terça-feira, 17 de abril de 2012

Movido A Álcool

Com a crise do petróleo, em 1973, o mundo começou uma corrida desenfreada na busca de combustíveis alternativos em larga escala. E a solução não veio dos EUA, da Europa ou do Japão. Por incrível que pareça, o mais bem sucedido desses projetos nasceu no Brasil.
Em 14 de novembro de 1975, o governo do general Geisel criou o Pró-Álcool (ou Programa Nacional do Álcool) através do decreto nº 76.593.
Sim, o maior programa mundial de combustível alternativo ao petróleo tem tecnologia 100% nacional, e nasceu pelas mãos dos militares. Esse é mais um belo contraexemplo para calar a boca daqueles que dizem que os militares não investiam em pesquisa, em educação etc.
O Pró-Álcool fez desenvolver também outras tecnologias além da do etanol; a exemplos, a de motores, a de fertilizantes, a de polímeros, a do plástico biodegradável.
O Brasil produziu 600 milhões de litros de etanol entre 1975-76, e deu um salto para 3,4 bilhões de litros entre 1979-80. Os subsídios governamentais praticamente obrigavam os usineiros a produzirem o etanol combustível em detrimento do açúcar e do etanol, digamos assim, potável.
E foi esse cenário que causou um imenso assombro e preocupação em um de nossos maiores e mais emblemáticos músicos, Raul Seixas. Apavorado com a possibilidade de todo álcool ser destinado aos tanques dos automóveis, e nada sobrar para os bebuns, Raul compôs a pouco conhecida (injustamente) Movido A Álcool, de seu LP Por Quem Os Sinos Dobram (1979).
Na letra, Raul se declara confuso com a situação, pergunta : "Por que que o posto anda comprando tanta cana, Se o estoque do boteco, Já está pra terminar? "
E segue protestando, ironizando : "colocar cachaça em automóvel é a coisa mais estranha de que eu já ouvi falar"
Delírios paranoicos de um bebum? Não, nada disso, e sim visões, pré-visões, vaticínios de um autêntico profeta.
A preocupação de Raul frente a um possível racionamento da água que passarinho não bebe era estritamente artística. Lá na letra, ele diz : "veja o poeta inspirado em coca-cola, que poesia mais sem graça ele iria expressar".
É verdade!!! Ninguém escreve nada que preste tomando fanta uva ou chá de camomila.
Não que o álcool dê talento para alguém, de forma alguma. Se o cara nascer um asno, ele pode tomar um tonel de cachaça, só irá se tornar um asno bêbado. Se, no entanto, o sujeito possuir uma certa capacidade criadora, o álcool a potencializa, cataliza-a, torna-a mais patente, mais fluida, libera os poderes do sujeito.
O álcool é o SHAZAM do poeta.
De novo, pergunto, exagero do Raul? Não, definitivamente não.
O cérebro - o bom cérebro - realmente funciona mais rápido e se torna capaz de soluções mais criativas sob a influência de adequadas concentrações alcoólicas.
É o que constatou um estudo realizado na Universidade de Illinois, EUA. Os participantes do estudo foram divididos em dois grupos : metade deles foi alcoolizada até atingir a concentração de álcool no sangue de 0,075, que é acima do permitido para motoristas na maioria dos Estados norte-americanos; os demais - os azarados - continuaram sóbrios durante o estudo. 
Os dois grupos foram submetidos a testes de livre associação, uma forma simples, rápida e eficiente de avaliar a solução criativa para problemas propostos. Cada participante ainda teve que explicar como chegou na resposta correta, se por algum método de associação ou por mero lampejo espontâneo.
Entre os alcoolizados, o índice de acertos espontâneos atingiu os 58%, contra os 42% alcançados pelos sóbrios. Além do maior índice de acertos, os bebuns também apresentaram as respostas de forma mais rápida - uma média de 12 segundos, contra os 15 segundos dos caretas.
O álcool deixou os cérebros dos participantes mais rápidos e eficientes, o que sugere, segundo os pesquisadores, que o álcool pode, em determinados casos, contribuir para que as pessoas encontrem respostas mais rápidas e de forma mais criativa. Eu não diria de forma mais criativa, diria de forma mais inspirada.
Em suma : o cérebro é movido a álcool. Como já dizia Raul! Há mais de 30 anos, há dez mil anos atrás.
Raul Seixas, como bom poeta e profeta, antecipou-se à nossa claudicante ciência. O álcool nos deixa mais livres, mais imunes à nossa autocensura (muitas vezes inconsciente), põe um pouco mais de penas em nossas vestigiais asas.
E eu aqui, com ainda mais três dias de antibiótico pela frente, tomando minha cervejinha sem álcool, tentando invocar um improvável efeito placebo, cerveja sem álcool é mais sem graça do que dançar com a irmã.
A cerveja sem álcool é a kryptonita do poeta.
E toca Raul!!!!

Movido A Álcool
(Raul Seixas)
Diga, seu dotô as novidades
Já faz tempo que eu espero
Uma chamada do senhor
Eu gastei o pouco que eu tinha
Mas plantei aquela cana
Que o senhor me encomendou
Estou confuso e quero ouvir sua palavra
Sobre tanta coisa estranha acontecendo sem parar
Por que que o posto anda comprando tanta cana
Se o estoque do boteco
Já está pra terminar
Derramar cachaça em automóvel
É a coisa mais sem graça
De que eu já ouvi falar
Por que cortar assim nossa alegria
Já sabendo que o álcool também vai ter que acabar?
Veja, um poeta inspirado em Coca-Cola
Que poesia mais sem graça ele iria expressar?
É triste ver que tudo isso é real
Porque assim como os poetas
Todos temos que sonhar.
É triste ver que tudo isso é real
Porque assim como os poetas
Todos nós temos que sonhar

Fonte : BBC Brasil

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Que Fossa, Hein, Meu Chapa, Que Fossa...(7)

Atrás Da Porta
(Chico Buarque/Francis Hime)
Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei, eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
Nos teus pelos, teu pijama
Nos teus pés ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho.

Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua,

Só pra provar que ainda sou tua...

domingo, 15 de abril de 2012

Showzaço Imperdível !!!

Quem fotografou e me mandou foi meu amigão Keler Margá, de Mogi Mirim, maior figuraça, grande bichona.
O Margá me garantiu que vai, já comprou o ingresso antecipado, só para ver o "tripé dos teclados". Até me convidou para ir junto.
Declino, Margá. Fica pra próxima, depois você me conta.

O Verdadeiro Espírito Cristão

"O álcool pode ser o pior inimigo do homem,
mas a Bíblia diz para amar seu inimigo"
, Frank Sinatra.

Nem Cristo seria tão cristão.

Mário Gomes, A Volta Do Cenourinha (Ou : O Complexo De Spock)

Uma das lendas mais antigas e duradouras (e engraçadas) da TV brasileira surgiu em fins da década de 1970, começo da de 1980.
Mesmo quem nem sonhava em nascer naquela época, sabe dela. Ela vai passando de geração para geração. E se equivocará gravemente quem pensar que ela faz parte da tradição oral de um povo. Até porque não é o tipo de história que um pai conta ao filho, ou que um ancião narra às crianças em torno de uma fogueira, numa noite fria.
A propagação dessa lenda nunca dependeu da oralidade. Ela se dissemina pelo ar, pelo inconsciente coletivo, pelo campo morfogenético, por vetores além de nossa compreensão : é a lenda do Cenourinha.
O Cenourinha foi, em outros tempos, o homem que se chamou Mário Gomes. Há quase quarenta anos, ele era mais um desses atorzinhos de carinha bonita que surgem a cada nova novela, aquele garotão de praia, bronzeado, olhos claros, no auge de sua juventude, falando gíria, com cara de bobo, ou seja, o autêntico idiota que tanto sucesso faz entre os corações femininos.
O novo latin lover estava no ápice de sua carreira, e de sua fama de machão e mulherengo, quando uma notícia pôs a casa abaixo.
Carlos Imperial, compositor e produtor musical da Jovem Guarda, jornalista e colunista de revistas de fofocas, ligou para diversos órgãos de imprensa e informou que Mário Gomes dera entrada no hospital com uma cenoura entalada no cu.
A história foi crescendo, havia uma ala do hospital isolada secretamente apenas para atender ao ator, uma junta médica só para tirar a cenoura do toba do machão. Apareceu até uma enfermeira que teria atendido Mario Gomes em sua chegada ao hospital, surgiram testemunhas e conhecidos que afirmavam já ter visto Mário Gomes com uma cenoura.
A carreira de ator foi pro vinagre. Fez ainda vários papéis em novelas, mas nunca mais convenceu a ninguém de sua macheza e virilidade.
Mário Gomes saiu da vida artística; porém, entrou, para todo o sempre, para folclore nacional, morreu o homem, nasceu o mito, o Cenourinha.
Agora, quase quatro décadas depois, Mário Gomes vai lançar uma autobiografia, onde pretende esclarecer a lenda da cenoura de uma vez por todas.
Ele se diz vítima de um boato maldoso engendrado por Carlos Imperial e Daniel Filho, um dos diretores globais de maior influência na emissora até os dias de hoje.
Mário Gomes teria corneado Daniel Filho quando passou a vara em Betty Faria, mulher do diretor à época. Além disso, Mário Gomes estava estrelando um filme dirigido por Carlos Imperial, não gostou do cartaz de divulgação da fita e obteve o embargo do filme na justiça, o que causou um grande prejuízo ao diretor. Os dois "traídos" se uniram e dispararam a história da cenoura contra o ator.
Inventaram ou apenas revelaram? E o cara só vem falar isso agora? Trinta e tantos anos depois? Eu acho que Mário Gomes está querendo é reavivar a lenda, que lhe deu muito mais notoriedade do que o seu suposto talento e do que as novelinhas sem vergonhas que fazia.
Quanto mais o ocorrido se distancia no tempo, mais o fato perde seus traços de verdade e adquire as feições de lenda. Hoje, quem fica sabendo da história, e não era vivo na época, toma-a apenas como isso, uma lenda, nem suspeitam de quem seja o homem que lhe deu origem.
Sob o pretexto de limpar sua imagem e tentar ganhar uma indenização no valor de R$ 40 milhões, Mário Gomes volta à cena e revela quem é o homem por trás do mito do Cenourinha às novas gerações. Para os novos, só havia o Cenourinha, o personagem mítico, agora saberão do homem. Se fudeu. Ou não.
Isso me lembra muito (com exceção da viadagem, claro) a história do ator estadunidense Leonard Nimoy, o eterno Sr. Spock da série original de Star Trek.
Com o fim da série, Nimoy começou a culpar o personagem Spock (como o Mário Gomez culpa a cenoura) por não conseguir outros papéis, fossem no cinema ou na TV. O orelhudo vulcano o havia marcado para sempre, estigmatizado-o.
Nimoy chegou a lançar um livro, Eu Não Sou Spock, no qual desabafava sobre a ruína de sua carreira causada por Spock, dizia que não era Spock, que era um ator, uma pessoa independente do personagem que lhe dera fama mundial, com sentimentos, com necessidades, e outras chorumelas e lenga-lengas.
Não foi Spock quem impediu o prosseguimento da carreira de Nimoy. Nimoy, assim como toda a tripulação da USS Enterprise, sempre foi um péssimo ator, um tremendo dum canastrão. Se ele não tivesse sido Spock, nada teria sido. Spock tornou Nimoy em algo. Não o contrário.
Anos depois, mais maduro e apercebido de sua injustiça contra o vulcano Spock, Leonard Nimoy lançou outro livro : Eu Sou Spock. E daí em diante, assumida sua metade vulcana, Nimoy passou a ganhar a vida dando palestras e participando de convenções de fanáticos pela série Star Trek, viaja pelos EUA e por outros países envergando a farda da Frota da Federação dos Planetas Unidos e as indefectíveis orelhas pontudas.
Mário Gomes vai lançar sua autobiografia, que bem podia ter como subtítulo, Eu Não Sou o Cenourinha. Será um fracasso, ninguém acreditará que ele não é o Cenourinha, como não acreditaram que Nimoy não era o Spock.
A imagem de um galã com um cenoura enfiada no cu é forte demais para ser esquecida, ou desmentida. Todo mundo sempre olhará para Mário Gomes e o verá com uma cenoura no rabo; como sempre olhamos para Nimoy e o vemos com suas orelhas de elfo interplanetário.
Não se espantem se, dentro de alguns anos, Mário Gomes lançar a segunda parte de sua biografia : Eu Sou o Cenourinha.
Porque o que importa é aparecer, é não sair da mídia.
Pouco me importa se a história da cenoura é verídica ou não. Ninguém tem que ser fiscal de cu de ninguém. Mas vejam a foto abaixo, de Mário Gomes em sua juventude. Se esse cara nunca sentou numa cenoura, ninguém mais sentou.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Descrucificar

Não há foto, estátua, gravura
 - ou qualquer representação - 
De Darwin nas paredes ou nos altares de uma igreja. 
Nem de Mendel, Mendeleiev, Lavoisier. 
Tampouco de Newton, Celsius, Paracelsus, Pasteur, Pascal. 
Nenhum Albert, seja o Einstein, seja o Sabin. 
Nem Fleming, Flamel ou Faraday.

Por pura coerência,
Até por justa simetria,
Cristo não tem nada o que fazer
Pelas paredes e corredores de uma escola,
Pendurado, de tanga, e sangrando,
Exalando culpa, vingança e castração :
Crucificado em corpo,
Crucificando mentes e voos.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Clodovil Vai A Leilão

Clodovil Hernandez, estilista de renome internacional, artista plástico, homem de TV e teatro, e - porque todo mundo tem seus pecados - deputado federal.
Um polêmico por excelência. Como só os inteligentes podem ser. Suas declarações incomodavam justamente por serem recheadas de lógica, quase que irrefutáveis. Foi um dos apresentadores mais processados da história da TV. Porque no Brasil é assim : contra o argumento e a inteligência, o processo por danos morais.
Teve seu auge entre fins da década de 1970 e meados da de 1980. Vestiu grandes estrelas da nossa música, quando estrelas existiam. Elis Regina e Maria Bethânia o tinham como um de seus preferidos. Vestir essas cantoras era o equivalente a ser um compositor e ter uma canção gravada por elas. Pode-se dizer que Clodovil foi uma espécie de Chico Buarque, de Belchior, de Milton Nascimento da moda.
Sempre gostei de ouvir suas controversas entrevistas. Era farpa para tudo quanto é lado. Tudo com os mais finos sarcasmo, ironia e deboche. Clodovil era engraçadíssimo, como só os inteligentes podem ser.
Em uma entrevista, mostrou um livro que estava preparando. Era um tratado das diversas espécies de orquídeas nativas da região onde ele morava, Ubatuba, litoral paulista. Os desenhos, em aquarela, eram daqueles que conseguem ser mais realistas do que o objeto que representam, se é que isso é possível. Os desenhos de Clodovil revelavam detalhes e particularidades de cada espécie que, talvez, nem fotos conseguissem alcançar.
Clodovil foi um esteta, no sentido mais amplo da palavra.
Se sempre gostei do Clodovil por seu talento artístico e por suas declarações cáusticas, foi em uma outra entrevista que ele angariou minha admiração completa, a admiração, também, por seu caráter, lucidez e integridade. Talentos artísticos como o dele são raríssimos; grandes caráteres, então, são altamente improváveis nos dias correntes.
Clodovil respondeu ao repórter, um desses idiotazinhos quaisquer que andam por aí, que ele, Clodovil, não era homossexual. Nem homossexual nem heterossexual nem coisa sexual nenhuma. Ele, Clodovil, era o que o seu cartão de visitas trazia impresso : Clodovil Hernandez, estilista.
Perfeito. Incontestável. Maiores retidão e lisura são impossíveis. Ele era o seu talento e sua arte, não o seu sexo ou orientação sexual. Honestíssimo.
Muito diferente dessa viadada de hoje, que quer se impor simplesmente porque nasceu gostando de dar a bunda, e não pelo talento e capacidade. Viado virou item de currículo. É a primeira informação que o cara fornece : sou viado. Como se isso lhe conferisse, automaticamente, alguma genialidade. A genialidade vem do cérebro, não vem do cu.
Clodovil, inclusive, não se envolvia com esses movimentos de conquistas gays, disse várias vezes que considerava a Parada Gay uma manifestação de mau gosto e ofensiva à família. Que existem maneiras muito mais educadas e honestas de lutar pelos seus direitos. Existem, sim : para quem tem inteligência, para quem não, o negócio é mostrar o cu.
Clodovil era o que se podia chamar de uma bichona de respeito.
Morreu em 2009, vítima de um AVC. Morreu, mas deixou propriedades e empregados que ainda geram altas despesas, em torno de R$ 10 mil por mês, segundo sua advogada. Há despesas, mas não há mais receita, explica a advogada responsável por seu espólio.
Como maneira de saldar as dívidas do estilista, a advogada organizou um leilão com objetos pessoais de Clodovil. O leilão tem data marcada para hoje, 12/04, e conta com quase 160 peças.
São joias com as iniciais de Clodovil, pratarias, um piano, quadros, uma gravata borboleta em ouro e cravejada de brilhantes, esculturas em bronze - a mais famosa delas é uma cobra naja, que ele chamava carinhosamente de Martha, em referência à Martha Suplicy, um de seus desafetos.
Porém, a peça mais cobiçada pelos colecionadores de Clodovil não está entre as supracitadas. Nem é sabido se ela estará entre os itens leiloados, menos informações ainda se têm do preço inicial que será pedido, caso ela esteja.
A peça que vem causando tanta cobiça e expectativa é um lustre. Feito sob encomenda para Clodovil, todo em cristal.
A ambicionada peça, reza a lenda, foi desenhada por Clodovil e confeccionada pela estilista mato-grossense Chiquita Folharal, responsável pelos ornamentos do caixão de Clóvis Bornay; o lustre teria custado a bagatela de R$ 300 mil reais, fora o valor "sentimental", por assim dizer.
Abaixo, a foto do lustre. Porque, no fim das contas, bicha é bicha. Perigooosa!!!!!

terça-feira, 10 de abril de 2012

É Proibido Peidar Em La Toba

Todo mundo sabe do alívio que é satisfazer uma necessidade fisiológica básica, ainda mais quando ela se faz urgente, seja fome, sede, vontade de urinar. 
Tomar um copo d'água bem gelado num dia de 40ºC à sombra ou chegar ao banheiro e esvaziar a bexigão prestes a estourar são prazeres muito próximos ao sexual, até o ultrapassando em certos casos.
Desses necessários alívios fisiológicos, poucos são tão mal entendidos, tão rebaixados à mera escatologia e tão vilipendiados quanto o flato, o popular peido, carinhosamente chamado de pum pelas criancinhas - que peidam tão fedido quanto qualquer adulto.
Quando pequenos, sofremos as sanções e as punições da mãe, das tias e das avós - em casa de avó, tudo pode, mas nem o peido é bem visto pelos olhos progenitores. 
Maiorzinhos, na escola, a professora é a vigilante da bufa, peidar na sala de aula já foi motivo de muito aluno ser posto para fora.
O cara cresce, e peidar perto da namorada é quase certeza de fim de namoro, certeza de mais uma longa temporada "morrendo" na punheta.
Note que toda censura ao natural - e necessário - flato parte de figuras femininas. Parece até que elas não peidam. Parece mesmo. Mulher peida menos.
Dizem os imbecis comportamentalistas que a mulher é ensinada, desde cedo, a reprimir suas necessidades, a considerar feio tudo o que é de seu corpo, sejam cheiros, secreções ou desejos; assim, elas são muito mais hábeis em segurar seus gases. Você pode passar uma vida inteira ao lado de uma mulher e nunca pegá-la em um flagrante (e fragrante) peido.
Talvez até haja um fundo de verdade nessa baboseira comportamentalista, uns 0,01%. O fato é que o metabolismo do homem é diferente do da mulher.
Somos máquinas que processamos o alimento e o convertemos em energia de maneira muito mais rápida e eficiente do que as mulheres. Somos verdadeiros biodigestores. E precisamos ser assim. Não fôssemos, e nenhum de nós estaria por aqui hoje.
Não éramos nós, homens, em nossa época mais peluda, quem caçávamos, guerreávamos e lutávamos contra as feras na proteção de nossos clãs?
Pois é. Muita energia é necessária para isso. Muito alimento sendo rapidamente digerido, fermentado, transformado em puro poder muscular e...liberando gases, claro.
Nos dias de hoje, o homem, o macho da espécie, só passa a exercer sua merecida livre flatulência quando vai morar sozinho, é um dos grandes prazeres de. 
Numa escala de zero a dez de liberdade, o grau dez só é alcançado pelo cara que pode andar pelado e peidar alto. É a alforria plena.
Mas aí o cara se casa e a esposa passa a exercer o poder moderador sobre as ventosidades dele. A maior liberdade que se perde com o casamento nem é não mais sair com os amigos etc : é não poder mais peidar em paz. 
Tem muito cara que dá a desculpa de que vai beber com os amigos só para poder peidar um pouco em paz, na rua. No que a mulher responde : "Beber com os amigos? Pensa que me engana, é? Você quer é sair peidando por aí. Não vai sair coisa nenhuma. Tá pensando que ainda é solteiro, é?
Agora, toda uma cidade está prestes a perder o direito de peidar em espaço público.
O prefeito da cidade espanhola de La Toba, na província de Guadalajara, assinou uma lei que proíbe os moradores de peidarem em ambientes públicos - ruas, praças, escolas, hospitais e outros logradouros -, a proibição é extensiva a mastigar de boca aberta, cuspir no chão, tossir sem pôr a mão na frente.
Segundo o prefeito, a medida quer coibir toda e qualquer manifestação de comportamento não civilizado de seus concidadãos.
Os trangressores não serão presos nem terão que pagar multas, apenas receberão "uma reprimenda pública em nome da moral e da ordem cívica".
Como é que vai ser isso? O cara vai ser levado à Câmara da cidade, levará um "pito" e será exposto ao riso público? E se alguém da plateia soltar um peido na hora?
E o peidador reincidente, aquele que não for mais réu primário? Vai se tornar inelegível? Não poderá prestar concursos públicos?
Depois, como é que vão provar que foi o tal sujeito que peidou? Como vão descobrir, num espaço público, o autor da bufa? Será que vão olhar quem está com as palmas das mãos amarelas?
E o nome da cidade? La Toba. 
É justamente isso o que um bom toba faz, caga e peida - alguns até agasalham uns croquetes. Não tem como proibir La Toba de peidar, só se costurar La Toba.
O prefeito Julian Atienza quer costurar La Toba. Só pode ser sacanagem.

LATINS


Hoje preciso de outra boca.
Enchi-me do meu hálito,
Da minha saliva que não se mistura,
Do meu monólogo, da falta de respostas.
Hoje preciso de outras falas
Exauri-me do deserto em meus tímpanos,
Da microfonia, do vácuo em meus pavilhões,
Da falta de controvérsias.

Hoje preciso de outra língua
Enfastiei-me das minhas sempre mesmas rimas,
Mesmas verbais esgrimas,
Mesmos períodos, mesmos pontos e ações,
Mesmas pontuações.

Quero outras bossas, outras glossas,
Outra língua a enroscar-se na minha
Em impronunciáveis neologismos.

sábado, 7 de abril de 2012

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Rodeio De Cotia (SP) : O Dia Do Touro

Conta-se a história de um turista, em viagem pela Espanha, que, sem conhecer a culinária local, deixou a cargo do garçon a escolha do prato que lhe serviria de almoço, desde que fosse um prato típico da região.
O garçon voltou e pôs um prato contendo duas estruturas esféricas à frente do turista, grelhadas, recendendo a alho, pimenta-do-reino, salsa e alcecrim, branco-acinzentadas, do tamanho próximo de duas maçãs grandes; em volta, o prato era enfeitado com umas folhinhas de rúcula e outros balangandãs, desses de restaraurante chique.
O turista provou, a textura lembrou-lhe moela, o gosto, talvez de algum peixe, mas não teve certeza, gostou, aprovou a iguaria.
Na hora de pagar a conta, agradeceu ao garçon pela sugestão e perguntou o que era. Ficou sabendo que eram testículos de touro, marinados. 
O garçon seguiu explicando que, ao fim de cada tourada, os touros mortos não eram simplesmente descartados, tudo se aproveitava deles, a carne era doada para creches e instituições de caridade, o couro era transformado nos mais diversos artefatos, os ossos viravam geleia de mocoto e farinha, e os testículos eram utilizados naquele prato típico que ele havia acabado de comer.
Passados alguns dias, o turista voltou ao mesmo restaurante e pediu o mesmo prato ao mesmo garçon. Recebeu o prato com os mesmos enfeites e guarnições; porém, dessa vez, os outrora testículos com o tamanho de maçãs estavam reduzidos às dimensões de pequenas azeitonas.
Chamou o garçon e, um tanto enraivecido, denunciou a fraude; com certeza, estavam a ludibriá-lo.
O garçon retomou a história das touradas e, constrito, esclareceu (já traduzido do espanhol por cortesia do Azarão) : "Senhor, acontece que não é sempre que o toureiro vence."
Foi o que aconteceu, semana passada, num rodeio em Cotia, município da grande São Paulo.
O peão fulano-de-tal, 27 anos, foi pisoteado pelo touro que montava, que maltratava, do qual apertava o saco, para o bicho pular e propiciar um espetáculo a uma plateia de dementes.
A vingança do touro aconteceu no sábado (31/03) e o peão veio a falecer ontem, na UTI do Hospital Geral de Cotia. 
Os médicos atestaram a morte cerebral do peão durante a madrugada. Morte cerebral? Então o porra desse peão já tava morto fazia tempo. Ele e todos os outros que torturam esses animais, não sem antes rezar para Nossa Senhora Aparecida, sua santa padroeira, de onde se vê que a santa, boa coisa também não é.
Eu acho é bom quando isso acontece. Tinha que acontecer muito mais. Deveriam morrer, pelo menos, uns dois ou três idiotas a cada um desses rodeios.
A tal Sociedade Protetora dos Animais tanto fez que conseguiu a proibição do uso de animais nos circos; no que fez muito bem. Por que não bate pesado também em cima dessas merdas de rodeio? No circo, apenas palhaços, malabaristas, engolidores de fogo e outros animais da espécie humana se expõem ao ridículo. 
Será que o poderio econômico dos rodeios anula as ações da Sociedade Protetora dos Animais junto aos políticos e juízes, comprando-os? Ou será que também compra pessoas ligadas à própria SPA, que fazem vistas grossas a esses eventos?
A hedionda farra do boi, em Santa Catarina, por exemplo, foi proibida. Era um ritual onde vários bois eram torturados - incendiados com gasolina, inclusive - até a morte, a farra acontecia nas proximidades da Semana Santa e diziam que era uma alusão à Paixão de Cristo. 
Que o Cristo tenha levado chicotadas até a morte, vá lá, ele bem que mereceu. Mas o que o boi tem a ver com isso? 
Não vejo muita diferença entre a farra do boi e os rodeios. Por que não criticá-los, como atos bárbaros que são, e também proibí-los? Por que, inclusive, promovê-los e divulgá-los como eventos salutares, parte da cultura popular?
São ambientes extremamente perniciosos, os rodeios. Há neles : maus tratos a animais, incitação ao alcoolismo e à prostituição, são focos de disseminação de doenças sexualmente transmíssiveis (alguns pequenos municípios que sediam esses eventos apresentam um índice de AIDS proporcional aos dos grandes centros) e promovem, ainda mais, a popularização do Michel Teló.
A polícia estuda a possível abertura de um inquérito para apuração dos fatos.
Apurar o quê? Vão acusar o touro de homicídio culposo ou doloso? Será que o touro matou por acidente ou premeditou a morte do idiota que o molestava?
Espero que o touro esteja passando bem, que não tenha saído machucado. 
Não duvido nada que os outros peões se reúnam em vingança e, em nome de Nossa Senhora Aparecida, sacrifiquem o touro justiceiro, acabem com a raça do El Vingador. 
Valeu, El Vingador. Hoje, em sua honra, bagos humanos serão servidos em todos os restaurantes bascos.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Que Fossa, Hein, Meu Chapa, Que Fossa...(6)

Apelo
(Vinícius de Moraes)
Ah, meu amor não vás embora
Vê a vida como chora, vê que triste esta canção
Não, eu te peço, não te ausentes
Pois a dor que agora sentes, só se esquece no perdão
Ah, minha amada me perdoa
Pois embora ainda te doa a tristeza que causei
Eu te suplico não destruas tantas coisas que são tuas
Por um mal que eu já paguei

Ah, minha amada, se soubesses
Da tristeza que há nas preces
Que a chorar te faço eu
Se tu soubesses num momento todo arrependimento
Como tudo entristeceu
Se tu soubesses como é triste
Perceber que tu partiste
Sem sequer dizer adeus

Ah, meu amor tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus

(falado por Vinícius de Moraes)

De repente do riso fez-se o pranto,
silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento,
Que dos olhos desfez a última chama,
E da paixão fez-se o pressentimento,
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente não mais que de repente,
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo, o distante,
Fez-se da vida uma aventura errante,
De repente não mais que de repente.

(novamente no ritmo da música)

Ah, meu amor tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus.

Ah, meu amor tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Eu Sou Um Monge Shaolin

Somos bichos, que fugimos da Mãe Natureza, que rejeitamos seu exigente e austero colo e refestelamo-nos nas tetas e no entreperna permissivos de nossas civilizações, de nossas artificialidades.
Como justa punição, perdemos tudo o que nossa espécie levou milhares de anos para aprimorar e incorporar ao patrimônio genético, perdemos - e a cada dia mais - nossas diretrizes básicas, nossos instintos de sobrevivência.
Um reles vira-lata sarnento é muito mais rápido, feroz, ágil e apto a lutar do que a grande maioria de nós; até a sarna do vira-lata é mais apta.
Sabendo disso (ainda que inconscientemente), alguns tentam um retorno à casa abandonada, voltam-se para a natureza, a contemplá-la, a observarem em reverência seus outros animais e seus elementos, o vento, a água, o fogo, na tentativa de resgatar o conhecimento perdido, os instintos fundamentais, a têmpera da espécie por excelência.
O exemplo mais bem acabado que conheço disso são os monges Shaolin. Eles desenvolveram o milenar e lendário estilo Shaolin de kung fu, todo fundamentado no movimento de diversos animais.
O kung fu Shaolin é muito mais que uma simples técnica marcial, muito mais que meramente reproduzir os movimentos do tigre, da garça, da serpente, da águia ou do louva-a-deus (só para citar algumas de suas modalidades) para pôr o inimigo a nocaute, ou a correr.
Os mesmos exercícios de combate que mantêm o lutador Shaolin vivo em uma situação de emergência, permitem-lhe, em tempos de paz, ser uma pessoa equilibrada, centrada, de corpo e mente saudáveis e em sincronia. O kung fu Shaolin é luta, e é terapêutica.
Adepto que sou da filosofia Shaolin (ao menos em teoria), coloquei-a em prática ontem, num dos ambientes mais hostis do convívio humano : os supermercados.
Alguns dos espécimes mais perigosos e desprezíveis da extensa e variada fauna humana estão nos supermercados, pálidos e tristes simulacros de nossos campos de caça e de coleta ancestrais.
Desses, um dos mais odiosos é o sujeito que não guarda a menor distância da pessoa à sua frente na fila - seja na fila do caixa, na do açougue, na do hortifruti etc -, é o idiota que não sabe manter aquele espaço minimamente cortês, salutar e, diria até, heterossexual de quem o antecede na espera.
A fila anda um passo, o idiota anda dois, e, invariavelmente, abalroa o tornozelo de quem está à sua frente com o carrinho de compras.
Quando isso me acontece, costumo relevar a primeira pancada, finjo que não senti; na segunda, uso minha técnica da cara feia - que nem é uma técnica, uma vez que não foi aprendida nem desenvolvida, nasci com ela -, viro-me para o sujeito e o miro com um misto de raiva contida, enfado e desdém.
Estava, ontem, na fila do balcão de frios (já de saco cheio de tantas "duzentas" gramas disso, "quatrocentas" daquilo ) quando senti a primeira cutucada no tornozelo, ignorei-a, como de costume. Mais uma andada da fila e veio a segunda.
Virei o rosto, já pronto a encarar a pessoa, de cima para baixo, do alto dos meus 1,82m de estatura. Dei de cara, contudo, com um pescoço, uma traqueia, um pomo-de-adão, a cara do indivíduo estava ainda a uns bons centímetros acima, era um gigante, usava uma camisa do São Paulo Futebol Clube, era um viadão dos bitelos, praticamente um alce. 
Recuei, a técnica da cara feia seria de uma inocuidade patética.
Logo - eu sabia - viria a terceira pancada, a quarta, e muitas outras subsequentes, a fila estava grande. Algo precisava ser feito - eu precisava fazer - para evitar a humilhação silenciosa.
Todas as técnicas Shaolin me passaram pela cabeça, o zoológico marcial completo. Nenhuma conhecida seria de alguma eficiência frente ao grandão, que visivelmente dominava a máxima técnica Shaolin, o estilo rinoceronte rex.
Respirei fundo, concentrei-me, interiorizei-me, alinhei meus chacras. Contraí levemente a musculatura do baixo abdômen, região dos intestinos, e, auxiliado pelo almoço farto em feijão com pimenta comari, soltei um discreto peido, uma bufa.
Daqueles peidos silenciosos, quentes e densos. Daqueles que vão subindo lentamente pelo ar e, a uma certa altura, expandem-se e descem sobre as azaradas cabeças ao seu redor, feito um cogumelo atômico.
O efeito foi imediato. Em poucos segundos, o grandalhão se afastou. Recuou não um passo, mas três, pisou no pé de quem estava atrás dele, e não mais se aproximou. Esperei minha vez em total segurança daí para frente.
Eu havia inaugurado uma nova modalidade do kung fu Shaolin, o estilo do gambá. Declaro-me, desde já, o fundador do estilo Shaolin do gambá, e também o seu Mestre Zen Supremo. 
Os que vierem depois de mim, os que me seguirem, os que fizerem do meu estilo a sua doutrina filosófica de vida, serão meros peidorreiros.
Saí do supermercado e caminhei tranquilo e vingado de volta à casa, sereno como um monge tibetano. Jamais havia me sentido tão integrado à natureza e ao Cosmos como então.
Impávido como Muhammad Ali, tranquilo e infalível como Bruce Lee.

Só O Homem Feio É Feliz - Xico Sá

Vejo aqui na capa do UOL uma solene pergunta: “É possível ser feliz mesmo se achando feio?”
Cuma assim?, tiro onda com a Gal, a cachorra da linda vizinha que me sorri latindo.
Ora, só é possível ser feliz –se é que a felicidade é coisa terrena- sendo feio.
Todo galã é triste.
Toda deusa é moralmente atordoada e maluca.
Só sei que esta indagação sobre estética e felicidade mexeu comigo. Sempre em defesa dos feios, sujos e malvados, saquei de novo o meu panfleto a favor da categoria.
Dez coisas que um homem feioso deve saber para tirar mais proveito da vida, essa ingrata:
I) Que a beleza é passageira e a feiúra é para sempre, como repetia o mal-diagramado Sérge Gainsbourg –o francês que só pegava mulher fraca, como a Brigitte Bardot e a Jane Birkin, entre outros colossos. Sim, aquele mesmo francês cabra-safado autor do maior hino de motel de todos os tempos, “Je t´aime moi non plus”, claro.
II) Que as mulheres, ao contrário da maioria dos homens, são demasiadamente generosas. E não me venha com aquela conversinha miolo-de-pote de que as crias das nossas costelas são interesseiras. Corta essa, meu rapaz. Se assim procedessem, os feios, sujos e lascados de pontes e viadutos não teriam as suas bondosas fêmeas nas ruas. Elas estão lá, bravas criaturas, perdendo em fidelidade apenas para os destemidos vira-latas.
III) Que o feio, o mal-assombro propriamente dito, saiba também e repita um velho mantra deste cronista de costumes: homem que é homem não sabe sequer a diferença entre estria e celulite.
IV) Que mulher linda até gay deseja e encara, quero ver é pegar indiscriminadamente toda e qualquer assombração e visagem que aparecer pela frente.
V) Que homem que é homem não trabalha com senso estético. Ponto. Que não sabe e nunca procurou saber sequer que existe tal aparato “avaliatório’’do glorioso sexo oposto.
VI) Que as ditas “feias” decoram o Kama Sutra logo no jardim da infância.
VII)  Que para cada mulher mal-diagramada que pegamos, Deus nos manda duas divas logo depois do enlace.
VIII)  Que mulher é metonímia, parte pelo todo, até na mais assombrosa das criaturas existe uma covinha, uma saboneteira, uma omoplata, um cotovelo, um detalhe que encanta deveras.
IX) Que me desculpem as muito lindas, mas um quê de feiúra é fundamental, empresta à fêmea uma humildade franciscana quase sempre traduzida em benfeitorias de primeira qualidade na alcova, como o melhor sexo oral do planeta, para não esticarmos demais a prosa.
X) Saiba, por derradeiro, irmão de feiúra, que a vida é boxe: um bonitão tenta ganhar uma mulher sempre por nocaute, a nossa luta é sempre por pontos, minando lentamente a resistência das donzelas.
Porque, meu bem, como diz o meu amigo Conde do Brega, ninguém é perfeito e a vida é assim.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A Ditadura Que Não Existiu

É um erro chamar de ditadura o período da história brasileira compreendido entre os anos de 1964 e 1985. Anos de chumbo, então, é piada, coisa de comunistazinho de diretório acadêmico da USP, de comunistazinho de merda que nem sabe o que é o comunismo, o socialismo, ou porcaria que o valha, de comunistazinho de boutique que deveria ir para Cuba, cortar cana e fazer faxina lavando o sangue do paredão de Fidel, ou ir passar umas férias num campo de trabalhos forçados na Sibéria.
Não houve ditadura no Brasil a partir de 1964, houve um período de governo militar. É muito diferente. Não houve um ditador no Brasil dessa época, houve sim uma sucessão de presidentes militares.
Ditadura e ditador há, por exemplo, repito, em Cuba, onde Fidel Castro se mantém há mais de 40 anos no poder.
Quem já viu uma ditadura em que o ditador é trocado a cada 5 anos ? Simplesmente não existe. Durante o regime militar, os presidentes eram trocados a cada 5 anos.
Quem já ouviu dizer de uma ditadura na qual fosse dado o direito de voto à população? De novo, não existe.
Sim, votava-se, no Brasil dos generais. Elegia-se de vereadores a senadores. Só não havia o voto direto para presidente, eleito, esse, através de um colegiado formado por representantes eleitos pelo povo.
Talvez a eleição indireta para presidente fosse o único fator que distinguisse o governo militar de uma democracia plena; no entanto, muito mais coisas o distanciava de uma autêntica ditadura.
Queiram ou não os intelectualóides da esquerda festiva, o governo militar estava mais próximo de uma democracia do que de uma ditadura, como a de Fidel Castro.
Se volto, insistentemente, ao exemplo de Fidel Castro e Cuba, é porque ele bem ilustra a burrice e a incoerência (ou será só hipocrisia mesmo?) da chamada esquerda brasileira : os mesmos vermelhoides que diziam lutar contra a opressão militar daqui e pela democracia, aplaudiam e reverenciavam a ditadura de lá, de Cuba, de Fidel. Aplaudem e reverenciam até hoje.
Ser contra uma ditadura e a favor de outra? Ditadura boa e ditadura ruim? Ditadura é ditadura, e ponto.
Acontece que para os esquerdinhas, ditadura ruim é quando os outros estão no poder, ditadura boa, quando eles estão.
A esquerda da época nunca lutou pela instalação da democracia. Isso é outro erro, outra distorção crassa de nossa história.
Os chamados grupos de resistência armada - dos quais são oriundos Dilma, José Dirceu, Fernando Gabeira, etc - não surgiram em resposta cívica ao regime militar. Na verdade, foi bem o oposto.
Esses grupos já existiam e se organizavam para tomar o poder pelas armas, pretendiam instalar por aqui a chamada "ditadura do proletariado", nos moldes da URSS, de Cuba e da China.
Em nenhum momento, nas cartas trocadas entre esses grupos de sequestradores e assaltantes de bancos, a palavra democracia é citada, e sim, sempre, a tomada do poder para a consolidação da ditadura do proletariado.
A ação militar é que veio em represália a esses baderneiros, em resposta à subversão. Dilma e seus camaradas não surgiram para se opor ao governo militar, o militarismo é que assumiu as rédeas do país para combatê-los, para impedir que transformassem o Brasil numa Cuba.
Ainda bem. Os tais comunismo e socialismo não funcionaram em lugar nenhum do mundo, e suas estruturas sempre permitiram  níveis de corrupção e impunidade muito maiores do que qualquer regime de direita. 
Não era apenas o voto indireto para presidente, havia também a censura política, tentariam ainda argumentar alguns vermelhos desbotados.
Perguntem aos jornalistas Boris Casoy e Joelmir Beting, entre outros, se não há censura política na democracia do PT.
E os mortos pelo regime militar?, insistiriam os "rosinhas" com suas foices e martelos nas mãos.
Querem mesmo contabilizar o número de mortes dos regimes de Stalin, Mao e Fidel e compará-lo ao do militarismo no Brasil?
Se não foi remédio dos mais tragáveis, o governo militar, com certeza, foi bem melhor do que a sovietização do país. Foi bem melhor que essa democracia de esquerda vigente. Vivi sob o regime militar até os meus 18 anos, e nunca conheci gente de bem que tivesse sido perseguida pelos militares, só os baderneiros, os bandidos; hoje, a situação é o inverso.
Com muitíssimo mais propriedade e com o conhecimento de causa de quem viveu o processo, o oficial Sérgio Sparta, coronel do exército brasileiro, escreveu um artigo deveras interessante para o jornal Zero Hora (RS), publicado ontem, 01/04/2012, aniversário de 48 anos da tomada do poder pelos militares.
Reproduzo o texto na postagem abaixo.

A Dita Dura Brasileira

No aniversário de 48 anos do golpe de 1964, que deu origem a uma ditadura que durou mais de 20 anos no país, o oficial Sergio Sparta escreve um artigo levantando questões sobre a necessidade da ação militar na época e sobre o que ele classifica como benefícios do regime implantado. 
A dita dura brasileira, por Sergio Sparta*
A esquerda é persistente em acusar o período de 1964 a 1985 de ditadura militar ou anos de chumbo. Será que foi? Que razões levaram os militares a assumir a direção da nação? São questionamentos que devem ser considerados, pois os fatos e principalmente os fatos políticos são reflexos do momento em que vivemos.
Era o período do marxismo-leninismo, a doutrina esquerdista “da moda” (que não deu certo em nenhum lugar do mundo), que não media consequências (promoveu o genocídio de mais de 100 milhões de pessoas, fora as prisões e trabalhos forçados) para conquistar e subordinar povos, à força, na intenção de internacionalizar a sua doutrina.
O Brasil, por suas características geográficas excepcionais, população considerável e fragilidade econômica e política, foi alvo da cobiça comunista/socialista. Aqui aportaram – na década de 1920 – e insuflaram pessoas a aderirem as suas ideias. Subvertendo a ordem ao desrespeitar os poderes constituídos e as autoridades e praticar o terrorismo (atentados, sequestros, roubos, assassinatos...) como ação inibidora, criavam as condições para a implantação da sua ideologia, que se resume na direção centralizada através de um partido único – o Partido Comunista – na restrição das liberdades individuais e no controle da economia, da imprensa e das mentes.
A situação em 64 tornou-se crítica. As Forças Armadas foram chamadas e, como sempre, não se omitiram. Assumiram o poder, sem confrontos ou mortes e respaldadas pelo poder civil, para impedir a assunção da nefasta esquerda e preservar, dentro das circunstâncias, a tranquilidade nacional.
O período dos presidentes militares foi um período de regime político forte, que procurou restabelecer com o mínimo de sacrifício as melhores condições para a conscientização da cidadania e a plena liberdade democrática, objetivos permanentemente antagonizados pela esquerda.
Ao mesmo tempo criou a infraestrutura necessária ao progresso, o qual alcançou com ordem – passamos de 46ª para oitava economia do mundo. Gerou condições de acesso a benefícios sociais, sem populismo. Rompeu acordos, fomentou e criou empresas de interesse nacional. Expandiu a soberania do mar territorial a 200 milhas. Implantou projetos como Itaipu, Tucuruí, Carajás, Transamazônica, Mobral, Embraer, Funrural, FGTS, INPS, PIS/Pasep, polos petroquímicos, Banco Central, BNH, Estatuto da Terra, Nuclebrás, Telebrás, Embratel, Metrôs, Ponte Rio-Niterói e promoveu a abertura política e a reconciliação.
E os “presidentes ditadores”? Ao término de seus mandatos, retiraram-se da vida política levando consigo apenas os bens que construí- ram ao longo da sua carreira profissional e a satisfação do dever cumprido. Verdadeiros cidadãos e estadistas.
Fonte : Zero Hora