terça-feira, 9 de setembro de 2014

Bukowski, de Arrepiar

ignis fatuus
a única solidão é
sono ou morte
nós éramos inteligentes o bastante
gentil com os outros e cruel para si mesmo
quando eu pedi por misericórdia
e isso foi negado

a mais sagrada privacidade permanece
nos esperando
e tudo que foi
incompreendido ou abandonado
se reunirá

deixe meu fracasso ser sua sorte
isso que foi um quebrado
e descuidado
erro

que seja conhecido
que saber sua própria morte
é morrer duas vezes
uma vez realmente
e então, quase nada

que seja conhecido
que não há nada tão feio
em tudo que é tangente
como a besta humana
um truque definido contra o sangue de sua alma

que seja conhecido
que a solidão é a única
misericórdia
e a única
amante

que seja conhecido
que um homem não precisa ser Cristo
para ser crucificado

que seja conhecido
que um homem pode ser
crucificado
a cada dia
a cada momento
a cada respiração
de sono e vigília
e então ser atormentado novamente

que seja conhecido
que um homem pode morrer
e morrer
e morrer
e morrer
e ainda sentir a dor
e saber que está morto
e ainda sentir a dor
e saber que não há nada que ele possa fazer
e ainda  sentir
a dor
que seja conhecido

que seja conhecido
que os templos não são nada
e os sinos não são nada
e a fama não é nada
e a vitória não é nada
e o sexo não é nada
e que a solidão traz loucura
e a multidão traz loucura
e bebem  e comem o corpo
como um tigre
que não há nenhuma voz para falar com
nenhum ouvido para ouvir

que seja conhecido
que haverá outros homens como eu
levantados  para a boca dos leões
queimados  por falsos amores
enganados por gentileza
alvejado pelo intelecto
tontos por ramalhete
sacrificado para o lucro
utilizados como mão de obra barata
e estes serão os mais gentis dos acontecimentos
em comparação com o que vai entrar no olho
e na orelha
e no cérebro
e escoar para as entranhas para começar seu
trabalho de morte
eu tenho pena que todos esses meus irmãos
que vão me seguir nos séculos
Incapaz de amar, porque não há nada para amar
Incapaz de matar, porque não há nada vivo
Para sempre pendurado e
sangrando e tonto
Pela besta
humana
as paredes
os jardins
o sol
as flores
os beijos
as bandeiras
os mares
os animais
a comida
os licores
as pinturas
as sinfonias
tudo inutilidade

que seja conhecido
que a maioria dos homens
adoram quando podem ver
e eles vêem uns aos outros
e eles adoram isso
porque eles vêem muito pouco

que seja conhecido
que eu sou amargo
e condenado
e cansado
e inútil

que seja conhecido
que quando esperança final se vai
lá permanece, mas olhando para a dança
e observando a relação fraca
dos idiotas
com muito pouco anotações

que seja conhecido
que eu estou morto
mas não existe raiva

que seja conhecido
que a maioria dos homens estão mortos
muitos anos antes do enterro

que seja conhecido
que muitos homens morrem na infância
que muitos homens nascem mortos
embora as suas partes se movam
e fazem som
e crescem
e avançam
no comportamento adulto
e fazem  as coisas da
civilização

Que seja conhecido
que estes homens nunca existiram
e que seus funerais
foram  enormes farsas
e também as lágrimas mortas
para o já morto

que seja conhecido
que os próprios vermes
estavam mais perto da verdade
na medida em que
não
choram

que seja  conhecido
que o nascimento não é santo
que a morte não é santa
que a vida não é santa

que seja conhecido
que eu tenho sangrado sem coroas
que  eu vou sangrar em um momento
que eu vou sangrar para sempre
vermelho
vermelho
vermelho
e os falcões vão dançar
dentro dos meus ossos
e regozijar

que seja conhecido
que eu não morra pelos pecados do homem
mas que eu morra pelo o quê o homem é
e para o que eu quase fui
eles- muito pouco de qualquer coisa
em mim mesmo levantou o suficiente
para ver o horror
o adoecer
e enlouquecer
e murchar

não tome como pessoal
o que eu digo sobre a vida
completamente
ou o homem
completamente
a não ser que
em outro plano
você se considera
um defensor da vida e do homem
o que é apenas uma outra fraqueza natural das espécies
como um rato guardando seu ninho
e para o qual
eu não posso te culpar totalmente

a única solidão é a morte
mas não esta morte
não esta morte
não
esta
morte.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Carta ao Amigo Leitinho

Meu amigo, eu vou te contar, estou tão triste, me perdoa se eu chorar...
Pois é, velho camarada Leitinho, o que impulsiona minha pena, desta vez, não é, a exemplo do Tim na canção supracitada, o abandono da amada, não é a dor de corno, embora minha dor seja tão legítima quanto. Talvez até mais, e maior.
É que ontem, exatamente à meia-noite, talvez dois ou três minutos apenas passados das doze badaladas "notúrnicas", nada mais é exato nesse mundo, acessei minha caixa de e-mails e estava lá uma rara missiva virtual de nosso outro velho camarada, o Marcellão, o homem que é metade homem e metade pau.
Abri-a. E o texto, econômico nas palavras que sempre foi nosso amigo, dizia tão somente : É o Ragnarok.
O tom do e-mail era de brincadeira, claro, mas sabe como são os velhos camaradas, não é, Leitinho? Machos das antigas que somos, não ficamos por aí externando nossas sentimentalidades, valemo-nos da pândega e da galhofa como forma de exprimir nossa genuína preocupação. A zombaria é nossa maneira de expressar nosso afeto. Coisas de macho.
É o Ragnarok, dizia o Marcellão. O Ragnarok, se bem te lembras, Leitinho, velho amigo, é o apocalipse nórdico. Iniciar-se-á quando a viril Espada de Odin, desiludida e desconsolada da vida eterna, e sem um viagra que a alente, amolecer e escorrer de sua bainha. E aí fode tudo, velho camarada, daí para frente é uma reação em cadeia. Secam os ramos da árvore Yggdrasil, em cada qual viceja um dos nove mundos, entre eles, Asgard e Midgard (a nosso boa e velha Terra), a serpente Jothuein emerge das profundezas, enlaça todo o planeta e, em combate feroz contra ela, o poderoso Thor e sua marreta Mjolnir também vão pras picas. Não sobra pedra sobre pedra, mundo sobre mundo, dimensão sobre dimensão.
Em anexo à lacônica e enigmática mensagem - é o Ragnarok -, duas fotos. Baixei-as, as fotos. Asseguro-te, velho camarada, que preferiria o nórdico cataclismo ao que vi.
Estavas lá, nas fotos, no que me pareceu ser o hoje tão profanado ambiente de uma sala de aula. Travestido de ratinha Minnie em uma; de bruxa Malévola em outra. O que hoje é chamado de cosplay. Cosplay depois de velho, velho camarada? E ainda cosplay da Minnie e da Malévola? Que embichamento é esse, velho Leitinho?
Eu até poderia entender, velho camarada, afinal, cosplay não havia em nossa época de jovem, e talvez estivesses apenas aproveitando a oportunidade para preencher essa lacuna da adolescência. Mas de Minnie e Malévola?
Apoiar-te-ia, e até juntaria-me a ti, caso tivesses aparecido cosplayzado de Homem Aranha, de Batman, ou, ainda, de um dos teus preferidos (e só por ti conhecidos) : Nova, Cometa e Paladino. Mas de Minnie e Malévola, velho companheiro?
E no caso da Minnie é que a porca torce mesmo o rabicó. O problema central, visceral, nem é o laçarote rosa com bolinhas brancas a ornar teu tão descapilarizado cocoruto. O sintoma maior, quase que terminal, é o biquinho que fazes para o registro digital da ocasião. Biquinho que talvez remeta a uma ascendência francesa, quem sabe gaulesa, e com o qual, em certa feita, tentaste, sem êxito, impressionar àquela vendedora parisiense da Mr. Cocker.
Pus-me, então, e já eram trinta e poucos minutos de um novo dia, a relembrar nosso glorioso passado, ao qual, parece-me, renegaste, pus-me a garimpar indícios que pudessem fornecer pistas que justificassem esta tua atitude, de forma a não macular a boa imagem que tenho de ti.
Lembrei-me, com sincera e pungente nostalgia, dos Anos-Novos passados na casa do vô Pebim (imaginaste o velho Pebim vendo-te assim, de Minnie?), das dezenas de cartas - de papel, envelope e selo - trocadas entre nós, dos gibizões que líamos, dos vinis e fitas Basf que compartilhávamos, das incontáveis tardes passadas na padaria do Joaquim, junto ao Marcellão e regadas a Coca e salgadinhos Elma Chips (já pensaste no Joaquim, no Rodrigo e no César, vendo-te assim, de lacinhos e biquinhos?), dos pornozões nos cines São Paulo e Comodoro - o finado Quinzinho era o lanterninha, sempre a iluminar e denunciar os punheteiros -, dos porres de cuba libre, das noites na extinta boate boca de porco Califórnia Disco Laser.
E, acima de tudo, velho camarada, da batalha intergaláctica que travamos, eu, você, o Marcellão e o César, a ultrassecreta Guerras Secretas, em 1989. Exatos 25 anos se passaram das Guerras Secretas. Exatos 25 anos que sobrevivemos aos ardis e maquinações do Beyonder, do Tritão e do pior deles, do mais impiedoso predador do multiverso, o Papa-cu (beep-beep!!!), com altivez e galhardia.
E é assim que honras o Jubileu de Prata do nosso histórico de guerreiros interdimensionais? Travestindo-te de Minnie e de Malévola?
Lembrei-me a seguir, e quase uma da matina já se fazia, a tentar ainda justificar o teu desbunde, da tua predileção, em tenra infância, pelo universo Disney. Lembrei-me de que colecionavas e completavas álbuns de figurinhas - 256 cromos ou mais -, possuías todos os volumes de Disney Especial. Mesmo assim, não obtive em minhas reminiscências lenitivo para a minha estupefacta alma.
Ainda que, perto do teu cinquentenário, tenha preterido os universos Marvel e DC ao Disney, opções mais machas de cosplay terias : Superpateta, Vespa Vermelha, Superpato, Morcego Vermelho e, o que parece a mim que mais lhe caberia, o Professor Pardal, visto que em emérito doutor em Química te graduaste com louvor.
De onde, esgotadas todas as mencionadas possibilidades, sobrou-me, desgraçadamente, duas hipóteses.
Primeira, a tua recente viagem à Amazônia. De alguma forma, a tepidez, a umidade e a malemolência equatoriais devem ter derretido-te os miolos, causando profunda alteração dos teus normais sentidos e, consequentemente, da tua até então sempre reta visão de mundo.
É que estiveste uns dias numa onda diferente, e provaste tantas frutas que me deixariam tonto. Sei que manuseaste enorme e grossa sucuri, que tomaste contato com o temível candiru, e que, embora negues, provaste da alucinógena e afrodisíaca cachaça amazônica, a Pau do Índio, mais transformadora que o próprio Santo Daime.
Segunda, de origem muito menos poética e mística, é que estás a fazer demasiadas visitas ao teu urologista, pelo bem de tua próstata, estás a pedir uma segunda opinião médica, uma terceira etc.
Aguente-te firme, velho camarada. Segure essas pregas.
Hoje mesmo liguei para o Marcellão e uma reunião extraordinária da Liga da Justiça, apenas entre mim e ele, foi marcada para esta quinta-feira. O conciliábulo se dará na famosa Sala 100, sede de poder do Marcellão, e nele discutiremos estratégias para o teu resgate, supondo-o possível. Aguarde notícias, velho camarada.
Enquanto isso, tome tento! Vira homem, Leitinho! Que tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta, e a rosca tranquila.
 "Na parede da memória, esta lembrança é o quadro que dói mais."

domingo, 7 de setembro de 2014

Pequeno Conto Noturno (44)

Se Rubens já não estivesse precisando de uma bebida, estaria convulsionando por uma agora, depois de voltar do mercado, onde foi comprá-la.
Supermercados são muito práticos, porém, sempre cheios de gente. E Rubens tem milhares de ressalvas e reservas contra pessoas. A todos os defeitos das gentes, Rubens poderia relevar, passar por cima, fazer vistas grossas, simplesmente fechar os olhos e tapar o nariz ao passar por elas, mas um se faz  imperdoável, faz com que a boa vontade de Rubens para com os outros se esvaneça : pessoas fazem Rubens perder tempo, pessoas fazem-no gastar seu tempo com elas, por causa delas, tempo que ele quer/precisa urgentemente para si. Pessoas estão sempre atravessando e atravancando seu caminho, separando-o do momento de que mais gosta e pelo qual mais anseia em seu dia, estar unicamente consigo.
Feito a gorda à sua frente na fila do caixa do mercado. Gorda, vestida como se fosse uma gostosa, parda, cabelo alisado tingido de ruivo, o salmo 23 tatuado nas costas à altura das omoplatas, a digitar rapidamente na tela de seu celular como quem tocava uma siririca e a rir de forma escandalosa a cada resposta das mensagens que enviava, e ao rir, de perfil que estava para Rubens, revelava falhas nas arcadas dentárias superior e inferior, vãos negros onde há não muito tempo, calcula Rubens, a moça não teria sequer 30 anos, existiram dois ou três dentes molares.
A compra dela nem foi o problema, passou rápido pelo caixa, pouco itens, umas barras de cereal light, uma bandejinha de legumes "orgânicos" e uns potes de iogurte grego. Categorias de produtos, raciocinou Rubens, compradas por dois tipos de gente, pelas magras, que não precisam daquilo, e pelas gordas, nas quais aquilo não surtirá o menor efeito, não fará a menor diferença. Essas são as sólidas bases da economia mundial, concluiu Rubens, vender produtos que são desnecessários a uma parcela da população e ineficientes à outra. De alguma forma, todos pensam que precisam deles, que suas vidas terão ganhos absurdos de qualidade.
Mas mal Rubens colocara sua compra na esteira rolante do caixa, a crer que logo estaria em casa, livre daquilo, e a gorda anunciou que iria querer recarga para o seu celular. O celular da gorda tinha três chips, um de cada operadora. A gorda, claro, botou recarga nos três. Rubens, então, descobriu o porquê do nome "operadoras" de celular. São literalmente operadoras, cirurgiãs, neurocirurgiãs, e sua especialidade : lobotomia.
Eis aí, pensou Rubens, o retrato photoshopado da atual classe média emergente brasileira, a chamada classe C : obesa, pardacenta, vaidades de gosto duvidoso acima de qualquer esboço de personalidade, evangélica-ostentação e com mais chips no celular que dentes na boca. Rubens sentiu ganas só de pensar no tempo que a gorda o fez perder. Rubens rogou intimamente a si mesmo para que a bebedeira e o desespero próprio das más madrugadas nunca o levassem a meter a rola em algo parecido com ela.
E antes da gorda, o rapazinho loiro, a trajar camiseta verde com o nome da universidade que frequentava e da carreira que cursava, o típico calouro universitário. Óculos de aros acrílicos roxos, a fazer caras de sensível afetado, aquele arzinho superior de quem está sempre a farejar um peido, cabelo com luzes, lentes de contato verdes e nenhum, absolutamente, nenhum livro nas mãos.
Fez a moça do caixa dividir o débito de vinte e poucos reais entre dois cartões de crédito universitário e um tanto em dinheiro. Nem a moça do caixa - provavelmente possuidora, malemal, do ensino fundamental - nem o rapazinho sensível - orgulhoso e altivo ingressante da Academia - sabiam fazer as contas direito. Demoraram mais que a recarga dos três chips do celular da gorda.
Eis aí, pensou Rubens, a nova elite intelectual a despontar no país, universitários que nunca estudaram na vida, filhos não do esforço e da disciplina, sim de facilitações governamentais, cotas para escola pública, Enems, Prounis e Sisus da vida. Semiletrados com diploma superior são a nova meta governamental para a educação do século XXI. Rubens amaldiçoou o rapazola pelo tempo que o fez perder. E o rapazinho finalmente saiu, todo lépido e faceiro, com seu passinho de quem não quer peidar. Rubens rogou intimamente a si mesmo para que a bebedeira e o desespero próprio das más madrugadas nunca o levassem a meter a rola em algo parecido com aquilo. Nem no rapazinho nem na moça do caixa. Se bem que a moça do caixa... até que dava para comer sem beijar.
Chegada a sua vez, Rubens não deu trabalho algum à caixa, não perdeu seu tempo, não a fez perder o dela e nem ao das pessoas que o sucediam na fila : um fardo de cerveja - doze latões -, e pagou em espécie, que dinheiro vivo, ao contrário do que "pensa" o populacho, é bem mais prático, não precisa de senha.
Rubens, finalmente, entra em seu apartamento. No chão, um bilhete que alguém fez escorregar por debaixo da porta : "Rubens, liga pra mim, não vai o usar o celular que te dei? Ofélia."
Ofélia era boa buceta. Boa de verdade. Das que encharcam fácil, não dão nenhum trabalho. E é assim que tem que ser, pensa Rubens. Ele bota o seu pau em riste, a mulher, a xana em mingau, cada um cumpre a parte que lhe cabe e tudo sai e acaba bem. Ofélia mantém também a mata nativa, prima por virilha e vulva sustentáveis.
Mas bucetas, por melhor que sejam, e elas o são, também gastam muito do tempo de Rubens, mais do que o tempo útil de 20, 30 ou 40 minutos que ele passa dentro delas. E hoje Rubens quer o tempo só para si.
Sim, lembra-se Rubens, Ofélia dera-lhe um telefone celular, há uns 10 dias. Há coisa de pouco mais de um ano, Rubens esquecera de pagar a conta de seu telefone fixo e a linha, óbvio, fora-lhe cortada. Rubens só foi perceber que estava sem telefone em casa três meses depois. Viu que não precisava nem do telefone fixo. Manteve-o mudo desde então.
Daí o presente de grego de Ofélia.
- Já está habilitado, porque sei que você não tem paciência pra essas coisas e tá com um pouco de crédito. Só falta carregar na tomada e ligar - esclarecera Ofélia à ocasião, já com os peitos de fora.
Rubens lembra que agradecera o presente, mas não tocara nele, a caixa permanece fechada e no mesmo lugar em que Ofélia a deixara, uma fina camada de pó a reveste.
Rubens levanta do sofá para pegar o terceiro latão na geladeira e para colocar um disco do Adoniran na vitrola, o melhor acompanhamento para cerveja. Sente o joelho fisgar. Não é de hoje que Rubens pensa em procurar um médico. Mas médicos também gastam por demais o tempo de Rubens, nunca atendem à hora marcada; ir à farmácia, esperar ser atendido, comprar os remédios, gastam por demais o tempo de Rubens; se prescrita for uma fisioterapia, então, seria um desperdício do tempo de Rubens.
Foda-se o joelho, pensa Rubens, ajeitando-se de novo no sofá. E as crônicas dores de cabeça. E a queimação no estômago. E a fadiga constante.
Na primeira golada do sétimo latão, um barulho eletrônico interfere nos acordes do Um Samba no Bexiga. O celular de Ofélia. Dentro da caixa. Desligado. Bateria descarregada. E a tocar. E só poderia ser Ofélia. Ninguém mais tem o número. Nem Rubens.
Rubens se lembra dos antigos filmes de ficção científica que tanto apreciava em sua juventude, nos quais os cérebros eletrônicos das máquinas adquiriam raciocínio e vontades próprias. Terá o chip, através de alguma quimiossíntese dos átomos de silício de seus circuitos obtido energia para ganhar vida e consciência?, teoriza Rubens, auxiliado pelo álcool que já corre em seu sangue. Será que o telefone também tem três chips, feito o da gorda?, pensa Rubens, e  um arrepio lhe percorre a espinha.
O barulho cessa. Talvez tenha sido o de algum vizinho, procura se acalmar Rubens. E amaldiçoa a perda do tempo a pensar nessas coisas.
Ao fim do décimo latão - Malvina, você não pode me abandonar... -, de novo o barulho, de novo o insistente grilo transistorizado. Rubens pega a caixa, é mesmo dali o barulho. Vai com ela até à sacada e a arremessa certeiramente na lixeira na calçada, à entrada do prédio. E fica a ouvi-la tocar e vibrar. Abre o lacre do décimo primeiro latão.
Nisso, um desses mendigos catadores de lixo passa, ouve o barulho, revolve a lixeira, abre a caixa e depara-se com o celular, reluzente e vivinho da silva, sabe-se lá por que sopro animador. O mendigo olha rapidamente para os lados, enfia o celular no bolso de sua calça a lhe cair pela bunda e sai correndo numa sonora gargalhada. Havia tirado a sorte grande.
Esse é o segredo do sucesso do mundo, ou de quem seja lá que o governe, pensa Rubens, manter todos na merda e os fazer achar que tiraram a sorte grande.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Chavéz Nosso Que Estais no Céu

Quem me chegou com essa foi um aluno, 'professor, o senhor viu a oração do Chavéz?', 'do Chaves do SBT, do Kiko, da Chiquinha?', 'não, professor, do Hugo Chavéz'. De cara, achei que fosse zoeira, mas o menino é bom aluno, um dos poucos que ainda resistem em se manter bons, depois vi que era algo tão absurdo que só podia ser verdade, afinal, a ficção tem que ter uma coerência, a realidade não.
Cheguei em casa, fui fuçar na net e encontrei : segunda-feira agora, dia 1º, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), que atualmente está no poder tendo à frente o presidente Nicolás Maduro, apresentou aos venezuelanos uma oração em que Hugo Chavez substitui o Todo-Poderoso, o Pai-Nosso. “Chávez nosso que estás no céu”, diz o início da prece Chavista.
A prece, chamada de "A Oração do Delegado", foi apresentada em um teatro da capital Caracas durante um evento que discutiu os “desenhos do sistema de formação socialista”. A deputada chavista Maria Uribe entoou a oração em voz solene. 
Dom Roberto Luckert, vice-presidente da Conferência Episcopal Venezuelana, reagiu : “uma paráfrase do Pai-Nosso em uma versão tão ofensiva” que é “um abuso, uma manifestação de mediocridade e falta de criatividade para fazer uma oração”. 
Nicolás Maduro contra-atacou : “Senhores, minoria de bispos que não representam o povo católico, que saíram como a inquisição a perseguir a jovem mulher, trabalhadora, porque leu um poema. De vocês o que brota é ódio a Chávez”, disse. “Não puderam derrotar Chávez enquanto vivo e agora querem persegui-lo no amor espiritual que o povo lhes tem, isso é a verdade”, frisou.
Disse ainda que na Venezuela há "liberdade para a criação" e comparou a Oração do Delegado com as obras dos escritores Miguel Ángel Asturias e Pablo Neruda. “Senhores da inquisição, exijo respeito pelo espírito criador e já basta de tanta perseguição contra Chávez”, finalizou.
Sei não, acho que não demora muito e esse Dom Roberto toma um chá de sumiço, mais dia menos dia, irá ter antes do programado com o seu criador.
Eis a oração na íntegra:  

“Chávez nosso que estás no céu, na terra, no mar e em nós
E, Delegado, Santificado seja o teu nome, 
Venha a nós o teu legado para ajudar pessoas de aqui e ali. 
Dê a nós a tua luz para nos guiar todos os dias 
Não nos deixe cair na tentação do capitalismo, 
Mas livra-nos do mal, da oligarquia, do crime de contrabando, porque a pátria, a paz e a vida são nossas
Por séculos e séculos, amém
Viva Chávez”  

Pããããta que o pariu!!! Se a moda pega, logo, logo, teremos por essas plagas a substituição do Pai Nosso pela oração do Painho Lula, que poderia ser algo do gênero:  

"Painho Lula que estais no Planalto Central
Santificado seja o vosso nome
Venha a nós o vosso mensalão
E que seja feita a vossa vontade assim na Câmara
Como no Congresso e no Senado
Perdoai as nossas sentenças 
E não nos deixei cair na Detenção
A bolsa-família nossa de cada dia nos dai hoje
Para que fiquem cheios os pandus de nossa vasta prole
Sem que precisemos pegar no batente
Não nos deixei sem farinha e jerimum
Mas livrai-nos do trabalho formal
Amém"

Alguém sugere algum adendo à oração do Painho-Lula, alguma modificação?

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Xico Sá - Barbosear, o Verbo

Eu detesto futebol. Xico Sá adora futebol. Logo, eu... gosto pra caralho do Xico Sá.
Xico Sá é jornalista, cronistas dos bons (inclusive de futebol) e escritor. Xico Sá diz que faz subliteratura. Falsa modéstia do cabra. Tá querendo é confete. E serpentina, e Colombina, e lança-perfume, daquele que a Rhodia vendia numas latas douradas. Xico Sá é proseador, e também muito bom em sua prosa, recheada de poesia. Leiam Big Jato ou o seu Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás e verão do que eu digo.
Ao contrário do outro Chico, o Buarque, que dizem ser um profundo conhecedor da alma feminina, Xico Sá se declara, e a todos nós, os homens, um preguiçoso em entender as mulheres. Mulher não é complicada, professa Xico Sá, o homem é que tem preguiça de entendê-la.
E acho que não tem mesmo essa de entender as mulheres. Fica parecendo coisa de técnico de IML, levar a moça para um laboratório, descrevê-la, classificá-la, dissecá-la etc. Deixemos a autópsia do amor para quando ele se finar, para depois de um eventual pé na bunda.
Xico Sá é engajado na nobre causa pela preservação do macho-jurubeba, sendo ele próprio um dos últimos representantes dessa tão ameaçada espécie, que é o homem-homem, o macho sem frescuras, o macho por excelência, longe, no entanto, de ser machista. Xico Sá é um dos últimos guardiões do cromossomo Y.
Xico Sá é igualmente adepto de uma birita, aprecia uma canjebrina. E sua qualidade mais invejável : Xico Sá nunca se casou (até onde eu sei, pelo menos). Xico Sá consegue se equilibrar na corda bamba sem sombrinha dos relacionamentos e não cair no despenhadeiro do casamento, no grand canyon do matrimônio.
Xico Sá é o bêbado e o equilibrista. Consegue ser um solitário sempre muito bem acompanhado.
O texto de Xico Sá que reproduzirei a seguir, Barbosear, o verbo, tem como mote, diria até como pretexto, o futebol - daí aquele antissilogismo com que abri a postagem -, mas vai muito além das linhas brancas de cal a queimar o verde, o gramado é só o pano de fundo. O texto fala da honradez frente a derrota, da hombridade de assumi-la. Xico fala, como macho-jurubeba que é, da macheza que tanto anda em falta hoje em dia. Aquela da palavra e do fio de barba a valerem mais que qualquer selo ou carimbo de tabelião.
Com vocês, Xico Sá :

Barbosear, o verbo 
Amigo torcedor, amigo secador, peço encarecidamente, vamos desbarbosear, enquanto é tempo, o Felipão. Barbosear, o verbo nacional por excelência, caro professor Pasquale, a ação de personificar a catástrofe, maldito objeto indireto brasileiro. Em vez de decifrar as causas do fracasso, sempre encontramos um rosto para um momento trágico.
Então está combinado; eu desbarboseio, tu desbarboseia, nós desbarboseamos.
Evidente que contra o preto Barbosa, o goleiro de 1950, a pena foi sem comparações. Foi perpétua e apagou até a assinatura da Princesa Isabel na Lei Áurea.
Cresço eu, cresces tu, crescemos nós quando aprendemos a desconjugar tal verbo. Felipão tem razão em dizer "que saco", como na volta ao palco da tragédia greco-mineira. Deixemos o homem, além do técnico, trabalhar em paz.
É pedagógico, caro Paulo Freire, lembrar sempre das nossas derrotas. É burro, porém, achar que os erros têm feição única. O católico Felipão está longe de ser um Cristo, mas chega de acoitá-lo. Não vejo a mesma fúria contra Marin/Del Nero e todos os quadros em branco e preto na parede cor de anos de chumbo da CBF, a abominável Casa Bandida do Futebol, como na sigla eternizada pelo caro Juca.
Felipão tem o luxo da coragem. Poderia, qual um monge, ter optado por curar a ferida no silêncio, lá longe dos homens de temperamento sórdido, como me sopra aqui o flamenguista Jorge Benjor. Não. Preferiu curar a dor que deveras sente a céu aberto, com milhares de testemunhas nas arenas, nos estádios. É macho. Não de mchista, no sentido bom do gênero.
Um homem de moral, de enfrentamento, que dá a cara, um homem à prova de mídia-training e outros truques para enfrentar o poder da imprensa.
Acaba sobrando um pouco do verbo barbosear também para Fred. que bobagem. Rolou também parecido em 50. Não ficou apenas no goleiro. O bom é que Fred tem personalidade. Gostei da ideia do atacante de fazer greve, não entrar em campo se a selvageria contra os jogadores do Fluminense continuasse por parte de meia dúzia de destorcedores - vale também, a essa altura das flexões, professor Pasquale, tu que és Juventus nato, o uso e abuso do anti-verbo.
Barbosear é ação típica do subdesenvolvimento atávico, do viralatismo em busca do vilão da novela. É esquecer até, pasme, a velha culpa do sistema. Vejo em Felipão, ao não fugir um pouco do futebol, uma certa teimosia do capitão Ahab do livro homônimo Moby Dick e mais ainda do filme do John Huston.
É o maior livro-filme sobre a arte de continuar vivo mesmo sabendo que a Velha Foice anda à espreita. Como é bonito tal peleja, talvez apenas o futebol o repita como metáfora. O futebol é mesmo a vida em estado permanente de hipérbole.
Xico Sá

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

SETEMBROCHOVE

De duas décadas para cá, paulatinamente, Ribeirão Preto está a se tornar uma franquia do deserto de Atacama. Já de saída, a cidade foi construída em uma depressão, em uma panela de um vulcão extinto, e, convenhamos, nada construído dentro de uma panela pode oferecer clima dos mais aprazíveis. 
Dessa forma, massas de ar quente se instalam sobre a cidade e formam uma espécie de tampa para essa panela, a impedir a entrada de massas mais úmidas e arautas de chuva; só forte vendavais - já houve até um tornado - para destampar a panela do diabo.
Ainda em decorrência de ocupar território onde nos primórdios rugia um iracundo vulcão, o solo é dos mais ricos, a chamada terra roxa, resultante da decomposição, principalmente, do basalto. Assim, não bastasse a baixa altitude geográfica a dificultar a chuva, Ribeirão Preto, desde a sua fundação, foi vítima do que chamam hoje de progresso.
Duas "ondas verdes" acabaram por desgraçar com o clima, acabaram por torná-lo mais seco que cu de camelo. O ciclo do café, no século XIX, e agora o novo ciclo da cana-de-açúcar, que transformou a região de Ribeirão Preto num dos principais centros sucroalcooleiros do país. Que orgulho, né? Orgulho porra nenhuma. Primeiro que nenhum centavo desse "progresso" todo cai no meu bolso, fica tudo nas contas dos usineiros e políticos da região; depois, com a aniquilação da pouca cobertura vegetal que ainda circundava a cidade, a umidade do ar foi pras picas. É a vegetação que retém a umidade, que torna o clima de um local mais ameno, mais respirável, literalmente.
Duas monoculturas - a do café e a da cana - elevaram a já seca e quente Ribeirão Preto ao status de tórrida e esturricada. Não raro, entre os meses de maio de agosto, a umidade do ar cai a níveis verdadeiramente desérticos, 20%, 14%, 11%. Mas é o progresso, não é? É o desenvolvimento econômico. O país precisa crescer. É o PIB, é o superavit. É o caralho. As pessoas preferem ter combustível para colocar em seus carros do que um ar respirável e água para beber.
Só uma coisa ainda nos salva, ainda nos redime, nos mantêm vivos. É que alheia a todas essas adversidades, a todas essas oposições, uma máxima universal sempre se cumpre por essas épocas do ano. Pode a cidade ter sido erigida em um buraco, pode o ser humano ter depredado o meio ambiente e ferrado com o clima, pode acontecer qualquer outra merda que for, há um imperativo cósmico que, acima de tudo isso, impõe sua inexorabilidade : SETEMBROCHOVE!!!
E não tem jeito. Aconteça o que acontecer, ou o que deixar de, SETEMBROCHOVE!!!
E aí, 'cê tem brochove? Tem, claro que tem. Pode querer negar, pode querer esconder, não há como, SETEMBROCHOVE!!!
E o contrário também é verdadeiro e irrevogável. Antes de entrar setembro (como diria Beto Guedes), não há o que fazer para que a chuva caia. Nem novena nem trezena nem dança da chuva apache nem sacrifício de virgem para algum deus pagão das tempestades. Tem que esperar setembro. SETEMBROCHOVE!!!
Tanto chove, que de ontem para hoje, perto da meia-noite, uma boa chuva desabou. Veio bruta, trazendo mais terra que água, desajeitada, talvez pela falta de prática em por aqui cair, mas veio. Já foi um dia de horizontes menos empoeirados - há por aqui o fenômeno da névoa seca -, de ares mais navegáveis.
SETEMBROCHOVE!!! E choveu!!! Só não veio junto a gostosa da foto abaixo. Mas ai não é nem questão de pedir que chova, é querer que chova na minha horta. Aí, eu nem mereço.
Esta postagem é em homenagem aos meus amigos - citados aqui pela ordem cronológica em que os conheci, para evitar possíveis ciúmes -, Marcelo (o famoso Leitinho), Marcellão e Fernandão. Que eu bem sei que vocês gostam de "uma chuvinha em cima".

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Atletas de Cristo se Unem Contra Tupã

Já disse algumas vezes e repito : Nero é o grande culpado de tudo!
Não tivesse sido tão incompetente, o mais famoso tocador de lira romano, hoje não teríamos que tolerar (e temer, e manter sempre um pé atrás) a praga do cristianismo. Nero deveria ter mandado importar leões, uma vez que o estoque do Coliseu se mostrou insuficiente.
Nero foi perspicaz e certeiro em identificá-los como uma praga insurgente, os cristãos; porém, não foi hábil o suficiente em sua dedetização, ou, talvez, tão megalomaníaco quanto o Império que comandava, os tenha subestimado, tenha mal julgado a dimensão que a praga poderia tomar.
Feito cupins que vão infestando e solapando o arcabouço de uma edificação, o cristianismo, ao longo desses quase 2000 anos, infestou e carcomeu todo o vigamento, todo o madeirame do pensamento racional humano. Trocou-o pelo tacanho pensamento mágico, pela miserável dualidade do bem/mal, virtude/pecado, cristo/fogueira. Sem meios-termos, sem nuances, sem a beleza que é a multiplicidade do pensamento racional. Todo o potencial humano para o plural reduzido a um capenga maniqueísmo, toda a vocação humana para a grandeza restringida a uma humilhante submissão.
Todo pensamento, opinião, comportamento contrários à pobreza de espírito do cristianismo, ao pensamento mágico reducionista, ao deus-dará, passaram a ser ferreamente combatidos, reprimidos, sufocados. Incinerados. Arrisco-me tranquilamente em dizer que todas as neuroses de que o ser humano é vitima atualmente tem suas origens na repressão religiosa. Todos os desejos e impulsos naturais, segundo o cristianismo, são sujos, coisas do demo, devem ser evitados, combatidos, e, se praticados, uma culpa enorme deve incidir sobre o pecador, culpa só não maior que a penitência a lhe ser infligida. É mesmo uma máquina de criar doidos, desequilibrados.
Os psicólogos, psiquiatras, psicanalistas e outros que tais devem suas profissões e seus sustentos ao cristianismo e aos seus meio-irmãos, o judaísmo e o islamismo, as três crias mal nascidas de Abraão. Ergam seus altares a Abraão, seus psicocharlatães, não a Freud.
O fato é que se o invasor não é detido a tempo, ele se assenhora do território alheio, torna-se o dono da casa.  Os que se diziam "perseguidos", uma vez donos da situação, mostram-se perseguidores e algozes ainda mais implacáveis.
E os cristãos estão por aí, exigindo tolerância religiosa para si e praticando sua intolerância para com os outros em nome de Cristo, cuspindo sua fé e seu pensamento torto na cara de todos. Colocaram o deus deles na moeda do país, abrem um igreja ao lado da sua casa, fazem barulho até altas horas e nada pode ser feito contra eles, tentam a todo momento aprovar leis canalhas que os favoreçam, como impor ensino religioso nas escolas públicas, aqui na cidade em que moro, um padre reza uma missa todas as quartas-feiras em uma praça bem no centro da cidade, sem pagar nada pela utilização do espaço público, muitas igrejas são construídas em terrenos doados por prefeituras, colocam outdoors - quem nunca viu um desse? - à entrada das cidades dizendo que tal município é do senhor Jesus etc etc.
Agora, a ignorância cristã está infectando até outra grande ignorância nacional, o futebol.
Jogadores cristãos - católicos e evangélicos - do Guarani Futebol Clube, de Campinas, estão incomodados, mesmo ofendidos em sua fé, pela figura da mascote do clube, um índio bugre estampado na camisa do time, ao lado do emblema do Guarani - os guaranis foram a mais representativa das etnias indígenas da América do Sul, em seu auge, ocupavam territórios da Bolívia, Paraguai, Uruguai e Brasil. Devido à sua condição de não cristãos, eram chamados de bugres pelo europeu.
Querem a retirada do índio da camisa do time. São os atletas de Cristo contra Tupã.
Pois bem, mas em que tanto incomoda, aos cristãos do Guarani, a figura altiva de nosso nobre silvícola? Com a palavra, a burrice e a mesquinhez cristã : os evangélicos não acreditam em imagens, logo, a imagem do pele-vermelha poderia ser interpretada como uma idolatria; os católicos idolatram imagens, porém, a imagem do índio caboclo não é cristã, remete ao candomblé e ao espiritismo.
Além disso, como forma de reforçar o pedido a Álvaro Negrão, presidente do clube, os atletas de Cristo alegam que os resultados foram negativos desde a adoção da herética mascote : apenas uma vitória, contra duas derrotas e três empates, o que deixou o Guarani entre os últimos colocados no Campeonato.
Os escrotos de Cristo são os maiores pernas-de-pau, não jogam porra nenhum, são refugos de um timezinho da série C do campeonato brasileiro e a culpa é do bugre? Pããããta que o pariu!!!
O nome do time é Guarani, o que esses lambedores de saco de Cristo queriam que tivesse estampado em seu uniforme? A figura do Cristo, com arco e flecha, cocar e tanga? Bom, de tanga, o Cristo já está.
Mudem de time, ora porra. Fundem o seu time cristão. Ao invés de homenagear a tribo dos guaranis, rendam tributos a uma das doze tribos de Israel, fundem o Levi Futebol Clube, o Clube de Regatas de Judá, a Sociedade Esportiva de Efraim. E, no lugar do bugre, coloquem a foto de Abraão, ao lado da esposa Sarah, de suas concubinas e de sua filharada, legítimos e bastardos, que é bem o retrato da tradicional família da Bíblia Cristã.
E o pior : a direção do clube, como forma de deixar "confortáveis" os jogadores, exterminou o índio da insígnia do clube. "O pedido dos jogadores foi para tirar. Eles iam se sentir mais confortáveis para atuar. Isso foi atendido. Estamos fazendo de tudo para que os jogadores fiquem confortáveis”, afirmou um dirigente do Guarani Futebol Clube.
Alguém que seja do ramo, que entenda do traçado, deveria invocar o Caboclo Sete Flechas contra os atletas de Cristo e em defesa do bugre guarani. Sete flechas das taludas disparadas pela certeira entidade bem no meio do cu dos cristãos. Garanto que pelo menos uns dois ou três iriam se converter, iriam ter uma "revelação" com a experiência, uma epifania.
Eis a camisa da discórdia. E o tal do bugre é tão estilizado, é tão mal desenhado, que só dá pra saber que é um índio se alguém falar.