quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

A Ventura de Sísifo (Ou : uma Nênia ao Magistério)

Sísifo é que era feliz.

É bem verdade
Que a pedra
(sua dura rotina, sua inimiga e seu ganha-pão),
Sólida e satisfeita em sua ignorância,
Pétrea e confortável em sua burrice,
Estava lá de volta,
No dia seguinte,
No mesmo lugar,
Ao pé da montanha.
Como se ninguém houvesse,
Dia anterior,
Levado-a, a sofridos suores, ao topo.

E no dia seguinte,
E no dia seguinte,
E no dia seguinte...

Mas a pedra,
Ao menos,
Não se opunha a que a elevassem momentaneamente às alturas,
Não oferecia resistência ou combate
Não reclamava do empurrão:
Não complicava a vida de Sísifo.
E se lá de cima rolava,
E se de novo se punha ao rés do chão
Não era por impertinência,
Não era por provocação,
Não era por insolência.
Era tão-somente pela inércia do seu ser,
Pelo inescapável de sua natureza,
A de quem não nasceu mesmo
Para mirar largos horizontes.

(preferiria, muito mais, eu, uma sala cheia de bem-educadas pedras rolantes)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

É a Podridão, Meu Velho (19)

21:18 h.
O Sol ainda tenta pegar no sono
Nesses tempos de horário de verão
(tomou um rivotril, o Sol, e espera seus efeitos).
Já se abate
E faz ninho sobre mim
O cansaço e o desnorteio
De como se três ou quatro horas da madrugada fossem.

E pensar que eu,
Que hoje só atendo
Só respondo
Só me ponho em movimento
Mediante ao toque do clarim do rádio-relógio-despertador
(nunca sintonizei única estação nele),
Até há não muito tempo,
Até há bem dizer
Ontem,
Só era atraído à rua
Pela luz da lua portátil e de 1.000 watts do Comissário Gordon.

E pensar que eu,
Até há não muito tempo
Até há bem dizer
Ontem,
Só ia me deitar
Na hora em que hoje acordo.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Thor, o Vermelho

Não bastasse ser o Demiurgo Supremo do Universo Marvel, Stan Lee incorporou personagens de outras mitologias ao seu mundo das maravilhas. Thor é o mais famoso deles.
O Thor de Stan Lee, contudo, guarda poucas semelhanças com o Thor nórdico, o ruivo, o vermelho.
Walt Disney também importou para o seu mundo inúmeros personagens de outros autores, marcadamente de antigos contos de fadas. Contos que, nas suas versões originais, nada tinham de singelos e de confortadores; antes pelo contrário, eram terríveis, assustadores, feitos mesmo com o propósito não de agradar às crianças, sim de apavorá-las, de deixá-las petrificadas de medo, para que fossem dormir e dessem um pouco de sossego aos pais. 
Só a exemplos, Chapeuzinho Vermelho e Cinderela. No conto original da Chapeuzinho Vermelho, de Perrault, o Lobo mata a avó, mas não a devora. Quando Chapeuzinho chega em casa, o Lobo fantasiado oferece a carne da avó para a menina comer, que come toda a carne e ainda toma uma taça de vinho, na verdade, o sangue da avó. Na hora de fazer naninha, Chapeuzinho Vermelho se deita nua com o Lobo na cama, que, não sendo de ferro, devora a menina. Em Cinderela, dos Irmãos Grimm, doidas para desencalhar e tirar as teias de aranha, as irmãs más da Cinderela cortam uma os dedos do pé e outra o calcanhar, na tentativa de calçar o sapatinho de cristal e abiscoitar a rola do princípe encantado. O princípe é avisado do embuste e acaba por não desposar nenhuma delas. Ainda, as duas irmãs tem os olhos furados por aqueles alegres, cândidos e dóceis passarinhos que ajudam Cinderela no filme da Disney.
Walt Disney limpou os contos originais de seus elementos tétricos, de suas sombras, de seus macabros, os higienizou e os tornou palatáveis, mesmo que insossos, ao gosto do americano médio das décadas de 1950, 1960, adaptou-os ao "sonho americano", ao American Way of Life; talvez tenha iniciado, sem intenção, o politicamente correto.
O mesmo aconteceu com o Thor ao ser transposto para os quadrinhos. Stan Lee submeteu o deus do Trovão a um processo de disneyficação. Foi como se o Thor, ao atravessar o portal entre as dimensões da mitologia nórdica e do Universo Marvel, tivesse sido limpo e despojado de seus atributos mais rudes, rústicos e brutos, de suas qualidades mais másculas.
Stan Lee dysneyficou o Thor. O Thor é a Cinderela do Stan Lee.
O Thor de Stan Lee é alto, elegante e esguio, tem o físico de quem malha em academia, está sempre com a barba bem feitinha, tem olhos azuis, e ostenta longas, brilhantes e sedosas madeixas loiras de foto de caixa de tintura da Loreal. Ou seja, o Thor de Stan Lee é o irmão gêmeo do Rodrigo Hilbert. Pããããta que o pariu!!! O Thor nórdico tem modos e compleição física abrutalhados, não tem barriga tanquinho, tem é de tanque de guerra, é massudo, tem barba desgrenhada e mal cuidada, não tem físico de quem puxa ( e leva ) ferro se admirando num espelho, tem físico de remador, de gladiador romano.
Também educado, gentil e erudito, o Thor de Stan Lee; só trata as mulheres por milady e os homens por milorde, só fala em segunda pessoa, é tu para lá, é vós para cá. O Thor nórdico não tem nada de gentilezas, de finos tratos e de ilustrações, é cria de ambientes hostis e sangrentos, onde os fracos não tem vez, se pedir "por favor", leva uma machadada na testa, se disser "obrigado e com licença", lhe comem o cu; tem linguajar de marinheiro, de zonão de cais de porto.
O Thor de Stan Lee tem um martelo mágico com o qual invoca raios e tempestades para lançar contra seus oponentes, e que também lhe serve como propulsor para alçar voo. O Thor nórdico também tem um martelo com o qual é capaz de invocar raios e tempestades, e este é o único ponto em comum entre os dois, ou o ponto quase em comum. O martelo do Thor nórdico não se presta só à guerra. Com ele, o filho dileto de Odin pode celebrar casamentos e batizados, pode abençoar a terra e garantir boa colheita, pode acalmar as tormentas e garantir boa pesca e navegação. Só não sei se é capaz de curar viking broxa. Além disso, o martelo do Thor nórdico não lhe confere o poder de voo, para o que Thor se vale de uma biga puxada por dois bodes voadores, Tanngrisnir e Tanngnjóstr.
O Thor nórdico nos dá a impressão de que está sempre recém-saído de uma batalha viking, de uma pilhagem a terras bárbaras, de um confronto com borrascas, serpentes marinhas, trolls e gigantes de gelo. E de que vai, depois, descansar e relaxar numa taverna. Vai tomar canecões e mais canecões de mulso (a cerveja lá deles), canecões confeccionados em ossos de baleias. Vai comer, com as mãos, meia dúzia de gordurosos javalis que ele mesmo abateu. Vai arrotar e peidar alto. Vai dançar com as putas até o nascer do dia. O Thor de Stan Lee nos dá a impressão de que está sempre recém-saído de uma sessão de crossfit, ou de uma aula de zumba. E de que vai, depois, descansar e relaxar num restaurante japonês. Vai comer um sushi e um rolinho primavera e tomar uma saquerita de kiwi.
Como diria o personagem Severino, do imortal Paulo Silvino, "mas isso é uma bichona!!!!!!!!!!!".
Algumas representações artísticas do verdadeiro Thor, o Vermelho.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Todo Castigo Pra Biscate é Pouco (3)

Ei-lo de novo. Lupicínio Rodrigues, o maior anti-corno do Brasil. 
O anti-corno é o sujeito que, feito o corno tradicional, leva chifres, assume a galha e esfola à carne viva os cotovelos no balcão sujo e rançoso de um bar. Mas que, diferente do primeiro, não perdoa a biscate. Não a acolhe de volta, não lhe dá abrigo nem guarida, quando ela, na maior cara de pau, cansada de guerra, toda estropiada, bate de novo à porta do lar que desonrou.
Ou, como no caso da canção "Cadeira Vazia", até concede asilo, pousada e repasto à pérfida, mas não por frangalhos de uma esperança de que ela possa se emendar (a esperança do corno é a última que morre; a do anti-corno nem nidifica). Seria, então, por dó, por compaixão, por memória dos bons tempos que tiveram juntos, ou, deus me livre, por caritoso espírito cristão?
Não. Para torturar a biscate lentamente. Para lhe impor humilhação. Para vingar o chifre na testa. 
Na letra, Lupicínio, a vestir a pele do bom samaritano, diz : "Eu não te darei carinho nem afeto/Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto/Pra te alimentar, podes comer meu pão".
Bonzinho, o Lupicínio? Um corno clássico? Nada disso. Ele manterá a biscate sob seus cuidados, lhe dará um teto, lhe alimentará, mas apenas para que a biscate saiba que ele está a observar a ruína dela, a sua degradação, a sua vergonha; para vê-la definhar em culpa e agonizar em remordimento. Dará-lhe casa, comida e roupa lavada, mas negará, à biscate, carinho e afeto, ou seja, a privará do que lhe é mais caro e necessário : a rola, o famoso cacete. 
Biscate não liga de passar fome, de não tomar banho, de viver na rua, mas tem crise de pânico e de abstinência se lhe falta a rola. Lupicínio sabia disso. Lupicínio é pura tortura chinesa para com a biscataiada.
Cadeira Vazia
(Lupicínio Rodrigues)
Entra, meu amor, fica à vontade
E diz com sinceridade 
O que desejas de mim.
Entra, pode entrar, a casa é tua
Já que cansastes de viver na rua
E teus sonhos chegaram ao fim.

Eu sofri demais quando partistes
Passei tantas horas tristes
Que nem quero lembrar este dia
Mas de uma coisa podes ter certeza
Que em teu lugar aqui na minha mesa
Tua cadeira ainda está vazia.

Tu és a filha pródiga que volta
Procurando em minha porta
O que o mundo não te deu
E faz de conta que eu sou teu paizinho
Que tanto tempo aqui ficou sozinho
A esperar por um carinho teu.

Voltastes, estás bem, estou contente
Só me encontrastes muito diferente
Vou te falar de todo coração
Não te darei carinho nem afeto
Mas pra te abrigar pode ocupar meu teto
Pra te alimentar, pode comer meu pão.

Para ouvir "Cadeira Vazia" com o mestre Lupicínio, é só clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.
Lupicínio Rodrigues, de chapéu, que não é para proteger a moleira do sol nem do relento, não; é para esconder os chifres.

Autorretratos em 3x4

Escrevo.
Meus registros
São as migalhas de pão de João e Maria.
Espalhadas para pavimentar e sinalizar o caminho de volta,
Caminho que não terei mesmo fôlego
Para retornar quando chegar ao seu fim.

Meus escritos
São o novelo ofertado por Ariadne
Para que o herói não se embarace
Em sua saída do labirinto.
Inútil, no meu caso.
Uma vez que derrotado pelo Minotauro.

Escrevo porque gosto de me lembrar de mim
E tenho memória fraca.
Escrevo porque detesto fotografias
Mas gosto de autorretratos em 3x4.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

A Cachaça da Ministra Damares

Não sei se a ministra Damares, titular da pasta do "importantíssimo" Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (quer dizer que a mulher é um ser celestial, que não faz parte, ou está além, da família e do gênero humano?) é chegada numa cachacinha, naquela que "matou o guarda".
Provavelmente, não; uma vez que evangélica. Se bem que isso de evangélico não tomar bebida alcoólica, para mim, é puro mis-en-scène, pura fachada. É bem verdade que em suas festas e celebrações, quando é o evangélico quem está bancando o aniversário, o casamento etc, realmente não há birita, eles economizam uma boa grana em nome de Jesus; e depois dão tudo pro pastor. Mas já vi muito "irmão" entornar bem, quando a festa é patrocinada por outrem.
Mas tenho a certeza de que a ministra Damares, mesmo que não seja adepta de uma "branquinha", recomendaria, veementemente, feito aquelas atrizes que fazem publicidade de produtos que, notadamente, não consomem, a cachaça abaixo, fabricada em Aracaju, Sergipe : a CURABICHA.
E farei aqui algo que os leitores do Marreta não estão acostumados a ver : elogiarei a inteligência do brasileiro. Alguns pensarão : ora, Azarão, por certo perdeste o senso. E eu vos direi, no entanto : meu elogio não é bem à inteligência em si do brasileiro, sim ao tipo da inteligência brazuca. Que, sabemos, não é das mais profundas, dedicadas e pujantes. Não é inteligência de cátedras acadêmicas, de, um dia, abiscoitar um Prêmio Nobel, a não ser, quem sabe?, a picaretagem do Nobel da Paz.
Porém, no quesito da irreverência, da galhofa e da gaiatice, não há quem nos bata. É a inteligência da sacada rápida, da tirada espirituosa, do chiste, feito a do gênio que batizou esta cachaça.
É inteligência de fôlego curto, de explosão, não de resistência : de curta distância. Numa Olimpíada de Inteligência, correríamos muito bem os 100 metros rasos e os 400 metros (sem barreiras); dos 800 metros em diante, só com revezamento. A maratona, jamais.
Não é inteligência de produzir novas tecnologias, de levar o homem a Marte, de curar o câncer e a paumolescência. É inteligência lenitiva e paliativa, de trazer uma fugaz alegria ao prosaico da vida. Feito o anão, a quem a única vingança possível é pisar na sombra do gigante.
Nossa inteligência é Phd em disciplinas e conteúdos não acadêmicos. Na modalidade apelidos, por exemplo. Como são os apelidos dos ingleses, dos estadunidenses? Thomas vira Tom; Franklin, Frank; Christopher, Chris; Robert, Bob; William, Bill; Antonhy, Tony; Nicholas, Nick... E a chatice prossegue infinitamente por essa linhas.
No Brasil, não. Por aqui, até tem destes apelidos diminutivos. Tem o Zé, o Tião, o Mané, mas a maioria das alcunhas tem inspiradíssima inspiração nos atributos físicos mal-acabados do sujeito. O narigudo vira "sequestrador de oxigênio"; o gordo, rolha de poça, pudim de banha, chupeta de elefante; o baixinho, gandula de pebolim, salva-vidas de aquário, jardineiro de bonsai, meia-foda, salário mínimo, piloto de hot wheels; o vesgo, um olho no peixe e outro no gato; o magro, tripa, vara de cutucar estrela, puro osso, chassi de grilo; o feio, espanta-bebê, manequim de funerária; o que usa óculos, quatro-olhos, Mr. Magoo, Steve Wonder.
Ou seja, o brasileiro inventou o bullying! O americano só o capitalizou - como sempre.
E na questão, então, da cachaça da Damares? Alguém suporia um escocês, ou um inglês, batizando um uísque de Virgin Pee (Xixi de Virgem)? Ou Cry on The Dick (Chora no Pau)? Um russo registrando uma vodka com o nome de за сумкой (Atrás do Saco)? Um italiano a nomear uma grappa de Domare o Cornuto (Amansa Corno)? Um alemão dar a uma cerveja o nome de  Thread Brennen (Queima Rosca)? Ou um japonês rotular um saquê de 暖かいセーター (Esquenta Xereca)? Só no Brasil!
Além do brilhantismo do nome, o rótulo traz informações de grande sutileza sobre o produto, praticamente uma bula. Como uma cachaça, alguém poderia perguntar, seria capaz de curar uma bicha? A resposta está no rótulo : aguardente de cana mole. Mas é lógico. Se toda cana fosse mole, o boiola desistia da profissão.
E o melhor : a cachaça da ministra Damares vem, é claro, com o rótulo impresso em azul.
Pãããããããta que o pariu!!!!!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Aniversário do Marreta do Azarão

Dez anos de Marreta do Azarão. Dez rounds pesos-pesado. Sem intervalo pra beber água nem pôr gelinho na nuca. Sem clinches. Sem gongo que me salve. Apenas mais dois para o derradeiro 12º round
Perderei, na certa. Por pontos. Em pé. Por decisão fraudulenta dos juízes.
Os braços estão a um triz da total prostração. Erguê-los para desferir um jab contra o inimigo, dói tanto quanto, ou mais, que receber um cruzado no queixo. O supercílio já sangra mais que o recomendável. As pernas não mais gingam e bailam pelo ringue como este fosse pista de patinação no gelo : atolam-se em lama movediça. As asas de borboleta em meus tornozelos foram trocadas por bolas de chumbo de condenados perpétuos.
Já sou mais Maguila que Cassius Clay.

Nunca Foi Tão Barato Ficar de Pau Duro!

Focando-me cada vez mais no meu público da velha guarda, do velho que pouco, ou há muito tempo não "guarda", deixarei aqui e agora uma preciosíssima dica para um gozoso fim de semana geriátrico.
Atravessando, pela hora do almoço, o hediondo "Calçadão" de Ribeirão Preto, com a temperatura a bater nos 40º C, um cartaz (que, hoje, o povão chama de banner) à porta de uma farmácia com as ofertas do dia me chamou a atenção. Lá estava : genérico do Viagra 50 mg do laboratório Sandoz, 1 caixa com dois comprimidos por R$ 15,49; levando 4, cada caixa sai por R$ 5,29.
Pããããããta que o pariu!!!! Uma caixa por quinze reais e quatro por vinte! Oito viagras por vinte reais! Uma noite inteira de pau duro por R$ 2,50. Nunca foi tão barato ficar de pau duro! E se o velhinho tomar metade do comprimido ao invés dele inteiro - o que dizem que já é o suficiente -, a folia no asilo sai ainda mais em conta : R$ 1,25 por uma foda bem dada.
Eu não fazia ideia de que esse tipo de medicamento tinha barateado tanto. Tá mais barato que aspirina. Remédio pra cabeça do pau tá mais barato que pra dor de cabeça!
O que vem a esclarecer muito da mudança de hábitos e de comportamento do pessoal da terceira idade que venho notando há algum tempo.
Pelo menos por aqui na cidade, de uns tempos pra cá, houve uma proliferação de casas noturnas destinadas ao público que já entrou no programa Minha Cova, Minha Pós-Vida, os chamados bailões da terceira idade, os famosos "desmanches". 
Estarão os velhos mais sociais e sociáveis? Porra nenhuma. O viagra barato é a explicação para esse "boom" da balada senil. A mulher idosa, a velha, até sai só para dançar, só para conversar com as amigas, mas o velho? O macho antigo das antigas? De jeito maneira! Se for pra sair só pra dançar, o velho fica em casa vendo filme de caubói (menos O Segredo de Brokeback Mountain) e do Charles Bronson e tomando cerveja Antarctica, que é cerveja de pedreiro. Velho só sai pra dançar se for pra ficar de pau duro durante o bate-coxa, só se for para melar a cueca a cada contradança. Velho de pau mole fica em casa; de pau duro, sai pra dançar.
Outra : a caminho do trabalho, logo pela manhã, passo por uma praça de onde, uma ou duas vezes por mês, saem ônibus de excursão para a terceira idade levando a velharada para Aparecida do Norte, Caldas Novas e outras localidades que tais. Até não muito tempo, noventa por cento ou mais das pessoas que eu via esperando ou embarcando eram mulheres, velhinhas; hoje, a proporção de velhos e velhas está bem equiparada, praticamente meio a meio. 
A explicação? De novo, o viagra barato! A velhinha até viaja para conhecer novos lugares, para tirar foto com as amigas, para comprar lembrancinhas para a parentada. O velhinho, não. O velho tá cagando e andando para conhecer novos lugares, para ver novas paisagens, tá cagando pra selfie, tá pouco se lixando pra esquentar a bunda em águas termais, ou para ver a imagem da padroeira. Se for só para isso, o velho fica em casa, vai tomar rabo de galo com amendoim no buteco, vai jogar truco e dominó com os amigos. Com o viagra barato, porém, o velhinho toma um antes de embarcar e já vai ganhando um boquete no caminho. Pãããããããta que o pariu!!!!!
Eu mesmo, que, longe de ser hoje - é bem verdade - aquela fortaleza de paudurescência do passado, ainda dou pro gasto, ainda dou conta do básico, ainda faço direitinho aquele feijão com arroz sem mistura, me senti tentado a adquirir, confrontado a preço tão módico, o Santo Graal Azul da picadurice.
Resisti, porém.
Mas não sei, não... Se na semana que vem, quando eu passar de novo pela porta da farmácia, a oferta ainda esiver de pé, creio que também eu passarei o fim de semana próximo de pé.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Hoje é Dia de Sala Especial, Baby

Seus olhos brilharão em festiva nostalgia, caro leitor das antigas do Marreta, você que já está na faixa etária dos 45 anos para mais, quando eu revelar o tema desta postagem.
Sua memória, tal e qual a minha, uma fita Basf de ferro já desgastada e desmagnetizada pela vida e pela lida se acenderá em leds a sinalizar as estradas vicinais do passado. Você que não se lembra nem do que comeu ontem (ou quando foi a última vez que comeu alguém) terá reativadas as mais recônditas de suas memórias : a memória afetiva e, sobretudo, a memória punhetiva.
O assunto, hoje, é, rufem os tambores : a Sala Especial.
Lembrou dela, né? Claro que lembrou. Com seus dois cérebros; com sua massa encefálica e com sua massa fálica. Se não ficou em riste, ao menos uma meia-bomba, tenho certeza, a lembrança lhe provocou.
Aos mais novos, cabe aqui um breve esclarecimento histórico.
A Sala Especial era um dos principais - se não o principal - carros-chefe da programação da TV Record dos fins da década de 1970 a meados da de 1980. Era a atração semanal da TV mais aguardada pelos punheteiros deste Brasil dantes mais varonil. Um respiro de luxúria em uma época em que a necessária e terapêutica pornografia era artigo escasso. Época em que, só a lhes dar uma ideia, revistas como a Playboy não podiam exibir a genitália nem os bicos das tetas das gostosas.
A Sala Especial exibia a nata, o suprassumo da vasta produção da pornochanchada brasileira sempre às sextas-feiras no horário das 23:30 h (embora sempre começasse depois da meia-noite) e, geralmente, após a Sessão Faixa Preta, dedicada a filmes de kung fu, gênero de filme então muito em voga. Que é disso que o macho das antigas gosta, de pancadaria e de buceta.
A Sala Especial era o horário nobre da TV Record. O Fantástico dos punheteiros.
Porém, nem tudo eram flores. Quando o filme começava a esquentar, quando, finalmente, parecia que veríamos uns peitinhos, uma bucetinha, ou uns amassos mais ousados, a cena era cortada. Ou entravam os comerciais, ou a cena era dirigida para uma tomada externa, o calçadão de Copacabana, o centro de São Paulo, uma bucólica fazenda etc.
Esta era a grande sacanagem da Sala Especial : não mostrar a sacanagem. 
E não era só isso. Não era só esperar chegar a sexta-feira, ligar a TV e pronto. Nada disso. Assistir à Sala Especial não era atividade simples e tranquila. Envolvia toda uma preparação, uma estratégia quase que de guerra e estávamos sempre sob grande estresse.
Éramos adolescentes, morávamos com os pais, e a putaria não era aceita e liberada como é hoje. Para assistir à Sala Especial tínhamos que estar sempre atentos para burlar a vigilância e a censura materna - muito piores que as do Geisel e as do Figueiredo.
Primeiro, chegado o grande dia, tínhamos de esperar (e torcer muito para) que os pais fossem dormir, o que nem sempre acontecia. Depois, uma vez os genitores em seus justos e merecidos sonos, não podíamos deixar que o som da TV - um gemido mais gozoso de uma atriz - os acordasse e os alertasse do que estávamos a assistir. Fechávamos, pois, a porta que dava para o corredor e que separava a sala dos quartos e dos banheiros. Mais : pais dormindo, porta da sala fechada, havia ainda o risco de um dos queridos genitores se levantar para ir ao banheiro, ou acordar com algum barulho na rua e aproveitar para dar uma fiscalizada na sala. Assim, assistíamos à Sala Especial grudados ao aparelho de TV, para que, ao menor ruído no corredor, trocássemos rapidamente de canal; é, meus caros, na época, controle remoto era item de ficção científica, o negócio era no dedo mesmo, nos botões analógicos e barulhentos da TV, a cada troca de canal era um clec, clec, clec desgraçado. Desenvolvi, inclusive, uma elaborada técnica para trocar de canal sem produzir barulho nas teclas.
E tudo isso, para quê? Para quase vermos um peitinho? Uma sombra de peito, um mamilo eriçado visto na contraluz, feito em um teatro de sombras, já nos dava inspiração para a punheta da semana inteira. Apesar de todo o risco e da pouca recompensa, não desistíamos : na sexta-feira seguinte, estávamos todos lá de novo, a postos.
E todos aqueles peitinhos e aquelas bucetinhas que nos foram negados ao longo dos anos? Para onde iam depois que a cena era cortada? Onde ficavam? Por onde andarão todos eles?
Então, ontem, ao ligar a TV no canal Netflix, surgiu a sugestão de um filme recém-colocado no catálogo do canal : "Histórias que nosso cinema (não) contava.
Li a sinopse e meus olhos marejaram. Ali, bem à minha frente e ao toque do meu controle remoto. Ali estavam todos eles, os peitinhos e as bucetinhas não nos mostrados na Sala Especial.
O filme-documentário foi engenhosamente montado apenas com cenas de vários filmes de pornochanchada das décadas de 1970 e 1980, cenas que foram cortadas não apenas da Sala Especial, mas também dos cinemas em que tiveram suas exibições. Cenas estirpadas das películas pelo departamento de censura da época, por motivos moral e/ou político.
Costuradas em ordem cronológica, as cenas não apresentam apenas os peitinhos e as bucetinhas há tanto escondidos de nós. Embora este seja o fio condutor do filme - os peitinhos e as bucetinhas -, ele pretende também montar um painel social e político do Brasil do "milagre econômico".
Tanto que, caro leitor, você terá de resgatar aquela velha paciência do passado, aquela paciência de atirador de elite em campana à espera do alvo, a paciência de quando assistia à Sala Especial, para passar pela primeira meia hora de filme, a partir do quê, peitinhos, bundinhas e bucetinhas começarão a balouçar e a pulular pela sua tela. 
Peitos das antigas. Sem silicone. Cada um de um formato. Cada um de um tamanho. Uns mais em pé, outros menos. Uns mais caídos, outros menos. Uns mais rosados, outros mais morenos. Todos apetitosos. Destaques para Vera Fischer e Sandra Bréa no auge de suas gostosuras
Além das gostosas, outra tônica do filme são algumas falas dos atores. Falas que fariam arrepiar os pelos das pernas e dos suvacos das feministas. A exemplos : dois amigos olhando para uma cuzuda na praia, comentam : com um rabo desses, eu vivia de renda, diz o primeiro; e ficaria rico, conclui o segundo; dois outros amigos estão a apreciar o derrière de uma mulata e um deles fala : se bunda pagasse imposto, essa mulata tava falida; e, a melhor de todas, dita pelo depois galã global Rubens de Falco, o Leôncio de A Escrava Isaura : "vocês, mulheres, é que são felizes, já nascem com um talão de cheques entre as pernas".
Pããããããããta que o pariu!!!!! Perto disso, o que hoje é considerado politicamente incorreto é um escoteirinho bem comportado.
O filme foi montado com cenas de alguns dos clássicos da pornochanchada nacional : A Super Fêmea, As aventuras amorosas de um padeiro, Amadas e Violentadas, Cada um dá o que tem, o Corpo Devasso, o Enterro da Cafetina, Histórias que Nossas Babás não Contavam, Os Mansos, Palácio de Vênus, A Ilha das Cangaceiras Virgens, Elas São do Baralho etc.
Abaixo, cenas de dois dos grandes campeões de audiência e de punhetagem da Sala Especial.
 A Super Fêmea; com Vera Fischer

As Histórias que Nossas Babás Não Contavam; com Adele de Fátima, ex-mulata do Sargentelli, no papel de Clara de Neves, com direito a sete anões bem-dotados e tudo. Pããããta que o pariu!!! Repito, perto disto, o que hoje chamamos de politicamente incorreto  é nada mais que um tímido e pudico coroinha.

Devo confessar, no entanto, que apesar de muito ter apreciado os peitinhos e as bundinhas censurados, alguma coisa pareceu faltar. Algumas coisas. Primeiro, faltaram os meus 14 anos. Depois, faltou a espera pela sexta-feira, a expectativa, faltaram a tensão e a orelha sempre em pé para não ser flagrado. Faltou até a TV Telefunken, em preto-e-branco, à válvula e com suas teclas barulhentas. 
Enfim, faltaram todas as coisas que o despotismo do tempo nos cortou, todas as coisas as quais a ditadura do tempo censurou.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Xampu de Xavasca

O corpo humano tem de 7% a 8% de sua massa constituída por sangue. Portanto, já feita as devidas conversões de massa para volume, um homem de porte médio, de seus 70, 80 kg, possui de cinco a seis litros de sangue a lhe fluir pelas veias e artérias.
Para ficar livre das impurezas produzidas pelo metabolismo, este volume todo passa pelos rins, em média, trinta vezes por dia, perfazendo um volume bruto filtrado de cerca de 150 a 180 litros/dia. Deste total, apenas 1% é eliminado na forma de urina, os costumeiros um litro, um litro e meio, dois litros de mijo cotidiano. Um rendimento altissímo, 99% de reaproveitamento. Os organismos - e o do ser humano não é exceção - não podem se dar ao luxo do desperdício, eles só eliminam, portanto, o lixo do lixo, o que não pode mais ser aproveitado de nenhuma forma. Assim sendo, nada mais há na urina que nos seja de alguma valia, certo?
Há controvérsias. Sem nenhum fundamento que as apoie, mas há controvérsias. Talvez por vivermos em tempos de falsa consciência ecológica, de reciclagens e de reusos, algumas pessoas tentam arrumar novas utilidades para suas urinas. 
É notória a prática terapêutica alternativa da urinoterapia, que consiste, simplesmente, na pessoa beber o mijo de volta, ou esfregá-lo na pele. Os adeptos garantem que a urina é uma verdadeira panaceia, que cura de tudo. De hipertireodismo à calvície. Passando por regenerações milagrosas de ossos e tecidos, melhora da visão, controle da glicemia e paumolescência.
Cheguei a travar um breve contato com uma moça que garantia ser adepta da urinoterapia. Isso lá pelos idos dos finais da década de 1990, quase na virada do século. Eu era solteiro à época e conheci a tal num bar de rock que costumava frequentar, o Paulistânia. Incomumente (eu nunca conseguia pegar mulher naquele bar), começamos a conversar e tudo indicava que eu teria um fim de noite feliz, nem que fossem uns beijinhos, uns amassos, estava patente que eu me daria bem. Qual o quê...  Lá pelas tantas, ela já tonta, tocou no assunto. Numa das voltas do banheiro, ela disse que dava até dó ver tanta urina ser desperdiçada, ir vaso abaixo daquele jeito. Como assim, desperdiçada?, perguntei. É que eu sou praticante da urinoterapia há mais de dois anos, confessou. E desfiou um rosário de supostos benefícios da prática. 
Depois, o assunto migrou para outros temas, não se falou mais em urinoterapia até o fim da noite, mas, por alguma razão, perdi muito da vontade com que estava de beijar a moça.
Agora, uma apresentadora de rádio britânica garante ter encontrado uma nova aplicação para a urina, uma aplicação mais cosmética que curativa. Beverley Turner, da emissora LBC, substituiu xampus, condicionadores, hidratantes capilares e todo um arsenal de gosmas e de cremes industrializados por um produto natural e autossustentável, a sua urina.
Há dois anos, Beverly passou a lavar seus cabelos utilizando tão-somente a própria urina, e garante que os resultados superam qualquer tratamento capilar feito em salões de beleza. Quando vai para o banho, ela leva um copinho junto, no qual dá uma mijadinha e, aliviada, banha as madeixas com a urina e a fricciona no couro cabeludo. 
A apresentadora fica exultante ao contar e tentar propagar a prática a outras pessoas : "Quem precisa de xampu caro quando você pode lavar a cabeça com a própria urina? Os resultados são fantásticos: tanto nos cabelos (macios e sedosos) quanto nos bolsos. E sem qualquer odor desagradável"
É o xampu de xavasca!
E pensando bem, faz todo sentido. Nunca ouvi nenhuma mulher reclamar de queda de cabelos da buceta; antes pelo contrário, muitas delas reclamam do crescimento excessivo e ininterrupto dos cabelos da xavasca, da necessidade de irem constantemente à depiladora. E pelo é pelo, se faz bem para o cabelo da xoxota, faz bem pro cabelo da cabeça. Faz todo o sentido. 
Pãããããããããta que o pariu se faz!!!
Eis Beverly e suas belas madeixas. Eu comia. Mas não bebia, não.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Machocídio, a Velada Violência Doméstica Contra o Macho

Matemática e biologicamente, as chances de nascimento de uma criança do sexo feminino ou do sexo masculino - salvo as anormalidades - são rigorosamente as mesmas : 50% para cada caso.
Cada genitor, em seu respectivo gameta - óvulo ou espermatozoide -, envia metade de seu material genético à sua cria. Cada um dos 23 pares de cromossomos que nos fazem humanos se separam e apenas um filamento de cada par migra para o gameta.
Desta forma, tendo a mulher dois cromossomos do tipo X em seu 23º par (XX) -  o par que determina o sexo -, todos os óvulos por ela produzidos conterão uma única possível informação genética para o sexo da prole, o X; a mulher é o sexo dito homogamético da espécie.
Por outro lado, sendo XY a constituição cromossômica sexual do homem, ele é o sexo heterogamético da espécie, ou seja, é capaz de produzir dois tipos de informação para o sexo : 50% dos espermatozoides carregam um cromossomo X e 50%, um cromossomo Y.
Se um óvulo (sempre X) for fecundado por um espermatozoide também X, uma nova menina estará a caminho; se fecundado por um espermatozoide Y, um menino logo será dado à luz. Meio a meio de chances, portanto.
Contudo, há uma leve disparidade entre homens e mulheres na população mundial. Estimativas de 2016 mostram uma preponderância do sexo feminino. São 51,6% de mulheres contra 48,4% de homens no mundo. Colocada apenas em termos percentuais, a diferença pode parecer insignificante, mas, se posta em números absolutos, ela revela sua magnitude. Só no Brasil, são 6,3 milhões de mulheres a mais.
Nascem mais mulheres que homens? Estarão, portanto, erradas, a Biologia e a Matemática? Nunca. Elas são infalíveis. São, de fato, praticamente equânimes os números de nascimentos dos dois sexos.
Ocorre que os dados não dizem respeito aos nascidos, mas aos que estão vivos, aos sobreviventes, e as mulheres, em média, vivem um bom tanto a mais de anos que o homem. São vários os fatores que levam à menor durabilidade do macho.
Homens morrem muito mais por mortes violentas que as mulheres; seja em guerras oficiais e declaradas entre nações rivais, seja nas não declaradas guerras civis comandadas pelo crime organizado, a exemplos.
Homens morrem incomparavelmente mais em acidentes de trânsito - os acidentes de trânsito fazem mais vítimas fatais que as doenças cardíacas. Se a mulher é mesmo, ou não, menos hábil que o homem na condução de veículos, é outra questão; o fato é que acidentes de trânsito envolvendo vítimas fatais são majoritariamente protagonizados por homens. O homem é quem vai a 200, 300 km/h só para provar que é mais macho que o macho que acabou de ultrapassá-lo.
O estresse mata mais homens. O estresse de ser o provedor do lar. Mesmo que, hoje em dia, em grande parte dos países ocidentais, muitos casais dividam as responsabilidades financeiras da casa, o ônus moral, digamos assim, ainda recai mais sobre o homem. Quem será mais cobrado pela família e pela sociedade e, sobretudo, pela sogra, caso um deles perca o emprego e demore, digamos, cerca de um ano para se recolocar no mercado de trabalho? Da mulher, dirão : ela está desempregada, mas está cuidando da casa e dos filhos (ué, quer dizer que se ela estivesse empregada, seria desobrigada a isto?). E do homem, numa situação exatamente igual, serão exatamente iguais as palavras ditas sobre ele? Ainda que ele esteja mesmo, e por vezes melhor que a mulher, cuidando da casa e dos filhos?
O alcoolismo e o tabagismo - os dois maiores vícios da humanidade, depois do uso do telefone celular - também levam para a cova muito mais homens que mulheres
O homem é outro fator de risco para si próprio. Homem não se cuida, não atenta para a saúde como deveria. Mulher vai regularmente ao médico, faz papanicolau, faz exame de mama. Homem só corre pro médico se estiver a pôr sangue pra fora. E pelo pau. Se estiver sangrando pelo nariz, boca, orelha, ou qualquer outro orifício, ele também deixa pra lá.
Mas há um outro fator - sempre muito bem escondido do grande público e nunca comentado - que diminui a longevidade do macho muito mais que todos os anteriores somados : uma esposa chata. O casamento com a dona Onça, com a rádio patroa.
Estudos dinamarqueses, publicados no Journal of Epidemiology & Community Health, concluíram que os homens correm mais risco de morte prematura quando são frequentemente importunados pelas esposas (relações estressantes) ou outros entes queridos. 
De acordo com este estudo realizado pela Universidade de Copenhagen, os homens são mais propensos a morrer por causa de um casamento estressante. Ainda segundo os dados, as mulheres parecem estar imunes a este problema. Maridos chatos e reclamões não têm um impacto negativo na saúde das mulheres. Já os homens, a análise dos dados ressalta, têm 2,5 mais probabilidades de morrer no prazo de dez anos por convivência com uma megera.
E por que homens são afetados pela chatice da cônjuge e o contrário não se dá? O mesmo estudo responde. 
Homens não desabafam com outros homens sobre as aporrinhações conjugais, não se abrem com os amigos a respeito das tiranias e dos desmandos de suas esposas. Ou por dignidade, que é própria do macho, ou porque revelar que a mulher o comanda em certas situações o diminuiria na frente dos amigos, faria com que fosse visto como um cara frouxo, fraco. O homem guarda tudo. E a alma vai sendo solapada. O estudo sugere, ainda, que as mulheres sabem disto, o que, deliberada ou inconscientemente, faz com que elas aumentem a carga de aporrinhações sobre o marido, pois têm a garantia de que eles não sairão por aí mal falando delas. Abusam de nossa dignidade.
Já a mulher não tem este problema. A mulher adora falar mal do marido pras amigas. Falar mal do marido é esporte nacional dos mais praticados. Se queixar das opressões maritais só consolida a condição de vítima da mulher frente às amigas, fortalece os laços da irmandade. Ela não é vista como alguém frágil; antes pelo contrário, como uma resiliente sofredora, uma forte. A mulher não guarda nada. Desabafa tudo. O estudo indica, também, que os homens sabem disto, o que, deliberada ou inconscientemente, faz com que eles se contenham em suas reclamações, pois sabem que elas logo sairão por aí mal falando deles. 
É a velada e cotidiana violência doméstica sofrida pelo macho. É o machocídio!
O machocídio mata muito mais que os inimigos em campos de batalha, que as colisões frontais com caminhões, que o desemprego, que o cigarro e o álcool e que o câncer de próstata juntos.
E por que não se ouve falar dele na grande imprensa?  Primeiro, porque dizer da vulnerabilidade do macho vai de encontro aos interesses dos mandatários dos meios de comunicação, pessoas, em sua maioria, de viés comunista/esquerdista, às quais é conveniente manter o quase sempre injusto status de opressor do homem e o de indefesas vítimas de outros segmentos da sociedade. Segundo, que o machocídio é pouco chamativo, tem menos impacto cênico, não produz imagens fortes que possam ser aproveitadas pela imprensa sensacionalista, ou satisfazer a eterna morbidez dos espectadores.
Dificilmente, uma vítima de machocídio apresentará um olho roxo, a boca sangrando, hematomas pelo corpo, ou será morto à bala, ou à faca. O machocídio não é impetuoso, é calmamente planejado e conduzido. O machocídio é sutil, insidioso; não menos brutal, porém. O machocídio não é cometido de fora para dentro - um soco, um tiro, uma facada -, é instalado de dentro para fora, uma lenta e surda implosão. Da alma.
O cara mal saiu da lua de mel e qual é a primeira coisa com que a rádio patroa começa a implicar? Com a sagrada cervejinha do sujeito. E nem estou a dizer do álcool em seu estado mais bruto, da pinga, nem do cara que toma porre atrás de porre e dorme na sarjeta; nada disso. Digo da sacrossanta cerveja, aquelas duas ou três latinhas ao fim do dia. A cerveja é a hóstia consagrada do macho. é através da cerveja que ele se religa e entra em comunhão com o Universo. E o que faz a mulher? Cerceia a religiosidade do sujeito. Um soco na alma.
Depois, vêm os amigos. A dona Onça não gosta deste, não gosta daquele nem daqueloutro. Encontrar com os amigos é uma outra forma do macho moderno se reconectar à sua ancestralidade de caçador-coletor, de prestar o devido tributo às suas origens, de recarregar a sua virilidade primata. A dona Onça também acaba com isto. Uma cutelada na alma.
E a violência doméstica contra o macho só vai piorando : não deixar a tampa da privada levantada, não jogar a toalha molhada em cima da cama, não sentar pelado no sofá, não peidar pela casa, cortar as unhas do dedão do pé, trocar a cueca todos os dias, não ver mais filmes pornô etc etc etc. Um golpe atrás do outro.
De tão sub-reptício, o machocídio, muitas vezes, é crime que nem cádaver a rigor produz. O machocídio mata em vida. Não é violência física. É violação e castração psicológicas. É tortura chinesa.
O machocídio não deixa pistas, vestígios nem evidências. É o crime perfeito. Ainda mais e uma vez que a sua existência nem é admitida. Não há perito ou CSI que o prove e comprove.
Por meus olhos, por meus sonhos, por meu sangue, tudo enfim, é que peço a esses moços que acreditem em mim : querem vida longeva? Não bebam, não fumem, não dirijam, não façam inimigos e, principalmente, não se casem com uma rádio patroa.
Mas a minha namorada, Azarão - alguns poderão contra-argumentar - é um doce de menina; ou, a minha noiva é de uma delicadeza e compreensão ímpares. Eu acredito. Porque ainda não são esposas.
Para não dizerem que tudo é invenção minha, para terem acesso ao estudo dinamarquês, basta clicar aqui, no meu poderoso MARRETÃO.
Que eu, agora, vou lá, lavar a louça da janta.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Romeu e Julieta de Vinicius de Moraes

Shakespeare é o cacete! Zeffirelli é o escambau!
Romeu e Julieta é Vinicius de Moraes! Com o auxílio luxuoso do violão de Toquinho.
Baixei muita música, discos e CDs da internet entre mais ou menos 2008 e 2012-13, quando ela começou a ganhar um pouco mais de velocidade e ainda era território mais livre, bem menos monitorado e minado pelas gravadoras, Ecad e Polícia Federal do que é hoje - talvez até mais vigiado que as próprias fronteiras geográficas do país. Bons e inúmeros eram os blogs que hospedavam obras musicais de todos os gêneros e de todas as épocas; muitas raridades já fora de catálogo e só gravadas em vinil eram digitalizadas e disponibilizadas nestes blogs.
Eu baixava os discos e os passava para CDs virgens. Tenho centenas deles gravados em mídias digitais, talvez chegando mesmo à casa do milhar, uma vez que cabem de oito a doze LPs digitais em cada CD-ROM e eu tenho, hoje, 186 destas mídias. Tenho CDs com obras de um único artista e, a maioria deles, CDs com artistas variados, sortidos, que podem conter de Genival Lacerda a The Doors, passando por Tom Jobim e Engenheiros do Hawai, a exemplo.
Desnecessário dizer que muitos destes CDs, eu nunca ouvi na íntegra, ou com a devida atenção; estou esperando me aposentar, o filho se formar etc.
Guardo-os em uma caixa de sapatos, colocados em ordem numérica (1, 2, 3...), contudo, sem nenhuma referência de seus conteúdos anotada neles. Juntamente a um pequeno aparelho toca-CD, a caixa me acompanha em minhas tarefas caseiras diárias, rotineiras e, por isso, às vezes, enfadonhas, mas que têm de ser executadas.
Como eu mesmo já disse : "se tens enfadonha tarefa, da qual não podes te furtar ao cumprimento, tampouco mais protelá-la em prevaricação, execute-a com muita música e cerveja".
Então, na iminência de aporrinhante tarefa, vou, pego minha cerveja, abro a caixa de sapatos com todos os CDs enfileirados feito cartões da sorte em um antigo realejo e, periquito azarado, corro o dedo por cima deles, de olhos fechados, e pinço um, que será a trilha sonora de minha labuta naquele dia.
Neste domingo próximo passado, fui para a cozinha cuidar do almoço. Gosto de cozinhar, de brincar com as panelas, mas detesto lavar a louça, limpar o fogão, a pia e lavar o chão. Muni-me de coragem e de resignação; e de cerveja e música.
Fisguei lá da caixa o CD nº 144. Nem ideia de seu conteúdo. Pus o aleatório CD a tocar no modo aleatório do aparelho. Lá pela quarta ou quinta música, começou a tocar "Chega de Saudade", nas vozes de Toquinho e Paulo Ricardo (ex-RPM). Lembrei-me, então, de que os dois, em 2010-11, haviam gravado um disco em homenagem a Vinicius de Moraes, "Toquinho e Paulo Ricardo Cantam Vinicius". Lembrei-me de que o baixara na ocasião e de que nunca tinha lhe dado a devida atenção. Ouvi-o, talvez, uma única vez, e meio en passant.
Fui ao aparelho e o tirei do modo randômico, para ouvir cada uma das faixas do CD. Foi quando - e eis, finalmente, o motivo desta postagem - Toquinho e Paulo Ricardo começaram a cantar uma canção de melodia e letra belíssimas, desconhecida por mim. Muito, muito bela, a canção. Estranhei nunca tê-la ouvido. Tenho bom conhecimento do vasto repertório de Toquinho e Vinicius, e aquela música jamais teria me escapado à audição e à lembrança. Encantei-me de verdade com a canção. Como há tempos não me encantava.
"Romeu e Julieta", o nome da canção.
Fui pesquisar sobre ela, talvez fosse uma composição mais nova, só do Toquinho, embora a letra, claramente, exalasse a um Vinicius em êxtase etílico. A música é mesmo parceria dos dois. Porém, sim, só surgiu recentemente, por obra do Acaso (que também deve ser fã do Poetinha), muito tempo depois da morte de Vinícius, justamente durante o período em que Toquinho e Paulo Ricardo estavam a selecionar o repertório para o CD homenagem. Algum médium - talvez João de Deus - a psicografara?
A explicação me foi dada pelo próprio Toquinho, acompanhado do Paulo Ricardo, numa entrevista ao Programa do Jô por ocasião do lançamento do CD. Toquinho conta que ele compôs a melodia de "Romeu e Julieta" em 1974-75, porém, perdeu a letra que Vinicius escrevera para ela. Com a morte de Vinicius, ele não quis dar a melodia a outro letrista e ela ficou engavetada.
Até que, trinta anos depois, Toquinho a jogar sinuca com Paulinho da Viola em um clube da capital paulista, entra uma mulher e diz que tem algo que pode muito lhe interessar, e põe nas mãos dele o original da letra de "Romeu e Julieta", datilografado e corrigido à mão por Vinicius.
Toquinho desengavetou a melodia e "Romeu e Julieta" nasceu, ou melhor, saiu de seu estado de dormência, de larva. Foi gravada no CD em homenagem ao Poetinha.
Não sou de colocar vídeos aqui no Marreta, não gosto. Boto um link para ser clicado no meu poderoso MARRETÃO e o leitor é para lá teletransportado. Mas gostei tanto da música, ainda mais neste dueto de Toquinho com Anna Setton, que abri uma exceção.
A canção é curtinha. Curta, afiada e pungente como uma lâmina de um punhal de ferrugem ruim. Teleguiado ao coração.

Romeu e Julieta
(Toquinho e Vinicius de Moraes)
Não te esqueças de mim
Quando um dia eu me for
Deposita uma flor
Onde disser assim :
Aqui jaz um amor
Que foi lindo demais,
Aqui jaz um amor em paz.

E não busques jamais
Repousares, enfim,
Busca um velho punhal
De ferrugem ruim
E num instante fatal,
Ao sentires teu fim,
Vem deitar o teu sangue em mim.


E num instante fatal,
Ao sentires teu fim
Vem deitar o teu sangue em mim.

MINISTÉRIOS

Meu amigo Jotabê, o Sumo Pontífice do Blogson Crusoe, a quem só conheço através do citado blog, de quem só sei o que ele se dispõe a lá revelar, parece-me ser um sujeito polido e cortês no seu dia a dia com as pessoas. Um sujeito sem muitas arestas no trato social. Não que ele não tenha vontade de, vez em quando, chutar o pau da barraca, de mandar tudo à merda, mas tenho cá para mim que ele se contém. Claro que posso estar errado, mas tenho a impressão de que, muito mais que polido, Jotabê é contido. Não me parece também ser dado a extremismos; se possui algum, tem a decência de guardá-lo só para si, como todos nós, inclusive eu, deveríamos fazer.
Porém, e posso estar enganado de novo, creio ter sentido uma certa intranquilidade em Jotabê em sua postagem PREGO!, a respeito da nomeação de vários militares para cargos de primeiro, segundo e terceiro escalões do governo Bolsonaro. Talvez um pé atrás, uma pulga atrás da orelha, pelo fato da farda verde-oliva estar a substituir ternos Armani. Talvez, repito.
Jotabê um pouco que tenta explicar, mesmo justificar as escolhas de Bolsonaro - e talvez abrandar algum medo e desconfiança de futuras segundas intenções do Presidente - se valendo de duas frases clichês : O hábito do cachimbo faz a boca torta”; e "Para quem só sabe usar martelo, todo problema é um prego”. Frases bem empregadas e adequadas à situação.
Cercamo-nos do que conhecemos; é fato. Militar de formação, nada mais natural que Bolsonaro se apoie e se escude em acessores militares. É o meio em que cresceu, em que foi formado, que respeita. Lula, durante os seus quatro mandatos presidenciais, bandido e quadrilheiro que sempre foi, não se cercou de terroristas e criminosos da pior estirpe? Pois então.
Resolvi, então, dar uma pesquisada nos nomes dos ministros de Bolsonaro para confirmar, ou desfazer, ou, pelo menos, mitigar, a aparentemente leve e sob controle desconfiança/paranoia de Jotabê a respeito de possíveis e escusos planos presidenciais.
O resultado de minha breve pesquisa, surpreendeu-me. A composição ministerial do governo Bolsonaro, creio eu, é algo inédito na história do Brasil. Pois não é que cada pasta ministerial tem um ministro especialista em sua respectiva área de atuação?
O resultado de minha pesquisa, mais que estranheza e desconfiança, causou-me, num primeiro momento, incredulidade. Ministros especialistas nas áreas técnicas em que irão atuar? No Brasil? Onde estão as câmeras escondidas?
Eis uma parcial de minha pesquisa:

Ministro da Defesa : Fernando Azeredo e Silva; general
Ministro da Economia : Paulo Guedes; economista
Ministro da Ciência e Tecnologia : Marcos Pontes; cientista e astronauta
Ministro da Saúde : Luiz Henrique Mandetta; médico
Ministro das Relações Exteriores : Ernesto Araújo, diplomata
Ministra da Agricultura : Tereza Cristina; engenheira agrônoma
Ministro do Gabinete de Segurança : Augusto Heleno; general
Ministro da Educação : Ricardo Vélez Rodriguez; professor e Mestre
Ministro da Infraestrutura : Tarcísio Gomes de Freitas; engenheiro
Ministro da Justiça e Segurança Pública : Sérgio Moro; juiz federal
Ministro da CGU : Wagner Rosário; auditor
Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos : bom, ninguém é perfeito, né?

E não tinha que ser sempre assim? Que ter sido sempre assim?

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

E se Haddad fosse eleito Presidente da República...; um texto bem bolado de Fábio Pegrucci

Em um universo paralelo, Fernando Haddad é o presidente do Brasil; e ele foi ontem à posse de Nicolás Maduro, com uma grande comitiva, incluindo o ministro da Justiça, Renan Calheiros, o ministro da educação, Lindebergh Farias, o ministro da habitação Guilherme Boulos, o ministro da cultura, Jean Wyllis e a ministra da mulher, direitos humanos e promoção social, Dilma Rousseff.

Também foi acompanhado do ex-presidente Lula, solto por um habeas corpus comcedido pelo ministro Marco Aurélio Mello horas após a posse. O ativista italiano Cesare Battisti acompanhou a delegação como convidado especial da Presidência.

Em Caracas, Haddad se uniu aos chefes de estado de Cuba, Bolívia, El Salvador e Nicarágua, os únicos a prestigiarem a cerimônia. Mas quem roubou a cena foi mesmo Lula que, em um discurso emocionado, enalteceu os avanços sociais na Venezuela e a coragem de Maduro, na "defesa intransigente da democracia e da soberania nacional".

No Brasil, a presidenta em exercício, Manuela D´Ávila aproveitou para assinar o decreto que institui o 1º de janeiro como o "Dia do Lula Livre" e abriu o Palácio do Planalto para os movimentos sociais, como o MST, a Via Campesina, associações LGBT, além de cantores de funk, grafiteiros, artesões e grupos de dança de rua, que promoveram um grande sarau.

Enquanto isso, na internet, em uma live transmitida da garagem de sua casa, o ex-deputado e ex-candidato à Presidência, Jair Bolsonaro, protestou veementemente contra o que classificou como "uma vergonha mundial para o Brasil".

No Twitter, apoiadores de Bolsonaro dividiram-se entre os inconformados que culpam uma suposta fraude na eleição ocasionada pelas urnas eletrônicas, e os que jamais perdoaram os eleitores de Geraldo Alckmin e João Amoedo.