quinta-feira, 31 de março de 2022

Dias Tristes

Têm dias
Que amanhecem tão tristes
Que nem mesmo
A bela Cecília Malan,
No jornal da Globo,
A noticiar com meiguice
As desgraças mundiais
É capaz de me alegrar.

(e eu deixei me escaparem a chance e o tempo da delicadeza)

sábado, 26 de março de 2022

Carros Voadores, Calendários Maias e Outros Futuros Que não Se Cumpriram

Eu também, quando moleque, como acho que todos os de minha geração, acreditava que os anos 2000 nos chegariam a bordo de carros voadores, que habitaríamos cidades suspensas da Babilônia.
Lembro-me de uma caixa de sucrilhos cujo verso trazia uma representação desse futuro promissor, carros e cidades flutuantes contra o céu azul-alaranjado de um entardecer. Recortei esse desenho e o guardei comigo por muito tempo. Volta e meia, eu ficava a contemplá-lo e a me imaginar no ano 2000. Eu teria, então, 33 anos. Uma marca que parecia inatingível para mim, com 9, 10 anos na época.
Cheguei a usar essa ilustração para fazer uma composição na escola, na aula de português. Ganhei nota máxima. Tanto pela "minha" ideia quanto pela ausência total de erros de ortografia na composição. Para quem é novinho e não sabe, composição é o que passou a ser chamado de redação e, hoje, até mesmo de produção textual. Como se cada aluno de hoje em dia fosse um pequeno literato em desenvolvimento e não semianalfabetos de pai e mãe.
Inacreditavelmente, os anos 2000 chegaram. Mais inacreditavelmente ainda, os meus 33 anos chegaram. A  promessa de carros voadores não se cumprira. E ainda que tivesse, provavelmente os fusquinhas antigravitacionais não mais me apeteceriam, pois há tempos, já naquele tempo, eu perdera todo e qualquer interesse por veículos automotivos.
Nos anos 2000, diferente do que eu acreditei em criança, nós não mudamos de Bedrock - a cidade dos Flintstones - para Orbit City - a morada dos Jetsons.
Aquela ilustração do futuro na caixa de sucrilhos ficara no passado. Passara a ocupar um lugar na estante empoeirada dos sonhos que tinham sido bons de se sonhar.
Ao invés de um porvir utópico, os anos 2000, pelo contrário, vieram carregados de maus auspícios, de previsões de fim de mundo. Havia um calendário maia que, muito mais do que prever, assegurava o fim do mundo para o ano de 2012.
Tomei ciência, contato e até me aprofundei superficialmente no tal calendário maia através de um professor com quem tive o privilégio de trabalhar, o grande mestre Odair. Químico, ufólogo, arqueólogo, alquimista, pajé, PhD em teoria da conspiração, violeiro dos bons e entornador de cerveja, Odair é das pouquíssimas pessoas que conheci a quem se pode, de fato, ser dado o título de livre-pensador.
Às vésperas de 2012, Odair sempre chegava cedo na escola com a notícia de uma catástrofe mundial recém-acontecida. Um terremoto, um tsunami, um furacão, um incêndio de vastas proporções, a eleição de Dilma Rousseff. E todos eram indicativos, segundo ele, de que logo, logo o fim do mundo se daria pelas mãos de uma Natureza raivosa, desgostosa da vida com o ser humano.
Veio o ano de 2012 e nada mudou. Tudo continuou como sempre esteve. Então, é claro, foi a vez dos escarnecedores. Todos os que haviam passado anos a escutar as falas apocalípticas do Odair, chegavam pra ele e diziam : e aí, Odair, o mundo não ia acabar?
A todos, depois de um golinho no seu café e de dar a pitada final no seu Derby azul, sem perder a calma nem a fleuma, Odair respondia : e você tem certeza mesmo de que não acabou?
As memórias dos sonhos com carros voadores e da possibilidade do mundo ter mesmo se acabado e a gente não ter percebido foram trazidas à tona por um comentário que recebi na postagem A Vantagem de ser Bandido no Brasil (2).
Um comentário, segundo a classificação do blogger, feito por um anônimo. Um "anônimo", para mim, com uma assinatura inconfundível de estilo, vocabulário e construção de imagens.
Bom saber que você ainda passa por aqui vez ou outra, e melhor ainda quando deixa seus rastros, suas leves pegadas, pequenos fósseis de você.
Eis o comentário :
"Um dia ousamos olhar o futuro e sonhar com carros voadores, seres extraterrestres, viagens de desmaterialização pela força do pensamento, casas elegantes onde tudo reluz e com robôs para mantê-las sempre limpinhas.
Então veio o futuro, olhamos uns para os outros sem a menor compreensão dos dialetos. Cada um sendo peça importante de torre de babel. Sentamos lado a lado e choramos.
Quando vão inventar a máquina do tempo? Precisamos avisar aos outros que, de fato, o mundo termina nos anos 2000".

quinta-feira, 24 de março de 2022

A Vantagem de ser Bandido no Brasil (2)

O Dia dos Mortos, no México, comemorado em todo 2 de novembro, é a ocasião em que o fino hímen que separa a dimensão dos vivos e a dos mortos se desfaz e as almas dos defuntos podem circular de volta pela Terra e visitarem os parentes. É um tipo de saída temporária do Inferno para rever os entes queridos, muito parecido com os famosos "saidões" de natal, ano-novo, dia das mães etc dos nossos presídios.
No Brasil, também há uma espécie de Dia dos Mortos, em que cadáveres saem de suas tumbas e voltam a transitar por entre o povo. Porém, o Dia dos Mortos por aqui só acontece a cada quatro anos. Nos anos de pleitos eleitorais.
Quadrienalmente, três meses antes das eleições, deputados estaduais, federais, senadores  e toda a sorte de patifes saem dos sepulcros de seus gabinetes, onde ficam tramando maracutaias e enchendo o cu de dinheiro público, e voltam a circular por entre o povaréu à cata de votos.
Neste ano, contudo, o Dia dos Mortos brasileiro contará com um atrativo a mais. Não será apenas a volta dos mortos-vivos. Será também o retorno triunfal dos presos-vivos.
Em dezembro de 2021, a politicalha brasileira recebeu um puta dum presente de Natal da corriola do STF : a extinção de 277 anos e 9 meses de penas que a valorosa Operação Lava Jato infligira à bandidagem do auxílio-paletó. Com isso, um sem-número de ex-presidiários foram tornados, de novo, elegíveis.
Uma legião de presos-vivos poderá voltar à vida pública e ser eleita ou reeleita. E será, claro. Pois o povinho que vota nesses condenados não é nada diferente deles. As bolas esquerda e direita do mesmo saco, os políticos corruptos e o povo.
Entre os mais famosos, tiveram suas penas anuladas os seguintes modelos de honestidade : Lula, uma condenação de oito anos e 10 meses pelo caso Triplex e outra de 17 anos no caso do sítio de Atibaia; Eduardo Cunha, uma condenação de 24 e outra de 14 anos; Sérgio Cabral, 14 anos de sentença; o também ex-presidente da Câmara Henrique Eduardo Alves, 8 anos; Antonio Palloci Filho, 12 anos e 2 meses; João Vaccari Neto, não achei a duração da pena, e uma porrada de outros.
Além disso, ações que tramitavam contra políticos ainda não condenados também foram anuladas. São os casos, a exemplos mais célebres, de Michel Temer, acusado de corrupção nas obras da construção da Usina de Angra III; de José Serra, investigado por corrupção passiva e lavagem no valor de R$ 27,5 milhões oriundos da Odebrecht; e de Geraldo Alckmin, o parzinho romântico de Lula para as próximas eleições, que era alvo de investigação com base na delação de um executivo da Ecovias que relatou recebimento de R$ 3 milhões nas campanhas de 2010 e 2014.
Muitos desses e mais uns tantos menos notórios estarão de volta às urnas em outubro de 2022.
Aqui, o cara que rouba dinheiro público é agraciado com o direito adquirido de continuar a roubá-lo. Agraciado pelo STF e pelas urnas, pela nossa população de "gérsons".
Aqui, o bandido nunca perde.

quarta-feira, 23 de março de 2022

A Vantagem de ser Bandido no Brasil

Lula roubou. Passou os nove dedos nos cofres da nação. Aliás, roubou, não! Roubou pra caralho!!! Sangrou o país mais que toda a esquadra de Cabral e a Coroa Portuguesa!!!
E, agora, será indenizado! Por ter sido chamado - pasmem - de ladrão. Por ter sido colocado no centro de um power point que representava, ainda que de forma modesta, todo o esquema de quadrilha e corrupção do governo petista, por ter sido provado e comprovado que ele é o capo da máfia vermelha no Brasil.
Aí, ontem, a camarilha da Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) tascou uma condenação sobre o autor do didático power point, Deltan Dallagnol, que foi procurador da República de 2003 a 2021 e que ganhou fama por ter coordenado a valorosa força-tarefa da Lava Jato.
Deltan, procurador que era, tanto procurou que achou. Achou sarna pra se coçar. Pela calúnia e pela injúria cometida contra o Sapo Barbudo, foi condenado a pagar setenta e cinco mil pixulecos ao Seboso de Caetés. Valor esse que ainda será corrigido pela inflação.
Inicialmente, o Nove-Dedos pedira um milhão de reais de indenização pela mácula causada por Dallagnol à alma mais honesta da nação.
O Brasil foi descoberto por bandidos, colonizado por bandidos, povoado por bandidos, por párias de todas as nacionalidades e continentes, e sempre conduzido, administrado, legislado e governado por bandidos. E com um povo de índole também corrupta.
Aqui, bandido nunca perde.

Procrastinação

Tenho um bom livro
Para começar a ler
Mas não o leio.

Tenho uma boa caminhada
Para trilhar
Mas não a ando.

Tenho um bom pó
Para verter em café forte
Mas não o coo.

Tenho um bom acervo de CDs
A espera de ser ouvido
Mas não os toco.

Tenho um bom número de sonhos
A concretizar
Mas os entorpeço com álcool.

Tenho um bom resto de vida
Ainda para viver
Mas só penso na Morte 
(no Descanso, enfim).

Morte que,
Neste momento,
Deve estar a pensar e a se comportar feito eu :
- Tenho um bom tanto de pessoas
A matar
Mas não as ceifo.

sexta-feira, 18 de março de 2022

Cerveja-Feira (49)

Um cabaré - os originais, os clássicos - é uma Disneylândia para maiores, um Beto Carrero World para marmanjos e barbados. É um ambiente por cujos palcos transitam apresentações das mais variadas artes cênicas : teatro, dança, drama, música, espetáculos de humor e de ilusionismo etc. E, claro, a justificar toda essa produção artística, todo esse mecenato, muita mulher gostosa. A famosa buceta. Strip-teases às mancheias. Um show de peitos!
Como bem resumiu e definiu o genial Juca Chaves, "cabaré é o lugar onde vão se encontrar os meninos maus das famílias boas com as meninas boas das famílias más". O cabaré povoa o imaginário e o cancioneiro popular macho das antigas.

"a luz do cabaré já se apagou em mim, o tango na vitrola também chegou ao fim..."(Um Tango para Teresa; Evaldo Gouveia e Jair Amorim);
"Sou um homem, sou um bicho, sou uma mulher. Sou as mesas e as cadeiras desse cabaré..." (Mal Necessário; Mauro Kwitko e Ney Matogrosso);
"Todo o cabaré se inflama, quando ela passa. E com a mesma esperança todos lhe põem o olhar" (Quem há de Dizer; Lupicinio Rodrigues);
"What good is sitting alone In your room? Come hear the music play. Life is a Cabaret, old chum, come to the Cabaret." (Cabaret; Liza Minelli);
"E por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher, me ninava cantando cantigas de cabaré." (Minha História; Chico Buarque);
"Cantei, cantei, nem sei como eu cantava assim, só sei que todo o cabaré me aplaudiu de pé quando cheguei ao fim..." (Bastidores; Chico Buarque);
"Sou uma cantora de tango, de rumba e de mambo, o que você quiser. Fui a principal donzela, a vedete dos cabarés." (Cantora de Cabaré; Edvaldo Santana)
"Uma cuba libre treme na mão fria, ao strip-tease da agonia de cada um que deixa o cabaré." (Cabaré; João Bosco e Aldir Blanc);
"Se me der a direção, eu assumo o cabaré. Vou reformar o salão, vai ter oferta de mulher. Vai ter quenga do Japão, do Sudão e de Guiné. E aqui da região as primas lá do café." (Cabaré Globalizado; Falcão)

E, agora, cabaré também é uma marca de cerveja. E das piores. Valha-me Santo Odair José!!!
A cerveja Cabaré é mais uma dessas arapucas da linha Puro Mijo da cervejaria Petrópolis.
Há tempos que vejo dela numa loja de conveniência em que me abasteço e fiquei com curiosidade/vontade de prová-la desde que a vi. Porém, eu não pago nem a pau 5 reais numa latinha de cerveja de 350 ml, o preço praticado pela loja.
Então, no fim de semana passada, fomos para a casa da sogra (e do sogro, também), na cidade mineira de Passos. E bem na esquina, num depósito de bebidas/bar/lanchonete, estava lá o anúncio num banner, que cartaz agora virou banner (fico puto com essas coisas, quase viro o Hulk de tanta raiva) : cerveja Cabaré, 4 por 10 reais. Aí, tive que comprar. Comprei-as.
Com muito esforço, só mesmo para não jogar 10 dez reais ralo da pia abaixo, só mesmo para não ser derrotado por uma cerveja, consegui tomar duas das latinhas. A terceira, dei para a minha esposa (na alegria e na tristeza, ora porra) e a quarta, ofertei para a minha sogra. Inclusive, fica aqui a dica : um fardo de Cabaré quente é um bom presente para se dar para a sogra.
Ruim pra caralho, a Cabaré! E olha que eu não tenho nada contra a Glacial, a Lokal, a Belco etc.
Para tentar dar legitimidade ao produto, o fabricante contratou o cantor Leonardo, notório entornador de cerveja, para ser o garoto-propaganda da marca. É como diz o ditado : cada cerveja tem o Zeca Pagodinho que bem merece.
Mas  não tem jeito. A Cabaré é ruim, muito ruim. Horrível. Nem o Leonardo é capaz de salvar. Aliás, muito menos o Leonardo é capaz de salvar a Cabaré. Intragável.
Enfim... a Cabaré é mesmo igual às músicas do Leonardo : tem quem engula.
Cerveja Cabaré e Leonardo. Fuja. Dos dois.

quinta-feira, 17 de março de 2022

Cotidiano nº 3

Feliz dela
- aquela do Chico
Que acorda com a boca de hortelã -
Que todo dia
Faz tudo sempre igual.

Pobre dele
- deste que vos fala
Que acorda com a boca malsã -
Que todo dia
O dia faz tudo sempre igual com ele.

terça-feira, 15 de março de 2022

Que Fossa, Hein, Meu Chapa, Que Fossa...(54)

Desejos abafados, reprimidos, contidos e amordaçados são eternas metástases na alma, adormecidas. E que, quando nos distraímos, quando nos damos ao luxo e ao risco de baixar a guarda, bocejam aqui, ali e acolá.
Como lindamente escrito na música "Revelação", composição dos irmãos piauienses Clodomir e Clésio e imortalizada na voz do cearense Raimundo Fagner.
E essa postagem vai, primeiramente, para meu amigo virtual Jotabê. E, segundamente (como diria Odorico Paraguaçu), para todos nós, os velhos que um dia já fomos uma brasa.

Revelação
(Clodomir e Clésio)
Um dia vestido
De saudade viva
Faz ressuscitar
Casas mal vividas
Camas repartidas
Faz se revelar

Quando a gente tenta
De toda maneira
Dele se guardar
Sentimento ilhado
Morto, amordaçado
Volta a incomodar
Para ouvir a canção, é só clicar aqui, no meu saudoso MARRETÃO.

em tempo : histórias, contos, crônicas etc podem ser, e geralmente são, frutos da imaginação; mas os sentimentos, não. Mal disfarçados ou não, não há como inventá-los, nem evitá-los; apenas moderá-los.

segunda-feira, 14 de março de 2022

McLanche Mais do Que Feliz (Ou, o Hambúrguer de Carne Mijada)

Para os sortudos e abençoados que não conhecem, o McLanche Feliz é praticamente igual a todos os outros produtos oferecidos pela famosa e famigerada rede mundial de lanchonetes. Pequeno, seco e esturricado, textura de isopor, sem gosto ou suculência alguns e, sobretudo, caro pra caralho! A única diferença é que, além das fritas murchas e do ketchup sulfúrico, O McLanche Feliz acompanha também um danoninho e um brinde animado, um brinquedinho divertido - com o objetivo de criar uma memória afetiva na criançada e mantê-la como consumidora depois de adulta.
Normalmente, os brinquedinhos são reproduções de personagens do filme ou da animação infantil em voga na temporada. Meu filho, hoje com 12 anos, há algum tempo já desencanou do McLanche Feliz, mas já o consumiu em razoável quantidade. Eu mesmo nunca o levei a uma das lanchonetes do palhaço Ronald, mas nunca me opus a que minha esposa, de vez em quando, o levasse.
Embora não mais os use, muitos desses brinquedos, ele guarda até hoje. Power Rangers, Bob Esponja, Monstros S.A., Minions, Toy Story, Smurfs, Os Incríveis, Era do Gelo etc. Nem sempre ele saía da lanchonete com o personagem pretendido. Às vezes, o modelo desejado, geralmente o protagonista do filme, já havia esgotado e ele se contentava com um coadjuvante. Era uma questão de sorte. Umas crianças tinham mais sorte, outras, menos.
Mas quem tirou, de fato, a sorte grande foi um adolescente britânico, de 14 anos de idade, da cidade de Henlow. Amiúde, ele era levado para comer um McLanche Feliz por sua devotada professora, Hannah Harris, com 21 anos à época.
O menino comia o McLanche Feliz e ao fim da lauta refeição ia conferir o brinquedinho que havia tirado. E lá estava o brinquedinho. Um boneco do Shrek? Do Mário Bros, do Pikachu, do Buzz Lightyear, do Angry Birds? Porra nenhuma!
O brinquedo no fundo da caixa do McLanche Feliz era o melhor brinquedo já inventado em toda a história da humanidade : uma buceta! 
A buceta de Hannah Harris. Depois de comer o McLanche Feliz, ele comia o McLanche mais do que feliz, o McLanche com final feliz. O McCarne Mijada. Quiçá com um picles de jilozinho! 
Pãããããããta que o pariu!!!! 
É que após saírem da lanchonete, a professora dirigia seu carro até o estacionamento semideserto de uma rede de varejo britânica de utensílios domésticos, a Wilko, e lá eles davam uma rapidinha. Isso sim é que é fast food! É a fast foda!
Porém, a alegria da professora (e do menino) durou pouco. Um irmão mais velho do moleque descobriu o caso extrapedagógico que ele vinha mantendo com a professora e caguetou tudo para os pais.
Deve ser uma bichona enrustida, esse irmão. Ou um daqueles punheteiros espinhudos que só vão conseguir ver uma buceta quando tiverem mais de 30 anos. E se pagarem por ela.
Na semana passada, a dedicada professora, agora com 23 anos, foi condenada a seis meses de xilindró por corrupção de menores.
"Sua conduta teve um efeito devastador sobre a vida desse jovem", disse Caroline Wigin, a juíza que conduziu o caso.
Sério? Devastador? Rapaz, bem que eu gostaria de ter visto a cara de devastado do moleque depois de cada lanchinho que ele fazia em companhia de Hannah Harris, em foto abaixo.
Nem o pai desse moleque já comeu uma gostosa dessa na vida! Aliás, nem eu! 
Pããããããããta que o pariu!!!!!

sexta-feira, 11 de março de 2022

Do Tempo em Que nos Era Permitido Rir

Sempre que estou a pedalar pelos infinitos e, ao mesmo tempo, limitadíssimos canais da TV a cabo e calha de estar no ar A Escolinha do Professor Raimundo - a antiga e única -, eu breco e a assisto até o fim.
De um tempo para cá, o responsável pela sua transmissão, o Canal Viva, adicionou um aviso, um alerta, uma observação ou sei lá o quê, ao encerramento da atração. Depois dos créditos finais aparecem os seguintes dizeres :
Mais que um esclarecimento aos telespectadores, os dizeres são uma maneira da emissora se proteger, resguardar-se, de tirar o seu cu da reta das minorias raivosas e ávidas por polpudas indenizações que imperam neste Brasil, dantes mais varonil e com um mínimo de vergonha na cara -
que, por aqui, a honra se restaura com dinheiro e uma meia dúzia de cestas básicas.
A Escolinha do Professor Raimundo (EPR) é uma maravilha. Um primor. Como, aliás, toda a obra do demiurgo Chico Anysio. Muito melhor que qualquer tratado sociológico. É um mosaico fidedigno dos principais tipos que compõem o grosso da população. É a colcha de retalhos mal cerzida e sem arremate da sociedade da terra de Pindorama. A EPR congregava todos os hoje chamados estereótipos, que nada mais são do que representações dos variados segmentos sociais. Toda a diversidade da fauna brasileira dentro de uma sala de aula.
A EPR tinha o bicha, o gaúcho, o baiano, o turco, o judeu, o índio, o caipira, o bêbado, o mineirinho, o carioca "esperto", o puxa-sacos, o conquistador barato, a gostosa burra, o marombeiro, o CDF, a puritana, a com calor na bacurinha, o favelado, a maloqueira etc.
E todo mundo fazia piada com todo mundo. E todo mundo tirava sarro de todo mundo. E todo mundo ria de todo mundo. E, sobretudo, de si próprio. E ninguém se sentia melindrado, discriminado ou ofendido de morte. E, principalmente, todo mundo se divertia a valer.
Tanto que, acredito, os dizeres de alerta do Canal Viva bem poderiam ser substituídos por outros, tão explicativos quanto e com um quê dos bons saudosismo e nostalgia. Bem que poderiam assim ser colocados:
"Esta obra é de uma época  em que era permitido rir. De um tempo em que rir era um comportamento e um costume aceitáveis".
Na verdade, de todos os tipos e personagens da EPR, ainda é permitido que se ria de um, de apenas um. E não só que se ria, mas que se avacalhe, que se achincalhe, que se escarneça e que se cague na cabeça dele. Apenas de um : o professor.
Que, no Brasil  "construído" pelo PT e pela esquerdalha, zombar do professor, da educação e do conhecimento é mais do que politicamente correto. É o esporte nacional da Pátria Educadora.

terça-feira, 8 de março de 2022

Bolsonaro e o Dia Internacional da Mulher

"Parabéns, mulherada, por seu dia", declarou e exaltou Jair Bolsonaro, de gravata cor de rosa e tudo, figurino by Michelle!
Chico Buarque é o cacete! Bolsonaro é quem mais entende e melhor traduz a alma feminina!
É a Pátria rosa e pink! É o Brasil acima de tudo e a xavasca acima de todos! E debaixo. E de ladinho. E de quatro. Mas peludinha, por favor!
A declaração foi dada no evento alusivo ao Dia Internacional da Xavasca intitulado "Brasil pra elas, por elas e com elas".
O Mito pôs em um pedestal a participação da mulher em seu governo e garantiu que foi o Presidente que mais desceu o pau na moleira do macho tóxico:
 
"Em nosso governo, a participação da mulher é bem maior que nos demais governos, bem como também um aviso aos machões: o governo que mais prendeu machão agressor foi o nosso".
 
A primeira-dama Michelle Bolsonaro e a Ministra Damares Alves, da Mulher, Família e Direitos Humanos, corroboraram e incrementaram a fala do Messias : 
 
"Somos de fato um governo cor de rosa. Deixa eu mostrar uma coisa pra vocês. Vejam só. Quando falo que é cor de rosa, só em 2021 vejam quanto foi investido em mulheres no Brasil : R$ 236 bilhões".
 
Outra que teceu e derramou elogios à sensibilidade do Cavalão para com as mulheres foi a ministra Flávia Arruda, ministra-chefe da Secretaria de Governo :  
 
"Temos tido voz, respeito e lugar nos espaços de decisões. Bolsonaro nos respeita em cada espaço e cuida para que aquele ou esse discurso machista não nos intimide".
 
E tava tudo muito bom, tava tudo indo muito bem, mas Bolsonaro, feito o Sandoval Quaresma, personagem do inesquecível Brandão Filho, na hora de tirar aquela nota dez, derrapou, estrepou-se e deu pano pra manga pras feministas suvacudas e muxibentas de plantão.
Talvez para agradar também ao seu público masculino e para manter a fama de mau, o Mito não se aguentou e disparou : 
 
"Lá no meu tempo, era aquela história: ou a mulher era professora ou dona de casa. Dificilmente, uma mulher fazia algo diferente disso lá nos anos 50, 60. Hoje em dia, as mulheres estão praticamente integradas à sociedade. Nós as auxiliamos, nós estamos sempre ao lado delas. Não podemos mais viver sem elas".
 
Praticamente integradas à sociedade... e com a ajuda, o apoio, a permissão e a anuência do homem.
Fechou com chave de ouro.
Adorei.
Mito! Mito! Mito! 
E bandeira hasteada no Palácio do Planalto está assim hoje :

quinta-feira, 3 de março de 2022

Guerra no Ucranazistão, por GRF

Não entendo picas de política nacional. Que dirá, então, de geopolítica internacional? Aí é que eu nem abro a minha santa boca. Prova disso é que até agora nada disse da invasão russa à Ucrânia, nada disse do cossaco da antigas Putin ter batido com o pau na mesa.
Só o que eu estava achando "estranho" é toda a mídia estar a crucificar o Putin, enquanto sempre apoiou as diversas invasões estadunidenses, como, a exemplos, ao Iraque e ao Afeganistão. Quando são os EUA que invadem não é violação da soberania nacional, é uma luta pela democracia mundial, é uma ação de libertação de povos oprimidos pela tirania
Até que li um texto dos mais interessantes sobre a invasão russa, um excelente contraponto a toda essa hipocrisia reinante (e muito bem paga, tenho certeza) nos grandes veículos de comunicação.
O texto que reproduzirei abaixo é dele, do sorumbático GRF, guardião do blog O Ex-Estranho. Através dele, fiquei sabendo, inclusive, que a Ucrânia possui até ramificações nazistas incorporadas em seu exército oficial. Compensa a leitura.

"Começar perguntando o inusitado:
O que há de bom nessa Guerra? Bom, primeiro que, está confirmado o quanto nossa mídia é podre e vendida. Não é uma mídia, são correspondentes da Casa Branca, e sabem disso. Globo, Record, CNN, CBN, Jovem Pan, etc. Estimulam Fake News sobre a Rússia, utilizam imagens até de vídeogame como se fossem da guerra, cortam os historiadores e anulam toda a história. 
Cheguei ao absurdo de ouvir de uma jornalista da CNN que essa era a primeira guerra que acontecia desde o fim da Segunda Grande Guerra. De um absurdo incomensurável. Guerra, para esses jornalistas e essas mídias, só é relevante quando é feita contra brancos de olhos azuis. E olhe lá, pois se fosse os USA os agressores, então não seria "guerra", seria uma "intervenção para vencer os extremistas". A mídia entrou no modo "ataque puro" e/ou "Ad Hominem", pois criticam o Putin por ser o Putin, não por suas ações e argumentos. Assim como idolatram o palhaço do Zelenski sem qualquer motivo, é a adoração do absurdo.
Vou deixar alguns links salvos por aqui, de modo que eu possa consulta-los no futuro. Não pretendo descrever minha opinião sobre o conflito que está ocorrendo na Ucrânia. Mas não se esqueçam do tal do "movimento ucraniza Brasil" e das diversas maluquices que a OTAN/NATO propaga pelo planeta. Se o Putin, o mais calculista, decidiu contra-atacar na região, é de tal modo que essa era sua única opção. Ele já havia deixado claro em entrevistas que o avanço da NATO/US em países que fizeram parte da URSS seria encarado como uma ofensiva dos USA. E não está errado. Insistiram nisso. E agora fazem de bobos. Fingem inocência. Ignoram o Massacre na Casa dos Sindicatos de Odessa e tantas outras questões. A Ucrânia é um país com bases nazistas, ainda que a mídia ignore tal fato. O presidente, um boçal completo, colocado ao nível de herói.
Além, o YouTube e o Twitter tem demarcado vídeos e publicações que utilizem qualquer fonte advinda da Rússia. Mesmo com todos os embasamentos possíveis. Se isso não é censura, o que seria? Apagaram diversos tweets de historiadores no Twitter, sob o pretexto de que estariam utilizando propaganda enganosa. Se isso não é censura, o que seria? Na GloboNews, o inepto Jorge Pontual cortou o microfone de um historiador e silenciou os pesquisadores que analisam a história do conflito. Se isso não é censura, o que seria?
Expulsaram a Rússia de uma copa do mundo de futebol que ocorrerá no Catar. Sim, no país que utiliza de violência pública contra mulheres. Moralidade sobrando. Sanções para todo lado. A confederação russa de Xadrez está sob pressão. É absurdo. 
O nazismo na Ucrânia, sob a nomenclatura principal do Batalhão de Azob/Azov, inclusive, está incorporado ao exército, e não é de hoje. Inclusive, seguem o mesmo esquema que o Hitler utilizou na guerra.
 
https://time.com/6076035/erik-prince-ukraine-private-army/

https://www.kyivpost.com/multimedia/photo/azovets-patriotic-camp-for-children-396138
 
https://twitter.com/danbarbier_/status/1498682707894845449?s=20&t=8Iz1EJXCagnWz1ahKOmRFw

A questão, em 2008, já estava evidente. Conforme arquivo obtido no WikiLeaks https://wikileaks.org/plusd/cables/08MOSCOW265_a.html:

From:
Russia Moscow
 
To:
Joint Chiefs of Staff | NATO - European Union Cooperative | National Security Council | Russia Moscow Political Collective | Secretary of Defense | Secretary of State


1. (C) Summary. Following a muted first reaction to Ukraine's intent to seek a NATO Membership Action Plan (MAP) at the Bucharest summit (ref A), Foreign Minister Lavrov and other senior officials have reiterated strong opposition, stressing that Russia would view further eastward expansion as a potential military threat. NATO enlargement, particularly to Ukraine, remains "an emotional and neuralgic" issue for Russia, but strategic policy considerations also underlie strong opposition to NATO membership for Ukraine and Georgia. In Ukraine, these include fears that the issue could potentially split the country in two, leading to violence or even, some claim, civil war, which would force Russia to decide whether to intervene. Additionally, the GOR and experts continue to claim that Ukrainian NATO membership would have a major impact on Russia's defense industry, Russian-Ukrainian family connections, and bilateral relations generally. In Georgia, the GOR fears continued instability and "provocative acts" in the separatist regions. End summary. MFA: NATO Enlargement "Potential Military Threat to Russia"
 
Depois continuarei as explicações em uma sequência mais lógica. Deixo os documentários de Oliver Stone com Putin. São ótimos. O Episódio 3 descreve o que seria hoje, a tal da guerra na Ucrânia, com dois anos de antecedência e previsão. Deixo também análise da Dilma sobre o que tem ocorrido (sem piada, é a melhor análise que vi, considerando os políticos brasileiros). Só clicar:
 
WikiLeaks e Moscou em 2008 - documento

Entrevista com Putin - Parte 3 (nessa, o conflito é perfeitamente explicado) - as demais partes são automaticamente encontradas, por isso não colocarei todas. Estão no mesmo canal. E já baixei no meu PC, no caso de removerem do ar, como tem ocorrido com tudo que seja explicativo sobre o lado russo no conflito.
 
E...continua em breve.
Vai ter bomba atômica? Claro que vai."
 
E a endossar o texto do GRF, o próprio Putin diz estar a lutar contra neonazistas:

Pequeno Conto Noturno (90)

02:22 h.
A madrugada, antes reconfortante e esplendorosa, hoje em dia parece a Rubens uma tela de TV toda chuviscada e cheia de ruídos de estática, feito na época em que as emissoras de TV saíam do ar a uma certa hora.
Rubens não ouve a música a tocar no toca-CD.
Rubens não sente o gosto da bebida a escoar do copo e a lhe descer pelo esôfago.
Rubens não sente nem mesmo o torpor do sono que o seminocauteia, sentado à sacada, na velha banqueta de madeira empenada.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Eu, Na Tua Matrix

Nunca realizei
Completamente
Nenhum dos meus sonhos.
 
Pensando bem,
Em retrospectiva,
E a bem de uma verdade íntima e intransferível,
Nunca os tive de fato;
Nunca me esforcei em bem sonhar
(erigir e manter castelos nas brumas do Onírico é ainda muito mais trabalhoso do que concretizá-los e concretá-los no mundo real).
 
Uma coisa me consola :
Sei que fui o teu sonho mais bonito.
 
E
Pretensamente
Agora tenho um sonho :
Continuar a sê-lo.
 
Pois agora sei
Que aqueles raros dias,
Com aqueles bissextos instantes,
De 10, 15, 20 minutos,
Em que fico de médio humor,
Em que não penso em me embebedar,
Em que a depressão,
Trabalhadora infatigável em mim,
Dá uma pausa para cagar
E para tomar um cafezinho,
Sou só eu na tua Matrix.

Só acontecem quando tu,
Distraída e generosa,
Andas por aí
A sonhar comigo.

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Pequeno Conto Noturno (89)

03:11 h. Pelas contas de Rubens, só há o suficiente para mais duas doses de rum na garrafa; o pirata e o papagaio lhe sorriem, zombeteiros. De uns tempos para cá, nessas horas mortas, que são as únicas em que ele se sente um pouco vivo, Rubens deu para se lembrar de G.
Nunca a conheceu por outro nome, que não G., pensa Rubens. Nunca se encontraram de fato. Não habitavam a mesma cidade, nem mesmo a mesma unidade da federação; uma distância oceânica entre eles. Não obstante, travaram intensa relação.
Rubens entorna a antepenúltima dose de rum e se lembra de que se "conheceram" via um comentário deixado por G. em um de seus textos espalhados por aí, em uma de suas garrafas de náufrago que, vez ou outra, ele lança no ciberoceano. Garrafas que volta e meia alguém desarrolha e lê o conteúdo. Mas não há como partir em resgate de Rubens, ele nunca informa as coordenadas de sua ilha. Escreve não para ser resgatado. Apenas para reafirmar sua condição de náufrago.
G., portanto, encontrou Rubens por Acaso. Isso, para aqueles que preferem acreditar na comodidade do Acaso, ao invés de se lançarem ao entendimento da matemática da existência, das peças que as probabilidades nos pregam muitas vezes.
Ao primeiro comentário da G., sucedeu-se um de Rubens. E muitos outros depois desses, de ambos. Trocaram e-mails. Passaram a se enviar textos mais extensos, relatos, declarações, desabafos. Mais íntimos, em muito pouco tempo.
Não raro, em suas tardes ociosas, recorda-se agora Rubens a ir pegar nova dose de rum, acontecia dele ir verificar alguma mensagem de G. em sua caixa de e-mail e de G. também estar lá, verificando a dela. Trocavam, então, mensagens em tempo real. Seus e-mails transformados em chats particulares e exclusivos.
G. contou a Rubens que, quando mais nova (G. ainda era muito nova então, 26 anos; Rubens a bater nos 50), era da pá virada, praticamente uma Geni, do Chico. Já uma jovem adulta conheceu aquele que tornara em seu marido. Sujeito não tão belo, mas recatado e do lar. Viu nele uma chance de redenção, um jeito de sossegar o facho e mudar de vida, deixar os tempos de devassidão para trás, tornar-se uma "mulher direita".
E, segundo ela, conseguira atingir o seu intento, aquietar o seu furor uterino. Por alguns anos, conseguira apaziguar os seus instintos. 
Até conhecer os textos de Rubens.
O contato com os textos dele trouxeram de volta os seus lascivos demônios interiores. Os textos de Rubens, contou ela, fizeram rachar e ruir o verniz de bom moça de G., romperam com as amarras da camisa de força autoimposta à sua sexualidade, ao seu pendor para a orgia.
Um, então, virou confessor pornô do outro. G. contou a Rubens experiências nunca dantes relatadas a ninguém, peripécias sexuais em que ela evitava até mesmo de pensar se perto de outras pessoas, no receio de haver um telepata entre elas.
Rubens, idem, escavou fundo o seu baú e o seu calabouço de podridão, também contou a G. todas as suas perversões e atrocidades cometidas em uma cama. 
Ou que gostaria de ter cometido.
Porque, com o passar do tempo, algumas das aventuras da G. pareciam ser inventadas, ou recicladas, uma maneira, talvez, de não deixar morrer o assunto entre eles, de continuar a excitar Rubens e a si própria. Rubens também passou a inventar e a reciclar algumas das suas.
Esgotados, possivelmente, o repertório individual de cada um, passaram a fantasiar situações entre os dois. Entre os dois e mais um. Entre os dois e mais outra. E mais outros. E mais outras. Promoviam, nas tardes em que calhava de se "encontrarem", verdadeiras bacanais vespertinas. G. masturbava-se sempre, gozava umas tantas vezes. Rubens, menos.
Olhando para a penúltima dose já pela metade no copo e tentando fazer ela render com pequenos goles, Rubens se lembra de quando G. começou a lhe enviar fotos. Inicialmente, de rosto. Uma mulher belíssima, a G. Certamente, a mais bela que  já se apaixonara por Rubens, a mulher mais linda da cidade, do Bukowski. Rubens só não gostava quando ela teimava em usar lentes de contato verdes. Depois, G. passou, numa sequência óbvia, a enviar fotos nuas para Rubens.
Peitos bem fornidos, com a turgidez própria da idade, aréolas grandes e castanhas. Peitos que, ela segredou-lhe, adorava que chupassem de forma violenta, que chegassem mesmo a tirar sangue deles, gozava com a dor.
Falsa magra, a G. Carnuda nos lugares certos. Carnes tonificadas em horas de exercícios físicos. Rubens surpreendera-se, no entanto, com a primeira foto da buceta da G. Imaginara-a, até aquele momento, um senhor dum bucetão. Nenhuma imaginação poderia ter sido mais falha: uma vulva diminuta, a de G., pequenos e grandes lábios também de reduzidas proporções, lábios que, em algumas fotos, ela afastava com os dedos para revelar a entrada da sua buceta a Rubens, uma entrada estreitíssima. Quem não a conhecesse jamais poderia supor o quanto de rola ela era capaz de aguentar; até mais de uma ao mesmo tempo, inclusive.
G. enviou dezenas de fotos ao longo da relação deles. Que durou o quê?, tenta precisar Rubens a secar o resto do rum no copo, meses?, dois ou três anos? Fotos enviadas mediante a garantia de que seriam todas deletadas ao encerrar da conversa entre eles naquele dia, imediatamente. Trato que Rubens, cavalheiristicamente, sempre honrou.
Rubens deve ter mandado umas duas ou três fotos de rosto para G. nesse tempo todo. E uma única da rola. Tirada a muito custo com uma velha máquina digital com zero pixels de resolução, tomada emprestada a Calil.
Então, de uma hora para outra, ou o que pareceu a Rubens ter sido de uma hora para outra - muito provavelmente ela há tempos planejava e tomava coragem para o seu sumiço -, G. abandonou Rubens. Sem nenhuma explicação num primeiro momento. E durante muito tempo. Simplesmente, comunicou-lhe que não mais se falariam. Rubens insistiu durante um tempo, enviou-lhe e-mails, vários e-mails, estranhando a decisão. Nenhum foi respondido.
Meses depois, talvez já se julgando mais protegida, mais imunizada contra o contágio por Rubens, G. mandou um e-mail e se explicou.
Precisara pular fora, contou. Aquela relação deles estava consumindo grande parte do seu tempo, de seu pensamento, de suas ações. Sentia que não estava cuidando, dando a necessária atenção às pessoas de sua vida real, que estava prevaricando de seus entes próximos e queridos. E que aquelas conversas clandestinas com Rubens não só tinham feito reaflorar como também estavam deixando sem controle o lado negro de sua Força, lado contra o qual tanto lutara para domesticar. Era a hora de jogá-lo de novo a uma masmorra.
Rubens entendeu, é claro. Espantou-se, no entanto. Não julgava que estivesse a causar mal a G. Pelo contrário, que as conversas entre eles, que as fantasias e desejos compartilhados, pudessem fazer um grande bem a ela, como faziam a ele. Julgava que fosse uma maneira dela extravasar todas as suas taras, fetiches e perversões sem, necessariamente, levá-las a cabo na prática, sem ter que pular a cerca, sem precisar colocar em risco, inclusive, sua própria integridade física. G. gostava de coisas bem pesadas. Rubens julgava que as lúdicas putarias trocadas entre eles pudessem mesmo ter um efeito terapêutico. Enganara-se, de novo. Antes, a envenenavam.
Rubens nunca teve nenhuma dificuldade para separar o mundo real do virtual, mesmo quando a realidade deste último muitas vezes se imponha. Rubens sempre soube separar perfeitamente as diversas realidades. Ele é um no seu ambiente de trabalho; outro, quando está com os amigos; outro, com as  mulheres que teve; outro, no mundo virtual. Nenhum influencia ou interfere com o outro. Rubens se diz, com um misto de ironia e orgulho, um esquizofrênico funcional. Mas se o mesmo não se dava com a G., só lhe restava aceitar.
Servindo-se da última dose de rum na garrafa, Rubens pensa que não deveria ter honrado tanto assim o acordo com G. de sempre apagar as fotos dela. Queria, agora, ter guardado uma foto de rosto ao menos. E não teria sido uma deslealdade da parte dele, caso tivesse reservado uma foto para si. Na verdade, nada teria sido mais justo.
G., é verdade, também não ficou com nenhum foto dele. Mas ficou com algo muito mais íntimo e pessoal : a caligrafia de Rubens. Os garranchos dele em suas carnes.
Num certo dia, G. pediu a ele que copiasse à mão o poema o Pássaro Azul, do Bukowski, o fotografasse e o enviasse para ela. G., então, imprimiu o manuscrito de Rubens, levou-o ao seu tatuador (ela tinha várias tatuagens), cuja rola por vezes chupara, e pediu que ele decalcasse à agulha a caligrafia de Rubens, a primeira estrofe do poema copiado por ele, na região de suas costelas, que a letra de Rubens ficasse eternamente a guarnecer um de seus flancos. O esquerdo ou o direito? Rubens não se lembra.
G. guardou em suas carnes o que há de mais particular e intrínseco para Rubens, a caligrafia dele, o rosto com o qual ele se apresenta para o mundo, o retrato 3x4 que, se ele pudesse, estamparia em seu R.G.
"Quero ficar no teu corpo feito tatuagem..."

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Isto Aqui, Ô, Ô, é Um Pouquinho de Brasil, Iá, Iá

Desgraçado do país
Em que as elites
Tenham sido subjugadas
À ralé.

Desgraçado do país
Em que as elites
Tenham que se reportar
E se retratar,
Tenham que prestar contas
E pisar em ovos
Frente à ralé.

Desgraçado do país
Em que as elites
Tenham sido usurpadas
Das rédeas e do chicote
E em que a ralé
Não puxe mais a carroça
E não tenha mais o peso os arreios, das bridas
E das cangalhas sobre si.

Desgraçado do país
Em que a ralé
Tenha sido
Compulsoriamente
Promovida a elite.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Os Doze Passos

Um dia de cada vez,
Pensa o alcoólatra,
Em busca de não sucumbir ao vício.

Uma aula de cada vez,
Pensa o professor,
Em busca de não sucumbir até que lhe chegue a aposentadoria.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Cerveja-Feira (48)

A esfíngica e evanescente Jota, cometa vadio que feito o Halley só dá as caras mais ou menos a cada 70 anos, em uma de suas estadas mais demoradas por aqui, não se cansava de tecer desbragados elogios a uma cerveja, a Tijuca, a sua bebida mais dileta, fabricada pela Cerpa Cervejaria Paraense.
Da mesma cervejaria, eu já provara e aprovara a Cerpa Export e a Cerpa Premium, ambas boas e honestas cervejas do tipo American Lager. A Tijuca, nunca tinha nem visto nem ouvido falar.
Curioso, na época, cheguei a procurar por ela em mercados e atacadões pouco ou menos frequentados por mim. E nada. Possivelmente, era um produto comercializado apenas em âmbito regional. Esqueci da Tijuca. Nunca mais pensei nela.
Então, hoje, ao entrar em uma loja da rede atacadista Assaí, para me abastecer de uns víveres básicos, frutas, legumes, uns queijinhos, café, óleo etc, aproveitei para dar uma olhada na seção das cervejas, ver se havia alguma oferta de fim de semana.
E lá estava ela. A Tijuca. Em bela e esguia long neck. Barata? Nem tanto. Não para os meus padrões. R$ 3,99, a long neck de 350 ml. Só a título de comparação, por R$ 2,49, estava a muito boa Brahma Extra Lager.
Nesse caso, porém, o preço era um fator secundário, um pormenor de somenos. Eu não estava, a me fiar nos relatos da Jota, diante de uma simples cerveja. Sim, diante de um mito. De uma lenda amazônica. Praticamente, um boto engarrafado.
Comprei. Uma e apenas uma. Para provar. Que não vou ficar agora me dando a perdularismos.
Boa, a Tijuca. Não é a oitava maravilha do lúpulo, mas é boa. Muito mais saborosa, inclusive, que muitas outras por aí que tentam se passar por puros maltes, como a Itaipava 100% Malte, a Brahma Duplo Malte, a Spaten e outras arapucas.
Valeu para matar a vontade e a curiosidade.
 
Para Ti, Jota
Uma Tijuca