segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Pequeno Conto Noturno (68)

Cláudia acorda. Um breve apagar de quanto? Dez, quinze minutos? Dois dias? Sabe que seria inútil forçar os olhos em captura do despertador sobre o criado-mudo de Rubens - ele nunca dá corda no mecanismo.
Dormira com a cabeça deitada na parte interna da coxa esquerda de Rubens, depois de se desencaixar e escorrer sobre ele. Abre os olhos e vê parte da coxa de Rubens, o joelho com uma cicatriz tão velha quanto grande e o pé esquerdo. Cláudia gosta da feiura do pé de Rubens. Dedos magros, descarnados e tortos, feito uma árvore de cerrado.
Espreguiça-se. Sabe que Rubens a olha. Escuta o barulho das pedras de gelo semifundidas batendo contra o vidro quando ele dá um gole na caneca de rum. Troca o rosto de lado na coxa de Rubens. Dá de cara com o pau dele. Em repouso. Ainda com a mescla dos cheiros, dos visgos e dos alívios cansados dos dois. As únicas coisas que têm um a oferecer ao outro.
Abocanha o pau em forte sucção. Quer limpá-lo. Recuperar um pouco da parte perdida ali de si. Roubar um pouco da de Rubens. Cláudia parece um daqueles cascudos, peixes com boca ventral dotada de uma poderosa ventosa, muito usados em aquário como limpadores de vidro e de pedras, nem tanto por sua ornamentalidade.
O pau ganha corpo dentro da boca de Cláudia, incha, bombeia, retesa-se.
Ela para e olha para ele. Observa atentamente o rosto de Rubens, como mulher que procura no rosto de seu homem por algum sinal de mentira. Vira o rosto dele ligeiramente. Para um lado, depois para o outro. Repete a operação algumas vezes. Presta especial atenção às orelhas dele, se não estão vermelhas, quentes, afogueadas.
- É isso o que eu mais preciso hoje - diz, finalmente, Cláudia - : um pau honesto.
Recoloca-o na boca, atola-o até a garganta. Treme, se encharca, toda aquela rigidez provocada por ela faz sua excitação subir uns tantos graus. Tira a boca do pau e olha pra Rubens.
- Um pau honesto - diz, de novo.
Sobe rastejando sobre Rubens e o monta sem aviso. Bruscamente. De uma sentada só. Cavalga-o. Dobra-se para frente. Debruça-se sobre ele, tapa a visão dele com os cabelos e põe o peito em sua boca. Rubens chupa. Mama com gosto. Um, enquanto amassa o outro com a mão; o outro, enquanto amassa o primeiro.
- O que foi - diz Cláudia -, não tá com fome hoje?
Rubens conhece os sinais de Cláudia.
- Sim - responde -, muita fome.
E suga forte, muito forte, o peito dela, morde o mamilo; torce, belisca feito um alicate o do peito fora de sua boca. Sente a buceta dela virar uma tenaz em torno de seu pau, uma prensa hidráulica.
Não seria certo dizer que Cláudia tem grande tolerância à dor. Ela possui é uma grande afinidade a ela.
Rubens suga e morde com força crescente. Sente o gosto peculiar que tanto lhe agrada. Toma dele. Guarda-o na boca, puxa o rosto de Cláudia para perto e o divide com ela - a língua dele, vetor portador de rubra peçonha. Ela sente o gosto do sangue na boca de Rubens. O seu sangue. Sangue ordenhado de seu peito. Crava as unhas no quadril de Rubens e o puxa para si - como se quisesse fagocitá-lo -, se arremete contra ele - como se quisesse esmagá-lo feito um rolo compressor -, quer empalar-se no pau dele. Cãibras se propagam pela musculatura da buceta, ondas sísmicas se irradiando do epicentro do pau de Rubens. Cláudia goza.
Deita-se sobre ele. Sem desmontá-lo. Mantém um leve remelexo com os quadris, como um carro em marcha lenta, pronto a arrancar de novo, a qualquer momento.
- Gosta de machucar sua menina, né?
- Gosto.
- Não vai gozar, não, seu puto? Não vai dar sua porra pra mim?
- Sabe que eu demoro. Gosto de. Ainda mais sendo a segunda. Mas você sabe o jeito, não sabe?
- Tá querendo comer meu cu, é?
- Quero acabar com ele, rasgar suas pregas.
Rubens sente a buceta dela voltar a se contrair, a se estreitar em seu pau, derramando nova carga de secreção morna sobre ele.
- Rasgar? - Cláudia pergunta a confirmar o que acabara de ouvir e morde forte a boca de Rubens, a vez dele sentir o gosto do próprio sangue.
- Sem dó. Sem perguntar se eu posso, ou se você quer.
Claúdia aperta-o ainda mais dentro dela. Corpo em pré-gozo.
- Também vai arrancar sangue do meu cuzinho?
- E bosta. Muita bosta.
Cláudia treme. Uma convulsão de 220 V. Ergue-se , apoia as mãos nos joelhos dele, joga o corpo para trás. Espasmo puro. Goza.
Sai de cima dele. Passa a mão na buceta, enfia dois dedos, recolhe toda a sopa, todo o melaço que lá está e passa no cu. Volta a pôr o pau de Rubens inteiro na boca e o mantém lá dentro. Rubens sente a boca de Cláudia se encher de saliva. Uma banheira sendo cheia de baba, muco e catarro. Um banho de imersão preparado especialmente para o seu pau. Ela tira a boca e o pau de Rubens parece um filhote de bicho recém-parido, cheio de grudes e de entranhas. Fica satisfeita com o resultado.
Cláudia dá as costas a Rubens e sobe sobre ele de novo. Encaixa a arruela do cu na cabeça do pau dele e desce de uma só vez. Grita. Seu cu parece querer decepar o pau de Rubens. Começa a subir e a descer vigorosa e violentamente, muitas vezes dobrando o pau de Rubens, que se lembra de fotos de fraturas penianas que vira em certa vez. Sobe e desce. A ferir-se mais e mais, talvez um autoflagelo. Uma dor maior traz o oblívio de uma menor. A dor como anestesia à própria dor. A dor fazendo-nos procurar mais dor. A dor tornada em Vicodin. A bunda de Cláudia torna-se em um frenético bate-estacas movido a dor.
Rubens surra a bunda dela com golpes espalmados, crava os dedos o mais que consegue, quer fazê-los perfurar a carne dela, abre as nádegas dela para ver melhor o arrombamento, puxa forte uma nádega pra cada lado, fala que quer separar uma da outra, rasgar o corpo dela à linha da coluna vertebral. Cláudia sente quando um novo, porém, familiar elemento - farto, grosso, gosmento - é jorrado e se junta a toda lama primordial dentro de seus intestinos. Rubens gozara.
Cláudia se desacopla do pau de Rubens, toma-o entre as mãos e olha para ele, verificar se Rubens cumprira com a promessa feita. Sim. Cumprira. Sangue e merda. Muito sangue e muita merda.
Cláudia vai para o chuveiro. Rubens limpa mais ou menos o pau numa das pontas do lençol - já o poria mesmo para lavar no dia seguinte -, torna a encher a caneca com o rum colocado ao criado-mudo e vai esperar por Cláudia no sofá da sala - por pura preguiça de abrir a geladeira, tomará o rum puro; whisky sem gelo, pensa Rubens, é dito caubói, e rum sem gelo? Bucaneiro, corsário. Rum corsário. Decide Rubens.
Cláudia não gosta de rum. Saída do banho, passa pela cozinha, pega um litrão de cerveja na geladeira, derrama metade numa caneca tomada ao armário - Rubens não tem copos em casa, só canecas - e leva o litro pra sala. Só de calcinhas, senta-se ao lado de Rubens, no sofá. Ergue sua caneca em direção a Rubens, a convite de um brinde. As canecas se tocam no clichê tim-tim.
- À nossa - diz Cláudia
- Ao cu me ofertado - devolve Rubens.
Riem. Emborcam.
- E que história é essa de "pau honesto"? Você chegou aqui esmurrando a porta, entrou meio que transtornada e me perguntando, seu pau é honesto, Rubens, seu pau é honesto, seu pau é honesto? Bom, pensei, meu pau nunca matou, roubou, nunca fugiu à luta, nunca cometeu perjúrio nem fingiu ereção, então, respondi que sim. Me come com ele, você exigiu. E eu comi. Mas que porra é essa?
- O Heron, aquele filho da puta - responde Cláudia.
- Que merda é Heron?
- Meu marido.
- Ah!
- Sabe o que o desgraçado me aprontou, sabe? A humilhação... Por isso, você mereceu o cu que comeu hoje, e o Heron mereceu o chifre, mereceu que eu tivesse te dado o cu que nunca dei pra ele. Ele cagou, Rubens.
- Um brinde à cagada do Heron, então!
Rubens enche as canecas dos dois com o resto do litrão.
- E que cagada foi essa que seu marido fez? Te trocou por duas de 25?
- Por duas de 19, seu puto.
Riem. Entornam a cerveja gelada.
- Foi pior. Muito pior. Descobri que ele tá tomando viagra pra poder me comer!
Rubens engasga, tenta segurar o riso pra não cuspir a cerveja pra longe - nenhuma risada vale desperdiçar um trago de cerveja -, mas a cerveja lhe escapa pelo nariz. Rubens se rende e gargalha.
- Tá rindo, né, filho da puta?
- E de onde tirou isso, que ele tá tomando viagra?
- Já tava desconfiada há algum tempo. Ele andava brochando regularmente e do dia pra noite o pau voltou a ficar duro feito ferro. Fui ler alguma coisa sobre e achei que o cara que toma viagra fica com as orelhas vermelhas, quentes, porque a desgraça aumenta a circulação, e as do Heron chegavam a brilhar no escuro.
- Agora entendi porque ficou olhando pra mim, virou meu rosto, olhou as minhas orelhas e deu o veredicto de que meu pau era honesto.
- Foi isso, sim. Hoje eu queria dar pra um pau que subisse por minha causa e não por causa de algum remédio. Será que as mulheres vão ter que começar a pedir exame antidoping, caralho?
- Doping ou não, vocês subiram ao pódio?
- Três vezes cada um, ontem.
- Então, qual o problema?
- Questão de autoestima, meu caro.
- Sei, sei, de empoderamento feminino, né?
- Vai se foder. Ai, comecei a vasculhar tudo em casa e achei os tais dos azuizinhos no fundo da gaveta de cuecas e de meias dele, dentro de um vidrinho.
- Grande erro - diz Rubens.
- Grande mesmo. E imperdoável. Ele me paga. Não perde por esperar.
- Grande erro seu, Cláudia.
- Tá de sacanagem, né? Tá querendo me foder, é?
- Já fodi. Não se mexe na gaveta de cuecas e meias de um homem. Sob nenhuma razão ou pretexto. O cara, quando casa, abre mão de tudo na vida, fica sem o seu espaço, a sua privacidade, o seu quarto, a sua cama, a sua geladeira, o controle remoto da TV, vê seu guarda-roupas ser invadido pelas roupas da mulher, vê o seu banheiro e sua escova de dentes tomados e soterrados por toda a sorte de potes e frascos de cremes, xampus, protetores, base, maquiagens etc, vê-se reduzido a mais um móvel da casa, um objeto de decoração, um animalzinho doméstico em sua própria casa. E qual seu último território? Seu último bunker? Sua última fortaleza inexpugnável? A gaveta de cuecas e meias, minha cara.
- Não tá falando sério, tá?
- Claro que tô. Independente do que ele escondia lá, você arrancou dele o último resquício de dignidade. E, além disso, como sabe que viagra, tem um monte de outros comprimidos azuis por aí.
- Eu o pus contra a parede e ele confessou.
- E depois?
- Saí e vim dar pra você.
- Tava esperando por uma desculpa há tempos, hein?
- Vá tomar no seu cu. E pega mais cerveja.
Rubens volta da cozinha com mais um litrão.
- Esse cara te ama, Cláudia.
- Vai se foder, Rubens. E enche a caneca aqui.
- Te ama, sim.
- Precisa de doping pra meter comigo e me ama?
- Te ama tanto que se arrisca ao doping, à humilhação de ser descoberto. E ao infarto. Deve ter lido também que o viagra pode infartar o coração do sujeito, não é? Ele tá se arriscando a um ataque cardíaco pra te comer. Desconheço maior testemunho de amor.
- O caralho, Rubens. Perdeu o tesão em mim e tá comendo outra. Ele não tá se arriscando é a ser capado, isso sim, o filho da puta, quando eu descobrir quem é a biscate.
- Se ele tivesse perdido o tesão em você e estivesse comendo outra, não precisaria do viagra. Era só pensar na outra quando estivesse na cama com você e pronto. Ele tá tomando o viagra justamente para não ter que procurar outra e testar e reafirmar sua virilidade, não quer procurar novos estímulos. Esse cara quer te comer pro resto da vida dele. Pode acreditar.
- Não acredito em amor de pau mole, Rubens.
- Coração é coração, Cláudia. Piroca é piroca.
Riem. Rubens abastece as canecas.
- Sabe que eu sempre gostei de ler, sabe do prazer que a leitura sempre me deu e dá até hoje, né? - pergunta Rubens.
- Sei. Tem mais livros que qualquer outra coisa nessa casa. Mais que móveis, que vasos, quadros, panelas, garfos e facas, roupas.
- No entanto, não consigo mais me entregar ao prazer da leitura sem o auxílio dos meus óculos. Continuo com tesão pelos livros, mas não consigo mais usufruir deles sem um aditivo para os meus olhos de musculatura cansada, presbiópicos. Tenho menos prazer com a leitura por que um impedimento orgânico me obriga a me valer de artificialismos para levá-la a cabo? Gosto menos dela? Tentei substitui-la por novos veículos, TVs de duzentas polegadas, telas panorâmicas 3D de cinemas? Claro que não. O Heron só tem um impedimento orgânico pro pau ficar duro, mas continua morrendo de vontade de te comer.
- Não é tão simples assim, Rubens.
- É triste. É decadente. Mas, sim, é simples assim.
- Tá querendo me fazer sentir culpada, é? Tá dizendo que eu devo perdoá-lo, dar uma segunda chance a ele?
- Perdoá-lo? Segunda chance? Não deu nem uma primeira dele se explicar.
Claúdia entorna o resto da cerveja. Rubens vai encher de novo e ela o detém com um gesto. Recolhe as roupas do chão, se veste, desamarrota o que é possível. Pensa em como esconderá o peito ferido a dentadas.
- Me chama um táxi, Rubens.
- Não prefere dormir aqui? São mais de duas da matina.
- Me chama um táxi, Rubens. Vou embora. Conversar com Heron, quem sabe me desculpar com ele.
- Bom, se ele tomou um viagra hoje, por volta, digamos, das 22 horas, você ainda o pegará de pau duro até umas seis, sete da manhã. Não precisa tanta pressa.
- Me chama um táxi, porra!
Rubens vai até a janela, abre-a, bota a cara pra fora e começa a gritar : - Táxi! Táxi! Táxi!
- Cadê o telefone?, que eu mesma chamo.
- Telefone?
- Ah! Tomar no cu, hein? Nem mesmo telefone fixo você tem mais?
- Têm uns três anos que não.
- Puta que pariu! Até a casa do Vinícius, aquela que era muito engraçada, que não tinha teto, não tinha nada, tinha mais coisas que a sua.
- É meu sonho de consumo, aquela casa.
- Pena que eu não seja, né?
Um contrair, um ricto no canto esquerdo da boca, que pode significar qualquer coisa, de ironia à simples aceitação das coisas como elas são, de como elas foram sendo colocadas, é a única resposta de Rubens.
- Vou chamar a merda de um uber, então - e Cláudia pega seu celular.
Nem dez minutos, um carro zarpa da frente do prédio de Rubens com Cláudia em seu banco traseiro. Que vai pensando : engraçado como essa coisa da idade traz mesmo mais maturidade às pessoas, até a Rubens. Ele, vai se lembrando ela, sempre foi alheio aos problemas e às reclamações da vida dos outros, uma indiferença só, nunca se envolveu com nada que não estivesse contido entre as paredes de seu apartamento. Hoje, cinco, seis anos depois, ele a surpreendeu sendo atencioso, interessando-se pelo problema conjugal dela, ouvindo-a sem pressa, deu até conselhos, foi até conciliador. Hoje, ele nem parecia o Rubens que ela conhecera.
- Puta que o pariu!!!! - grita Cláudia, fazendo com que o motorista a olhe intrigado pelo retrovisor.
A ficha, finalmente, tinha caído.
- Filho da puta - pensa Cláudia. E ri. Ele a enrolou de acordo.
Não parecia o Rubens, simplesmente, porque não era. O canalha não mudara coisa nenhuma. Toda aquela atenção, toda aquela lenga-lenga para me convencer a voltar pro Heron foi só um jeito mais fácil que ele encontrou pra me dispensar, pra me pôr na rua depois de ter me comido - conclui Cláudia. Sem despedidas, sem promessas de futuros encontros, sem escândalos, sem possíveis dramalhões. Rubens se aperfeiçou em dispensar suas mulheres, admite Cláudia.
Pensa em mandar o motorista dar meia-volta. Dizer poucas e boas a Rubens, armar um pampeiro no apartamento dele, só para constrangê-lo junto à vizinhança, mas deixa o uber seguir o curso original traçado pelo GPS. No fim, vê que está satisfeita demais para brigar.
Rubens, pela sua janela, observa o uber virar a esquina. Não pensou que Cláudia fosse cair tão fácil em seu ardil para pô-la à rua. A vida de casada destruiu os instintos dela. Aguarda mais alguns minutos à janela, só para garantir, veste uma roupa e sai para comprar mais cerveja, tomar sozinho até o sono chegar.
Depois de comer um cu - pensa Rubens com seus botões enquanto desce as escadas do prédio -, um pouco de solidão é tudo de que um homem precisa.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O Décimo-Primeiro Mandamento

Abram alas para o décimo-primeiro mandamento! Espremam os outros dez e arrumem um espaço para a primeira emenda na Constituição de Deus, desde Moisés.
E já não era sem tempo. Fazem-se urgentes novas leis, artigos, parágrafos e alíneas a atualizar o Decálogo, a Carta Magna de Deus; enfim, novas diretrizes a nortearem e a fortalecerem a fé e o espírito cristão contemporâneos.
Novos tempos. Novos costumes e morais. Hoje em dia, não há Cristo que aguente seguir à risca os dez inflexíves ditames do Todo-Poderoso, as dez cláusulas pétreas (literalmente) do regimento divino.
Além do quê, o Decálogo é muito Velho Testamento. Só tem deveres, proibições e castigos - é não isso, não aquilo, não aquiloutro, é mandar pragas, é mandar pai imolar filho -, nada de direitos e prazeres. É punição atrás de punição.
Que tal novas leis mais ao estilo Novo Testamento, mais a la Cristo, leis mais em acordo com a atual declaração dos direitos humanos? E que melhor novo mandamento que um que contemple o perdão, o carro-chefe da palavra de Cristo? Que melhor novo mandamento que um que pregue e incentive o difícil exercício do perdão?
Na falta de Cristo, que prometeu voltar, mas ainda não, um pastor de uma igreja batista da cidade de Edgewater (Flórida, EUA) saiu na frente e fez as vezes do filho dileto de Deus. Cunhou se próprio mandamento. Que merece, sem dúvida, honroso lugar ao lado dos outros dez.
"Forgiveness is swallowing when you want to spit"
Que, vertido para o bom português, fica : "Perdão é engolir quando vocêr quer cuspir".
Sensacional! Genial, esse pastor! Desconheço melhor alegoria para o perdão : engolir em resignação, por amor cristão, quando a vontade é cuspir em impropérios e blasfêmias.
Três opções me ocorrem para a redação final do texto do décimo-primeiro mandamento : a) Engolirás; b) Não cuspirás; ou c) Ajoelhou, tem que engolir.
Mas, como não podia deixar de ser, os patrulheiros ideológicos da internet, o esquadrão da morte da diversidade de opiniões, os ditadores da moral seletiva, chiaram e acabaram com a alegria do pastor.
Uma tal Catherine306098 postou a foto acima num troço chamado instagram e o templo caiu para o pastor. A inocente e bem-intencionada tentativa do pastor promover a paz entre os homens de bem foi tomada como uma mensagem de conotação sexual.
Frente às revolta e indignação de seus paroquianos, não restou outra alternativa ao pastor que não a retratação. Num comunicado à emissora WKMG, ressaltou que : "a ideia original era completamente inocente e com o objetivo de incentivar o perdão. Desculpamo-nos se alguém se sentiu ofendido".
O pecado está, mesmo, nos olhos de quem vê. O presbítero pregando o perdão e os crentes dos cus quentes só pensando em putaria e devassidão.
Pois é. Cada tempo tem o Moisés que bem merece. E, claro, também os seus fariseus.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Coisa de Branco (Ou : Esclarecendo a Poesia)

Só faço versos brancos!
 

Calma, calma,
Justiceiros sociais sedentos por seus 15 minutos de fama nas redes sociais.
Calma, calma,
Vítimas de plantão ávidas por indenizações.
Calma, calma,
Credores da dívida histórica obcecados por alheio e suado dinheiro.

Calma, calma
Apedrejadores e algozes de William Waack, 
Se babando de fúria e de falta de talento,
Rondando feito abutres covardes e hienas oportunistas
A carcaça do grande jornalista.
 

Versos brancos
São tão-somente
Versos sem rima.
Ficou claro, agora?
Preto no branco?

Aos Bêbados e aos Pecadores (Ou : a minha solidariedade a Zé Mayer, William Waack e Kevin Spacey)

O politicamente correto - a ditadura do pensamento, a patrulha ideológica da canalha da esquerda, os justiceiros sociais, sempre prontos e ávidos a tacar um processo em quem pense diferente deles e lavar suas honras ofendidas com uma graninha, com o vil metal, a tirar dinheiro de quem trabalha honestamente - tem atingido e ultrapassado as raias do absurdo e do surreal - que o digam Zé Mayer, William Waack e Kevin Spacey, esses injustiçados pelos justiceiros sociais, pelos desocupados que ficam o dia inteiro com um cabo de internet conectado aos respectivos cus.
Agora, no País de Gales - mais que um reduto tradicional de manguaceiros, um verdadeiro destino turístico mundial da bebedeira -, o politicamente correto faz novas vítimas, o bebuns, os pés de cana.
Na cidade de Cardiff, um convênio entre a polícia local e as lojas de bebida da rede SPAR está a causar estranheza na população etílica nativa, a produzir uma imagem, no mínimo, inusitada, surreal. O sujeito entra numa loja de bebidas e tem que passar pelo teste do bafômetro se quiser comprar goró, se quiser se embrigar. Se já estiver bêbado, nada feito. A venda da bebida lhe é negada. Bebum aqui não, meu amigo. E o sujeito é enxotado do estabelecimento. Ou seja, para o politicamente correto, até para beber, pra entornar o caneco, pra encher a cara, pra enfiar o pé na jaca, o sujeito tem que provar que está sóbrio.
A empresa justifica o procedimento, na voz de um de seus gerentes ao tabloide The Sun : "a fim de impedir que bêbados continuem bebendo, não podemos nos furtar à nossa responsabilidade social."
Responsabilidade social é o caralho! Responsabilidade social de uma loja de bebidas é bem servir ao seu público, é continuar a abastecer o bebum. Além do quê, um bêbado satisfeito causa muito menos problemas que um sóbrio amargurado. Impedir bêbados de continuarem a beber? O cara entra na loja, faz o teste do bafômetro e vem o veredicto : o senhor está bêbado, ponha-se daqui pra fora!
Calma, leitores do Marreta, que a moda ainda não pegou por aqui, mas, certamente, não tardará em. Mas pããããta que o pariu!!! Um bêbado não poder comprar bebidas? E quem as comprará? Um asceta? Um abstêmio? O pessoal do A.A? O Jotabê? 
Extrapolemos essa decisão abusiva, preconceituosa e discriminatória para outros setores.
O cara entra na farmácia e pede um antibiótico. O farmacêutico, olha-o, examina-o, e diz : volte quando estiver são, não vendemos remédios para doentes.
O cara entra num restaurante e pede um prato feito, aquele com arroz, feijão, torresmo e um zóião por cima. O garçon o olha e diz : volte quando já tiver comido, não servimos pessoas com fome nesse estabelecimento.
O cara estaciona no posto de combustíveis e pede ao frentista que encha o tanque do carro. O frentista olha para o cara e diz : volte quando o tanque estiver cheio, não abastecemos carros com tanque na reserva aqui.
O cara vai a uma igreja, entra no confessionário e diz : padre, me perdoe porque pequei. O padre olha o cara através da treliça e diz : meu filho, volte aqui quando estiver puro de ações e com a alma e a consciência em paz, não atendemos a pecadores.
O cara vai até à zona e pede uma menina pra subir pro quarto, a cafetina olha pra ele e diz : mostra o pau. Se o cara estiver de pau duro, fudeu, ou melhor, não fudeu, não fuderá. A cafetina o olha e diz : não atendemos a pervertidos aqui, volte quando o tesão tiver acabado.
Pãããããããta que o pariu!!!
Que merda!!!!
Tudo o que a humanidade levou milênios para erigir, às custas de muita guerra, sangue, conquistas, genocídios e, sobretudo, muita putaria e libidinagem, o viado do politicamente correto fará ruir em poucas décadas. Não é a barbárie que levará a humanidade à extinção. É o politicamente correto. É o fraco. O invejoso. O incapaz inconformado com o talento do outro. É a viadagem.
Uma salva de 21 tiros de canhão em honra aos bêbados, aos enfermos do corpo e da alma, aos famintos, aos tarados e, claro, a Zé Mayer, William Waack e Kevin Spacey. 

Aos pecadores, de forma geral.

William Waack, o jornalista mais importante do país, não é racista! Por Reinaldo Azevedo

Texto do jornalista Reinaldo Azevedo.
 
"Um desses cretinos ressentidos escreveu por aí: “Vamos ver se alguém tem a coragem de defender William Waack”. Eu tenho. E o faço, antes de mais nada, por uma obrigação moral.
William é meu amigo. E eu sei, como sabem todos os que o conhecem, pessoal e profissionalmente, que ele não é racista. Não vou me sujeitar a uma ordem de coisas em que eu me veja proibido de dizer a verdade sobre um amigo quando o vejo ser esmagado pela mentira, pela covardia, pela inveja, pelo oportunismo, pela deslealdade, pela fraqueza de caráter, pela vigarice, pela ignorância.
E, ora vejam, o mesmo vale para os homens públicos que não são meus amigos.
Pretendo, diga-se, agir assim também na minha vida profissional. Sei o que apanhei dos petistas quando o partido buscava se constituir como força hegemônica, em sentido gramsciano mesmo, e muitos dos que agora o fustigam estavam de joelhos, em postura reverencial. Sei o que me custa hoje, adicionalmente, enfrentar a direita xucra, que não aceita que eu escreva, com todas as letras e sem subterfúgio ou linguagem indireta ou figurada, que Sérgio Moro condenou Lula sem provas. E que vai fazê-lo de novo. Como o fará o Tribunal Regional Federal da Quarta Região.
Ah, como apanhei quando comecei a apontar os desmandos de Rodrigo Janot, tratado como herói por idiotas, canalhas e oportunistas. E a quantidade fabulosa de porradas quando, no dia seguinte ao vazamento da gravação que não trazia o que se anunciava, apontei uma tramoia para derrubar o presidente Temer? Os fatos me dão razão.
Não devo satisfações a ninguém. Sou dono da minha vida e das minhas opiniões. Sim, a independência custa caro! Como custa a lealdade a princípios. Os trânsfugas costumam se dar bem. Os acólitos involuntários de Stálin, que exibem a cabeça dos próprios amigos para tentar ganhar a simpatia daqueles que os detestam, também prosperam.
Sei lá se a história se encarregará deles. Se tento me colocar em seu lugar, sinto náuseas. É repulsa física mesmo. Ainda que eu tivesse talento para ser um deles, não teria estômago.
Não há doença moral pior do que a covardia. Não há prazer mais doentio do que a deslealdade. Sem modéstia, digo: só sei ter coragem. Só sei ser leal.
O PT fechou uma revista que eu tinha. A Lava Jato me roubou dois empregos. Eu não lamento nada. Eu constato. E saí inteiro. Não vou aqui apelar à literatice e dizer que fiquei mais forte porque poderia dar a entender que o sofrimento é libertador. Não acho que seja. Mas conheço também, sim, a delícia, não só a dor, de dizer “não” e de andar na contramão quando acho que devo. 
A acusação de “racismo”, que agora colhe Waack, já esbarrou em mim quando combati — e combato ainda — a política de cotas nas universidades. É claro que não sou racista. Como William não é. Não somos racistas. Nem covardes. Jornalistas são hoje, e cada vez mais, reféns de milicianos que atuam nas redes sociais. E os há para todos os credos, gostos e vieses ideológicos. Organizo a minha vida de modo a não depender da boa-vontade nem de estranhos nem de conhecidos.
O mais provável é que o tal vídeo tenha vazado de dentro da Globo. Há precisamente um ano, na madrugada de 8 de novembro (dia da eleição americana) para 9, William entrava ao vivo para anunciar a vitória de Donald Trump. Minha hipótese: alguém fez uma pesquisa no sistema interno. As imagens que chegam do sinal e ficam em arquivo antecedem a entrada no ar. Não se tem acesso apenas àquilo que chegou ao público, mas também aos momentos anteriores à transmissão. Como era aquela “a” entrada por excelência referente àquele fato, foi fatalmente vista. Não seria difícil estreitar o campo de possibilidades da safadeza e chegar ao responsável. Mas isso não é comigo. E duvido que William o quisesse. 
Mas saibam os que por lá permanecem: estão sob vigilância. Cuidado, o próximo pode ser você!
Parto do princípio de que William falou o que dizem que falou — embora a coisa seja inaudível. Ele próprio faz o mesmo e, por isso, pediu desculpas aos que se sentiram ofendidos. Está longe de ser o amigo mais bem humorado de seus amigos, mas, à diferença do que escrevem os parvos, não manifestava irritação naquela hora. Se disse ser aquilo “coisa de preto”, ia no gracejo um dado referencial: um “outsider”, de direita, com rompantes de extrema-direita, acabara de vencer a eleição no confronto com a candidata de Barack Obama. Negros e imigrantes constituíram as duas forças mais militantemente organizadas contra Trump.
“Ah, mas a piada foi infeliz…” É estupefaciente que isso esteja em debate. Quantos dos que me leem ou dos que atacam William nas redes resistiriam à exposição pública de falas privadas? Se disse aquilo, não o fez para que fosse ao ar. Não era matéria de interesse público. Tratava-se de uma conversa privada. Ainda que a fala revelasse um juízo pessoal depreciativo sobre Obama, os “pretos” ou sei lá quem, o que importa é o seu trabalho, é o que diz no ar, é a sua contribuição ao debate civilizado. 
Sabem como os amigos chamamos William? “Alemão”! Sim, “Alemão”. E vai nisso uma penca de brincadeiras cruzadas. Em primeiro lugar, Santo Deus!, ele não é exatamente um “branco”, não sei se perceberam. O homem é meio preto, meio árabe, meio misturado. O apelido remete ao fato de que estudou na Alemanha, mas também alude a seu temperamento, que todos consideramos um tanto, como direi?, germânico porque rigoroso, um pouco irascível às vezes, apegado a detalhes, mas que sempre fazem a diferença.
Escolham os três jornalistas mais brilhantes de sua geração. Ele está lá. Escolham os dez mais importantes do jornalismo brasileiro de todos os tempos. Estará entre eles. Não conheço ninguém no país que tenha sua cultura em matéria de relações internacionais e que domine bibliografia tão vasta na área. É do tipo que ainda se indigna. Já me ligou algumas vezes muito bravo por isso ou aquilo que escrevi — porque temos, sim, algumas divergências. E ele bate duro! Inteligente, brilhante, franco, leal e fraterno. Piloto, nunca conseguiu me arrastar para voar com ele. Duvido que exista um não-especialista que entenda tanto do assunto. Generoso, dá sempre a dica do livro que está lendo, diz por quê, pensa, faz pensar. Nesse caso, eu voo, hehe.
É um privilégio ser seu amigo. Privilegiada é a imprensa brasileira por tê-lo. Que outro, na nossa profissão, tem a sua experiência, o seu currículo, o seu rigor técnico, a sua cultura, a sua vivência de fatos que moldaram o mundo contemporâneo?
“Mas isso dá a ele, Reinaldo, o direito de ser racista?” A afirmação, forma de pergunta, é asquerosa. É um despropósito que um gracejo, por infeliz que seja, tenha de ser submetido a esse crivo, como se devesse a) ser levado a sério; b) em sendo, ser tomado como expressão do que pensa William, resumindo o seu trabalho.
Lúcia Boldrini, jornalista, consternada com a baixaria que colheu William, lembrou o que disse Martin Amis sobre o fundamentalismo religioso. Ele é especialmente nefasto porque não deixa o indivíduo só nem quando vai ao banheiro. Mesmo lá, há que se pensar nas regras. Hoje, há um fundamentalista em cada canto — de todos os gostos, de todos os credos. E, como ela resume, “no dia em que os esfoladores conseguirem acabar também com o nosso sarcasmo privado, só sobrarão eles, os esfoladores”.
A acusação de racismo que colhe William o ofende gravemente, mas também a seus amigos brancos, a seus amigos negros, a seus amigos árabes, a seus amigos judeus, a um grupo enorme de pessoas que sabem por que amá-lo, admirá-lo, respeitá-lo. Ainda que tivesse cometido um pecado, uma falha, uma transgressão — ele se desculpou sinceramente se assim foi interpretado —, o deslize, que não reconheço, não resumiria a sua vida. E explico por que não reconheço: eu me nego a submeter um gracejo expresso num ambiente privado a critérios com que se analisam questões públicas.
De resto, vejam a qualidade daqueles que o atacam. Estão pouco se importando com o que ele disse ou deixou de dizer. Vibram com o fato de estar afastado do “Jornal da Globo”; pedem, com uma sede de sangue que jamais se aplacará, a sua cabeça e secretam seu fel não contra aquilo que pode ter falado no episódio em questão: o que está sob escrutínio são suas opiniões políticas, é sua aversão à demagogia, é seu suposto — como é mesmo? — direitismo! Que piada! “Camaradas – Nos Arquivos de Moscou”, de sua autoria, concorre ao posto de o livro mais importante escrito sobre a esquerda brasileira. Com o rigor de um historiador, não com os faniquitos de um prosélito.
William Waack não é racista.
O que está em curso envergonha os decentes.
Vocês sabem que jamais escrevi aqui sobre essa amizade.
Nunca foi necessário.
Agora é.
E ele pode, como sempre pôde, contar comigo. Para o que der e vier. Menos voar naquelas coisas…"

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Salão de Confusões

Queria 
E pensava tanto em encontrá-la
(à deriva da sorte e das coincidências)
Que farejava os ecos da voz dela,
Ouvia sua sombra,
Via o rastro de seu perfume
Em cada esquina,
Cada ponto de ônibus,
Vitrine
Padaria
Viaduto
Caixa eletrônico
Livraria
Pitanga e jambolão maduros no pé.

Quando o Acaso
(esse rei do pique-esconde)
Por fim
Colocou-a à sua frente
(ele atravessava a rua, evitando um buraco no asfalto e uma moto que passara no sinal vermelho; ela estava sentada à mesa de uma confeitaria, tomando um espresso com quadradinhos de chocolate branco)
Ele não a reconheceu como objeto
(gostou de vê-la, é claro; mas não a via sempre?),
Tomou-a por mais um reflexo,
Por mais uma imagem
Em seu dédalo de espelhos distorcidos,
Em seu salão de confusões.

E prosseguiu o seu caminho.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Dias Ruins e Tristes

- Dia ruim, Riobaldo?
- Dia ruim, não :
  Diadorim.

- Por que triste, Isolda?
- Triste, não :
  Tristona.

domingo, 5 de novembro de 2017

Narciso de Papel

Não gosto mais de ver meus garranchos no papel.
Meu código Morse indecifrável,
O engodo de minhas tranças de Rapunzel
(vou quebrar meu telégrafo, passar máquina zero na cabeça e lançar-me, suicidar-me do alto de minha torre de marfim).

Não gosto mais de ver meu texto na tela.
Minha dor digitalizada,
Formatada em Arial
E fossilizada em bits e pixels :
Adormecida,
Já não me parece mais tão bela.

Escrever
(percebo isso agora)
É erguer altar, igreja e tribunal em causa própria.
Poesia
É Narciso polindo e mirando-se
No branco do papel,
Se babando por um origami feito à sua deformidade e semelhança.

Escrever
(desiludo-me agora)
É autoadoração e autoflagelo
É libertinagem e celibato
É cornucópia e jejum
É férias na casa da avó e campo de concentração.

Escrever
(horrorizo-me agora)
É homem de meia-idade
- de cabelos brancos de um amarelo crestado e encardido,
de vistas e de ânimos de bengala,
de barriga mole sempre pronta a dar o bote, à menor distração -
Em rídicula e solitária masturbação.

domingo, 29 de outubro de 2017

Vinte e Oito

Vinte e oito anos
Dedicado à escrita
(contava com vinte e dois de nascido, quando admitido nos quadros etéreos e oníricos da empresa, quando ganhei meu crachá de poeta),
Sem contar o tempo de bicos e biscates
De free lancer
De estagiário e aprendiz de feiticeiro
De quando das redações da escola,
De quando escrevia cartas as mancheias
E a dedos calejados
(Sê-lo ou não selos?).

Vinte e oito anos
De madrugadas insones
De andar gólgotas pelas ruas escuras
De açudes de cerveja e de rum drenados
De contêiners de aspirina
De lagos de vômito nos quais se refletiam as estrelas e a Lua
De ressacas
De pés enfiados na jaca
De eterno naufrágo de barcas furadas
E de todos os desossares do ofício
Para cumprir a meta
Para atingir minha cota
Para ser o funcionário do mês.

Vinte e oito anos
De inspirados serviços prestados
E lá veio a cartinha, o bilhetinho azul :
Comparecer ao departamento de pessoal.

Vinte e oito anos 
E lá estava ela,
Calíope.
Diferente de mim,
Taõ bela, jovem, viçosa e de peitos duros
Quanto no dia em que me contratou
De quando a conheci
De quando, aliás, o perpétuo Sandman a conheceu.
Cada poema, poesia, texto
Dados à luz em sua fordista forja
Não são postos a comércio
Não alimentam o comércio barato de canções de amor.
Substituem cada célula sanguínea dela
Cada célula de colágeno
Cada fibra muscular perdida.
Cada poema, uma transfusão
Um transplante
Uma injeção de botox
Um drink preparado e servido pelas mãos de Ponce de Léon,
Um retoque de tinta a óleo em seu retrato de Dorian Gray.

Vinte e oito anos
E Calíope me diz :
- Seus serviços não mais me interessam,
Acomodou-se, abandonou a rima
Não fez especialização à distância,
Não fez cursos de capacitação nem de reciclagem
Nem participou de oficinas de poesia.
Contenção de despesas, meu caro
Contratarei três ou quatros novos poetas em seu lugar,
Cheios de espinhas, virgens, cabações
Com MBA em gestão de saraus e tudo,
E pela metade do preço.

Vinte e oito anos
E a poesia se me secou
Se me abandonou
Ventou-se de mim
Assoprou-me para fora dela.

Vinte e oito anos
E nada de aviso prévio
De seguro desemprego
De FGTS e aposentadoria
De caneta de ouro.
Nem mesmo um boquete,
Ou um cuzinho por despedida.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Velhos Amigos

Uma saudade do caralho de vocês, velhos amigos...

São velhos amigos que se encontram
Apenas para celebrar o reencontro.
Malditos sejam os motivos que os separaram,
Malditos sejam os motivos que separam
As pessoas unidas pela solidão e pela noite eterna,
A única eternamente fiel e imutável,
Confortando sob seu manto negro
Os acometidos pelo frio e pelo fel da angústia.
A fumaça e o álcool
Ajudam a restaurar as afinidades perdidas
E a ignorar as diferenças adquiridas ao longo dos anos de separação.
Então,
Os risos sepultados em algum lugar da vida
Correm fácil e desatinados
E os delírios proliferam feito ratos na imundície.
Bem-aventurados sejam os delírios
Que, de tempos em tempos, unem velhos amigos
Que, há muito, já deixaram de sonhar.
Bem-aventurados os delírios
Que ainda impulsionam velhos amigos,
Uma vez que a esperança,
Sabidamente a última que morre,
Há muito já descansa em paz.
São velhos amigos que precisam de novo se despedir :
Sejam banquete pros vermes
Os responsáveis por essa separação.
Vão todos com sorrisos nos olhos
E lágrimas covardemente escondidas nos cantos das bocas.
São velhos amigos
Que, para se encontrarem,
(desconheço sina mais triste)
São obrigados a se separar.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O Cérebro é Foda

Tenho medo de tocar-te 
(mão à tua mão). 
Medo de teus olorentos poros 
Serem ventosas exatamente complementares aos meus. 
Tenho medo de abraçar-te 
(braço a braço, perna à perna). 
Medo dos teus painosos pêlos 
Se encantarem dos meus em persa tapeçaria. 
Tenho medo da tua óptica, 
Da tua mira olhos-laser vagalumeando em meu peito. 
Medo quando tão próxima respiras, 
Quando arfas e deslizas, escorrendo do leito. 
Mas medo mesmo tenho – medo de verdade – ,
Quando falas, 
Quando explicita tuas idéias, quando dizes do teu mundo, 
Num sem-fim de combinações e jogos de palavras 
Tais e quais aos que eu faria 
Caso tivesse coragem de interromper-te 
(nunca faço : sou apenas eu falando por uma boca mais bela). 
É do que tenho mais medo: 
Nossos pensamentos em unidirecional fluxo, 
Nossos rios de serotonina em caudalosa confluência. 
Dos poros, dos pêlos, do leito, 
O paladar, o olfato e o pau logo esquecem. 
O cérebro, não! 
O cérebro é foda!