quarta-feira, 6 de janeiro de 2021
terça-feira, 5 de janeiro de 2021
Bolsonaro, o Amigo dos Peixes
E ainda dizem, os seus desocupados detratores, que Bolsonaro não é um cara ecológico, orgânico e autossustentável, que o Mito não tem preocupações com os ecossistemas brasileiros. Que, antes pelo contrário, ele um meioambientófobo, um meioambientocida.
Aleivosias. Calúnias das ONGs ambientalistas verdes por fora e vermelhas por dentro, dos ecoafrescalhados que adoram ver o passarinho verde.
Não é só através de palavras que Bolsonaro expressa sua preocupação e o seu zelo pela preservação dos nossos ecossistemas, sobretudo o marinho, berço de toda a vida, mas também por seus atos.
Em 1º de janeiro desse ano, o Capitão fez um passeio de lancha em Praia Grande, litoral paulista, que incluiu um mergulho de profundidade para a apreciação da paisagem subaquática.
A despeito do que dizem os seu difamadores em relação às supostas atitudes antiecológicas e covid-negacionistas do Messias, durante todo o mergulho, o Mito usou, sim, uma máscara. De mergulho. Máscara usada também para pular do barco e, a provar seus dotes de atleta, nadar até a praia em direção a apoiadores que passaram a se aglomerar na areia para vê-lo.
Ao contar do passeio, do mergulho e do nado até a praia, Bolsonaro disse:
“Sabia que o tio estava na praia nadando de máscara? Mergulhei de máscara também, para não pegar covid nos peixinhos”.
O intrépido Bolsonaro matou dois comunistas com uma cajadada só : mostrou que está atento à pandemia da peste chinesa e também à questão ambiental.
Pequenos Trampolins Para Saltar Por Sobre os Dias
Dar uma caminhada,
Ajuda
O dia a passar;
Ir ao mercado,
À padaria,
Ajuda;
Varrer a casa,
Preparar o almoço,
Ajuda;
Ir ao banco,
Pagar as contas,
Ajuda;
Regar e adubar as plantas,
Transplantar novas mudas,
Ajuda;
Ir com o filho ao Zoo Municipal,
Ao Jardim Japonês,
Ajuda;
Alimentar as gatas,
Limpar-lhes as imundícies,
Ajuda;
Tentar assistir a um filme,
Tentar ler um livro,
Ajuda;
Um novo sonho acordado,
Um novo engano,
Ajuda;
Tomar um chávena de chá,
Um bule de café,
Ajuda;
Mas
Meia garrafa de rum
Ajuda muito mais.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2021
Dias de Chuva São Para se Ficar em Casa (parte 4)
Acabei de falar e fechei os olhos. Esperando pela marretada em minha cabeça. A marreta de Thor versus minha cabeça. Seria uma briga das boas. A marretada não veio. Veio apenas uma pergunta, a mais prosaica de todas.
“Mortal, onde posso, nessa estalagem, aliviar minha bexiga?”
Inacreditável, tão inacreditável quanto a existência de deuses. Eu achincalhei o cara e ele só pensou em mijar. Ou ele não entendeu picas do que falei ou considerou que eu não valia uma marretada de seu Mjolnir. Indiquei o caminho.
Quanto cabe de urina na bexiga de um deus? A humana, em média, comporta uns 600 ml, medida exata, coincidência ou não, de uma ampola. Minutos depois, ele reapareceu e o Laércio lhe acenou do balcão com uma ampola em cada mão e um sorriso inédito. Nunca tinha visto o porra do Laércio sorrir antes. Mas se alguém foi capaz disso, esse alguém só podia mesmo ser um deus, inda mais um deus que tomou umas nove ampolas em pouco mais de uma hora. O Laércio vai erguer um altar pra esse cara, pensei. E eu nem tinha terminado minha segunda long neck, já quente e choca.
“Tudo bem”, retomei a conversa, aquilo estava atravessado em minha garganta, feito espinha de peixe, “então, quer dizer que se nós, humanos, deixássemos de dar tanta importância ao sexo, se conseguíssemos, sei lá, sublimar tal necessidade, poderíamos nos tornar deuses?”, e tentei dar um tom mais cordial ao circunlóquio, medo da marreta.
“Sim, e isso não é evidente? Não apercebe-se de que é por essas e por outras que eu estou, palavras suas, de aviso prévio?”
“Ainda não captei, Thor.”
“Nós, deuses pagãos, sempre escondemos isso de vocês, esse potencial de vocês nublado pelo sexo. E aí, do nada, chegou o tal do cristianismo e revelou esse segredo. Revelou pela metade, é verdade, mas já o suficiente para encherem suas recém-erguidas igrejas. E sangrarem as nossas.”, e acabou com a décima primeira ampola, sem conseguir esconder um lampejo de intensa saudade em seus velhos olhos. Saudades de suas igrejas cheias, supus eu, da fé de seus seguidores entrando feito anabolizantes por suas veias.
“Peraí, de novo. Não sou grande conhecedor do cristianismo, mas não sei nada dele dizer que podemos ser deuses, pelo contrário, é uma religião fascista, só aceita um deus.”
“Por isso lhe disse que só revelaram o segredo pela metade. Deuses é claro que não, religião nenhuma seria louca de dizer que cada fiel pode converter-se em um deus, seria, expressão de vocês, dar um tiro no pé. Mas o cristianismo permite os mártires, os beatos, os santos. Começa a compreender? O que eles dizem? Rejeitem, abstenham-se da fraca carne e serão santos, serão erguidos acima do humano, do primata, estarão ao lado de deus. Entendeu, agora? Revelaram apenas uma parcela da verdade, a que lhes convinha, mas foi o suficiente para arrebanharem seus milhões, de fiéis e de moedas.”
“E vocês, deuses pagãos, ficaram vendo tudo isso acontecer sem fazer nada para impedir? Devo dizer que não simpatizo com pagãos nem cristãos, mas porque não lutaram pelo poder?”
“E, por acaso, dá, um velho, importância ao que um recém-nascido faz? Claro que não. Os recém-nascidos nos parecem inofensivos, não vemos neles os futuros canalhas do mundo. E foi isso. Ríamos daquele novo bando intitulado cristãos, fazíamos pouco caso deles, não achávamos que eles fossem capazes de revelar tal segredo ao povaréu, nem desconfiávamos de que eles soubessem desse segredo. Quando vimos, já era tarde. Nada mais havia para reverter. Quando um segredo é revelado, não adianta correr depois a desmentí-lo. No momento em que percebemos, já era tarde. Lá estavam aquelas hordas de cristãos açoitando as próprias costas com chicotes de pontas metálicas, amarrando a cabeça do pau até estrangular, confeccionando cintos de castidade para suas mulheres, que acabavam por traí-los pelo cu. Lá estava a primeira leva de santos assexuados a fazer milagres. Estávamos perdidos, mortal, irremediavelmente.”
Era a minha vez de esvaziar a bexiga. Deixei Thor lá na mesa, iniciando sua décima quarta ampola. Enquanto mijava e mirava as esferas de naftalina no fundo do mijadouro, fiquei pensando no que aquele deus maluco tinha me dito, e tudo era muito coerente. Esvaziada a bexiga, sacudido o pau, peguei mais uma long neck com o Laércio. E mais duas ampolas pro Thor. Notei que o bar estava “lotado”, umas 30 pessoas, senão um recorde, perto disso. Assim que sentei-me à mesa, notei duas gostosinhas vindo e olhando em nossa direção. Nossa é o cacete. As duas passaram e tiveram olhos fixos só no Thor. E ele nem aí. Como nem fosse com ele. Quantas bucetinhas ruivas, macias e cheirando a bacalhau norueguês aquele cara já não tinha comido? Se ele acha que me convenceu com aquela lorota de que deuses não são afeitos aos prazeres sensuais, se enganou.
Pois não são projeções otimizadas de seus fiéis, os deuses? Evidente que aquele cara curtia uma bucetinha, inda mais com um martelo daqueles.
“Cristo, então, é o responsável pela derrocada de vocês todos, os pagãos. Vocês devem odiar esse cara.”, fiz-me de solidário ao deus em vias de extinção.
“Cristo? Quem é capaz de odiar esse menino?”
“Mas ele não tirou seus fiéis, não minou seus poderes?”
“Quem disse isso a você, mortal? O cristianismo é que cortou nossos pescoços. O Cristo, não. Ele e o cristianismo não tem nada a ver um com outro. Usando outra de suas expressões, em nada se assemelham o cu e as calças.”
Thor, sem aviso, levantou-se e se pôs-se a dançar ao compasso da música executada pela banda ao palco, um choroso blues, blues do Mississipi. E aquele ogro executou inusitados movimentos lentos, delicados e marciais ao mesmo tempo, chorosos como o blues que entupia o ambiente. Sabe-se lá em que ele pensava. Umas cinco mulheres, no mínimo, teriam se despido e trepado com ele, lá, no palco, se ele houvesse pedido. Terminada a música, passou pelo balcão do Laércio e rebocou mais duas ampolas até a mesa.
“Conheci esse menino Cristo, mortal. Não tinha como não gostar dele. Um garoto de boa índole, gente finíssima, apesar do pai. Amigo dos amigos, chegado também numa taberna, sabia fazer um vinho excelente. Só um defeito: falava demais, adorava falar, não podia ver um montinho de terra, uma pequena elevação que fosse, e já se abancava em seus discursos, em suas histórias.”, e sugou mais meia ampola com uma expressão doce em seu rústico rosto, de quem fala das travessuras de um irmão mais novo, bem mais novo. Que idade teriam os deuses nórdicos?
“Não pense”, continuou Thor, “que ele concorda com toda esse esquema, essa religião que estruturaram em volta de seu nome. Não concorda, não.”
“Como assim não concorda?”
“O menino foi um inocente útil, um bem-intencionado que teve seu carisma usado pelo próprio pai, carisma que o próprio pai já não tinha, o pai andava meio queimado desde o velho testamento. O velho Avohai não inspirava confiança há tempos, precisava de um novo marketing, e Cristo foi sua nova embalagem, seu cabo eleitoral. Quando o menino se deu conta, já era tarde, pregos o embutiam à grotesca cruz. Estive presente à sua crucificação, quis impedir, mas naquele lugar ninguém acreditava em mim, ninguém me conhecia, logo, eu era mais fraco que o mais fraco dos mortais presentes. Vi o menino ser pregado. Está registrado que um dos soldados deu de beber a Cristo, vinagre. Era vinagre quando foi colocado na cuia, era vinho ao tocar a boca dele. E adivinha quem fez a transubstanciação? Eu e Mjolnir também temos nossos truques. Era o mínimo que eu podia fazer pelo moleque. E o máximo, também. Mas meu vinho nunca foi tão bom quanto o dele. O meu dá uma ressaca desgraçada no dia seguinte.”
“Tá, tudo bem, sei que Cristo não fundou religião nenhuma , foi Pedro, mas como sabe que ele não concorda?”
“Já encontrei com o moleque várias vezes depois de seu calvário. E ele, acredite, arrepende-se do que fez. Se soubesse em que transformariam suas palavras, ele teria ido morar em algum confim do deserto com sua Madalena e quantos filhos Seu Pai lhes desse. Seu Pai, porém, vaidades de um velho canalha e decrépito, não estava disposto a ser avô.”
“Encontrou com ele? Mas não é dito que ele ascendeu e tomou a direita de seu pai? Tá me dizendo que ele anda por aí?”
“Sim, durante um tempo, ele ficou mesmo lá, ao lado do pai dele, mas nem Cristo tem paciência pro velho e, de vez em quando, sai para dar umas voltas, beber um pouco. E tentar entender o que fizeram com seu nome e palavras. Cada vez que ele passa defronte a uma igreja, ele chora compungido, de desgosto.”
“Mas ele não pode simplesmente chegar até, sei lá, o Papa e desfazer tal equívoco, pronunciar-se mundialmente e dizer do real sentido de sua jornada?”
“Há! Há! Há! Há! Cristo procurar o Papa? Acha que o moleque é louco? O Papa nem o receberia, chamaria sua Guarda Suíça e ordenaria que o botassem em camisa-de-força e o esquecessem nas catacumbas do Vaticano. Se o moleque contasse tudo o que sabe, acabariam as igrejas, e os sanguessugas do sangue de Cristo ficariam sem seus empregos, seus luxos, seus efebos, seus bordéis em Castelgandolfo.”
Levantou como só um deus pode levantar, caminhou até ao balcão como só um deus pode caminhar e recebeu novo sorriso do Laércio como só um deus recebeu até hoje, eu nem sabia que o Laércio tinha dentes. Minto, sabia sim. Às vezes, ele rosna para alguns clientes. Voltou com mais duas ampolas e outra long neck.
“Toma, amigo, lembrei de você.”
“Diga, Thor, você encontrou Cristo muitas vezes?”
“Sim, várias e várias. A última tem uns 300 anos, numa bodega na França. Eu cheguei e ele estava numa acalorada discussão com um janota de nome Descartes, estava ensinando ao cara sobre uma tal de dúvida racional ou coisa que o valha. Quando me viu, abandonou o almofadinha e me abraçou. Mortal, poucas vezes lembro de ter bebido tanto quanto àquela ocasião. O moleque é bom de copo. Mas percebi que ele bebia por tristeza, por desgosto. Ele estava lá, forte como um viking, forte como eu era quando tinha meus 1700 anos, mas extremamente frágil, derrotado pela culpa que sentia, a palavra dele se propunha ao esclarecimento e não ao controle, à tacanhez. Sabia, amigo mortal, que o moleque já se suicidou várias vezes, de remorso?”
“Pára com isso, vai. Cristo, um suicida? Tá certo.”, dei um bom gole e varri o ambiente com os olhos, em busca de alguma incauta. Nada. A situação estava feia, normal no Laércio. As duas únicas comíveis só tinham olhos para o Thor, apesar de toda a feiúra dele, apesar daquele cheiro de pele podre de suas roupas.
“Por que a descrença em minhas palavras, mortal? Vocês tem um caso parecido aqui na sua terra. Um inventor, eu acho. Criou essas máquinas voadoras e quando viu que elas estavam sendo utilizadas para matar pessoas, suicidou-se, não foi?”
“É, é o que contam por aí”.
“Pois então, o mesmo remordimento levou o moleque a se matar várias vezes, mas, no caso dele, isso não adiantava. Uns dias depois, ele sempre ressuscitava. Acabou desistindo de se matar, a última foi há uns mil anos.”
“É bom ver que você não guarda rancor, Thor.”
“E para quê? O moleque é gente boa, e a vez dele também vai chegar, como a minha chegou.”
Uma das gostosas acenou pra mim, encostada em uma coluna, para que eu me aproximasse. Falei pro Thor que já voltava e a gostosa me perguntou se ela e a amiga não podiam se sentar à nossa mesa. Resolvi dar uma de difícil, até porque não era por mim que elas estavam meladas. Disse que meu “amigo” estava com graves problemas familiares e estava desabafando comigo, que não era o melhor momento para elas irem até nós. Voltei para a mesa; Thor já entornava, sei lá, a décima oitava ampola.
“E como ficam vocês nessa situação de deuses esquecidos?”
“Nós vamos tocando a vida, amigo mortal. Asgard ainda persiste. Não é mais a cidade dourada, mas conserva ainda seus atrativos. Nós somos deuses no banco de reservas, olhando os novos jogarem suas peladas. Não participamos mais de batalhas, quem iria querer combater sombras? Mas ainda encontro amiúde com Balder, Frandal e Hogun para uma noitada de mulso. O volumoso Volstag, quando a mulher e os doze filhos deixam, também se junta a nós e passa a noite a desfiar suas divertidas mentiras. Mas já não é a mesma coisa. E esses nossos colóquios se tornam cada ver mais raros, mais espaçados. Balder prefere se enfurnar em suas matas, com seus animais e plantas; Frandal não perdeu a habilidade, mas sua galhardia de espadachim o abandonou, tornou-se instrutor de esgrima para as crianças asgardianas, crianças que nunca chegarão a ser adultos, que nunca usarão suas instruções de espada para nada; Hogun, cada vez mais severo e circunspecto. O mais afortunado, nunca pensei dizê-lo, acabou por ser o imenso Volstag, com sua hedionda esposa e suas insuportáveis doze crias, sua família toma todo o seu tempo, ele não tem tempo para ficar remoendo glórias passadas.”
Fiquei pensando no que Thor tinha dito, que seus encontros com os amigos estavam adquirindo uma folga cada vez maior. Tenho amigos que encontro, quando muito, uma vez por ano, bienalmente, alguns mais ainda. O que seriam encontros raros para deuses? A cada cem, mil anos... Preferi mudar de assunto, a melancolia se instala quando dizemos de amigos ausentes. Até mesmo num deus.
(continua...)
domingo, 3 de janeiro de 2021
Cusqueña, a Boa e Barata Peruana
Eu a vinha observando há algum tempo, de soslaio, com olhadelas furtivas sempre que eu entrava numa quitanda aqui perto de casa, que também mantém, lá num canto mais ao fundo, um pequeno empório improvisado no qual são vendidos queijos, bacalhau, frutas secas e cristalizadas a granel, temperos e especiarias desidratados, grãos variados, esfihas pré-assadas, coalhada seca, tahine etc.
Em meio a esse pequeno bazar de Istambul, ela, a cerveja Cusqueña, em sua lata dourada e rutilante com os imponentes Andes estilizados em seu rótulo. Cusqueña, que - demorou-me a cair a ficha - é o gentílico feminino para os nativos de Cuzco, Peru, nada mais nada menos que a antiga capital do Império Inca. Cusqueña, certamente confeccionada com a mais pura água de degelo dos Andes; provavelmente criada pelos mestres cervejeiros do imperador Pachacútec.
Apesar do fetiche e das fantasias que a exoticidade de uma estrangeira costuma suscitar em nossas libido e sem-vergonhice, não a comprei logo de cara, não capitulei de primeira à sua sedução.
Não sou xenófobo. Tampouco e menos ainda xenófilo; não sou nem nunca fui paga pau e baba ovo de gringo. Sempre tive e trouxe cá comigo que produto importado não é, necessariamente, sinônimo de artigo de boa qualidade. Assim como o Brasil, o Peru, e qualquer outro país, deve produzir cervejas muito boas e cervejas muito ruins.
Além do mais, se por um lado, ainda que o preço pedido pela lata de 355 ml da Cusqueña na quitanda, é bem verdade, não se configure no desaforo, exorbitância e abuso cobrado por muitas importadas, por outro lado, também não a qualifica exatamente para figurar no panteão das minhas boas e baratas. R$ 2,95 a latinha.
Ontem, porém, ao passar minhas compras pelo caixa, notei uma latinha da Cusqueña colocada bem ao lado da máquina registradora, a propósito mesmo de promovê-la a cada um que por ali transitasse. Resolvi levar uma, apenas uma para experimentar e talvez guardar a latinha na minha pequena e confusa coleção. Perguntei pro cara do caixa, que também é o dono da quitanda, se a cerveja era boa. Disse-me que ele próprio não bebia, mas que a cerveja tinha uma boa saída, que vários fregueses que a experimentaram voltaram para buscar mais. Claro que ele não falaria que ela era ruim, nem sei por que perguntei.
Então, em seguida, ele baixou o volume da voz, modulou-a ao tom de quem conta um segredo, correu os olhos à volta e confidenciou que o preço de uma latinha era R$ 2,95, mas a data de validade do lote da Cusqueña expirara no dia 17/12, tanto que se eu a procurasse por ali, só encontraria mesmo aquela amostra no caixa, ele havia retirado o produto ali da área de vendas justamente por conta do seu vencimento, guardara tudo na câmara fria no fundo do estabelecimento e que, se eu quisesse, ele estava liquidando o produto por 10 reais cada fardinho com 6 latas.
Garantiu-me que, segundo o fornecedor, há uma margem de segurança de aproximadamente dois meses entre a data de vencimento impressa no produto e a sua real deterioração.
Porra!!! Na minha família, eu sou conhecido como o rei da mercadoria vencida. Tomo iogurte vencido, e é bom porque ele vira até uma coalhada de vez em quando. Como muçarela vencida, com aquela camada branca de fungo na superfície, e é bom porque paguei preço de muçarela e acabo comendo queijo brie. Macarrão, bolacha, chocolate, embutidos, gelatina, café... venceu a validade, eu traço!
Não iria, eu, tomar a Cusqueña? Vencida há nem duas semanas? Claro que eu iria! Fiz as contas na hora, ato reflexo. Dez reais divididos por seis : R$ 1,66666666.... a latinha de 355 ml!
Pããããããta que o pariu!!!!! Aí, fica fácil. Aí, é dar sopa pro azar. Pro Azarão! Comprei um fardo com seis latas.
Ao chegar em casa, antes de pô-las pra gelar, fui conferir as informações do rótulo e constatei que, de fato, tirara a sorte grande. A Cusqueña é puro malte do tipo Golden Lager, cerveja de um amarelo bem escuro, intenso, mais encorpada, frutada sem ser cerveja de frutinhas, 5,5% de teor alcoólico. Do mesmo tipo que era a Proibida Puro Malte da latinha preta, também boa e barata, substituída, desgraçadamente, por uma nova versão em uma lata dourada e branca : corram dessa, ainda que esteja em tentadora promoção, ela virou uma Pilsen das mais aguadas que já provei, pura água de batatas.
Uma vez gelada, deitei-a ao meu poderoso canecão e entornei. Que macho das antigas não degusta, entorna. Boa. Muito boa. Boa pra caralho. Boa igual à Juliana Paes na propaganda da Boa. E barata. R$ 1,66 a latinha. O gosto e odor lembraram-me também, além da já citada Proibida Puro Malte rótulo preto, um pouco a cerveja Cacildis.
Minha esposa, ressabiada e receosa de que a cerveja vencida pudesse lhe causar algum revertério colateral, preferiu não se arriscar. Melhor. Sobrou mais para mim.
Como ontem foi sábado e a quitanda só funciona até o meio-dia e hoje é domingo e ela não abre, não houve, infelizmente, como eu comprar mais uns dois fardinhos, pelo menos, um para o sábado à noite e outro para hoje. Mas amanhã, no mais tardar na terça-feira, eu volto lá, pãããããta que o pariu se eu volto. Para arrematar o estoque!!!
sábado, 2 de janeiro de 2021
Death to 2020
Uma retrospectiva cômica (se não fosse trágica) de 2020 concebida pelos mesmos criadores de série Black Mirror.
A ironia e o sarcasmo inglês na ponta dos cascos. O mais fino e perfurante humor britânico. Bom pra caralho!
Uma produção Netflix.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
Visões de 2021, Quiçá de 2022
É como diz o velho ditado espanhol, possivelmente basco : “Yo no creo en pesquisas de popularidade, pero que las hay, las hay”.
E todas as mais recentes realizadas mostram um crescente viágrico da aprovação do governo do intrépido Bolsonaro, um acachapante incremento da aceitação, estima e bem-querer pelo Mito.
Os resultados divulgados por várias delas, promovidas pelos mais variados institutos de pesquisa, a se crer neles, mostram que Bolsonaro e o povo brasileiro, depois de um período de estranhamento, estão numa segunda lua de mel. Bolsonaro é o Namoradinho do Brasil.
A se manterem os números em 2021 e a se confirmarem em 2022, uma provável reeleição de Bolsonaro poderá ser a derradeira e definitiva pá de cal no túmulo da sempre podre, putrefata e mefítica esquerda brasileira.
Posso até concordar, em alguns aspectos, que mereceríamos um coveiro melhor, mas reitero que, se ele conseguir o sepultamento da esquerdalha, quaisquer outras de suas desastradas e malfadadas ações poderão ser tomadas como um mal necessário, um remédio dos mais amargos e, por vezes, mesmo intragável.
Vamos às pesquisas mais recentes.
A primeira foi realizada pelo Poder Data entre os dias 21 e 23 de dezembro e contou com 2500 entrevistas com moradores de 470 munícipios distribuídos entre as 27 unidades federativas. O infográfico abaixo fala por si.
A segunda foi realizada pela Quaest Pesquisa e Consultoria e fez o levantamento da popularidade de 12 personalidades da política brasileira no mundo digital. A pesquisa levou em consideração nomes de destaque em plataformas como Facebook, Instagram, Twitter, YouTube, Wikipedia e Google. A avaliação foi feita de forma mensal e, em todos os meses, Huck ficou atrás de Bolsonaro. Em fevereiro, o global conseguiu uma aproximação no posicionamento do ranking, diminuindo a diferença entre os dois para 4,6 pontos. Nos demais meses, essa diferença ficou entre 20 e 30 pontos. Em terceiro lugar ficou Luís Inácio ‘Lula’ da Silva, o Sapo Barbudo, o Nove-Dedos, o Seboso de Caetés, cujo melhor desempenho aconteceu durante o primeiro semestre, e que, mesmo assim, manteve uma distância média de 30 pontos em relação a Huck. Ou seja, ainda que o Seboso pudesse ser candidato, ele ficaria a anos-luz de Bolsonaro.
E o Mito dá de goleada mesmo quando posto a jogar em campo inimigo. O que nos leva ao terceiro e último levantamento da popularidade de Bolsonaro, uma enquete realizada pelo jornalista esquerdista Ricardo Noblat em seu blog, o Blog do Noblat.
Claro que uma enquete é muito menos metódica que uma pesquisa feita por um instituto, ou até mesmo nada metódica, e, por conseguinte, com nível de confiança tendendo a zero, mas essa logrou um resultado inesperado para o jornalista.
Perguntou, Noblat, aos seus leitores : como você qualifica o desempenho do governo Bolsonaro até aqui no combate à pandemia do coronavírus? As únicas opções de resposta eram : excelente ou péssimo. De onde se vê, enquete extremamente tendenciosa, típica do pensamento esquerdista, feita para Bolsonaro perder. Por dois motivos : o primeiro, o que já foi dito, foi realizada na página de um jornalista de esquerda cuja grossa maioria de leitores, suponho eu, deve compartilhar da mesma nefasta ideologia; e segundo que é radicalmente polarizada (de novo, bem ao gosto do fanatismo esquerdista), só oferecendo duas respostas extremas, ou excelente ou péssimo. Nenhuma opção mais moderada, mais ao "centrão", como "bom", "regular" e "ruim".
Ainda assim, o Capitão enfiou o tarugo toba adentro dos esquerdistas:
Notórios maus perdedores que são, os esquerdistas seguidores do jornalista começaram, é claro, arrumar desculpas para a enrabada que levaram dentro de casa, insinuaram que a votação fora "tomada por robôs". Bolsobôs?
“Votar antes que chegue os robôs”, alegou um esquerdista.
“Será que se organizam em grupo para vir na enquete e tentar mostrar que está tudo bem?”, disse outro, que, prontamente, tomou a lapada de uma boa resposta na cara : “Vocês só se organizam em grupo para depredar patrimônio público e invadir propriedade privada”, finalizou a conversa outro leitor.
Fazer previsões para 2021, é fácil! É teta! É coisa de profetazinho rastaquera, de Mãe Dináh e de Walter Mercado. Pois o nostradâmico Azarão irá mais longe : lançarei minhas previsões para 2022. Criador e único praticamente da ciência hermética e oculta da marretomancia, revelo-vos minhas antevisões para 2022.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2020
Países Fetocidas, Pátrias de Herodes
Feminicídio, não pode (o "machocídio", pelo visto, está liberado)! É crime hediondo! Pecado capital! É tema pisado e repisado em todos os telejornais, da aurora ao ocaso; do ocaso à aurora! Mais presente na telinha da TV do que pastor evangélico e as facas Ginsu! Feminicídio virou carne de vaca (matar a vaca também não é um feminicídio pela óptica dos bovinos?). A gente acorda e só quer saber da previsão do tempo, das condições do trânsito, das falcatruas da política, do resultado da telessena, e o tal do feminicídio vem amargar o nosso café, deixar rançosa a manteiga do nosso pão.
Feminicídio, não pode! E eu concordo. Em gênero, número e grau. Na dezena, na centena e no milhar! Porém, as mesmas mulheres que se dizem vítimas potenciais de morte pela mão de machos "tóxicos", clamam pelo direito de ter uma licença livre para matar, para matar fetos e embriões, que, desafortunadamente e por brincadeira, talvez, dos sacanas do Acaso e do Destino, foram fecundados em úteros de vagabundas, de biscates, que, mesmo cientes de todos os métodos contraceptivos possíveis e imagináveis, simplesmente resolveram abrir as pernas sem nenhum tipo de precaução.
O aborto indiscriminado, aquele feito sem nenhum motivo razoável para ser executado, que eu prefiro, como sempre, dando o correto nome aos bois, chamar de infanticídio, de fetocídio (Herodes é pinto pequeno perto disso), está ganhando cada vez mais a aceitação e a simpatia do hemisfério Ocidental do planeta, que se autoproclama o mais "civilizado". Aceitação e simpatia que são frutos da doutrinação esquerdista, da água da conversa mole em pedra dura,
O Ocidente critíca as práticas bárbaras do Oriente, o apedrejamento de mulheres adúlteras, a mutilação clitoriana, os casamentos arranjados, mas aplaude e incentiva a mortandade de fetos indefesos.
Defendem, essa canalhada, a vida do bebê-foca, do bebê-tartaruga; condenam à morte, sem nehuma prova de dolo ou culpa (até porque não as há), o bebê-gente.
Só para que a biscate possa continuar a levar a sua vida "leve", de solteira... de puta!!! É o fetocídio a garantir a promiscuidade, a leviandade, a putaria!!!
Menos, bem menos que cadelas sarnentas de ruas, são essas aborteiras; bem menos que cadelas vadias, que, ao menos, cumprem com a dignidade e a obrigação de amamentar seu filhotes. A puta não pode, pois a amamentação irá deixar o seu peito flácido, repelente para o macho que a come na rua.
E agora, desgraçadamente, para a minha profunda decepção, a Argentina, país e povo que sempre tive em mais alta conta, aprovou o aborto indiscriminado, a matança de fetos ao bel-prazer das putas assassinas.
O projeto aprovado contempla uma cláusula que impede judicializações, que poderiam retardar e inviabilizar o assassinato do feto; devendo a execução sumária da criança, de acordo com as regras aprovadas, ser levada a cabo em até dez dias depois de o pedido ter sido feito pela requerente, conhecida popularmente como biscate.
No máximo em dez dias... tempo de espera muito menor que o para uma consulta com um cardiologista, um urologista, um oncologista, tempo menor que o de espera por uma ressonância magnética, por uma tomografia, por um ultrassom, por um hemograma.
É o sistema público de saúde não a serviço da prevenção e da cura de doenças, da preservação da vida, mas sim a serviço do extermínio dela. Os médicos argentinos, a exemplo de inúmeros outros países, foram tornados em matadores de aluguel.
E tudo de graça para a puta! Tudo às custas dos impostos dos contribuintes, que, muitas vezes, ao chegarem num hospital público não encontram médicos para atendê-los, muito menos têm às suas disposições e reais necessidades remédios de uso contínuo e/ou de alto custo como insulina, hipertensivos, imunossupressores, drogas anticâncer etc. Não há dinheiro para tudo isso, dizem os governantes e os gestores do dinheiro público. Mas para aliviar a biscate do "fardo" de ter que criar uma criança, para pagar um carrasco de jaleco branco, pelo visto, há de sobra.
terça-feira, 29 de dezembro de 2020
Bem-aventurados os Bons de Copo, Porque Deles é o Reino dos Céus, diz Padre Italiano (Ou : Fica Esperto, Jotabê!)
Assim, eu me converto! E quero ser batizado por esse padre, Don Pietro Cesena! Batizado com vinho bento! E nem me venham com aquela viadagem, com aquele miserê de um pouquinho só de vinho deitado e escorrido à testa, sem essa de ato simbólico! Eu quero um batismo das antigas, por imersão! Imersão num grande ofurô cheio até à borda de vinho benzido e consagrado.
Na homilia de sua missa de Natal, Don Cesena fez um pronunciamento que encheu de júbilo a alma de seus fiéis, que insuflou uma lufada de conforto espiritual em seu rebanho, que reforçou a fé de seus paroquianos; fé, esta, tão difícil de ser mantida nos dias atuais.
O padre incentivou suas ovelhas a beberem vinho, muito vinho, fartamente. O vinho é sinal de vida eterna, declarou. E é verdade. Uma verdade não só religiosa como também médica. Um copo de vinho por dia faz bem à saúde, apregoam os esculápios da ciência. Se um copo faz bem, por simples e incontestável regra de três, tomar um garrafão torna o sujeito em um imortal.
Garantiu que no paraíso se bebe vinho e que abstêmio não entra no reino dos Céus. É mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um abstêmio entrar no reino dos Céus, teria dito.
Fala reforçada, publicada e juramentada também em seu twitter :
"Bevete vino, non c’è spazio in paradiso per gli astemi" #DonCesena #Omelia #Vino pic.twitter.com/ZDJdVSKGiH"
Que, traduzida pelo Google, ficou : "Beba vinho, não há lugar no Céu para abstêmios".
Te cuida, Jotabê! Fica esperto, meu velho!
Apesar de suscitar grande surpresa, a fala do padre foi bem recebida pela maioria de seus fiéis, que a entenderam e a levaram na esportiva. Mas por que a surpresa? É notório que padres e sacerdotes são por demais chegados a um copo; muitas cervejas e vinhos de grande qualidade são produzidos por mosteiros e abadias. Além disso, não é Jesus que Salva? E não é o vinho o próprio sangue do Nazareno? Pois este sangue, garanto-vos, tem poder.
Até eu gostei da fala de Don Cesena. Agora ficou mais fácil ter a alma salva e redimida. Antes, era preciso seguir à risca os ensinamentos de Cristo, conhecer e interpretar suas parábolas (grande contador de "causos", o Cristo), dar a outra face etc etc. A partir da fala do padre, basta tomar o sangue Dele. Isso, até eu posso fazer. Aliás, faço questão de.
Todavia, sempre existem, é claro, os falsos moralistas rançosos e sebentos de plantão, os empata-fodas. Um deles, sentiu-se desrespeitado : "Inaceitável... Ele deveria respeitar quem frequenta seu culto e não bebe álcool".
Um outro, mais contundente, chegou a acusar Don Cesena de manipulação da fé como forma de justificar um vício pessoal : "Acho que o sujeito tá fazendo de um vício pessoal uma manipulação aos pobres frequentadores de seu culto".
Vãs aleivosias, Don Cesena, vãs aleivosias. Perfídias sem nenhuma fundamentação bíblico-religiosa.
O padre italiano não está a cometer nenhum pecado ou heresia; antes pelo contrário, Don Cesena está a professar o seu sacerdócio dentro do rigor canônico das Escrituras, a exercer a sua profissão de fé acatando religiosamente a todos os conformes dos Evangelhos.
Afinal, nas bodas de Canaã, Cristo transformou água em quê? Em suquinho de tâmaras orgânicas e sustentáveis da Galiléia? Porra nenhuma! Transubstanciou-a, antes, em vinho, em bom vinho.
É Cristo que nos diz : bebam vinho! Deixai vir a mim os bebuns! Don Cesena só está a pregar os ensinamentos do Cristo, a seguir os passos do Salvador.
Estão certíssimos, o Cristo e Don Cesena. Nem um nem outro podem dar uma furunfada, afogar o ganso, dar um tapa na peteca. Se não pudessem nem tomar um goró vez em sempre, nem precisaria existir o inferno pós-morte para manter a padraiada na linha : o Inferno seria aqui mesmo.
Falando em inferno, eu, que já dava a minha alma ateia como perdida e endereçada às labaredas das profundas, vi que ela é muito mais cristã do que jamais supus. Católica praticante, a minha alma descrente.
Se fudeu, Mefistófeles! No Céu, entorna-se vinho! Bye, bye e vade retro Satanás! Eu tô salvo! Vem ni mim, querubim!
segunda-feira, 28 de dezembro de 2020
Planeta Macho (2)
Antigamente, a aspiração de todo menino era se tornar um homem, um adulto de barba na cara e pelos no saco. Seguir os mesmos passos, adotar os mesmos valores e símbolos de masculinidade de seu pai e avôs. ( E não o avesso que hoje se nos apresenta, adultos e senhores de meia-idade vestidos e travestidos em trajes, modos e ares de garotões, mas isso já é outra história e hoje eu não quero me aborrecer).
Conforme o menino ia crescendo e fazendo por merecer e mostrando-se mais responsável, ele ia ganhando presentes, de seu pai, tios, padrinhos e avôs, que eram os imprescindíveis apetrechos a um macho das antigas. Gradativamente, o menino ia recebendo e tendo de arcar com cada vez mais responsabilidades de um adulto e, paralelo a isso, ia sendo também paramentado como um. O menino virava homem por dentro e por fora.
A uma certa idade, o menino ganhava um cinto de couro, por exemplo, para afivelar as suas também recém-conquistadas calças compridas. Mais para a frente, ganhava um conjunto de três lenços Presidente, para levá-los ao bolso traseiro da calça, feito o avô. Daí a pouco, um relógio de pulso do padrinho. Não demorava muito e ganhava um pente plástico Flamengo, para ter sempre ao outro bolso traseiro da calça e manter os cabelos emplastrados de Trim sempre bem alinhados, igual ao tio materno metido a galã do bairro.
Porém, um dos momentos mais ansiados pelo menino era quando, e finalmente, ele ganharia o símbolo de macheza mais ambicionado por todos : a carteira de couro. Para guardar seu dinheirinho? Até que podia ser, também. Se, eventualmente, ele ganhasse uns trocados, a carteira se prestaria a isso. Mas essa não era a principal e tão aguardada utilidade da carteira. Que dinheiro, que nada. A carteira iria servir para guardar calendários de bolso de mulher pelada! Sim, meus caros, aqueles calendários com gostosas, confeccionados no tamanho aproximado de uma carta de baralho.
Ser presenteado com uma carteira de couro, deixava subentendido que o menino receberia junto alguns calendários de mulher pelada. A ambição pela posse de uma carteira era impulsionada por um cobiça ainda maior, era motivada pela conquista do símbolo máximo e definitivo de sua juvenil masculinidade, o calendário de mulher pelada, o atestado da passagem do menino para o homem.
Os calendários de bolso de mulher pelada, tão em voga dos anos 1950 aos 1980, não tinham apenas as funções decorativa e punhetativa. Foram, durante muito tempo, importantes e eficazes ferramentas de propaganda e divulgação de produtos e serviços. Eram distribuídos à guisa de brindes, para fazer um agrado e fidelizar o público masculino da época.
Os mais diversos e variados setores da indústria, comércio e prestação de serviços vinculavam seus produtos e suas razões sociais a belos pares de peitos, a roliças coxas e a suculentas bundas lisinhas e xavascas peludonas.
Imprimiam-nos e distribuíam-nos : as padarias, os armazéns de secos e molhados, os postos de gasolina, os bares e lanchonetes, os escritórios de contabilidade, as farmácias, as quitandas, os depósitos de materiais de construção, as papelarias, os armarinhos, os salões de barbearia, as sapatarias, as alfaiatarias etc etc.
Os calendários de bolso de mulher pelada eram verdadeiros mini-outdoors (ou indoors, nesse caso?) publicitários do Planeta Macho.
Não pensem, contudo, que a propaganda disseminada pelos calendários de bolso de mulher pelada ficava restrita a pequenos estabelecimentos comerciais e produtos de fabriquetas de fundo de quintal, que era uma publicidade marginal, condenável e proscrita.
Nada disso. Grandes empresas e conceituadas marcas, muitas existentes até hoje, também estampavam suas logomarcas em calendários de bolso de mulher pelada. Por exemplo, as tintas Coral, uma das gigantes do ramo da pintura residencial, comercial e automotiva.
Praticasse hoje este tipo de publicidade, a Coral seria prontamente taxada de machista, sexista, de objetificar a mulher e seria, imediatamente, "cancelada" pelas patrulhas ideológicas esquerdistas da porra.
Tampouco as modelos que figuravam nos calendários eram putas baratas e bagaceiras catadas à zona do baixo meretrício. Muitas atrizes gostosas de então emprestaram suas desejáveis formas aos calendários de mulher pelada. Por exemplo, a atriz Alcione Mazzeo, que foi esposa de Chico Anysio, neste calendário da Dunlop, empresa fundada por John Boyd Dunlop, ninguém mais ninguém menos que o inventor do pneu como hoje o conhecemos.
Hoje, as feministas suvacudas e muxibentas de plantão a acusariam de traidora do movimento e também a "cancelariam", forçariam a sua demissão pela emissora que a tivesse sob contrato. E a Dunlop não conseguiria mais vender seus pneus nem para carrinhos de supermercado.
Bons e grandes tempos, os dos calendários de bolso de mulher pelada. Tempos mais simples e menos hipócritas. Mais sinceros e práticos. Afinal, do que o macho das antigas gosta? De ver mulher gostosa pelada. E do que a mulher gostosa das antigas gosta? De se mostrar e ser vista pelada pelo macho, de se sentir desejada por ele, de excitá-lo, ou seja, de ter orgulho em cumprir com a sua função biológica. Macho e fêmea. Alguém ainda se lembra deste simples e eficiente arranjo? Desta natural e profícua combinação?
Os calendários de bolso de mulher pelada são fósseis de uma das eras mais gloriosas do Planeta Macho. Do Planeta Macho em toda a sua pujança, virilidade e paudurescência. Antes dele ser atingido pelo asteroide do politicamente correto e da ditadura das "minorias".
No entanto, ainda que deslocados e desgarrados, ainda que destronados e acossados, alguns dinossauros ainda caminham por aí. Caminhamos por aí.
domingo, 27 de dezembro de 2020
Dias de Chuva São Para se Ficar em Casa (parte 3)
Mandou-me agarrar à sua cintura (mas sem viadagem), pôr a mão direita em seu Mjolnir (no bom sentido, claro) e mentalizar a estalagem do Laércio. Num sopro, estávamos bem de frente ao bar do Laércio. Nunca ouvi dizer daquele poder de teleporte do Mjolnir, mas faz todo o sentido. Tornaria praticíssima, por exemplo, a viagem entre Asgard e Midgard (a Terra), mas acabaria com a poesia, eliminaria a Bifrost, a ponte do arco-íris, la vie en rose entre Asgard e Terra. Quer coisa mais bonita que um arco-íris feito em viaduto? Preferi não perguntar. Sempre que posso, procuro manter intactas certas doçuras de minha infância.
Houve época em que seguranças de ternos pretos revistavam os freqüentadores do bar do Laércio, Thor teria tido, à época, dificuldades de adentrar portando seu martelo. Ou os seguranças é que teriam passado sérias dificuldades. Em tempos de vacas magras, só há um porteiro, que anota os nomes no verso de um cartão onde se registra o consumo do bar. O único empecilho colocado pelo porteiro foi ter perguntado a Thor se o nome se escrevia com ou sem “h”. Com “h”, eu respondi ante a falta de entendimento do deus. Seriam os deuses uns analfabetos, como seus fiéis? E eu passei a vida acreditando naquela coisa da segunda do plural.
O bar estava mal-iluminado, abafado, merejando cigarro e uma meia dúzia de almas: o de sempre.
“Outra coisa, além do mulso, que vou ficar lhe devendo, Thor.”
“Mas que taberna pequena e fedorenta, mortal. Parece uma toca dos malditos Trolls, e ainda diz que me decepcionará ainda mais?”
“Pois é. Ficarei devendo aquelas mulheres carnudas e suculentas a dançar, se agitar e a servir as mesas, todas seminuas, ventres e seios de fora.”
“Há! Há! Há! Há! De onde tirou essa idéia, mortal? Em que lugar da gélida Escandinávia julga que as mulheres andem assim? Ainda que no interior aconchegante de uma taverna viking, junto a uma lareira, elas morreriam congeladas se trajassem a sua imaginação. Os nórdicos raramente vêem suas mulheres nuas ao todo.”
Verdade. Nunca havia pensado por aquele lado, pela prática. Mais uma fantasia destroçada de minha infância. Mas, também, de que merda serviria o pensamento se tivesse que se ater à prática. Doeu, apesar disso.
“E aí? Como vão as coisas, Laércio?”, perguntei, encostando-me no balcão que já tem até uma depressão justa para o meu cotovelo.
“Alguma coisa mudou na tua vida da semana passada pra cá?
Pois bem, aqui igualmente não.”, Laércio com a típica simpatia permitida a donos de bares de poucos freqüentadores, ele nem se deu com Thor ao meu lado, aliás como eu havia previsto.
“Sou Thor, estalajadeiro. Dê-me a mais generosa porção da sua bebida.”, e estendeu sua mão em aperto para o Laércio. O Laércio cumprimentou e olhou pra mim com cara de quem não entendeu picas. E nem estava interessado em entender.
Intercedi.
“Dois copos, Laércio, e uma garrafa de cerveja da mais barata.”
“A cerveja em garrafa ainda tá quente. Gelada só tem long neck e lata.”
O puto do Laércio sempre usa esse golpe. Nunca serve cerveja em garrafa antes das duas da manhã, estão sempre quentes. O negócio é que ele tem lucro maior na long neck e na lata, só libera a garrafa de 600 ml quando não tem mais jeito. Ele sabe que sei dessa sua mentira, sabe que eu sei que as garrafas estão geladíssimas, mas não liga, aplica o golpe mesmo assim.
“Bravo, estalajadeiro! Mande uma dessas quentes, é como gosto, de gelada nos basta as águas inclementes dos fiordes.”
“Manda uma quente pro cara, Laércio, ele prefere. E pra mim, uma long neck.”, e segurei, mas não muito, um riso de canto de boca para a cara de desgosto do Laércio. O Thor queria da quente, o Laércio tinha se fodido nessa, lá se ia seu lucro por água abaixo. Se bem que, eu já tinha previsto, quem iria se foder era eu. Improvável que o deus tivesse alguns reais em seus bolsos. A despesa certamente ficaria por minha conta. Como, de fato, ficou.
Thor pegou da garrafa de 600 ml e ela parecia uma long neck em sua mão. Pegasse uma long neck e ela seria uma daquelas ampolas de injeção. Levantou um brinde ao Pai Odin e emborcou. Puta que pariu, o cara era um sorvedouro. O líquido fez redemoinho dentro da garrafa, uma sucção cuja força achei que fosse arrancar o fundo da garrafa. Seiscentos mililitros de uma única talagada. Fiz sinal para que o Laércio trouxesse mais uma, das quentes, e fomos para uma das mesas. Já fazia conta do prejuízo. Sempre há contas a serem pagas quando se trata com deuses.
“Tá certo, mas em Asgard, o clima é mais ameno, lá as deusas circulam seminuas pelos salões suntuosos, carregando bandejas de prata repletas de ânforas do mais puro vinho. Elas vão até os guerreiros e despejam vinho em suas goelas, servem o vinho escorrendo entre seus volumosos e imortais seios.”, eu, empolgado, e imaginei-me como um daqueles afortunados deuses, escarrapachado num enorme estofado de peles, com uma dessas beldades em cada braço, molhadas de vinho e besuntada da gordura dos assados de carneiro.
“Há! Há! Há! Há! Você me diverte, mortal. Em Asgard é que a coisa fica feia, o Pai Odin não tolera putaria, e as deusas, nossas esposas, são as mulheres mais vingativas de todas as dimensões. Mesmo que mulheres circulassem nuas servindo vinho, duvido um deus asgardiano que as mirasse, as esposas asgardianas são terríveis”.
O bar do Laércio começou a encher, encher – fique bem claro, para os padrões do bar do Laércio -, entraram mais umas sete ou oito pessoas.
“Pensava mesmo que a vida dos deuses era só deleite, mortal?”
“Sim, afinal vocês são deuses”.
“Nada disso. A vida de um deus é das mais maçantes, ter de servir de exemplo e ainda aquele povaréu todo pedindo as coisas mais absurdas, como se fossemos capazes de milagres.”
“Ué, e não são?”
“Claro que não. Pedem-nos uma boa caçada, uma boa pesca, um bom tempo, uma boa esposa e, a mais absurda de todas, pedem-nos perdão, que os absolvamos. Que merda de diferença isso faz? A vida de deus não é fácil, mortal. E o que recebemos? Umas rezas insossas, um sacrificiozinho de um porco aqui, de um cabrito ali... Acredite, não é paga suficiente para tamanha aporrinhação.”
Curioso. Ninguém está satisfeito com suas ocupações, suas profissões. Todos se sentem injustiçados. O trabalhador braçal diz que sua vida seria melhor se fosse, sei lá, um bancário, entrar às 9 horas no serviço e sair às 16 horas, trabalhar em ambiente com ar condicionado; o bancário sonha com uma vida menos fatigante se vendo, sei lá, como professor, não mexer com dinheiro, ter hora de 50 minutos e duas férias por ano; o professor sonha-se médico, que sonha-se juiz e por aí vai. Ninguém se sente plenamente recompensado. Nem os deuses, fiquei sabendo.
“Além disso, os deuses, meu amigo, não são muito afeitos a prazeres. Nós criamos o prazer, semeamos essa idéia entre vocês, mortais, para que pensem que isso é o máximo que podem obter de suas vidas”.
“Bom, o dia em que eu estiver com uma gostosa em cada braço, besuntadas, a me derramar vinho pela garganta, deitado num amontoado de peles, vou achar, digo, vou ter certeza que será o máximo, o auge da minha vida”.
“Está enganado, amigo de Midgard. Tais prazeres carnais, longe de mim dispensá-los, nós os criamos para que vocês permaneçam saciados, contentes na sua condição de animal, para que não foquem sua atenção em coisas maiores.”
“Que coisa maior pode haver do que eu abraçado a duas deusas ruivas e peitudas, todas besuntadas?”
“Há! Há! Há! Há! Insiste nessa imagem, amigo mortal. O que há de maior? Ser um deus!!! O que te parece?”
Bem, quando penso em mim agarrado a duas deusas de crina da cor do fogo e dando trabalho a elas, implicitamente já me tenho como um deus. Como um mero mortal de quase 50 anos poderia dar conta? Mas nunca tinha pensado seriamente nisso. Até agora. Fiz sinal de que me esperasse, fui até o balcão e voltei com mais cerveja, uma long neck pra mim e outra ampola para o Thor. Traga seu amigo aqui mais vezes, me disse o Laércio, prevendo a quantidade de ampolas que Thor iria consumir. Pus a cerveja (a quarta ou quinta) à sua frente e metade dela já não existia na ampola quando me sentei e desatarraxei a tampa da minha long neck. Esse cara deve ser o Bukowski dos deuses, pensei.
“Peraí!!!”, eu já meio puto com aquele deus, “Você tá querendo dizer que enquanto nós, humanos, ficamos nos engalfinhando e fodendo, não percebemos que podemos ser mais que isso?”
E quem quer mais que isso, ser capaz de ficar engalfinhado e fodendo o dia todo? E quando se tem quase cinqüenta anos e se vê a potência decrescendo exponencialmente, é só nisso que se pensa. É somente a isso que almejamos, uma ninfetinha de seus vinte, vinte e poucos anos, se acabando em cima de nosso pau em riste. Quem é que quer ser a porra de um deus? Ainda mais agora, que sei que eles mal fodem.
“Exato, amigo mortal. O prazer carnal é para desviar suas atenções, para que não queiram também se tornar deuses. Perderíamos nossos empregos, enxerga? Os deuses criaram o sexo como uma espécie de suborno a vocês, nós mantemos seus membros duros e vocês nos adoram, nem pensam em tomar nossos lugares.”
“Enxergo, sim. Mas parece que não tem dado muito certo, não é? Você mesmo parece que tá meio assim de aviso prévio, prestes a ser demitido do panteão dos grandes deuses, sua audiência tá baixa, meu amigo de Asgard”, e pus naquele ‘meu amigo de Asgard’ todo o sarcasmo de que eu sou capaz, e com quase cinqüenta anos de prática, garanto que não é pouca coisa.
Puta que me pariu!!!! Lá estava eu, batendo de frente com um deus, provocando o cara acintosamente. Mas pudera... Primeiro o cara me jogou uma tempestade na cabeça, depois me teleportou até o bar do Laércio, me deu um prejuízo enorme (já se esvaziava a sétima ampola) e ainda veio dizer que a buceta é um suborno dos deuses, um cala-boca, uma propina para que permaneçamos não mais que macacos, veio dizer que nos manipulam a seu bel prazer. Convenhamos, o cara pediu pela minha falta de educação. Ele mereceu ouvir que já não estava também com essa bola toda. A mim, nenhum deus manipula, nunca lhes dei esse poder, nunca lhes dei minha crença. Acabei de falar e fechei os olhos. Esperando pela marretada em minha cabeça. A marreta de Thor versus minha cabeça. Seria uma briga das boas. A marretada não veio. Veio apenas uma pergunta, a mais prosaica de todas.
(continua...)
sábado, 26 de dezembro de 2020
sexta-feira, 25 de dezembro de 2020
Dias de Chuva São Para se Ficar em Casa (parte 2)
Um vento mais forte, suando chuva, fez-me apressar o passo e quase tentei entrar, de novo, pela quarta vez, no hotel Meridional. Localizado a uns 3 quarteirões do posto, tem um anexo no térreo que serve de bar depois das 20 horas. Pena que é restrito a hóspedes ou a convidados desses. Não sou hóspede, muito menos convidado. Não sou convidado há muito, muito tempo, mas não reclamo, eu faço por onde. Já tentei forçar minha entrada lá, geralmente quando já passava bêbado e queria um lugar calmo e de classe para terminar a noite. Na última tentativa, ganhei cinco pontos no supercílio esquerdo e quatro no queixo. Eles latejam sempre que passo em frente ao hotel. Cortesia do Jaimão, um segurança negão que mais parece um bloco de basalto. Passei e acenei para ele, do outro lado da rua; ele me respondeu silenciosamente com um trincar de maxilares e um cerrar de punhos. Todo vistoso no seu uniforme vermelho com cordames trançados no peito e dragonas douradas. Apressei ainda mais o meu passo. E, dessa vez, a eminência da chuva não teve nada a ver com isso.
Havia poucas pessoas transitando pelas ruas esburacadas do centro da cidade naquele horário, os shoppings roubaram a alma dos velhos centros, mas ainda existem bares com preços honestos para os que sabem onde procurá-los, para as almas ainda não cooptadas pelas praças de alimentação, para as almas sem franquia. Até desviei do meu caminho usual para não ter que passar em frente ao bar do Laércio, local que freqüento há uns 12 anos, e só ele. Não estava disposto a ver as fuças do Laércio naquele sábado. O bar do Guimba, depois da morte dele e de seu violão, ficou com o filho meio retardado dele, virou um reduto de adolescentes, havia uns trinta deles, um bando de maritacas num coqueiro, passei reto. O Sótão foi arejado, iluminou-se, tem apresentações de música ao vivo, agora. Sertaneja, clientela da mais alta estirpe. Passei batido, também. O Sociedade Alternativa era tão alternativo que fechou, virou uma sorveteria, podia ter sido pior e uma igreja evangélica ocupar agora suas fundações. O bar do Jóquei, numa desolação de deprimir eremita. Não teve jeito. Na verdade, eu tava procurando um bar do Laércio sem o Laércio. É foda.
Resolvi, então, que ia tomar umas três ou quatro ampolas na pastelaria do Coreano e voltar pra casa. Mas tive que estacionar sob a marquise do Teatro Municipal, a uns cinqüenta metros do coreano. Um estrondo, mais sentido como tremor que ouvido, me fez olhar para cima. E ver o céu constipado, ventre roxo que não caga há uma semana.
Foi, então, que depois de nem sei quantos anos, saído de nem sei de onde, veio meu pedido, que Thor segurasse aquela merda toda por uns 40 minutos, tempo pra eu estar em companhia do meu rum, em casa. Ou Thor não me ouviu ou o deus estava com diarréia naquele dia. O ar ganhou peso, meus tímpanos sentiram a compressão, os barômetros ficaram loucos e toda aquela merda veio abaixo. Uma tormenta inédita nos últimos 20 anos. A marquise não valeu de nada, ventava para todos os rumos, era possível ver os pingos se cruzando em todas as direções, pernilongos líquidos me picavam em todas as minhas latitudes, rosto, costas, pernas. Enxurradas de raios erodiam a atmosfera, lombrigas de alta-tensão naquele ventre que se aliviava de sua carga podre.
Trovejou uma voz ao meu lado, sem me ter dado conta da chegada de seu emissor, ribombou uma voz:
“Bela borrasca! Primorosa!”
Porra!!! E lá estava o cara. Ele. Não o loiro dos quadrinhos, não aquele de anúncios de xampú. Sim o abrutalhado, o que arrota à mesa, o vermelho. Nem olhava para mim, sua mira era exclusiva para a tempestade, sua cria. Ele. A bordo de seus 2,10 metros e de seus 270 quilos (a carne dos deuses nórdicos é três vezes mais densa que a nossa), olhava embevecido para a sua criança mal-criada, um pai a sorrir com as traquinagens da filha. Cabelos e barba da cor da palha de aço oxidada, corpo maciço, nada daqueles corpos desenhados dos viadinhos de academia, uma única massa de braços, tronco e pernas. Trajado com botas, calças e uma manta que lhe caía por sobre os ombros, tudo de couro, couro de rena ou alguma coisa do gênero, couro não-curtido, cheirando mal, cheirando ainda ao seu dono original. E na cintura, pendurado à esquerda, o martelo. Mjolnir, o rompedor de tormentas. Um bloco, quase um monolito do mineral Uru. Mjolnir também parecia vivo, parecia regojizar-se. Pequenos coriscos acendiam-se em seu interior, riscavam seu corpo, alguns corriam pela sua superfície negra e saltavam ao ar, fagulhas percorrendo seus veios como sangue nas artérias. E repetiu: “Belíssima borrasca! Esplendorosa!
Não falava comigo. Consigo mesmo. Um artista a admirar sua obra, uma vaca lambendo sua cria. Se me é permitido um trocadilho sincretista: um Thor narcisista.
Inesperadamente, dirigiu-se a mim.
“Não dava para segurar essa, amigo. Bonita demais para se adiar, não concorda?”
“É. Quer dizer que me escutou?”
“Claro que sim, mortal. Eu sempre escuto, fazia tempo que não me pedia ajuda. Deixou de crer em mim?”
Devo ter vestido uma expressão do mais puro espanto, terror, surpresa, incredulidade, tudo misturado.
“Não se exaspere, mortal, sei que me pedia sem verdadeiramente acreditar, mas há eras que não estou podendo escolher muito os pedidos dirigidos a mim, por isso atendia até aos descrentes, como os seus”.
“E não os atende mais?”
Caralho! Eu tava lá falando com um deus. E onde estavam todos aqueles “vós”, “miladys” e “milordes”? Deuses não falam sempre na segunda do plural? É claro que não, sempre foi óbvio. Os deuses são rebentos do povo, do que o povo quer acreditar e o povo é analfabeto. Segunda do plural... Só mesmo eu para acreditar nisso.
“ Se eu os atendo, ainda? Por acaso você é cego?”
Tudo bem, eu tinha merecido a martelada.
“Sabe o que é, mortal? Depois que pregaram aquele rapaz barbudo, boa-praça, que sempre dava a outra face, numa cruz, comecei a perder meus crentes. Não só eu, outros deuses, também. Fomos reduzidos a lendas, superstições. E sabe como é, né? Sem crentes, sem poderes. Sou bem menos poderoso, hoje.”
Olhando para aquele rochedo de Gibraltar feito em carne e ossos era difícil imaginá-lo mais poderoso.
“Quer dizer que não teria sido capaz, ainda que quisesse, de atender-me hoje? Quer dizer que não é mais capaz de controlar as tempestades?”
“Claro que ainda sou, mortal. Mas isso não me dá mais prazer, fazia para impressionar os mortais com minha força, amedrontá-los com meu poderio. Hoje, prefiro deixá-las livres, dá-me mais júbilo as ver assim, correndo pelo pasto etéreo com suas crinas desgrenhadas.”
“Pois é. Eu também gosto de apreciar uma boa tempestade, mas prefiro fazê-lo de minha casa, na companhia de uma boa bebida.”
“Haaaaa!!!!! Você chegou ao ponto, mortal!!!”, e deu-me um “tapinha” no ombro que deve ter deslocado minha omoplata.
“Deixemos de coisas e cuidemos da vida. Conduza-me a uma de suas tabernas. Beberemos do bom mulso.”, com uma alegria na face da qual só os deuses bêbados são capazes.
O tal do mulso é uma mistura de água e mel que pode ser fermentada, tornando-se alcoólica. Chamada também de hidromel, era usual entre os nórdicos adoradores de Odin e companhia.
Tentei explicar que não acharíamos mulso em local algum da cidade e lhe expus as qualidades da cerveja. Um deus esquecido não pode lá exigir muita coisa, ele me disse, resignado. Num gesto quase imperceptível de dedos, pôs a tempestade para ninar. Cessou tudo. Chuva, coriscos, trovões.
Problema: onde levar Thor? Onde levar um ogro daqueles sem que ele chamasse muita atenção? Onde até um deus passaria despercebido? Resposta fatal e inevitável: o Bar do Laércio. No Laércio, um centauro servindo ao balcão seria normal, o ET de Varginha no banheiro, mijando ao seu lado, não causaria surpresa.
“Resolvido, então, mortal. À estalagem desse bom homem Laércio.”
O Laércio, um bom homem... Esses deuses creem em cada coisa.
(continua...)
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