sábado, 7 de abril de 2012

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Rodeio De Cotia (SP) : O Dia Do Touro

Conta-se a história de um turista, em viagem pela Espanha, que, sem conhecer a culinária local, deixou a cargo do garçon a escolha do prato que lhe serviria de almoço, desde que fosse um prato típico da região.
O garçon voltou e pôs um prato contendo duas estruturas esféricas à frente do turista, grelhadas, recendendo a alho, pimenta-do-reino, salsa e alcecrim, branco-acinzentadas, do tamanho próximo de duas maçãs grandes; em volta, o prato era enfeitado com umas folhinhas de rúcula e outros balangandãs, desses de restaraurante chique.
O turista provou, a textura lembrou-lhe moela, o gosto, talvez de algum peixe, mas não teve certeza, gostou, aprovou a iguaria.
Na hora de pagar a conta, agradeceu ao garçon pela sugestão e perguntou o que era. Ficou sabendo que eram testículos de touro, marinados. 
O garçon seguiu explicando que, ao fim de cada tourada, os touros mortos não eram simplesmente descartados, tudo se aproveitava deles, a carne era doada para creches e instituições de caridade, o couro era transformado nos mais diversos artefatos, os ossos viravam geleia de mocoto e farinha, e os testículos eram utilizados naquele prato típico que ele havia acabado de comer.
Passados alguns dias, o turista voltou ao mesmo restaurante e pediu o mesmo prato ao mesmo garçon. Recebeu o prato com os mesmos enfeites e guarnições; porém, dessa vez, os outrora testículos com o tamanho de maçãs estavam reduzidos às dimensões de pequenas azeitonas.
Chamou o garçon e, um tanto enraivecido, denunciou a fraude; com certeza, estavam a ludibriá-lo.
O garçon retomou a história das touradas e, constrito, esclareceu (já traduzido do espanhol por cortesia do Azarão) : "Senhor, acontece que não é sempre que o toureiro vence."
Foi o que aconteceu, semana passada, num rodeio em Cotia, município da grande São Paulo.
O peão fulano-de-tal, 27 anos, foi pisoteado pelo touro que montava, que maltratava, do qual apertava o saco, para o bicho pular e propiciar um espetáculo a uma plateia de dementes.
A vingança do touro aconteceu no sábado (31/03) e o peão veio a falecer ontem, na UTI do Hospital Geral de Cotia. 
Os médicos atestaram a morte cerebral do peão durante a madrugada. Morte cerebral? Então o porra desse peão já tava morto fazia tempo. Ele e todos os outros que torturam esses animais, não sem antes rezar para Nossa Senhora Aparecida, sua santa padroeira, de onde se vê que a santa, boa coisa também não é.
Eu acho é bom quando isso acontece. Tinha que acontecer muito mais. Deveriam morrer, pelo menos, uns dois ou três idiotas a cada um desses rodeios.
A tal Sociedade Protetora dos Animais tanto fez que conseguiu a proibição do uso de animais nos circos; no que fez muito bem. Por que não bate pesado também em cima dessas merdas de rodeio? No circo, apenas palhaços, malabaristas, engolidores de fogo e outros animais da espécie humana se expõem ao ridículo. 
Será que o poderio econômico dos rodeios anula as ações da Sociedade Protetora dos Animais junto aos políticos e juízes, comprando-os? Ou será que também compra pessoas ligadas à própria SPA, que fazem vistas grossas a esses eventos?
A hedionda farra do boi, em Santa Catarina, por exemplo, foi proibida. Era um ritual onde vários bois eram torturados - incendiados com gasolina, inclusive - até a morte, a farra acontecia nas proximidades da Semana Santa e diziam que era uma alusão à Paixão de Cristo. 
Que o Cristo tenha levado chicotadas até a morte, vá lá, ele bem que mereceu. Mas o que o boi tem a ver com isso? 
Não vejo muita diferença entre a farra do boi e os rodeios. Por que não criticá-los, como atos bárbaros que são, e também proibí-los? Por que, inclusive, promovê-los e divulgá-los como eventos salutares, parte da cultura popular?
São ambientes extremamente perniciosos, os rodeios. Há neles : maus tratos a animais, incitação ao alcoolismo e à prostituição, são focos de disseminação de doenças sexualmente transmíssiveis (alguns pequenos municípios que sediam esses eventos apresentam um índice de AIDS proporcional aos dos grandes centros) e promovem, ainda mais, a popularização do Michel Teló.
A polícia estuda a possível abertura de um inquérito para apuração dos fatos.
Apurar o quê? Vão acusar o touro de homicídio culposo ou doloso? Será que o touro matou por acidente ou premeditou a morte do idiota que o molestava?
Espero que o touro esteja passando bem, que não tenha saído machucado. 
Não duvido nada que os outros peões se reúnam em vingança e, em nome de Nossa Senhora Aparecida, sacrifiquem o touro justiceiro, acabem com a raça do El Vingador. 
Valeu, El Vingador. Hoje, em sua honra, bagos humanos serão servidos em todos os restaurantes bascos.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Que Fossa, Hein, Meu Chapa, Que Fossa...(6)

Apelo
(Vinícius de Moraes)
Ah, meu amor não vás embora
Vê a vida como chora, vê que triste esta canção
Não, eu te peço, não te ausentes
Pois a dor que agora sentes, só se esquece no perdão
Ah, minha amada me perdoa
Pois embora ainda te doa a tristeza que causei
Eu te suplico não destruas tantas coisas que são tuas
Por um mal que eu já paguei

Ah, minha amada, se soubesses
Da tristeza que há nas preces
Que a chorar te faço eu
Se tu soubesses num momento todo arrependimento
Como tudo entristeceu
Se tu soubesses como é triste
Perceber que tu partiste
Sem sequer dizer adeus

Ah, meu amor tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus

(falado por Vinícius de Moraes)

De repente do riso fez-se o pranto,
silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento,
Que dos olhos desfez a última chama,
E da paixão fez-se o pressentimento,
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente não mais que de repente,
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo, o distante,
Fez-se da vida uma aventura errante,
De repente não mais que de repente.

(novamente no ritmo da música)

Ah, meu amor tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus.

Ah, meu amor tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Eu Sou Um Monge Shaolin

Somos bichos, que fugimos da Mãe Natureza, que rejeitamos seu exigente e austero colo e refestelamo-nos nas tetas e no entreperna permissivos de nossas civilizações, de nossas artificialidades.
Como justa punição, perdemos tudo o que nossa espécie levou milhares de anos para aprimorar e incorporar ao patrimônio genético, perdemos - e a cada dia mais - nossas diretrizes básicas, nossos instintos de sobrevivência.
Um reles vira-lata sarnento é muito mais rápido, feroz, ágil e apto a lutar do que a grande maioria de nós; até a sarna do vira-lata é mais apta.
Sabendo disso (ainda que inconscientemente), alguns tentam um retorno à casa abandonada, voltam-se para a natureza, a contemplá-la, a observarem em reverência seus outros animais e seus elementos, o vento, a água, o fogo, na tentativa de resgatar o conhecimento perdido, os instintos fundamentais, a têmpera da espécie por excelência.
O exemplo mais bem acabado que conheço disso são os monges Shaolin. Eles desenvolveram o milenar e lendário estilo Shaolin de kung fu, todo fundamentado no movimento de diversos animais.
O kung fu Shaolin é muito mais que uma simples técnica marcial, muito mais que meramente reproduzir os movimentos do tigre, da garça, da serpente, da águia ou do louva-a-deus (só para citar algumas de suas modalidades) para pôr o inimigo a nocaute, ou a correr.
Os mesmos exercícios de combate que mantêm o lutador Shaolin vivo em uma situação de emergência, permitem-lhe, em tempos de paz, ser uma pessoa equilibrada, centrada, de corpo e mente saudáveis e em sincronia. O kung fu Shaolin é luta, e é terapêutica.
Adepto que sou da filosofia Shaolin (ao menos em teoria), coloquei-a em prática ontem, num dos ambientes mais hostis do convívio humano : os supermercados.
Alguns dos espécimes mais perigosos e desprezíveis da extensa e variada fauna humana estão nos supermercados, pálidos e tristes simulacros de nossos campos de caça e de coleta ancestrais.
Desses, um dos mais odiosos é o sujeito que não guarda a menor distância da pessoa à sua frente na fila - seja na fila do caixa, na do açougue, na do hortifruti etc -, é o idiota que não sabe manter aquele espaço minimamente cortês, salutar e, diria até, heterossexual de quem o antecede na espera.
A fila anda um passo, o idiota anda dois, e, invariavelmente, abalroa o tornozelo de quem está à sua frente com o carrinho de compras.
Quando isso me acontece, costumo relevar a primeira pancada, finjo que não senti; na segunda, uso minha técnica da cara feia - que nem é uma técnica, uma vez que não foi aprendida nem desenvolvida, nasci com ela -, viro-me para o sujeito e o miro com um misto de raiva contida, enfado e desdém.
Estava, ontem, na fila do balcão de frios (já de saco cheio de tantas "duzentas" gramas disso, "quatrocentas" daquilo ) quando senti a primeira cutucada no tornozelo, ignorei-a, como de costume. Mais uma andada da fila e veio a segunda.
Virei o rosto, já pronto a encarar a pessoa, de cima para baixo, do alto dos meus 1,82m de estatura. Dei de cara, contudo, com um pescoço, uma traqueia, um pomo-de-adão, a cara do indivíduo estava ainda a uns bons centímetros acima, era um gigante, usava uma camisa do São Paulo Futebol Clube, era um viadão dos bitelos, praticamente um alce. 
Recuei, a técnica da cara feia seria de uma inocuidade patética.
Logo - eu sabia - viria a terceira pancada, a quarta, e muitas outras subsequentes, a fila estava grande. Algo precisava ser feito - eu precisava fazer - para evitar a humilhação silenciosa.
Todas as técnicas Shaolin me passaram pela cabeça, o zoológico marcial completo. Nenhuma conhecida seria de alguma eficiência frente ao grandão, que visivelmente dominava a máxima técnica Shaolin, o estilo rinoceronte rex.
Respirei fundo, concentrei-me, interiorizei-me, alinhei meus chacras. Contraí levemente a musculatura do baixo abdômen, região dos intestinos, e, auxiliado pelo almoço farto em feijão com pimenta comari, soltei um discreto peido, uma bufa.
Daqueles peidos silenciosos, quentes e densos. Daqueles que vão subindo lentamente pelo ar e, a uma certa altura, expandem-se e descem sobre as azaradas cabeças ao seu redor, feito um cogumelo atômico.
O efeito foi imediato. Em poucos segundos, o grandalhão se afastou. Recuou não um passo, mas três, pisou no pé de quem estava atrás dele, e não mais se aproximou. Esperei minha vez em total segurança daí para frente.
Eu havia inaugurado uma nova modalidade do kung fu Shaolin, o estilo do gambá. Declaro-me, desde já, o fundador do estilo Shaolin do gambá, e também o seu Mestre Zen Supremo. 
Os que vierem depois de mim, os que me seguirem, os que fizerem do meu estilo a sua doutrina filosófica de vida, serão meros peidorreiros.
Saí do supermercado e caminhei tranquilo e vingado de volta à casa, sereno como um monge tibetano. Jamais havia me sentido tão integrado à natureza e ao Cosmos como então.
Impávido como Muhammad Ali, tranquilo e infalível como Bruce Lee.

Só O Homem Feio É Feliz - Xico Sá

Vejo aqui na capa do UOL uma solene pergunta: “É possível ser feliz mesmo se achando feio?”
Cuma assim?, tiro onda com a Gal, a cachorra da linda vizinha que me sorri latindo.
Ora, só é possível ser feliz –se é que a felicidade é coisa terrena- sendo feio.
Todo galã é triste.
Toda deusa é moralmente atordoada e maluca.
Só sei que esta indagação sobre estética e felicidade mexeu comigo. Sempre em defesa dos feios, sujos e malvados, saquei de novo o meu panfleto a favor da categoria.
Dez coisas que um homem feioso deve saber para tirar mais proveito da vida, essa ingrata:
I) Que a beleza é passageira e a feiúra é para sempre, como repetia o mal-diagramado Sérge Gainsbourg –o francês que só pegava mulher fraca, como a Brigitte Bardot e a Jane Birkin, entre outros colossos. Sim, aquele mesmo francês cabra-safado autor do maior hino de motel de todos os tempos, “Je t´aime moi non plus”, claro.
II) Que as mulheres, ao contrário da maioria dos homens, são demasiadamente generosas. E não me venha com aquela conversinha miolo-de-pote de que as crias das nossas costelas são interesseiras. Corta essa, meu rapaz. Se assim procedessem, os feios, sujos e lascados de pontes e viadutos não teriam as suas bondosas fêmeas nas ruas. Elas estão lá, bravas criaturas, perdendo em fidelidade apenas para os destemidos vira-latas.
III) Que o feio, o mal-assombro propriamente dito, saiba também e repita um velho mantra deste cronista de costumes: homem que é homem não sabe sequer a diferença entre estria e celulite.
IV) Que mulher linda até gay deseja e encara, quero ver é pegar indiscriminadamente toda e qualquer assombração e visagem que aparecer pela frente.
V) Que homem que é homem não trabalha com senso estético. Ponto. Que não sabe e nunca procurou saber sequer que existe tal aparato “avaliatório’’do glorioso sexo oposto.
VI) Que as ditas “feias” decoram o Kama Sutra logo no jardim da infância.
VII)  Que para cada mulher mal-diagramada que pegamos, Deus nos manda duas divas logo depois do enlace.
VIII)  Que mulher é metonímia, parte pelo todo, até na mais assombrosa das criaturas existe uma covinha, uma saboneteira, uma omoplata, um cotovelo, um detalhe que encanta deveras.
IX) Que me desculpem as muito lindas, mas um quê de feiúra é fundamental, empresta à fêmea uma humildade franciscana quase sempre traduzida em benfeitorias de primeira qualidade na alcova, como o melhor sexo oral do planeta, para não esticarmos demais a prosa.
X) Saiba, por derradeiro, irmão de feiúra, que a vida é boxe: um bonitão tenta ganhar uma mulher sempre por nocaute, a nossa luta é sempre por pontos, minando lentamente a resistência das donzelas.
Porque, meu bem, como diz o meu amigo Conde do Brega, ninguém é perfeito e a vida é assim.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A Ditadura Que Não Existiu

É um erro chamar de ditadura o período da história brasileira compreendido entre os anos de 1964 e 1985. Anos de chumbo, então, é piada, coisa de comunistazinho de diretório acadêmico da USP, de comunistazinho de merda que nem sabe o que é o comunismo, o socialismo, ou porcaria que o valha, de comunistazinho de boutique que deveria ir para Cuba, cortar cana e fazer faxina lavando o sangue do paredão de Fidel, ou ir passar umas férias num campo de trabalhos forçados na Sibéria.
Não houve ditadura no Brasil a partir de 1964, houve um período de governo militar. É muito diferente. Não houve um ditador no Brasil dessa época, houve sim uma sucessão de presidentes militares.
Ditadura e ditador há, por exemplo, repito, em Cuba, onde Fidel Castro se mantém há mais de 40 anos no poder.
Quem já viu uma ditadura em que o ditador é trocado a cada 5 anos ? Simplesmente não existe. Durante o regime militar, os presidentes eram trocados a cada 5 anos.
Quem já ouviu dizer de uma ditadura na qual fosse dado o direito de voto à população? De novo, não existe.
Sim, votava-se, no Brasil dos generais. Elegia-se de vereadores a senadores. Só não havia o voto direto para presidente, eleito, esse, através de um colegiado formado por representantes eleitos pelo povo.
Talvez a eleição indireta para presidente fosse o único fator que distinguisse o governo militar de uma democracia plena; no entanto, muito mais coisas o distanciava de uma autêntica ditadura.
Queiram ou não os intelectualóides da esquerda festiva, o governo militar estava mais próximo de uma democracia do que de uma ditadura, como a de Fidel Castro.
Se volto, insistentemente, ao exemplo de Fidel Castro e Cuba, é porque ele bem ilustra a burrice e a incoerência (ou será só hipocrisia mesmo?) da chamada esquerda brasileira : os mesmos vermelhoides que diziam lutar contra a opressão militar daqui e pela democracia, aplaudiam e reverenciavam a ditadura de lá, de Cuba, de Fidel. Aplaudem e reverenciam até hoje.
Ser contra uma ditadura e a favor de outra? Ditadura boa e ditadura ruim? Ditadura é ditadura, e ponto.
Acontece que para os esquerdinhas, ditadura ruim é quando os outros estão no poder, ditadura boa, quando eles estão.
A esquerda da época nunca lutou pela instalação da democracia. Isso é outro erro, outra distorção crassa de nossa história.
Os chamados grupos de resistência armada - dos quais são oriundos Dilma, José Dirceu, Fernando Gabeira, etc - não surgiram em resposta cívica ao regime militar. Na verdade, foi bem o oposto.
Esses grupos já existiam e se organizavam para tomar o poder pelas armas, pretendiam instalar por aqui a chamada "ditadura do proletariado", nos moldes da URSS, de Cuba e da China.
Em nenhum momento, nas cartas trocadas entre esses grupos de sequestradores e assaltantes de bancos, a palavra democracia é citada, e sim, sempre, a tomada do poder para a consolidação da ditadura do proletariado.
A ação militar é que veio em represália a esses baderneiros, em resposta à subversão. Dilma e seus camaradas não surgiram para se opor ao governo militar, o militarismo é que assumiu as rédeas do país para combatê-los, para impedir que transformassem o Brasil numa Cuba.
Ainda bem. Os tais comunismo e socialismo não funcionaram em lugar nenhum do mundo, e suas estruturas sempre permitiram  níveis de corrupção e impunidade muito maiores do que qualquer regime de direita. 
Não era apenas o voto indireto para presidente, havia também a censura política, tentariam ainda argumentar alguns vermelhos desbotados.
Perguntem aos jornalistas Boris Casoy e Joelmir Beting, entre outros, se não há censura política na democracia do PT.
E os mortos pelo regime militar?, insistiriam os "rosinhas" com suas foices e martelos nas mãos.
Querem mesmo contabilizar o número de mortes dos regimes de Stalin, Mao e Fidel e compará-lo ao do militarismo no Brasil?
Se não foi remédio dos mais tragáveis, o governo militar, com certeza, foi bem melhor do que a sovietização do país. Foi bem melhor que essa democracia de esquerda vigente. Vivi sob o regime militar até os meus 18 anos, e nunca conheci gente de bem que tivesse sido perseguida pelos militares, só os baderneiros, os bandidos; hoje, a situação é o inverso.
Com muitíssimo mais propriedade e com o conhecimento de causa de quem viveu o processo, o oficial Sérgio Sparta, coronel do exército brasileiro, escreveu um artigo deveras interessante para o jornal Zero Hora (RS), publicado ontem, 01/04/2012, aniversário de 48 anos da tomada do poder pelos militares.
Reproduzo o texto na postagem abaixo.

A Dita Dura Brasileira

No aniversário de 48 anos do golpe de 1964, que deu origem a uma ditadura que durou mais de 20 anos no país, o oficial Sergio Sparta escreve um artigo levantando questões sobre a necessidade da ação militar na época e sobre o que ele classifica como benefícios do regime implantado. 
A dita dura brasileira, por Sergio Sparta*
A esquerda é persistente em acusar o período de 1964 a 1985 de ditadura militar ou anos de chumbo. Será que foi? Que razões levaram os militares a assumir a direção da nação? São questionamentos que devem ser considerados, pois os fatos e principalmente os fatos políticos são reflexos do momento em que vivemos.
Era o período do marxismo-leninismo, a doutrina esquerdista “da moda” (que não deu certo em nenhum lugar do mundo), que não media consequências (promoveu o genocídio de mais de 100 milhões de pessoas, fora as prisões e trabalhos forçados) para conquistar e subordinar povos, à força, na intenção de internacionalizar a sua doutrina.
O Brasil, por suas características geográficas excepcionais, população considerável e fragilidade econômica e política, foi alvo da cobiça comunista/socialista. Aqui aportaram – na década de 1920 – e insuflaram pessoas a aderirem as suas ideias. Subvertendo a ordem ao desrespeitar os poderes constituídos e as autoridades e praticar o terrorismo (atentados, sequestros, roubos, assassinatos...) como ação inibidora, criavam as condições para a implantação da sua ideologia, que se resume na direção centralizada através de um partido único – o Partido Comunista – na restrição das liberdades individuais e no controle da economia, da imprensa e das mentes.
A situação em 64 tornou-se crítica. As Forças Armadas foram chamadas e, como sempre, não se omitiram. Assumiram o poder, sem confrontos ou mortes e respaldadas pelo poder civil, para impedir a assunção da nefasta esquerda e preservar, dentro das circunstâncias, a tranquilidade nacional.
O período dos presidentes militares foi um período de regime político forte, que procurou restabelecer com o mínimo de sacrifício as melhores condições para a conscientização da cidadania e a plena liberdade democrática, objetivos permanentemente antagonizados pela esquerda.
Ao mesmo tempo criou a infraestrutura necessária ao progresso, o qual alcançou com ordem – passamos de 46ª para oitava economia do mundo. Gerou condições de acesso a benefícios sociais, sem populismo. Rompeu acordos, fomentou e criou empresas de interesse nacional. Expandiu a soberania do mar territorial a 200 milhas. Implantou projetos como Itaipu, Tucuruí, Carajás, Transamazônica, Mobral, Embraer, Funrural, FGTS, INPS, PIS/Pasep, polos petroquímicos, Banco Central, BNH, Estatuto da Terra, Nuclebrás, Telebrás, Embratel, Metrôs, Ponte Rio-Niterói e promoveu a abertura política e a reconciliação.
E os “presidentes ditadores”? Ao término de seus mandatos, retiraram-se da vida política levando consigo apenas os bens que construí- ram ao longo da sua carreira profissional e a satisfação do dever cumprido. Verdadeiros cidadãos e estadistas.
Fonte : Zero Hora

sábado, 31 de março de 2012

A Lição Errada

Um amigo, sabendo dos meus "apreço" e "simpatia" pelas tais disciplinas ditas "de humanas", enviou-me, por e-mail, um editorial publicado na Folha de São Paulo, em 21 de dezembro de 2011.
O editorial diz respeito a uma decisão da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo em reduzir o número de aulas semanais de português e matemática - de 6 para 5 - e repassá-las a outras disciplinas.
Até aí, tudo bem. Seis aulas semanais de matemática e português, no ensino médio, podem muito bem ser reduzidas a cinco. A questão era decidir corretamente a que disciplinas esse saldo curricular seria repassado.
Foi decidido errado, desgraçadamente errado.
O mais óbvio e evidente é que Biologia, Química e Física fossem contempladas com uma aula adicional às duas vigentes. Que são disciplinas que tratam de temas concretos, reais, demonstráveis, práticos e aplicáveis.
No entanto, com vistas a sempre piorar a qualidade do ensino, essas aulas foram repassadas às tais sociologia e filosofia. Puras elocubrações, puros delírios de pederastas, masturbações de defunto.
Muito mais parecidas com religiões do que com as verdadeiras ciências, essas disciplinas nada têm a acrescentar para o aluno que queira, por exemplo, prestar um vestibular decente.
Uma vez que nada pode ser provado ou demonstrado nelas, seus professos as têm como verdadeiros dogmas. São lecionadas por professores que se assemelham a sacerdotes fanáticos, é muito mais um catecismo do que uma aula. 
Os "donos da verdade" saem a fazer citações e mais citações, feito padres a rezar ladainhas em latim, sem entender porra nenhuma do que dizem. E nem poderiam : à perfeita semelhança das religiões, não há nada a se entender. Não há nada.
E é, basicamente, disso que o editoral trata, da lição errada.

Lição errada
A mudança que o governo de São Paulo decidiu realizar na grade curricular do ensino médio priva os estudantes de aulas de reforço voltadas para o vestibular e sacrifica disciplinas essenciais -como história e geografia, no período diurno, e português e matemática, no noturno.
A compensação será o aumento da carga horária de matérias como arte, filosofia e sociologia. São, certamente, áreas relevantes do conhecimento, mas não correspondem às carências educacionais dos alunos de nível médio no país.
Não faz sentido que sejam acrescentadas ao currículo em prejuízo de matérias fundamentais. Ademais, não é desprezível o risco de que filosofia e sociologia tornem-se meros pretextos para proselitismo ideológico de professores.
A medida pode ampliar o fosso entre os alunos da rede estadual e os das escolas particulares. Basta lembrar que a melhor escola pública da capital paulista, excluídas as técnicas, ocupa a 210ª posição entre 886, segundo o Enem.
O problema do currículo não é a a escassez de temas, mas o oposto. Os estudantes são obrigados a percorrer uma gama variada e, em alguns casos, enfadonha e inútil de assuntos -o que só contribui para prejudicar o aprendizado.
O governo de São Paulo, que tem alardeado seu interesse em privilegiar a educação, deveria concentrar os esforços em disciplinas estruturantes, como português e matemática, e deixar de lado experimentalismos duvidosos. 

sexta-feira, 30 de março de 2012

A Banalidade Do Raro

O Universo mapeado pelos astrônomos - que é infinitamente diferente de ser conhecido - tem aproximadamente 100 bilhões de galáxias, contando, cada uma, com uns 100 bilhões de estrelas, que podem ser orbitadas, cada um desses sóis, por uns tantos planetas.
Fazendo um cálculo modesto - e sujeito a erros literalmente astronômicos -, o número de planetas do Universo deve ser da ordem de dez elevado à vigésima potência.
É planeta pra caralho ! Não obstante, cada planeta per si é de uma raridade incalculável, único e irrepitível em suas peculiaridades, tamanho, massa, composição química, atmosfera, condições climáticas, durações do dia e do ano, formas de vida etc etc.
Cada planeta é uma verdadeira improbabilidade estatística, mas eles ocorrem, aos trilhões, trilhões e trilhões. O raro é o que há de mais corriqueiro no Universo.
A trivialidade do raro não para por aí, no macro. Em verdade, mais se intensifica no micro.
Um ser humano é evento ainda mais raro dentro do Universo de sua espécie, e com o potencial de gerar singularidades ainda mais improváveis.
Cada um de nós coloca metade dos seus 23 pares de cromossomos nos gametas - óvulos e espermatozoides; e podemos fazer isso de duas elevada à vigésima terceira potência (2*23, assim representado daqui em diante) maneiras diferentes.
Sim, uma única pessoa é capaz de produzir 2*23 tipos de gametas. Imensa cifra não bastasse, a fecundação é o encontro aleatório, ao acaso, de um espermatozoide e um óvulo. Considerando um único casal, o número de combinações possíveis em uma fecundação é dado por 2*23 (do espermatozoide) multiplicado por 2*23 (do óvulo).
Um único casal tem a possibilidade de gerar 2*46 tipos de zigotos - a primeira célula de todo ser vivo. É um número muito, muito, muito, muito maior do que todas as estrelas e planetas somados.
Trocando em miúdos, a chance de você ter sido você foi de uma em 2*46. E você, por sorte ou por azar, aconteceu.
Há, atualmente, 7 bilhões de eventos probabilisticamente improváveis empestando o planeta; isso levando em conta apenas a espécie humana.
Ser raro é regra no Universo, e não exceção como pensam alguns pernósticos afetados. Não há maior lugar-comum do que ser raro.
Ser raro não tem nada de mais, não serve para nada. Apenas para ocupar espaço, apenas para preencher o vazio. Do Universo e da vida.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Quando Morrerão Os Canalhas ?

Semana passada, Chico Anysio. Hoje, morreu Millôr Fernandes, 88 anos.
Millôr foi um intelectual no sentido mais castiço da palavra, desses que restam pouquíssimos por aí, desses que não mais surgirão.
Estamos ficando sem gênios. No Brasil, gênios não são um recurso renovável. Gênio não é uma atividade sustentável por essas bandas.
Millôr foi jornalista, dramaturgo, desenhista, escritor e humorista. E dos bons, em todas as áreas. Mas ele não foi "apenas" um grande jornalista, um excelente dramaturgo, um exímio escritor etc etc. Millôr foi (continuará sendo) o ídolo e referência dos grandes jornalistas, dos excelentes dramaturgos, dos exímios escritores etc etc.
Millôr é cult entre os cults. Millôr é o deus reverenciado por deuses; só para citar dois, Ziraldo e Luis Fernando Veríssimo.
Também foi um frasista inigualável, são dele : Chama-se de herói o cara que não teve tempo de fugir; Anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que, nas mulheres, fica muito melhor; O homem é o único animal que ri. E é rindo que ele mostra o animal que é; Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem; Quem confunde liberdade de pensamento com liberdade é porque nunca pensou em nada.
E aí, na Folha de São Paulo, imediatamente abaixo da manchete sobre a morte de Millôr, uma outra manchete, essa a informar que o tumor da laringe do ex-presidente Lula desapareceu por completo.
Que merda é essa? Quando começaremos a ler sobre as mortes do Lula, da Dilma, do José Dirceu, do Palloci, do Alckmin, do José Serra, do Maluf, do Sarney, do Edir Macedo, do Papa, do Barack Obama ? A lista é imensa.
Quando é que os canalhas começarão a morrer?

segunda-feira, 26 de março de 2012

A Escolinha

O mestre está atrasado. E sem mestre não há aula. Que tal descalabro se dê nos dias atuais, não torna o fato correto, apenas comum, tristemente comum.
Mas não aqui. O Inferno é tradicionalista. Não há nada mais conservador que o Inferno. Alguém, afinal, tem que manter a ordem.
O mestre está atrasado. Alguns alunos esperam por ele há anos, outros, há décadas. Pouco importa, o tempo transcorre diferente no Inferno, uma vez que tudo é diversão.
O mestre chega. Saudações irrompem pela sala, é mestre pra cá, é mestre pra lá, é mestre, como vai?, é mestre, há quanto tempo.
Não é apenas pelo devido respeito hierárquico que o chamam de mestre, é porque, de fato, é o que ele é, um mestre. Feito todos os que se dedicavam ao magistério em sua época, época em que não havia espaço para o amadorismo, para o farsante com o giz e o apagador nas mãos.
O Inferno ainda é essa época. Não há lugar para impostores no Inferno. Só os bons vão para lá.
O mestre se senta atrás da velha mesa de madeira entalhada à mão, o mesmo semblante carrancudo, o mesmo guarda-pó, a mesma voz rouca e segura.
- Seo Joselino Barbacena - começa o mestre
- "Ai, meu Jesus Cristinho! Já me descobriu aqui... Será impossíverrrr? Larga d'eu, sô! Larga d'eu, fedido"
- Zero.
- Seo Sandoval Quaresma, agora é pra tirar um dez
- Agora é que eu me estrepo, eu tava indo tão bem.
- Seo Eustáquio
- "Aqüi! Qüi qüeres?"
- É zero
- Faiô?
- Seo Baltazar da Rocha
- Sabo-lho.
- Seo Gaudêncio
- É o macho aqui, tchê, só não sou mais grosso por falta de espaço.
- Seo Galeão Cumbica
- Atenção, passageiros com destino a Maranguape, portadores da ficha cor de Raimundo, dirijam-se ao portão M e se piqueeem...
- Zero
- "Aí eu choro: au-auuu...!"
- Seo Mazarito
- Isso eu não sei... mas tem aquela da bichinha...
- Zero
- Nooooofa! Ziraaaldo!
Enquanto isso, deus está lá, do outro lado, ouvindo Gandhi discursar, depois Madre Teresa, depois João Paulo II, depois o Sting, depois o Bono Vox, depois o pessoal do Greenpeace.
Morrendo de inveja do capeta, mas regras são regras, só os parvos e os idiotas vão para o céu, ele as fez, nem ele pode mudá-las.
Por sorte, pensa deus, domingo é o dia do Senhor, sempre se pode ver a reprise na tv a cabo.
O mestre segue a sabatina, incansável, resignado.
- Seo Bertoldo Brecha
- Venha !
- Seo Bertoldo, a que classe zoológica pertence o camarão ?
- Da mãe. Camarão é a mãe ! E zéfini, zéfini.
- Seo Samuel Blaustein, vou lhe dar outro zero.
- Melhor zero na nota do que prejuízo na bolso, Raimunda.
- Dona Bela, a senhora já se sentou numa bela piroga ?
- Indecente, perguntar uma coisa dessa a uma moça invicta como eu, vá perguntar pras suas irmãs. Só pensa naquilo...
 - Seo Pedro Pedreira,
- "Há controvérsias! Não me venha com churumelas!"
- Seo Rolando Lero
- Amado mestre, banhe o breu da minha ignorância com suas palavras de ...
- É zero, seu corno gasoso.
A aula prossegue. Entre asneiras e reprimendas, entre traquinagens e sermões. Todos estão felizes com a chegada do professor.
E o capeta está lá, no fundão da sala, rindo às pampas, esperando sua vez de ser arguido e também receber seu zero. Comportadíssimo, o capeta, ouvindo, observando : aprendendo com o mestre.
 "Não tenho medo de morrer. Tenho pena."

Acho que é isso mesmo, morrer, às vezes, dá pena. Algumas mortes dão pena. Feito a de Chico.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Louva-a-Teus

Tira de Adão Iturrusgarai

Túnel Do Tempo

Não é hora, agora, amigo 
De tramarmos nova vitórias 
Nem vislumbrarmos retumbantes conquistas. 
Fiquemos com o conforto de nossa gasta memória, 
Com nossas velhas capas de revistas. 
Agora é hora de afundarmos no sofá 
E assistirmos aos eternos reprises 
(não é de reprises, feita a vida?) 
Dos seriados americanos em preto e branco, 
Da época onde tudo parecia sob controle, 
Da época onde ainda não tínhamos controle remoto. 
E vamos ouvir o que se ouvia nos anos 80, 
Onde nosso mundo 
(e pra fogueira com Galileu) 
Era um disco plano, achatado 
E que girava em 33 rotações. 
E nada havia além de suas bordas: 
Tudo o que havia pra ser dito, já foi dito em vinil. 
Sairemos na madrugada, 
Não num carro importado, 
Pelo qual nunca lutamos, tampouco ambicionamos, 
Mas sim no tapete voador de nossos anos idos. 
Visitando outros amigos que não moram mais aqui. 
Batendo à porta de suas lembranças que nem mais existem, 
Jogando garrafas vazias de rum em seus jardins e telhados, 
Interrompendo seus sonos 
E lhes deixando com a vaga, inexplicável e insistente 
Sensação de deja vu

Não é hora, agora, amigo 
De novas fugas 
Nem de querermos curar nossa miopia. 
Fiquemos com nossas janelas sem grades, 
Com nossa oxidada e falsa prataria furtada de botequins. 
Agora é hora de ocuparmos nossos lugares 
Em nossa távola manca 
(Há anos planejamos lhe pôr um calço) 
Onde continuaremos a manchar os dentes 
Com nosso café sem sentido 
E, sob a luz de argônio com defeito, 
A engolir nosso pão recheado com penicilina. 

Não é hora, agora, amigo 
De desejarmos novas carnes 
Nem de promovermos novas carnificinas. 
Vamos boiar à deriva do tempo, 
Acenando de longe para os que conseguiram se fixar em suas margens 
E vamos enviar cartas sem selos 
Para logradouros e épocas que nunca nos conheceram. 
Não é mais a hora da vida, amigo. 
É a hora de sermos ludibriados, minados, 
Traídos e vitimados por nosso próprio sangue.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Que Fossa, Hein, Meu Chapa, Que Fossa...(5)

Asa Partida
(Fagner/Abel Silva)

Essa saudade
O cigarro, a luz acesa
E a noite posta sobre a mesa
Em cada canto da casa
Asa partida e dor
Gemido morto, amor
Tão longe vai, 
Tão longe vou,
Nuvem sem rumo é assim mesmo.

Eu não queria
A vida desse jeito
Meu olho armando o bote sem futuro
Fumaça...
E continua
O teu sorriso no meu peito
Essa saudade, 
O cigarro, a luz acesa
E esta noite posta sobre a mesa...
Em cada canto da casa
Asa partida e dor
Gemido morto, amor

Os Eunucos De Cristo. Ou : Muito Além Da Metáfora

Quem acha que a igreja católica é castradora, da missa não sabe um terço.
As religiões - e digo mais da católica porque nasci num país imerso em suas podridão e hipocrisia - servem mesmo a esse fim, castrar, tolher, controlar o povão, domesticá-lo, mesmo.
Com sua doutrina baseada no pecado, na culpa e na submissão, o catolicismo não só cerceia, ele também coíbe e põe sob pena de pesadas sanções toda e qualquer manifestação de cunho puramente humanista, seja ela da mente ou do corpo.
O pensamento é pecaminoso, o desejo é pecaminoso, rejeitar dogmas e contemplar o mundo à luz da experiência e da lógica é crime, punheta é crime; se esse último realmente o fosse, um décimo círculo teria que ser adicionado aos nove infernais de Dante, só para os tocadores de bronha.
O catolicismo mantém o rebanho de ovelhas sempre contente (conformado) e em mansidão; na mais absoluta merda, mas pleno de felicidade. E o pior é que isso é dito claramente aos fiéis, que eles são um rebanho, e eles acham maravilhoso, uma virtude, orgulham-se.
Não é à toa que as religiões são muito benquistas pelos Estados-Nações, que delas não se desvinculam, e nem as contrariam seriamente, mesmo os que se declaram laicos.
Rebanhos castrados em pensamentos e atos são muito mais adequados aos governantes.
Não satisfeitos, alguns padres holandeses, ou que faltaram às suas aulas ginasiais sobre figuras de linguagem, ou que, simplesmente, são muito dos fihos das putas, extrapolaram o sentido figurado da castração católica, foram muito além da metáfora.
A igreja católica da Holanda está sendo acusada da castração de, pelo menos, dez meninos. Castração literal. Cirúrgica.
Os meninos capados pela santa igreja eram alunos de um internato católico e haviam, anteriormente à sua castração, sofrido abusos sexuais por parte dos padres. Alguns denunciaram a putaria, e veio, então, a represália da igreja.
Sob o pretexto de "curar" os meninos de sua homossexualidade, a igreja os emasculou. Tornou-os em eunucos de Cristo.
Quem faz a denúncia é o jornal holandês NRC Handelsblad.
Segundo a reportagem, um rapaz foi castrado em 1956, após contar à polícia que estava sofrendo abusos. Henk Hethuis, que era aluno de um internato católico, tinha 18 anos quando contou à polícia que um monge holandês estava abusando dele, ele foi então castrado por ordem de padres católicos e informado de que isso o "curaria" de sua homossexualidade.
O mesmo, segue o jornal, teria acontecido a dez outros meninos, colegas de Henk.
Na visão canalha da igreja católica, os "doentes" eram os meninos que sofreram os abusos, e não os padres que os cometeram.
Transferir a culpa para a vítima é procedimento comum da igreja católica em casos de abuso sexual e pedofilia.
Um caso exemplar disso, abrindo aqui um parênteses, foi o da menina de 9 anos, da cidade de Olinda, em 2009. Grávida do padrasto - que abusava dela e de sua irmã mais velha, de 14 anos - e correndo risco de morte, foi submetida a uma cirurgia para interromper a gestação.
A menina, a sua mãe e todos os médicos e enfermeiros envolvidos no procedimento foram excomungados pelo arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho. O padrasto estuprador, não.
O arcebispo argumentou que tanto o estupro como o aborto são crimes previstos na lei da igreja, mas, desses, apenas ao aborto cabe a penalidade da excomunhão.
Grande bosta ser excomungado, para mim. Contudo, para quem crê nessa merda toda, é a penalidade máxima, a vergonha absoluta, da qual o padrasto saiu ileso. Fica parecendo que a culpada pelo estupro foi a menina, que exerceu tentação irressístivel sobre o canalha do padrasto.
O repentista e poeta Miguelzinho de Princesa fez um belo cordel sobre o caso, a Excomunhão da Vítima.
Certamente, a igreja católica holandesa se valeu do mesmo raciocínio. A culpa não foi imputada aos padres filhos das putas, e sim aos jovenzinhos cujos corpos impúberes foram provação em demasia para os espíritos puros dos sacerdotes.
A culpa é do Satanás. O capetão em pessoa se apossa dos pequenos efebos para tentar os padres, para desviá-los de seu caminho de luz e em Cristo. E o demônio concentra seus poderes, sobretudo, nas piroquinhas da molecada.
Um padre não pode se deparar com uma piroca pueril possuída pelo tinhoso, imediata e inexoravelmente é atraído a se sentar nela. E não adianta fazer o pelo-sinal, rezar pai-nosso, ave-maria e salve rainha, nem tomar banho gelado, nem se açoitar com o látego. Os poderes da piroca satânica são inelutáveis.
Cortem-lhes as cabeças (as das pirocas, no caso), decreta a igreja. Privem o capeta de suas armas. Tudo em nome de Jesus.
E, engraçado, Jesus nem se importou.
A igreja católica holandesa promete apurar a denúncia e cooperar com as investigações, mas sabemos bem onde tudo isso vai dar. Em nada.
Houvesse uma nesga de dignidade e decência em suas fundações, a igreja não teria mandado castrar os meninos, e sim que tivessem costurado os cus dessa padraiada pederasta.
Fonte : BBC Brasil

terça-feira, 20 de março de 2012

Alain De Botton, Um Falso Ateu

Sou ateu. E ponto.
Não sou partidário, porém, do ateísmo, tampouco o defendo ou o promovo. Sou capaz até de, em certas circunstâncias, combatê-lo.
Que se crie uma doutrina em torno de uma crença, por mais ilógica que ela seja, e todas elas o são, tem, paradoxalmente, uma certa lógica.
Pode-se criar todo um sistema de pensamento para corroborar uma crença, ainda que tudo seja baseado em falsas premissas e estapafúrdias conclusões, mas se pode. E quanto mais sem pé nem cabeça for a doutrina, melhor ela "comprova" a existência de deus, já que a própria ideia de um deus bondoso e justo é a coisa mais sem pé nem cabeça que há.
Agora, criar uma doutrina - o ateísmo, no caso - em torno de uma inexistência, de uma ausência, de um nada, não faz o menor sentido. Chega a ser uma burrice maior do que a exibida pelos crentes.
Atualmente, há uma tendência entre certos ateus - os falsos ateus, que isso fique bem claro - de se unirem em torno de sua descrença. Encontros, reuniões, simpósios e congressos sobre ateísmo estão em voga.
Esses ateus moderados, que é como se autodenominam, querem ser amiguinhos dos crentes, querem contemporizar a celeuma, melhorar sua imagem junto à sociedade cristã.
Ateu moderado é o caralho! Ou o sujeito é ateu ou não é. Não tem meio-termo. O que seria essa porra de ateu moderado? O cara que acredita mais ou menos em deus? Ou que não acredita, mas não descarta a possível existência dele?
Não existe uma gradação para o ateu, uma escala que meça o ateísmo. O ateu é absoluto. Ou é um impostor.
Acima de tudo, o ateu, além de inteligente, tem que ser macho, tem que ter o saco roxo para assumir sua condição de descrente, tem que cagar e andar pra crentaiada, não pode estar nem aí com a imagem que se faça dele. No âmbito da fé e da descrença, não há lugar para a tucanaiada em cima do muro.
Não há ateu politicamente correto. Não pode haver. Ateu é radical. Ou é uma fraude.
O tal moderado é o cara que quer se fazer passar por ateu. Para criar uma aura de inteligência em torno de si, para se dar ares de intelectual, de livre pensador. Mas, na verdade, é um grande dum cuzão.
É o caso de Alain de Botton, filósofo suíço, que se declara um ateu moderado.
Autor do livro - vejam só o embuste - Religião Para Ateus, esse picareta diz que os ateus precisam aproveitar o que a religião tem de bom, como o estímulo à solidariedade e à aproximação entre as pessoas.
Ateu não quer se aproximar de ninguém, não quer se solidarizar com o mundo, nem salvá-lo pelo amor fraterno, ateu não faz festinha, ateu não quer fazer mais amigos do que os poucos que já tem, ateu não quer ter carteirinha do clube do Mickey.
Com vistas a seu objetivo, ele pretende organizar Santas Ceias para ateus, abrir um restaurante com o propósito de aproximar os descrentes. O restaurante é apenas parte de um projeto maior de Botton, um templo para ateus.
Ateus em um templo? Para adorar quem ? O próprio Botton?
Esse cara morre de vontade de virar pastor evangélico, ou de dar o rabo para um, morre de vontade de pagar um dízimo, de ser desencapetado, mas como é um intelectual, um filósofo, isso não faria bem para a sua imagem. Então, o cara se sai com essa farsa barata.
Sair por aí professando a doutrina do ateísmo, é fazer uma religião ao contrário. 
E eu estou fora de qualquer coisa relacionada à religião, mesmo que seja o seu oposto, que nada mais é, o oposto, do que uma imagem especular do objeto ao qual ele se contrapõe.
Ateu, sempre.
Ateísta, jamais.

A Cerveja Nossa De Cada Dia

Não são só os apreciadores do bom vinho, com grana para dar 80, 100 reais, ou mais, em reles 750 ml de líquido, é que podem ser frescos. Não são apenas os sommeliers viadinhos que podem impressionar a outros viadinhos com aquela conversa toda sobre bouquet, notas disso e aquilo, melhor comida para "harmozinar", temperatura ideal a se servir etc etc.
Você, pobre, fudido, tomador de Antarctica, Bavária, Cristal, Cintra, Sol, Belco, Glacial e outras, também pode tirar uma chinfra com uns míseros trocados. Você também pode encher o saco dos que o rodeiam - e que nada querem saber da bebida, só de beber - com detalhes sobre o dourado líquido e as formas mais sagradas de consumí-lo.
É o que garantem os Mestres-Cervejeiros da Antarctica, que dão, abaixo, informações de como melhor saborear a cervejinha nossa de cada dia.

01 - Uma latinha de cerveja tem exatamente a metade das calorias de um copo de suco de laranja (sem açúcar!)... Já aquela calabresa com cebola frita que sempre acompanha...
02 - Cerveja sai pronta da cervejaria: não pede, portanto, envelhecimento. Quanto mais jovem for consumida, melhor será seu sabor. Dura em média 90 dias.
03 - Deve ser guardada em pé, em lugar fresco e protegida do sol, para evitar oxidação prematura.
04 - Deve resfriar na geladeira sem pressa. "Não coloque no freezer, pois a violência no congelamento prejudica a bebida", afirma Cássio Picolo, um dos maiores experts de cerveja no Brasil.  
05 - Depois de gelada, deve ser consumida e jamais voltar à geladeira.
06 - A temperatura ideal para saborear as do tipo pilsen é entre 4 e 6 graus. Tomá-las "estupidamente geladas", como se diz, prejudica tanto a formação de espuma na cerveja, quanto "adormece" as papilas gustativas, comprometendo o sabor.
 07 - Copos e canecas pequenos e de cristal são os ideais, pois mantêm melhor a temperatura e a espuma. Evite canecas de alumínio, que, além de feias, tiram o prazer de apreciar o visual do líquido dourado.
08 - Resíduos de gordura no copo são fatais para a bebida: acabam com o colarinho e liberam o gás carbônico, deixando o líquido meio choco. Idem para resíduos de detergente.
 09 - "Tomar cerveja sem colarinho é uma heresia", ensina outro expert, Norberto D'Oliveira Neto. "Dois dedos de espuma são ideais para reter o aroma e evitar a liberação do gás carbônico."
 10 - A espuma cremosa revela a persistência e bom estado da cerveja. Para aproveitá-la melhor, sirva derramando uma dose. Depois, espere baixar o colarinho. Em seguida, incline o copo até 45 graus, despejando o líquido devagar enquanto o colarinho sobe.
 11 - Com 90% de água, a bebida é hidratante. E com apenas 3 a 5 graus de álcool, como as do tipo pilsen, a cerveja estimula o metabolismo, pelo menos quando ingerida moderadamente. Além disso, é rica em vitaminas, carboidratos, proteínas e aminoácidos. Apesar disso, não engorda;  é folclore associar o consumo de 80 calorias de um copo de 200 ml com a formação de barriga. Os acompanhamentos gordurosos é que engordam.

sábado, 17 de março de 2012

O Filhote De Peter Pan

Uma mãe, querendo mostrar a seu filho o valor da obediência aos ensinamentos dos pais, tomou como exemplo uma mãe bem-te-vi, que fizera o ninho no quintal de sua casa, e que estava a ensinar a arte do voo a seu filhote.
Sob a tutela da mãe, o filhote se lançava de seu ninho, batia suas descoordenadas asinhas quase implumes e fazia um pequeno voo desequilibrado, que era seguido de desastrado pouso.
Pacientemente, e quantas vezes fossem necessárias, a mãe bem-te-vi levava o filhote de volta ao ninho e o processo se repetia.
- Veja, meu filho - começou a mãe -, veja como o filhote obedece à sua mãe, veja como ele faz tudo o que ela manda sem reclamar ou chorar. Ele sabe que os pais não querem o mal dos filhos, que tudo que lhes ensinam e dizem é para o bem deles, os pais os preparam para a vida. Quando for adulto, o bem-te-vizinho só conseguirá sobreviver graças à sua mãe, que lhe ensinou a voar.
- Mãe... - pensa alto o menino.
- Diga, meu filho.
- Então, por que com a gente é o contrário ?
- Como assim, meu filho ?
- Por que vão nos desensinando a voar conforme crescemos ?