quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Já Não Tenho Dedos pra Contar...

Se alguém perguntar a Luis Inácio "Sapo Barbudo" da Silva sobre em quantos processos criminais ele atualmente figura como réu, ele responderá a la Lulu Santos : já não tenho dedos pra contar...
De fato. Embora evasiva, a resposta de Lula seria a mais honesta que a "viva alma mais honesta do país" já teria pronunciado em sua vida. Talvez até a única.
Lula é o famoso capo Nove-Dedos. E na quarta-feira agora (05/09), o juiz Vallisney de Oliveira, da 10ª Vara da Justiça Federal em Brasília, aceitou uma denúncia por corrupção apresentada contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a qual tornou Lula em réu pela décima vez na Justiça Federal, já com duas condenações em segunda instância.
Desta vez, o Ministério Público acusa o Seboso de Caetés de ter acertado o recebimento de R$ 64 milhões em troca do aumento do limite da linha de crédito para exportação de bens e serviços entre Brasil e Angola, em benefício da Construtora Odebrecht, em 2010. Ainda segundo a denúncia do MP, desta cifra, R$ 5 milhões foram destinados à campanha eleitoral de Gleisi Hoffman, a famosa "coxa e amante", que atualmente é deputada federal e está protegida pelo canalha foro privilegiado, mas continua na mira do STF, que a mantém em stand by, em banho-maria, só esperando o término de seu mandato.
Além de Lula, Marcelo Odebrecht e os ex-ministros de Lula, Antônio Palocci e Paulo Bernardo também são réus do mesmo processo.
E um safado desse ainda vem a público dizer que o honesto - até que se prove o contrário (como já foi provado em relação a Lula) -  Jair Bolsonaro transformou o comunavírus em uma arma de destruição em massa (não foram os chineses?) e que se coloca à disposição do povo brasileiro para reconduzir o país ao seu correto destino.
Os parlamentares, STF et caterva é que têm que rever a possibilidade de prisão já a partir da condenação em segunda instância e reconduzir o maior Ali Babá da história do Brasil ao seu correto destino : atrás das grades, no xilindró!

Pequeno Conto Noturno (82)

03:42 h. Vê Rubens, no relógio com olheiras e propaganda de cigarros por detrás dos ponteiros da loja de conveniência. O do segundos treme parado, sem sair do lugar. Rubens pega um latão, paga à moça do caixa e vai se sentar ao fundo da loja, à direita da porta de entrada, o ponto mais distante na loja da caixa regsitradora e dos balcões do café e do pão. Desde a uma hora, uma hora e pouco deste sábado, Rubens erra pelas ruas.
Como volta e meia acontece, a Viúva Branca da insônia chegara-lhe em visita na quarta-feira. Visita que chega sempre sem convite e que nenhuma desfeita, má-criação ou vassoura atrás da porta são capazes de espantar. Lutara contra ela na quarta; negociara com ela na quinta; na sexta, tentara enganá-la; capitulara, enfim, ao romper do sábado : saiu às ruas e deixou a Viúva Branca lá, a ver paredes, com a pueril esperança de não mais encontrá-la em seu retorno.
Acaba o primeiro latão, pega outro e volta à mesa. Andara por parte do centro e por seu bairro todo, de loja de conveniência em loja de conveniência. Uma concessão que fora obrigado a fazer, as lojas iluminadas de conveniência, desde que os velhos botecos do velho centro passaram a fechar antes da meia-noite Não parara em nenhuma antes desta. Entrava, pegava uma cerveja e se punha a caminho. Nesta, a uns 12 quilômetros de seu apartamento, resolvera se sentar, recuperar o fôlego e o ânimo para o caminho de volta. Não exatamente no limite da cidade, a loja fica em um posto de combustíveis estrategicamente localizado próximo a trevos, entroncamentos e dispositivos de saída para vários outros munícipios da região; opções para outros destinos tão miseráveis quanto.
Rubens acaba o outro latão e um madrugador grupo de cinco ciclistas entra na loja. Mais espalhafatosos que o canto de um jovem galo. Roupinhas apertadas, capacetes aerodinâmicos, cotoveleiras e joelheiras anti-impacto, sapatilhas aderentes. Quando foi que andar de bicicleta tinha virado uma viadagem tão grande? Perguntou-se Rubens. Quando foi que pedalar uma magrela tinha virado uma atividade gourmet? E quando foi que bicicleta virara bike? Eles entram. Três mulheres e duas bichonas. Pedem espressos. Tiram fotos das xícaras fumegantes, assim que lhes são servidas pelo balconista de nariz e touca tristonhos.  Postam em alguma rede social. Mesmo de longe, Rubens pode ouvi-los. Fascistas dsse tipo de fascista fazem questão de que todos os ouçam. Não lhes basta o estranho prazer que parecem ter em pedalar. Nem que apenas os seus amigos e conhecidos sejam acordados àquela hora com as fotos deles tomando um espresso. Nada disso. Julgam-se moralmente superiores. Todos têm de conhecer as suas receitas para uma vida feliz e saudável Que a cafeína, diz uma das bichonas, é um eficiente revigorante muscular, que é uma bebida termogênica. Uma das mulheres, em tom de voz ainda mais alto que o da bichona, diz que é capaz de senti-la a queimar as gorduras de seus glúteos e panturrilhas. Se algum deles, decide Rubens, perguntar se tem um suquinho detox ou de clorofila, vai acabar vomitando o último latão e pegar uma das bichonas pelo pescoço e pedir o reembolso pela cerveja derramada. Nenhum deles pergunta. Os cinco "bikers" saem. Loucos de cafeína. Rubens faz votos que de uma boa duma carreta de cana-de-açúcar lhes trombe pelos cus.
Uma van de uma prefeitura estaciona e duas moças, duas enfermeiras sonolentas, porém bem passadas e engomadas, descem, pedem quatro cafés, uns tantos pães de queijo e saem de volta para a van. Rubens nutre uma certa ternura triste pela profissão de enfermeira. Que inferno ter como único talento e vocação cuidar e dedicar-se a outro ser humano.
Porteiros e faxineiras de condomínios próximos também começam a transitar pela loja. Não pedem café. Compram apenas pão para acompanhar o café que trazem de casa, em suas pequenas garrafas térmicas. Viajantes e representantes comerciais abastecem seus carros, entram, falam, tomam café, compram cigarros, chicletes e somem pela estrada. 
Até que chega Vívian.
Um carro prata estaciona perpendicular à vidraça da loja de conveniência. Que é só o que Rubens sabe hoje em dia sobre carros. Quando moleque, conhecia todos eles, ou quase todos. Eram muito distintos, um modelo do outro, uma marca da outra. Fusca, Brasília, Variant, Corcel, Belina, Kombi, Puma, SP2, Maverick, Opala, Caravan, Kharman-ghia, Veraneio. Rubens sabia até as velocidades máximas previstas nos velocímetros de cada um. Depois do Gol, tudo virou uma mesmice só, um só pastiche. Hoje, Rubens os classifica e diferencia apenas como preto, prata e branco.
Uma logomarca na porta do carro prata. Duas ou três letras "artisticamente" entrelaçadas, querendo criar um efeito visual que Rubens não consegue decifrar, ao menos que seja o de vertigem. Um idiota pretensioso e afetado, quem bolou o tal logotipo; mais estúpido ainda o cliente que o aprovou e pagou por ele. E Vívian vem à luz de dentro do carro prata com logomarca indecifrável na porta. Uma versão inusitada dela. Os cabelos castanhos-acobreados à altura dos ombros e lisos; não mais um tapete persa de caracois a lhe bater pela cintura. Uniformizada com um conjunto de calça e camisa sociais verde, um verde não dos mais otimistas, eivado por um leve desespero de marrom, um verde-cáqui; não mais a trajar as indefectiveis camisetas brancas Hering com desenhos, mensagens e letras de músicas impressos em silk screen, que ela mesma confeccionava, nem as desbotadas calças de brim. No bolso da camisa do uniforme, o mesmo logotipo da porta do carro prata; não mais amuletos egípcios ao pescoço nem mais broches com palavras de ordem e fotos de seus ídolos cravados ao peito. Difícil até associá-la à Vívian de há 12, 13 anos. A Vívian que adorava fumar uma maconha e chupar a rola de Rubens. Às vezes, ao mesmo tempo. Uma tragada e uma abocanhada. Rubens levava uns dois dias para tirar o cheiro da erva dos pentelhos.
Vívian não vê Rubens ao entrar na loja. Dirige-se ao balcão do café. À esquerda da entrada. Rubens está ao fundo, à direita. É só quando Vívian pega seu cappuccino acompanhado de um muffin, que é um bolinho metido a besta, ou um bolinho que os metidos a bestas consomem, e se vira atrás de um lugar para se sentar, é que dá de cara com Rubens olhando pra ela. Sem se levantar, Rubens empurra com o pé esquerdo uma das banquetas da mesa em se encontra. Um convite para que ela se sente. Convite aceito.
- Bebendo já a uma hora dessa? diz Vívian, apontando para o latão.
- Já, não. Ainda.
- Supondo que você more no mesmo apartamento, está bem longe de casa, hein? Tirou carta enfim?
- Moro. E não, não tirei carta. Só precisei andar um tanto hoje.
- A velha insônia? - Vívian bebendo seu café.
- É.
- Você tinha até um nome pra ela, como era mesmo, uma coisa parecida com a Loira do Banheiro...
- A Viúva Branca; muito mais classudo.
Vívian ri. Rubens prefere vê-la rir do que rir também.
- Você não muda, né?
- Mudar pra onde? - e seca mais um latão.
Vívian toma outro gole de café e dá uma mordida no muffin, estragando assim o seu batom. Rubens volta com outra lata e aponta para o peito dela, para a logomarca bordada no bolso, como a perguntar, que porra é essa?
- Uma empresa de fertilizantes petroquímicos - fala Vívian, que se formara em Agronomia e, à época em que estava com Rubens, militava pela agricultura familiar e inclusiva.
- Uma multinacional? - alfineta Rubens.
- Transnacional - corrige Vívian - com muito capital brasileiro investido, com projetos sociais, programa de gestão de carbono, ganhamos o selo verde da Onu há dois anos...
- Calma, pode parar com a propaganda - interrompe Rubens -, ou de se justificar, eu só tô te sacaneando um pouco, você aí toda uniformizadinha, falando bem de conglomerados, dizendo "ganhamos" o selo verde e tal. Ainda fuma uma maconhazinha?
- Vá se fuder, Rubens!
- E uma rola, ainda chupa?
- Sua mãe deve chupar. Tá falando que me vendi, né?
- De jeito nenhum. E nem teria nada com isso se você tivesse. Só tô me divertindo um pouco com a inevitabilidade da sua mudança, ou das concessões feitas ao que defendia. Normal. Agricultura familiar e sustentável só bota dinheiro no bolso e comida na mesa das ONGs. Como eu sempre disse.
- Você continua o mesmo filho da puta.
- E não é mesmo? - e inaugura a nova lata com um longo gole.
- Todos temos que pagar nossas contas, Rubens.
- Ou não fazê-las.
- Tá, tinha até me esquecido da sua muquiranice...
- Frugalidade
- Seu cu. ´Cê tá no mesmo apartamento, até ai, tudo bem, mas vai me dizer que ainda não tem telefone celular.
- Nem fixo.
- E aquela TV de tubo de 20 polegadas?
- Não, não tenho mais ela.
- Até que enfim. Comprou uma de tela plana, pelo menos? Umas 30 polegadas.
- A antiga queimou. Não comprei outra.
- Como você mesmo diz : pãããããããta...
Agora é Rubens que ri e dá outra desfalcada no latão.
- Vai me dizer que tem também aquele rádio com toca-fitas e um toca-CD que não lê nem mp3, que só tocava aqueles piratas do Zeca Baleiro?
- Tenho. E ele funciona. Mas comprei outro, um menorzinho, com toca-CD que lê mp3 e até uma entrada pra pen drive. Por quem me tomas, minha linda, por algum homem das cavernas? Embora, poucas vezes eu tenha me sentido tão em casa quanto na tua caverna.
Vívian ri.
- Besteira querer ficar brava com você.
- Esta aqui acabou - diz Rubens, apontando para o cadáver de mais um latão -, dá tempo de você tomar outro café?
- Rapidinho, dá. Tenho que pegar minha amiga do trabalho na casa dela ainda, e visitarmos um cliente a uns 100 km daqui, tá  marcado pra chegarmos lá às oito horas, mas rapidinho, acho que dá.
- Na falta de outra opção, aceito a sua rapidinha - diz Rubens.
Rubens vai à geladeira, pega outra cerveja; Vívian, ao balcão, outro cappuccino.
- Não faz mais café em casa? - pergunta Rubens - você fazia um café bem bom.
- Faço. É que a semana foi corrida para mim, nem deu tempo de passar no supermercado, e quando fui fazer em casa hoje cedo, vi que estava sem nenhuma cápsula.
- Cápsula?!?!?! - finge um espanto jocoso, Rubens - daquelas de alumínio, não biodegradáveis?
- Tá, tá, pode tirar sarro, vai...
- Cápsulas daquelas cafeterias automáticas, eletrônicas, sei lá...
- É...
- Comprou aquela do George Clooney?
- Filho da puta! Pra quem não tem TV em casa, até que está bem por dentro das propagandas, né?
- Eu não tenho TV, mas muitas das minhas mulheres têm.
- Velho safado. Safado e mentiroso. E o seu café?
- Coador de pano.
Vívian gargalha.
- Coador de pano? E isso ainda existe?
- Ainda sobrevive por aí, é questão de saber onde procurar... se bem que o último, eu mesmo precisei fazer e costurar.
- Sério?
- Claro que não.
Os dois riem. Juntos. Pela primeira vez neste reencontro.
O dedo mínimo da mão direita de Rubens trisca e desliza fetio agulha de disco de vinil pelo dorso da mão esquerda dela. Que recolhe a mão para debaixo da mesa. Vívian sabe que os anticorpos de ex-relacionamentos podem ser muito eficazes contra a recaída de novas trepadas, mas totalmente impotentes contra a cumplicidade bem humorada; inócuos em manter as pernas fechadas para quem a consegue fazer rir.
- Essa aliança - recomeça Rubens - que está agora na mão esquerda é a mesma que estava na direita na nossa época?
- É.
- O mesmo cara?
-  O mesmo cara.
- Parabéns.
- Obrigada.
- Parabéns para ele, eu quis dizer. 
- Você sabe que eu teria largado tudo, né? - diz Vívian.
- Sei. Por isso não pude pedir pra você largar.
- Mentira, Rubens. Uma mentira bondosa. Você sabe ser delicado e gentil quando quer. Ou quando precisa. Você não me pediu pra largar tudo porque nunca foi tão intenso pra você quanto foi pra mim. Por essa sua honestidade, eu te agradeço até hoje.
- Mais intenso, menos intenso... como medir para quem foi mais ou menos? Qual a régua ou a balança? O quanto cada um está disposto a abandonar, a largar pelo outro? Ou o quanto cada um está disposto a preservar de si pelo outro?
- As palavras sempre foram seu esconderijo, Rubens.
- De qualquer forma, duas escalas de medida das mais imprecisas. E sem uma fórmula de conversão entre elas.
- Bobagem. Se foi tão forte também para você, por que não aconteceu?
- Foi tão forte - diz Rubens.
- E por que não aconteceu?
- Porque eu fui mais fraco.
Vívian ri. Sem abrir a boca. Pelo nariz. Mais um suspiro de ironia que um riso.
- Pois que seja fraqueza, então? - pergunta ela e levanta a xícara de café em chamamento a um brinde.
- Pois que seja fraqueza, então. - diz Rubens, e toca a borda da xícara dela com a borda do latão. Os dois acabam suas bebidas.
- Tenho mesmo que ir agora, Rubens. Você ainda vai ficar?
- Só o suficiente pra te ver sair.
Ela se levanta e vai. Quando está para chegar na porta, Rubens a chama. Ela olha para ele.
- Até que você fica bem gostosinha nesse uniforme, toda "social", executiva, empoderada.
Vívian lhe faz o sinal de vá tomar no cu com a mão  e zarpa em seu carro prata com logotipo indecifrável na porta.
Rubens pega mais três latões para a caminhada de volta e também sai. O sol e os pardais começam a assumir os seus postos. Ele ainda lutaria mais quatro dias contra a Viúva Branca. Adormeceria com a FM de sua memória sintonizando um antigo sucesso dos anos 80. E quantos uniformes ainda vou usar, e quantas frases feitas vão me explicar, será que um dia a gente vai se encontrar, quando os soldados tiram a farda pra brincar...

domingo, 6 de setembro de 2020

O Destino Crupiê

Nada em mim
É gratuito
Ou fortuito;
Nada é por sorte,
Por desdita,
Por acaso,
Coincidência
Ou descuido.
 
Uma vez que,
Em mim, 
É o aleatório,
Vestido em fraque de eixos cartesianos,
Quem distribui as cartas.

E blefa
E blefa
E blefa...
E como blefa,
O desgraçado.

sábado, 5 de setembro de 2020

Carvalhos, Beladonas e Amores-Bonsai

Antes de você me ensinar sobre a vida
Eu achava que o tempo era mero temperamento climático
E amores não correspondidos como plantas venenosas
Que se cultivam secretamente
Em quartos escuros por extravagância e afeição.
 
Amores correspondidos são muito mais como carvalhos centenários
Que se plantados equivocadamente em vasos
Ou morrem ou nunca se tornam o que nasceram para ser.
 
“Você está nos meus pensamentos, sempre e sempre”.
Viva moderadamente e cuide-se bem.
 
(recebi esse poema nos comentários da postagem "É a parte que lhe cabe do meu latifúndio". Um anônimo, na verdade, tenho certeza de que uma anônima - só uma mulher pode escrever desta maneira - o enviou. Nem sei se ela gostaria de vê-lo publicado como uma postagem, mas não resisti à sua enternecedora beleza e à sua desoladora tristeza. Veio sem título, o poema. Tomei a liberdade de lhe dar um)

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Mimetismos (34)

Uma foto tirada nas ruas de uma cidade da Malásia está a escandalizar as sensibilidades e a encolerizar os brios do povinho sebento e excomungado das redes sociais, os patrulheiros da moral mundial e globalizada.
Um retrato da miséria e das condições sub-humanas em que vive grande parte do povo malaio? Uma polaroide chocante do tráfico, do trabalho forçado e da prostituição infantis, que colocam a Malásia na lista negra da ONU dos lugares de maior vilipêndio ao menor? Porra nenhuma! Que ser humano vivendo na merda é o que mais há nesse mundão do bom Deus, e os paladinos do feicibúqui só se ocupam das "minorias", daqueles que não têm como se proteger do abuso, exploração e preconceito. A miséria humana generalizada já não causa mais comoção nem dá mais ibope, e os justiceiros sociais de iphone querem é bombar, é viralizar, é receber milhões de likes e de cutucadas no cu.
A foto que vem matando de catapora as bichanas politicamente corretas é a de um cachorro, sem nenhum sinal de maus-tratos físicos, de doenças ou de desnutrição, que alguém, muito provavelmente o dono, tingiu a pelagem de laranja e traçou nela listras verticais pretas, a imitar a padronagem de um tigre. Ficou até legal.
Foi o que bastou para que os bostonautas vomitassem todo o seu repúdio e suas indignações de gente bem nascida e bem nutrida contra o anônimo maquiador do cachorro. É um abuso, gritaram alguns; quem vai pagar pelo sofrimento e humilhação impostos ao cão, bradaram outros.
De que forma esse cachorro pode estar a padecer? Que incômodo, a sentir? Será que está a ser alvo de gozação e de bullying por parte dos valentões do bairro, da vira-latada barra pesada? Será que o ONG Tigres de Bengala, Sim, Porém Sempre em Riste está a ameaçá-lo com um processo por falsidade ideológica? Será que a pintura vai deixar o cachorro em dúvida e com profundos conflitos a respeito de sua identidade e gênero? Ora, vão à merda! Depois de sua suma criação, o ser humano "vitiminha", o Homo mi-mi-mi, que é o encostado a quem o mundo nunca dá oportunidade, o politicamente correto está em fase final de testes de seu último protótipo : o animal oprimido, o pet discriminado. Quiçá, conseguirá lavrar um novo inciso em nosso Código Penal, o Peticídio. É muita viadagem! Sem, de forma alguma, querer ofender ao veado, o galante e imponente cervídeo.
Sem portar nehuma coleira, ou qualquer outra forma de identificação, o cachorro foi recolhido pela Persatuan Haiwan Malaysia, associação de defesa dos animais no país asiático, que relatou a "triste" história do cachorro no feicibúqui da organização para ver se consegue localizar o dono ou alguém que conheça o animal. Agora é que o dono não vai aparecer, mesmo. Agora é que ele não vai se arriscar a ser linchado por ativistas e passivistas de ONGs ambientais.
Vai ver o nome do cachorro é Tigrão, ou o seu equivalente em malaio, e o dono só quis adequar a pessoa ao nome. Fantasiou o bicho de tigre. Aliás, fantasiou, não, fez um cosplay! Que fantasia, agora, virou cosplay! Valha-me São Clóvis Bornay!
O cachoro malaio é um cosplay do Tygra, dos Thundercats! E sai com essa espada pra bem longe do meu olho de thundera!!!
Denúncias de "abusos" semelhantes chegam também de outras partes do mundo. No mês passado, uma outra foto, publicada pelo Indian Express, tirou o sono e fez descer a menstruação dos protetores dos animais. Em uma festa de casamento realizada em Cadiz (Espanha), havia, como parte da "decoração" do ambiente, dois cosplays de zebra, dois burricos pintados com listras verticais negras. E dá-lhe chilique dos ambientalistas.
Burro pintado de zebra não é abuso. É tradição. É um clássico. Quando eu era moleque, era comum a figura do carroceiro, geralmente um senhor de idade, que passava pelas ruas a levar pelo cabresto um burrico atrelado a uma charrete. Os bom velhinho ia perguntando às mães se não desejavam fazer uma foto dos seus pimpolhos na charrete ou mesmo montados no burrico. Eram charretes todas decoradas, com burricos ornados e paramentados, mais enfeitados que bicicleta de baiano. Não raro, esses burricos estavam caracterizados de zebras, era comum. E lá estava o burrico, todo tranquilo, gordo, com pelos lustrosos e bem escovados, manso, sem nenhum medo da aproximação das pessoas, atitude comum em animais que passam por maus-tratos. Hoje, aqueles simpáticos velhinhos seriam denunciados, autuados pelo IBAMA e privados de seu ganha-pão. O que é maior abuso, ou, simplesmente, o que é abuso, o sujeito que traveste o burrico de zebra ou o grande industrial que o transforma em mortadela defumada e gourmet?
Minha sogra, pessoa da maior honestidade e correção, ganhou a vida fazendo bolos para festas; casamentos, batizados, aniversários, formaturas. Até bolo para aniversário de puta de zona, ela já fez muito. Verdade! Eram suas freguesas habituais, as meninas da Buate da Vilma (com "U" mesmo), estabelecimento de diversão adulta muito famoso na pequena cidade mineira em que reside nas décadas de 1970, 80 e 90. Tinha festa no zonão, só dava a minha sogra, o bolo da minha sogra, quero dizer.
Pois bem. Por quase 15 anos, minha sogra teve uma cadela poodle que a acompanhou ao pé do fogão em sua faina diária, a lhe fazer companhia e à espera de alguma sobra de bolo. Não era dessas poodles toys. Era uma poodle gigante. Grande e gorda, devido à dieta de raspas de bolo; uma cadela, literalmente, tratada a pão de ló. Branca, mais parecia uma ovelha que uma cadela; não por coincidência, respondia por Dolly. Odiava-me, a Dolly. Não podia me ver que já rosnava.
De vez em quando, dava uma louca na minha sogra e ela coloria a Dolly, tingia a pelagem dela com as suas anilinas de bolo. A Dolly ficava azul, rosa, alaranjada. Verde-amarela, nos anos de Copa do Mundo. Morreu de velhice, gorda, feliz e sempre muito bem tratada e paparicada. Hoje, se algum(a) desocupado(a) passasse em frente ao portão da casa da minha sogra e tirasse uma foto da Dolly azul a dormir tranquilamente no alpendre e a postasse nas redes sociais, a minha sogra estaria em palpos de aranha. A Sociedade Protetora dos Animais, acompanhada da Polícia, logo bateria à sua porta com um mandado de busca, apreensão e condução coercitiva. Minha sogra seria execrada nas redes sociais. A "véia" seria "cancelada". Nunca mais venderia um mísero bolo em sua vida. Nem pra Buate da Vilma.
Apesar do brasileiro ser um povinho que copia o que há de mais inútil dos outros povos, tenho certeza de que o cosplay de tigre para cachorros não pegará por aqui, não se tornará em uma tendência. Primeiro porque o belo animal nem faz parte de nossa fauna nativa e, segundo, que o animal em voga no momento, o bola da vez, é um parente muito mais próximo, assemelhado e nobre do Canis familiaris : o lobo-guará. No Brasil, o cosplay pra cachorro que vai "causar" nesta próxima estação é o de lobo-guará.
Pãããããããããããta que o pariu!!!!!!!

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Quem tem Medo do Lobo-Guará?

Após 18 anos, o Brasil ganha uma nova cédula de real. A última fora a de vinte reais, a do mico-leão-dourado, lançada em 2002. Um ano antes ainda, em 2001, a de dois reais, a da tartaruga, veio a compor a família zoológica original do Real, a saber : as cédulas de R$ 1,00, a do beija-flor (tirada de circulação em 2005), de R$ 5,00, a da garça, de R$ 10,00, a da arara, de R$ 50,00, a da onça-pintada e de R$ 100, a da garoupa.
Agora é a vez do tímido e noturno lobo-guará. O canídeo do cerrado brasileiro estampará a nota de R$ 200, que passa a circular a partir de hoje, 02/09. O lobo-guará é um animal em vias de extinção na natureza e, agora, totalmente extinto nos meus bolsos. Até dezembro deste ano, 450 milhões de lobinhos em tons de cinza e sépia passarão a uivar entre nós.
E qual o motivo para a emissão de uma nota de 200 reais? Pensava eu que o único possível : a volta de uma inflação sem controle e a consequente perda do poder de compra da célebre criação de FHC, a perda real do valor do Real, certo?
Errado! A justificativa oficial dada pelo Banco Central - valha-me São Cidadão Kane - é justamente oposta a isso. Não estamos ficando, nós, os brasileiros, mais pobres e descapitalizados. Antes pelo contrário, estamos ficando, palavras do Banco Central, mais "entesourados".
Segundo o Banco Central, "a quantidade de dinheiro em circulação foi alterada de forma significativa com a pandemia de covid-19, criando um movimento de entesouramento da população". De acordo com o BC, os 67,2 milhões de brasileiros que passaram a receber o auxílio emergencial de R$ 600,00 compõem uma parcela da população que tem o hábito de usar o dinheiro em espécie, o que acabou por quase secar os estoques de notas de reais nos bancos.
Estamos tão entesourados que para pagar um auxilio mequetrefe são necessárias seis de nossa maior cédula. Estamos tão entesourados que a cédula de 100 reais acabou virando dinheiro de pinga. Tão entesourados que, de fato, com cenzinho não compramos mais quase porra nenhuma nos mercados e nas feiras.
Perguntado sobre a emissão da nova cédula, Luis Inácio "Sapo Barbudo" da Silva não só foi contra como também deixou transparecer uma certa mágoa, um certo ressentimento. Lula, em sua época, também tivera o ambicioso projeto de criar uma nova moeda brasileira, com a qual mais facilmente pagaria aos seus correligionários, cupinchas, paus-mandados e ao povão desdentado para gritar o seu nome e o do PT em marchas, passeatas e outras arruaças. Todavia, malfadada a tentativa do Seboso de Caetés de instalar por aqui uma "república socialista", a nova moeda não saiu do papel, não virou papel-moeda.
Pããããããããta que o pariu!!!!!!!

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

É a Parte Que Lhe Cabe do Meu Latifúndio

"Você tem um espaço especial no meu coração", ela diz.
Que área exclusiva será esta?, pensa ele.

Um jardim de inverno no ventrículo esquerdo dela?
Um caramanchão de buganvílias na tricúspide,
Um quartinho de empregada na mitral,
Um sofá-cama nas suas subclávias,
Ou um jazigo no campo santo de sua face esternocostal?

Ele ri e desliga sua ironia,
Que é doença autoimune e que opera em moto-perpétuo.

"Você tem um espaço especial no meu coração", ele sabe,
É a maneira mais amorosa
Dela dizer que não o ama mais.

"Em relação a isso", ele diz a ela,
"Você possui um considerável latifúndio no meu :
As terras não demarcadas das minhas tropas de galinhas-d'angola,
As várzeas inundáveis de meu continente perdido,
Os estábulos de minha biblioteca incendiada,
Os canteiros noturnos de beterrabas sangrentas
E a Casa-Grande,
Necrópole dos sonhos que morrem sem explicação".

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Pode Ser Numa Canção, Pode Ser no Coração, Eu Só Quero Ter Você Por Perto (12)

"Ela lê um gibi, ri sozinha... lá no fim da página, beijo minha heroína."

Ela Sabe Demais
(Luiz Guedes e Thomas Roth)
Ela diz que já vem
Ligo o rádio
Puxo um cigarro
E o peixe sonha no aquário...

De repente
Lindamente
Minha heroína
Bem aqui na minha frente

Ela sempre me seduz
Linda bailarina
Vestida de luz
Dança no meu corpo
Rola e me deixa louco

Ela sabe apagar
A barra de um dia duro
Ela sabe demais
Quando quer 
Faz acontecer

Ela lê um gibi
Ri sozinha
Lá no fim da página
Beijo minha heroína

De repente
Lindamente
Acontece a mágica
E a aventura não termina.
Para ouvir a canção, é só clicar aqui, no meu melancólico MARRETÃO

Eu, Uma Farsa em Pessoa

O poeta é um fingidor,
E finge de forma tão completa,
Que alguns,
De tão fingidores,
Chegam a fingir que deveras são poetas.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

As Armas e os Barões Assinalados

Depois de acalorada, não obstante, pacífica, discussão deflagrada pela postagem Cerveja-Feira (26) em torno de brasões de armas, linhagens, genelogias e outras fidalguices, resolvi levar adiante uma antiga ideia : confeccionar o meu brasão, o escudo de armas do Azarão, desta dinastia de um homem só.
Foram duas semanas de extensa pesquisa e criteriosa seleção de signos que bem representassem meus valores e meus ideais de luta, duas semanas apanhando feito vaca na horta de programas de edição de imagens, duas semanas de muito afinco e, sobretudo, de muita falta do que fazer.
Apresento-vos, pois, pronto e acabado, o escudo armorial da Casa de Azarão.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Bosta em Lata

Quem disse que toda publicidade precisa ser um fraudulento canto de sereia celta peituda? Que todo anúncio tem de ser um engodo e um ludibrio? Que a propaganda é a suma arte do ardil e da trapaça? Que toda mensagem publicitária é, obrigatoriamente, uma dama pérfida e dissimulada sempre a trajar lingerie de meias-luzes e cintas-ligas de meias-verdades? Deixando entrever só o que nos aguça o desejo e ocultando o que poderia ser objeto de desapreço?
As meias-verdades são a estratégia-mestra dos anúncios comerciais que nos atingem hoje em dia. Exaltam um atributo de fato real do produto, porém, por outro lado, não nos conta de possíveis efeitos danosos, colaterais. Feito o sabão em pó X, cuja fórmula exclusiva promete lavar, desengordurar e deixar as roupas muito mais brancas e brilhante que o seu concorrente Y. Poder confirmado na prática pela dona de casa. Contudo, não é informado que o mesmo composto miraculoso da fórmula exclusiva pode agredir mais as fibras do tecido, reduzindo sua vida útil. Igualmente, a pasta de dentes que promete um branco de artistas de Hollywood para os seus dentes em algumas semanas de uso. E funciona. O porquê não é dito. Funciona por conter micropartículas abrasivas em sua composição, microlixas que vão de bicarbonato de sódio a conchas calcáreas de moluscos e diatomáceas. O mesmo fator branqueador risca e arranha o esmalte dos dentes, deixando-os mais sujeitos à cáries. Ou, ainda, aqueles famosos temperos que não podem faltar na cozinha de quem põe "amor" na sua comida. Prometem realçar o gosto, promover uma explosão de sabores em sua boca. De fato o fazem, posto que são uma verdadeira bomba de sódio, sobretudo o glutamato, cujo uso frequente pode causar, segundo a nutricionista Danielle Batista, desde alergias cutâneas até náuseas, vômito, enxaquecas, asma, taquicardia, tonturas, hipertensão arterial a até mesmo depressão.
Não haverá, na publicidade, lebre que não seja gato? Não existirá um matrimônio honesto e fiel entre a criatividade expressa (e impressa) na embalagem de um produto, tão necessária à sua veiculação e à sua venda , e o conteúdo que ela abriga?
Pois vos digo que o enlace harmonioso entre a criatividade e a sinceridade é, sim, possível. Raro, é verdade. Raríssimo, mas possível.
É o caso do produto que é o motivo desta postagem. Ele é, de longe, o melhor exemplo que já vi disso. Duvido que haja outro, tanto na publicidade brasileira quanto na mundial, que tenha conseguido tão bem unir por laços indissolúveis criatividade e sinceridade. Até então, neste quesito, tinha cá pra mim como imbatível a famosa Vaselina Pacu, já mostrada aqui no Marreta na postagem Vaselina Pacu. Mas este agora a desbancou fácil.
É a marca de um adubo orgânico produzido e comercializado pelo empresário Leonardo de Matos, de São José do Rio Preto, SP. O adubo orgânico anda muito em voga, é um dos artigos mais queridinhos pelos "verdinhos" politicamente corretos, pelos ecochatos, pelo povo do autossustentável e biodinâmico, a turminha sensível e antenada que cultiva os seus próprios "temperinhos" em embalagens PET recicláveis e outras viadagens de quem tá com a vida ganha e o bucho e a geladeira cheios. Dizem de suas hortas orgânicas de boca cheia. Como se o tal adubo orgânico fosse um maná deitado do Olimpo pela própria deusa Deméter, como se ele não fosse, pura e simplesmente, bosta.
Pois é desta forma, é com essa criatividade sincera, ou com essa sinceridade criativa, que Leonardo Matos vende o seu produto : dizendo que ele é uma bosta. O Bosta em Lata.
Nunca houve na história da propaganda tanta fidedignidade entre embalagem e produto vendido, entre o continente e o conteúdo! Nunca ninguém fora tão curto e grosso. E genial!
O Bosta em lata tem 10% de merda de vaca e o restante é formado por turfa, um tipo de musgo, matéria vegetal, enfim, e terra. E tem Bosta em Lata para todos os gostos e tipos de plantas, para hortaliças, samambaias, orquídeas, bonsai, cactos e suculentas. O produto, segundo o empresário, levou dois anos para ser desenvolvido e chegar em sua forma final. Pois o que a embalagem do adubo tem de sincera, a história de sua criação tem de embromação. Dois anos para se chegar à composição do Bosta em Lata? Para concluir que um bom adubo tem partes de matéria animal, de matéria vegetal e terra?
Até a minha avó e a avó dela e a avó da avó dela já sabiam disso. No lugar da merda bovina, minha avó usava esterco de cavalo, às vezes, de galinha, no lugar da turfa, cascas e restos variados de vegetais, batata, beterraba, cebola, bagaço de laranja etc, e tudo misturado na terra. Até mesmo um importante componente mineral, o cálcio, minha avó fornecia para as suas couves, cebolinhas, salsinhas, alfaces, dálias e morangueiros ao espalhar cascas de ovos trituradas por sobre os seus canteiros.
Independente disso, do florear em torno da origem do adubo, e talvez seduzido pela coragem do rótulo, que anuncia ipsis litteris o que vende, fiquei motivado a adquirir uma lata do Bosta em Lata. Os meus cactos e minhas suculentas bem estão a merecer um tônico revigorante. Entrei no site do Bosta em Lata e lá estava : R$ 37,90 por uma embalagem de 400 g do Bosta em Lata. Quase 100 reais por um quilo de merda! Valha-me São Piero Manzoni!!! Por esse preço, eu mesmo cago nos meus vasinhos!!!
Pããããããããta que o pariu!!!!

sábado, 22 de agosto de 2020

Dasvidaniya, Natasha, Dasvidaniya.

Conheci Natasha inda na década de 1990. Ateu que eu era das paixões súbitas, tornou-me em um prosélito do amor à primeira vista. Embeveci-me de Natasha. A rigidez de sua compleição, a hierarquia de suas formas. Arestas onde é necessário que nos agarremos; recôncavos onde se faz preciso deslizar e aninharmo-nos. Densa e volumosa nos lugares certos.
Inúmeras foram as madrugadas de sonhos, desejos de revolução e partituras nos olhos me proporcionadas por Natasha. Bem como - e ela não seria mulher se assim não tivesse sido - algumas dores de cabeça..
Mestra dos desencontros, a Vida ausentou-nos. Eu de Natasha. Inda mais ela de mim. Deixamos de nos cruzar nos bares, nos cinemas, nas ruas, nos mercados e bazares de Istambul e Bagdá. Seu telefone, nunca o soube. Sobremenos o seu CEP. Talvez preguiçosa de se ir às ruas, Natasha. Deitada a pendular baianamente em alguma rede social. Deitada eternamente, ao menos por um ou dois bons lustros.
Ontem, meu olhar, cujo GPS desistira há tempos de rastreá-la, cruzou com o de Natasha. O meu de um lado, o dela - vitral de igreja russa ortodoxa - do outro de uma prateleira de um hipermercado. Recordei-me de seus prazeres de cofre, de sua dança de matrioska de sete véus. Salivei e pauduresci na hora. Convidei-a, tomei-a pela mão - ela a mim pela coleira - e a levei para minha casa.
A Vida, súcubo famélico, é bem verdade, nos erode, assoreia e carcome; nos enfraquece e nos exangue, enfim. Porém, nunca supus Natasha sujeita à ferrugem dos anos bissextos. Nunca supus a sua robustez de agricultora de batatas minorada à esqualidez amarela de um Jeca Tatu. Nunca a supus vulnerável ao sépia que monta assentamentos em velhas fotografias.
Menos portentosa e túrgida, estava Natasha; percebi logo nas preliminares. De um litro, descera a 900 ml. Também perdera muito no furor, na volúpia; menos torquês, o seu pompoarismo. De 40º G.L., empalidecera a 36,3º G.L.
Não a rejeitei, no entanto; não cometi tamanha deselegância. Inda assim, beijei-a de língua, banhei-me em suas termas siberianas. Muito mais por polidez e consideração que por ganas de tatuar-lhe roxos ao pescoço e o registro de minha arcada dentária aos peitos. Muito mais um reencontro de velhos formandos carecas e pançudos que uma festa na república. Muito mais uma missa de sétimo dia que um novo batismo.
Melhor que não mais, Natasha, melhor que não mais. Deixemos nossa história à História. Ao tempo o que é do tempo, minha linda, este despótico imperador romano com saturnismo.
Dasvidaniya, Natasha... Dasvidaniya...

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Cerveja-Feira (27)

É bem sabido que os mosteiros religiosos são grandes nascedouros de boas cervejas, a padraiada sabe o que é bom. Inúmeras e famosas são as cervejas fabricadas por abades e monges. Tem até santo cervejeiro. Mas será que só a ala masculina do clero é que entorna? Não haverá, dentro da República Democrática da Cerveja, igual espaço para as esposas de Cristo, para as freiras?
Pois não só há igualdade eclesiástica entre os sexos quando o assunto é beber como também quando o assunto é fabricar cerveja. 
O cerveja-feira de hoje vai para uma dessas dedicadas irmãs de caridade, a Irmã Dóris Engelhard, conhecida como a última freira da Europa a produzir cerveja. 
Há 46 anos, a irmã Dóris, hoje com 65 de idade, é a responsável pela produção de cerveja da abadia de Mallesdorf, localizada na pequena cidade alemã de Mallesdorf-Pfaffenbrg, na região da Baviera. A produção anual é 300.000 litros de cerveja, vinte por cento dos quais reservados às irmãs da ordem franciscana e aos seus funcionários e o restante comercializado apenas entre os habitantes da pequena cidade, pois a cerveja não leva nenhum tipo de conservante nem é pasteurizada, devendo, portanto, ser consumida fresca.
A irmã Dóris é cervejeira das antigas, cervejeira de alma, e denuncia a farsa das tais cervejas artesanais : "esse movimento de cervejas artesanais que vem crescendo no mundo não representa a verdadeira cerveja artesanal, já que as cervejarias produzem milhões de litros por ano e elaboram seu produto de forma a resistir às intempéries que envolvem seu transporte e armazenagem, maculam a fórmula da pureza, água, cevada, malte e lúpulo". Com a irmã Dóris não tem essa de tomar um "copinho" de cerveja, não; de abstinência, já basta a de rola, a irmã bate mesmo é de canecão.
A vocação para a birita veio antes da religiosa. Irmã Dóris foi aluna de um colégio católico e pretendia cursar Agronomia, o que não pode realizar por não existirem cursos da área em sua pequena cidade natal. Por sugestão da madre superiora do colégio, Dóris começou a trabalhar na cervejaria da abadia para aprender uma profissão, um ofício. Ela pegou gosto pela coisa, fez um curso, tornou-se mestre cervejeira e apenas três anos depois, após um estágio probatório, fez os seus votos e tornou-se freira.
Dia de trabalho na cervejaria é tão sagrado quanto um de orações e contrição. Nesses dias, Irmã Doris acorda às três horas da manhã e é dispensada de suas rezas diárias. Vai lá, Dóris, diz a madre superiora, já tem freira demais rezando aqui, rezando pra cerveja ficar divina. Entre as suas criações, a mais populares são as cervejas maibock, doppelbock e zoigl escura. A irmã é pau pra toda obra dentro da cervejaria : elabora a formulação da cerveja, opera o maquinário, produz, engarrafa e ainda carrega os engradados. Isso sim que é uma vida a serviço do Senhor.
Perguntada se vê algum tipo de incompatibilidade pecaminosa entre os ofícios de freira e de mestre cervejeira, irmã Dóris responde : "eu acredito que Deus recebe as minhas orações e me aceita do jeito que eu sou. Você pode servir a Deus em qualquer lugar, não importa a sua profissão. Eu amo beber cerveja. Cerveja é a bebida alcoólica mais pura de todas... trata-se de uma bebida muito saudável se você não exagerar”.
Olha só a alegria da irmã ao abastecer de fé o seu canecão!!!
Amém, irmã, amém!!!

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Mask is The New Black (6)

E as mulheres, sempre muito mais precavidas e previdentes que nós, os homens, os reis do desmazelo, seguem a proteger do coronavírus todas as suas vias de acesso, sem perder a elegência.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

A Fênix Jair Bolsonaro

Todos o sabemos um atleta olímpico, um "iron man". Todos sabemos que mesmo entre os seus pares, entre os seu espartanos companheiros de academia militar, o seu vigor se sobressaía, o que lhe valeu a alcunha de "Cavalão" dada por seus iguais; perto dele, os outros formandos das Agulhas Negras eram pôneis de parque de diversões, pangarés de puxar charrete de turista em Poços de Caldas. Todos sabemos de seu poder de recuperação e regeneração físicas. Safou-se triunfante, com a ajuda de Deus e do Hospital Albert Einstein, da facada de Adélio Bispo de Oliveira.
Mesmo sabendo de tudo isso, cheguei a pensar que Bolsonaro não sobreviveria muito tempo como Presidente da República. Não que ele viesse a sofrer um impedimento antes da conclusão de seu primeiro mandato, mas que, realmente, não mais chances houvesse de sua reeleição. Cheguei a pensar que os ataques maciços e conjuntos da Tríade Comunista, que age no Brasil e em boa parte do mundo ocidental, fossem, de solapar em solapar, dar cabo de Bolsonaro.
Tríade Comunista formada pela mídia - tanto os grandes veículos de comunicação quanto as redes sociais e blogosfera suja -, de grande parte da Câmara dos Deputados - melhor seria a chamarmos de Alcova dos Deputados - e pelo comunavírus, que foi chamado a integrar a tríade para servir de munição a ser deflagrada contra Bolsonaro pelos dois primeiros.
Aos ataques da grande mídia, Bolsonaro vem respondendo e a ferindo de morte naquilo que é mais caro a ela. A sua liberdade de expressão? Porra nenhuma. Que liberdade de expressão nunca foi um dogma, um preceito sagrado desse povo, que liberdade de expressão sempre lhes foi mera conveniência, moeda de troca com os governos anteriores, um foro privilegiado para atacarem sem provas. Bolsonaro vem contra-atacando a grande mídia onde mais lhe dói, nos seus bolsos, nos seus cofres. Só a um exemplo, na semana passada, Bolsonaro cortou 60% da verba publicitária destinada à Rede Globo, aumentando o repasse para a Record e o SBT. Tá certo, o Bolsonaro. Por que continuar financiando quem lhe chama de fascista? Faltará dinheiro até para o botox da Ana Maria Braga, para a peitaria de silicone das dançarinas do Faustão e para o alpiste do Louro José. Pããããããta que o pariu!!! Para as redes sociais e blogs sujos, Bolsonaro tá cagando e andando. No quesito tuitada, o Mito é bem superior a todos eles; não à toa, elegeu-se por essa via.
Aos bombardeios da ala vermelha da Alcova dos Deputados, Bolsonaro se defende e revida com a formação de alianças, coalizões e toma-lá-dá-cás com o famigerado Centrão.
Ao contágio pela Covid-19, Bolsonaro desancou o comunavírus com uma surra de pau de guatambu da cloroquina; em dois dias, pôs no toba do comunavírus e o pôs para correr.
Tudo isso e mais a pouquíssima divulgada boa e extensa série de medidas emergenciais adotadas por Bolsonaro e seu ministros durante a pandemia, como, por exemplos, o auxílio de R$ 600,00 mensais, o crédito de R$ 51,6 bilhões para manutenção de empregos (MP 935/2020), mais R$ 16 bilhões aos estados e municípios durante quatro meses (MP 938/2020), a liberação de 500 milhões para a compra de produtos para a agricultura familiar (MP 957/2020) etc etc, têm surtido resultados positivos para o Governo Bolsonaro, vêm fazendo o que eu mesmo havia julgado impossível, ou muito pouco provável de acontecer : o aumento da popularidade de Bolsonaro.
O intrépido Bolsonaro nos mostra agora que tem tanto poder de recuperação e regeneração políticas quanto o já mostrado de reestabelecimento fisio-orgânico. Que é um verdadeiro Wolverine das urnas.
Uma pesquisa do Data Folha, instituto do grupo Folha de São Paulo, um de seus antagonistas mais desavergonhados, publicada em 13/08, mostra que se deu por encerrado o período da broxidão das estatísticas de Bolsonaro, que a sua popularidade (e subsequente intenção de votos para 2022) vem readquirindo a paudurescência de antanho.
A pesquisa mostra que Bolsonaro está com sua melhor avaliação desde que começou o seu mandato. O seu mandato é considerado ótimo/bom por 37% dos entrevistados. Mais importante ainda que nos índices de aprovação, Bolsonaro também melhorou nos de rejeição, dos que o consideram péssimo/ruim, caíram dos 44% da última pesquisa feita pelo mesmo instituto para os atuais 34%. Os que consideram seu governo regular foram de 23% para 27%.
Mais importante que ser considerado bom é quem nos considera bom; mais importante que ser considerado ruim é quem nos considera ruim, o que, muitas vezes, pode ser até um elogio. A maior aprovação do Governo Bolsonaro vem dos empresários, que são quem movimentam o país, que geram renda e empregos (se esses são bem remunerados ou não, é uma outra questão). E sua maior desaprovação vem da parte dos "estudantes" deste Brasil dantes mais varonil, povo que não produz porra nenhuma, que serve cada vez mais para menos coisas, só para gado de doutrinação de professores esquerdistas e bucha de canhão para marchas, passeatas e outra cara-pintadices da vida e que, assim que tiverem que começar a trabalhar e pagar as próprias contas, viram direitistas rapidinho.
Outra pesquisa de popularidade, publicada hoje pelo Instituto Nexo, corrobora os números do Data Folha.
Queiram ou não os esquerdistas que perderam as mamatas dos governos do PT; queiram ou não até os de direita que se arrependeram de seu voto em Bolsonaro; se até 2022, um outro messias não surgir para esta população sempre à espera de um, Bolsonaro vai, de novo, "pras cabeças". Vai dar na dezena, na centena e no milhar.
Jair Bolsonaro é uma Fênix, que ressurge das próprias cinzas.