quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Meu Caso Mal Resolvido Com o Abismo

Muito do desejo que temos
Vem do desejo que têm por nós.
Há tempos olhei fundo para o abismo,
Ele olhou para o fundo de mim
E disse
- talvez invejoso de minha abissalidade - :
Quero-te.
Desde então
Levo o abismo na conversa
Faço o maior cu doce :
Não tenho força de vontade
Para afastar-me de suas beiras,
De seus cheiros.
Tampouco coragem de me lançar às suas entranhas
À sua primordialidade
À sua gosma definitiva.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

AUTOINSUFICIENTE

E de todos os sonhos,
A autoalforria.
Um boldo mágico
Que rebata a ressaca
Do que me arrebata.
Menos autoapedrejamento.

E de todas as autocrueldades,
A monogamia.
Agrilhoar o corpo a um único outro
Enquanto a mente
Navega as vagas
De cada peito
Cu e buceta do planeta.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Quociente, Quociente, Quociente Eleitoral, 'Cê Vota no Palhaço e Elege os Marginal...

O ex-jogador Romário, agora senador eleito pelo estado do RJ com 4,6 milhões de votos, bem disse em certa feita : "o Pelé calado é um poeta!"
Concordo com o baixinho.
Não obstante o gênio futebolístico que Pelé tenha sido - e ele o foi -, o seu alter ego, Edson Arantes do Nascimento, o "Edson", como ele próprio gosta de se autorreferir, é um asno de teta. Quando o Edson abre a boca, precavemo-nos : lá vem "pérola".
Exceção a uma única declaração, proferida na década de 70. Ao ser questionado sobre a decisão dos governos militares de suspender eleições diretas para cargos do Executivo, Pelé, ou o Edson, nem ele sabe direito às vezes, mandou na lata : "brasileiro não sabe votar".
A fala de Pelé causou indignação e revolta. Até hoje causa certa consternação, como é próprio das grandes verdades. Brasileiro não sabe mesmo votar, haja vista aos últimos pleitos presidenciais.
Mas e se soubéssemos? E se exercêssemos efetivamente um voto consciente? E se, antes de votar em alguém, pesquisássemos sobre a vida pregressa do sujeito, seus feitos e realizações em prol do coletivo, assim como, e também, suas cagadas, seus podres, botássemos tudo numa balança cívica muito bem calibrada e só depois, muito depois, depositássemos nele a nossa confiança? E se seguíssemos, feito ratos de feicibúqui, a vida pós-urna de nossos candidatos, acompanhássemos seus passos, verificássemos o cumprimento ou não dos compromissos estabelecidos em campanha e usássemos o saldo, positivo ou negativo, na eventualidade de uma nova candidatura? E se etc etc e etc?
De nada adiantaria, também. Não mudaria porra nenhuma. A verdade é que fazemos papel de palhaços nas urnas - nas urnas, também. 
Primeiro que não escolhemos em quem iremos votar, os partidos é que escolhem; portanto, teoricamente, escolhemos entre os candidatos que os partidos escolheram para tal. E nessa escolha, óbvio, está em jogo uma porrada de maracutaias. 
Segundo, os "eleitos" não são os mais votados pelo povo, muito longe disso, aliás. Os "eleitos" apossam-se de suas cadeiras legislativas via coligações, conchavos e, sobretudo, através do Quociente Eleitoral.
Nesta eleição, pasmem, do total de 513 deputados estaduais e federais, apenas 35 - isso mesmo, 35, apenas 6,8% da corja toda - elegeram-se com a própria votação. Os demais 478 "eleitos" no domingo contaram com os votos somados do partido ou coligação para atingir a votação necessária.
O quociente é definido pela divisão do número de votos válidos pelo número de vagas que cabe a cada estado. Em São Paulo, a exemplo, o quociente eleitoral foi de 299,9 mil votos - resultado da divisão dos 20,99 milhões de votos válidos pelas 70 cadeiras da bancada.
Celso Russomano teve 1,5 milhões de votos, Tiririca, pouco mais de 1 milhão, as suas "sobras", rateadas entre os de seus partidos, ajeitaram a vida de mais seis vagabundos, quatro do partido de Russomano e dois do do Tiririca.
Mas não esquentemos a cachola com aritméticas, que o tal quociente eleitoral foi criado para que ninguém mesmo entenda. Deixemos que ele, Tiririca, na inspiradíssima animação do cartunista Piriri, melhor nos esclareça sobre o Q.E., ao ritmo de seu megahit Florentina.
Quociente, quociente, quociente eleitoral... 'cê vota no palhaço e elege os marginal.

Que Fossa, Hein, Meu Chapa, Que Fossa...(26)

Sempre tem aquela ex, e pouco importa como ela adquiriu tal status, de quem a gente tem saudade de vez em quando, que gostaríamos de encontrar só pra saber como ela está, só pra ver que ela envelheceu mais que nós, que engordou mais etc.
Ou, então, pior, aquela velha amiga por quem sempre rolou um tesãozinho, aquela coisa velada, aquelas indiretas, aqueles beijos "descuidados" de canto de boca, aquela água fria no pau em nome da preservação da amizade, que, feito se tivéssemos ido para a cama, acabou mesmo por acabar.
Nessas horas, o coração parece deserto. E quando o coração parece um deserto, toca lá o Roberto. O meu amigo Roberto Carlos. Você que eu não encontro mais/Os beijos que já não lhe dou.
É o fino da fossa!!!
Você
(Roberto Carlos)
Você, que tanto tempo faz,
Você, que eu não conheço mais
Você, que um dia eu amei demais


Você, que ontem me sufocou
De amor e de felicidade
Hoje me sufoca de saudade


Você, que já não diz pra mim
As coisas que eu preciso ouvir
Você, que até hoje eu não esqueci


Você, que eu tento me enganar
Dizendo que tudo passou
Na realidade, aqui em mim você ficou


Você que eu não encontro mais
Os beijos que já não lhe dou
Fui tanto pra você e hoje nada sou


Você, que eu não encontro mais
Os beijos que já não lhe dou
Fui tanto pra você e hoje nada sou

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

É a Podridão, Meu Velho (5)

Meus pés, o teto do Empire State
Minhas vistas, as nevadas e condoreiras cordilheiras
Meus pulmões, a fresca e impoluta estratosfera
Minha alma, gato de Asgard
Vaso Ming parnasiano.

Hoje,
Rastejo por entre a procissão dos rastejantes
Mais um estropiado em meio a uma romaria de aleijões.

E você ainda me pergunta
O que é que eu tenho
Do que é que eu tanto padeço?

sábado, 4 de outubro de 2014

Todo Castigo Pra Corno é Pouco (3)

Malandro é malandro e mané é mané. E os dois levam chifre. Que chifre é pandêmico e universal. Não existe vacina nem para-raios para o velho chifre. Até o malandro esperto, o bam-bam-bam do morro, o rei das bocadas, está sujeito a uns penduricalhos na testa.
E chifre tomado, não há o que fazer. É aplicar um corretivo na nega, colocá-la para fora do barraco e passar o pacote para o Ricardão. Que, como bem diz Xico Sá, nada mais cruel para o amante da tua mulher que presenteá-lo com o pão-com-manteiga do dia-a-dia. 
Foi o que aconteceu com o Chico, quando ele voltava da gafieira e flagrou um esperto em seu barracão. A música é sugestão mais que bem-vinda do Leitinho.
Quem usa antena é televisão! Tá certíssimo, o Bezerra da Silva.
Quem Usa Antena é Televisão
(Bezerra da Silva)
"-Aê Meu irmão!
O Chico falou
Que não é vinte um
Que ninguém vai alugar
A cabeça dele
Prá botar antena
Que ele não é Embratel"

Lá na minha bocada
A crioula do Chico
Pedia socorro
Chorava, gemia
O coro comia
A nega apanhava
Que nem um ladrão
Isso aconteceu
Em uma madrugada
De segunda-feira
O Chico voltava
Lá da gafieira
E flagrou um esperto
No seu barracão...

Diz ai!
Ele disse
Que quem usa antena
É televisão
E só estava
Cobrando da nega
Essa vacilação...(2x)

O Chico bateu assim
Pro esperto
Só não vou te matar
Prá não correr esse risco
Meu barraco não é
O rio de São Francisco
Prá morar esse peixe vilão
Eh! E tem mais o seguinte
Vamos botar logo
As cartas mesa
Eu fico no barraco
E você leva a nega
Essa piranha brava
Eu não quero mais não
Diz ai!

Ele disse
Que quem usa antena
É televisão
E só estava
Cobrando da nega
Essa vacilação...(2x)

Vai Descansar, Vagabundo

 
Hugo Carvana 
(1937-2014)
Dica : Bar Esperança, o último que fecha.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

E Meus Olhos Ainda Seguem a Gostosa

Olho para os colegas de trabalho
A um triz de suas aposentadorias
- poucos meses, mais tardar um ano -
E secretamente alegro-me por eles.
Mais secretamente ainda
- que não sou de grandes efusividades -
Penso que minha hora também chegará
E avoluma-se em mim
Um incomum sentimento de esperança
Ou, ao menos,
De uma maior paciência para esperar.

Da sacada
- a limpá-la, a livrá-la da poeira e do cansaço de ser beira de abismo -
Olho para os velhinhos
Dispostos no alpendre do asilo :
Tomando suas sopas
Cagando em suas fraldas
Quarando ao sol.
Pacientes
Na fila do corredor da morte de deus.
E o sentimento de alegria por eles
E de reestabelecida esperança por mim
Não só se avoluma:
Transborda-me
Ultrapassa-me.

Mas aí, vem a gostosa
A descer pela rua
Vinte e alguns aninhos
Cabelos de cobre velho
Peitos fora-da-lei, da Lei da Gravidade
A desfilar seus feromônios
E sua lordose.

Mas aí, vem a gostosa....
- e com todos os demônios -
Meus olhos ainda a acompanham.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Que Nome Dar a Ela?

Essa, eu escrevi há uns 10 anos e até hoje não consegui lhe dar um título que me agradasse. Acho que é filha tão dileta que nenhum nome está à sua altura

(SEM TÍTULO) 
Vai-se mais um dia embora, 
Derrama-se outro entardecer. 
É domingo : a tristeza foi almoçar fora. 
Mas não tarda em aparecer. 
Pra me deixar cabisbaixo, 
Pra me tornar um neném, 
Fralda suja, todo alquebrado 
Sem colo pra me encolher. 
E eu disfarço minha casa 
(Quem sabe ela passe sem bater) 
Com música, gente e risada 
Pra ela não me reconhecer. 

É outro dia que se acaba, 
Desponta outro entardecer. 
A tristeza foi às compras no shopping, 
Mas logo há de aparecer. 
E vem com fome danada, 
Vem pra filar meu café, 
Meu leite, meu bolo embolorado 
Confiada, vai ligar a TV. 
E eu pinto minha fachada 
(Azuis, verdes, salmões...) 
Com cores que ela não quer ver
A dizer-lhe que aqui não é boa morada 
Pra quem vive de entristecer. 

É outro dia que finda, 
Caminha outro entardecer 
A tristeza se deixou a beber com os amigos : está atrasada. 
Mas não falha em aparecer. 
Vem pra me deixar de olhos baços, 
Tomar-me nos braços, me fazer entender 
Que essa vida não vale a pena, 
A pena de tanto viver. 
E ela chega tarde da noite 
(Eu recolhido, pijama, banho tomado) 
Sem barulho, pra não me aborrecer, 
Debruça-se no leito ao meu lado 
E me beija a testa pra eu adormecer.

domingo, 28 de setembro de 2014

Todo Castigo Pra Corno É Pouco (2)

Hoje, o troféu boi zebu vai para o compositor Peninha e sua canção Sonhos.
A música é boa, a letra muito bem escrita, com umas rimas bem legais e inspiradas. É a história do cara que começa um relacionamento meio que descompromissado e vai se envolvendo cada vez mais, o cara que subestima o poder da buceta e, quando dá por si, está de quatro pela donzela. De quatro, com cabresto, rédeas, arreio etc.
E quando o sujeito está no auge da paixão, da submissão e da entrega, vem o óbvio pé na bunda : "Quando a canção se fez mais forte e mais sentida/Quando a poesia fez folia em minha vida/Você veio me contar dessa paixão inesperada /Por outra pessoa"
Até ai, normal. O duro é atitude do corno frente à galhada : "Mas não tem revolta não/Eu só quero que você se encontre..." 
Como assim, não tem revolta não? Claro que tem, ora porra. E o que é isso, então, de desejar felicidade para a bisca? O corno há de ser manso, isso é ponto pacífico, mas daí a desejar boa fortuna àquela que lhe enfeitou o frontispício, já é um pouco demais, já é ser mané. Manso é uma coisa, mané é outra.
Eu só quero que você se encontre é o caralho! Eu quero é que você se foda! Claro que não deverá ser você, oh, amigo corno, o agente da desgraça da ex, o avatar da vingança, mas não custa nada torcer para que a vida, o destino, sei lá, se incumbam de colocar umas merdas no caminho dela.
Corno vingativo, nunca, amigo. Pois como diz o guru do chifre Falcão, o corno vingativo é que aquele que, quando descobre que a mulher deu pra outro, sai por aí dando a bunda, só pra se vingar dela.
Sonhos
(Peninha)
Tudo era apenas uma brincadeira
E foi crescendo, crescendo, me absorvendo
E de repente eu me vi assim completamente seu
Vi a minha força amarrada no seu passo
Vi que sem você não tem caminho, eu não me acho
Vi um grande amor gritar dentro de mim como eu sonhei um dia.

Quando o meu mundo era mais mundo
E todo mundo admitia
Uma mudança muito estranha
Mais pureza, mais carinho, mais calma, mais alegria no meu jeito de me dar
Quando a canção se fez mais forte e mais sentida
Quando a poesia fez folia em minha vida
Você veio me contar dessa paixão inesperada
Por outra pessoa.

Mas não tem revolta não
Eu só quero que você se encontre
Ter Saudade até que é bom
É melhor que caminhar vazio
A esperança é um Dom
Que eu tenho em mim
Eu tenho sim
Não tem desespero não
Você me ensinou milhões de coisas
Tenho um sonho em minhas mãos
Amanhã será um novo dia
Certamente eu vou ser mais feliz

sábado, 27 de setembro de 2014

Boneco Vodu do Azarão

A nuvem negra que me acompanha desde o berço feito um zeppelin, de uns tempos para cá, resolveu fazer mais que apenas sombra à minha imensa cabeça. Resolveu ligar seu esmeril, derramar suas faíscas, arremessar seus certeiros raios de Zeus. Resolveu ribombar sobre mim como os batuques do Olodoum - que é castigo muito maior que os raios de Zeus, ou que qualquer outro jamais imaginado e infligido pelos deuses a um mortal.
O mar não tá pra peixe. Ah, um urubu pousou na minha sorte...
De abril para cá, é uma peste atrás da outra. 
Primeiro foi uma puta duma gripe, que se não era a suína, no mínimo, era equina. Cavalar, mesmo. Temperaturas próximas às do Saara (durante o dia, claro) durante quase uma semana. E dá-lhe dipirona, e dá-lhe anti-inflamatório, e, o pior, dá-lhe cerveja sem álcool.
Passada a gripe, o seu rescaldo : mais quase um mês de sinusite. Junto à sinusite e às temperaturas mais amenas de maio/junho, uma dor aguda começou a se manifestar em meu penúltimo molar do quadrante inferior direito. Atribui-a à sinusite ou àlguma nevralgia desencadeada pelo frio.
Passou a sinusite, passou o frio (na verdade, ele mal chegou esse ano) e a dor continuou lá, uns dias mais, outros dia menos, mas lá, e somente durante a mastigação. Fui à dentista, que fez lá uns testes de sensibilidade à temperatura, atacou meu dente com frio e calor, com frio e calor, e eu tendo que dar uma de macho, tendo que responder se doía, quando, na verdade, tava doendo pra caralho!!! O quente dava uma puta duma ferroada. Raio-X e lá estava : um canal a ser feito. O primeiro de minha vida, o primeiro em quase meio século. 
E lá fui eu para outro dentista, um endodentista, um cara muito gente boa e competente, tratou direitinho o canal e disse que, provavelmente, uma mordida muito forte fora a responsável por ofender o canal, tudo indicava que eu estava com bruxismo. Hoje, durmo com uma placa nos dentes. Quanta viadagem depois de velho.
Tenho cá pra mim que a ocaso do macho começa com a ruína de seus dentes. Machos-alfa de lobos e leões, quando começam a quebrar e perder a dentição, evitam contato muito próximo com os outros machos do bando, escondem o quanto podem esse sinal de fraqueza, pois, uma vez descoberta, fará com que ele seja desafiado pelos mais jovens do bando e, fatalmente, deposto. E os meus começam a se ir.
Mal passara o trauma do tratamento de canal e julho chegou com um reforma : troca das portas do apartamento e quase que uma demolição dos dois banheiros. Já no segundo dia da reforma, quando fui carregar um saco de entulho para fora, a ponta longa e fina de um azulejo se insinou por entre as malhas de juta do saco e, cortando como navalha de malandro, abriu uma verdadeira boca no meu joelho direito, à altura da patela. Sangue a rodo, oito pontos, antitetânica e antibióticos. E mais cerveja sem álcool. E um belo dum quelóide de recordação. Pele de velho não tem mais o mesmo poder de regenaração.
Agosto passou relativamente tranquilo, só o velho e eterno cansaço. 
Aí, segunda-feira dessa semana, uma leve dor - que há tempos faz companhia ao meu joelho esquerdo -, dessas dorzinhas que a gente tem quando passa muito tempo sentado e se levanta de repente, ou quando faz um esforço um pouco maior que o normal, dessas dorzinhas à toa, resolveu se intensificar.
Eu bem queria dizer que era daquelas dores latejantes, afinal, a dor latejante passa a metade do tempo não doendo. Feito aquela história do português que foi para trás do carro do amigo, ver se a lanterna do pisca está funcionando : "agora está, agora não está, agora está..." 
Mas era dor inédita para mim, contínua, sem dar folga, ardia, queimava o lado de dentro do joelho. Foram dois dias sem dormir, sem arrumar posição na cama. O primeiro médico por quem passei fez o raio-X e disse que não era nada. Como não era nada? Eu com uma dor filha da puta e ele dizendo que não era nada? Realmente, a dor da gente não sai no jornal; nem no raio-X. 
Comuniquei-lhe que trabalho em pé o dia todo, perguntei, já com vistas a uns dias de folga, se isso não agravaria ainda mais a situação. Disse que não. Pedi-lhe que receitasse, então, anti-inflamatório e analgésico mais fortes. Também disse que não era necessário. Diagnóstico : lesão biomecânica sem origem defiinida. Ou seja, o filho da puta não sabia picas do que estava falando. Fui trabalhar no dia seguinte e, a se cumprirem os prognósticos do médico, claro que o joelho piorou. Dez vezes. Travou. Impossível sequer dobrá-lo.
E lá fui eu, médico, de novo. Desta vez, dei sorte, dei de cara com um médico de verdade. Apalpou meu joelho aqui, ali, olhou a radiografia e mandou na lata : tendinite da Pata de Ganso, um conjunto de três tendões. Deu-me atestado para três dias de repouso e um anti-inflamatório bem mais forte. De forma que a dor havia em muito mitigado na quinta-feira e, finalmente, pude dormir a noite toda. Provavelmente terei que fazer fisioterapia etc. Tendinite é para a vida toda.
E não é que, ainda em tratamento que estou para a pata de ganso, acordo na madrugada de hoje (sexta para sábado) com uma tosse do caralho, a garganta arranhando e febre? Outro gripão. Passei o dia todo com o corpo ruim, cabeça pesada, febre de 39ºC. O bom é que até esqueci um pouco do joelho.
Pãããããta que o pariu!!!!! Uma doença se encavalando na outra. Isso, como diria meu amigo Fernandão, só pode ser praga de puta. Nesse caso, cometerei a heresia de discordar de meu escolado (e escaldado) amigo. É algo muito pior.
Isso só pode ter uma explicação : alguma vagabunda que eu não comi deve ter feito um boneco vodu meu. Em tamanho natural. Com uma benga gigante. E trepa com ele todo dia! Tanto azar, só pode ser isso, um vaca trepando com um boneco vodu meu.
Entrei em contato com meus escusos contatos e eles foram às ruas, a investigar, à cata de indícios que corroborassem minhas suspeitas. Desceram ao submundo dos bares mais mal frequentados, das bocas mais quentes, dos becos mais escuros, invadiram computadores, navegaram nas águas pestilentas da deep web
Finalmente, trouxeram a prova. Um boneco vodu do Azarão foi mesmo confeccionado. Ei-lo:

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Dialética da Tristeza

Que a tristeza genuína não é causada por fatores externos, ambientais - muitos dos povos mais miseráveis do mundo são também os declaradamente mais felizes.
Que essa é a tristeza ocasional, sazonal, provocada por um revés ou outro da vida, é tristeza que dá e que passa, nada que resista a uma roupa nova, um carro novo, um celular novo, a uma drágea de tarja preta.
Que essa é a tristeza canastrona, atriz medíocre da personagem grandiosa que interpreta, mimética, de imitação. Feito mulher que tinge o cabelo de loiro - mas que não se torna efetivamente loira -, feito o cara que toma viagra - mas que não se torna efetivamente viril.
Que a tristeza autêntica é perene - não é curável, não é doença -, é presente (de grego) dado pelas Musas logo ao nascimento. Que é a tristeza que forjará os poetas. Que o mundo precisa dos poetas. Que os deuses e as Musas precisam dos poetas; mais do que o poeta, deles.
Que essa é a tristeza que polirá à perfeição o espelho em que as Musas se contemplam e se envaidecem, o poeta. De posse da Tristeza das Musas e de um Mobral bem feitinho, ninguém segura o sujeito.
E surgem, para o nosso deleite, coisas assim :
Dialética
(Vinícius de Moraes)
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz 

Mas acontece que eu sou triste...

Ou,
O Poema do Beco
(Manuel Bandeira)
Que importa a paisagem, a Glória, a baía
a linha do horizonte?
-O que vejo é o beco.

Ou,
o cara da música Ouro de Tolo, de Raul Seixas. O cara que devia estar contente porque tem um emprego, um carro do ano, porque fez sucesso : 
Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês
.................................................
Eu devia estar alegre
E satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado fome
Por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa
.............................................
Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...

Ou seja, o cara deveria estar contente... mas não está.

Ou além,
Motivo
(Cecília Meirelles)
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Cecília Meireles, então, se põe à parte da tristeza ou da alegria, não se preocupa com elas, é poeta e pronto. Como fosse o poeta um tipo especial de melancolia, de introspecção. E ele é.

Demos, portanto, vivas à Tristeza. Que a alegria só produz música baiana e sertanejo universitário.

Como Pedir Uma Cerveja ao Redor do Mundo

Lembro-me de uma professora de inglês, uma entre tantas que falharam em fazer o impossível, ou seja, ensinar-me os rudimentos do idioma do Tio Sam, a dizer do que fundamentalmente teríamos que saber para não passarmos fome, não nos perdermos e não passarmos por mal-educados em um país estrangeiro. Saber dizer, com licença, por favor, obrigado, desculpas (aí é que você vai parecer turista mesmo, ou alguém já viu um americano ou, pior, um inglês tão educado assim?). Saber pedir para ir à rua tal, ao museu tal etc. Como fazer um pedido num restaurante ou lanchonete, como solicitar o menu, saber onde ficam os banheiros. E jamais esquecer de portar o passaporte e o nome e endereço do hotel em que está hospedado. Lembro dela ter ensinado até como dizermos o nosso tipo de sangue, remédios a que somos alérgicos, em caso de um desconforto longe de  nossa língua pátria.
Do principal, porém, minhas esforçadas e bem-intencionadas professoras de inglês, se esqueceram. Como matar a sede em terras estrangeiras? Como dar aquele refresco para a goela em território estranho e hostil?
Isso é que é importante. Comer, come-se qualquer coisa, qualquer carrinho de lanche de rua nos mata a fome. Pedir desculpas? É só não fazer nada errado. Comunicar-nos com os nativos do local, para quê? Eu evito conversar o máximo com as pessoas, não gosto de conversar nem em português, imagina se eu quereria entabular uma prosa com um americano, inglês ou o que seja.
O importante é saber solicitar a cerveja, esse lenitivo para a fadiga, para o estress, diria até para a alma.
De encontro a esta necessidade universal e a reforçar o caráter e o compromisso de utilidade pública do Marreta, aí vai um guia de como pedir a sua loira gelada em vários países, sem correr o risco de acharem que você está a pedir por uma prostituta, se bem que se acharem, tudo bem, ninguém lhe conhece mesmo. Desde que ela traga a cerveja.
Como pedir uma cerveja em diferentes línguas
Gostei do italiano, Una Birra, Per Favore. Meu filho de quatro anos me serve várias dessas por dia, dá-me birra atrás de birra. E eu a ralhar com o moleque.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Barbie - A Religião de Plástico

Se um símbolo tivesse de ser eleito a bem representar os ditos tempos modernos em que vivemos, indubitavelmente, ele seria o plástico. Do grego plastikos - moldável, flexível -, ele literalmente moldou e reconstruiu o mundo a partir da invenção do baquelite (o primeiro de uma vasta família de polímeros), por Leo Baekeland em 1907.
Nada representa melhor o modo de vida moderno que o plástico : artificial, amorfo, sem personalidade, sem requinte nem profundidade, imediatista, descartável e equivocado.
O plástico também se assemelha incrivelmente à religião, que é a maneira mais artificial, amorfa, sem personalidade, sem requinte nem profundidade, imediatista, descartável e equivocada de explicar o mundo : a explicação pelo pensamento mágico, como se um aprendiz de feiticeiro regesse todo o cosmos.
Então, por que não associá-los, uma vez que indissociáveis parecem, plástico e religião, criar uma religião de plástico?
Buda Ken
Foi o que fizeram os artistas plásticos argentinos Pool & Marianella : lançaram a coleção Barbie - A Religião de Plástico. São 33 bonecos da Barbie e do Ken transfigurados em imagens religiosas. E tem para todos os credos : Iemanjá (candomblé), Kali (hinduísmo), Buda (budismo), Baphomet (provável origem templária) e, claro, Jesus, vários santos católicos e até uma pecadora, Maria Madalena, representada com um seio de fora, mas aquele peito de Barbie, sem mamilo, coisa que não excita nem ofende niguém.
E claro, como não podia deixar de ser, a catolicaiada se pôs em pé de guerra contra Pool & Marianella nas redes sociais. Os cristãos dizem que a intenção dos autores é debochar da figura de Cristo e dos santos, e não homenageá-los. Mas o que é que o crente tem que ficar fazendo o dia inteiro em redes sociais? Vai pra igreja, porra. Vai rezar. Confessar. Soprar apito de chamar anjo.
Virgem Aparecida
Tem a Virgem de Guadalupe, a Virgem de Fátima, a Virgem da Medalha Milagrosa, a Virgem Desata-nós, a Virgem das Sete Dores, a Virgem de Aparecida, a Virgem da Divina Providência. Tem virgem a dar com o pau, ou melhor, a não dar com o pau.
Do que reclamam os cristãos? Tem melhor maneira de representar a figura de uma virgem que não no corpo de uma Barbie? A Barbie não tem buceta, vai ser virgem sempre. Ainda mais com aquele "namorado" metrossexual dela, o Ken, que não tem pinto. É virgindade garantida e imaculada, per saecula saeculorum, amen. 
E de mais a mais, por acaso, a Igreja Católica é dona das imagens do Cristo etc? São suas marcas registradas? Sendo personagens de mitologias, não podem ser representados pelas múltiplas visões dos mais diversos artistas? Tem que pedir permissão para os donos do santos? E, quem sabe, até morrer com alguma grana?
Quem nos dá as respostas é Daniel Rojas, administrador do Santuário da Defunta Correa, uma figura religiosa argentina que, apesar de não ser reconhecida como santa pela Igreja, é tida como grande milagreira e adorada por milhares de devotos, e também uma das Barbies da coleção de Pool & Marinella. Ele ameaça processar judicialmente os artistas por desrespeito à fé dos devotos : “A imagem e o nome [da santa] são patenteados, são nossos.”, vocifera Daniel Rojas.
No Brasil, o direito de imagem do Cristo Redentor é de propriedade da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Todo e qualquer uso da imagem do Cristo Redentor, seja em um documentário, filme, videoclipe, propaganda de TV etc, precisa ser autorizado pela Arquidiocese da cidade do Rio de Janeiro, que também é de São Sebastião. Não sei se rola alguma grana, alguma esmolinha para a caixinha da Igreja Católica, mas que tem que pedir a benção do bispo, isso tem.
Ofensa à fé é não dar o dízimo, é não contribuir para os cofres e as barrigas volumosos da padraiada. Se rolar uma porcentagem em cima da venda das obras, o Papa Francisco até abençoa.
Na ala masculina, na pele bem tratada, hidratada, sem cravos e espinhas e sobrancelhas desenhadas de Ken, estão São Roque, São Sebastião, Santo Expedito, São Caetano, São Jorge e, enfim, o Ken Jesus Cristo.
Eu acho, como dizia o povo antigo, que até ornou o boneco Ken do Cristo. O Cristo, de madeixas bem cortadas, sedosas e livres ao vento, de barba bem cuidade e aparada, sempre deu a maior pinta de ser um metrossexual.
Deixo aqui uma sugestão para a próxima coleção da dupla Pool & Marinella : lancem as figuras religiosas na forma de bonecas e bonecos infláveis, desses de sex shop, com orifícios e bengas vibratórias. Não sei na Argentina, mas no Vaticano venderia uma barbaridade.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Jasmine Tridevil, Tetas à Mancheias

Total Recall (1990), dirigido por Paul Verhoen e protagonizado por Arnold Schwarzenegger - e justamente por isso traduzido por aqui como O Vingador do Futuro, a aproveitar o sucesso do austríaco androide modelo T-101-, inseriu no imaginário erótico-onanista dos aficionados por ficção científica uma das figuras mais bizarras e inusitadas já surgidas dentro do igualmente bizarro e inusitado gênero : a prostituta marciana com três tetas.
A marciana de três tetas impressionou toda uma geração de jovens. Causou-nos sentimentos dos mais confusos e ambíguos. Logo de cara, é óbvio, deu-nos um grande tesão - à época, mal conseguíamos, com muito suor e esforço, ver um único peitinho, e a marciana nos aparece logo com três. Porém, em seguida, mal o pau acabara de fica duro, atingiu-nos uma certa repulsa e uma reação de negação, motivadas por um sentimento de culpa certamente ditado pela (falsa) moral cristã em que nascemos imersos.
Seria moralmente correto ou aceitável termos tesão por uma marciana, por algo que nem era humano, não se constituiria em uma espécie de bestialismo, de zoofilia? Seria mentalmente normal e saudável nutrir desejos carnais e copulatórios por uma ET de três tetas?
Sim! Seria! Claro que seria!
A marciana de três tetas apareceu por poucos segundos na tela, mas deixou-nos marcas profundas, indeléveis. Alguém se lembra, por exemplo, de que Sharon Stone era a esposa de Schwarzenegger no filme? Da marciana de três tetas, contudo, não há quem consiga se esquecer.
O número três é meio que simbólico, quiçá cabalístico, para a espécie humana. Talvez por sermos seres de simetria bilateral, nossas estruturas externas as temos sempre em número de duas. Dois olhos, duas orelhas, duas narinas, dois braços, duas pernas, duas tetas; e mesmo alguns órgãos internos, dois rins, dois pulmões.
É capaz que o número três represente algum anseio inconsciente do ser humano em transcender seus limites físicos e até espirituais. Um clássico exemplo é a tal da mística terceira visão, a qual todos teríamos localizada à altura da testa, entre os outros dois olhos. É o olho de Hórus, é o chifre do unicórnio. É um orgão de visão interior que, ao contrário dos seus dois irmãos mais conhecidos, cegos para o passado e para o futuro, abarca toda a eternidade. Não confundir terceira visão com terceiro olho, que esse é o cu, o famoso zóinho de porco.
Talvez levada por esse sentimento interior de transcendência e superação, talvez apenas inspirada pela marciana de três tetas de Total Recall, a americana Jasmine Tridevil, 21 anos, realizou uma verdadeira peregrinação gnóstica para obter o o chacra supremo, uma terceira teta.
Perambulou por um árduo caminho de Compostela, economizou por dois anos, passou por mais de 50 cirurgiões plásticos, até achar um que concordasse em realizar a cirurgia, e, finalmente, gastou coisa de R$ 46 mil para ter a terceira teta. 
"Foi realmente muito difícil achar alguém que fizesse, porque seria quebrar o código de ética. Falei com 50, 60 médicos. Ninguém quis", disse a americana.
Mas ela não desistiu de sua jornada, moveu céus e terras, pactuou com os cirurgiões mais proscritos. Teria ido a Marte, se precisso fosse.
A terceira teta de Jasmine Tridevil (tem tri até no sobrenome) é confeccionada em silicone e tecido retirado do abdômen. E a única diferença entre ela e as originais de fábrica, diz Jasmine, é que o mamilo teve que ser tatuado.
O resultado agradou à moça, satisfeitíssima com sua terceira teta. O mesmo, todavia, não se deu com alguns de seus familiares; horrorizados com o novo visual de Jasmine, romperam relações com ela.
Pretende agora estrelar um programa na MTV : "Meu sonho é ter um programa na MTV. Pus cada centavo meu nisto. Se não der certo, estarei perdida", afirmou ela. Só se for na MTV marciana, que aqui ainda há muito preconceito contra as tritetas, embora elas não sejam novidades tão originais assim. Existem outros casos de três tetas, ao menos de três mamilos, no cinema e na TV.
Em 1974, o vilão Scaramanga, de 007 contra o Homem da Pistola de Ouro, interpretado por Christopher Lee (primo de Ian Fleming, o criador do agente secreto a serviço de Sua Majestade. Sabia dessa, Marcellão?), possuía o mítico terceiro mamilo, o que lhe dava fôlego extra em seus afazeres sexuais.
Chandler Bing, da inigualável série Friends, também possuía um terceiro mamilo, que ele chamava de nubbin e o qual dizia ser a fonte de seu poder, fazer piadas infames sobre tudo.
Mas, enfim, deixemos de coisa e cuidemos da vida. Eis Jasmine Tridevil, a trajar vestimenta adaptada às suas necessídades físicas especiais, um triquíni.
Veredicto do Azarão, a la Jânio Quadros : mamá-los-ia!!!
Tranquilamente.

sábado, 20 de setembro de 2014

Anorexia e Obesidade Mórbida

Preciso de muito pouco:
Servem-me as camisas desbotadas e de golas esgarçadas
As calças de barras puídas e fundilhos encardidos e zíperes presos por elásticos de dinheiro
Os tênis de solas furadas
O cabelo sem corte
A barba de masmorra, ou de naufrágio.

Por outro lado
Nada me basta:
Não me chegam
À sede
Todas as vinhas de Baco
Ou os tonéis de Jack Daniels.
Não me chegam
A uma noite bem dormida
O Nobel de literatura
Ou os grandes lábios de Angelina Jolie.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Decálogo de Xico Sá Para os Jovens Apedeutas do Amor

"Esses moços, pobres moços, Oh, se soubessem o que eu sei..."
E se soubessem, então, o que sabe o filósofo greco-cratense Xico Sá?
Abaixo, a tábua dos dez mandamentos do macho-jurubeba, ensinamentos recebidos por quem muito já subiu o frio monte Sinai da solidão.
1) A saudade é o genérico do Viagra;
2) O que as mulheres querem de nós? Uma mistura de lenhador e homem sensível ao mesmo tempo;
3) Homem que é homem troca de sexo, mas não troca de time;
4) Homem que é homem não sabe a diferença entre estria e celulite;
5) Da costela de Clint Eastwood, Deus fez o macho-jurubeba; da costela de David Beckham, Deus fez o metrossexual;
6) Só é possível filosofar em parachoquês : um homem sem chifres é um animal desprotegido (genial, Xico, genial!);
7) Receita para cavalheiros aflitos : quando a vida dói, drinque caubói;
8) O macho brasileiro hoje é um macunaEmo : preguiçoso e chorão;
9) Não há canalha maior e mais nocivo do que o homem fofo, digo, o falso fofo;
10) A conquista amorosa, caro Cortázar, é como uma luta de boxe : o bonito ganha por nocaute, o feio ganha por pontos.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Uma Fêmea Para Alvin

Estava eu em uma pet shop, a aguardar na fila para pagar pela areia sanitária de minhas gatas. À minha frente, a jogar conversa fora, a atrasar meu sábado, estavam Alvin, um cãozinho maltês, e sua dona; melhor dizendo, sua mãe, dado o exarcebo de mimos que dispensava ao seu filhotinho, dadas as incríveis semelhanças de semblante e de cabelo entre os dois.
Alvin confortavelmente instalado no colo de sua mãe e esta a dar recomendações ao dono da loja de como deveriam proceder no banho e na tosa de seu tchutchuquinho (sic).
- Não precisa passar perfume nem talquinho, que Alvin tem um pouco de alergia. Mas pode usar xampu, condicionador e reparador de pontas.
Reparador de pontas? Pããããããta que o pariu!!!
Reparador de pontas para cabelo de gente, eu já acho o cúmulo da futilidade, da falta do que fazer.
O cara, pacientemente, anotou as recomendações da zelosa genitora e disse que quem iria gostar era a fulana de tal, a pessoa que daria banho em Alvin, pois era também uma feliz possuidora de um maltês, uma fêmea.
A mãe de Alvin se animou de imediato, e já começou a querer marcar uma "ponta" para Alvin, a tentar ajeitar um encontro para seu filhinho, uma cruza. Alvin era cabaço!
Disse - e eu a esperar na fila com um saco de 4 kg de areia a me pesar nos braços - que tentara cruzar Alvin por duas vezes. Que ele, ao sentir o cheiro das fêmeas, ficara todo ouriçado, revolto, excitado e tudo mais, mas que as duas fêmeas foram muito agressivas e Alvin, inibido, não conseguira se sair a contento.
Pensei comigo : não é excitação o que Alvin sente ao farejar o cio das fêmeas, não, minha senhora, é nojo, é repulsa, o Alvin é viado, minha senhora.
Também pudera... O que esperar de um bicho cujo ancestral é o temível e majestático lobo e que, pela domesticação e cruzamentos direcionados pelo ser humano, foi reduzido à patética condição de um rato peludo? No mínimo, que tenha ojeriza à buceta! Ainda mais se lhe impingem um reparador de pontas.
- Eu queria tanto que o meu Alvin cruzasse... - desabafou a mãe, enquanto Alvin era levado aos fundos da loja para seu banho.
De novo, pensei comigo : se Alvin fosse um Rottweiler, ela própria já teria cruzado com ele.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

É a Jumentovia! É a Faixa Exclusiva de Burrestres!

Você os vê aos montes por aí, a infestar as ruas, as praças, o passeio público, o sábado. Aqueles débeis mentais, aqueles retardados que andam alheios ao mundo circundante, presos, hipnotizados pelas telas de seus telefones celulares, a viver numa limitadíssima e patética matrix.
Eles vão andando e tropeçando em qualquer coisa em seus caminhos que tenha altura maior que um chiclete pisado na calçada, trombando com postes, placas de trânsito, árvores, colidindo com outros transeuntes. E se você nunca viu um é porque também está a olhar o tempo todo para o seu celular, ou seja, também é um deles.
É o jumento digital. O jegue tecnológico.
Quando um burro é atrelado a uma carroça, para que ele unicamente faça o seu trabalho de besta de carga, sem se distrair com nada ao redor, colocam-lhe uma espécie de tapa-olhos nas laterais de sua visão, para forçá-lo a olhar apenas à frente, são os antolhos.
O telefone celular, smartphone ou qualquer outro nome que se dê a essas estrovengas são os antolhos dos jumentos modernos, dos asnos conectados. E a situação do jegue digital consegue ser pior que a do burro puxador de carroça, que, privado de sua visão lateral, ainda é capaz de enxergar frontalmente - nunca vi burro pisar em falso num buraco, tropeçar num meio-fio ou bater a cabeça num poste -, já o jumento high tech não tem visão nem lateral nem frontal.
Eu mesmo, quando detecto um idiotas destes vindo em minha direção sem me perceber, e se ele tiver compleição física igual ou inferior à minha, não saio totalmente do seu caminho cego, deixo o meu ombro enrijecido e firme para ele colidir. Já derrubei o celular de uns três ou quatro. Se o sujeito for muito maior que eu, desvio-me e deixo-o passar, que ele pode ser burro, mas eu não.
No supermercado, quando uma cavalgadura desta está a masturbar o seu celular e a atravancar a passagem pelo corredor de mercadorias, não tenho dúvidas, fingindo-me também de distraído, enfio o meu carrinho de compras no tornozelo do sujeito. E o pior é que isso nem abala o jegue high tech. Muitas vezes, ele nem olha para trás para ver o que o atingiu, só dá um passo pro lado e continua vidrado em seu celular.
O mundo pode desmoronar em torno do jumento digital. Pode passar uma tremenda duma gostosa ao lado do cara, esfregando os peitões em suas fuças, que ele nem se toca. Vejo isso constantemente. E olho a gostosa, claro.
O número desses zumbis que andam sem olhar ao redor é tanto maior quanto maior o que hoje se chama "desenvolvimento" tecnológico de um país. Se no Brasil já temos tropas e mais tropas deles, imagine, então, na China.
Tanto que na cidade chinesa de Chongqing, as calçadas de suas ruas da região central oferecem opções de percurso para os pedestres, que podem optar por andar em uma faixa normal ou em uma faixa exclusiva para quem está usando seu celular.
É a Jumentovia! É a faixa exclusiva de burrestres!
A jumentovia, segundo Nong Cheng, responsável pelo marketing da área central de Chongqing, baseia-se nos resultados de um experimento conduzido pela National Geographic, no começo desse ano, em Washington DC (EUA), em parceria com a Universidade de Washington.
De acordo com a Universidade de Washington, um em cada três americanos está ocupado com um smartphone ou outro tipo de dispositivo enquanto atravessa a rua em cruzamentos perigosos. Além disso, o departamento de transportes dos EUA recentemente estabeleceu uma conexão entre a quantidade de atropelamentos e mortes de pedestres e o uso de smartphones.
Ou seja, a jumentovia é feita para evitar atropelamento de animais silvestres, se bem que com o chinês isso não é grave problema, pois não estão ameaçados de extinção. Eu já acho que tinha que deixar atropelar e matar todos os jumentos digitais, de todos os lugares do planeta, seria uma espécie de seleção natural. Seria um enorme ganho para o pool gênico da espécie humana, para os poucos que restassem.
Por acaso, faixa preferencial para proteção do idoso, tem? Para cadeirantes, muletantes, bengalantes, claudicantes e deficientes físicos em geral, tem? Porra nenhuma que tem. Mas tem para dar conforto e segurança ao idiota digital.
E por que tanta proteção ao idiota? É simples. É idiota que sacia a fome da pantagruélica - e já com sinais de obesidade mórbida - economia mundial. O idiota é a bateria que fornece energia e sustento à Matrix.
Mas o próprio Nong Cheng, o "genial" idealizador da jumentovia, mostra-se decepcionado com os resultados da revolucionária inovação de urbanismo e engenharia de tráfego. Até agora, a jumentovia não tem feito muito sucesso entre os jegues digitais, não tem recebido grandes adesões por parte deles.
Adivinhem por quê? Óbvio : os jumentos digitais nem percebem que a jumentovia existe.
"Quem está usando smartphones não usou a faixa exclusiva na calçada. Eles nem notaram que ela existia!", disse Nong.
Pããããããta que o pariu!!!