada dia. Em suas anotações herméticas, nas poucas páginas que restaram de seus formulários, Der Alchimist destaca a receita de nº 55 como a mais especial de todas, como a quintessência de sua busca secular.
Der Alchismist resolveu bem aproveitar a curta vida concedida a nós, humanos. Ao invés de ficar lá, enfurnado em sombrios porões de pedra, às voltas com cadinhos, retortas, fornos, mercúrio e enxofre, transmutou um grão dos mais sem graças em verdadeiro ouro líquido. Não será o dourado da cerveja o ouro que os alquimistas por tanto tempo buscaram, o segredo almejado desde a aurora dos tempos por gênios, sábios, alquimistas e conquistadores?
E eis que hoje, sem esperar, dou de cara com ela, a Germânia 55, em toda sua magnificência e portentosidade, em seu latão de 710 ml que mais parece a armadura de um cavaleiro templário, em seu blindado traje dourado e vermelho, a própria armadura clássica do Homem de Ferro.
Comprei-a-a!!! E o preço, então? Uma pechincha.
Mais : o seu megalatão é o que mais combina com a caneca asgardiana que comprei em minha última viagem, o meu graal de Thor. 
A foto tá uma bosta, e me retrato (até parece um trocadilho do Jotabê) : é que não tenho máquina digital, nem celular, smartphone e o caralho (o caralho tenho, já não tem mais aquela "resolução" de antigamente, mas ainda o tenho). Tirei a foto num tablet dado aos professores da rede pública de SP pelo governo, um tablet da CCE. Governo de São Paulo e CCE, um encontro de titãs... pããããããta que o pariu!!! Acho que fiz até que um pequeno milagre.
Vou agora botar um CD, me sentar à sacada e degustar a minha Germânia 55, que, antes que venham com maledicências, não é artesanal porra nenhuma, é cerveja de macho. Geralmente, vou de Raul ou de Adoniran, mas hoje acho que estou mais para Oswaldo Montenegro. Faça uma lista de velhos amigos, quem você mais via há 10 anos atrás, quantos você ainda vê todo dia, quantos você já não encontra mais... 

Falou Tudo, Raul, Falou Tudo...

"E você ainda me pergunta 
Aonde que eu quero chegar
Se há tantos caminhos na vida
E tão pouca esperança no ar.. "

Bloddy Mary (Ou : a Lua tá de "chico")

Não,
Não escalei o teu Céu.
Não subi,
Gato de Hubble,
Ao telhado
Para levar a prata da tua bala no peito,
Para me curar no cataplasma do sangue que verte de tuas profundezas
Que deixas escorrer por tuas fendas.
Cegar-me-ia à tua luz
Ainda que não tua
Ainda que uma nesga da do Sol
Teu cafetão
Meu arqui-inimigo.
Cegar-me-ia
Ainda que te mostres em baixo espectro
Por detrás de um biombo infravermelho
Infravermelho que prefiro só farejar.
Revelar-me-ia por demais, a tua luz
Ainda que luz da tua timidez
Do teu eclipse.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Pequeno Conto Noturno (56)

Rubens encontra Calil. Melhor (pior) : não consegue evitar que Calil o veja, passar-lhe despercebido. Rubens, como já foi dito, tem uma capacidade sobre-humana de se tornar invisível, de voar abaixo dos radares das pessoas com quem cruza pelas ruas e não gostaria de ter. Menos do de Calil. Calil anula os poderes de invisibilidade de Rubens. Calil é a sua kryptonita.
Rubens bem que tentou. Quando viu Calil dobrar a esquina, a quase dois quarteirões de distância, enfurnou-se na loja de conveniência de um posto de combustíveis. Fizera-o tarde. Como sempre. Calil o tinha detectado. Coisa de minuto e meio, dois minutos, Calil estava ao lado dele, no balcão onde Rubens se sentara, de costas para a vitrine e para a rua.
- Rubão, meu velho! Quanto tempo, hein? - e Calil se senta no tamborete ao lado do de Rubens.
- Não o suficiente, Calil - Rubens acabando de sorver uma talagada de cerveja - não o suficiente... - outra talagada - e não me lembro de ter convidado você pra se sentar comigo. 
- Há! Há! Há! Esse é o velho Rubens de sempre, sempre se fazendo de durão, dando uma de grosseirão, só pra não demonstrar a emoção de rever um velho amigo.
- Acredite, Calil, você não iria achar nada bom se eu demonstrasse a real emoção quando lhe vejo. Além do quê, eu passaria um bom tempo na cadeia.
- Viu só, Rubão, a novidade? O Paulistânia, cara. O Paulistânia reabriu. Os velhos tempos voltaram, cara!
- Não, Calil, não voltaram porra nenhuma. O que voltou foi um prédio reformado, uma maquiagem de defunto, e que, por coincidência, ocupa o mesmo endereço e tem o mesmo nome que o Paulistânia; fiquei sabendo que nem é mais o Durval que toca o lugar, arrendou-o para alguém dessa nova geraçãozinha babaca de "rockeiros". Quanto aos velhos tempos, por que eles voltariam?
- Deixa de viadagem, filho da puta. Vamo lá, Rubão, vamo lá porra, amanhã, os velhos e bons sábados do Paulistânia, Rubão, lembra Rubão, lembra?, o ambiente tremia quando o velho Calil aqui aparecia.
- Eu tremo até hoje, Calil.
- Amanhã, Rubens? Paulistânia, umas onze e meia, meia-noite?
- Tá bom, Calil, de repente, pode ser bom.
- Bom? Bom pra caralho, Rubão. Quem sabe a gente não pega até umas vagabundas?
- É provável, Calil, é provável... Até amanhã, então - Rubens esvazia o que restava na lata.
- Ô, Rubão, a informação do Paulistânia não vale uma cerveja aqui pro seu velho camarada?
- A informação vale, mas ter que ir lá com você, anula o merecimento. Até, Calil.
Rubens sai pela grande porta de vidro da loja e Calil fica lá, no balcão, já a entabular uma conversa com a atendente. Ele fará de tudo e por onde para tomar uma ou duas cervejas sem pagar.
Rubens pretendia chegar ao seu apartamento e se jogar na cama, apagar, mas o encontro com Calil o faz ir à geladeira, pegar um litrão de cerveja a hibernar no congelador e se sentar com ele na sacada.
Rubens não irá ao Paulistânia. Calil que o espere. Nunca teve a intenção de ir. Calil que se foda. Só concordara  com Calil porque era a maneira mais rápida de se livrar dele.
Rubens não gosta dessas revisitas ao passado, desses túneis do tempo, embora, às vezes, e sempre com remordimentos posteriores, não consiga resistir a eles. Desta vez, contudo, não haverá tentação à qual resistir, ainda mais com Calil na jogada.
Rubens sabe que chegaria ao novo Paulistânia a procurar pelo antigo, ou, ao menos, a tentar reconhecer traços do antigo na nova versão - e o Paulistânia não estaria lá.
Sabe que entraria a procurar pelos velhos frequentadores, pelo velho e carcomido balcão de madeira onde se tomava cerveja em pé e do qual emanava um nauseabundo cheiro de cerveja azeda, e até pela velha e ardida neblina da fumaça azulada dos cigarros - e os velhos frequentadores não estariam lá; o balcão, agora provavelmente de polido e fulgurante granito, impermeável à cerveja e às desilusões e aos choros nele derramados; a fumaça dos cigarros, banida por uma lei quase que nazista contra os fumantes.
Rubens sabe que entraria no novo Paulistânia com os ouvidos a buscar pelas velhas bandas, pelos velhos rocks, pelo velho brado em uníssono de "Toca Raul" - salve, salve e descanse em paz (se puder), Grillo Vergueiro - e nenhum deles estaria lá.
Parece até, pensa Rubens, com a cerveja querendo lhe voltar pelo nariz, a música do Raul, O Dia em Que a Terra Parou. O velho rockeiro não saiu pra festejar, pois sabia o Paulistânia também não estava lá.
Tomado por uma puta nostalgia, Rubens pega outro litrão na geladeira, leva o toca-CD para a sacada e põe a discografia do Raul para tocar, aleatoriamente.
(convence as paredes do quarto e dorme tranquilo, sabendo, no fundo do peito, que não era nada daquilo...)
Sabe que chegaria ao novo Paulistânia afinzaço de cantar as velhas e rechonchudas pichorras - e nem elas, que nunca deram mesmo pra ele, estariam lá.
(oh! oh! seu moço do disco voador me leve com você pra onde você for, oh! oh! seu moço, mas não me deixe aqui, enquanto eu sei que tem tanta estrela por aí) 
Sabe que iria direto ao balcão para ouvir os resmungos e as reclamações do velho Durval - e ele não estaria lá.
O velho Paulistânia, o velho balcão, os velhos frequentadores, as velhas bandas, os velhos rocks, o velho Grillo, as velhas e apetitosas pichorras, o velho rabugento Durval... Nenhuma dessas ausências no novo Paulistânia seriam insuperáveis; tristes, sim, pra caralho, mas contornáveis. Nada que três ou quatro latas ou doses a mais não mitigassem. Só pretextos, todas elas.
Sobretudo, Rubens não vai ao novo Paulistânia - nunca teve a intenção de, só concordou para despachar Calil - porque sabe que entraria no novo Paulistânia a procurar pelo velho Rubens, pelos seus velhos olhos acesos e insones, pela sua velha alma instigada, pela sua velha vontade de cantar - e o velho Rubens não estaria lá. Só o Rubens velho.
(vou sentir, que a minha dor no peito, que eu escondi direito agora vai surgir)
Rubens sente um gosto salgado e fluido a lhe descer pela boca. Chorara. Quando começara a? Ainda chorava? Então, como sempre acontece nessas ocasiões, o pássaro azul que Rubens traz cativo e trancafiado eviscera as grades do peito e esvoaça ao redor dele. Dá uma, duas, três, quatro voltas ao redor da cabeça de Rubens e pousa em seu ombro esquerdo, feito o corvo de Poe. E, do ombro, dos umbrais de Rubens, pergunta-lhe : mas eu não choro, e tu?
(quando quer chorar, vai ao banheiro. Pedro, as coisas não são bem assim)

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Se Eu Quiser Falar Com Deus

- Eu, Senhor, pro inferno? - o cara recém-morto e recém-chegado às barbas de deus - E por vaidade, ainda por cima, Senhor?
- É o que consta aqui, no Livro dos Séculos. Amém.
- Amém, Senhor. Nunca tive a menor vaidade ou luxo, sempre fui dos mais desapegados ao material, Senhor.
- Sei.
- Sabe, claro que sabe, é onisciente, não é? Mesmo jovem, Senhor, quando os hormônios fazem-nos, aos machos da espécie, verdadeiros pavões empoados. Mesmo jovem, Senhor, nunca dei importância para a aparência, nunca me apeteceram roupas de grife, tênis importados, nada disso, Senhor, para mim, qualquer coisa estava de bom tamanho.
- Sei.
- Sabe, eu já sei que o Senhor sabe, o que só me faz ver que toda essa conversa é uma perda de tempo, provavelmente o Senhor deve ter mais o que fazer.
- O universo pode esperar, meu filho.
- Nunca me incomodei, Senhor, com as púberes acnes e espinhas, nunca lhes passei pomadas ou tentei escondê-las. E o cabelo, Senhor? Cortei-o, por décadas, no mesmo barbeiro. Barbeiro, Senhor, nem cabeleireiro era. E o mesmo corte a vida toda, enquanto os tive para cortar. E de barbeiro mudei porque minhas cada vez mais cansadas e varicosas pernas não mais davam conta da légua tirana, Senhor.
- Sei.
-Percebeu o que eu disse, Senhor? Minhas pernas já não davam conta da distância. Nunca tive nem carro, Senhor, de tão simples e contemplativa a vida que levei. Vaidoso, eu, Senhor? Nem carteira de habilitação tive.
- Sei.
- Se tive algum mínimo apego, foi, durante um tempo, pelos livros, Senhor. Ainda assim, nunca os comprei em quantidade para acumulá-los com orgulho de colecionador, os tomava em empréstimo na biblioteca municipal. Tampouco eles ficavam expostos na sala, em alguma estante ou em cima da mesa de centro, às vistas e para a apreciação das visitas, um mostruário de uma pretensa intelectualidade, embora ela fosse autêntica no meu caso. Aliás, nunca tive estante ou mesa de centro, e as visitas, raríssimas. Ficavam escondidos no guarda-roupas e não passaram de vinte livros, Senhor, isso durante uma vida inteira, e na velhice me desapeguei deles também, a vida era mais simples sem eles.
- Sei.
- E já que estamos a falar da velhice, Senhor, acha que me importei com ela, que me atacaram vaidades tardias, que me afligiram quereres de uma juventude rediviva? Nada disso, Senhor. Começaram a branquear-me os cabelos, nunca os tingi; começaram a cair e a não mais nascer, nunca apliquei ao couro cabeludo panaceias antiqueda, muito menos aqueles rídiculos implantes capilares; caíram-me de todo, nem chapéu jamais usei para esconder a calva; fiquei broxa, Senhor, nunca um farmacêutico ouviu pedido meu de viagra; capitularam-me os dentes naturais, nunca tive daqueloutros que dormem no copo d'água. Vaidoso, Senhor?
- Sei.
- Pelo contrário, Senhor. Quanto mais limitações a decrepitude me impunha, mais eu gostava; a cada nova impossibilidade física, um alívio. Cada limitação, uma desobrigação, na verdade. Uma libertação de ser isso ou aquilo, de ter que fazer isso ou aquilo e, principalmente, de querer isso ou aquilo. Mais simplicidade e sossego, Senhor. Cada restrição, um habeas corpus para me ver livre do angustiante desejo.
- Sei.
- Atingi um estado quase pleno de simplicidade e de sossego nos meus últimos anos de vida, de fazer inveja ao monge mais xiita. Que foi o que sempre ambicionei, Senhor : sossego. Vaidoso, eu? Até minha morte, Senhor, foi simples e despretensiosa, acabei de morrer sozinho, em casa, sem dar trabalho pra ninguém. Aliás, tenho certeza, só me acharão daqui a uns dias, e me procurarão muito mais incomodados pelo meu mau cheiro do que pela minha falta sentida. Digo isso, Senhor, sem nenhum pingo de autopiedade, prefiro mesmo assim, sem choro nem vela. Infarto, né, Senhor?
- Dos fulminantes, meu filho.
- Eu lhe agradeço por isso, Senhor.
- Ô, mania... Não tenho nada a ver com isso, meu filho, eu não mato ninguém, por quem me tomam, por algum serial killer cósmico? Eu só os faço imperfeitos, com prazo de validade.
- Perfeito que é, por que nos faz imperfeitos?
- É de propósito, meu filho. Eu não consigo não ser perfeito, os faço perfeitamente imperfeitos, tanto que não escapa um para contar história, não fica um para semente.
- Saiu-se bem dessa, Senhor.
- Eu sei, meu filho.
- Repito, vaidoso, eu, Senhor? O inferno para quem pautou sua vida pela simplicidade e pelo sossego?
- Justamente, meu filho. Quem disse que Eu os criei, e ao mundo, para que tivessem sossego e tranquilidade? Pu-los ao mundo para correrem inutilmente atrás de desejos, que, ao mesmo tempo, eu incuto e proíbo. Criei-lhes para o desespero constante das buscas vãs e inalcançáveis; como a qualquer outro bicho, para o frenesi da eterna competição, para a ganância, a beligerância, a inquietação, para o dormir com um olho e ficar em alerta com o outro, para o apuro, o atropelo, o açodamento. Percebe, meu filho?
- Não, Senhor.
- O sossego é o maior luxo a que um ser humano pode se dar. Isto posto, você foi um ostentador dos grandes, levou uma vida de nababo : o inferno, meu filho, e nem cabe recurso nesse caso.
- Senhor?
- Diga, meu filho?
- Não sabe o que vou dizer?
- Não me venha com dialéticas, meu filho, nunca tive paciência para elas.
- Senhor, se eu lhe mandar a puta que o pariu, minha situação piorará em muito?
- Em nada, meu filho.
- Vai à puta que te pariu, Senhor!!!!
- Há! Há! Há! Não dá, meu filho. Não tive mãe. Eu sempre existi. Touché, meu filho. Descendo...

(O cara ainda pensou em xingar deus de filho da puta, mas o mesmo impedimento dogmático da injúria anterior o fez desistir)