sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Cacildis!!!

O ator Grande Otelo, por considerar o sambista Antônio Carlos Bernardes Gomes dotado de atributos assemelhados ao do mussum - peixe escorregadio, esquivo e liso, que se safa facilmente de situações embaraçosas -, apelidou o músico de Mussum. O apelido pegou fácil. E Antônio Carlos, em Mussum, tornou-se. Aliás, tornoussis!
Em 1973, a convite do amigo Manfried Santanna, o Dedé Santana, Mussum tornou-se Trapalhão. Tornou-se, não. Apenas assumiu publicamente a sua condição de. Mussum foi o Trapalhão por excelência. O mais original e autêntico deles. Dos quatro, Mussum era o único que não representava um personagem. Mussum era ele. Não lhe careciam scripts nem roteiris.
Mussum era o nosso embaixador da cachacis! O diplomata da biritis! O cônsul da caninha! O nosso adido cultural do mé! Mussum não bebericava, não degustava. Mussum dava uma beiçadis.
Mussum entrava no buteco - o balconista era sempre o ator Carlos Kurt -, mandava o Alemão medir um metro de pinguis no balcão e pedia pra embrulhar pra viagem. Ou chegava para o mesmo Carlos Kurt e pedia : me vê aí um leite de capivaris! Não temos, respondia o Alemão. Então, me vê aí um leite de jaguatiriquis! Não temos, respondia, de novo, o Alemão. Então, me vê aí um leite de elefantis. Também não temos, senhor, dizia o Alemão já às raias da paciência. Aí, Mussum tirava seu surrado chapéu da cabeça, levava-o ao peito, dirigia seu olhar ao Céu e dizia : o Senhor é testemunhis de que eu queria tomar leitis! Vira-se para o Alemão e dizia : então, me vê aí um mézis. Ou tentava, sempre escudado pelo "nojento" Tião Macalé, jogar um fiado para cima do Didi, armar uma pindureta no bar do cearense cabecinha de bater bife. Mussum dizia que eles eram da elite do morro da Mangueira, membros da diretoria, da família do Kunta Kinte, garantia Tião Macalé. Ou, ainda, na véspera de Natal, incumbido pelos amigos de dar pinga prum peru e amaciar-lhe a carne para a ceia, Mussum começa a beber junto com o peru. Segue monólogo de Mussum com o peru : "Seu piruzis, o senhor é do sindicatis? Da rapaziada que vai à lutis? O senhor mata o bicho? O senhor sabe beber socialmentis? Então tá convidadis pra dar uma beiçada... Vai, vai cumpade, dá uma pancadis..." Quando os amigos retornam, encontram Mussum e o peru bêbados e abraçados. Mussum os encara e diz : "se tocar um dedo no meu amigo, eu te mato... ele é do sindicatis..."
Para Mussum, era melhor melhor ser um bêbado conhecidis do que um alcoólatra anonimis.
Mussum morreu em 29 de julho de 1994, aos 53 anos. Não de cirrose hepática como muitos podem supor, sim de complicações por conta de um transplante de coração. Aliás, o Mussum não morreu, ele se pirulitou ("eu vou me pirulitazis", dizia quando a coisa ficava pretis).
Quase vinte anos após a sua morte, em 2013, Mussum recebeu a maior homenagem que pode ser prestada a um biriteiro de alma. Um de seus filhos, Sandro Gomes, se associou à cervejaria Brassaria Ampolis e, juntos, lançaram uma linha de cervejas com o nome do Trapalhão, a qual conta, hoje, com quatro títulos, a Biritis, a Cacildis, a Forévis e a Ditriguis.
Inicialmente as brejas do Mussum foram lançadas em ampolas, ops, em ampolis de 600 ml e produzidas artesanalmente em pequena escala; ou seja, com um preço, ao contrário de Mussum, nada engraçado. Nunca a tomara, portanto.
Até que, ontem, ao passar por um posto de combustíveis, um cartaz à entrada de sua loja de conveniência me chamou a atenção. Estava lá : Cerveja Cacildis (350 ml), R$ 3,19. A cerveja Cacildis transpôs os limites da garrafis e, agora, é produzida também em latis. 
Para os meus padrões, ainda num preço caro, porém praticável. Comprei duas. E é boa. Excelentis. Puro malte, coloração dourada, aroma que lembra um pouco um pão quentinho comprado à padaria, talvez pela fermentação do malte.
Continuarei a comprar a Cacildis? Muito provavelmente não. Hoje à noite estarei de volta às minhas boas e baratas. Só foi mesmo para experimentar, para prestar vassalagem ao mestre Mussum e para guardar a latinha.
Como de fatis!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Letras Insuficientes (ou, a Segunda Lei da Termodinâmica)

Curioso
Como tudo acaba,
Mesmo que nunca tenha existido;
Como tudo morre,
Ainda que nunca fecundado,
Que nunca parido
(que tudo se esgote pelo ralo da pia,
pelo ralo da entropia).

Curioso
Como não existem letras suficientes
Para tecer a mortalha do fim :
Nem nos alfabetos
Nem na tabela periódica.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Hoje

Hoje
O redivivo
O recidivo
O lázaro Grillo Verguero
Toca o Imortal Raul Seixas
No fênix-rock-bar Paulistânia.

E eu...
Me rendendo à Morte
Indo me deitar às nove e meia da noite.
(a benção Grillo, a benção velho Durval e Durvalzinho)

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Papa Francisco Diz : Agora é Moda Dar o Cu!

No livro  "La fuerza de la vocación" ("O poder da vocação"), lançado ontem (03/12) na Itália e já traduzido para mais dez idiomas, o autor Fernando Prado aborda a espinhosa questão da vocação religiosa nos tempos atuais, do clamor do chamado divino nos dias de hoje.
Tempos de vasta oferta de pecado. Tempos em que o demônio não necessita mais de elaborados e herméticos rituais, conhecidos apenas por iniciados no satanismo, para ser invocado e romper a barreira das dimensões Inferno/Terra, bastando para tal o sujeito ter uma conta no Tinder, ou no whatsapp. Tempos, enfim, em que a carne continua fraca e o quilo dela tá muito barato.
O livro é produto de horas de entrevista com ninguém mais ninguém menos que o Papa Francisco I.
Em certos trechos da obra, o Sumo Pontífice se declara deveras preocupado com a boiolagem galopante e saltitante que campeia desvairada não só no meio clerical como também na sociedade leiga. Disse o Papa : "Na nossa sociedade, até parece que a homossexualidade está na moda, e essa mentalidade influencia de certa forma também a Igreja".
Pãããããta que o pariu!!!! E o Papa tem o dom da infalibilidade! Se o Papa disse que está na moda dar o cu é porque está na moda dar o cu. Ainda bem que eu sempre fui um cara cafona, démodé.
Talvez cansado de ver, ao invés de circunspectos, constritos e penitentes seminaristas, esvoaçantes e fagueiras noviças rebeldes a borboletear pelos corredores dos seminários de formação de sacerdotes, o Papa desabafou : "a homossexualidade no clero é algo que me preocupa. Se trata "de um assunto muito sério. Pessoas com "essa tendência profundamente enraizada" não deveriam ser admitidas em seminários ou ordens religiosas".
"Tendência profundamente enraizada"? E bota enraizada nisso, Santo Padre!!! É cada mandiocão e cada nabo de fazer medo ao capeta!
E o Papa seguiu a dizer e a esclarecer - ou, ao menos, a tentar desfazer a confusão - que o amor incondicional e fraterno pregado por Cristo é uma coisa e que escorregar e rebolar numa piroca é outra. Muitíssimo diferente. Palavras do Papa : "é um erro acreditar que gays no mundo sacerdotal "não é assim tão grave" e que a homossexualidade seja apenas uma forma de afeição. Na vida consagrada e na vida sacerdotal, não há lugar para esse tipo de afeição."
Acredito, porém, que a questão dos gays no mundo sacerdotal seja outra, ou que, sendo a mesma, deva ser analisada por um outro prisma, que o Papa esteja errando o foco de sua abordagem. Ao invés de combater o ingresso maciço (firme, rijo e cheio de nervos) da viadada na vida religiosa, feito um Donald Trump de batina a tentar dedetizar cucarachas em suas estreladas fronteiras, ao invés de pensar em construir um muro guarnecido de bucetas farpadas e eletrificadas em torno do Vaticano, o Papa deveria se perguntar sobre o que tanto atrai a bicharada para o ambiente sacerdotal. Reunir-se com o pessoal do marketing da Santa Sé e detectar quais elementos e mensagens subliminares embutidos na propaganda da Igreja arrebatam tanto os gays, e traçar uma estratégia de mudança na imagem da Igreja que atraia o público-alvo desejado.
Humildemente, deixo umas dicas aqui para o Papa Francisco. Cristo é o garoto-propaganda da Igreja, e como ele é apresentado e vendido por ela? Em vida, Cristo foi um bon vivant, sempre metido em agitos e baladas pelas tabernas da época. E sempre, sempre acompanhado por homens. Nunca, em nenhuma situação, Cristo e seus amigos visitaram, por exemplo, um bordel, um zonão. Sempre cercado de homens, o Nazareno. Na sua morte, em seus estertores finais, Cristo é mostrado como um cara seminu, só de tanguinha, todo suado, e com barriga tanquinho. Porra!!!! Não tem viado que resista a este chamado. Comece, a Igreja, a apresentar Cristo como um homem casado, cuja esposa, ao longo do tempo, embarangou e se tornou uma megera, com três ou quatro filhos adolescentes para criar, cheio de dívidas, tendo que trabalhar oito horas por dia, pegando transporte público, forçado a almoçar na casa da sogra aos domingos etc e vamos ver se a viadada vai continuar com esse ânimo todo para entrar na vida monástica.
Mais. O Espírito Santo. É representado por uma pomba. Uma pomba-rola. Ora, porra, o Espírito Santo é macho das antigas, é pegador, é passador de rodo, traçou a Maria. O Espírito Santo é o Zé Mayer da Santíssima Trindade! Uma pomba-rola? No mínimo, por questão de respeito até, tinha que ser um gavião, uma águia com sangue nos olhos. Aí, garanto, só ia dar fuzileiro naval se ordenando padre.
O curioso é que quando o Papa, exímio orador, manipulador de multidões e sofista, fala que a homossexualidade no clero é algo que o preocupa atualmente, fica parecendo que a boiolagem é um comportamento recente na Igreja Católica, que é um sintoma dessa era de modernidade. Não é nada disso. A Igreja sempre foi uma gaiola das loucas. O Papa Francisco, possivelmente, é o primeiro Papa que se assume preocupado com a queimação de rosca dentro dos seminários, mosteiros etc, mas a prática vem de longe, é milenar.
Não duvido, contudo, que tenha havido, nos últimos anos, um incremento no já usual ingresso de boiolas na Igreja. O responsável? O próprio Papa Francisco. Quando do início de seu papado, talvez para mitigar a má imagem deixada por seu predecessor, o nazista Bento XVI, Francisco I assumiu posições mais liberais, pseudoliberais, na verdade. Disse que a Igreja devia acolher os homossexuais que a procurassem. Palavras do Papa, em 2013 : "se uma pessoa é gay e busca a Deus, quem sou eu para julgar?". Pronto. Foi o que bastou pra viadada achar que o Papa tinha liberado a queimação de rosca. Que dar a bunda não era mais pecado. 
Acontece que a bicharada não ouviu a fala do Papa até o fim. Não esperou o Papa molhar o bico. Havia - sempre há - um "mas", um "desde que". A Igreja deveria acolher o homossexual que a procurasse desde que este estivesse arrependido de sua vida pregressa, de sua vida de ré. Desde que estivesse disposto a trancar o cu, a fazer jejum perpétuo de rola. E, ainda assim, tal ressalva valia apenas para os fiéis. Nunca o Papa Francisco abriu exceção alguma aos candidatos a padre.
Em 2016, no documento Ratio Fundamentalis, Francisco I deixou bem claro que a viadagem não faz parte dos planos de Deus: "no que diz respeito às pessoas com tendências homossexuais que vêm para os seminários, ou a descobrem no curso desta formação, em coerência com o seu magistério, a igreja, embora respeitando profundamente as pessoas em questão, não pode admitir ao seminário e às ordens sagradas aqueles que praticam a homossexualidade, apresentam tendências homossexuais profundamente arraigadas ou apoiam a chamada cultura gay ”.
Até o nazistão Bento XVI, em 2005, mostrou-se mais tolerante que o jesuíta argentino, disse, à epoca, que "a igreja poderia admitir para o sacerdócio pessoas que haviam "superado" suas "tendências homossexuais" por pelo menos três anos", ou seja, candidatos que tivessem passado por uma espécie de estágio probatório de cu. Muito mais flexível, Bento XVI.
Neste ano, em 21 de maio de 2018, numa reunião a portas fechadas da Conferência dos Bispos Italianos, o Papa Francisco recomendou aos seu subordinados que não admitissem seminaristas gays, que não fosse dado a uma bichinha mais discreta e recatada nem mesmo o benefício da dúvida : "fiquem de olho nas admissões aos seminários, deixem os olhos abertos", disse Francisco. "Se tiverem dúvidas, é melhor que eles não entrem."
Bom, como eu não tenho nenhuma vontade de me tornar seminarista, muito menos de dar a bunda, muito menos ser católico, estou tranquilo. 
De qualquer forma, esta situação me lembrou de uma piada. Do Costinha. 

A bichinha foi se confessar com o padre. Ajoelhou em frente do confessionário e começou a desfiar seu rosário de pecados. Num dado momento, através da treliça do confessionário, a bichinha viu um belo anel com uma grande pedra vermelha no dedo do padre. Que anel maravilhoso, padre!, disse a bichinha. O padre não se conteve : ah, minha filha, você precisa ver só os brincos e o colar, mas o Papa não deixar usar...

Pãããããããta que o pariu!!!!

domingo, 2 de dezembro de 2018

Haicai do Pasquale

Não parece coisa cômica
Átono 
Ter sílaba tônica?

Todas as Barangas de Benetton

A reunião dos G20, os vinte países economicamente mais poderosos do mundo, ocorrida em Buenos Aires no dia 29 passado, teve como efeito colateral a reunião dos "G20" dos desocupados, dos vagabundos, dos mamadores de benesses estatais, ou seja, dos movimentos sociais e ativistas políticos.
A corja improdutiva e comunista (perdoem-me pela redundância, mas são ainda sete e 25 da manhã e dormi mal pra caralho essa noite), inimiga do capitalismo, mas todos munidos de seus celulares e calçados com seus tênis nike, marchou pelas ruas da capital portenha em protesto contra o G20, contra o FMI, contra os ingleses nas Ilhas Malvinas, contra Donald Trump e - sobrou até pra ele, vejam só - contra o intrépido Jair Bolsonaro.
Encabeçando a malta de arruaceiros sociais, estavam, é claro, as feministas. Uma delas, Juliana Díaz, mostrando que decorou muito bem O Capital, de Karl Marx, a cartilha Caminho Suave dos comunas, disse : "o G20 é onde se reúnem os poderosos do mundo para planejar o aprofundamento do capitalismo patriarcal, para buscar novas formas de dominação, como continuar com a divisão". E, logo em seguida, postou sua fala no seu feicibúqui, no seu tuíter e no seu instagram. Falou, falou e não falou porra nenhuma. Pronunciamento digno da Dilma Roussef. 
Continuar com a divisão? Mas quem é que se divide em movimento disso, movimento daquilo, movimento daquiloutro? Quem é que se segmenta para compor novas minorias e exigir suas pretensões de privilégios majoritários? Fragmentando-se como se fragmenta essa corja, em Ls, em Gs, em Bs e Ts, em MSTs, em CUTs, em UNEs e o caralho a quatro, miríades de minorias surgem a cada dia.
Mas, enfim, o que é uma feminista? Basicamente (1), é uma mulher, um ser que nasceu com grelo, mas morre de vontade de ter um pau. Daí em diante, toda a vida desse ser é dedicada a antagonizar os que foram dotados de uma benga pela natureza. Feminista não quer a convivência pacífica entre os gêneros, quer exterminar o macho da face da terra. Basicamente (2), feminista é um ser que nasceu com grelo e feia pra caralho. E se rebelando contra a lei universal que dita que mulher feia tem de ser, no mínimo, simpática e agradável, as feministas se esmeram e se especializam em serem umas chatas de galochas, empoderadas que não conversam nem dialogam, discursam. Feminista sempre fala em voz alta, como se estivesse num palanque a discursar para multidões, num comício de suvacudas de tetas murchas. Basicamente (3), somados o basicamente (1) com o basicamente (2), temos que, em suma, uma feminista é uma mulher sem marido, ou seja, uma desocupada que não tem uma pia cheia de louça suja nem um tanque cheio de roupa para lavar. Por isso, sobra-lhe tempo para ir pra rua, marchar e atrapalhar o sábado e o trânsito.
A foto que postarei logo abaixo, das feministas contra o G20, lembrou-me de uma campanha publicitária da década de 1980, da marca Benetton : United Color of Benetton, Todas as Cores de Benetton. 
Quem tem mais de 45 anos vai se lembrar. A campanha, muito bem produzida, estampava, em enormes outdoors, todas as cores e matizes humanas, étnicas, culturais, religiosas e políticas. Imagens de famílias, amigos, vizinhos etc das mais diversas etnias, caucasianos, negros, ameríndios e japoneses, sempre em festa, sempre abraçados, sorridentes e em total comunhão; fotomontagens de líderes políticos e religiosos antagônicos se beijando na boca contra o ódio entre os povos e as religiões etc. Como se o ser humano, independente de etnia, credo ou posição política, fosse mesmo capaz de conviver em harmonia com o resto do planeta. A antológica campanha da Benetton deveria ser processada por propaganda enganosa, isso sim.
Abaixo, e finalmente, Todas as Barangas de Benetton, ou, em inglês, United Barangas of Benetton, mostrando que mocreia engajada é um mal universal, prestes a ser incluído na lista das pandemias pela OMS.
Tem baranga de tudo quanto é nacionalidade. Da direita para a esquerda, baranga estadunidense, francesa, turca, alemã e, se não me falham as aulas de geografia do colégio, até uma baranga palestina.
Pãããããããta que o pariu!!!

sábado, 1 de dezembro de 2018

Minha Planta Carnívora de Estimação

Nesta minha última viagem, a Monte Verde (MG), por vontade da esposa, fui levado a um orquidário local. Gosto das orquídeas. Acho-as belas, é óbvio. E eis o entrave : o óbvio de suas belezas. O inegável e o indiscutível de suas paletas de cores, da precisa geometria escalena de suas pétalas e outros elementos florais, das notas afinadas de seus perfumes. Precisão e simetria demais para serem verdade. E não são, embora muito nos agrade os olhos.
Orquídeas parecem com aquelas modelos gostosas das capas das revistas, dão-me a impressão de que foram passadas por algum programa de edição digital de fotos, por algum tipo de photoshop.  E foram. Não por um programa de edição de imagens, claro, mas sim por um longo processo de, digamos assim, edição genética.
A grande e esmagadora maioria das orquídeas hoje à venda e/ou em exposição não são naturais, são linhagens manipuladas pelo bicho homem, plantas obtidas através de meticulosos cruzamentos entre variedades nativas e submetidas a pacienciosos e rigorosos processos de seleção dos híbridos com características desejáveis e descarte dos malfadados. Décadas, centenas e mesmo milhares de anos (supõem-se que o cultivo de orquídeas tenha se iniciado na China, há mais de 3000 anos) de eugenia e limpeza étnica para que tenhamos as orquídeas que hoje vemos nas floriculturas, supermercados e lojas de jardinagem. Como eu disse, precisão e simetria demais para serem de verdade.
A gente olha para os peitões perfeitos e simétricos da modelo da capa da revista e logo vemos que tudo aquilo não pode ser natural. Gostamos - muito - do resultado, mas sabemos que é puro Pitanguy e silicone. Olhamos para uma orquídea e nos encantamos com suas formas, seus roxos, vermelhos, amarelos e alaranjados - muitas são verdadeiros pôres-do-sol envazados -, mas sabemos que a natureza jamais produziria tais formas, desenhadas a esquadro e compasso, e tais matizes. Gostamos do resultado, mas sabemos que são produtos de manipulação humana.
As orquídeas são as moças de boas famílias que caíram nas mãos de más companhias - no caso, nós, humanos - e foram desvirtuadas dos bons caminhos ditados pela Mãe Evolução, que foram seduzidas pela vida vazia dos holofotes e das passarelas das floriculturas.
Nunca possuí uma orquídea. Nem uma modelo de capas de revistas. Ambas, caras demais para os meus desmilinguidos bolsos. Nem tenho ambiente adequado para acomodá-las, a sacada do apartamento recebe de chofre o inclemente sol da tarde. Orquídeas, assim como as modelos das capas das revistas, gostam de sombra e de água fresca.
Havia, porém, no orquidário, percebi-o pelo canto da vista esquerda, um outro recinto bem menos frequentado que o das orquídeas. E onde há menos gente, é para lá mesmo que vou. Um pequeno ambiente, também úmido e abafado, com plantas carnívoras.
Opa! Plantas carnívoras são outra estória. São de um outro naipe. Não trilharam o caminho da beleza fácil. Não nasceram no berço de ouro de uma verdejante, exuberante e fértil floresta tropical. Não tiveram quaresmeiras, embaúbas, bromélias, frondosos ipês amarelos, alegres macacos e multicoloridas araras como colegas de escola. Plantas carnívoras foram dadas à luz em manjedoura de lama e lodo podres. Batráquios gosmentos, crocodilos e mosquistos hematófagos foram seus amigos de infância e de reformatório.
As plantas carnívoras são, em sua quase totalidade, nativas de terrenos alagados - pântanos, brejos e charcos. Nascidas em berço de águas fétidas e estagnadas, e amamentadas por solos argilosos, pouco aerados e, sobretudo, paupérrimo em nutrientes minerais, em especial o nitrogênio, as plantas carnívoras, desde a mais tenra idade, perceberam que não adiantava pedir colinho à Mamãe Natureza. Não deram uma de coitadinhas, de excluídas da natureza. Não se vitimizaram, dizendo que não tiveram as mesmas chances na vida que as rosas, os gerânios e as margaridas. Não pleitearam cotas taxonômicas de inclusão. Antes pelo contrário. Foram à luta. Ralaram. Suaram. Adaptaram-se.
Para suprir a deficiência de nitrogênio mineral no solo, desenvolveram arapucas e enzimas digestivas para obtê-lo dos insetos (algumas plantas carnívoras de maior porte chegam a digerir pequenas rãs e filhotes de passarinhos ), da digestão da proteína animal.
(Pããããããta que o pariu. Se até entre os vegetais há uma ala de dissidentes da fotossíntese, que se lambuza de carne, imagina só se eu, um dia, vou virar vegetariano? Porra nenhuma que vou. Aliás, será que um vegetariano comeria uma salada de folhas de plantas carnívoras?)
E quem um dia irá dizer, das plantas carnívoras, que a beleza lhes é ausente? Plantas carnívoras têm uma beleza menos evidente, uma beleza mais rústica, áspera até, muitas vezes, por ser a beleza do sobrevivente, não a do privilegiado; por ser a conquistada na forja implacável da seleção natural, não a recebida de mãos beijadas no conforto de uma estufa climatizada, por ser, enfim, a beleza crua do predador, não a requentada e pasteurizada da mocinha presa na torre do castelo.
Nunca tinha me passado pela cabeça comprar uma planta carnívora, até então. Por sabê-las de ambientes pantanosos, sempre supu-las, por errônea associação, também plantas de sombra, de trevas. Informado pelo dono do local, um doutor em botânica, de que as plantas carnívoras, pelo contrário, necessitam de muitas  horas diárias de exposição direta ao sol e mais impulsionado pela animação e pelo deslumbramento do Raul, meu filho, ante a possibilidade de ter uma plantinha que come insetos, só antes vista por ele nos desenhos do Scooby-Doo, pensei : por que comprá-la, por que não comprá-la? Comprei-a-a.
Uma dioneia. Conhecida também por papa-mosca. A mim, sempre lembra da terrível lenda da vagina dentata.
Por ser um exemplar pequeno da planta (não é a da foto acima, que tem caráter meramente ilustrativo), uma muda transplantada de outra maior, paguei barato por ela, dez reais.
Há duas semanas instalada confortavelmente na minha sacada, a receber regas diárias e horas a fio de sol, e nada dela pegar sequer uma merda dum pernilongo da dengue. Será que a muda não chegou a "pegar"? Morta? Com defeito de fábrica? Mais um embuste, destes pregados a turistas otários?
Até que, há três dias, numa noite, pouco antes de ir me deitar, resolvi tirar a teima. Abati um pequeno mosquito que rodava ao redor da lâmpada da sala e com uma pinça o depositei dentro de suas folhas modificadas em armadilhas, dentro de sua boca. Ato reflexo, as folhas se cerraram de pronto. Trancafiaram o inseto em suas entranhas.
Animado, capturei ainda outro inseto e, de novo, a alimentei. Desde então, suas folhas permanecem fechadas, digerindo lentamente suas presas, ao fim do quê, se abrirão novamente, revelando as carcaças secas dos insetos.
Longe de se deixar contagiar pela minha animação, minha esposa, que tudo olhava de longe, falou : "você já alimenta as gatas e os peixes-de-briga, vai agora ficar caçando bicho pra alimentar planta carnívora?"
- Só até ela crescer e aprender a caçar sozinha, ela ainda é filhotona, respondi.

Travessuras de Menina Má (13)

NÓS

Dor,
Guardada nas rugas do vinil,
Incubada no pigarro
E na rouquidão das fitas Basf.

Dor,
Parida, muitas vezes,
Natimorta
Do ventre miomatoso de uma bic azul.
Arrancada, muitas vezes,
A fórceps
Do útero de teclas em menopausa
De uma Olivetti Lettera 82.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Cerveja Haller - Cinco Estrelas na Escala das Boas e Baratas do Azarão

Viajar é bom para conhecer novas paisagens e horizontes? Sim, a gente viaja, as paisagens estão lá e a gente vê. Viajar é lúdico, pois travamos contato com outros costumes e provamos das culinárias locais? Sim, a gente viaja, os restaurantes típicos estão lá, a gente precisa cagar, então, vai lá e come. Viajar é ilustrativo e enriquecedor, pois conhecemos marcos, monumentos históricos e outros pontos turísticos? Sim, a gente viaja, os pontos turísticos estão lá, a gente é turista, então, vai lá e visita.
Mas viajar é melhor ainda para achar novas boas e baratas. Para dar continuidade à minha épica cruzada em busca do santo graal dos bebuns sem grana.
No feriadão da semana passada, fomos a Monte Verde (MG), cidade de montanha, clima mais para o frio mesmo no verão (em pleno novembro, durante a noite, os termômetros marcavam 12, 13ºC), arquitetura estilo alemão/suiço, lugar bom para andar, para a esposa e o filho tomarem chocolate quente, comerem pinhão cozido, strudel, fondue e outros trá-lá-lás.
Lugar ideal para o Azarão entornar. Que macho de respeito não degusta, entorna. O cara que degusta não é sommelier nem cachacier, é caralhier! Aquele biquinho de quem sorve o vinho e/ou a cerveja em curto aspirares nada mais é que a famosa boca de chupar rola.
Macho das antigas, quando solteiro, viaja atrás de bucetas boas e de graça; quando casado, atrás de cervejas boas e baratas.
Assim posto, acompanhei minha esposa e filho em peregrinação pela avenida principal da pequena cidade, pelos empórios de queijos e embutidos, pelas simpáticas fabriquetas de doces e de chocolates, pelos bangalôs de artesanato. Ela à cata de compotas, quitutes e de lembrancinhas para familiares e eu de olho, de butuca em boas e baratas; ocasionalmente, um ou outro peitão balouçante também me furtava a atenção; nem só de cerveja vive o homem.
Até que a vi. Brilhante, em um luxuriante dourado-vermelho. Na prateleira de um pequeno mercado em que entramos para comprar água mineral e levar para a pousada. Antes de prosseguir, um parêntese, em cidades turísticas, mesmo as marcas mais corriqueiras de cerveja têm seus preços superfaturados. Uma cerveja do tipo subzero, kaiser, bavária, itaipava, cujos preços giram em torno de 1,89 reais, 1,99, são vendidas a preço de loja de conveniência de posto de combustíveis, de 2,50 reais para mais. Fim do parêntese. 
E lá estava ela : Haller - Cerveja Lager Clara. Como bom macho das antigas que sou, confesso sem nenhum pudor que não foi o seu conteúdo, a sua beleza interior, que me atraiu à primeira vista - até porque quem gosta de beleza interior ou é decorador, ou é radiologista; quem gosta de beleza interior que vá bater punheta com a revista Casa & Jardim, ou com uma radiografia.
O que me atraiu no primeiro momento foi a beleza dela. Não tanto da embalagem, mas sim da etiqueta de preço nela adesivada : R$ 1,59. Fazendo a conversão cidade turística/cidade normal, ela custaria algo em torno de R$ 1,19, quiçá R$ 1,09, aqui em Ribeirão Preto. Entesei-me na hora. Pauduresci!
Tímido que sempre fui, cheguei a ela cheio de dedos, pisando em ovos. Peguei-a cuidadosamente da prateleira e, lentamente, comecei a desnudar-lhe o rótulo. Ver a procedência, a graduação alcoólica, o pedigree. Era do tipo lager, graduação alcoólica de 4,6% e fabricada na cidade de Socorro (SP), município do famoso e terapêutico Circuito Paulista das Águas.
Decidi que dava pra encarar. Totalmente pegável. Como dizia um amigo meu, Júlio César Barbosa, o mítico Porpeta, "essa dá pra comer beijando". Comprei meia dúzia. Só pra experimentar. A esposa não quis arriscar, nem se deu ao trabalho de ouvir meus argumentos, foi de Itaipava, mesmo.
Na pousada, pu-la a gelar e, quarenta minutos depois, dei-lhe a primeira beiçada. Não vi se a espuma se mantinha por muito tempo, não lhe notei a carbonatação, não reparei na transparência e na turbidez, não lhe aspirei as notas presentes (ou não) de malte e lúpulo, não lhe verifiquei a acidez nem a adstringência nem nenhuma outra viadagem. Apenas dei-lhe uma boa duma beiçada, uma boa duma talagada.
Aprovei! Pãããããããta que o pariu se aprovei. Chamei a esposa, pedi que também experimentasse. É, caros leitores, ser casada com o Marreta tem lá suas vantagens, mas exige seus sacríficios. Ela pôs na boca já com a intenção de não gostar. Bebeu, tomou outro gole, e outro. Não é ruim, disse. Foi a consagração da boa e barata. Minha esposa não dá o braço a torcer de jeito nenhum para as minhas descobertas cervejeiras. Prefere não incentivá-las, não quer se tornar uma cobaia da indústria cervejeira. Dizer que uma boa e barata comprada por mim "não é ruim", é o elogio máximo de sua parte. E também não se empolga : perguntei, uma vez que tinha gostado, se queria que eu lhe abrisse uma lata; respondeu que não, que ia de Itaipava, mesmo.
Entornei a meia dúzia sozinho, sem nenhuma mágoa. Com uns provolones e uns chouriços defumados.
Ei-la, caros leitores manguaceiros do Marreta. Recomendo! Haller - receita alemã com alma brasileira!!!

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Mimetismos (31)

Bons tempos, os meus, de moleque, de petiz... O único cuidado que tínhamos de tomar era o de achar e não comer o bigato dentro da goiaba.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Pequeno Conto Noturno (73)

- De quem são estes desenhos, Rubens, estas histórias em quadrinhos? - pergunta Manoela, sentada no chão do pequeno quarto do apartamento destinado à "bagunça" de Rubens (livros, LPs, uma vitrola, antigas coleções de chaveiros, tampinhas de garrafa e latas de cerveja, umas vidrarias de laboratório surrupiadas nos tempos do curso de química, suas sandálias de Mercúrio, um velho ventilador etc), sentada de pernas cruzadas, só de calcinhas e a vasculhar o conteúdo de três caixas de papelão, destas descartadas pelos supermercados, uma de água sanitária, uma de uma marca de bolacha de água e sal e uma de amaciante.
Do banheiro, Rubens ouve a pergunta de Manoela. Está terminando de se enxugar, secando o pau e o saco com a toalha, aspirando fundo e demoradamente, feito um somellier a inalar os eflúvios dionisíacos de um bom vinho, o resto da atmosfera de vapor enfeitada com a pantanosa e musguenta paleta de cheiros extraída por ele dos intestinos de Manoela, que, em agonia e êxtase, o recebeu inteiro em seus subterrâneos.
Lembra, então, que deixara as caixas no chão do cômodo, que não as recolocara de volta ao maleiro do guarda-roupas ao fim da limpeza e do reforço com naftalina. Rubens raramente limpa o maleiro. Não o faz uma vez por ano. Nem a cada dois ou três. Não o faz aproveitando o ócio das férias. Limpa-o quando quer se lembrar. Dos tempos idos, dos amigos, das ex-namoradas, de velhas notícias e, principalmente, quando quer se lembrar de Rubens. Limpa o maleiro quando quer se fazer uma visita surpresa.
As caixas de papelão no maleiro de Rubens são conservas de lembranças, compotas lacradas e esterilizadas de recordações, são um necrotério das memórias de Rubens, todas etiquetadas nos dedões dos pés e guardadas em esquifes frigoríficos, tiradas de vez em quando para que Rubens se lembre delas, se lembre de qual foi a causa mortis de cada uma.
Nas caixas, Rubens guarda umas poucas velhas fotos, álbuns de selos, vários cadernos espirais e blocos com escritos e anotações, mais de uma centena de cartas recebidas e número quase igual de cópias em xerox das enviadas em resposta, mapas e roteiros das poucas viagens que fez, cédulas de extintas moedas brasileiras (cruzeiro, cruzado, cruzado novo etc), duas raquetes de pingue-pongue, um vidrinho âmbar contendo dois cristais de cianeto de potássio, também obtidos nos tempos do curso de química e com o objetivo de morrer jovem (antes dos trinta anos, planejou Rubens, um dia), uns jornais de poesia mimeografados, uns fanzines xerocados, rolhas de vinho e os tais desenhos, as tais histórias em quadrinhos agora nas mãos de Manoela.
Toalha enrolada à cintura, Rubens vai à cozinha, pega dois latões de cerveja e senta-se ao lado de Manoela. Um latão para ele, outro para ela. Brindam. Tomam um grande gole.
- Foi você quem desenhou estas histórias em quadrinhos, Rubens?
- Sim, fui eu. Foi o meu primeiro sonho profissional, ser um ilustrador. Por muito tempo, quis ser um desenhista de quadrinhos, de super-heróis. Sonhava em ver meu nome nos créditos dos gibis da Marvel e da DC.
- E por que não foi adiante?
- O de sempre, mais pretensão do que talento.
- Mas existem cursos, escolas de desenho...
- Sim, mas não existem escolas que nos dê talento.
- Talento se adquire, Rubens, com muito esforço, com muita dedicação.
Tadinha, pensa Rubens, olhando para os peitos de Manoela. Manoela é graduada numa dessas faculdades de "ciências" humanas, sociais ou coisa que o valha. Acredita que qualquer um pode ser o que quiser. Que esforço e empenho têm a ver com resultado e merecimento.
- Cheguei a frequentar alguns desses cursos, uns três ou quatro, na verdade; anatomia humana, perspectiva, luz e sombra etc. E treinava incansavelmente as técnicas ensinadas nas aulas, mas os ganhos na qualidade do meu traço eram pífios. E acho até que teria continuado a insistir por muito tempo nessa ilusão, mas o cara do último curso que fiz veio-me com a revelação, com a libertação, na forma de uma má notícia, mas, assim mesmo, com a minha libertação dos lápis HB e das canetas nanquim que insistiam em não responder aos meus comandos.
Rubens para um pouco para outro gole. Acaba com o latão. Pega outro, volta, olha os peitos de Manoela e continua.
- No intervalo de uma aula, queixei-me a ele de meu inexistente progresso, apesar de toda minha dedicação, e o que ele me disse, lembro-me até hoje : uma escola de desenho é como uma escola normal, Rubens, dessas que te alfabetizam, a professora te ensinou a ler e a escrever, apresentou as letras a você, mas daí a você se tornar um grande escritor, um Machado de Assis, fica por sua conta. Simples, claro e genial, Manoela. Ele podia me ensinar o be-a-bá, as primeiras letras da perspectiva, das proporções da figura humana, mas daí a eu me tornar um Jack Kirby, um John Buscema, um Jim Steranko, ficava por minha conta. Ou, nesse caso, não ficava. Faltava ainda um mês para o término do curso. Nunca mais voltei.
Manoela também acaba com o seu latão. Rubens olha pros peitos de Manoela, se levanta, pega outro latão pra ela e volta.
- É duro quando nossos planos e sonhos não saem do papel, né, Rubens?
- Bom, nesse caso, meus planos e sonhos não chegaram ao papel, literalmente.
Riem. Bebem mais. Se beijam. Rubens olha para os peitos de Manoela.
- Mas quer saber duma coisa? Até que tem uns personagens bem estranhos e interessantes aqui - diz Manoela virando folha a folha.
- Pois é, durante o tempo em que durou a ilusão, cheguei a criar uns super-heróis meio mequetrefes.
Rubens pega algumas folhas das mãos de Manoela, olha para os peitos dela, olha para os quadrinhos e se lembra. Tinha um personagem que era um cavaleiro medieval, com penacho vermelho no elmo e tudo; lembra-se de que nunca chegou a lhe dar um nome nem a definir seus poderes, e que o usou uma única vez, numa rápida aparição na história de um outro personagem : o matou numa sequência de três quadrinhos.
Tinha outro que era um pacato cidadão comum, desempregado, que respondera a um anúncio classificado para uma vaga na outrora soberba e imponente Cervejaria Antarctica de Ribeirão Preto; hoje extinta há muito. Ao se dirigir para a sala do entrevistador, passando pelo interior da fábrica, descuidou-se e caiu dentro de uma caldeira com caldo de cevada fervente; ao invés de matá-lo escaldado, a mistura de cevada, aliada ao metabolismo ímpar do cara, deu-lhe poderes sobre-humanos, ele passou a ser capaz de se transmutar num pinguim gigante - o símbolo da Antarctica até hoje -, num pinguim de proporções humanas. Igualmente ao cavaleiro medieval, Rubens se lembra de que não lhe batizou, de que não decidiu sobre seus superpoderes, que, afinal, talvez fossem... ser um pinguim gigante; nunca nem terminou a história com a sua origem.
Rubens vira outra folha e sorri, eis o carro-chefe de seu universo de heróis, o seu Homem Aranha : o Sinapse. O Sinapse era um cara com o rosto sempre nas sombras, de feições esfumaçadas e indefinidas (o que era muito útil para quem não sabia desenhar bem rostos; aliás, bem nada), usava sempre um grande chapéu marrom e um longo sobretudo de mesma cor. Possuia habilidades atléticas, acrobáticas e marciais acima da média, frutos de muito treinamento. O seu poder além-homem : o Sinapse era capaz de concentrar as cargas de todos os impulsos elétricos gerados pelo cerébro - as cargas das sinapses, portanto -, canalizá-las num único fluxo para a sua mão esquerda e liberá-las, contra o inimigo, num fulgurante e mortal raio azul-esverdeado. Porém, tal recurso só deveria ser utilizado em situações de extrema urgência, em inescapáveis sinucas de bico, pois assim que o raio era desferido, o Sinapse, literalmente, descarregava. Todos os seus comandos cerebrais cessavam temporariamente e ele apagava. Se o raio errasse o alvo, ou não se mostrasse intenso o suficiente para liquidar com o inimigo, seria o fim do Sinapse. O Sinapse é a versão (pseudo)científica de Rubens para a origem mística dos poderes do Punho de Ferro.
- E depois disso - fala Manoela, interrompendo as lembranças de Rubens -, nunca teve outro sonho profissional?
- Depois disso, tomei o caminho mais prudente para os sem talento, cursei uma faculdade e aqui estou, trinta e tantos anos depois.
Olha os peitos de Manoela, vai à cozinha e pega outros dois latões.
- Tem muita coisa escrita aqui nessa caixa, Rubens.
- Coisas irrelevantes, cartas, diários, anotações...
- Me baseando só nesse pequeno baú do tesouro sobre você que acabo de achar, vejo que você escreveu muito mais na vida do que desenhou. Em algumas madrugadas que durmo aqui, nesses poucos meses que nos conhecemos, às vezes acordo para ir ao banheiro e vejo você na sacada, escrevendo. Nunca teve o sonho de ser escritor?
- Talvez eu o tenha, até hoje.
- Puta que o pariu! E tá esperando o quê, Rubens? O que já fez por esse sonho? Faça cursos de redação e estilo, Rubens. Capacite-se. Envie seus originais para editoras, hoje, com a internet, isso ficou muito mais fácil. Invista nesse seu sonho, Rubens. Sempre há tempo.
O que as tais faculdades de "humanas" não fazem com a cabeça de uma pessoa?, pensa Rubens em meio a um longo gole. Manoela adora esses mantras neurolinguísticos. Essas frases motivadoras, esses clichês de autoajuda. Adora o termo "capacitar-se". Nessas horas, Rubens queria ter uma frota de caminhões, só para preencher todos os para-choques com as frases de Manoela. Rubens olha para os peitos de Manoela e decide que ela vale a pena. Ainda.
- Não fiz nada por esse sonho.
- E nem vai fazer?
- Não.
- Vai, simplesmente, deixar que ele morra?
- Não. Vou mantê-lo guardado e conservado a naftalina nessas caixas. Em livros não publicados nas prateleiras da Biblioteca do Sonhar. Vou mantê-lo minha Bagdá engarrafada.
- Biblioteca do Sonhar, Bagdá engarrafada? - estranha Manoela - Não é melhor parar com a cerveja, não?
- Ora, ora - sorri Rubens - está me dizendo que nunca leu o Sandman nº 50?

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Testamento, por Jotabê

É dez mil vezes melhor que a canção "Epitáfio", dos Titãs ("O acaso vai me proteger,, enquanto eu andar distraído...), que teve a letra "inspirada" no poema Instantes, de Jorge Luís Borges. A disposição dos versos, a cadência de cada frase, também me lembraram muito da fantástica letra de "Se puder sem medo", do menestrel Oswaldo Montenegro.
Não é Titãs nem Jorge Luis Borges nem Oswaldo Montenegro. É Jotabê. O ermitão de BH. O eremita do Blogson Crusoe. Um poema inspiradíssimo. Feito com a propriedade de quem envelheceu/envelhece com serenidade e aceitação; em suma, com dignidade. 
E, porra JB, sem essa de despedidas precoces. Se, um dia, ela for inevitável, é você quem tem que nos avisar com três dias de antecedência. Pra gente encomendar cerveja em dobro.

Testamento
Esta casa agora é sua.
Seu também é tudo que nela existe:
Móveis, eletrodomésticos, discos, livros,
Revistas em quadrinhos, coleções.
DVDs, fitas VHS e retratos também são seus.


Meus arquivos no computador pode apagar, se achar melhor;
Minhas roupas e calçados, meus remédios,
Carro, saldo bancário, dívidas, carnês,
Contas para pagar, roupas de cama e mesa, ferramentas,
Utensílios de cozinha, quadros, plantas e vasos.


Telefones, celulares, tintas, pincéis, lápis e canetas,
Materiais de escritório, material de limpeza, alimentos,
Documentos, certidões, tudo o que for tangível, enfim, é seu.
Filha, irmãos e parentes também são seus.
A partir de agora, só seus. Nada mais me pertence.


Que mais você poderia desejar?
Não consigo te dar meus sonhos, minhas fraquezas.
Alegrias, lembranças, ódios, rancores, humor, farras,
Dores, decepções, conquistas, pensamentos, porres,
Crenças, certezas, conhecimentos, vivências, ignorância.


Medos, fantasias, amizades fugazes e inimizades eternas,
Esperanças e tudo o que está relacionado à Vida.
Não consigo te dar minha vida, infelizmente.
Mas, se quiser, posso te dar minha libertação. Apenas avise-me Com três dias de antecedência.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Recesso do Feriadão

Ninguém é de ferro. Nem o Azarão. De amanhã até domingo, minha Marreta, que não é parlamentar nem nada, mas que também é filha de deus (do Thor), entrará em recesso. Continuará em riste, em prontidão, mas em recesso. Vislumbrar novas paisagens, respirar novos ares, tomar novas boas e baratas.

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (32)

Ele é o patrono das mulheres da difícil vida fácil. É o santo padroeiro e protetor das profissionais dos serviços sem nota. E, também, é claro, é corno : Odair José.
Década de 1970 : assim como as de muitos outros artistas populares, a imprensa vigente, que, hoje é patente, sempre teve um cunho canalho-esquerdista, classificou a obra de Odair José de cafona, de subcultura.
Eram tempos, também, de grandes compositores, grandes compositores de - hoje, sabemos - pequenos caráteres; em suma, toda aquela turma que sempre vencia os Festivais da Record, os inteligentinhos da época, os engajados politicamente. Até porque é muito fácil ser engajado, ficar militando pra cima e pra baixo, quando se nasce em berço de ouro, quando não se tem que trabalhar de sol a sol para garantir o sustento, como era o caso de Odair José, Aguinaldo Timóteo, Waldick Soriano e outros
O fato de alguns desses verdadeiros gênios da música serem de esquerda dava base ao silogismo safado de que todo esquerdista era, igualmente, um gênio (o Chico é gênio (verdade absoluta), o Chico é de esquerda (uma verdade, talvez, conveniente), logo, todo mundo de esquerda é gênio (uma falácia da porra)). Dava o aval que a tendenciosa imprensa precisava para banir Odair José e os cafonas do panteão da MPB, colocá-los na casta de párias, de intocáveis, literalmente.
(Recomendo fortemente a leitura livro "Eu Não Sou Cachorro, Não", do historiador Paulo César de Araújo, o mesmo da polêmica biografia não-autorizado do Rei).
Hoje, porém, com vistas aos atuais queridinhos da mídia, aos atuais incensados pelos inteligentinhos, pelos antenados e pelos membros maconheiros dos diretórios acadêmicos dos abomináveis cursos de "humanas", Odair José é um verdadeiro erudito. Um iluminista. Com vistas aos sertanejos universitários, aos raps e aos Rappas, aos MCs e aos Emicidas, Odair José é um poeta de primeira grandeza. Um Vinícius de Moraes do baixo meretrício.
Verdadeiramente, um poeta do povo. Muito mais socialista, ainda que involuntária e inconscientemente, que Chico e sua gangue, com muito mais consciência social. Quem cantou as agruras do desvalido, do desdentado, do engraxate, do feirante, do biscateiro e, sobretudo, das putas, numa época em que puta era mesmo puta e não "modelo e atriz"? João Gilberto? Tom Jobim? O mano Caetano? Porra nenhuma. Odair José.
E o velho bardo da Praça Tiradentes continua a pleno vigor. No CD "A Praça Tiradentes", produzido por Zeca Baleiro e lançado em 2012, Odair José nos mostra que ainda tem muita lenha pra queimar, que o lobo perde o pelo mas não perde o vício.
No CD, Odair José reafirma o seu afeto e sua predileção pelas putas e, consequentemente, abraça mais uma vez a sua condição de corno. Manso e assumido. Na canção "E depois volte pra mim", feita em parceria com Zeca Baleiro e, rezam as lendas, composta em homenagem à Bruna Surfistinha, o corno está ligado que sua namorada entrega marmita pra fora, apesar de todos os subterfúgios e desculpas esfarrapadas usados pela moça para esconder seu verdadeiro ofício - "pra todo mundo, ela diz que é modelo e atriz, mas hoje eu sei na verdade o que ela faz, quando me telefona pra dizer que não vem mais". Compreensivo e solidário, o corno resolve aliviar o fardo e a culpa da puta e abre o jogo : "não precisa mais mentir, quero você mesmo assim, diga sempre que me ama, vá fazer o seu programa e depois volte pra mim". Pããããããta que o pariu!!!
Grande Odair José. Um exemplo de corno a ser seguido!
Recomendo, também, a audição do cd A Praça Tiradentes. Bom pra caralho.
E Depois Volte Pra Mim
(Odair José/Zeca Baleiro)
Quando eu a conheci,
Num programa de tv, 
Ela se aproximou e falou, muito prazer, 
Por seu riso de menina, me apaixonei no ato, 
Fiquei tonto, sem razão, me encantei com seu teatro.
Os amigos me falavam, mas a ficha não caia, 
Fiquei perdido de amor, 
Todos viam o que eu nao via.

Pra todo mundo, ela diz que é modelo e atriz, 
Mas hoje eu sei na verdade o que ela faz, 
Quando me telefona pra dizer que não vem mais. 
Pra todo mundo ela diz que é modelo e atriz, 
Mas hoje eu sei na verdade o que ela faz, 
Quando me telefona pra dizer que não vem mais

Não precisa mais mentir, 
Quero você mesmo assim, 
Diga que me ama, 
Vá fazer o seu programa 
E depois volte pra mim.
Não precisa mais mentir, 
Quero voce mesmo assim, 
Diga que me ama, 
Vá fazer o seu programa 
E depois volte pra mim.

Para ouvir a música, basta dar uma clicadinha aqui, no meu poderoso e  infatigável MARRETÃO 

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Tchau, Stan Lee...

Certa vez, um alemão disse : "Deus está morto". Alarmista e precipitado, esse menino alemão. Deus não estava. Está agora. Hoje, aos 95 anos de idade, morreu Stan Lee, criador do universo Marvel. 
Rezam as lendas do universo da maravilhas que inúmeras são as fontes transformadoras que podem elevar certos agraciados de sua mísera condição de simples humanos e dotá-los de poderes de semideuses. Radiações, mutações, substâncias milagrosas, névoas terrígenas, artefatos místicos, tecnologia extraterrestre, evolução do Homo Sapiens para o Homo Superior etc etc.
Lendas, simples lendas. No universo Marvel, não há lugar para o acidente, para o aleatório, muito menos para a evolução. Darwin não apita nada por lá, é um verdadeiro picareta. Toda a criação, toda a modelagem do barro, passa por uma única mão : Stan Lee.
Stan Lee é o homem por detrás da máscara. Por detrás de todas as máscaras. Ou, ao menos, daquelas que importam. Quarteto Fantástico, Hulk, Homem-Aranha, Demolidor, X-Men, Homem de Ferro, Nick Fury e a Shield, Surfista Prateado, os Vingadores e outros e mais outros. Alguns de seus filhos seguiram o caminho da retidão e da justiça, outros - como acontece em toda família - desvirtuaram os ensinamentos do pai e percorreram o caminho do crime; Stan Lee criou, igualmente, uma legião de vilões. 
Tentei achar na internet a quantidade de filhos de Stan Lee. Não achei. Mas vos asseguro de que são centenas. 
Fazendo uma comparação igualmente elogiosa para ambas as partes, eu digo que Stan Lee foi o Chico Anysio do universo dos super-heróis.
Hoje, Hela, a deusa nórdica da morte, se valendo do subterfúgio canalha de uma pneumonia, levou Stan para o seu lado, para o seu reino sombrio.
Mas me chegaram boatos de fontes fidedignas de que Odin já está a ter com Hela, a lhe passar uma descompostura, e de que já está com Stan Lee sob sua custódia, conduzindo-o, nesse momento, para o dourado Valhala, com as honras e as pompas devidas a um guerreiro tombado em batalha, escoltados por um séquito de valquírias loiras e peitudíssimas.
 
1922 - 2018
Excelsior, meu velho, excelsior!

sábado, 10 de novembro de 2018

Uma Cerveja com James Gordon

No intervalo de um episódio de "Eu, a Patroa e as Crianças", transmitido por um desses canais mais-do-mesmo da tv a cabo, na propaganda de uma das outras atrações da emissora, apareceram dois apresentadores de um programa de comentários e sugestões de filmes, dois caras sentados num sofá e comendo pipoca. Um deles estava com uma camiseta do Batman. Não uma camiseta qualquer. A do uniforme clássico. Não uma das inúmeras variações e distorções, pós-Tim Burton, do traje do morcego, não dessas vendidas, hoje, em qualquer camelô, em qualquer loja de rodoviária.
A clássica. Fundo cinza não muito escuro e, no peito, a elipse amarela a circunscrever o morcego negro; concepção imortal, tal traje, do lendário ilustrador Carmine Infantino.
Tenho uma camiseta dessa - lembrei-me! Comprada em 1989, por ocasião do aniversário dos 50 anos do filho mais dileto de Gotham City. O ano chinês do morcego. Ano de muita celebração, marcado por publicações de muitas minisséries, de excelentes graphic novels e pelo lançamento do filme Batman, de Tim Burton, com Michael "Batman" Keaton e Jack "Curinga" Nicholson. Camiseta oficial do cinquetenário. Com o selo de aprovação e garantia de qualidade da própria DC Comics.
Não tenho boa memória para detalhes. Até me lembro de ter feito isso ou aquilo, de ter estudado em tal escola, de ter viajado para certos lugares, das mulheres que comi etc, mas me lembro sem pormenores. As lembranças não me vêm em imagens e sons cinematográficos de altas definições e fidelidade, sim em ecos esparsos, em lamentos de fantasmas não sepultados, sim em teatros de sombras, de vultos.
Não foi assim desta vez. À visão da camiseta, a memória se projetou com perfeição na tela quase sempre em branco da pré-velhice. Tudo estava de volta. Eu e meu amigo Jaimão esperando por horas na fila invertebrada que contornava quarteirões, para garantirmos nossos assentos no cine Comodoro e assistir ao tão esperado Batman. O único cinema de Ribeirão Preto, na época, a ter contrato de exibição com a Warner. O único cinema em Ribeirão, hoje, a se manter em atividade no velho centro da cidade, ainda que, por questões de sobrevivência, tenha se rendido ao ramo do entretenimento adulto, o que lhe valeu o apelido pelo qual é conhecido atualmente, cine Pornodoro. Todos os outros cinemas centrais - eram mais de uma dúzia - foram abatidos pelo advento dos escrotos e impessoais shopping centers.
Chegou-me tudo com ofuscante nitidez. As roupas que usávamos, as conversas que tivemos enquanto esperávamos, nossos estados de ânimo, nossas expectativas, que beiravam uma crise de ansiedade, uma agonia da qual chego a sentir saudades, uma vez que sentimento exclusivo de quem muito fortemente deseja algo - há tempos não desejo a esse ponto. Uma aflição que era filha do desejo com a falta de informação. Eram tempos pré-internet, para o bem e para o mal.
Era muito mais fácil as produtoras manterem segredos em torno dos filmes antes de suas estreias, muito mais fácil jogar para o público apenas as informações selecionadas que queriam que soubéssemos, cruéis gotas homeopáticas que, longe de matar nossa sede, só punha um deserto ainda mais árido em nossas gargantas. O filme estava anunciado há mais de ano, quando do início de sua produção, e quase nada sabíamos dele. Uma neblina e uma noite ainda mais impenetráveis que as de Gotham o envolvia. Tudo o que tínhamos eram as poucas imagens estampadas nas revistas do ramo e as pequenas notas de rodapé  divulgadas pela imprensa.
Lembrei-me de tudo. Do calor que fazia no dia, dos últimos raios do sol poente a arranhar nossas retinas - entráramos na fila pouco antes das 17 h, para pegar a sessão das 20 h -, dos boatos que corriam pela fila de que os lugares para a próxima sessão, a das 18h, e para a seguinte a ela, a das 20 h, já haviam se esgotado - só conseguimos lugar na sessão das 22 h. Imagine só se, hoje, eu esperaria cinco horas por alguma coisa. Não esperaria cinco horas numa fila nem pra comer a Scarlett Johansson. Lembrei-me de nossas falas, de nossas previsões e especulações de como seria o filme, de nossa tentativa - uma forma de matar o tempo - de montar o quebra-cabeça com tão pouca informação, com tão poucas peças disponíveis. Lembrei-me - de médico e de louco e de crítico de cinema, todo mundo tem um pouco - de nossas certezas antecipadas da péssima escolha de Michael Keaton para o papel do Batman e da excelente escolha do iluminado Jack Nicholson para o papel do palhaço do crime - certezas confirmadas com poucos minutos de projeção.
O presente puxando-me de volta, ocorreu-me : eu tinha 22 anos à época; o Jaimão, 19. Era o ano de 1989. A camiseta que deflagrara a paudurescência de minha memória completará 30 anos no ano que vem, 2019. Trinta anos. Tem a camiseta, hoje, mais idade do que eu tinha quando a comprei.
Batman completara 50 anos, então. Bruce Wayne adentrara à meia-idade, era um senhor distinto, galante, conservado e em muito boa forma; eu, um jovem universitário, inocente, puro e besta.
Ano que vem, Batman completará 80 anos de vida, um justiceiro octogenário que não se arriscará mais em sair para combater o crime sem verificar o estoque de fraldas geriátricas e de Corega no seu bat-cinto de utilidades; eu, um cinquentão acabado e vencido. É a podridão, meu velho.
Fui cuidar da lida. Desliguei a tv, lavei e guardei a remanescente louça da pia, recolhi as gatas, enfim, fui me ocupar do comezinho para tentar esquecer do passado. A imagem da camiseta, porém, não me abandonou.
Fui ao guarda-roupas - senti-me o próprio Batman a descerrar as emperradas, pela falta de uso, portas da bat-caverna -, escavei fundo uma das gavetas e lá estava ela. Conservadíssima. Como se ontem eu a tivesse retirado da loja - usei-a poucas vezes. Nenhum sinal de desbotamento ou de ataques de traças. Guardei-a. Não a recoloquei ao fundo da gaveta, entretanto. Deixei-a por cima. E esperei. Esperei o filho dormir, a esposa, as gatas, a casa.
Silencioso, imperceptível e indetectável como só o Batman sabe ser, peguei a camiseta no guarda-roupas. Esquivo e célere, tranquei-me com ela no banheiro. Vesti-a. Serviu-me perfeitamente. Como 1989 fosse. Naquele momento, 1989 era!
Uma sombra dançou pelo banheiro e desceu sobre o meu semblante. Olhei-me no espelho. Não tive dúvidas. Gritei : I'm Batman! Era verdade. Em 1989, eu era o Batman. Com 22 anos, todos éramos o Batman!
Com pesar e relutância, desvesti a camiseta (a sombra abandonou minhas faces), devolvi-a ao guarda-roupas tão silenciosamente quanto a tirara, voltei ao banheiro, escovei os dentes e fui me deitar. E fui me deitar. 
Com uma vontade danada e uma saudade doída de saltar e de correr pelos telhados, de me sentar em vigília sobre as gárgulas, de esmurrar a sempre zombeteira cara do Curinga, de jogar "o que é o que é?" com o Charada, "cara ou coroa" com o Duas-Caras, de me atracar com a Mulher-Gato.
Com uma vontade filha da puta de, ao fim do expediente, na troca de turnos da madrugada com o arrebol, no rápido roçar da Lua com o Sol na sala do relógio do cartão de ponto, tomar uma cerveja gelada com o Comissário Gordon.